14 de jun. de 2011

Spencer_Critica e Conclusão

O leitor inteligente terá percebido no decurso desta breve analise [*A analise é sem duvida incompleta. A estreiteza do espaço não permite a analise da Educação, dos Ensaios e de largas seções da Sociologia. A lição da Educação tem sido bem apreendida; mas nós reclamamos hoje algum corretivo à vitoriosa asserção de Spencer quanto ao primado da ciência sobre as artes e as letras. Dos ensaios os melhores são os sobre o estilo, o riso e a musica. O Herbert Spencer, de Hugh Helliot, constitui uma admirável exposição] certas dificuldades na argumentação, e apenas necessitará de breves indicações desses pontos fracos. A critica negativa é sempre desagradável, principalmente  tratando-se de uma grande obra; mas faz parte da nossa tarefa mencionar o que o Tempo corroeu na obra de Spencer.

1_ Primeiros Princípios
O primeiro obstáculo é sem duvida o incognoscível. Cordialmente admitimos as prováveis limitações do conhecimento humano; não poderemos talvez devassar o grande oceano da existência, no qual somos vaga passageira. Mas não podemos dogmatizar sobre o assunto deste que em rigorosa lógica a asserção de alguma coisa é  incognoscível já implica necessariamente algum conhecimento da coisa. Através dos seus dez volumes, Spencer mostra na realidade “um prodigioso conhecimento do incognoscível” [*Bowne: Kant e Spencer]. Com disse Hegel: limitar a razão com o raciocínio é querer nadar sem entrar na água. E toda esta lógica sobre a “inconcebilidade”, quanto nos parece remota agora, a proporção que os dias escolares se afastam! Uma maquina não guiada não é muito mais concebível que a Causa Primaria, particularmente se por esta ultima expressão significarmos a soma total de todas as causas e forças do universo. Spencer, que vivia em um mundo de maquinas, tomou o mecanismo como assente; do mesmo modo que Darwin em um mundo de feroz competição individual, viu unicamente a luta pela existência.

E que diremos da tremenda definição da evolução? Explicará alguma coisa? “Dizer, primeiro era o simples e dele evolveu o complexo”, e assim por diante, não é explicar a natureza [*Richte: Darwin e Hegel, pág.60]. Spencer remenda, diz Bérgson, não explica [*Criação Evolutiva, pág.64]; esquece, como mais tarde percebeu, o elemento vital do mundo. Os críticos ficaram evidentemente irritados com a definição; seu inglês alatinado é especificamente chocante em um homem que denunciou o estudo do latim e definiu o bom estilo como o que requer o menor esforço para a compreensão. Algo lhe deve ser concedido, entretanto; não há duvida que se decidiu a sacrificar a clareza imediata a necessidade de concentrar em poucas palavras a lei de toda a existência. Mas apaixonou-se pela sua definição; rola-a na língua como um bombom saboroso e joga com ela interminavelmente. O ponto fraco da definição jaz na suposta “instabilidade do homogêneo”. É um todo composto de partes simples mais instável, mais sujeito a mudanças do que o todo composto de partes dissimilares. O heterogêneo, como mais complexo, pode presumivelmente ser mais instável que o homogeneamente simples. Na etnologia e na política é admitido que a heterogeneidade traz instabilidade e que a fusão de imigrantes num tipo nacional fortalece a sociedade. Gabriel Tarde pensa que a civilização resulta de um aumento de similaridade entre os membros de um grupo através de longos períodos de mutua imitação; aqui o movimento da evolução é concebido como progresso para a homogeneidade. A arquitetura gótica é certamente mais complexa do que a dos gregos, mas não é necessariamente um mais alto estágio de evolução artística. Spencer foi precipitado em admitir que o que era mais velho no tempo era mais simples na estrutura; avaliou em pouco a complexidade do protoplasma e a inteligência do homem primitivo [*Boas: The MInd of Primitive Man]. Finalmente, a definição deixa de incluir o que está hoje inalienavelmente associado com a idéia de evolução – a seleção natural. Talvez que [por imperfeita que possa ser esta noção] o conceito da historia como luta pela existência e sobrevivência dos mais aptos – dos organismos mais aptos, das mais aptas idéias, línguas e filosofias – fosse mais esclarecedor do que a formula de coerência e incoerência, de homo e heterogeneidade, de dissipação e integração.

“Sou um mau observador da humanidade concreta”, disse Spencer, “em vista de muito dado a contemplação do abstrato” [*Autobiografhy]. Está aqui uma perigosa honestidade. O método de Spencer era sem duvida muito dedutivo e aprioristico, diferindo muito do ideal de Bacon ou do processo atual do pensamento cientifico. Tinha, declara seu secretário, “uma inexaurível faculdade de desenvolver argumentos ‘a priori’ e ‘a posteriori’, indutivos e dedutivos, em suporte de todas as proposições imagináveis [*Royce]; e os argumentos ‘a priori’ gozavam de preferência. Spencer começou como um cientista, pela observação; continuou, como um cientista, a fazer hipótese; desse ponto em diante, já não como um cientista, passou a uma seletiva acumulação de dados favoráveis as teses em causa. Os fatos desfavoráveis eram postos de parte. Isto contrasta com o procedimento de Darwin, que, quando defrontado por um fato desfavorável a sua teoria, se apressava em anotá-lo, sabendo que corria o risco de escapar da sua memória muito mais depressa do que um favorável.

2_Biologia e Psicologia
Em uma nota ao seu ensaio sobre o progresso Spencer candidamente confessa que suas idéias sobre a evolução eram baseadas na teoria de Lamarck sobre a transmissibilidade dos caracteres adquiridos e não constituíam uma antecipação de Darwin, cuja idéia central era a seleção natural. Spencer é antes o filosofo do lamarckeanismo que do darwinismo. Ele já estava com quase quarenta anos quando a Origem das Espécies apareceu; e aos quarenta anos o cérebro de um homem já se mostra cristalizado.

Ao lado das dificuldades menores [como reconciliar o principio de que a reprodução decresce a medida que o desenvolvimento avança, como fato do índice de procriação na civilização da Europa ser maior que o dos povos selvagens], o grande defeito da sua teoria biológica reside na excessiva confiança em Lamarck e na sua incapacidade de encontrar uma concepção dinâmica da vida. Quando confessa que a vida “não pode ser concebida em termos fisicoquimicos”, a “admissão torna-se fatal para a sua definição de vida e para a coerência da Filosofia Sintética” [*J.A.Thomson: Herbert Spencer]. O segredo da vida podia ter sido melhormente procurado no poder do espírito para ajustar relações internas e externas do que no quase passivo ajustamento do organismo ao meio envolvente. De acordo com as premissas de Spencer, a adaptação perfeita significaria morte.

Os volumes sobre psicologia mais formulam do que informam. O que já sabíamos é redito em uma terminologia extremamente complexa, que obscurece em vez de esclarecer. O leitor fatiga-se com formulas, definições e questionáveis reduções de fatos psicológicos e estruturas neurais. É verdade que Spencer procura cobrir este abismo do  seu sistema de pensamento argüindo que o espírito é o acompanhamento subjetivo do processo nervoso evoluído de qualquer maneira, mecanicamente, a partir da nebula inicial; mas por que motivo seria este acompanhamento subjetivo adicionado ao sistema neural, não o diz – e aí reside o ponto capital de toda a psicologia.

3_Sociologia e Ética
Magnífica como é sua Sociologia, aquelas 2.000 paginas, entretanto, oferecem muitos pontos vulneráveis. Circula-lhe através da pressuposição de que evolução e progresso são sinônimos e portanto a evolução pode dar ao inseto e a bactéria a vitória final na incansável luta que sustentam com o homem. Não é perfeitamente evidente que o estado industrial seja mais pacifico e mais moral que o feudalismo “militante” que o precede. Atenas viu suas mais destruidoras guerras depois que os senhores feudais cederam o poder a burguesia comercial; e os países da moderna Europa parecem fazer a guerra com perfeita indiferença quanto ao serem industriais ou não. O imperialismo industrial pode ser tão militarista como as dinastias. O mais militarista estado moderno era um dos principais paises industriais do mundo. Ademais, o rápido desenvolvimento industrial da Alemanha parece ter sido ajudado, antes que embaraçado, pelo controle do estado sobre certas fases do transporte e do comercio. O socialismo é obviamente um desenvolvimento do individualismo e não do militarismo. Spencer escreveu em um tempo em que o relativo isolamento da Inglaterra a fez pacifica [na Europa] e quando a sua supremacia no comércio e na industrial a fazia uma firme devota do livre cambio; Spencer ter-se-ia decepcionado se ainda vivesse e visse com que rapidez essa teoria comercial desaparece com a perda da supremacia comercial e industrial, e como o pacifismo desapareceu logo que a invasão da Bélgica pelos alemães ameaçou o isolamento inglês. Spencer exagerou as virtudes do regime industrial; permaneceu quase cego ante a brutal exploração que florescia na Inglaterra antes que o estado interferisse para mitigá-la; tudo quanto ele via “nos meados do século e especialmente na Inglaterra” era “um grau de liberdade individual como nunca se observara antes” [*The Study of Sociology]. Não admira pois que Nietzsche, desgostado do industrialismo, reagisse, a seu turno e exagerasse as virtudes da vida militar [*The Joyful Wisdom].

A analogia do organismo social teria lançado Spencer no estado socialista se sua lógica fosse mais forte que os seus sentimentos; porque o socialismo do estado representa em mais alto grau que o laissez-faire a integração do heterogêneo. Por força de sua própria formula Spencer era compelido a aclamar a Alemanha como o mais altamente evoluído estado moderno. Ele procurou tornear este ponto argüindo que a heterogeneidade envolve a liberdade das partes e que tal liberdade implica um mínimo do governo; mas isto já é uma nota muito diferente da que temos na “heterogeneidade coerente”. No corpo humano a integração e evolução deixam pouca liberdade as partes. Spencer replica que na sociedade a consciência só existe nas partes, enquanto no corpo a  consciência existe no todo. Mas a consciência social – consciência dos interesses e processos do grupo – está tão centralizada na sociedade, como a consciência pessoal o está nos indivíduos; muito poucos de nós possuem qualquer “senso de estado”. Spencer ajudou-nos a nos salvar de um estado socialista regimental a custa do sacrifício da sua lógica.

E tudo por exagerações individualisticas. Devemos lembrar-nos que Spencer fora colhido entre duas épocas; que seu pensamento se havia formado na era do laissez-faire e sob a influencia de Adam Smith, e seus últimos anos transcorreram em um período em que a Inglaterra estava lutando para corrigir, pelo controle social, os abusos do regime industrial. Spencer jamais cessou de repetir os seus argumentos contra a interferência do estado;objetou contra a educação financiada pelo estado e contra a proteção pelo estado dos ingênuos lesados pela finança fraudulenta; e certa vez argüiu que até a direção da guerra devia ser privada e não da competência do estado; também desejou, como acentua Wells, “erguer a penúria publica à dignidade de política nacional”. Spencer levava ele mesmo os seus manuscritos ao impressor, tendo confiança por demais escassa no governo para confiá-los ao correio. Era um homem de intensa individualidade, irritavelmente insistente em ser deixado só; cada novo ato legislativo lhe parecia uma invasão da sua liberdade pessoal; Não podia compreender os argumentos de Benjamim Kidd, ao afirmar que, desde que a seleção natural operava mais e mais sobre os grupos, sobre as classes e sobre a competição internacional, e cada vez menos sobre os indivíduos, uma aplicação mais ampla dos princípios familiais [os mais fracos são ajudados pelos mais fortes] torna-se indispensável para a manutenção da unidade e força do grupo. Por que motivo haveria o estado de proteger seus cidadãos contra a força física insocial e recusar-lhes proteção contra a força econômica antissocial, é ponto que Spencer não tratou. Ele ironizava como infantil a analogia entre o governo e o cidadão como entre o pai e o filho; mas a analogia real é a de irmão ajudando irmão. Sua política foi mais darwiniana do que a sua biologia.

Mas basta de critica. Voltemos novamente ao homem e vejamos de um outro ponto de vista a grandeza de sua obra.

_Conclusão
Os Primeiros Princípios fizeram-no quase imediatamente o mais famoso filosofo de seu tempo. Foi livro traduzido em todas as línguas, inclusive em russo -  e na Rússia teve de enfrentar a perseguição do governo. Spencer foi aceito como o expoente filosófico do espírito da época; e não somente se fez sentir a sua influencia em todo o pensamento da Europa, como ainda afetou o movimento realístico da literatura e da arte. Em 1869 ficou Spencer espantado de ver os Primeiros Princípios adotados como livro de texto na universidade de Oxford. Mais maravilhoso ainda: seus livros começaram, depois de 1870, a dar lucro, e lucros que o puseram em perfeita segurança financeira. Vários admiradores lhe enviaram donativos em dinheiro, que Spencer sempre devolveu. Quando o tzar Alexandre II visitou Londres e exprimiu a Lord Derby o desejo de encontrar-se com os grandes sábios da Inglaterra, Derby incluiu Spencer entre os convidados, ao lado de Tyndall e Huxley. Mas Spencer declinou. Dava-se apenas com alguns íntimos. “Nenhum homem é igual ao seu livro”, escreveu. “O melhor da sua atividade mental vai para o livro, separado da massa dos produtos inferiores com os quais se acham misturados na tarefa diária”. Quando insistiam em vê-lo, punha algodão nos ouvidos e ficava placidamente a ‘ouvir’ o visitante.

Estranho notar -  sua fama decaiu quase tão rapidamente como nasceu. Spencer sobreviveu a sua reputação, e teve no fim da vida a tristeza de verificar que pouca força tinham suas tiradas contra a maré dos legisladores ‘paternalistas’. Havia-se tornado impopular em todas as classes. Os especialistas científicos, cujas searas ele invadira, ignoravam suas contribuições e exageravam seus erros; e os bispos de todos os credos se uniram para condená-lo a uma eternidade de penas. Os laboristas, a principio exultantes com as suas declarações contra a guerra, voltaram-lhe as costas quando Spencer disse o que pensava do socialismo e das ‘trade unios’; e os conservadores, que lhe apreciavam as vistas sobre o socialismo, evitavam-no por causa do seu agnosticismo. “Sou mais Tory que qualquer Tory e mais Radical que qualquer Radical”, disse ele com tristeza. Spencer era morbidamente sincero e ofendia a todos os grupos, falando candidamente sobre todos os assuntos; e depois de simpatizar com os operários como vitimas dos patrões, acrescentou que eles fariam a mesma coisa se as posições fossem invertidas; e depois de simpatizar com as mulheres como vitimas do homem, não pode fugir de acrescer que os homens seriam vitimas das mulheres se estas viessem a dominar. Spencer envelheceu sozinho.

Com a idade, tornou-se mais suave na oposição e mais moderado de opiniões. Sempre se ria do rei ornamental dos ingleses, mas na velhice exprimiu a idéia de que privar os ingleses de seu rei equivalia a privar as crianças dos seus brinquedos. Assim, em religião sentiu o absurdo de perturbar a fé tradicional, quando ela exerce uma influencia benéfica. Spencer começou a compreender que as fés religiosas e políticas são construídas com base em necessidades e impulsos fora do alcance dos ataques intelectuais; e consolou-se de ver o mundo prosseguir em seu curso, apesar dos livros ponderosos que lhe atravessou na órbita. Olhando para trás, viu que fora tolice preferir a fama literária aos prazeres simples da vida. Quando morreu, em 1903, estava com a impressão de que todo o seu trabalho tinha sido inútil.

Mas nós sabemos que não. A decadência da sua fama em vida foi parte da reação inglesa-hegeliana contra o positivismo; a revivescencia do liberalismo o erguerá de novo ao seu lugar de  máximo filosofo inglês do século. Spencer deu a filosofia um novo contato com as coisas e embutiu-a de um realismo que tornou fraca, pálida e tímida a filosofia alemã. Spencer resumiu sua época como ninguém o havia feito desde Dante; e realizou tão superiormente a coordenação de tão vasta área de conhecimentos humanos, que a critica se sente muda diante de tamanha obra. Estamos nós agora de pé nas cumiadas que suas lutas e seus labores nos proporcionaram; parece-nos estarmos acima de Spencer, porque Spencer nos ergue sobre seus ombros. Algum dia, quando o veneno da sua oposição estiver eliminado, havemos de lhe fazer justiça.
_
M.L.       

8 de jun. de 2011

Spencer_Ética: A Evolução da Moral

Tão importante pareceu a Spencer este problema da reconstrução industrial, que lhe devotou de novo uma das seções dos Princípios da Ética [1893] “parte última da minha obra, da qual todas as anteriores são subsidiárias”. Homem dotado da severidade moral do período vitoriano, era Spencer especialmente sensível ao problema de encontrar uma nova ética natural que substituísse a que tinha por base a fé. “As supostas sanções sobrenaturais da conduta, se rejeitadas, não deixam um vazio. Existem sanções naturais não menos enérgicas e cobrindo um campo ainda maior”.

A nova moralidade deve ser erigida com alicerce na biologia. “A aceitação da doutrina da evolução orgânica determina certas concepções éticas”. Huxley em suas conferencias romanas em Oxford, em 1893, declarou que a biologia não podia fornecer as bases da moral; que a natureza ‘red in thoot and claw’ [como disse Tennyson] exaltava a brutalidade e a astúcia antes que a justiça e o amor; mas Spencer sentia que um código moral não baseado na seleção natural e na luta pela vida estria irremediavelmente condenado. A conduta, como tudo mais, é considerada boa ou má conforme é bem ou mal adaptada aos fins da vida; “a melhor conduta é a que conduz a maior extensão, amplitude e plenitude da vida”. Ou, em palavras mais precisas, a conduta é moral quando faz o individuo ou o grupo mais integrado e coerente no meio da heterogeneidade de fins. A moralidade, como a arte, é a consecução da unidade na diversidade; o tipo mais alto do homem é o que une em si a mais larga variedade, complexidade e plenitude de vida.

É uma definição elástica como deve ser, porque nada varia tanto no espaço e no tempo como as necessidades especificas da adaptação e, portanto, o conteúdo especifico da idéia de bem. Verdade que certas formas de conduta tem sido fixadas como boas -  como adaptadas a vida mais plena – pela sensação de prazer que a seleção natural ligou a essas ações preservativas e expansivas. A complexidade da vida moderna multiplicou exceções, mas normalmente o prazer indica o que é biologicamente atividade útil; e a dor, o que é biologicamente atividade perigosa. Não obstante, dentro do bojo amplo deste principio encontramos as mais diversas e aparentemente as mais hostis concepções do bem. Com dificuldade encontraremos no nosso código de moral um principio que em uma qualquer outra parte não seja tido como imoral; não somente a poligamia, mas o suicídio e o homicídio, ainda que dos pais, encontram, em um povo ou  noutro, plena aprovação moral.

*As mulheres dos chefes tribais de Fidji consideram dever sagrado serem estranguladas após a morte de seus maridos. Uma que foi arrancada por Williams das mãos dos executores, fugiu durante a noite, atravessou a nado o rio, apresentou-se a tribo e insistiu no cumprimento do ritual; e Wilkes conta de outra que acusou seu salvador de “ter abusado” e que desde então lhe consagrou um “ódio mortal”. Livingstone narra que as mulheres de Makololo, nas margens do Zambese, se escandalizavam de ouvir que os homens europeus só tinham uma esposa – por que isso não era ‘respeitável’. Assim também na África equatorial, segundo Reade, “se um homem se casa e sua mulher acha que ele pode permitir-se uma segunda esposa, atropela-o até que a tome, insultando-o de miserável se o não faz”.

Tais fatos colidem, sem duvida, com a crença de que existe um senso moral inato que diz ao homem o que é reto ou  não.  Mas a associação do prazer e da dor a boa ou má conduta dá uma medida de verdade a idéia. E pode tornar-se admissível que certas concepções  morais adquiridas pelas raças se tornem hereditárias no individuo. Aqui Spencer usa sua forma predileta para reconciliar o intuicionista com o utilitarista e volta uma vez mais a hereditariedade dos caracteres adquiridos.

Bem certo que o senso moral inato existe, anda hoje em dificuldades; porque nunca as noções éticas estiveram em maior confusão. É notório que os princípios que aplicamos em nossa vida real vivem em completo desacordo com os que pregamos nas igrejas e nos livros. A ética professada na Europa e na América é um cristianismo pacifista; mas a ética real, a praticada, é o mesmo código militaristico dos teutões depredadores, dos quais as classes dirigentes da maior parte da Europa são oriundas. A pratica do duelo é na católica França e na protestante Alemanha uma relíquia tenaz do código teutonico. Nossos moralistas sentem muita dificuldade para harmonizar estas contradições, do mesmo modo que os moralistas da Grécia e da Índia da fase monogâmica encontravam dificuldade em explicar a conduta dos deuses formados em uma era semi-promiscua.

A formação dos homens de uma nação nas linhas da moral cristã ou da moral teutonica depende de ser a guerra ou a industria a grande idéia predominante na nação. Uma sociedade militar exalta certas virtudes que para outros povos são consideradas crimes; a agressão, o saque e a traição recebem todas as atenuantes nos povos afeitos a guerra, e todas as agravantes no povo que aprendeu o valor da honestidade e da não-agressão através da industria e da paz. Generosidade e humanidade florescem melhor onde a guerra é rara e onde longos períodos de paz produtiva inculcam as vantagens do auxilio mutuo. O patriótico membro de uma sociedade militaristica verá a bravura e a força como as mais altas virtudes do homem; verá a obediência, como as mais altas virtudes do homem. Verá a obediência, como a mais alta virtude do cidadão; e verá a passiva fecundidade da mulher, como a mais alta virtude do sexo feminino. O Kaiser falava de Deus como o chefe supremo do exercito alemão.

Os índios norte-americanos “considerava, o uso do arco e da flecha, do tacape e da lança como a mais nobre ocupação humana” e tinham a agricultura e o trabalho mecânico como degradantes. Unicamente nos últimos tempos -  só agora que o bem estar nacional se está tornando mais e mais dependente da força de produção, e esta, ‘de faculdades mentais mais desenvolvidas, é que outras ocupações, além da militar, estão crescendo em respeitabilidade”.

Porque a guerra é apenas um canibalismo por atacado; não existe razão para que a guerra não seja classificada como canibalismo e inequivocamente denunciada como tal. “O sentimento e a idéia de justiça só podem crescer na proporção em que os antagonismos das sociedades decrescem e a cooperação interna de seus membros cresce harmoniosamente”. Como pode ser promovida esta harmonia? Como já vimos, ela ressurge mais prontamente da liberdade do que da regulamentação. A formula da justiça deve ser: “Cada homem é livre de fazer contanto que não prejudique a liberdade similar de qualquer outro homem”. É esta uma formula hostil a guerra e que exalta a autoridade, a arregimentação e a obediência; é formula favorável a industria pacifica visto como prevê um maximum de estimulo dentro de uma absoluta igualdade de oportunidade; está conforme a moral cristã porque torna cada pessoa sagrada e livre de agressão; e é a sanção do juiz supremo – a Seleção Natural – porque abre os recursos da terra igualmente a todos e permite que cada individuo prospere de acordo com a sua capacidade e seu trabalho.

Isto parece a primeira vista um principio impiedoso; e muitos lhe oporão, como capaz de adquirir extensão nacional, o principio familial de dar a cada um, não de acordo com a capacidade ou o trabalho, mas de acordo com a sua necessidade. Entretanto, uma sociedade conduzida sob estes princípios depereceria.

Durante a imaturidade os benefícios recebidos devem ser inversamente proporcionais as capacidades possuídas. Dentro do grupo familiar, o mais deve ser dado ao que menos merece [o mérito medido pelo valor da criatura]. Na maturidade, ao contrário, o beneficio recebido deve ser proporcional ao valor do individuo, sendo esse valor medido pela sua adaptabilidade as condições da existência. O mal-adaptado sofrerá dos males de sua mal-adaptação e o bem adaptado se beneficiará dessa condição favorável. São as duas leis com as quais a espécie tem de conformar-se para o bem da sua preservação...Se entre os imaturos o beneficio fosse proporcional a eficiência do individuo, as espécies desapareceriam imediatamente por decadência, dentro de poucas gerações...A justificação única para a analogia entre pai e filho e entre governo e povo reside na infantilidade do povo que entrentem essa analogia.

Em matéria de prioridade a Liberdade contende com a Evolução no espírito de Spencer...e a Liberdade vence. Pensa ele que a medida que a guerra decresce, o controle do individuo pelo estado perde muito da sua justificativa, e em uma condição de paz permanente o estado seria reduzido aos limites traçados por Jefferson, agindo unicamente para impedir que um individuo invada a liberdade de outro. Assim, a justiça seria administrada gratuitamente de modo que os malfeitores saibam que a pobreza de suas vitimas não poderá eximi-los da penalidade; e todas as despesas do estado seriam satisfeitas pela taxação direta para que a invisibilidade da taxação não esconda ao publico as extravagâncias governamentais. Mas “além de manter a justiça, o estado nada pode fazer sem transgredir a justiça”; porque então protegeria indivíduos inferiores evitando que sofressem as naturais conseqüências da sua incapacidade – e é pela sobrevivência do mais capaz que o grupo social progride.

O principio da justiça requerera a propriedade comum da terra, se pudéssemos separar a terra das suas benfeitorias. Em seu primeiro livro Spencer advogara a nacionalização do solo para nivelas as oportunidades econômicas; mais tarde retirou essas idéias [com muita mágoa de Henry George, que lhe chamou o ‘filosofo perplexo’], sob escusa de que a terra só é bem cultivada pela família dos que a possuem e que esperam transmitir aos seus descendentes os melhoramentos introduzidos. Quanto a propriedade privada, ela deriva imediatamente da lei da justiça, porque cada homem deve ser igualmente livre de reter os produtos do seu trabalho. A justiça das transmissões por herança já não é tão óbvia; mas o ‘direito de legar está incluso no direito de possuir, já que de outro modo a propriedade não ficaria completa’. O comércio deve ser tão livre entre as nações como entre os indivíduos; a lei da justiça não será apenas um código tribal, mas uma inviolável máxima de relações internacionais.

São estes em linhas gerais os “direitos do homem” – o direito a vida, a liberdade, e a prossecussão da felicidade com perfeita igualdade para todos. Ao lado destes direitos econômicos, os direitos políticos aparecem como irrealidades insignificantes. Mudanças na forma do governo a nada montam onde a vida econômica não é livre; e o laissez-faire monárquico vale muito mais do que uma democracia socialista.

* Sendo o voto um simples método de criar um meio para a preservação dos direitos, surge o problema de se a universidade do voto conduz a criação do melhor meio de preservar esses direitos. Temos verificado que não. A experiência mostra o que mesmo sem a experiência já era obvio -  que com a universalização do voto as classes maiores se beneficiarão com prejuízo das menores...Evidentemente a constituição do estado apropriado ao tipo industrial da sociedade em que a equidade mais se realize, deve ser uma em que não haja representação de indivíduos, mais sim representação de interesses...Pode ser que o tipo industrial, talvez pelo desenvolvimento de organizações cooperativas, que teoricamente obliteram a distinção entre empregado e empregador,, possa produzir arranjos sociais que suprimam os antagonismos dos interesses de  classes ou os atenuem....Mas com a humanidade como hoje a temos, a posse do que chamamos direitos iguais não assegura a manutenção desses direitos.


Desde que os direitos políticos são ilusórios e só os direitos econômicos valem, as mulheres andam erradas gastando tanto tempo em busca da emancipação. Spencer receia que o instinto maternal leve a mulher a propiciar o estado paternalístico. Mas aqui existe alguma confusão em seu espírito; argue ele que os direitos políticos são de nenhuma importância e diz depois que é importante que as mulheres não os tenham; denuncia a guerra e depois contende que a mulher não deve votar porque não arrisca sua vida nos campos de batalha -  um vergonhoso argumento para um ser que veio ao mundo dentro da dor da mulher. Spencer tem medo que a mulher seja altruística em excesso; e entretanto a concepção suprema do seu livro é que a industria e a paz desenvolverão o altruísmo até neutralizar o egoísmo e assim evolver a ordem social espontânea de rumo a um filosófico anarquismo.

O conflito do egoísmo e do altruísmo [esta palavra e alguma coisa desta matéria Spencer toma inconscientemente de Comte] resulta do conflito do individuo com a sua família, seu grupo e sua raça. Presumivelmente o egoísmo vencerá, e talvez seja o desejável. Se toda a gente pensasse mais nos interesses dos outros do que no seu próprio, cairíamos em um caos de cortesias e recuos; e provavelmente “a prossecussão da felicidade individual dentro dos limites prescritos pelas condições sociais é o primeiro requisito para a consecussão da maior felicidade geral”. O que podemos esperar, todavia, é um alargamento maior da esfera de simpatia, uma ampliação dos impulsos do altruísmo. Já agora muito sacrifício é feito com alegria: “O anseio por crianças entre os que não tem filhos e a adoção, mostram como são necessárias  para os fins altruísticos certas satisfações egoísticas”. A intensidade do patriotismo é outro exemplo da apaixonada superposição de interesses mais amplos aos interesses imediatos. Geração a geração recrescem os impulsos para o auxilio mutuo. “Incessante disciplina moldará de tal modo a natureza que eventualmente os prazeres simpáticos serão espontaneamente procurados, com beneficio de extensão de vantagem a todos”. O senso do dever, que é o eco de gerações compelidas a uma certa conduta social desaparecerá então: as ações altruísticas, tendo-se tornando instintivas por meio da seleção natural no rumo da utilidade social, serão praticadas com alegria e sem compulsão, como todas as operações instintivas. A evolução natural da sociedade humana nos conduzirá para o estado perfeito.