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Mostrando postagens de abril, 2011

Schopenhauer_O Mundo Como Idéia

O que impressiona o leitor logo no começo do Mundo como Vontade e Idéia é o estilo. Nada do malabarismo chinês, da terminologia kantiana, nem da ofuscação hegeliana, nem da geometria spinozista; tudo é claridade e ordem; e tudo admiravelmente centrado na direção do conceito do mundo como vontade, e por isso luta, e por isso miséria. Que brutal honestidade, que vigor refrescante, que leal retidão! Onde seus predecessores eram abstratos até a invisibilidade, com teorias que rasgavam poucas janelas para a visão do mundo real, Schopenhauer, como bom filho de um homem de negócios, é todo fatos concretos, exemplos,aplicações e, ainda, humor [* Exemplo do seu humor: “O ator Unzelman – celebre pelo habito de enxetar papeis – foi proibido de improvisar, num dos teatros de Berlim. Logo depois teve de aparecer em cena montado a cavalo”. Ao entrar a alimaria conduziu-se sem nenhum respeito para com a assistencia. “A platéia começou a rir-se e Unzelman severamente admoestou o cavalo: “Não sabe ent...

Schopenhauer_O Homem

Schopenhauer nasceu em Dantzig a 22 de fevereiro de 1788. Seu pai fora um negociante feliz, de temperamento fogoso, independente e amigo da liberdade. Mudara-se de Dantzig para Hamburgo quando Artur tinha apenas cinco anos, porque Dantzig havia perdido a sua liberdade com a anexação a Polônia. O menino cresceu, pois, num ambiente de negócios e finanças; e embora abandonasse muito cedo a carreira mercantil para a qual seu pai o impelia, esse ambiente deixou-lhe marcas – rudeza de maneiras, espírito realístico, conhecimento dos homens e do mundo; fê-lo o antípoda do filosofo sedentário e acadêmico, que ele tanto detestava.   Seu pai finou-se, aparentemente por suas próprias mãos, em 1805. Sua avó paterna havia morrido louca. “O caráter ou vontade” , diz Schopenhauer, “herda-se do pai; o intelecto, da mãe” [* O Mundo como Vontade e como Idéia, 1883, III, 300]. Sua mãe tinha intelecto -   tornara-se uma das mais populares romancistas do tempo – mas tinha também caráter e temper...

Schopenhauer_Sua Época

Por que motivo a primeira metade do século dezenove deu surto a uma série de poetas pessimistas – Byron da Inglaterra, Musser na França, Heine na Alemanha, Leopardi na Itália, Pushkin e Lermontof na Rússia; a um grupo de compositores – Schubert, Schummann, Chopin e ainda o Beethoven da ultima fase [um pessimista que procurava mostrar-se otimista];e, acima de tudo a um filosofo eminentemente pessimista – Artur Schopenhauer?    A sua grande antologia do infortúnio, O Mundo como Vontade e Idéia , apareceu em 1818. A “Santa” Aliança ia no apogeu. Dera-se a batalha de Waterloo, a Revolução estava morta, o “Filho da Revolução” apodrecia num penedo longe nos mares. Parte da apoteose de Schopenhauer á Vontade era devida a sangrenta e magnífica aparição da Vontade feita homem que foi o pequeno corso; e parte do seu desespero vinha do patético afastamento da ilha de Santa Helena -   a Vontade finalmente derrotada e a negra Morte vencedora única de todas as guerras. Estavam restaur...

Nota Sobre Hegel

Não faz muito tempo era costume dos historiadores da filosofia dar aos imediatos sucessores de Kant – Fichte, Schelling e Hegel – tanto honra e espaço como a seus predecessores da filosofia moderna, desde bacon e Descartes até Voltaire e Hume. Hoje é nossa perspectiva um pouco diversa e saboreamos, talvez, vivamente as invectivas de Schopenhauer contra seus rivais triunfantes em concursos para cargos profissionais. Lendo Kant, diz, Schopenhauer, “o publico foi compelido a ver que aquilo que é obscuro nem sempre é destituído de significação”. Fichte e Schelling prevaleceram-se dessa obscuridade e teceram pomposas teias de aranha metafísicas. “Mas o cumulo da audácia de arquitetar puros disparates, de aglomerar emaranhamentos de palavras extravagantes e sem sentido, viu-se afinal em Hegel e tornou-se o instrumento da mais deslavada e geral mistificação de que já houve notícia, com um resultado que parecerá fantástico para a posteridade e constituirá como que o monumento da estupidez ger...

Kant_Critica e Apreciação

Perguntemo-nos agora como subsiste ainda hoje, após tão fustigada pelas tormentas filosóficas de todo um século, esta complexa estrutura lógica, metafísica, psicológica, ética e política. Apraz-no dizer que grande parte dessa grande edificação ainda perdura e que a “filosofia critica” representa um sucesso de importância permanente na historia do pensamento humano. Mas já aluiram muitos detalhes e obras exteriores dessa estrutura. Em primeiro lugar, é o espaço mera “forma de sensibilidade”, e sem realidade objetiva fora do espírito que o percebe? Sim e não. Sim: pois o espaço é um conceito vazio quando não contêm os objetos percebidos; “espaço” significa simplesmente que certos objetos estão, para o espírito que os percebe, em tal posição ou distancia, em relação a outros objetos percebidos; e não é possível nenhuma percepção exterior a não ser a dos objetos no espaço. O espaço é, então, seguramente, “uma forma necessária do senso externo”. E não: pois fatos espaciais, com a elipse ...

Kant _Sobre a Política e a Paz Eterna

O governo da Prússia poderia ter perdoado a teologia de Kant, se esta não incorresse na culpa de também conter heresias políticas. Três anos depois de Frederico Guilherme II subir ao trono, a Revolução Francesa deixara abalados os tronos da Europa. E numa ocasião em que a maioria dos professores das universidades da Prússia se apressavam a defender a legitimidade da monarquia, Kant com sessenta e cinco anos acolhera jubiloso a Revolução, com lagrimas nos olhos dizendo a seus amigos: “Posso dizer com Simeão: - Senhor, teu servo agora se partirá em paz, porque seus olhos viram o seu Salvador” [* Wallace, pág.40]. Em 1784, Kant publicou breve exposição de sua teoria política , sob o titulo: O Principio Natural de Ordem Política considerado em conexão com a Idéia de uma História Universal Cosmopolita . Kant começa reconhecendo, na luta de cada um contra todos, que tanto impressionara Hobbes, o método com que a natureza desenvolve as latentes capacidades vitais; a luta é a companheira ind...

Kant_Sobre a Religião e a Razão

Tudo isto não parece comum, tímido e conservador? Mas não era assim; ao contrário, esta arrojada negação da teologia “racional”, esta franca redução da religião a fé e esperança morais, provocou protestos de todos os alemães ortodoxos. Enfrentar este “forty-parson-power” [como lhe chamaria Byron] requeria mais coragem que a habitualmente associada ao nome de Kant. Que era suficientemente intrépido, foi o que se provou cristalinamente quando deu a publico, aos sessenta e seis anos, sua Critica da Faculdade de Julgar e, aos sessenta e nove, A Religião dentro dos Limites da Razão Pura . No primeiro destes livros Kant volve a discutir o argumento da finalidade que, em sua primeira Critica, rejeitara por ser prova insuficiente da existência de Deus. Começa correlacionando a finalidade e a beleza; a beleza a seu ver é algo que revela proporção e unidade de estrutura, como pré-traçadas por uma inteligência. Observa de passagem [e Schopenhauer aqui bebeu bastante para a sua teoria da arte] ...