23 de ago. de 2011

Que é Desenvolvimento Psíquico?

A concepção de que o homem é duplo é tão antiga quanto a primeira análise do homem de si mesmo. Ele tem funções óbvias que são tão diferentes em seus fenômenos que é difícil conceber que elas não sejam processos separados. A razão e os vários processos mentais são  facilmente diferenciados do organismo físico e  suas atividades. Na verdade, os antigos gregos consideravam a razão como o mais elevado atributo da natureza do homem e como uma qualidade distintamente divina implantada no corpo. De modo geral, a alma e a razão eram consideradas sinônimos e um dos atributos básicos da sua natureza dupla.

Os gregos também relacionavam o amor, em seu sentido mais elevado, com a alma. A alma era uma entidade racional e amorosa. Este amor era interpretado como compaixão e considerado como sendo o mais alto senso moral de que o homem é capaz. A alma, como entidade ou substancia, era considerada etérea, amorfa e invisível. Ela não possuía qualidades materiais como o corpo. Essas outras qualidades, embora distintas do organismo físico, pareciam entrar no corpo e deixá-lo com o alento. Por conseguinte, os gregos identificavam a alma com o ar, o alento, ou pneuma. A alma, portanto, era dessa qualidade aérea que alçavam para outras regiões. Muito antes dos gregos, a noção de asas fora associada à alma e era simbolizada por uma ave ou insetos alados.

Eventualmente, a alma foi personificada pela mítica Psique. Segundo a mitologia grega, o marido de Psique era Cupido. Quando ela descobriu quem realmente ele era, ele partiu; isto ocorreu por causa de uma traição de Vênus. Psique procurou-o e acabou por encontrá-lo após sofrer a perseguição da ciumenta Vênus. Ela passou a ser retratada como uma bela jovem com asas – a alma em vôo.

A palavra Psique tornou-se a raiz de onde surgiram palavras e termos como psíquico, psicologia, psicossomático e numerosos outros que representam a natureza intima do homem, em contraste com o físico. Na maioria das religiões, a alma, a psique, tem sido postulada como uma espécie de substancia divina implantada no homem. Acredita-se que ela traz consigo certos atributos como consciência, percepção, o senso moral e outros poderes e funções imateriais.

Havia, e há, várias escolas de pensamento sobre a qualidade inerente da alma. Segundo algumas teologias, a alma é enclausurada pelos pecados que o homem herdou e dos quais tem de se libertar antes que ela possa ter expressão plena. Esta libertação deve ser realizada por certos atos de salvação. Por conseguinte, o individuo aspira àquela consecução espiritual, àquela liberdade da alma, que pode ser alcançada cumprindo-se ritos religiosos prescritos. Esta atividade é uma espécie de desenvolvimento espiritual, ou, em termos do nome grego para alma, um desenvolvimento psíquico.

Uma concepção filosófica e metafísica é também a de que a alma, como uma infusão do corpo, é acompanhada de uma eficácia e uma inteligência que são uma espécie de poder mental sobrenatural ou cósmico. Esta doutrina  explica que essa inteligência transcende a mente racional, ou o intelecto moral. Ela dirige as funções involuntárias do corpo, tais como a respiração, a circulação do sangue e outros processos orgânicos sobre os quais a vontade não tem poderes. Contudo, esta super-mente é acessível à consciência objetiva. O homem pode ser sintonizado com uma fonte para realizar fenômenos que seus processos mentais normais não podem alcançar.

Como esta super-mente, ou inteligência, da alma com sua energia é infinita em sua relação cósmica, afirma-se que ela pode produzir e produz, fenômenos além da capacidade do cérebro e do corpo. Ela não é limitada pelo tempo ou pelo espaço; tem seu próprio estado de consciência, percepção e concepção; isto é, pode compreender o que os sentidos físicos não podem perceber. De igual modo, ela pode gerar idéias muito mais esclarecedoras que as produzidas pela razão. Esta mente e suas forças, afirma-se ainda, existem como um reservatório dentro do organismo humano para ser utilizado a fim de ampliar o domínio do homem sobre si mesmo e seu ambiente.

Como essa inteligência e seus poderes são os da alma, segue-se naturalmente que os seguidores do misticismo e da metafísica dar-lhe-iam o nome de forças psíquicas. Tornou-se comum, nesses sistemas, expor modos de se “desenvolver os poderes psíquicos do homem”. Este desenvolvimento, ou método, tem sido definido de várias maneiras pelas diferentes escolas de metafísica e esoterismo. Na realidade, o termo desenvolver é uma denominação imprópria quando associado à noção de poderes psíquicos, pois se existe uma força da alma, uma inteligência divina, funcionando como uma mente-superior no homem, por certa não está dentro da capacidade do homem desenvolvê-la.

Pelo menos, o finito não pode, logicamente, exercer um controle sobre o infinito. Por conseguinte, o único desenvolvimento de acordo com esta concepção seria o dos métodos volitivos da mente pelos quais o homem pode vir a compreender seus poderes latentes, despertando-os e dirigindo-os, mas não aumentando sua onipotência. O homem desenvolve somente seu estado de percepção, sua capacidade de compreender e desenvolver um canal interior para a expressão e funcionamento de seu poder psíquico imanente.

Com o desenvolvimento da psicologia orgânica, a palavra psíquico adquiriu significado diferente. Ela não mais tinha relação com qualquer encarnação espiritual, sobrenatural ou separada no homem. Todas as forças no homem, todos os fenômenos a ele atribuídos eram considerados como sendo uma única qualidade unitária de seu organismo inteiro, e muito naturais. A memória, a razão, as emoções, o chamado senso moral, a consciência, a percepção – estas eram funções diferentes oriundas da mônada complexa ou entidade simples que, conforme se afirma, é o homem. O organismo humano, de acordo com a psicologia moderna, pode produzir diversas formas de fenômenos, tal como se podem tirar notas diferentes de um teclado de piano simples e unificado.

Contudo, esta ciência faz uma classificação geral dos fenômenos humanos. Alguns de seus aspectos, segundo se declara, são motivados conscientemente, e alguns, como as funções subliminares da mente, inconscientemente. Em outras palavras, acredita-se que alguns processos são mais misteriosos e mais sutis porque estão envolvidos com as complexidades do cérebro e do sistema nervoso, ou do que se chama mente. Logo, estes são funções psíquicas do  homem conforme classificados pela ciência. Mas, repetimos, isto refere-se ao psíquico como sendo completamente purgado de quaisquer atributos divinos ou sobrenaturais.

A ciência admite, sem dificuldades, que as chamadas funções psíquicas no homem variam. As chamadas motivações subconscientes, instintos e intuição que afloram na mente consciente são mais pronunciadas em alguns do que em outros. Como e por que isto ocorre em algumas pessoas em maior grau que em outras, é um dos enigmas da psicologia e da psiquiatria e tornou-se o incentivo para maiores pesquisas.

Do ponto de vista psicológico, existem certas funções psíquicas que, segundo a ciência acredita, podem ser desenvolvidas conscientemente. Uma delas, por exemplo, é a criatividade. Diferentes livros de psicologia apresentam opiniões variadas sobre o que seja criatividade e como ela pode ser desenvolvida. Como a ciência inclui a memória, imaginação e visualização entre os poderes psíquicos do homem, existem também técnicas sugeridas para seu desenvolvimento.

Fenômenos como percepção extra-sensorial, telepatia, bilocação [projeção da consciência] empatia e telecinese ainda são mistérios para a ciência ortodoxa. Mas, atualmente, fazem-se esforços sinceros para investigar tais fenômenos, como no laboratório de parapsicologia da Ordem Rosacruz. Entretanto, o consenso nos círculos científicos ortodoxos é que eles não tem qualquer relação com qualidades espirituais ou cósmicas transcendentais. Eles são apenas parte do processo natural do organismo humano. Não obstante, em suas experiências, a ciência tenta verificar se a prática desenvolverá esses poderes latentes no individuo.

Assim como a maioria dos psicólogos não admitirá a infusão de uma inteligência externa, ou Mente Cósmica, no homem, e que pudesse explicar os estranhos fenômenos humanos, também muitos estudiosos do misticismo e da metafísica confundem processos orgânicos naturais com uma força psíquica externa. Esses estudiosos muitas vezes relegam tais fenômenos psicológicos e fisiológicos ao mundo psíquico. Pós-imagens, por exemplo, cores complementares que se podem ver após se desviar os olhos de uma luz forte que se estava fitando, muitas vezes são atribuídas a coisas que não uma função natural. Ruídos internos nos ouvidos muitas vezes são considerados forças psíquicas a serem desenvolvidas! Perturbações nervosas, contrações e movimentos espasmódicos dos músculos são erroneamente associados a  poderes não-físicos e psíquicos.

Existem fases mais profundas do fluxo de consciência dentro de nós que produzem percepções e experiências, as quais podem ser realmente chamadas de psíquicas – se nos referimos ao resultado de aspectos mais altos de nossa consciência e da inteligência do próprio fluxo vital. A direção e aplicação destas podem ser desenvolvidas, pois elas são naturais a todo ser humano; porém, são mais manifestas em algumas pessoas do que em outras. Todavia, aberrações mentais, funcionamento anormal do cérebro e do sistema nervoso podem produzir fenômenos que são psíquicos apenas no sentido psiquiátrico do termo -   não no sentido místico ou metafísico.

O impulso moral, o desejo de experimentar uma união com a realidade além do nosso próprio ser físico, é um impulso psíquico tanto no sentido cientifico ou psicológico quanto no sentido místico. É místico ter o desejo e o amor para experimentar a sensação de unidade com o Cósmico, o todo do ser. Mas os estados de  consciência pelos quais se passa para alcançar essa experiência, são o resultado de processos naturais, mentais e emocionais. Por analogia, uma composição musical é um ideal, mas primeiro há necessidade de haver o instrumento físico no qual ela possa ser produzida ou expressada para transformar aquele ideal em uma realidade. As forças psíquicas no homem são uma e parte de todos os poderes naturais do ser do homem. Não as desenvolvemos. Antes, desenvolvemos a maneira de compreender e aplicar essas forças a nossa vida.  
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R.M.L_F.R.C.