sábado, 25 de junho de 2011

Henri Bérgson_ A Revolta contra o Materialismo

A História da Filosofia moderna gira em torno da guerra entre física e psicologia. O pensamento pode começar com o seu objeto, e por fim experimentar trazer sua mística realidade para o circulo dos fenômenos materiais e das lei mecânicas; ou pode começar consigo mesmo e ser levado pelas aparentes necessidades da lógica e conceber todas as coisas como formas e criações do espírito. A prioridade das matemáticas e da mecânica no desenvolvimento da ciência moderna e o recíproco estimulo da industria e da física sob a pressão comum das necessidades expansionistas, deram a especulação um impulso materialista; as ciências mais bem sucedidas tornaram-se os modelos da filosofia. O despeito da insistência de Descartes, de que a filosofia deve começar com o “eu” e depois projetar-se fora, a industrialização da Europa ocidental afastou o pensamento do próprio pensamento e o pôs na direção das coisas materiais.

O sistema de Spencer fez-se a Expressão culminante deste ponto de vista mecânico. Aclamado que foi como o filosofo do darwnismo, era ele na realidade o reflexo e o expoente do industrialismo; Spencer vestiu a industria com a gloria e virtudes que para a nossa vida inferior parecem grotescas;e  sua visão geral era antes a de um mecânico ou de um engenheiro absorvido no movimento da matéria do que a de um biologista sentindo o élan da vida. O rápido crepúsculo da sua filosofia por principalmente devido a substituição no pensamento contemporâneo do ponto de vista físico pelo ponto de vista biológico;  pela crescente disposição de ver a essência e o segredo do novo mundo no movimento da vida antes que na inércia das coisas. E, realmente a matéria em si adquiriu vida em nossos tempos: o estudo da eletricidade, do magnetismo e do elétron tem dado um toque vitalistico a física; de maneira que em vez de uma redução da psicologia à física – que era a mais ou menos consciente ambição  do pensamento inglês – aproximamo-nos de uma física vitalizada e de uma quase espiritualizada matéria. Foi Schopenhauer quem primeiro, entre os modernos, frisou a possibilidade de tornar-se o conceito da vida mais fundamental e inclusivo do que o da força; e na nossa geração foi Bérgson quem retomou a idéia e quase converteu um mundo cético, graças a força da sua sinceridade e eloqüência.

Bérgson nasceu em Paris, em 1869, de descendência francesa e judia. Foi um ardoroso estudante que recolheu  todos os prêmios acenados pelo caminho. Prestou homenagem às tradições da ciência moderna especializando-se a principio em matemática e física, mas suas faculdade de analise breve o pôs face a face do problema metafísico que se esconde atrás de cada ciência; e voltou-se espontaneamente para a filosofia. Em 1878 entrou para a Escola Normal Superior,e depois de graduar-se foi nomeado para reger a cadeira de filosofia no liceu de Clermont-Ferrand. Lá, em 1888, escreveu o primeiro livro -  Essai sus lês domnées immédiates de la cosnciencie. Oito anos calmos se passaram antes que aparecesse o imediato – Matièreet Mémoire. Em 1898 tornou-se professor da Escola Normal, e em 1900, do Colégio de França. Em 1907 ganhou fama universal com a sua obra prima – L’Evolution Créatrice e passou a ser a figura mais popular do  mundo filosófico, tendo em 1914, para remate do seu sucesso, a inclusão dos seus livros no Index Expurgatorius. Nesse mesmo ano foi eleito para a Academia Francesa.

É curioso que Bérgson, o Davi destinado a abater o Golias do materialismo houvesse sido na mocidade um devoto de Spencer. Mas o muito conhecimento leva ao ceticismo; os mais devotados do primeiro momento são os mais prováveis apostatas, como os mais precoces pecadores se tornam santos na velhice. Mais estudou Spencer, mais ficou Bérgson consciente das três juntas reumáticas do materialismo mecanicista; o ponto ente a matéria e a vida, o ponto entre o determinismo e o livre arbítrio. A paciência de Pasteur havia desacreditado a fé na abiogenese [geração da vida pela matéria não-viva]; e depois de cem anos de teoria e de mim experiências vãs, os materialistas não estavam mais perto da origem da vida do que no começo. De novo embora o pensamento e o cérebro mostrassem suas ligações, o modo dessa ligação permanecia ignorado.

ð          Se o espírito era matéria e cada ato mental uma resultante mecânica de estados neurais, por que a consciência?

ð          Por que não poderia o mecanismo material do cérebro dispensar esses “epifenomenos”, como o honesto e lógico Huxley lhes chamou, essa aparentemente inútil flama emitida pelo calor da comoção cerebral?

ð          E, por fim, era o determinismo mais inteligível que o livre arbítrio?

Se o momento em que estamos nada encerra de escolha criativa, e tudo é totalmente o produto mecânico da matéria e do movimento do momento anterior, este, do momento que o procedeu, e assim por diante até chegarmos a nebulosa primária, causa total de todos os eventos posteriores, então cada verso de Shakespeare e cada sofrimento de sua alma e cada grito de Hamlet, Otelo, Machbeth ou Lear já estiveram remotissimamente nessa remotíssima nebulosa legendária. Que saque sobre a credulidade! Que volta à fé tal teoria exige desta geração descrente! Que mistério ou milagre do Novo ou do Velho Testamento será metade tão incrível como este mito fatalista – esta nebulosa compondo tragédias em um certo estágio do seu evoluir? Havia material bastante para a rebelião; e se Bérgson ganhou tão rápida fama foi porque teve  a coragem de duvidar do ponto em que todos os piedosos duvidadores criam.  


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Nietzsche_Consideração Final

“Quero o que aspira a criação de algo além de si mesmo e depois perece”, disse Zarathustra.

Indubitavelmente a intensidade do pensamento de Nietzsche consumiu-o prematuramente. A guerra contra o seu tempo desequilibrou-lhe o espírito; “é sempre uma coisa horrível combater o sistema moral de uma época; há reações vingadoras por dentro e por fora”. No fim da vida o trabalho de Nietzsche cresce em amargor; atacava pessoas e idéias – Wagner e Cristo. “Crescer em sabedoria”, escreveu, “pode ser exatamente medido pelo decrescer do amargor”. Mas não conseguia convencer sua pena. Até o riso tornou-se-lhe neurótico á medida que o espírito se quebrava; nada revela melhor o veneno que o corroia do que esta reflexão: “Talvez eu saiba por que é op homem o único animal que ri: tão excruciantemente sofre que foi compelido a inventar o riso”. Doença e cegueira progressiva eram os aspectos fisiológicos da sua queda. Começaram a sobrevir ilusões paranóicas de grandeza e perseguição: na dedicatória de um dos seu livros enviado a Taine declara que é a mais maravilhosa obra ainda escrita; e encheu seu ultimo livro, Ecce Homo, com os mais extremados louvores a si próprio.

Talvez um pouco mais de simpatia dos seus contemporâneos houvesse diminuído o seu egoísmo compensatório, e dado a Nietzsche melhor sanidade e melhores perspectivas. Taine enviou-lhe uma generosa palavra de louvor quando os mais o ignoravam ou o ultrajavam; Brandes cientificou-o de que havia aberto um curso de preleções sobre o “radicalismo aristocrático de Nietzsche” na universidade de Copanhegue; Strindberg escreveu-lhe dizendo que estava pondo as suas idéias em teatro e, talvez melhor que tudo, um admirador anônimo enviou-lhe um cheque de 400 dólares. Mas quando sobrevieram estes raios de luz já estava ele quase cego de corpo e alma, e com todas as esperanças abandonadas. “Meu tempo ainda não chegou; só o dia de depois de amanhã me pertence”.

O ultimo golpe lhe veio em Turim, janeiro de 1889, sob forma de um ataque apopletico. Nietzsche caiu de costas  no seu quarto; escreveu cartas loucas; a Cosima Wagner, quatro palavras – ‘Ariana, eu te amo”. A Brades, uma longa, assinada “O Crucificado”; e para Burchardt e Overbeck, missivas tão fantásticas que este ultimo correu em seu socorro. Encontrou-o batendo no piano com os ombros e gritando o seu êxtase dionisíaco.

Levaram-no para um hospício, de onde sua mãe o tomou consigo. Que quadro! A piedosa dama que havia sofrido pacientemente o choque da apostasia do filho, apostasia de tudo quanto lhe era caro e que nem por isso o amava menos, recebe-o nos braços, qual o Pietá. Vindo sua mãe aa falecer em 1897, Nietzche foi levado pela irmã para Weimar, onde Kramer lhe fez o busto, mostrando aquela poderosa cabeça reduzida a nada. Ele, entretanto, não era de todo infeliz na sua loucura; a paz e calma que jamais tivera nos anos da sanidade visitavam-no agora; a Natureza apiedara-se dele, enlouquecendo-o. Certa vez viu a irmã a  chorar e não lhe pode entender as lagrimas: “Por que chora, Lisbeth? Não se sente feliz, então?” perguntou. Outra vez em que ouviu falar de livros seu rosto iluminou-se: “Ah! Eu também escrevi alguns bons livros” – e o momento lúcido passou.

Morreu em 1900.Raramente um homem pagou maior preço pelo gênio.
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M.L.         

Nietzsche_Critica

É um belo poema, bem mais poema que filosofia. Sabemos que há absurdo aqui, e que o homem foi muito longe na tentativa de convencer-se e corrigir-se; mas podemos vê-lo sofrendo em cada linha e temos de amá-lo ainda quando nos choque. Há em nossa vida fases em que nos cansamos de sentimentalismo e ilusão, e ansiamos pelas picadas da duvida e da negação; Nietzsche nos aparece então como um tonico, como janela aberta depois de  longa cerimônia em igreja cheia. “Quem sabe respirar nos meus escritos reconhece que é o ar das alturas. Um homem precisa construir-se para suportá-lo; de outro modo as chances são de que tal ar o mate”. Não confundir este acido com leite para crianças.

E que estilo! “O mundo dirá algum dia que Heine e eu somos os maiores artistas que ainda escreveram em alemão, e que deixamos o melhor que qualquer alemão possa fazer a uma enorme distancia atrás”. E é assim [*Nietzsche considerava-se um pólo]. “Meu estilo dança”, diz ele; cada sentença é um dardo; a linguagem é ágil, vigorosa, nervosa; estilo do esgrimista, muito rápido e brilhante para olhos normais. Mas relendo-o percebemos que algo deste brilho é devido à exageração; a um interessante, mas ao cabo neurótico, egotismo; a uma fácil inversão de todas as noções aceitas -  o ridículo de cada virtude, o louvor de cada vicio; descobrimos que ele sente um deleite de calouro em chocar, e concluímos que é fácil ser interessante quando pomos de lado as peias da moralidade. As dogmáticas asserções, as generalizações, as proféticas repetições, as contradições – de outros, tanto quanto de si próprio – revelam um espírito que perde o prumo e oscila a beira da loucura. Por fim esse brilho por nos fatigar e nos dá nos nervos como chicotadas na carne, ou como a ênfase na conversa. Há muito da fanfarronice teutonica na violência do seu tom; nada do controle, que é o primeiro principio da arte; nada do equilíbrio, da harmonia e urbanidade que ele tanto admirava no francês. Não obstante, o estilo de Nietzsche é poderoso; domina-nos com a paixão; Nietzsche não prova – anuncia, revela; vence-nos mais com a imaginação do que com a lógica; dá-nos, não uma filosofia ou um mero poema, mas uma nova fé, uma nova esperança, uma nova religião.

Seu pensamento, bem como seu estilo, revelam-no como filho do movimento romântico.”Que há de um filosofo requerer de si mesmo, em primeiro e ultimo lugar? Sobre-pairar ao seu tempo e pôr-se fora do tempo”. Mas foi um conselho, que mais usou para infringir do que para seguir; fora batizado pela época, e com total imersão. Não compreendida como o subjetivismo de Kant – “o mundo é minha idéia” – como honestamente Schopenhauer frisava, houvesse determinado o “ego absoluto” de Fichte, e este o desequilibrado individualismo de Stirner, e este o amoralismo do super-homem [*Santayana: Egotism in German Philosophy]. O super-homem não é meramente o “gênio” de Schopenhauer, nem o “herói” de Carlyle, nem o Siegfried de Wagner; aparece-nos suspeitoso com o Karl Moor de Schiller e o Gotz de Goethe; Nietzsche tomou do jovem Goethe mais que a palavra Uebermensche – ao Goethe cuja calma da ultima fase ele motejava com inveja. Suas cartas estão cheias de sentimento romântico e “ternura”; “Eu sofro” é expressão que aparece em seus livros com a mesma freqüência que “Eu morro” nos de Heine. Chama-se a si próprio “alma mística e quase menadica”, e fala do Nascimento da Tregédia como “confissão de um romântico”. “Tenho medo”, escreveu a Brandes, “que eu seja muito musico para não passar de um romancista”. ‘Um autor deve silenciar quando a sua obra começa a falar”; mas Nietzsche nunca se oculta, e fala sempre na primeira pessoa. Sua exaltação do instinto contra o pensamento, do individuo contra a sociedade, de Dionisus contra Apolo [i.é, do romântico versus o classico], trai sua época tão precisamente  como a data do seu nascimento e de sua morte. Ele foi, para a filosofia moderna, o que foi Wagner para a musica – a culminação do movimento romântico, a maré alta; exaltou, libertou a “vontade” e o “gênio” de Schopenhauer de todos os empeços sociais, como Wagner libertou e exaltou a paixão acorrentada na Somata Patética e na Quina e Nona Sinfonias. Foi o ultimo rebento da linguagem de Rousseau.

Voltemos atrás agora, no caminho que com ele percorremos, para expor algumas das objeções com que fomos tentados a interrompê-lo. Nietzsche foi bastante agudo para nos últimos anos ver por si mesmo quanto o absurdo tinha contribuído para a originalidade do Nascimento da Tragédia. Eruditos como Wiamowitz-Moellendorff riram-se do livro. A tentativa de deduzir Wagner a Esquilo era a auto-imolação de uma jovem devota diante de um deus despótico. Quem teria pensado que a Reforma fosse “dionisíaca” – i.e., selvagem, amoral, vinhenta, bacanalica; e que a Renascença era o oposto – calma, discreta, moderada, “apoliena”? Quem teria suspeitado que o “socratismo fosse a cultura da opera?” O ataque a Socrates era o desdem de um wagneriano pelo pensamento lógico; a admiração por Dionisus era a idolatria pela ação de um homem sedentário [o mesmo com a apoteose a Napoleão], ou a secreta inveja de um coibido ante a máscula sexualidade dos garanhões.

Talvez Nietzsche estivesse certo no considerar a era pré-socratica como os dias alcionicos da Grécia; sem duvida que a Guerra do Peloponeso minou a base econômica e política da cultura do tempo de Péricles. Mas foi um pouco absurdo ver em Sócrates unicamente critica desintegradora [como se a própria função de Nietzsche não fosse principalmente essa] e não, também, um trabalho de salvamento para uma sociedade arruinada, menos pela filosofia do que pela guerra, corrupção e imoralidade. Somente um mestre em paradoxos pode colocar os obscuros e dogmáticos fragmentos de Heráclito acima da substanciosa sabedoria e alta arte de Platão. Nietzsche denuncia Platão. Nietzsche denuncia Platão, como denuncia todos os seus credores -  nenhum homem pode permanecer herói para o seu devedor; mas que é a filosofia de Nietzsche senão a ética de Trasimacus e Calicles e a política de Platão e Sócrates? Com toda a sua filologia ele nunca penetrou completamente o espírito dos gregos; nunca aprendeu a lição de que moderação e conhecimento de si próprio devem nutrir sem cessar os fogos da paixão e do desejo; que Apolo deve limitar Dionisus. Muitos descrevem Nietzsche como um pagão, mas há erro nisso; nem pagão grego, como Péricles, nem pagão germânico, como Goethe; faltava-lhe o equilíbrio e a dominação de si que fizeram a força desses homens. “Eu devolveria aos homens a serenidade que é condição de toda cultura, mas, ai! Como pode devolver quem não tem?” escreveu ele.

De todos os livros de Nietzsche Zarathustra é o mais resistente a critica, porque é o mais obscuro e também porque o seu inexpugnável mérito inibe o critico. A idéia da eterna recorrência das coisas, embora tão comum ao “apolineo” Spencer quanto ao “dionisíaco” Nietzsche, choca-nos como um esforço de ultima hora para recobrar a fé na imortalidade. Todos os críticos tem notado a contradição entre a intrépida pregação do egoísmo e o apelo ao altruísmo e sacrifício no preparo para o advento do super-homem. Mas quem, lendo esta filosofia, se classificará como servo e não como super-homem?

Quanto ao  sistema ético do Além do Bem e do Mal e da Genalogia da Moral, não passa de uma exageração estimulante. Reconhecemos a necessidade de requerer que os homens sejam mais bravos e mais duros – quase todas as filosofias éticas tem pedido isto; mas não há necessidade de pedir ao povo para ser cruel e ‘mais mau’. E não é grande coisa queixar-se de que a moralidade é a arma usada pelos fracos para limitar os fortes; os fortes não se impressionam profundamente com a moral e fazem a seu turno um hábil uso dela: os códigos éticos são impostos mais de cima para baixo do que o contrário; a multidão louva ou  condena por espírito de imitação. É igualmente bom que a humanidade seja ocasionalmente maltratada; “temos tido deprecação e encolhimentos demais”, mas ninguém observa super-abundancia de humildade no caráter moderno. Nietsche aqui se mostra curto daquele senso histórico que tanto louva como necessário ao filosofo; ou teria visto a doutrina da humildade de coração como o antídoto forçado as belicosas virtudes dos bárbaros que quase destruíram, no primeiro milênio da era cristã, aquela mesma cultura para a qual ele sempre se voltava como para um refugio. Será certo que esta selvagem ênfase da força e do  movimento seja eco de uma era febril e caótica? Essa supostamente universal “vontade de poder” dificilmente exprime a quietude dos hindus, a calma do chinês ou a satisfeita rotina do campônio medieval. Poder é o ídolo de muita gente; mas a maioria prefere segurança e paz.

Em regra, como os leitos terão percebido Nietzsche deixa de reconhecer o lugar e o valor dos instintos sociais; julga que os impulsos egoísticos necessitam de reforço da filosofia! Queríamos saber onde estavam os olhos de Nietzsche quando, em virtude de guerras egoístas, toda a Europa esquecia aqueles hábitos de cultura e as aquisições que ele tanto admirava e que dependem da cooperação e da amenidade social. A função mestra do cristianismo tem sido moderar pela inculcação de um ideal de suavidade a nativa brutalidade do homem; e qualquer pensador que tema terem os homens perdidos em egoísmo por excesso de virtudes cristãs, basta que olhe em redor de si para ficar sossegado.

Solitário por doença e nervoso, é forçado a guerra contra a mediocridade e indolência dos homens, Nietzsche foi levado a supor que todas as grandes virtudes são as virtudes do homem que se isola. Passou da submersão do individuo na espécie, de Schopenhauer, a uma desequilibrada liberação de todo controle social do individuo; sem família e amigos, nunca soube que os mais belos momentos da vida procedem da mutualidade e da camaradagem do que da dominação e da guerra. Não viveu bastante, ou com bastante largueza para amadurecer as suas meias verdades em sabedoria. Talvez que se tivesse vivido mais anos transformasse seu  estridente caos em uma filosofia harmoniosa. Melhormente se aplicam a ele próprio as palavras que disse de Jesus:”Morreu muito cedo;teria ele mesmo modificado a sua doutrina” se alcançasse a idade madura; “bastante nobre para revogá-la ele era”. Mas a morte tinha outros planos.

Talvez em política sua visão fosse mais sadia do que na ética. A aristocracia é o ideal do governo; quem o negará? ‘Há em cada nação um mais sábio, mais bravo e melhor, que temos de  descobrir e por no trono. Mas a arte de descobri-lo?” Quem é o melhor? Aparecem os melhores somente em certas famílias e isso justifica a aristocracia hereditária? Mas já a tivemos, e  essa aristocracia levou-nos a perseguições, irresponsabilidade de classe e estagnação. Talvez as aristocracias fossem salvas com mistura de sangue da classe media – e assim a Inglaterra conservou a sua. Mas se essa mistura degenera? Há muitos aspectos nestes árduos problemas contra os quais Nietzsche arremessou seus Sins e Nãos. As aristocracias hereditárias não querem a  unificação do mundo; tendem para uma estreita política nacionalista, por mais cosmopolita que tenham a conduta; se abandonam o nacionalismo, perdem uma das fontes do poder -  a manipulação das relações estrangeiras. E talvez um estado mundial não seja tão benéfico a cultura como a imagina Nietzsche; as grandes massas movem-se muito lentas; e a Alemanha provavelmente fez mais pela cultura quando era apenas uma “expressão geográfica”, com cortes independentes e rivais no patrocínio das artes, do que depois de unificada em império e expandida; não foi um imperador que mimou Goethe e salvou Wagner.

É uma ilusão vulgar que os grandes períodos de cultura  tenham sido eras de aristocracia hereditária; ao contrário, os florescentes períodos de Péricles, dos Medicis, e de Isabel, como a idade romântica, foram nutridos com a riqueza da burguesia em ascenção; e o trabalho criativo na arte e na literatura não foi realizado pelas famílias aristocraticas e sim pelos filhos das classes medias – por homens como Sócrates, filho do povo, e Voltaire, filho de um advogado, e Shakespeare, filho de um carniceiro. São as épocas de movimento e mudanças que estimulam a criação cultural; épocas em que uma nova e vigorosa classe se ergue para o poder e o orgulho. E também assim em política: seria suicídio excluir do estadismos gênios com falta de pedigree aristocrático; a melhor formula, por certo, é “a carreira aberta ao talento”, proceda de onde proceder; sejamos dirigidos por todos os melhores. Uma aristocracia é boa somente quando formada de um corpo de homens cujas credenciais para o poder sejam a capacidade apenas – uma aristocracia constantemente selecionada e  nutrida pela oportunidade aberta a todos.

Depois de todas estas deduções que resta? Muito ainda. Nietzsche tem sido refutado por todos os aspirantes a respeitabilidade; e apesar disso permanece como um marco de pedra no campo do pensamento moderno e como um pico de montanha na prosa alemã. Sem duvida que foi um pouco exagerado quando predisse que o futuro dividiria o passado em duas fases – “Antes de Nietzsche e Depois de Nietzsche”; mas conseguiu realizar uma sadia revisão critica de instituições e opiniões que por séculos vinham sendo consideradas intangíveis. Desvendou novas vistas quanto ao drama e á filosofia grega; mostrou o vírus da decadência romântica na musica de Wagner; analisou a natureza humana com sutileza cortante como o bisturi do cirurgião. Desenterrou algumas raízes ocultas da moralidade, coisa não feita por nenhum pensador moderno. Introduziu “um valor até então praticamente desconhecido nos reinos da ética – aristocrática”. Compeliu a uma honesta tomada em consideração das implicâncias éticas do darwinismo. Escreveu o maior poema em prosa do século. E acima de tudo concebeu como alguma coisa que o homem deve sobre-exceder. Falou com amargura, mas com preciosa sinceridade, e seus pensamentos vararam as nuvens e teias de aranha do espírito humano, iluminando como o raio e varrendo como o vento. O ar da filosofia européia está hoje mais claro e fresco em conseqüência do que Nietzsche escreveu.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Nietzsche_Aristocracia

A democracia significa enxurro; significa permissão dada a cada parte do organismo de fazer o que quer; significa lapso de coerência e interdependência, entronização da liberdade e do caos. Significa adoração da mediocridade e ódio à superioridade. Impossibilidade de grandes homens – como poderia um grande homem submeter-se as indignidades e indecências de uma eleição?  Que chances teria ela nela? “O que é odiado pelo povo, como o lobo pelos cães, é o espírito livre, o inimigo dos grilhões, o não-adorador”, o homem que não é “membro de um partido”. Como pode o super-homem erguer-se em tal ambiente? E como pode uma nação tornar-se grande, quando seus maiores homens permanecem açaimados, desencorajados, desconhecidos? Tal sociedade perde o caráter; a imitação é horizontal em vez de vertical – não o homem superior, mas o homem da maioria pode tornar-se o ideal e modelo; todo mundo fica parecido com todo mundo; ainda os sexos se similarizam – os homens se tornam mulheres e as mulheres, homens.

O feminismo aparece então como o corolário natural da democracia e do cristianismo. ‘Aqui há pouco de homem; por isso as mulheres procuram varonizar-se. Porque somente o que há de homem em uma mulher salva a mulher na mulher”. Ibsen, “essa típica velha solteirona”, criou a “mulher emancipada”. “A mulher foi feita de uma costela do homem?  - que espantosa é a pobreza das minhas costelas! Diz o homem”. A mulher perdeu força e prestigio com a sua “emancipação”; onde encontrará agora a posição que tinha no tempo dos Bourbons? A igualdade entre o homem e a mulher é impossível porque a guerra entre eles é eterna; não há lugar para paz sem vitória; a paz só vem quando um domina o outro e é reconhecido senhor. É perigoso experimentar a igualdade com uma mulher; ela não se contentará com isso; quererá a subordinação do homem. Acima de tudo, a perfeição e felicidade da mulher jaz na maternidade. “Tudo na mulher é enigma e tudo na mulher tem uma resposta: criar filhos”. “O homem é para a mulher um  meio; o fim é sempre o filho”. Mas que é a mulher para o homem?...Um brinquedo perigoso”. “O homem será educado para a guerra e a mulher para a recreação do guerreiro; tudo mais é loucura”. Todavia “a mulher perfeita é um mais alto tipo de humanidade que o homem perfeito, e também muito mais raro...Nunca somos demasiado brandos para com a mulher”.

Parte da tensão do casamento jaz em que é a realização da mulher e a restrição ou esvaziamento do homem. Quando um homem corteja uma mulher, promete dar-lhe o mundo inteiro, e quando se casa, assim o faz; há que esquecer o mundo logo que os filhos sobrevêm; o altruísmo do amor torna-se o egoísmo da família. Honestidade e inovação são luxos do celibato. “Sempre que se trata de alto pensamento filosófico o homem casado se faz suspeito...Parece-me absurdo que um homem que visualiza a existência como um todo possa sobrecarregar-se com os cuidados da família, com a luta pelo pão, segurança e posição social da mulher e filhos”.Muito filosofo morreu no momento em que os filhos vieram.”O vento soprou através do buraco da fechadura dizendo: Vem!  Minha porta abriu-se por si mesma dizendo: Vai! Mas eu fiquei, algemado pelo amor aos meus filhos”.

Com o feminismo vem socialismo e anarquismo; formas residuais da democracia; se a igualdade política é justa, por que  não a igualdade econômica? Por que motivo haver chefes?  Por que motivo haver chefes? Socialistas haverá que admirem o livro de Zarathustra, mas essa admiração não é desejada. ‘Há alguns que pregam a minha doutrina da vida e ao mesmo tempo são pregadores da igualdade. Eu não quero ser confundido com esses pregadores de igualdade. Porque dentro de mim a justiça diz “Os homens não são iguais”. “Nós nada desejamos possuir em comum”. A natureza nega a igualdade; quer diferenciação de indivíduos e classes e espécies. O socialismo é anti-biologico; o processo da evolução envolve a utilização das espécies e raças e indivíduos inferiores pelos superiores; a vida subsiste de outra vida; os grandes peixes comem os pequenos e nisso se resume a historia. Socialismo é inveja: “eles querem qualquer coisa que nós temos” [*Quando escreveu estas aristocráticas passagens Nietzsche estava vivendo em uma água-furtada, com mil dólares por ano, a maior parte dos quais era gasta na publicação dos seus livros]. É todavia um movimento fácil de dirigir; tudo quanto é necessário fazer consiste em abrir ocasionalmente a velha porta que separa os senhores dos escravos e deixar que os lideres do descontentamento penetrem no paraíso. Nada a temer dos lideres, mas sim dos mais abaixo, dos que julgam que pela revolução podem fugir a uma subordinação que é o natural resultado da sua incompetência ou preguiça. Entretanto, o escravo é nobre quando se revolta.

Em qualquer caso o escravo é mais nobre que os seus modernos senhores – a burguesia. Vale por sinal de inferioridade da cultura do século dezenove que o homem de dinheiro possa ser objeto de tanta adoração e inveja. Mas esses homens de negócios são também escravos, bonecos da rotina, vitimas da pressa; não tem tempo para novas idéias; pensar lhes é tabu, e as alegrias do intelecto estão fora do seu alcance. Daí sua inquietação e  perpetua procura da “felicidade”, suas grandes casas que nunca se tornam lares, seu luxo vulgar e sem gosto, suas galerias de  “originais” com o preço em baixo das telas, seus divertimentos sensuais, que embotam em vez de refrescar ou estimular o espírito. “Olhem-me para estes supérfluos! Adquirem riquezas e tornam-se mais pobres”; aceitam todas as restrições da aristocracia sem o compensador acesso ao reino do espírito. De nada vale tais homens possuírem riqueza, porque não lhes pode dar dignidade por meio de um uso nobilitante, patrocinando letras e artes. “Somente o homem de intelecto devia ter propriedades”; todos os outros pensam na propriedade como um fim em si e perseguem-na cada vez mais inquietos – olhai para a “atual das nações que querem acima de tudo produzir o mais possível e ser ricas o mais possível”. Por fim os homens se tornam aves de presa; “vivem em emboscadas: tomam coisas dos outros esperando-os na tocaia. Isto é por eles chamado boa vizinhança...Procuram tirar os mínimos proveitos de toda sorte de lixo”. Hoje a moralidade mercantil nada mais é realmente senão refinamento da moralidade dos piratas -  comprar pelo mínimo e vender pelo Maximo”. E esses homens clamam por laissez-faire – por serem deixados sós, eles, os homens que mais necessitam supervisão e controle. Talvez algum grau de socialismo, perigoso como isto é, possa ser justificado aqui: “tomaremos todos os ramos de transporte e comercio que favorecem o acumulo de grandes fortunas – e especialmente o mercado de dinheiro -  das mãos de particulares ou de associações de particulares, e olharemos para os que possuem muito, bem como para os que nada possuem, como tipos perigosos para a comunidade”.

Acima do burguês e abaixo do aristocrata permanece o soldado. Um general que se utiliza de soldados no campo de batalha, onde eles podem gozar da alegria de morrer anestesiados pela glória, é muito mais nobre do que o patrão que utiliza homens nas suas maquinas de ganhar dinheiro; observe-se com que alivio o operário troca a fabrica pelos campos de chacina. Napoleão não era um carniceiro e sim um benfeitor; dava aos homens morte com honras militares, em vez de morte pelo atrito econômico; o povo afluía para os seus estandartes mortais,, porque preferia os riscos da batalha a intolerável monotonia de mais outro milhão de abotoaduras. “A Napoleão será reconhecida a glória de ter feito por certo tempo um mundo no qual o homem, guerreiro, valia mais que o negociante e o filistino”. A guerra é um admirável remédio para os povos que começam a enfraquecer-se e a acomodar-se desprezivelmente; excita os instintos que  a paz adormenta. Guerra e serviço militar são os antídotos naturais da efeminização democrática. ‘Quando os instintos de uma sociedade fogem da guerra e da conquista, a sociedade está decadente e madura para a democracia e para o governo dos negociantes”. Todavia as causas da guerra moderna serão tudo, menos nobres; as guerras religiosas e dinasticas eram mais belas que as comerciais. “Dentro de cinqüenta anos era babel de governos [as democracias da Europa] irão chocar-se em uma guerra gigantesca para a conquista dos mercados do mundo” [*Esta predição foi escrita em 1887]. Mas talvez desta loucura sobrevenha a unificação da Europa – um fim para o qual ainda uma guerra de comercio não seria preço muito alto. Porque unicamente de uma Europa unificada pode emergir a alta aristocracia que redimirá a Europa.

O problema da política é evitar que o homem de negócios governe. Porque esse homem tem a vista curta e a ganância de um  político, mas não a amplitude de horizontes do aristocrata nato, treinado no estadismo. Os homens mais altos governam por um direito divino – isto é, pelo direito da sua natura superioridade. O homem simples tem seu lugar, mas não é no trono. No seu lugar o homem simples é feliz e suas virtudes são tão necessárias a sociedade como as do líder; “seria indigno de um espírito profundo considerar a mediocridade em si como uma abjeção”.  A industriosidade, a economia, a regularidade, a moderação, a convicção forte – com estas virtudes o homem mediano se torna perfeito – mas perfeito apenas como instrumento. “Uma alta civilização é uma pirâmide; só pode levantar-se sobre uma base larga; exige uma forte e solidamente consolidada mediocridade”. Sempre e em toda parte uns serão lideres e outros, seguidores; a maioria será compelida a trabalhar sob a direção intelectual dos homens superiores e com isso se sentirá feliz.

*Onde quer que encontremos coisas vivas, aí ouvimos falar de obediência. Todas as coisas vivas são coisas que obedecem. E também ouvimos isto: é comandado aquele que não pode obedecer a si próprio. Esta é a lei das coisas vivas. E ainda ouvimos isto: comandar é mais difícil do que obedecer. O comandante suporta a carga de todos que obedecem, a essa carga facilmente o esmaga – um esforço e um risco estão implicados em todo comendo e sempre que coisas vivas comandam elas se estão arriscando. 

A sociedade ideal, portanto, será dividida em três classes: produtores[agricultores, proletários e homens de negócios], oficiais [soldados e funcionários] e dirigentes. Estes últimos governarão mas não em cargos; o trabalho real de governo é subalterno. Os dirigentes serão antes filósofos-estadistas do que funcionários. Seu poder se apoiará no controle do credito e das armas; e eles viverão mais como soldados do que como financeiros. Serão os guardiões concebidos por Platão; Platão estava certo; os filósofos são os  homens superiores. Serão homens refinados e  também de coragem e força; eruditos e generais a um tempo. Unidos por cortesia e espírito de corpo: “Esses homens se conservarão rigorosamente dentro dos limites por moralidade, veneração, costume, gratidão e sobretudo por fiscalização recíproca, por ciúmes inter pares; e por outro lado, em sua atitude de uns para com outros, serão inventivos em consideração, domínio de si, delicadeza, orgulho e amizade”.

Será esta aristocracia uma casta, e o seu poder hereditário? Em grande parte, sim, com ocasionais rupturas para entrada de  sangue novo. Mas não será contaminada e enfraquecida por misturas matrimoniais com ricos vulgares, segundo o habito da aristocracia inglesa; foi esse gênero de corrupção que arruinou o maior corpo governante que o mundo ainda viu -  o senado romano. Não há “acidente de nascimento”; cada nascimento é o veredicto da natureza sobre um casamento; e o homem perfeito só vem depois de gerações de seleção e preparação; “os ancestrais de um homem pagaram o preço do que ele é”.

Ofende isto aos nossos tímpanos democráticos? Mas “as raças que não podem suportar esta filosofia estão condenadas; e as que a olham como a maior das bênçãos estão destinadas a senhorear o mundo”. Unicamente uma tal aristocracia pode ter a visão e a coragem para fazer da Europa uma nação, acabando com o bovino nacionalismo, o miudo Vaterlanderrei. Sejamos “bons europeus”, como Napoleão, Goethe, Beethoven, Schopenhauer, Stendhall e Heine. Por muito tempo havemos sido pedaços do que se pode reunir em todo. Como há de uma grande cultura desenvolver-se neste ambiente de preconceitos patrióticos e estreito provincianismo? O tempo da política miúda passou; há compulsão hoje para a política larga. Quando aparecerão a nova raça e os novos chefes? Quando nascerá a Europa?   

domingo, 19 de junho de 2011

Nietzsche_Democracia_Decadência

Conseqüentemente, o caminho para o super-homem jaz na aristocracia. Democracia – “esta mania de contar narizes” – deve ser erradicada enquanto é tempo. O primeiro passo será a destruição do cristianismo nos homens mais altos. O êxito de Cristo foi o começo da democracia: “o primeiro cristão era, dentro dos seus instintos mais profundos, um revoltado contra tudo que era privilegiado; vivia e lutava irremitentemente por “direitos iguais” e nos tempos modernos seria enviado para a Sibéria. “Aquele que é o maior dentro vós – fazei dele vosso servo” – isto é a inversão de toda sabedoria política e de toda sanidade; realmente, quem lê o Evangelho sente uma atmosfera de romance russo; uma espécie de plágio de Dostoievski. Unicamente entre os humildes tais noções poderiam enraizar; e só em uma idade em que os imperantes haviam degenerado e cessado de imperar. “Quando Nero e Caracala subiram ao trono deu-se o paradoxo de que os mais baixos homens valiam mais que os ocupantes da curul suprema”.

Como a conquista da Europa pelo cristianismo foi o termo da antiga aristocracia, assim o derrame pela Europa dos belicosos barões teutonicos trouxe o renascimento das velhas virtudes másculas, plantando as raízes das modernas aristocracias. Esses homens não estavam sobrecarregados com ‘morais’; eram “livres de qualquer estrição social; no ingênuo da sua consciência de selvagens saiam exultantes de uma horrível congerie de matanças, incêndios, rapina, tortura, e com arrogância e alegria, como se apenas se tratasse de brincadeiras de estudantes”. Foram esses homens que abasteceram as classes dirigentes da Alemanha, Escandinávia, França, Itália e Russia.

*Manadas de louros animais de presa, raça de conquistadores e senhores com organização militar, com poder de organizar sem nenhum escrúpulo, colocando as patas terríveis sobre populações muito superiores em numero...essas manadas fundaram o Estado. Dissipa-se o sonho de que o Estado se formou por um contrato. Que tem a fazer com contratos quem pode dominar, quem é senhor por natureza, quem entra em cena com violência nos feitos e nas idéias?

Esta esplendida raça dirigente foi logo corrompida, primeiro pelo louvor das virtudes femininas; segundo, pelos ideais plebeus da reforma puritana; e terceiro, pelo inter-casamento com raças inferiores. Logo que o catolicismo começou a amadurecer na aristocracia e amoral cultura da Renascença, a Reforma esmagou-o com a revivescencia do rigor e da solenidade judaicas. “Já compreendeu alguém, quer alguém compreender o que era a Renascença? A transmutação de valores cristãos, tentativa empreendida em todos os meios, todos os instintos e todos os gênios para criar valores opostos, para criar o triunfo dos valores nobres...Vejo diante de mim uma possibilidade perfeitamente mágica no entanto da sua cor gloriosa...Cesar Borgia papa...Compreende-me?
O protestantismo e a cerveja haviam enevoado o pensamento alemão; acrescente-se agora a musica de Wagner. Como resultado, “a Prússia de hoje é uma das mais perigosas inimigas da cultura”. “A presença de um alemão retarda a minha digestão”. “Se, como diz Gibbon, nada a não ser tempo e muito tempo é necessário para que um mundo pereça; assim nada senão tempo, embora ainda mais tempo, é necessário para que uma idéia falsa seja destruída na Alemanha. Quando a Alemanha derrotou Napoleão isso foi tão desastroso para a cultura como quando Lutero derrotou a Igreja; desde esse momento a Alemanha começa a afastar seus Goethes e Schopenhauers e Beethovens para adorar “patriotas”; o Deutschland über Alles foi o fim da filosofia alemã”. Havia, entretanto, uma natural seriedade e profundidade nos alemães que esperavam redimir a Europa; tinham mais virtudes masculinas que os franceses e ingleses; tinham perseverança, paciência, industriosidade – daí sua erudição, sua ciência e sua disciplina militar; é deleitoso ver como toda a Europa se incomoda com o exercito alemão. Se o poder de organização germânica pudesse operar com os recursos potenciais da Rússia, a Alemanha atingiria o apogeu da grande política.

*Precisamos de uma inter-mistura com os eslavos e precisamos dos mais hábeis banqueiros, os judeus, para nos tornarmos os donos do mundo...Precisamos de uma incondicional união com a Rússia”. A alternativa é cerceio e estrangulação.

O mal com a Alemanha é uma certa estolidez de espírito, conseqüência da solidez de caráter; a Alemanha perde a longa tradição de cultura que fez da França o mais refinado e sutil povo da Europa. “E creio unicamente na cultura francesa e olho tudo mais que na Europa tem nome de cultura como equivoco”.

Quando uma pessoa lê Montaigne, La Rochefoucauld, Vauvenargues e Chamfort sente-se mais perto da antiguidade do que lendo qualquer outro grupo de autores de qualquer outra nação. “Voltaire é um grão senhor do espírito”; e Taine, “o primeiro dos historiadores vivos”. Ainda os novos escritores franceses, Flaubert, Bourget, Anatole, etc., estão infinitamente acima dos outros europeus, em clareza e pensamento e língua – “que clareza e delicada precisão, a destes franceses!” A nobreza do gosto, do sentimento e das maneiras da Europa é obra da França. Mas da velha França dos séculos dezesseis e dezessete; a revolução, destruindo a Aristocracia, destruiu o veiculo e o canteiro da cultura, e agora a alma da França está delgada e pálida em comparação do que já foi. Não obstante subsistem algumas finas qualidades; “ na França quase todas as questões artísticas e psicológicas são consideradas com muito cuidado e sutileza do que na Alemanha...No próprio momento em que a Alemanha se erguia como grande potencia na política, a França ganhava nova importância no mundo da cultura.

A Rússia é o animal louro da Europa. Seu povo tem um “teimoso e resignado fatalismo que lhe dá ainda hoje vantagem sobre nós ocidentais”.

A Russia possui governo forte, sem “imbecilidade parlamentar”. Força de vontade vem de longe se acumulando lá, e agora ameaça de explodir; não seria surpreendente que se tornasse a dominadora da Europa. “Um pensador que tenha em vista o futuro da Europa levará em conta, em todas as suas perspectivas, os judeus e os russos, como os mais seguros e sólidos fatores na grande peça do choque das forças”. Mas de todos os povos é o italiano o mais fino e vigoroso; o homem-planta cresce fortíssimo na Itália, como basofiou Alfieri. Existe uma atitude varonil, um orgulhoso aristocrático ainda no mais baixo italiano; “um pobre gondoleiro de Veneza faz sempre melhor figura do que um geheimrath de Berlim, e no fundo é um melhor homem”.

Os piores de todos são os ingleses; foram os corruptores do espírito francês com a ilusão democrática; “os lojistas, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas se entendem”. O utilitarismo e o filistinismo inglês constituem o nadir da cultura européia. Unicamente em uma terra de feroz competição comercial pode alguém conceber a vida como a mera luta pela existência. Só em uma terra onde os lojistas e armadores se multiplicaram em tal numero a ponto de submergir a aristocracia, era possível a fabricação da democracia, foi este o presente dos gregos que a Inglaterra deu ao mundo moderno. Quem salvará a Europa da Inglaterra e a Inglaterra da Democracia?  

Nietzsche_O Super-Homem

Assim como a moralidade jaz na força e não na bondade, assim o objetivo do esforço humano não devia ser a elevação de todos, mas o desenvolvimento dos mais perfeitos e fortes indivíduos. Não o gênero humano, mas o super-homem é a meta. A ultima coisa que um homem deve empreender é o melhoramento do gênero humano; o gênero humano não melhora – e nem existe, é uma abstração; o que existe é um vasto formigueiro de indivíduos. O aspecto do todo é muito mais semelhante  ao de uma enorme fabrica experimental onde em cada época alguma coisa sai bem feita enquanto a maioria falha; e o alvo de todas as experiências não é a felicidade da massa, mas o melhoramento do tipo. Melhor que as sociedades se extingam do que tipos de eleição deixem de aparecer.

A sociedade é instrumento para realce do poder e da personalidade do individuo; o grupo não é em si um fim. “Para que haveria maquinas se todos os indivíduos só servissem para as conservar?” Maquinas – ou organizações sociais – “que sejam fins em si – é esta a comédia humana”.

A principio Nietzsche falou como se as suas esperanças fossem para a produção de uma nova espécie; depois foi levado a pensar do seu super-homem como o individuo superior que se erguia precariamente do chavascal da mediocridade e devia sua existência mais a cuidadosa criação do que aos acasos da seleção natural. Porque o processo biológico é inútil aos indivíduos de exceção; a natureza mostra-se crudelíssima para com os seus mais altos produtos, e, ao contrário, protege a media, o medíocre; há na natureza uma perpetua reversão ao tipo, ao nível da massa – uma recorrente dominação do melhor pelo mais. O super-homem pode sobreviver unicamente pela seleção humana, pela previsão eugênica e por uma nobre educação.

Que absurdo, portanto, deixar que os mais altos tipos casem por amor – heróis com criadas, gênios com costureiras! Schopenhauer não tinha razão. O amor não é eugênico; quando um homem está amando não está em situação de tomar decisões que he afetem a vida inteira; não lhe é dado ao mesmo tempo  amar e ser sábio. Devíamos declarar nulos os votos de amor e  fazer do amor um impedimento legal para o casamento. O melhor só deverá casar com o melhor; e o amor deixado para a canalha. O fim do casamento não é apenas a reprodução; é também desenvolvimento.

8Tú és jovem e anseias por casamento e filhos. Mas, pergunto, és homem que ouses desejar um filho? És acaso um vitorioso, um dominador de ti próprio, um comandante dos teus sentidos, um senhor das tuas virtudes? – ou em teu desejo só fala o animal, a necessidade? Ou a solidão? Ou discórdia contigo mesmo? Eu quero que tua vitória e liberdade desejem um filho. Construirás monumento vivo sobre tua vitória e liberdade. Construirás para além de ti mesmo. Mas primeiro tens de construir-te sólido de alma e corpo. Não apenas propagar, mas propagar-se para cima! Casamento: assim eu chamo a vontade de dois para criar um que seja mais que os que o geraram.

Sem bom nascimento, impossível a nobilidade. “O intelecto apenas não nobilita: ao contrário, alguma coisa sempre falta para enobrecer o intelecto. Que falta? Sangue...[Não me refiro aqui ao “de” do Almanaque de Gotha: isto é parentesco para asnos]”. Mas dado o bom nascimento e a origem eugênica, o próximo fator na formula do super-homem é uma escola severa onde a perfeição seja exigida como matéria de curso; onde o corpo seja ensinado a sofrer em silencio e a vontade aprenda a obedecer e comandar. Não contra-senso libertário, não enfraquecimento da espinha física e moral pela indulgência e “liberdade”! Mas a escola onde se ensine a alegria do coração; os filósofos serão graduados segundo sua capacidade para rir; Aquele que escala as mais altas montanhas rir-se-á de todas as “tragédias”. E não haverá “ácido moralico” nesta educação do super-homem; um ascetismo da vontade, não condenação da carne. “Não pareis de dançar, lindas jovens! Nenhum estragador da vida vos está olhando com maus olhos ... nenhum inimigo das moças de belos tornozelos” [*Anticristo]. Mesmo o super-homem deve ter gosto pelos belos tornozelos.

Um homem desse modo nascido e criado estaria além do bem e do mal; não hesitaria em ser böse, se seus propósitos o requeressem; seria antes destemeroso do que bom. “Que é ser bom?... Ser bravo é bom”. Tudo quanto aumenta o sentimento de poder, a vontade de poder, o poder em si. Que é mau [schlecht]? Tudo que vem da fraqueza”. Tudo que vem da fraqueza”. Talvez a marca dominante do super-homem seja amor ao perigo e a luta, contanto que tenha um alto propósito: jamais sobreporá a tudo a segurança; deixará essa felicidade para o grande numero. “Zarathustra adorava os que fazem viagens longas e não gostam de viver sem perigos”. Daí toda guerra ser boa, a despeito da vulgar mesquinharia das suas causas nos tempos modernos; “uma boa guerra sana qualquer causa”. Ainda a revolução é boa; não em si, porque nada pode ser mais infortunado que o predomínio das massas; mas porque os tempos de luta desabrocham a grandeza latente de indivíduos que antes não encontravam bastante estimulo ou oportunidade; do bojo do caos emerge a estrela; do torvelino da Revolução Francesa saiu Napoleão; da violência e desordem da Renascença, brotaram poderosas individualidades – e em tal abundancia que a Europa não as pode suportar.

Energia, intelecto e orgulho – isso faz o Super-Homem. Mas precisam ser harmonizados; as paixões tornar-se-ão força unicamente quando selecionadas e unificadas por algum grande propósito, que molde o caos dos desejos no poder de uma personalidade. “Maldição para o pensador que não é jardineiro, e sim apenas o solo das suas plantas!” Esse que só segue seus impulsos, quem é? O débil; falta-lhe o poder para inibir; não é bastante forte para dizer Não; é uma discórdia, um decadente. Disciplinar-se, eis a coisa suprema. “O Homem que não deseja ser apenas um da massa, tem de cessar de ser leniente consigo mesmo”. Ser duro pra com os outros, porém ainda mais duro consigo mesmo; fazer tudo menos trair um amigo – isto é a patente final nobreza, a ultima formula do super-homem.

Unicamente vento tal homem como a meta e a recompensa do nosso esforço é que podemos amar a vida e viver em ascensão. “Precisamos ter um alvo por amor do qual sejamos todos caros uns aos outros”. Sejamos grandes, ou servos e instrumentos dos grandes; que belo quadro quando milhões de europeus se ofereceram como instrumentos para os fins de Bonaparte e por ele caíram alegremente murmurando o seu nome! Talvez dentre nós aquele que compreende possa tornar-se o profeta daquele que não podemos ser e possa preparar o caminho para o seu advento; podemos nós todos, de todas as terras e épocas, trabalhar juntos, embora separados, para este fim. Zarathustra exultará, ainda em seu sofrimento, se puder ouvir as vozes destes auxiliares ocultos, destes partidários do homem mais alto. “Vós, solitários de hoje, vós que vos conservais a parte, vós sereis um dia um povo; de vós um povo eleito emergirá – e desse povo, o SUPER-HOMEM”.           

Nietzsche_Moralidade Heróica

Para Nietzsche Zarathustra se torna um evangelho do qual seus últimos livros não passam de comentários. Se a Europa não apreciasse sua poesia talvez compreendesse sua prosas. Depois do canto do profeta, a lógica do filosofo. Um filosofo não pode descer da lógica, que quando não for um selo de prova é um instrumento de claridade.

Nieztsche estava mais só porque Zarathustra parecera estranho até para seus próprios amigos. Eruditos como Overbeck e Burkhardt, que tinham sido seus colegas em Basle e admirado o  Nascimento da Tragédia, lamentaram a perda de um brilhante filosofo, mas não puderam celebrar o nascimento de um poeta. Sua irmã [que já havia justificado suas vistas de que para um filosofo uma irmã é uma admirável substituta da esposa] deixou-o subitamente para casar-se com um daqueles anti-semitas que Nietzsche desprezava e partiu para o Paraguai com o fim de formar uma colônia comunista. Para beneficio da saúde do irmão ela insistiu em levá-lo, mas Nietzsche, que dava mais apreço a vida do espírito que a do corpo, ficou no campo de batalha; a Europa lhe era necessária “como um museu de cultura” [*Em Figgis:The Will to Freedom]. Viveu a partir daí de deu em deu; experimentou a Suiça, Genova, Nice e Turim. Gostava de escrever no meio dos pombos que revoavam em redor dos leões de S. Marcos – “esta Piazza San Marco é o meu melhor gabinete”. Mas tinha de seguir o conselho de Hamlet, quanto ao sol, que lhe fazia mal aos olhos e trancou-se em um sótão frio, trabalhando de janelas fechadas. Em vista do mau estado dos olhos não escreveu mais livros e sim aforismos.

Reuniu depois parte destes fragmentos sob os títulos Além do Bem e do Mal [1886] e Genealogia da Moral [1887]; e esperou com estes volumes destruir a velha moralidade e preparar o caminho para a moralidade do super-homem. Por um momento voltou a ser filólogo e procurou fundamentar sua nova ética com etimologias. Notou que a língua alemã continha duas palavras para mau: schlecht e böse. Schelecht era aplicado pelas classes altas para indicar as  baixas e significava ordinário, vulgar, comum. Böse era aplicado pelas classes  baixas para as altas e significava estranho, irregular,incalculável, perigoso, cruel; Napoleão era bose. A mais da gente comum teme o individuo excepcional como a uma força desintegrante; há um provérbio chinês que diz: “um grande homem é um infortúnio publico”. Gut, igualmente, tem duas significações, como oposto de schlecht e böse: usado pela aristocracia significa forte, poderoso, guerreiro, divino [gut de Gott]; e usado pelo povo significa familiar, pacifico, inofensivo, bondoso.

Temos aqui dois valores da conduta humana, dois pontos de  vista e dois critérios: uma Herren-moral e uma Heerden-moral – moral dos senhores e moral do rebanho. A primeira era aceita como padrão pela antiguidade clássica, sobretudo entre os romanos; ainda para o romano da plebe virtude era  virtus – virilidade, coragem, audácia, iniciativa, esforço. Mas da Ásia, especialmente dos judeus dos tempos da sujeição política, veio o outro padrão; sujeição gera humildade, fraqueza gera altruísmo – que é um apelo de socorro. Nesta moralidade de rebanho o amor do perigo e do poder cede o passo ao amor da segurança e paz; a força é substituída pela astúcia; a iniciativa, pela imitação; o orgulho da honra, pelo chicote da consciência; a honra é pagã, romana, feudal, aristocrática; a consciência é judaica, cristã, burguesa, democrática [*Taine: A Revolução Francesa]. Foi a eloquencia dos profetas, de Amos a Jesus, que transformou as vistas de uma classe escravizada em uma moral quase universal; o “mundo” e a “carne” viraram sinônimos de mal, e a pobreza passou a ser prova de virtude.


Esta valorização foi feita por Jesus, para quem todos os homens tinham igual valor e direitos iguais; de sua doutrina emergiram a democracia, o utilitarismo, o socialismo; o progresso passou a ser definido em termos dessas filosofias plebéias, em termos de progressiva igualificação e vulgarização, em termos de  decadência ou vida descendente. O estagio final nesta decadência é a exaltação da piedade e o auto-sacrifício, o sentimental conforto aos criminosos, “a inabilidade para uma sociedade de excretar”. A simpatia é legitima, se ativa; mas a piedade é uma paralisante luxuria mental, um desperdício de sentimento para com o forçosamente residual, o incompetente, o defeituoso, o  vicioso, o irremediavelmente criminoso. Há uma certa indelicadeza na piedade: “visitar doentes” é um orgasmo da superioridade produzido pela contemplação da miséria vizinha.

Atrás desta “moralidade” está uma secreta vontade de poder. O amor é um desejo de posse; galanteio é combate, e ligação é domínio: Don José mata Carmen para evitar que ela se torne propriedade de outro. “As criaturas não se imaginam egoístas no amor pelo fato de procurarem o bem do objeto amado em vez do próprio bem. Mas fazem isso para possuir o objeto amado...L’amour este de tous lês sentiments lê plus égoïste, et, par conséquent, lorsqu’il est blessé, lê moins généreux” [ *Benjamim Constant: O amor é de todos os sentimentos o mais egoísta, em conseqüência, o menos generoso, quando ofendido. Mas Nietzsche fala mais amavelmente do amor. “Donde se ergue a súbita paixão de um homem por uma mulher...Não da sensualidade, unicamente. Quando um homem encontra fraqueza, necessidade de ajuda e altos espíritos, tudo reunidos na mesma criatura, ele sofre uma espécie de inundação da alma, e sente-se tocado e ofendido a um tempo. Começa neste ponto o grande amor. [Humano, muito Humano]. E cita o frances Dans lê veritable amour c’est l’ame qui enveloppe lê corps]. Ainda no amor da verdade surge o desejo da posse – de possuí-la antes dos outros, virgem.

Contra esta paixão do poder, a razão e a moralidade nada valem; não passam de armas em sua mão, joguetes do seu jogo. “Sistemas filosóficos são miragens rebrilhantes”; o que vemos não é a longamente procurada verdade, mas o reflexo dos nossos próprios desejos. “Os filósofos todos posam como se suas opiniões houvessem sido descobertas por meio de uma dialética divinamente indiferente, fria, pura...ao passo que, de fato, uma proposição preconceituosa, uma idéia ou “sugestão” que reflete o seu desejo, é por eles defendida com argumentos como que emanados, não deles, mas da coisa.

São estes desejos subconscientes, estas pulsações da vontade de poder, que determinam os pensamentos. “A maior parte da nossa atividade intelectual vem-nos inconscientemente e sem que o percebamos...o pensamento consciente...é o mais fraco”. Pelo fato de ser operado direta da vontade de poder não perturbada pela consciência, “o instinto é mais inteligente que todas as qualidades de inteligência até aqui descobertas”. Na realidade, o papel da consciência tem sido por demais exaltado; “a consciência pode ser considerada como secundária, quase como indiferente e supérflua, e provavelmente destinada a ser substituída pelo perfeito automatismo”.

Nos homens fortes há muito pouca preocupação de ocultar o desejo com os disfarces da razão; o argumento deles é “Eu quero!” No vigor da alma senhoril o desejo constitui a sua própria justificação; e a consciência, a piedade ou o remorso não encontram ingresso. Mas enquanto prevalecer o ponto de vista democrático, cristão-judaico, os próprios fortes envergonhar-se-ão da sua força e da sua saúde, e procurarão “razões”. As virtudes e os valores aristocráticos estão morrendo. “A Europa se vê ameaçada de um novo Budismo”. O próprio Schopenhauer e o próprio Wagner tornaram-se budistas. “Toda a moralidade da Europa está baseada em valores só de valia para o rebanho”. Aos fortes não é mais permitido o uso da força; tem que se aproximar o mais possível do fraco. “A bondade consiste em nada fazer daquilo para o qual não estamos bastante fortes”. Não provou Kant – “esse grande chinês de Koenigsber” – que o homem não deve ser nunca usado como meio? Conseqüentemente, os instintos do forte – caçar, lutar, conquistar e governar – introverteram-se, passam a auto-laceração por falta de vasadouro; criam o ascetismo e a “má-consciência”, “todos os instintos que não encontram expansão introvertem-se – é o que quero significar com a crescente “internacionalização” do homem: temos aqui a primeira forma do que vem a ser chamado – a alma”.

A formula de decadência é que as virtudes próprias do rebanho infetam os lideres e os rebaixam a massa comum. “Sistemas de moral devem ser compelidos, antes de mais nada, a se curvarem ante as gradações de classe; sua evidencia deve permear a consciência das classes até que elas compreendam a imortalidade de dizer que “o que é bom para uma é próprio para outra”. Diferentes funções requerem diferentes qualidades; e as “más” virtudes dos fortes são tão necessárias a sociedade como as “boas” virtudes dos fracos. Severidade, violência, perigo, guerra, são valores tão valiosos como bondade e paz; os grandes indivíduos só aparecem em tempo de perigos e violências, ou de inexorável necessidade. A  melhor coisa no homem é força de vontade, poder e permanência de paixão; sem paixão vira leite, incapaz de feitos. Ganância, inveja, mesmo ódio são elementos indispensáveis no processo da luta, da seleção, da sobrevivência. O mal está para op bem como as variações para a hereditariedade, como a inovação e a experiência para os costumes; não há desenvolvimento sem uma quase criminosa violação de precedentes e da “ordem”. Se o mal não fosse bem, o mal desapareceria. Devemos ter cuidado em não ser muito bons; “o homem precisa tornar-se melhor e mais mau”.

Nietzsche consola-se de encontrar tanto mal e tanta crueldade no mundo; sente um prazer sadistico refletindo na extensão em que a “crueldade constitui a grande alegria e o deleite do homem antigo”; e crê que o nosso prazer do drama trágico, ou de qualquer coisa sublime, é um refinamento da crueldade. “O homem é o mais cruel dos animais”, diz Zarathustra. Quando assiste a tragédias, a touradas e crucificações, sente-se em arroubo de felicidade suprema. E quando inventou o inferno...ah! o inferno foi o céu na terra; permitiu-lhe suportar o sofrimento do dia contemplando a punição eterna dos seus opressores no outro mundo.

A ética ultima é biológica; devemos julgar as coisas de acordo com o seu valor para a vida; impõe-se uma “transmutação de todos os valores”. A prova real de um homem ou grupo, ou de uma espécie é energia, capacidade, poder. Devemos reconciliar-nos parcialmente com o século dezenove – tão destrutivo de todas as altas virtudes – por causa da exaltação do físico. A alma é uma função do organismo. Uma gota de sangue a mais ou a menos no cérebro faz um homem sofrer como Prometeu no Cáucaso, picado pelo abutre. A variação de alimento faz variar a mente; o arroz criou o budismo; a cerveja criou a metafisica alemã. Uma filosofia, portanto, que expresse a vida ascendente é verdadeira, e é falsa a que se faz expressão da vida descendente. O decadente diz: “A vida nada vale”; devia antes dizer: “Eu nada valho”. Por que valerá a vida a  pena de ser vivida, se todos os seus valores heróicos são votados a decadência, e a democracia, isto é, a falta de fé nos grandes homens, arruína cada vez mais os povos?  

*O gregário europeu de hoje assume ares de ser o único homem permitido; glorifica suas qualidades de espírito publico, bondade, deferência, industria, modéstia, indulgência, simpatia – em virtude das quais é ele amável e útil para o rebanho – como sendo as virtudes peculiarmente humanas. Nos casos, porém, em que o líder ou o amadrinhador não pode ser dispensado, tentativas sobre tentativas são hoje feitas para substituir chefes por grupos de homens gregários; todas as constituições representativas, por exemplo, tem esta origem. A despeito de tudo, que benção, que alivio de um peso que se vai tornando insuportável, é o aparecimento de um chefe absoluto que comande esses europeus gregários! O aparecimento de Napoleão foi a ultima prova disto; a historia da influencia de Napoleão é quase a história da mais alta felicidade que o século inteiro atingiu em seus mais valiosos indivíduos e períodos.

Nietzsche_O Canto de Zarathustra

E saltando da arte, que lhe refugira, abrigou-se na ciência – cujo ar friamente apolíneo lhe varreu da alma os ardores dionisíacos de Tribschen e Bayreuth – e na filosofia, “que oferece um asilo onde nenhuma tirania pode penetrar”. Como Spinoza, procurou acalmar as paixões, examinando-as; “precisamos”, diz ele, “uma química das emoções”. E assim no seu próximo livro, Humano, mui Humano [1878-80], se tornou psicologista e analisou com crueldade de cirurgião os mais ternos sentimentos e as mais queridas fé – dedicando-o intrepidamente, em plena reação, ao escandaloso Voltaire. Enviou a obra a Wagner, recebendo em retribuição o livreto de Parsifal. Depois nunca mais se comunicaram.

Por essa época, ainda em plena mocidade, sofreu um baque na saúde, tanto mental como física [1879], chegando a perder as esperanças – e preparou-se desafiadoramente para o fim. “Prometa-me”, disse à irmã, “que quando eu morrer só meus amigos se achegarão ao meu ataúde. Veja que nenhum sacerdote, ou quem quer que seja pronuncie falsidades a beira do meu tumulo, pois já não estarei em situação de defender-me; quero descer a terra como um honesto pagão” [*O Solitário Nietzsche, pg.65]. Mas sarou e o seu heróico funeral foi adiado. Dessa doença lhe veio o amor pela saúde e pelo sol, pela vida, pelo riso, pela dança – e pela “musica de sol” da Carmen; também lhe veio uma vontade mais enérgica, fortalecida pela luta contra a morte, um “sim” que sentia a doçura da vida ainda em seus amargores e aflições – e ainda em um penoso esforço para erguer-se a alegre aceitação spinoziana das limitações naturais e do destino humano. “Minha formula para a grandeza é Amor fati - ...não somente suportar todas as necessidades como amá-las”. Ai! Coisa muito mais fácil de dizer do que de fazer.

Os títulos do livros imediatos – Aurora [1881] e Gaia Ciência [1882] – refletem a alegria da convalescença; nota-se um tom mais amável que nas obras anteriores. Teve ele um ano calmo, a viver modestamente da pensão concedida pela universidade. O orgulhoso filosofo pode ainda enfragilecer-se a ponto de ser empolgado pelo amor. Mas Lou Salomé não retribuía tal sentimento; os olhos de Nietzsche, muito penetrantes e profundos, amedrontavam-na.Paul Rée era menos perigoso e foi o Dr Pagello para o Musset que havia em Nietzsche. Nietzsche fugiu, desesperado, compondo pelo caminho aforismos contra a mulher. Era na verdade ingênuo, entusiástico, romântico, terno até a simplicidade; sua guerra contra a ternura valia por tentativa para exorcismar a virtude que levara a uma bem amarga decepção, produzindo uma ferida que nunca se fechou.

Não podia encontrar solidão bastante: ”é difícil viver com homens, porque o silencio é difícil”. Passou da Itália para os Alpes, Sils-Maria, Engadine – sem amor por ninguém e rogando para que o Homem fosse suplantado. E naquela solitária altitude lhe veio a inspiração do seu livro Maximo.

*Sentei-me esperando – esperando por nada, gozando, além do bem e do mal, ora a luz, ora a sombra; só havia o lago, o sol, o tempo sem fim. Então, meu amigo, o um tornou-se dois – e Zarathustra passou por mim”.

Sua alma “ergueu-se e derramou-se por todas as margens”. Havia encontrado um novo mestre – Zoroastro; um novo deus – o Super-Homem; e uma nova religião – a Eterna Recorrência: precisava agora cantar – filosofia montada na poesia e esporeada pela inspiração. “Eu posso cantar um canto, e quero cantá-lo, embora esteja só em uma casa vazia e tenha de cantá-lo em mim para meus próprios ouvidos”. [Que solitude há nesta frase!]. Vede! Estou cansado da minha sabedoria, como a abelha que colheu muito mel; necessito de mãos para que ela se estendam”. Nesse tom escreveu o Assim Falava Zarathustra [1883], que terminou na “trágica hora em que Richard Wagner rendia a alma em Veneza”. Era a sua magnífica resposta a Parsifal; mas o criador de Parsifal não a pode ler.

Foi sua obra prima, e Nietzsche o sabia. “Esse livro ficará só”, escreveu mais tarde. “Nada talvez ainda foi produzido com tal superabundância de força...Se todo o espírito e toda a  bondade das grandes almas fossem reunidos, a resultante não criaria uma só das falas de Zarathustra”. Um leve exagero – mas na realidade é um dos grandes livros do século dezenove. Nietzsche, todavia, lutou para imprimi-lo; a primeira parte viu-se  retardada porque o editor tinha os prelos ocupados com uma tiragem de 500.000 livros de hinos, e também com uma torrente de folhetos anti-semitas; e o editor recusou-se a imprimir a ultima parte como se valor do ponto de vista comercial; o autor teve de pagá-la de seu bolso. Cinqüenta exemplares do livro foram vendidos; sete foram ofertados pelo autor; um dos eleitos agradeceu; ninguém o louvou. Jamais um homem se viu mais só.

Zarathustra, com trinta anos, desce da montanha para pregar as turbas, como fizera o seu protótipo persa Zoroastro; mas a multidão afasta-se dele para ver um saltimbanco que andava na corda. O saltimbanco cai e morre. Zarathustra toma-o nos ombros e leva-o; “porque do perigo que tu fizeste a tua vida, enterrar-te-ei agora com as minhas próprias mãos”. “Vive perigosamente”, prega ele. “Erige tuas cidades ao lado do Vesúvio. Manda os teus navios para os mares inexplorados. Permanece em estado de guerra”.

E lembra-se de descer. Descendo da montanha Zarathustra encontra um velho eremita que lhe fala a respeito de Deus. “mas quando Zarathustra se viu só, falou assim para o seu coração: “Será possível? Este velho santo na sua floresta ainda não soube da morte de Deus!” Mas era fato que Deus estava morto – todos os Deuses estavam mortos? 

*Porque os velhos Deuses chegaram ao fim há longo tempo. E na verdade foi um bom e alegre fim de Deus! Eles não morrem a arrastarem-se em crepúsculo, embora esta mentira seja propalada. Ao contrário, eles riram-se da morte! Isto aconteceu quando, pelo próprio Deus, a menos divina das palavras foi pronunciada:”Só existe um Deus! Tu não terás outros deuses, além de mim”. O velho Deus barbado – e deus ciumento! – esqueceu-se assim.
E então todos os deuses se riram e sacudiram-se em seus tronos, e exclamaram: “Não mostra a piedade que há Deuses, mas não Deus?”
- Quem quer que tenha ouvidos, que ouça. Assim falava Zarathusatra;

Que hilariante ateísmo! “O que poderia ser criado se houvesse Deuses!...Se houvesse Deuses, como eu poderia suportar ser não-Deus? Conseqüentemente, não há Deuses”. “Quem é mais ímpio do que eu, que me faça gozar seus ensinamentos?” “Conjuro-vos, irmãos, a permanecerdes fieis a terra e não dardes ouvidos aos que falam de esperanças supra-terrestres!

“Envenenadores são eles, saibam disso ou não”. Muitos rebeldes de um tempo retornam por fim a este doce veneno como a uma anestesia necessária a vida. Os “homens mais altos” vão a caverna de Zarathustra afim de se preparem para a predica da sua doutrina; ele deixa-os por um momento e volta e encontra-os incensando um asno que “criou o mundo a sua imagem – isto é, tão estúpido, quanto possível”. Isto não é edificante; mas  o texto diz, então:

*Aquele que na verdade pretende ser um criador em bem e mal precisa primeiro ser um destruidor e despedaçar todos os valores.
Assim, o mais alto mal é parte da mais alta bondade.
Mas isto é bondade criadora.
Vamos falar daqui por diante, nós, homens sábios, por mau que seja.
Silenciar é pior, a verdade não enunciada torna-se venenosa.
E o que quer que irrompa de nossas verdades – que irrompa. Muita casa tem de ser construída ainda.
Assim falava Zarathustra.

É irreverente? Mas Zarathustra queixa-se de que “ninguém mais sabe venerar”, e chama-se a si mesmo o mais piedoso de todos os que não crêem em Deus. Anseio por fé e lamenta “ a todos que, como eu, sofrem do desgosto de não haver nenhum Deus novo no berço no momento em que o velho Deus morre”.

E pronuncia então o nome do novo Deus.

*Mortos estão todos os Deuses; queremos agora que o super-homem viva...
Eu ensino o super-homem. O homem é alguma coisa que precisa ser ultrapassada. Que fizeste para ultrapassá-lo?...
A grandeza do homem é que ele é uma ponte e não um termino: o que pode ser amado no homem é que ele é uma transição e uma destruição.
Eu amo aos que não sabem viver exceto em perigo, porque esses vão longe.
Eu amo os grandes desprezadores porque são os grandes adoradores, porque são as flechas que anseiam por alcançar a outra margem.
Eu amo os que não procuram além das estrelas uma razão para perecerem e serem sacrificados, mas que sacrificam a si próprios na terra para que um dia a terra seja do super-homem.
É tempo para o homem de marcar o seu goal. É tempo para o homem de plantar o germe da sua mais alta esperança...
Dizei-me, irmão, se o goal falante a humanidade não é a humanidade faltando-se a si mesma...
Amor para com o homem mais remoto é mais alto do que amor para com o nosso vizinho.

Nietzsche parece prever que cada leitor se julgará o super-homem; e procura guardar-se contra isso confessando que o super-homem ainda não nasceu; podemos unicamente ser os seus precursores na terra. “nada queirais além da vossa capacidade ... Não sejais virtuosos além da vossa medida; e nada peçais a vós mesmos contrário a vossa probabilidade”. Para nós se destina a felicidade que somente o super-homem conhecerá; nossa melhor meta é o trabalho. “por longo tempo não cessei de lutar pela minha felicidade; agora luto por meu trabalho”.

Nietzsche não se contenta de haver criado Deus a sua própria imagem; precisa fazê-lo imortal. Depois do Super-Homem vem a Eterna Recorrência. Todas as coisas voltam, como os detalhes precisos e por infinito numero de vezes; ainda Nietzsche voltará e voltará a sua Alemanha de ferro e sangue e cinzas, e voltará todo o trabalho do espírito humano; da ignorância até Zarathustra.  “É uma terrível doutrina, ultima e mais corajosa forma de “Sim” e de aceitação da vida; e como não poderia ser? As possíveis combinações de realidade são limitadas e o tempo é infinito; algum dia, inevitavelmente, vida e matéria voltarão a forma que já uma vez tiveram, e nesta fatal repetição toda história se desenrederá novamente do seu curso tortuoso. A isso nos leva o determinismo. Não admira que Zarathustra receasse enunciar a sua ultima lição; receasse e tremesse e recuasse, até que uma voz nele disse: ”Que é isto, Zarathustra? Fala tua palavra e rompe-te em pedaços”.