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Kant_Sobre a Religião e a Razão

Tudo isto não parece comum, tímido e conservador? Mas não era assim; ao contrário, esta arrojada negação da teologia “racional”, esta franca redução da religião a fé e esperança morais, provocou protestos de todos os alemães ortodoxos. Enfrentar este “forty-parson-power” [como lhe chamaria Byron] requeria mais coragem que a habitualmente associada ao nome de Kant. Que era suficientemente intrépido, foi o que se provou cristalinamente quando deu a publico, aos sessenta e seis anos, sua Critica da Faculdade de Julgar e, aos sessenta e nove, A Religião dentro dos Limites da Razão Pura . No primeiro destes livros Kant volve a discutir o argumento da finalidade que, em sua primeira Critica, rejeitara por ser prova insuficiente da existência de Deus. Começa correlacionando a finalidade e a beleza; a beleza a seu ver é algo que revela proporção e unidade de estrutura, como pré-traçadas por uma inteligência. Observa de passagem [e Schopenhauer aqui bebeu bastante para a sua teoria da arte] ...

Kant_A Critica da Razão Pratica

Se a religião não pode basear-se na ciência e na teologia, em que se baseará então? Na moral. A base da teologia é muito insegura; melhor desistir dela, ou mesmo destruí-la. Devemos colocar a fé para além do alcance ou dos domínios da razão . Mas para isso a base moral da religião deve ser absoluta e não derivada da discutível experiência sensorial ou de precária dedução -   e não poluída pela associação com a razão falível; deve provir do seu interno pela percepção e intuição diretas. Precisamos encontrar uma ética universal e necessária; os princípios a priori da moral são absolutos e certos como os de matemática . Devemos mostrar que “a razão pura pode ser pratica, isto é, pode por si mesma determinar a vontade, independentemente de qualquer coisa empírica” [* Critica da Razão Prática, pág.31] e que o senso moral é inato e não derivado da experiência. O imperativo moral requerida para base da religião deve ser um imperativo absoluto e categórico. Ora, a mais surpreendente reali...

Kant_A Critica da Razão Pura

Que significa este titulo? Critica não quer dizer aqui precisamente um ataque e, sim, uma analise critica; Kant não se põe a atacar a “razão pura”, a não ser no fim, para mostrar-lhe as limitações; deseja, de preferência, mostrar suas possibilidades e elevá-la acima do impuro conhecimento que nos vem pelo canais deformadores dos sentidos. Razão “pura” significa – a que não nos vem por intermédio dos sentidos, independe de toda a experiência sensorial; é o conhecimento que temos em virtude da natureza e estrutura inerentes ao espírito. Logo de começo Kant manda um desafio a Locke e a escola inglesa; - o conhecimento não procede todo ele dos sentidos. Hume pensava ter demonstrado não existir alma nem ciência, sendo nosso espírito exclusivamente nossas idéias em séries e associações; e, nossas certezas, apenas probabilidades em perpetuo perigo de destruição. Estas falsas conclusões, diz Kant, são a conseqüência de premissas falsas: quem as tira presume que todo o conhecimento deriva de s...

Kant_O Próprio

Kant nasceu em Koenigsberg, na Prússia, em 1724. Salvo, durante breve tempo de magistério numa aldeia vizinha, aquele calado e modesto professor, tão amigo de fazer preleções sobre a geografia e a etnologia de terras remotas, nunca abandonou sua cidade natal. Descendia de uma família pobre que deixara a Escócia cerca de cem anos antes do nascimento de Emanuel. Sua mãe era pietista, isto é, adepta de uma seita religiosa que, a exemplo dos metodistas da Inglaterra, insistia sobre a estrita, plena e rigorosa observância da pratica e da crença religiosa. Viu-se nosso filosofo tão imerso, da manhã a noite, num ambiente religioso, que reagiu, afastando-se da igreja no decurso de toda a sua vida adulta; por outro lado, assumiu até o fim a sombria figura do puritano alemão, sentindo crescentemente, a proporção que envelhecia, o grande desejo de preservar para si e o mundo pelo menos os princípios essenciais da fé que a mãe fundamente lhe inculcara. Mas um jovem contemporâneo de Frederico e de...

Emanuel Kant_e o Idealismo Alemão

Caminhos para chegar a Kant Jamais um sistema filosófico dominou tanto uma época, como o de Emanuel Kant dominou o pensamento do século dezenove. Depois de quase sessenta anos de silencioso e solitário desenvolvimento, o misterioso escocês de Koeningsberg despertou o mundo de seu “sono dogmático”, em 1781, com a celebre Critica da Razão Pura; e desde então até hoje a “filosofia critica” dominadoramente no poleiro especulativo da Europa. Surgiu a filosofia de Schopenhauer para vencer, passageira, na vaga romântica que se quebrou em 1848; após 1859, a teoria da evolução varreu tudo o que a antecedera; e o veemente iconoclasticismo de Nietzsche ocupou o centro do palco filosófico quando o século chegou ao fim. Mas essas manifestações foram secundárias; sob elas fluía a impetuosa e duradoura corrente do kantismo, cada vez mais caudalosa e profunda; seus teoremas essências até hoje são os axiomas de toda a maturidade filosófica. Nietzsche pressupõe Kant verdadeiro e passa avante [* A vont...

Voltaire_Considerações Finais

Enquanto isso, o velho “filosofo zombeteiro” cultivava seu pomar em Ferney; esta é “a melhor coisa que podemos fazer na terra”. Ele desejaria uma longa vida: “ Meu medo é morrer antes de ter sido útil” [* Correspondência, 25 de agosto de 1766]; mas agora já havia desempenhado seu papel. Suas mostras de generosidade eram infinitas. “Todos, de perto ou de longe, recorriam a seus préstimos; muitos consultavam-no, contavam-lhe as injustiças de que eram vitimas e solicitavam o auxilio de sua pena e influencia” [* Sainte-Beuve, I, 235]. Seus especiais cuidados eram com os de condição humilde a qual se imputavam culpas; obtinha-lhes o perdão e em seguida amparava-os, dando-lhes alguma ocupação honesta, velando por eles e aconselhando-os durante todo esse tempo. Quando um jovem casal que o roubara se ajoelhou a seus pés implorando o perdão, ele o fez erguer-se, dizendo-lhe que o seu já lhe estava outorgado e que só lhe cumpria ajoelhar-se para pedir o perdão de Deus.[* Robertson, 71]. Um d...