19 de jun. de 2011

Nietzsche_Democracia_Decadência

Conseqüentemente, o caminho para o super-homem jaz na aristocracia. Democracia – “esta mania de contar narizes” – deve ser erradicada enquanto é tempo. O primeiro passo será a destruição do cristianismo nos homens mais altos. O êxito de Cristo foi o começo da democracia: “o primeiro cristão era, dentro dos seus instintos mais profundos, um revoltado contra tudo que era privilegiado; vivia e lutava irremitentemente por “direitos iguais” e nos tempos modernos seria enviado para a Sibéria. “Aquele que é o maior dentro vós – fazei dele vosso servo” – isto é a inversão de toda sabedoria política e de toda sanidade; realmente, quem lê o Evangelho sente uma atmosfera de romance russo; uma espécie de plágio de Dostoievski. Unicamente entre os humildes tais noções poderiam enraizar; e só em uma idade em que os imperantes haviam degenerado e cessado de imperar. “Quando Nero e Caracala subiram ao trono deu-se o paradoxo de que os mais baixos homens valiam mais que os ocupantes da curul suprema”.

Como a conquista da Europa pelo cristianismo foi o termo da antiga aristocracia, assim o derrame pela Europa dos belicosos barões teutonicos trouxe o renascimento das velhas virtudes másculas, plantando as raízes das modernas aristocracias. Esses homens não estavam sobrecarregados com ‘morais’; eram “livres de qualquer estrição social; no ingênuo da sua consciência de selvagens saiam exultantes de uma horrível congerie de matanças, incêndios, rapina, tortura, e com arrogância e alegria, como se apenas se tratasse de brincadeiras de estudantes”. Foram esses homens que abasteceram as classes dirigentes da Alemanha, Escandinávia, França, Itália e Russia.

*Manadas de louros animais de presa, raça de conquistadores e senhores com organização militar, com poder de organizar sem nenhum escrúpulo, colocando as patas terríveis sobre populações muito superiores em numero...essas manadas fundaram o Estado. Dissipa-se o sonho de que o Estado se formou por um contrato. Que tem a fazer com contratos quem pode dominar, quem é senhor por natureza, quem entra em cena com violência nos feitos e nas idéias?

Esta esplendida raça dirigente foi logo corrompida, primeiro pelo louvor das virtudes femininas; segundo, pelos ideais plebeus da reforma puritana; e terceiro, pelo inter-casamento com raças inferiores. Logo que o catolicismo começou a amadurecer na aristocracia e amoral cultura da Renascença, a Reforma esmagou-o com a revivescencia do rigor e da solenidade judaicas. “Já compreendeu alguém, quer alguém compreender o que era a Renascença? A transmutação de valores cristãos, tentativa empreendida em todos os meios, todos os instintos e todos os gênios para criar valores opostos, para criar o triunfo dos valores nobres...Vejo diante de mim uma possibilidade perfeitamente mágica no entanto da sua cor gloriosa...Cesar Borgia papa...Compreende-me?
O protestantismo e a cerveja haviam enevoado o pensamento alemão; acrescente-se agora a musica de Wagner. Como resultado, “a Prússia de hoje é uma das mais perigosas inimigas da cultura”. “A presença de um alemão retarda a minha digestão”. “Se, como diz Gibbon, nada a não ser tempo e muito tempo é necessário para que um mundo pereça; assim nada senão tempo, embora ainda mais tempo, é necessário para que uma idéia falsa seja destruída na Alemanha. Quando a Alemanha derrotou Napoleão isso foi tão desastroso para a cultura como quando Lutero derrotou a Igreja; desde esse momento a Alemanha começa a afastar seus Goethes e Schopenhauers e Beethovens para adorar “patriotas”; o Deutschland über Alles foi o fim da filosofia alemã”. Havia, entretanto, uma natural seriedade e profundidade nos alemães que esperavam redimir a Europa; tinham mais virtudes masculinas que os franceses e ingleses; tinham perseverança, paciência, industriosidade – daí sua erudição, sua ciência e sua disciplina militar; é deleitoso ver como toda a Europa se incomoda com o exercito alemão. Se o poder de organização germânica pudesse operar com os recursos potenciais da Rússia, a Alemanha atingiria o apogeu da grande política.

*Precisamos de uma inter-mistura com os eslavos e precisamos dos mais hábeis banqueiros, os judeus, para nos tornarmos os donos do mundo...Precisamos de uma incondicional união com a Rússia”. A alternativa é cerceio e estrangulação.

O mal com a Alemanha é uma certa estolidez de espírito, conseqüência da solidez de caráter; a Alemanha perde a longa tradição de cultura que fez da França o mais refinado e sutil povo da Europa. “E creio unicamente na cultura francesa e olho tudo mais que na Europa tem nome de cultura como equivoco”.

Quando uma pessoa lê Montaigne, La Rochefoucauld, Vauvenargues e Chamfort sente-se mais perto da antiguidade do que lendo qualquer outro grupo de autores de qualquer outra nação. “Voltaire é um grão senhor do espírito”; e Taine, “o primeiro dos historiadores vivos”. Ainda os novos escritores franceses, Flaubert, Bourget, Anatole, etc., estão infinitamente acima dos outros europeus, em clareza e pensamento e língua – “que clareza e delicada precisão, a destes franceses!” A nobreza do gosto, do sentimento e das maneiras da Europa é obra da França. Mas da velha França dos séculos dezesseis e dezessete; a revolução, destruindo a Aristocracia, destruiu o veiculo e o canteiro da cultura, e agora a alma da França está delgada e pálida em comparação do que já foi. Não obstante subsistem algumas finas qualidades; “ na França quase todas as questões artísticas e psicológicas são consideradas com muito cuidado e sutileza do que na Alemanha...No próprio momento em que a Alemanha se erguia como grande potencia na política, a França ganhava nova importância no mundo da cultura.

A Rússia é o animal louro da Europa. Seu povo tem um “teimoso e resignado fatalismo que lhe dá ainda hoje vantagem sobre nós ocidentais”.

A Russia possui governo forte, sem “imbecilidade parlamentar”. Força de vontade vem de longe se acumulando lá, e agora ameaça de explodir; não seria surpreendente que se tornasse a dominadora da Europa. “Um pensador que tenha em vista o futuro da Europa levará em conta, em todas as suas perspectivas, os judeus e os russos, como os mais seguros e sólidos fatores na grande peça do choque das forças”. Mas de todos os povos é o italiano o mais fino e vigoroso; o homem-planta cresce fortíssimo na Itália, como basofiou Alfieri. Existe uma atitude varonil, um orgulhoso aristocrático ainda no mais baixo italiano; “um pobre gondoleiro de Veneza faz sempre melhor figura do que um geheimrath de Berlim, e no fundo é um melhor homem”.

Os piores de todos são os ingleses; foram os corruptores do espírito francês com a ilusão democrática; “os lojistas, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas se entendem”. O utilitarismo e o filistinismo inglês constituem o nadir da cultura européia. Unicamente em uma terra de feroz competição comercial pode alguém conceber a vida como a mera luta pela existência. Só em uma terra onde os lojistas e armadores se multiplicaram em tal numero a ponto de submergir a aristocracia, era possível a fabricação da democracia, foi este o presente dos gregos que a Inglaterra deu ao mundo moderno. Quem salvará a Europa da Inglaterra e a Inglaterra da Democracia?  

Nietzsche_O Super-Homem

Assim como a moralidade jaz na força e não na bondade, assim o objetivo do esforço humano não devia ser a elevação de todos, mas o desenvolvimento dos mais perfeitos e fortes indivíduos. Não o gênero humano, mas o super-homem é a meta. A ultima coisa que um homem deve empreender é o melhoramento do gênero humano; o gênero humano não melhora – e nem existe, é uma abstração; o que existe é um vasto formigueiro de indivíduos. O aspecto do todo é muito mais semelhante  ao de uma enorme fabrica experimental onde em cada época alguma coisa sai bem feita enquanto a maioria falha; e o alvo de todas as experiências não é a felicidade da massa, mas o melhoramento do tipo. Melhor que as sociedades se extingam do que tipos de eleição deixem de aparecer.

A sociedade é instrumento para realce do poder e da personalidade do individuo; o grupo não é em si um fim. “Para que haveria maquinas se todos os indivíduos só servissem para as conservar?” Maquinas – ou organizações sociais – “que sejam fins em si – é esta a comédia humana”.

A principio Nietzsche falou como se as suas esperanças fossem para a produção de uma nova espécie; depois foi levado a pensar do seu super-homem como o individuo superior que se erguia precariamente do chavascal da mediocridade e devia sua existência mais a cuidadosa criação do que aos acasos da seleção natural. Porque o processo biológico é inútil aos indivíduos de exceção; a natureza mostra-se crudelíssima para com os seus mais altos produtos, e, ao contrário, protege a media, o medíocre; há na natureza uma perpetua reversão ao tipo, ao nível da massa – uma recorrente dominação do melhor pelo mais. O super-homem pode sobreviver unicamente pela seleção humana, pela previsão eugênica e por uma nobre educação.

Que absurdo, portanto, deixar que os mais altos tipos casem por amor – heróis com criadas, gênios com costureiras! Schopenhauer não tinha razão. O amor não é eugênico; quando um homem está amando não está em situação de tomar decisões que he afetem a vida inteira; não lhe é dado ao mesmo tempo  amar e ser sábio. Devíamos declarar nulos os votos de amor e  fazer do amor um impedimento legal para o casamento. O melhor só deverá casar com o melhor; e o amor deixado para a canalha. O fim do casamento não é apenas a reprodução; é também desenvolvimento.

8Tú és jovem e anseias por casamento e filhos. Mas, pergunto, és homem que ouses desejar um filho? És acaso um vitorioso, um dominador de ti próprio, um comandante dos teus sentidos, um senhor das tuas virtudes? – ou em teu desejo só fala o animal, a necessidade? Ou a solidão? Ou discórdia contigo mesmo? Eu quero que tua vitória e liberdade desejem um filho. Construirás monumento vivo sobre tua vitória e liberdade. Construirás para além de ti mesmo. Mas primeiro tens de construir-te sólido de alma e corpo. Não apenas propagar, mas propagar-se para cima! Casamento: assim eu chamo a vontade de dois para criar um que seja mais que os que o geraram.

Sem bom nascimento, impossível a nobilidade. “O intelecto apenas não nobilita: ao contrário, alguma coisa sempre falta para enobrecer o intelecto. Que falta? Sangue...[Não me refiro aqui ao “de” do Almanaque de Gotha: isto é parentesco para asnos]”. Mas dado o bom nascimento e a origem eugênica, o próximo fator na formula do super-homem é uma escola severa onde a perfeição seja exigida como matéria de curso; onde o corpo seja ensinado a sofrer em silencio e a vontade aprenda a obedecer e comandar. Não contra-senso libertário, não enfraquecimento da espinha física e moral pela indulgência e “liberdade”! Mas a escola onde se ensine a alegria do coração; os filósofos serão graduados segundo sua capacidade para rir; Aquele que escala as mais altas montanhas rir-se-á de todas as “tragédias”. E não haverá “ácido moralico” nesta educação do super-homem; um ascetismo da vontade, não condenação da carne. “Não pareis de dançar, lindas jovens! Nenhum estragador da vida vos está olhando com maus olhos ... nenhum inimigo das moças de belos tornozelos” [*Anticristo]. Mesmo o super-homem deve ter gosto pelos belos tornozelos.

Um homem desse modo nascido e criado estaria além do bem e do mal; não hesitaria em ser böse, se seus propósitos o requeressem; seria antes destemeroso do que bom. “Que é ser bom?... Ser bravo é bom”. Tudo quanto aumenta o sentimento de poder, a vontade de poder, o poder em si. Que é mau [schlecht]? Tudo que vem da fraqueza”. Tudo que vem da fraqueza”. Talvez a marca dominante do super-homem seja amor ao perigo e a luta, contanto que tenha um alto propósito: jamais sobreporá a tudo a segurança; deixará essa felicidade para o grande numero. “Zarathustra adorava os que fazem viagens longas e não gostam de viver sem perigos”. Daí toda guerra ser boa, a despeito da vulgar mesquinharia das suas causas nos tempos modernos; “uma boa guerra sana qualquer causa”. Ainda a revolução é boa; não em si, porque nada pode ser mais infortunado que o predomínio das massas; mas porque os tempos de luta desabrocham a grandeza latente de indivíduos que antes não encontravam bastante estimulo ou oportunidade; do bojo do caos emerge a estrela; do torvelino da Revolução Francesa saiu Napoleão; da violência e desordem da Renascença, brotaram poderosas individualidades – e em tal abundancia que a Europa não as pode suportar.

Energia, intelecto e orgulho – isso faz o Super-Homem. Mas precisam ser harmonizados; as paixões tornar-se-ão força unicamente quando selecionadas e unificadas por algum grande propósito, que molde o caos dos desejos no poder de uma personalidade. “Maldição para o pensador que não é jardineiro, e sim apenas o solo das suas plantas!” Esse que só segue seus impulsos, quem é? O débil; falta-lhe o poder para inibir; não é bastante forte para dizer Não; é uma discórdia, um decadente. Disciplinar-se, eis a coisa suprema. “O Homem que não deseja ser apenas um da massa, tem de cessar de ser leniente consigo mesmo”. Ser duro pra com os outros, porém ainda mais duro consigo mesmo; fazer tudo menos trair um amigo – isto é a patente final nobreza, a ultima formula do super-homem.

Unicamente vento tal homem como a meta e a recompensa do nosso esforço é que podemos amar a vida e viver em ascensão. “Precisamos ter um alvo por amor do qual sejamos todos caros uns aos outros”. Sejamos grandes, ou servos e instrumentos dos grandes; que belo quadro quando milhões de europeus se ofereceram como instrumentos para os fins de Bonaparte e por ele caíram alegremente murmurando o seu nome! Talvez dentre nós aquele que compreende possa tornar-se o profeta daquele que não podemos ser e possa preparar o caminho para o seu advento; podemos nós todos, de todas as terras e épocas, trabalhar juntos, embora separados, para este fim. Zarathustra exultará, ainda em seu sofrimento, se puder ouvir as vozes destes auxiliares ocultos, destes partidários do homem mais alto. “Vós, solitários de hoje, vós que vos conservais a parte, vós sereis um dia um povo; de vós um povo eleito emergirá – e desse povo, o SUPER-HOMEM”.