14 de fev. de 2010

O Sentido da Globalização Atual: A Criação de uma Noosfera?


Ilya Prigonine [Prêmio Nobel de química em 1977] e seu grupo tem mostrado que a seta do tempo e a linha da evolução vão no sentido de criar cada vez mais complexidades auto-organizadas, diversidades e inter-retrorrelacionamentos. A evolução não é linear. Ela dá saltos. Exemplo disso é a formação do cérebro de um embrião. Após oito semanas de fecundação, sem sabermos por quê, ocorre uma frenética produção de células nervosas, os neurônios. Milhões deles irrompem a cada dia. Após 35 dias, o ritmo se desacelera. Inicia-se outro processo, o da interconexão entre os neurônios,base para toda a vida da mente. E prossegue pela vida afora. As conexões se dão também além da mente, no campo familiar, comunitário, social e planetário. Surge uma pan-relacionalidade que é a característica do tempo em que vivemos.

Teilhard de Chardin havia percebido a seguinte lógica na evolução: quanto mais ascende, mais ela se complexifica; quanto mais se complexifica, mais se interioriza; quanto mais se interioriza, mais consciente se torna; e quanto mais consciente se torna, mais converge a um ponto onde tudo se concentra, se sintetiza e constitui uma unidade superior.

Não estaríamos hoje, com a complexificação dos meios de comunicação, com o estreitamento das interdependências, com a consciência da unificação da humanidade e a aceleradíssima globalização, criando as condições para um novo patamar da hominização? Para a emergência de um sistema nervoso complexo e planetário e para um cérebro global?

Os saltos podem dar-se, na evolução, a qualquer momento, desde que haja certa acumulação de energia. A acumulação populacional dos cérebros humanos,o crescimento das inter-conexões dos neurônios com a sofisticação de todos os saberes e experiências, a consciência cada vez mais planetária, a percepção de sermos co-responsáveis pelo que possa acontecer com a natureza e a humanidade permitiriam a colocação da hipótese ‘teilhardiana da noosfera’ [a esfera da mente humana unificada]. Estaríamos na antevéspera da implosão de algo inédito na história do planeta: num de seus membros, na espécie humana, emergiria uma convergência das linhas ascendentes da evolução rumo a uma unidade orgânica. Não apenas no conhecimento, mas principalmente no AMOR. A ‘amorização’ significaria a forma mais alta de ‘união’ de todos com todos e de todos com tudo.

A globalização com suas contradições e com a vitimação de tantas pessoas e tantos seres da natureza provoca fortemente seu oposto dialético. Sabe-se que há comunicações extra-sensoriais da mente, o fenômeno da ‘sincronicidade’, a morfogênese biológica [Rupert Scheldrake] segundo a qual, além do código genético que fornece os materiais químicos de construção da vida, entra o campo formológico invisível e não detectável pelos sentidos que explica como os elementos do código genético se juntam em formas e estruturas específicas, quer dizer, em sistemas. É semelhante ao campo gravitacional e magnético, que são estruturas espaciais invisíveis e reconhecíveis pelos efeitos. Assim a limalha de ferro espalhada em torno de um ímã revela a estrutura espacial de seu campo. Algo semelhante ocorre com a vida. Não bastam os sensores da televisão estarem bem ligados, nem o aparelho estar conectado a uma fonte de energia. Eles não produzem as imagens. Estas vêm de outra fonte produtora. Consoante a TEORIA DO CAMPO MORFOLÓGICO, quando são bem-sucedidas, as experiências produzem uma ressonância sobre todos mos seres do sistema de relação. Tal ressonância faz com que a experiência nova não se perca, mas, depois de certo número de repetição e reprodução, se passe aos membros do mesmo sistema; ela começa a ser reproduzida, garantindo um avanço no processo da vida. Assim, na humanidade estaria havendo um acúmulo significativo de ressonâncias rumo a uma unidade planetária. Atingindo certo ponto crítico, esta unidade emergiria historicamente.

Os processos históricos se aceleram. Entre 15.000 e 8.000 anos a.C. fez-se no neolítico a revolução agrária; todas as culturas praticamente incorporaram esta revolução. Somente trinta séculos depois implodiu outra revolução, a industrial, entre 1750-1850. Em seguida, com muito mais rapidez, um século após, deu-se a revolução nuclear. Dez anos depois ocorreu a revolução da informação com a decodificação do código genético. A espiral da evolução vai se enovelando sobre si mesma.

Há os que esperam a onda zero proximamente [nos inícios do terceiro milênio] quando então eclodiria a ‘noosfera’, o novo ‘katun’ [a nova era planetária] na terminologia dos maias, que muito especularam sobre essas realidades globais. E assim se inauguraria uma nova fase para a humanidade como humanidade, unida e diferenciada e convergente.

A humanidade com sua capacidade de sinergia [colaboração de todos] funcionaria como uma espécie de cérebro do planeta Terra. À medida que o ser humano entrasse em sintonia e em sincronia com os movimentos do planeta Terra e com sua lógica, promoveria um tipo de desenvolvimento com a natureza e não contra ela. Poderia mostrar-se criativo à medida que captasse as potencialidades ocultas da Terra e as explicitasse, acelerando ou desacelerando a seta evolutiva. A humanidade seria a própria Terra enquanto pensa, quer, simboliza, projeta, sonha e ama.

Tudo o que cada pessoa humana faz ou deixa de fazer concorre para a criação desta nova fase da humanidade ou a impede. Por isso importa cada um sentir-se em profunda ‘osmose’ com a Terra e seu destino; é importante fazermos inteiros o que fazemos, com a mente pura e afinada com tudo à nossa volta e com o cosmos. Estamos fornecendo á Gaia o passo necessário para que ela realize o seu desígnio que nos inclui, desígnio de vida, de consciência de si, de plenitude do ‘Espírito na matéria’, de sinfonização de tudo com tudo em face do mistério de Deus.
_
[Capítulo 4, do Livro Civilização Planetária, Ed. Sextante,
2003/Autor: Leonardo Boff]

_

13 de fev. de 2010

A União


Sabemos que as palavras existem para representar as idéias que abrigamos em nossa mente. Muitas palavras, porém, têm a característica de se associar a mais de uma idéia, ora refletindo um conceito, ora outro, dependendo do sentido que lhe é emprestado por quem as profere ou escreve. Uma destas palavras, “amor”, é um caso clássico, à qual estão associadas diversas idéias. A palavra sozinha carece de um sentido, deixando-nos na dúvida, fazendo-se necessário situá-lo em algum contexto. Assim é que temos uma série de qualificativos, tais como “amor maternal”, “amor filial”, “amor conjugal”, “amor fraternal”, “amor platônico”, “amor desprendido”, “amor à natureza”, “amor ao trabalho” e assim por diante. Todas essas são expressões mais restritas, ou particularizadas, do Amor escrito com “A” maiúsculo, no sentido místico, o qual é a Lei das leis, o princípio básico subjacente ao próprio Cósmico. No seu pleno sentido, a palavra AMOR confunde-se com a idéia de Deus, como nos lembra o popularizado refrão “Deus é Amor”. Todos os “amores” desta vida são como que gotas de água imersas no oceano do Amor maior, ou seja, manifestam localmente as características do Todo. É minha intenção evidenciar neste ensaio que o Amor, em si mesmo uma força potencial toma forma, manifestando-se na existência, através da UNIÃO.

Se nos detivermos a observar e analisar o mundo que nos cerca, vamos perceber que em tudo que é manifesto faz parte da sua natureza intrínseca o sentido de ‘união’.

Começando pelo Microcosmo, o nível do Universo que fica nas fronteiras entre a pura energia e a matéria, temos a energias se condensando para formar as partículas elementares da matéria, as partículas subatômicas. Pensemos melhor o termo condensação. Tomando como ilustração as gotículas de água que se formam na parede externa de um recipiente gelado como resultado da aglutinação das moléculas de vapor d’água dispersas pela atmosfera circundante, percebemos que condensação é um termo que expressa a idéia de ‘união’ de partes antes dispersas em uma nova forma, mais densa.

Os átomos e as moléculas são o resultado da ‘união’ dessas partículas elementares, cujas diferentes combinações e proporções originam toda essa diversidade que presenciamos e vivemos. Por sua vez, átomos e moléculas se ‘unem’ para compor o Universo físico. E no reino da matéria são leis fundamentais a adesão e coesão, vistas em nossos estudos e responsáveis por fenômenos como as nuvens, a formação de gotas e o ato de colar ou cimentar, só para ilustrar. Pois bem, e o que mas são a adesão e coesão a não ser uma ‘união’? De forma que, toda vez que você observar o seu corpo ou qualquer coisa que o envolva, você estará diante de uma expressão do ‘Amor’, pelo simples fato desta matéria existir!

No Macrocosmo, aquele nível do Universo onde distinguimos planetas, estrelas e outros astros, temos a gravitação como a Lei básica subjacente à formação dos sistemas solares e das galáxias. De um outro ângulo, esta lei é tida como a força da gravidade, que impede um japonês de despencar para o espaço, faz os americanos despenderem enormes quantias de combustível para levar alguns quilos à estratosfera e fere aquele que atirou uma pedra acima de sua cabeça. O principio em questão é uma força de atração que um corpo celeste exerce ao seu redor, criando uma zona conhecida como campo gravitacional, o qual é mais ou menos abrangente em função da massa deste corpo. Mas esta força de atração não pode ser entendida como um ‘desejo’ de unir a si outro corpo que esteja no seu raio de ação? O Universo não seria tal qual o conhecemos se em cada parte sua não estivesse presente este sentimento de ‘união’. Quão errado estaria alguém que dissesse que entre o Sol e a Terra há um ‘caso de amor’?

Os organismos, por sua vez,não subsistem isolados. Em grupos pequenos ou grandes, por toda a sua vida ou apenas em parte, liderando ou sendo liderado, cada ser vivo precisa estar ‘unido’aos de sua espécie para poder efetivamente viver, reproduzir-se e aperfeiçoar-se. Lembremos das colônias de bactérias e de corais, dos bandos de aves, das manadas de ruminantes, dos enxames diversos de insetos, dos cardumes de peixes, de uma floresta de pinheiros, apenas para rememorar os casos mais característicos. Você consegue imaginar a vida de uma abelha sozinha? Ou de uma formiga sem as companheiras? Em todos estes casos e muitos outros que você deve estar recordando, temos a ‘união’ dos indivíduos em uma vida grupal como o ponto chave de sua sobrevivência. Podemos ver, nos bastidores deste fato biológico, o ‘Amor’ atuando e manifestando-se num outro nível.

Conseguimos maiores evidências analisando as relações de união entre os seres humanos, em sociedade. Iniciando pelo bebê e sua mãe, como se expressa o amor de um pelo outro?

Ambos querem ficar tão próximos quanto possível. O filho precisa, regra geral, da mãe junto a si para sobreviver. Então, a natureza o dota de característica que despertam, o amor do adulto e a ‘união’ se estabelece. Entre dois irmão pequenos, o amor os faz ficarem sempre juntos, seja brincando, seja brigando. Mas o exemplo que talvez nos deixe menos dúvida sobre a união ser a expressão do ‘Amor’, é um casal apaixonado, cujo desejo de estarem ‘unidos’é tão forte que superam muitos obstáculos para tanto, chegando mesmo a sentir um sentimento de ‘fusão’, como o momento do clímax de uma relação sexual plena. Quando há um forte sentimento de amor entre duas pessoas que não mantêm laços de sangue nem conjugais, é o caso de uma ‘verdadeira amizade’. Citando as palavras textuais de Maria A.Moura:

“A amizade é aquela virtude que une duas ou mais pessoas por laços de amor e confiança”.

O homem é um ser altamente sociável, tendo até sido afirmado pelo Pe. Teilhard de Chardin que “é mais fácil impedir a terra de girar do que o homem de se socializar”. E sociedade implica em associação, em relações de ‘união’, tais como as referidas acima. Por que o homem é o mais sociável dos animais? Uma das razões, penso, é porque ele tem a maior capacidade de amar.

A mais alta expressão da Vida na Terra, o Homem, é o resultado da manifestação de personalidade-alma já bem adiantadas em sua evolução através de um corpo físico que reúne a maior capacidade intelectual deste habitat, considerada, é claro, a média normal entre os seres humanos. A conjugação destes dois fatores permite o alto nível de autoconsciência conseguido na raça. Todavia, como o processo evolucionário inerente à vida não parou aí, a humanidade caminha, mais rapidamente do que se julga, para o advento da Consciência Cósmica, um estado da Alma Vivente que é o mais alto ideal dos místicos e que já se constitui em realidade para diversos destes, os chamados Mestres. Parece-me que a consciência, em qualquer de seus níveis, estando estreitamente ligada à faculdade da percepção, constitui-se numa ‘união’ entre o observador e o observado. Assim é que se diz que estamos onde a nossa consciência está. Se uma pessoa próxima a nós está fixando sua atenção consciente alhures, dizemos que ela está ‘ausente’, ‘longe dali’. Ao observamos uma bela paisagem, por exemplo, e dela ficarmos conscientes, nesse momento estamos trazendo-a ao nosso ser. De outro ponto de vista, podemos dizer que estamos nos projetando para a paisagem, como deixa mais claro o caso de um filme a que assistimos. Se não estão envolvidos os nossos sentidos físicos nessa união, então trata-se de uma projeção psíquica da consciência. Em qualquer dos casos, porém, vamos ter a ‘união’ do observador com o observado.[ Talvez este conceito ajude a compreender melhor o espaço como apenas uma construção da nossa mente objetiva]. Quando o observado é o Cósmico, temos o observador em estado de Consciência Cósmica, donde as referências à ‘união final’, ao ‘retorno à casa do Pai’, ao ‘círculo que se fecha’ ou ao símbolo da serpente que engole a causa, pois trata-se do fim do ciclo evolutivo da consciência, onde não subsiste a separação, apenas a ‘unidade’. Não é pura coincidência que o ‘Amor’ se manifeste crescentemente nas pessoas à medida que elas galgam os planos de consciência rumo à Consciência Cósmica, na relação direta da sua ‘união’ com cada vez mais partes do Todo.

Façamos agora um exercício de imaginação. Pensemos no Universo todo como um grande Coração. O coração pulsa em movimentos de sístole e diástole, ou contração e expansão. O Universo estaria agora numa diástole. Por que? Além de muitas evidências apontadas pela Ciência indicando um Universo em movimento de expansão, temos seu próprio nome. Inúmeras vezes você deve ter pronunciado a palavra ‘Universo’, mas alguma vez você reparou que ela diz “uno vertido”? A TEORIA cientifica do “Big Bang” que explica a origem do Universo por uma grande explosão, corresponde em parte à afirmação dos místicos de que o Ser Absoluto propagou-se pela PALAVRA. Podemos ainda dizer que NOUS separou as suas polaridades ou que a Mônada dualizou-se. Com um olho místico e outro cientifico procuremos enxergar a LUZ que brota nesta Criação. Na seqüência da diástole deste grande Coração, vem a VIDA com o seu constante movimento entre as polaridades de NOUS, a sustentar a consciência. E o AMOR? Sinto-o como a força da sístole, da contração, da reintegração. É a força que ‘une’ o que foi separado. Penso que o AMOR tende a se tornar cada vez mais forte em sua manifestação, provocando a crescente ‘união’ entre as partes e levando o Universo ao movimento de contração até a Unidade novamente.

Nessa linha de pensamento, podemos imaginar os ‘buracos negros’ do espaço sideral como zonas em que o Amor já “venceu”. Se “como em cima, é embaixo”, por que não pode o Cósmico respirar? A próxima expiração ou Criação, no entanto, não seria igual à presente, pois os ciclos evoluem segundo uma espiral.

Como consideração final, quero dizer que este ensaio não tem a pretensão de representar a verdade. Ele traduz, isto sim, as reflexões de um estudante rosacruz acerca dos mistérios que nos envolvem. A motivação principal de tê-lo escrito foi a idéia de que serviria como estímulo para as tuas próprias reflexões. Por sinal, as idéias aqui apresentadas só adquirem valor quando acalentadas pela tua mente.
_
[Texto de Vadis A. Bellaver]