quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Corpo_Mente_Alma

Que é unidade?
Estamos acostumados a pensar em unidade como sendo uma simples coisa, estado ou condição. Contudo, a idéia de unidade tem origem na multiplicidade. Quando duas ou mais coisas parecem fundir-se em simplicidade, chamamo-las de unidade. A introspecção do homem, sua investigação de si mesmo, remonta há milhares de anos. Mas raramente o homem podia encarar-se como uma entidade simples.

Havia funções do ser do homem que diferiam notavelmente entre si. Por conseguinte, o homem há muito se imagina com sendo uma unidade de três substancias ou qualidades. Ademais, o relacionamento delas nele é um mistério sobre o qual ele ainda pondera. Em geral, estas três qualidades diferentes do ser do homem são chamados de corpo, mente e alma.

Desta trindade concebida, o homem tem a menor estima pelo seu corpo. Na verdade, ele muitas vezes o tem desprezado. Em suas religiões e filosofia, ele com freqüência submete o corpo ao sacrifício de si mesmo e à auto-mortificação. Em outras palavras, ele tem as vezes negado ao corpo suas necessidades e até mesmo o tem torturado.

A antiga escola filosófica órfica considerava a carne má e corrupta. Essa escola acreditava que o corpo aprisionava o elemento divino, isto é, a alma. Ela ensinava que a alma estava constantemente em busca da liberdade e se considerava que esta liberdade era o vôo da alma de volta a sua origem divina. As escolas socrática e platônica foram muito influenciadas por essa idéia  sobre o corpo.

Filo Judeu, do primeiro século a.C., foi um filósofo judeu, nascido em Alexandria. Na época, as crenças religiosas eram muito influenciadas pela cultura helênica, isto é, grega. Para Filo, Deus transcendia a tudo; Ele era eterno. Mas coeterno com Deus, existindo com Ele, dizia-se haver a matéria. Assim, havia um dualismo – Deus por um lado com a matéria se Lhe opondo do outro. Filo dizia que de Deus desceram os logoi, isto é, forças. Os dois logoi principais eram a bondade e a potencia, ou poder divino. A estes, Filo deu o nome de mensageiros ou intermediários de Deus.

Filo também ensinou que havia logoi menores. Estes menores, dizia ele, foram enredados e se transformaram em matéria. A alma – o logoi – foi aprisionada nessa matéria; portanto, consideravam-na potencialmente má. O homem tornou-se pecaminoso, mau, disso Filo, pelo mau uso de sua força de vontade; em outras palavras, cedeu às tentações de seus sentidos e corporais. Somente pela meditação e contemplação de suas qualidades divinas, declarava ele, é que o homem poderia erguer-se acima da matéria e do corpo. Estas idéias de Filo deixaram impressões fortes nas teologias judaica e cristã. O Novo Testamento reflete estas idéias.

Quais eram as causas principais daqueles conceitos adversos do corpo humano?  Quais são as razões filosóficas por trás deles? Mesmo nas culturas primitivas, o homem considerava que o corpo era evanescente, isto é, estava mudando constantemente. Como a vida vegetal, observava-se que ele declinava e perdia suas qualidades. O corpo podia ser facilmente ferido, destruído até mesmo pelo próprio homem. O corpo, portanto, não sugere nenhuma permanência, imutabilidade ou natureza eterna. Em comparação com os corpos celestes como o Sol, Lua e estrelas, o corpo parecia ser uma criação inferior.

Também para o homem primitivo, os males e dores do corpo pareciam salientar sua falta de pureza. Mesmo os apetites e paixões eram considerados como exemplos das fraquezas do corpo. Eles eram comparáveis às funções corporais dos animais, que o homem julgava lhe serem inferiores.

Mas também havia a segunda qualidade da natureza trina do homem. Era a parte pensante, os processos mentais.  Agrupamos estes sob o titulo de mente, mas existia uma vasta  distinção entre essas funções da mente e as do corpo. Havia uma característica impalpável sobre a parte pensante do homem. Ela não podia ser vista ou desmembrada. O mais impressionante, para o homem, sobre esta parte pensante, era que ela residia dentro dele. Era um algo dinâmico que movia o corpo como o homem preferisse. Este algo interior falava com ele; podia ordenar e implorar, mas era invisível.

Além disso, o corpo agia sobre este algo, sobre esta parte pensante, e esta reação fazia o homem experimentar medo, surpresa, felicidade, tristeza. Qual, então, era o real? Qual a verdadeira identidade ou ser do homem? Aqui nasceu a idéia de que o eu estava encerrado num invólucro. Em geral se considerava que este era inerte, passivo. O corpo era movido somente pelo mundo exterior ou por este algo interior. Considerava-se que o eu, a parte consciente e compreensiva, era o positivo, o ser real.

Vemos aqui o começo do dualismo, da dicotomia, da divisão do homem em duas partes. Esta idéia da divisão da natureza do homem ainda persiste nas religiões e filosofias éticas. Observou-se que esta parte pensante do homem só existia no corpo vivo. Ela partia com a morte, de modo que se lhe concebia como um atributo do que quer que dava vida ao corpo. Observou-se que a vida entrava e saía do corpo com o alento. O alento era o ar; O ar parecia infinito e eterno; portanto, o alento logo recebeu uma quantidade divina dada pelo homem antigo. Por exemplo, no Gênesis 2:7, encontramos: “O Senhor Deus formou, pois, o homem de barro da terra, e soprou-lhe no rosto o fôlego da vida e o homem tornou-se uma alma viva”.

Mas se supusermos que a força vital é divina, ela tem de fazer mais do que simplesmente dirigir as funções orgânicas do corpo. O homem achava que tinha de ter algum propósito superior a ser cumprido no corpo. Independente de como o homem concebe ser a forma Divina, considerava-se que ele possuía uma inteligência superior. Com o desenvolvimento dessa consciência de si mesmo, o homem adquiriu uma autodisciplina cada vez maior. Ele começou a experimentar fortes reações emocionais a certas fases de seu comportamento. Alguns dos atos do homem faziam-no experimentar prazeres; entretanto, nem todos esses prazeres estavam relacionados com as sensações de seus apetites. Havia alguns que eram muito mais sutis. Estas sensações o homem chamou de bem; seu oposto era o mal.

Era fácil para o homem acreditar que era a Essência ou Substancia Divina dentro dele que o mandava ser bom. Considerava-se ser ela a Inteligência do Divino do Homem. Julgava-se igualmente que esta Inteligência era uma parte superior da natureza do homem. Esta terceira qualidade de seu ser o homem chamou de alma.

O homem logo ficou sabendo das ilusões e  enganos dos sentidos. Estes estavam relacionados com o corpo finito e, portanto, não eram considerados uma fonte fidedigna para se chegar à verdade e ao conhecimento. A parte pensante do homem, a razão, parecia dar-lhe iluminação. Em outras palavras, ela dava ao homem respostas pessoais a muitas de suas experiências. Devido a essa eficácia atribuída à razão, ela era associada ao elemento divino do homem. Dizia-se que a razão era um atributo da alma. Plotino, o filósofo neoplatônico, dizia que a razão é “a alma contemplativa”.

De que maneira estes elementos trinos da natureza do homem seriam integrados? Qual deles seria o poder controlador da natureza humana? Platão relacionou esses três elementos com as classes de sociedade propostas para sua republica ideal. Ele disse que a razão no homem devia ser como a classe governante de filósofos; a vontade devia ser como a classe de guerreiros e devia pôr em vigor os ditames da razão; e o corpo devia ser os trabalhadores que provêem o sustento da razão e da vontade.

A metafísica e o misticismo modernos reconciliados com a ciência repudiaram a velha idéia da Trindade e, com a rejeição, muitas superstições, dúvidas e temores foram dissipados. Sua primeira proposição e doutrina são que todos os fenômenos, independente de sua manifestação, estão correlacionados. Eles não reconhecem uma dualidade real tal como material por um lado e imaterial do outro. Este moderno conceito místico e metafísico também não expõe que um estado ou condição da natureza humana é basicamente bom e que outro é mau. Ele afirma que tais conceitos são apenas relativos aos valores da mente humana finita.

A noção de dualidade pressupõe que um estado, coisa, ou condição, criou o outro. Por que deveria ser feito assim? Que parte da qualquer dos dois é a superior? OU por que uma permitiria que a outra fosse inferior ou lhe fosse contrária? Estas são as perguntas que há séculos vêm atribulando a teoria dualista da realidade. Por conseguinte, a metafísica moderna expõe, em vez disso, um estado monístico.

Este estado monístico, este “Um”, é o cosmo. Ele é eternamente ativo. O ser, o cosmo, é ativo porque é o cumprimento do que ele é. O ser é inerentemente positivo, dinâmico. A  idéia de não-ser do homem, um estado negativo, é apenas inferida do ser. É a suposição da ausência do que é. Inversamente, contudo um nada absoluto não sugere um algo.

Diz-se que a Natureza tem aversão ao vácuo; em outras palavras, ela se esforça continuamente por ser. Este esforço por ser é a própria necessidade do cosmo. Aquilo que está cônscio da necessidade do seu ser é consciência. Portanto, a metafísica e o misticismo modernos perpetuam um conceito tradicional. O de que o cosmo é cônscio de si mesmo.

A consciência d ser funciona de várias maneiras por toda expressão do cosmo. Encontramos consciência até na matéria inanimada. Ela está na estrutura nuclear da matéria e se manifesta como a polaridade positiva e negativa inerente a que a matéria obedece. Encontramo-la no núcleo positivo da célula viva e no seu invólucro externo negativo.

A consciência de “Uma” energia cósmica pode dominar e deter outra. Por exemplo, a  energia que impregna a matéria e a torna viva tem grande potência. Ela é relativamente mais positiva do que a matéria que, por contraste, é negativa. Este aspecto superior da consciência e da força então detém e controla a matéria. Ela obriga a estrutura da matéria viva a conformar com ela. Eis por que, nas moléculas DNA e RNA da célula viva, o desenvolvimento é somente unidirecional. A célula viva não retrogada no seu padrão. Somente grandes interferências podem produzir uma mutação, um desvio.

Há, portanto, uma combinação de consciência em cada forma viva, por mais elementar que ela possa ser. Esta combinação de consciência é transmitida por um processo evolutivo. Ela se torna uma consciência de grupo cada vez maior e esta consciência de grupo inclui todos os estágios anteriores de consciência. Como humanos, temos a consciência de que é a força de  energia básica, a centelha de vida. Mas também temos dentro de nós a consciência de toda forma de vida da qual o homem ascendeu.

Assim como a célula viva tem aquela consciência impulsora pela qual ela se esforça por ser, o mesmo acontece com o homem. O complexo organismo do homem – cérebro e sistema nervoso -  lhe dá consciência de si mesmo. Ele sabe que é. Ele se torna uma entidade em si. Mas as variações de consciência que se manifestam através do complexo organismo do homem produzem diferentes conjuntos de sensações. Existem fenômenos como intuição, razão, as emoções e as sensações ou impressões morais mais profundas.
O homem passou a separar e classificar estas variadas sensações e sentimentos que experimenta. Como dissemos, ele se imaginava ser uma tríade. Por analogia, suponhamos que temos várias cordas de metal esticadas, de diferentes tamanhos, como num instrumento musical, uma harpa, por exemplo. Se dirigirmos uma forte corrente de ar através delas, elas emitirão sons diferentes. Mas foi o mesmo volume de ar que produziu os sons diferentes. O ar fez apenas que as cordas, com tensão diferente, vibrassem de maneira diferente.

Da mesma forma, nosso organismo faz com que as variações da consciência universal em nós produzam sensações diferentes. O corpo, a mente e a consciência mais alta do eu, que se  chama alma, são apenas efeitos desta uma consciência de grupo dentro de nós. As distinções não estão na sua essência, mas nas funções produzidas. É como todas as diferentes notas musicais que, não obstante, são som. Somente à medida que o homem passa a compreender este  conceito é que deixará de exaltar uma função de seu ser à custa das outras.

O corpo tem a mesma fonte cósmica divina que aquilo a que o homem prefere chamar de alma. Mas o corpo está limitado a servir ao homem todo. Em conclusão, como disse o poeta Alexander Pope: “O estudo adequado da humanidade é o homem”.
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R.M.L. F.R.C.         
           

É Deus uma Energia?

Se pensarmos sobre isso por um momento, com isenção de qualquer fidelidade emocional, teremos de concluir que é extremamente presunçoso o homem pensar que sua inteligência finita é capaz de compreender a natureza absoluta do infinito. Sejam quais forem as qualidades de tal causa, proeminente seria o fato de que isto ultrapassaria os limites de quaisquer  qualidades sensoriais das quais o homem infere suas idéias. Em termos simples, se alguma coisa pode ser definida como incongnoscível em seu estado absoluto, esta quase que certamente seria a natureza de tal coisa como Criador, independente de qualquer outro termo que o homem lhe possa atribuir.

Mas os místicos falam de apreender, isto é, contactar e experimentar o Divino, o Cósmico, ou Deus por qualquer de vários delineamentos. Estamos, então, negando que o místico tenha tido tal experiência? O místico transcendeu em sua experiência mística os limites de suas qualidades sensoriais periféricas ou receptoras. Ele tornou-se cônscio do grau de um estado ou condição que transcende qualquer experiência objetiva. Ela o faz entrar num êxtase, uma sensação exaltada de prazer.

Contudo, seguindo-se a subjetividade do místico, existe, então, seu esforço para converter os elementos de sua experiência em termos objetivos. Ele transforma a experiência em palavras, formas e qualidade que pode compreender. Em termos mais sucintos, ele cria uma imagem verbal mental de sua experiência que está relacionado ao intelecto, educação e associação geral de particulares.

Por exemplo, o budista que tem tal experiência pode chamá-lo de Nirvana; o muçulmano pode dizer que Alá lhe foi revelado; o hebreu, Jeová; o hindu, talvez Brama; o persa, Zoroastro. Infelizmente, o fanático religioso em geral insistirá que a experiência especifica que  tem tido é a natureza absoluta do Criador,e, ademais – da maneira exata como ele a interpreta objetivamente. Ele estará predisposto a ser tendencioso contra qualquer noção divergente.

Portanto, podemos dizer que o homem pode criar sua própria imagem da causa onipotente e onisciente. O homem cria Deus não em essência, mas nas qualidades que sua mente lhe atribui, a imagem pela qual ele concebe esta essência. Quanto ao Criador ou Causa Inicial, que se acredita ser onipresente, considerá-lo como uma energia é praticamente tão plausível quanto qualquer outro conceito. O pensamento é energia. Portanto, aqueles que acreditam numa causa teleológica – isto é, numa causa mental – por certo admitirão igualmente que o pensamento é energia.

Mesmo o estudante religioso ortodoxo  lembrar-se-á da doutrina do Logos em João 1:1 do Novo Testamento, que diz: “No principio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”. Isto subentende claramente o pensamento sendo transformado na energia da palavra falada. Séculos antes da compilação do Novo Testamento, os sacerdotes egípcios diziam que o Deus Ptah, a divindade padroeira dos artesãos e que igualmente simbolizava o pensamento cósmico, criou o universo pela palavra falada. Dizem-nos que Ptahpronunciou o nome de todas as coisas”.

Há os que concebem a causa primária como sendo uma consciência universal, mas também em nossa experiência humana aceitamos a consciência como um atributo da vida, e a vida em  sua força e função vitais é, igualmente, uma  energia. Ademais, seja o que for que o homem conceba como sendo esta essência ou substancia cósmica, ela é, pelo próprio fato de ser – na medida em que a experiência humana pode concebê-la -, um paralelo da energia.

Em sua grande maioria, a população mundial em geral não aceita uma energia mental não-encarnada como sendo a força criadora no universo. Isto se deve principalmente à tendência humana de atribuir a uma Causa Inicial suprema qualidades semelhantes às do próprio ser do homem. Por exemplo, o homem é causativo; isto é, ele está cônscio de introduzir mudanças ou inovações em seu próprio ambiente e em suas próprias ações. Ele equaciona esta causação volitiva com a liberdade e criatividade pessoais. Ele está cônscio de que isto lhe dá superioridade sobre a maioria das outras formas de vida. Por conseguinte, inclina-se a  não atribuir qualquer poder ou qualidade menor ao que considera como um ser superior transcendental.

Dizer que o Cósmico – uma causa universal – é uma energia só seria ofensivo às pessoas que preferem um Deus antropomórfico; isto é, que tenha forma semelhante à humana. Contudo, essas pessoas estão negando seu deus como sendo determinativo ou tendo vontade e    propósito, pois por certo a vontade e o propósito estão relacionados com a mente, e a mente é, em sua manifestação, energia.

A ciência moderna deu um equivalente à  matéria e energia, pelo menos na medida em que há um intercambio entre elas. Simplesmente, atrás de toda realidade há uma espécie de  espectro eletromagnético, mas desconhecem-se seu alcance ou limitações. Em geral, os cientistas não admitem que tal fenômeno seja Deus. Mas se esse fenômeno é a causa básica de tudo o que existe, então seja qual for o nome que o homem lhe queira dar, ele é o Criador. Declarar que tal idéia é um sacrilégio significa, na verdade, admitir que o homem realmente conhece a natureza exata de Deus.

Isto, portanto, suscita a questão da natureza autorizada das obras religiosas sagradas, as quais são bem específicas em sua definição de um deus. O primeiro fato notável a ser observado, ao se ler essa literatura, é que as obras não estão concordes em seu conceito de uma causa primária ou divina. Portanto, outro ponto de vista, tal como uma energia cósmica cuja ordem ou manifestação parece estar relacionada com a energia que conhecemos, tem tanto direito como especulação abstrata quanto qualquer das outras chamadas exposições sagradas.

Compreendamos que as obras sagradas extraem sua autoridade principalmente da declaração de que elas são o resultado das revelações divinas. Não obstante, as descrições verbais dessas revelações são a construção da mente humana que as concretizou. Podemos, então, indagar quem estava certo ou errado: Ptah, Akhenaton, Moisés, Zoroastro, Buda, Jeová, Maomé, e numerosas outras personalidades ou conceitos que eram igualmente considerados sacrossantos para milhões de pessoas.

Não obstante, cabe ao homem o crédito de que realmente reconhece algo supremo que está além dele próprio e que cria, dentro dele, espanto, humildade e amor, bem como um desejo de compreendê-lo.

Será que o homem toma parte, de algum modo, na formação do Universo? Chegamos a nossas idéias, ao conhecimento que temos, a partir das sensações que percebemos pelos nossos sentidos receptores. Os impulsos registrados em nossos olhos e nossos órgãos de tato, por exemplo, oferecem as qualidades primárias pelas quais formamos uma imagem de nossa experiência. A visão nos transmite a noção  de espaço, cores e dimensões. O tato nos dá igualmente a noção de espaço e dimensões, ou tamanho e peso, e assim por diante.

Todavia, essas imagens, as formas mentais que temos de nossas percepções, na realidade não correspondem ao que quer que seja a fonte de nossas impressões. Em outras palavras, as vibrações que registram no cérebro criam idéias que são traduções do que na realidade está lá. Como analogia, uma pessoa pode ver algo que, para ela, tem a cor vermelha, mas para outra, que é daltônica, pode parecer verde. Qual é então sua verdadeira natureza? Está  é então sua verdadeira natureza? Está claro que o  espectroscópio revelaria que as vibrações estão dentro de certa faixa de espectro luminoso; mas a cor é uma imagem mental.

Se não tivéssemos os sentidos receptores e as qualidades a eles associadas, não atribuiríamos à realidade as formas especificas que lhe damos. Neste aspecto, lembremo-nos da velha história dos cegos e do elefante. Cada homem baseava sua descrição do animal de acordo com a parte que ele tocava da anatomia do paquiderme. O que apalpou sua tromba julgou-o semelhante a uma arvore; o que tocou sua orelha acreditava ser ele um leque ou uma folha. Na realidade, porém, ele era bem diferente de qualquer das duas concepções.

Vamos supor que os homens fossem privados da visão; sua consciência dos fenômenos do cosmo seria, objetivamente, muito alterada. Ou suponhamos que os homens possuíssem outra faculdade sensorial para perceber a realidade. A consciência humana poderia então estabelecer uma série de imagens dos fenômenos cósmicos e muito diferentes das que ora existem. Dizemos, então, que o ser existe; em outras palavras, há realidade que é muito independente da consciência humana. Em termos sucintos, se o homem não existisse, o ser continuaria sendo o que é. Contudo a consciência humana atribui a este ser uma forma, isto é, realidade; ela é um produto dos sentidos receptores, da razão e da imaginação humanas.

Mesmo nossa instrumentação moderna está alterando as impressões que nossa visão desarmada tem dos céus. Radiotelescóspios e viagens espaciais refutaram algumas das idéias, as imagens mentais que temos de objetos celestiais distantes. O cosmo não é tridimensional; tampouco se limita ele às cores do espectro tal como as percebemos.

Não nos deveríamos esquecer que até bem pouco tempo nossa imagem mental da Terra era a de ser ela chata e não esférica. Além disso, também não há muito, no período da história registrado, o homem acreditava que a Terra era o centro do universo. Ele remodelou o cosmo na sua mente mediante observações e impressões posteriores.

O absoluto, a verdadeira natureza do cosmo, talvez nunca seja conhecido pela mente finita do homem. Estamos aprendendo mais fenômenos do cosmo e suas miríades de mudanças, mas não podemos ter certeza de que nossa experiência daquilo que percebemos é fidedigna. O homem, por meio das ciências como astronomia, cosmologia e astrofísica, está tentando descobrir, isto é, chegar a uma teoria racional quanto à origem de seu universo imediato e daquele universo maior que dizemos ser formado de galáxias, sistemas solares, planetas etc. Quaisquer fenômenos que possam existir, e que a tecnologia avançada revelará, podem, uma vez mais, no futuro, alterar nossa imagem quanto ao que o cosmo realmente seja;em outras palavras, a tecnologia avançada pode fazer-nos remodelá-lo em nossa mente.

Houve um começo?

O homem transferiu muitas de suas experiências objetivas, os resultados das categorias de sua mente e organismo para o cosmo. Por exemplo, ele se vê como causador e, portanto, aplica o conceito de uma causa final, um começo, ao cosmo, o maior universo em si. Muitas das coisas que o homem observa e lhe parecem ter um começo são, na verdade, apenas uma transição de um estado anterior. Muitas vezes não podemos perceber o elo conector entre uma série de fenômenos e outra. Um tipo de manifestação parece interromper-se por completo e outro começa. Na realidade, um estado simplesmente fundiu-se em outro. Com o progresso da instrumentação nos últimos anos, a ciência tem podido mostrar a afinidade entre muitos fenômenos que, anteriormente, pareciam ter começos bem independentes.

Em quase todas as antigas religiões, a ontologia, ou a teoria do ser, está relacionada a uma deidade pessoal, um deus, deusa ou uma pluralidade de deuses antropomórficos.

Julgava-se que essas deidades fossem seres superiores, mas possuíam muitas características humanas. Tinham mente que pensava, que planejava, que criava objetivos a serem alcançados. Assim, como o homem, eles criaram o universo – o todo do ser que o homem supõe conhecer.

As vezes se julgava que esses deuses criaram o cosmo a partir de sua própria natureza. Outras vezes, imaginava-se que a criação, começou com um estado de caos – um nada do qual os próprios deuses nasceram. Por sua vez, eles criaram os outros fenômenos da Natureza. Todavia, esses antigos cosmólogos supunham que o caos, ou estado do nada, tinha uma natureza positiva. Ele possuía uma qualidade em si. Não era o nada  como o imaginamos – apenas a ausência de algo. Supunha-se que, do  estado informe desse caos, surgiu um potencial que deu origem ao ser.

Era muito difícil para o homem mediano conceber um estado eterno, um que sempre existiu e que jamais tivera um começo.

Para a maioria das pessoas a idéia de auto-geração é igualmente difícil de compreender, pois em sua experiência diárias elas provavelmente não encontrarão algo que sugira tal fenômeno. Uma causa por trás de tudo, incluindo o Ser Absoluto, o próprio cosmo, parece mais concorde com a experiência finita.

É igualmente difícil alguém adotar o conceito de que não existe uma condição como não-ser-absoluto, ou nada. Temos de compreender que somente percebendo o ser é que nos é possível imaginar tal condição com sua ausência ou oposto. Se um estado de não-ser pudesse ser identificado como tal, na realidade ele então teria uma qualidade própria. Seja o que for, é então um ser de um tipo. Se algo pode surgir do chamado nada, então, racionalmente, ele na realidade é não-ser-,sendo, antes, alguma coisa. Um estado de nada jamais poderia existir por si só, sem ser algo.

Filosófica e logicamente, temos de aceitar a idéia de que o ser sempre existiu e jamais poderia ter tido um começo, porque, de onde viria ele? Se você tentasse atribuir uma origem ao ser, então, logicamente, sempre voltaria a um estado de alguma condição ou qualidade que, em si, é ser.  De igual modo, jamais pode haver um fim para o cosmo – em que o ser se dissolveria, seria absorvido, fundir-se-ia, ou desapareceria?  O ser não pode ser destruído, pois isto seria a suposição de que existe um nada dentro do qual ele desapareceria, e o nada não existe.

O ser está mudando continuamente, dizia Heráclito, o filosofo grego, há milhares de anos; também que a matéria está sempre vindo-a-ser. Entretanto, o ser puro não é apenas matéria, mas a energia que lhe é subjacente e na qual ele pode transformar-se. Nas grandes transições e transformações a que o ser está sempre  sendo submetido, pode parecer-nos que alguma entidade ou expressão da Natureza se dissolveu em nada. Mas sabemos hoje que essas são na realidade mudanças para outras expressões cuja natureza pode não ser imediatamente perceptível.

Lemos constantemente postulações cientificas sobre o começo de nosso universo. Nosso sistema solar, o Sol e os planetas, e mesmo a vasta galáxia com milhões de outras estrelas e planetas sem duvida tiveram um começo. Queremos dizer com isto que eles tiveram um estado anterior antes de serem o que são agora. Ou eram gasosos ou alguma outra substancia de fenômenos celestes. Contudo, quando falamos de começo neste sentido, com relação ao universo, ou às galáxias, referimo-nos somente a sua forma tal como a conhecemos agora. Não queremos dizer que cientificamente, nossa galáxia, a Via-Láctea, por exemplo, ou as outras galáxias com seus bilhões de sistemas solares, surgiram originariamente do nada.

Na verdade, o que os astrofísicos estão agora esforçando-se por determinar – e sobre o que esperam que a exploração espacial lance  nova luz – é a natureza da substância primária ou básica do cosmo.

Haverá um propósito para a existência? A hagiografia, os textos sagrados das religiões, como o Veda, o Zend-Avesta, a Bíblia e o Corão, ou proclamam o que se diz ser o propósito de Deus para o homem, ou oferecem as opiniões pessoais e inspiradas do seu Messias ou fundador sobre o assunto.

Conceber que existe um propósito especifico para a existência requer uma crença no determinismo. Isto faz supor, simplesmente, que uma mente concebeu um curso definido de acontecimentos para o homem em relação aos  fenômenos da Natureza. É que se espera ou se pretende que o homem aja de certa maneira de modo a cumprir uma finalidade para sua existência.

Ademais, isto requer também uma crença no teísmo, isto é, uma divindade pessoal. Ele concebe uma Mente Divina exaltada que criou cada fenômeno da Natureza pra conformar com um plano ou projeto cósmico. Considera-se que o homem ou é parte integrante desse empreendimento geral ou é o ponto central, isto é, a própria razão dele.

Por que o homem quer pensar, crer que exista um propósito ordenado, uma razão, um curso planejado para a Humanidade?  Tal desejo pode ser relacionado com a mentalidade humana, com a maneira como a mente humana pensa, e suas experiências. Por exemplo, ninguém pode imaginar-se conscientemente andando por uma estrada sem saber por que está ali ou para onde vai.

Estamos cônscios da maioria de nossos motivos. Os anseios, os impulsos que temos para agir, fazer algo, podemos relacioná-los com algum estímulo. Somos capazes de ver o que parece ser a causa  que nos levou a agir ou a funcionar da maneira como o fizemos. Ou, pelo nosso anseio ou razão, estabelecemos desejos, objetivos e idéias para os quais nos dirigimos. Jamais, num estado consciente e normal, agirmos por nossa própria vontade sem relacionarmos um motivo, um propósito  para nossa ação.

Estas finalidades ou propósitos que estabelecemos são uma função integrante do tipo de  ser consciente que somos. A vida em si, mesmo na simples célula, tem certas necessidades com as quais deve se conformar. Sua nutrição, excreção, irritabilidade [sensibilidade], e reprodução no sentido lato, são propósitos da célula. Todavia, a célula não tem a complexidade, o organismo pelo qual possa avaliar sua motivação, isto é, as finalidades rumo às quais se esforça continuamente. Em certo sentido, ela cumpre seus atos cegamente, isto é, destituída de razão, tal como o homem define esta palavra.

Estas ações da célula são, na realidade, suas  funções e não propósitos criados independentemente de sua natureza. Agora, que dizer do homem? Serão as muitas coisas pelas quais ele  se esforça e alcança – serão elas o propósito? O homem tem a altamente desenvolvida faculdade da razão. Por este meio ele pode diferenciar entre os vários impulsos e estímulos que atuam sobre si. O homem lhes dá valor para satisfazer seus estados emocionais ou, inversamente, para evitar considerável sofrimento para si mesmo. Como um ser senciente, sensível e pensante, pode o homem evitar agir diferentemente?  Este raciocínio por parte do homem, esta avaliação, esta seleção de finalidades ou propósitos para seus ‘eus’ físico, emocional e intelectual são todos parte do que o homem é. Eles não são propósitos, isto é, finalidades que são separadas dos poderes, funções e atributos naturais de seu próprio ser.

Contudo, o homem, em sua criação de condições, está acostumado a atender a sua natureza complexa, a classificar tal propósito. Portanto, ele se considera como tendo um propósito. É, pois, compreensível que o homem não pense que os fenômenos da Natureza estejam apenas manifestando-se de acordo com o que são em essência, e sim para cumprir algum propósito ordenado. Logo, da mesma forma é aparentemente lógico para o homem supor que sua própria existência é a conseqüência, a consumação de um propósito transcendental – uma causa teleológica ou da mente.

Não pode o homem ser apenas parte da manifestação da natureza de todo o Ser Cósmico, um atributo integrante de um fenômeno necessário? Por que tem o homem de atribuir uma função aos seus próprios fenômenos finitos e conscientes, isto é, a noção do propósito que ele tem, a todo o cosmo?

Na compreensão comum da palavra propósito, ela subentende a existência de incompleto, imperfeição e ineficiência. Trata-se de uma finalidade ou objetivo que, segundo se concebe, removerá tais inadequações aparentes. Num estado do Absoluto onde haveria qualidade e quantidade adequadas, o propósito não poderia existir. Não haveria desejo para planejá-lo. Devemos pensar que o cosmo é insuficiente – que precisa de alguma coisa? Que realizaria ele fora de si mesmo? É em sua atividade interna que tudo é potencial. Só se pode conferir propósito ao Cósmico se ele também estiver disposto a depreciar sua auto-suficiência e conceber algo além de sua natureza para ser manifesto.

Será o homem, então, que planeja propósito para sua existência. É o homem que deseja  estabelecer certas finalidades para seu ser pessoal em relação a toda a realidade. Talvez se  uma estrela tivesse o mesmo tipo de percepção e concepção conscientes que o homem possui, também ela poderia olhar o resto do universo e imaginar por que ele existe, e que propósito ele tem em relação a todos os outros corpos estelares.

A razão do homem, os eus psíquicos e emocional tem de ser gratificados. Eles tem de ser  estimulados e aplacados. Isto só pode ser feito por ideais, razões plausíveis, ou propósitos auto-criados para viver. Se o homem fosse um organismo inferior como foi outrora, não seria perturbado pela tentativa de encontrar um relacionamento com toda a realidade. Ele, como acontece com os animais inferiores, simplesmente reagiria de modo instintivo aos seus apetites naturais e ao seu ambiente. Ele não seria perturbado pela tentativa de racionalizá-los e dar a eles e a si mesmo uma razão.

As razões que o homem continua concebendo para seu surgimento ele jamais pode determinar empiricamente. Não pode mostrar que elas são o resultado de funções da Natureza, do  desenvolvimento da própria vida. Mas o homem pode dar propósito, que é uma faculdade de sua inteligência, a sua vida imediata. Ele pode criar finalidades que não só gratificarão sua curiosidade intelectual inerente, mas que satisfarão aqueles impulsos e sentimentos psíquicos mais altos a que o homem dá o nome de qualidades morais e espirituais.
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R.M.L _F.R.C.