quarta-feira, 8 de junho de 2011

Spencer_Ética: A Evolução da Moral

Tão importante pareceu a Spencer este problema da reconstrução industrial, que lhe devotou de novo uma das seções dos Princípios da Ética [1893] “parte última da minha obra, da qual todas as anteriores são subsidiárias”. Homem dotado da severidade moral do período vitoriano, era Spencer especialmente sensível ao problema de encontrar uma nova ética natural que substituísse a que tinha por base a fé. “As supostas sanções sobrenaturais da conduta, se rejeitadas, não deixam um vazio. Existem sanções naturais não menos enérgicas e cobrindo um campo ainda maior”.

A nova moralidade deve ser erigida com alicerce na biologia. “A aceitação da doutrina da evolução orgânica determina certas concepções éticas”. Huxley em suas conferencias romanas em Oxford, em 1893, declarou que a biologia não podia fornecer as bases da moral; que a natureza ‘red in thoot and claw’ [como disse Tennyson] exaltava a brutalidade e a astúcia antes que a justiça e o amor; mas Spencer sentia que um código moral não baseado na seleção natural e na luta pela vida estria irremediavelmente condenado. A conduta, como tudo mais, é considerada boa ou má conforme é bem ou mal adaptada aos fins da vida; “a melhor conduta é a que conduz a maior extensão, amplitude e plenitude da vida”. Ou, em palavras mais precisas, a conduta é moral quando faz o individuo ou o grupo mais integrado e coerente no meio da heterogeneidade de fins. A moralidade, como a arte, é a consecução da unidade na diversidade; o tipo mais alto do homem é o que une em si a mais larga variedade, complexidade e plenitude de vida.

É uma definição elástica como deve ser, porque nada varia tanto no espaço e no tempo como as necessidades especificas da adaptação e, portanto, o conteúdo especifico da idéia de bem. Verdade que certas formas de conduta tem sido fixadas como boas -  como adaptadas a vida mais plena – pela sensação de prazer que a seleção natural ligou a essas ações preservativas e expansivas. A complexidade da vida moderna multiplicou exceções, mas normalmente o prazer indica o que é biologicamente atividade útil; e a dor, o que é biologicamente atividade perigosa. Não obstante, dentro do bojo amplo deste principio encontramos as mais diversas e aparentemente as mais hostis concepções do bem. Com dificuldade encontraremos no nosso código de moral um principio que em uma qualquer outra parte não seja tido como imoral; não somente a poligamia, mas o suicídio e o homicídio, ainda que dos pais, encontram, em um povo ou  noutro, plena aprovação moral.

*As mulheres dos chefes tribais de Fidji consideram dever sagrado serem estranguladas após a morte de seus maridos. Uma que foi arrancada por Williams das mãos dos executores, fugiu durante a noite, atravessou a nado o rio, apresentou-se a tribo e insistiu no cumprimento do ritual; e Wilkes conta de outra que acusou seu salvador de “ter abusado” e que desde então lhe consagrou um “ódio mortal”. Livingstone narra que as mulheres de Makololo, nas margens do Zambese, se escandalizavam de ouvir que os homens europeus só tinham uma esposa – por que isso não era ‘respeitável’. Assim também na África equatorial, segundo Reade, “se um homem se casa e sua mulher acha que ele pode permitir-se uma segunda esposa, atropela-o até que a tome, insultando-o de miserável se o não faz”.

Tais fatos colidem, sem duvida, com a crença de que existe um senso moral inato que diz ao homem o que é reto ou  não.  Mas a associação do prazer e da dor a boa ou má conduta dá uma medida de verdade a idéia. E pode tornar-se admissível que certas concepções  morais adquiridas pelas raças se tornem hereditárias no individuo. Aqui Spencer usa sua forma predileta para reconciliar o intuicionista com o utilitarista e volta uma vez mais a hereditariedade dos caracteres adquiridos.

Bem certo que o senso moral inato existe, anda hoje em dificuldades; porque nunca as noções éticas estiveram em maior confusão. É notório que os princípios que aplicamos em nossa vida real vivem em completo desacordo com os que pregamos nas igrejas e nos livros. A ética professada na Europa e na América é um cristianismo pacifista; mas a ética real, a praticada, é o mesmo código militaristico dos teutões depredadores, dos quais as classes dirigentes da maior parte da Europa são oriundas. A pratica do duelo é na católica França e na protestante Alemanha uma relíquia tenaz do código teutonico. Nossos moralistas sentem muita dificuldade para harmonizar estas contradições, do mesmo modo que os moralistas da Grécia e da Índia da fase monogâmica encontravam dificuldade em explicar a conduta dos deuses formados em uma era semi-promiscua.

A formação dos homens de uma nação nas linhas da moral cristã ou da moral teutonica depende de ser a guerra ou a industria a grande idéia predominante na nação. Uma sociedade militar exalta certas virtudes que para outros povos são consideradas crimes; a agressão, o saque e a traição recebem todas as atenuantes nos povos afeitos a guerra, e todas as agravantes no povo que aprendeu o valor da honestidade e da não-agressão através da industria e da paz. Generosidade e humanidade florescem melhor onde a guerra é rara e onde longos períodos de paz produtiva inculcam as vantagens do auxilio mutuo. O patriótico membro de uma sociedade militaristica verá a bravura e a força como as mais altas virtudes do homem; verá a obediência, como as mais altas virtudes do homem. Verá a obediência, como a mais alta virtude do cidadão; e verá a passiva fecundidade da mulher, como a mais alta virtude do sexo feminino. O Kaiser falava de Deus como o chefe supremo do exercito alemão.

Os índios norte-americanos “considerava, o uso do arco e da flecha, do tacape e da lança como a mais nobre ocupação humana” e tinham a agricultura e o trabalho mecânico como degradantes. Unicamente nos últimos tempos -  só agora que o bem estar nacional se está tornando mais e mais dependente da força de produção, e esta, ‘de faculdades mentais mais desenvolvidas, é que outras ocupações, além da militar, estão crescendo em respeitabilidade”.

Porque a guerra é apenas um canibalismo por atacado; não existe razão para que a guerra não seja classificada como canibalismo e inequivocamente denunciada como tal. “O sentimento e a idéia de justiça só podem crescer na proporção em que os antagonismos das sociedades decrescem e a cooperação interna de seus membros cresce harmoniosamente”. Como pode ser promovida esta harmonia? Como já vimos, ela ressurge mais prontamente da liberdade do que da regulamentação. A formula da justiça deve ser: “Cada homem é livre de fazer contanto que não prejudique a liberdade similar de qualquer outro homem”. É esta uma formula hostil a guerra e que exalta a autoridade, a arregimentação e a obediência; é formula favorável a industria pacifica visto como prevê um maximum de estimulo dentro de uma absoluta igualdade de oportunidade; está conforme a moral cristã porque torna cada pessoa sagrada e livre de agressão; e é a sanção do juiz supremo – a Seleção Natural – porque abre os recursos da terra igualmente a todos e permite que cada individuo prospere de acordo com a sua capacidade e seu trabalho.

Isto parece a primeira vista um principio impiedoso; e muitos lhe oporão, como capaz de adquirir extensão nacional, o principio familial de dar a cada um, não de acordo com a capacidade ou o trabalho, mas de acordo com a sua necessidade. Entretanto, uma sociedade conduzida sob estes princípios depereceria.

Durante a imaturidade os benefícios recebidos devem ser inversamente proporcionais as capacidades possuídas. Dentro do grupo familiar, o mais deve ser dado ao que menos merece [o mérito medido pelo valor da criatura]. Na maturidade, ao contrário, o beneficio recebido deve ser proporcional ao valor do individuo, sendo esse valor medido pela sua adaptabilidade as condições da existência. O mal-adaptado sofrerá dos males de sua mal-adaptação e o bem adaptado se beneficiará dessa condição favorável. São as duas leis com as quais a espécie tem de conformar-se para o bem da sua preservação...Se entre os imaturos o beneficio fosse proporcional a eficiência do individuo, as espécies desapareceriam imediatamente por decadência, dentro de poucas gerações...A justificação única para a analogia entre pai e filho e entre governo e povo reside na infantilidade do povo que entrentem essa analogia.

Em matéria de prioridade a Liberdade contende com a Evolução no espírito de Spencer...e a Liberdade vence. Pensa ele que a medida que a guerra decresce, o controle do individuo pelo estado perde muito da sua justificativa, e em uma condição de paz permanente o estado seria reduzido aos limites traçados por Jefferson, agindo unicamente para impedir que um individuo invada a liberdade de outro. Assim, a justiça seria administrada gratuitamente de modo que os malfeitores saibam que a pobreza de suas vitimas não poderá eximi-los da penalidade; e todas as despesas do estado seriam satisfeitas pela taxação direta para que a invisibilidade da taxação não esconda ao publico as extravagâncias governamentais. Mas “além de manter a justiça, o estado nada pode fazer sem transgredir a justiça”; porque então protegeria indivíduos inferiores evitando que sofressem as naturais conseqüências da sua incapacidade – e é pela sobrevivência do mais capaz que o grupo social progride.

O principio da justiça requerera a propriedade comum da terra, se pudéssemos separar a terra das suas benfeitorias. Em seu primeiro livro Spencer advogara a nacionalização do solo para nivelas as oportunidades econômicas; mais tarde retirou essas idéias [com muita mágoa de Henry George, que lhe chamou o ‘filosofo perplexo’], sob escusa de que a terra só é bem cultivada pela família dos que a possuem e que esperam transmitir aos seus descendentes os melhoramentos introduzidos. Quanto a propriedade privada, ela deriva imediatamente da lei da justiça, porque cada homem deve ser igualmente livre de reter os produtos do seu trabalho. A justiça das transmissões por herança já não é tão óbvia; mas o ‘direito de legar está incluso no direito de possuir, já que de outro modo a propriedade não ficaria completa’. O comércio deve ser tão livre entre as nações como entre os indivíduos; a lei da justiça não será apenas um código tribal, mas uma inviolável máxima de relações internacionais.

São estes em linhas gerais os “direitos do homem” – o direito a vida, a liberdade, e a prossecussão da felicidade com perfeita igualdade para todos. Ao lado destes direitos econômicos, os direitos políticos aparecem como irrealidades insignificantes. Mudanças na forma do governo a nada montam onde a vida econômica não é livre; e o laissez-faire monárquico vale muito mais do que uma democracia socialista.

* Sendo o voto um simples método de criar um meio para a preservação dos direitos, surge o problema de se a universidade do voto conduz a criação do melhor meio de preservar esses direitos. Temos verificado que não. A experiência mostra o que mesmo sem a experiência já era obvio -  que com a universalização do voto as classes maiores se beneficiarão com prejuízo das menores...Evidentemente a constituição do estado apropriado ao tipo industrial da sociedade em que a equidade mais se realize, deve ser uma em que não haja representação de indivíduos, mais sim representação de interesses...Pode ser que o tipo industrial, talvez pelo desenvolvimento de organizações cooperativas, que teoricamente obliteram a distinção entre empregado e empregador,, possa produzir arranjos sociais que suprimam os antagonismos dos interesses de  classes ou os atenuem....Mas com a humanidade como hoje a temos, a posse do que chamamos direitos iguais não assegura a manutenção desses direitos.


Desde que os direitos políticos são ilusórios e só os direitos econômicos valem, as mulheres andam erradas gastando tanto tempo em busca da emancipação. Spencer receia que o instinto maternal leve a mulher a propiciar o estado paternalístico. Mas aqui existe alguma confusão em seu espírito; argue ele que os direitos políticos são de nenhuma importância e diz depois que é importante que as mulheres não os tenham; denuncia a guerra e depois contende que a mulher não deve votar porque não arrisca sua vida nos campos de batalha -  um vergonhoso argumento para um ser que veio ao mundo dentro da dor da mulher. Spencer tem medo que a mulher seja altruística em excesso; e entretanto a concepção suprema do seu livro é que a industria e a paz desenvolverão o altruísmo até neutralizar o egoísmo e assim evolver a ordem social espontânea de rumo a um filosófico anarquismo.

O conflito do egoísmo e do altruísmo [esta palavra e alguma coisa desta matéria Spencer toma inconscientemente de Comte] resulta do conflito do individuo com a sua família, seu grupo e sua raça. Presumivelmente o egoísmo vencerá, e talvez seja o desejável. Se toda a gente pensasse mais nos interesses dos outros do que no seu próprio, cairíamos em um caos de cortesias e recuos; e provavelmente “a prossecussão da felicidade individual dentro dos limites prescritos pelas condições sociais é o primeiro requisito para a consecussão da maior felicidade geral”. O que podemos esperar, todavia, é um alargamento maior da esfera de simpatia, uma ampliação dos impulsos do altruísmo. Já agora muito sacrifício é feito com alegria: “O anseio por crianças entre os que não tem filhos e a adoção, mostram como são necessárias  para os fins altruísticos certas satisfações egoísticas”. A intensidade do patriotismo é outro exemplo da apaixonada superposição de interesses mais amplos aos interesses imediatos. Geração a geração recrescem os impulsos para o auxilio mutuo. “Incessante disciplina moldará de tal modo a natureza que eventualmente os prazeres simpáticos serão espontaneamente procurados, com beneficio de extensão de vantagem a todos”. O senso do dever, que é o eco de gerações compelidas a uma certa conduta social desaparecerá então: as ações altruísticas, tendo-se tornando instintivas por meio da seleção natural no rumo da utilidade social, serão praticadas com alegria e sem compulsão, como todas as operações instintivas. A evolução natural da sociedade humana nos conduzirá para o estado perfeito.

       

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Spencer_A Evolução da Sociedade

Para a sociologia já o veredicto da critica é totalmente diferente. Estes alentados volumes, cuja publicação levou vinte anos, constituem a obra prima de Spencer; cobrem o seu campo favorito e mostram-no no mais alto das generalizações e no ápice da sua filosofia política. Do primeiro ensaio publicado [Social Statics] ao derradeiro fascículo dos Princípios da Sociologia, pelo espaço de quase meio século, seu interesse se concentra nos problemas econômicos e de governo; como Platão, Spencer começa e acaba com dissertações sobre moral e a justiça política. Homem nenhum, nem mesmo Comte [fundador da ciência, a qual batizou com um nome por ele criado] fez mais pela sociologia.

Em um volume introdutório, O Estudo da Sociologia [1873], Spencer bate-se com calor pela admissão e desenvolvimento da nova ciência. Se o determinismo está certo na psicologia, devem existir regularidades de causa e efeito nos fenômenos sociais; e um cuidados estudante do homem e da sociedade não pode contentar-se apenas com uma simples historia cronológica, como a de Livy nem com a historia biográfica de Carlyle; procurará na historia  as linhas gerais do desenvolvimento, as seqüências causais, as correlações que transformam a congerie dos fatos em cartas de ciência. O que a biografia é pra a antropologia, a história é para a sociologia. Sem duvida há ainda milhares de obstáculos que o estudo da sociedade tem de vencer antes que receba o grau de ciência [*The Principles of Ethics. Se os críticos de Spencer tivessem lido esta passagem não teriam acusado de dar valor demais a sociologia]. A jovem disciplina está peada de uma multidão de preconceitos – pessoais, educacionais, teológicos,econômicos, políticos, nacionais, religiosos; e pela onisciência dos ignorantes. ‘Há o caso de um francês que depois de  passar aqui três semanas propôs-se escrever um livro sobre a Inglaterra; depois de três meses, porém, achou que não estava preparado; e depois de três anos concluiu que nada sabia da Inglaterra”. Esse viajante estava maduro para começar o estudo da sociologia. Homens preparam-se com uma vida inteira de estudos de física, de química ou biologia antes de se tornarem autoridades; mas no campo sociológico não há caixeiro de venda que não seja um mestre – conhece todas as soluções e insiste em ser ouvido.

A preparação de Spencer neste caso foi um modelo de  honestidade intelectual. Empregava três secretários para lhe reunir dados, que eram classificados em colunas paralelas, e assim com todas as instituições domesticas, políticas, eclesiásticas, profissionais e industriais de cada povo de alguma significação.

A sua custa publicou estas coleções em oito grandes volumes, de modo que os estudiosos pudessem verificar ou modificar suas conclusões; e não estando ainda terminado esse trabalho por ocasião de sua morte, deixou parte das suas economias destinadas ao prosseguimento da publicação. Depois de sete anos de um preparo assim, apareceu em 1876 o primeiro volume da Sociologia; e somente em 1896 o ultimo foi concluído. Ainda que toda a obra de Spencer envelhecesse e ficasse apenas de interesse para os antiquários, estes três volumes permaneceriam vivos e ricos de informações para todos os estudiosos da sociedade.

Não obstante, a concepção inicial do trabalho é típica do seu habito de atirar-se a largas generalizações. A sociedade, diz ele, é um organismo, tendo órgão de nutrição, circulação, coordenação e reprodução[*Pela colonização e reprodução sexual com o casamento entre indivíduos de raças diferentes] tal como os indivíduos.è verdade que no individuo a consciência está localizada, ao passo que na sociedade cada uma das partes retêm a sua própria consciência e sua própria vontade; mas a centralização da autoridade e do governo tende a reduzir esta distinção. “Um organismo social tem como o organismo individual estes traços essenciais: que cresce e que enquanto cresce se torna mais complexo; e que enquanto se torna mais complexo suas partes adquirem maior independência. Tem ainda que sua vida é imensa em extensão comparada com a vida das unidades componentes; que em ambos os casos há uma crescente integração acompanhada da crescente heterogeneidade”. Assim, o desenvolvimento da sociedade se faz francamente dentro da formula da evolução: as crescentes proporções da unidade política da família ao estado; o tamanho crescente da unidade econômica – das pequenas industrias domesticas aos monopólios; e o crescente tamanho da unidade demográfica das aldeias as metrópoles – isto seguramente mostra um processo de integração. E a divisão do trabalho, a multiplicação das profissões e comércio e a crescente interdependência econômica da cidade para com a nação e desta para com as outras, amplamente ilustram o desenvolvimento da coerência e diferenciação.

O mesmo principio da integração do heterogêneo se aplica a todos os campos de fenômenos sociais, da religião ao governo e da ciência a arte. Religião é a principio adoração de uma congerie de deuses e espíritos, mas ou menos os mesmos em todos os povos; e o desenvolvimento da religião vem da noção de uma deidade central onipotente que subordina todas as outras e as coordena em hierarquia. Os primeiros deuses eram provavelmente sugeridos por sonhos e fantasmas. A palavra espírito ainda é igualmente aplicada a fantasmas e deuses. A mentalidade primitiva admitia que na morte, ou no sono, ou no transe, o fantasma ou o espírito deixava o corpo; ainda em um espirro as forças da expiração podiam expelir o espírito e daí o “Deus o ajude” e equivalentes, como proteção contra essa perigosa aventura. Ecos e reflexões eram sons e visualizações do nosso fantasma, ou do nosso outro eu; o bassuto recusa-se a andar pela beira d’água de medo que o crocodilo lhe apanhe a sombra e a devore. Deus era a principio ‘um fantasma de existência permanente’. Pessoas que foram poderosas em vida eram consideradas como mantendo seu poder depois da morte. Entre os taneses a palavra significando Deus quer dizer ‘homem morto’. “Jeová” queria dizer ‘o forte’, ‘o guerreiro’: “havia sido talvez um potentado local que depois da morte passara a ser adorado como o deus das hostes”. Esses perigosos fantasmas tinham de ser propiciados; e os ritos funerários desenvolveram-se em adoração, e todos os modos de obter os favores dos poderosos da terra foram adaptados no cerimonial de apaziguamento dos deuses. As rendas eclesiásticas originaram-se das oferendas aos deuses, assim como as rendas do estado se originaram dos presentes aos chefes de clan. A obediência ao rei tornou-se prosternação e oração diante dos altares dos deuses. A deidade a derivar-se de um chefe morto pode ser vista claramente nos romanos, que divinizaram seus chefes ainda em vida. Nessa adoração dos mortos parece que tiveram origem todas as religiões. A força deste costume é ilustrada pela história do chefe que recusou o batismo por não se satisfazer com a resposta a pergunta quanto ao seu encontro no céu com os seus antepassados pagãos. Alguma coisa desta crença explica a bravura dos japoneses na guerra de 1905; a morte não os assustava porque lá no céu tinham os antepassados a segui-los com os olhos.

A religião foi provavelmente a feição central da vida dos homens primitivos; a existência era-lhe tão precária e humilde que a alma vivia mais de esperanças daquilo que estava para sobreviver do que da realidade das coisas vistas. De algum modo a religião sobrenatural é uma concomitante das sociedades militaristas; a medida que a guerra caminha para a industria, o pensamento passa da morte para a vida e a vida sai da trilha estreita da reverencia a autoridade par a vereda larga da iniciativa livre. Realmente, a mais fecunda mudança que se deu na sociedade ocidental foi a gradativa substituição de um regime militar por um regime industrial. Os estudiosos da matéria geralmente classificam as sociedades de acordo com os seus governos – monárquicos, aristocráticos ou democráticos; mas estas distinções são superficiais, a grande linha divisória é a que separa a sociedade militar da industrial, nações que vivem da guerra e nações que trabalham para viver.

O estado militar está sempre centralizado no governo e quase sempre monárquico; a cooperação é regimental e compulsória; esse tipo de estado fomenta a religião adorando um deus guerreiro; desenvolve rígidos códigos de distinção de classe e propende para o absolutismo domestico do macho. E porque a mortalidade nos grupos guerreiros é alta, surge a poligamia e um baixo estatuto para a mulher. A maior parte dos estados tem sido militares porque a guerra fortalece o poder central e lhe subordina todos os interesses. Daí ser a “história pouco mais que o calendário Newgate das nações”, um relatório de roubos, traições, assassinatos e suicídios nacionais. A antropofagia era a vergonha das sociedades primitivas; mas algumas das sociedades modernas praticam a sociofagia – escravizam e consomem povos inteiros. Até que a guerra seja suprimida, a civilização não passará de um precário interlúdio entre catástrofes; a “possibilidade de um estado altamente social depende da cessação da guerra”;

A esperança da cessação da guerra jaz menos na conversão dos corações humanos [porque o homem é o que o meio o faz] do que no desenvolvimento das sociedades industriais. A industria trabalha para a democracia e a paz; se a vida deixa de ser dominada pela guerra, milhares de centros econômicos se erguem, com reação benéfica para uma mais larga porção dos membros do grupo. Desde que a produção só pode prosperar quando há liberdade de iniciativa, uma sociedade industrial rompe logo as tradições de autoridade, hierarquia e casta que florescem nas sociedades militares e que nutrem o estado militar. A profissão de soldado cessa de ser tida em alta conta: o patriotismo passa a amor do país em vez de ódio ao vizinho. A paz se torna a primeira necessidade da prosperidade e, como o capital se internacionaliza, a paz internacional se impõe. A medida que as guerras externas diminuem, a brutalidade doméstica também decai; a monogamia substitui a poligamia visto como o tipo de vida dos dois sexos se torna quase o mesmo – e o estatuto da mulher sobe a sua emancipação entra em cena. Superstições religiosas cedem o passo a credos liberais, cujo objetivo é o melhoramento e o enobrecimento da vida do homem na terra. O mecanismo da industria ensina o mecanismo da universo; a noção da invariável seqüência de causas e efeitos e a investigação das causas naturais substituem o recurso fácil as explicações sobrenaturais. A história começa a estudar o povo no trabalho em vez de estudar os reis na guerra, cessa de ser um relatório de personalidades para tornar-se a exposição das grandes invenções e das novas idéias. O poder do governo decresce e o poder dos grupos produtivos dentro do estado aumenta; há uma passagem de ‘status para contrato’, de cooperação compulsória para cooperação livre. O contraste entre a sociedade militar e industrial é indicado pela “mudança de crença de que os indivíduos existem para beneficio do estado e de que o estado existe para o bem do individuo”.

Embora protestando vigorosamente contra o imperialismo militar da Inglaterra, Spencer escolheu seu país como o tipo mais adiantado da sociedade industrial e apontou a França e a Alemanha como estados militares.

*Periodicamente os jornais nos recordam a competição entre a França e a Alemanha em matéria de preparo militar. O organismo político nos dois casos despende o maior das suas energias no desenvolvimento das unhas e dos dentes – cada passo num campo sendo seguido de novo passo no outro. Recentemente o ministro do Estrangeiro em França, referindo-se a Tunis, Tonquin, Congo e Madagascar, frisou que se a França houvesse tomado a força territórios possuídos por povos inferiores teria reconquistado certa parte da gloria que os feitos do passado lhe deram. Vemos daí porque na França bem como na Alemanha, um esquema de reorganização social onde cada cidadão, enquanto mantido pela comunidade, tenha de trabalhar para ela, obteve tantas adesões a ponto de dar origem a uma formidável organização política; St. Simon, Fourier, Proudhon, Cabet, Louis Blanc, Pierre Leroux e outros, com palavras e feitos, procuraram criar uma forma comunistica de viver.

Com esta passagem o revela, Spencer admitia que o socialismo é um derivativo  do tipo de estado militar e feudal, sem nenhuma filiação com a industria. Do mesmo modo que o militarismo, o socialismo implica o desenvolvimento da centralização, maior amplitude ao poder do governo, decadência da iniciativa e subordinação do individuo. “É a lei de todas as organizações tornarem-se rígidas quando se completam”. O socialismo seria na industria como um rígido equipamento de instintos seria para os animais; produziria uma comunidade de formigas ou abelhas humanas, com a resultante de uma escravidão muito mais monótona e triste do que a condição atual do mundo.

*Sob o arbitramento compulsório que o socialismo necessitaria...os reguladores seguiriam seus interesses pessoais em serem embaraçados pela resistência combinada de todos os trabalhadores; e seu poder não podendo ser contrabalançado como hoje pela recusa ao trabalho salvo em determinados termos, cresceria e se consolidaria até tornar-se irresistível...Quando da regulação do operariado pela burocracia nos voltamos para a burocracia em si e indagamos de como será ele regulada, ficamos sem resposta que satisfaça...Em tais condições erguer-se-á uma nova aristocracia para o suporte da qual as massas trabalharão; e uma vez consolidada essa aristocracia o seu poder iria muito além do de todas do passado.

As relações econômicas são tão diferentes das relações políticas e tão mais complexas que nenhum governo as pode regular sem ser Poe meio de uma burocracia escravizadora. A interferência do estado negligencia sempre algum fator da intricada situação industrial e por isso veio a falhar de todas as vezes que foi tentada;tenhamos a vista as leis fixando o salário da Inglaterra medieval, e as fixadoras dos preços durante a revolução francesa. As relações econômicas devem ficar sobre si mesmas, para que se ajustem automaticamente de acordo com a lei da oferta e da procura. O de que a sociedade mais necessita, mais caro pagará; e se certo homens, ou certas funções recebem grandes recompensas, é porque envolvem excepcionais riscos e dificuldades. Os homens não toleram a igualdade compulsória. Ate que um meio ambiente, automaticamente transformado, transforme automaticamente o caráter humano, a legislação estabelecendo transformações artificiais será tão fútil como a astrologia.

Spencer sentia-se mal a idéia de um mundo dirigido pelas classes operarias. Não tinha simpatia pelos chefes das uniões operarias, como podemos depreender das colunas do Times de Londres. Acentuava que as greves são inúteis, a não se que a maior parte delas falhem; porque se todos os operários fizessem greve e vencessem, os preços presumivelmente subiriam de acordo com a elevação dos salários, ficando a situação a mesma de antes. “Veríamos imediatamente as injustiças praticadas pelos patrões emparelhadas pelas injustiças praticadas pelos operários.

Apesar disso, entretanto, as suas conclusões não eram cegamente conservadoras. O caos e a brutalidade do sistema social que o cercava faziam Spencer ansiar por uma ordem melhor que o substituísse. Por fim deu suas simpatias ao movimento cooperativista, vendo assim a passagem do status para o contrato, na qual Sir Henri Maine encontrara a essência da historia econômica. “A regulamentação do trabalho torna-se menos coercitiva quanto a sociedade ascende para um tipo mais alto. Atingimos então uma forma na qual a coação diminui ao mínimo grau possível na ação conjunta. Cada membro é seu próprio senhor com relação ao trabalho que produz; e só está sujeito a regras estabelecidas pela maioria dos membros quanto tais regras são necessárias a manutenção da ordem. A transição da cooperação compulsória militaristica para a cooperação voluntária do industrialismo fica assim completa”. Spencer duvida que os seres humanos tenham a necessária honestidade e competência para tornar eficiente esse democrático sistema; mas acha que deve ser experimentado. Prevê um tempo em que a industria não será dirigida por senhores absolutos, e os operários não sacrificarão suas vidas para o fabrico de inutilidades. “Como o contraste entre o tipo militar e o industrial é indicado pela inversão da crença de que os indivíduos vivem para o beneficio do estado, na crença de que o estado é que existe para o beneficio do individuo; assim também o contraste entre o tipo industrial e o tipo a evolver dele será indicado pela substituição da crença de que a vida é para o trabalho, pela crença de que o trabalho é para a vida.