quinta-feira, 12 de maio de 2011

Spencer_Dados Biográficos

Nasceu em Derby, em 1820. De ambos os lados, pais não conformistas ou “Dissenters”. A avó paterna fora devotada adepta de John Wesley; seu tio paterno, Thomas, embora sacerdote anglicano, chefiou um movimento wesleyano dentro da Igreja, nunca assistiu a concertos ou peças de teatro e tomou parte ativa nos movimentos políticos. Este impulso para a heresia tornou-se mais forte no pai, culminando no quase obstinado individualismo de Herbert Spencer. Seu pai jamais recorreu ao sobrenatural para a explicação do que quer que fosse e viu-se acoimado por alguém de suas relações como “homem sem religião” de qualquer espécie [embora Spencer considerasse isso exagero]” [*Spencer: Autobiografy]. Era, sim, inclinado à ciência e escrevera uma Inventional Geometry; na política foi um individualista como o filho e “jamais tirava o chapéu para alguém,fosse lá quem fosse”. “Se não podia responder a alguma pergunta que minha mãe lhe fazia, calava-se sem entrar em indagações. Foi assim durante a vida inteira”. Isto nos faz lembrar da resistência de Herbert Spencer em seus últimos anos contra a extensão das funções do estado.

O pai, bem como um tio e avô paterno, foram professores em escolas particulares, mas apesar disso o filho, destinado a ser o maior filosofo inglês do século, permaneceu ineducado até os quarenta anos. Spencer era preguiçoso e seu pai indulgente. Por fim, aos treze anos, foi enviado a Hinton para estudar com o seu tio, homem de reputação severa. O menino, porém, fugiu e regressou a casa paterna em Derby, caminhando 48 milhas no primeiro dia, no segundo e 20 no terceiro, alimentando-se de um pouco de pão e cerveja. Não obstante, tornou-se para Hinton algumas semanas mais tarde e lá permaneceu três anos. Foi o único estagio escolar sistemático de sua vida. Mais tarde não pode dizer o que lá aprendeu; não aprendera nem historia, nem ciências naturais, nem literatura. E diz com perceptível orgulho: “Nem na juventude, nem na mocidade recebi jamais uma só lição de inglês – e que eu tenha vivido até agora sem nenhum conhecimento formal de sintaxe é fato que deve ser conhecido, visto como contrária dogmas universalmente aceitos”. Na idade de quarenta anos procurou ler a Iliada, mas “logo no começo compreendi o árduo da tarefa e senti que pararia uma boa soma para me libertar da leitura do resto”. Collier, um dos seus secretários, conta que Spencer jamais concluía a leitura de um livro de ciência [*Royce:Herbert Spencer]. Ainda nos seus campos favoritos jamais se impunha instrução sistemática. Queimou o dedo e teve varias explosões nas suas experiências químicas; caçava bichinhos em redor da escola e em casa, e aprendeu alguma coisa de estratigrafia e fosseis em seus trabalhos de engenharia civil; no resto foi apanhando sua ciência onde e como pode. Até os trinta anos jamais havia pensado em filosofia. Por essa idade leu Lewes e experimentou passar para Kant; vendo, porém, logo no começo, que Kant considerava o espaço e o tempo como percepções dos sentidos e não coisas objetivas, decidiu que o filosofo alemão era um idiota e jogou o livro para um canto. Conta o seu secretário que Spencer compôs o primeiro livro, Estática Social, “sem nada ler de tica senão um velho e esquecido livro de Jonathan Daymond”. E escreveu a sua Psicologia apenas com algumas leituras de Hume, Mansel e Reid; e sua Biologia, depois de ler unicamente a Filosofia Comparada de Carpenter [não lera a Origem das Espécies]; e sua  Sociologia, sem ler Comte ou Tylo; e sua Ética, sem ler Kant, Mill ou qualquer outro moralista afora Sedgwick. Que contraste com a incansável educação de John Stuart Mill!

Onde, então, encontrou Spencer os milhares de fatos de que lançou mão para documentar milhares de asserções? Spencer “picked them up” -  caçava-os na maior parte pela observação direta em vez de em livros. “Sua curiosidade estava sempre alerta e vivia ele chamando a atenção dos companheiros para algum fenômeno notável até então só observado pelos seus olhos”. No Athenaeum Club sugava Husley e outros amigos de todos os conhecimentos especializados que possuíam; e percorria as publicações recebidas pelo clube, como antes o fizera com as que passavam pelas mãos de seu pai, com destino a Philosophical Society, de Derby – “Corria o olhar de lince sobre tudo quanto era fato aproveitável para o seu  moinho”. Havendo determinado o que queria fazer, e tendo encontrado a idéia central, Evolução, que seria o pivô de toda a sua obra, seu cérebro agia com imã para qualquer fato que lhe aproveitasse – e com espantosa capacidade ordenadora classificava automaticamente o material a medida que ia entrando. Não admira que os proletários e homens de negócios os ouvissem com encanto; era Spencer um cérebro do mesmo tipo – estranho a cultura livresca, inocente de “cultura”, mas fortemente dotado da capacidade de conhecimento positivo do homem que aprende no trabalho e na vida.

Porque Spencer trabalhava par viver, havendo a sua profissão intensificado a tendência pratica do seu pensamento. Era “supervisor” de estradas de ferro e pontes – engenheiro, em suma. Lidou com muitas invenções; todas falharam, mas na Autobiografia olha-as com amor de pai com filhos inválidos; as paginas dessas memórias estão cheias de patentes de depósitos de sal, cântaros, extintores de vela, cadeiras de aleijados, e que tais. Como é freqüentemente na mocidade, também adotou novos regimes de alimentação, havendo sido vegetariano em certa época; mas abandonou o regime ao ver um vegetariano atacado de anemia e ao perceber que próprio andava a perder em vigor. “Vi-me forçado a refazer o que havia escrito na minha fase vegetariana por estar a sentir-me mais fraco”. Nesse período Spencer estava sempre pronto para promover experiências; pensou em emigrar para Nova Zelândia, esquecido de que os países novos não são próprios para a filosofia. Fez uma lista de razões pró e contra a mudança, dando a cada razão um numero. A soma de pontos foi de 110 pró Inglaterra e 301 pró Nova Zelândia -  e ficou na Inglaterra.

Seu caráter tinha todos os defeitos de suas virtudes. Sacrificou ao resoluto realismo e ao senso pratico, perdendo a poesia e a arte da vida. O único vislumbre poético em seus vinte volumes foi devido a um impressor que o fez falar da “diária versificação das predições cientificas”. Sua grande tenacidade muitas vezes degenerou em obstinação; era capaz de varrer o mundo inteiro em coleta de provas para suas hipóteses, mas não conseguia colocar-se no ponto de vista dos outros; tinha o egotismo que gera o não-conformista e não sabia conduzir sua grandeza sem orgulho. Como pioneiro sofria as limitações de todos os pioneiros; estreiteza dogmática, aliada a corajosa candura e intensa originalidade; resistia severamente a lisonja, rejeitava honras oficiais e durante quarenta anos prosseguiu o seu penoso trabalho em modesta reclusão e má saúde. Filho e neto de professores, compunha seus livros de palmatória na mão e sempre em tom didático. “I am never puzzled”. Seu solitário viver de solteiro negou-lhe a tepidez humana, embora ele fosse indignamente humano. Teve um contato amoroso com “o grande inglês” George Eliot, mas essa mulher possuía muito intelecto para agradar a Spencer. A seu estilo faltaram humor e nuanças da sutileza. Quando perdia uma partida de bilhar, acusava o companheiro de devotar muito tempo aquele exercício com a intenção de se tornar perito. Na Autobiografia fez a critica dos seus primeiros livros, mostrando como deviam ser escritos.

Aparentemente a magnitude de sua tarefa o compeliu a olhar para a vida com mais seriedade do que a vida merece. “Fui a fête de St. Cloud, domingo”, esteve de Paris, “e muito me diverti com a juvenilidade dos adultos. Os franceses nunca cessam totalmente de ser rapazes; vi homens grisalhos correndo em carroceis como os das nossas feiras”. Preocupava-se tanto em descrever a vida que não teve tempo de vivê-la. Depois de uma visita a catarata do Niagara, lançou em seu diário: “Era o que eu esperava”. Descrevia os incidentes mais comuns com magnífica pedantaria – como quando nos fala da única vez que jurou [*Tindall disse dele que seria um muito melhor companheiro se praguejasse de vez em quando]. Não sofreu crises, não foi afetado pelo romantismo [se é que suas memórias dizem tudo]; teve algumas intimidades mas sobre elas fala quase que matematicamente; na amizade não mostrou paixão. Um amigo disse-lhe não poder ditar quando a estenografia era moça e Spencer confessou que a ele isso lhe era indiferente. Seu secretario conta: “Os lábios finos diziam de uma total ausência de sensualidade e os olhos claros traiam a falta de emoção profunda” [*Royce]. Daí a monótona igualdade do seu estilo; Spencer nunca se exalta, nem usa pontos de admiração; em um século romântico, permanece um modelo de dignidade e reserva.

Seu cérebro era excepcionalmente lógico; jogava com os a prioris e os a posterioris com a precisão de um enxadrista. Tornou-se o mais claro expositor de doutrinas que a história conhece; sobre os mais complexos problemas escreveu em termos tão lúcidos que por uma geração o mundo inteiro passou a interessar-se pela filosofia. “È de notar, diz ele, que possuo uma notável faculdade expositiva – e estabeleço meus dados, raciocínios e conclusões com clareza e coerência invulgares”. Spencer gostava das largas generalizações e fazias as suas obras ainda mais interessantes pelas hipóteses do que pelas provas. Huxley nota que a sua idéia da tragédia era a de “uma teoria trucidada por um fato”; e como existissem muitas teorias em sua cabeça, diariamente tinha Spencer de avir-se com tragédias. Impressionado com o andar vacilante de Buckle, disse Huxley a Spencer: “Ah, ele tem a cabeça muito cheia”. Ao que o filosofo acrescentou: “Buckle encheu-a de mais fatos do que pode ela organizar”. Com Spencer dava-se o contrário; organizava mais do que enceleirava. Era todo síntese e coordenação, e depreciava  Carlyle por não ser assim. A paixão da ordem tornou-se afinal escravizadora – Spencer passou a não resistir a uma generalização brilhante. Mas o mundo estava a clamar por um cérebro assim; um cérebro que pudesse transformar a congerie dos fatos em uma ordem humana de clareza cegante – e o serviço que ele prestou a sua geração sobrepuja de longe todas as suas falhas. Se aqui o pintamos com franqueza é porque amamos melhor um grande homem quando lhe conhecemos todos os fracos – e dele desconfiamos quando nos é apresentado como o suprassumo da perfeição.

“Até esta data”, escreveu Spencer aos quarenta anos, “minha vida pode ser considerada como miscelanica. Raramente a carreira de um filosofo mostrou tanta vacilação. “Por esse tempo [vinte e três anos] minha atenção se voltou para o fabrico de relógios”. Mas gradualmente encontrou o seu terreno e nele laborou com a tenacidade do homem do campo. Em 1842 escreveu para o Non-conformist [note-se o veiculo escolhido] algumas cartas sobre “A Verdadeira Esfera do Governo”, que encerravam os germes da sua filosofia do laizess faire dos últimos tempos. Seis anos mais tarde abandonou a engenharia para editar The Economist. Aos trinta, quando atacou os ensaios sobre a moral de Daymond e seu pai o desafiou a fazer uma obra assim, escreveu a Social Statics, que teve pequena venda mas penetrou nas revistas.Em 1852 seu ensaio “A Teoria da População” [um dos muitos exemplos da influencia de Malthus no pensamento do século dezenove]sugeriu que a luta pela vida conduz a sobrevivência dos mais aptos – e cunhou para sempre essa frase histórica. No mesmo ano seu ensaio sobre o desenvolvimento das hipóteses bateu a surrada objeção de que a origem de novas espécies por modificações progressivas das velhas era fenômeno jamais visto – mostrando que esse argumento contrabatia fortemente, isso sim, o conceito da “criação especial” de novas espécies por Deus; e demonstrou que o desenvolvimento de novas espécies não era mais maravilhoso ou incrível que o desenvolvimento do homem ou da planta a partir do óvulo ou da semente. Em 1855 seu segundo livro, Princípios de Psicologia, empreendeu traçar a evolução do espírito. Depois, em 1857, veio o ensaio sobre o progresso, suas leis e causas, onde retomou a idéia de Von Baer, do crescimento de todas as formas vivas pela passagem de começos homogêneos para desenvolvimentos heterogêneos, erigindo-a como um principio geral de historia e de progresso. Spencer estava, em suma, abeberado do espírito de sua época e pois apto para tornar-se o filosofo da evolução universal.

Quando em 1858 revia seus ensaios para a publicação definitiva, viu-se impressionado pela unidade e seqüência das idéias que havia expresso; e como um raio de sol, que entra pela janela, veio-lhe o pensamento de que a teoria da evolução podia ser possível explicar por meio dela não só a vida das espécies e gêneros como os planetas e estratos, e a historia política e social, e a moral e a estética. Spencer teve a visão de uma série de obras onde mostrasse a evolução da matéria e do espírito, da nebulosa ao homem, do selvagem a Shakespeare. Mas quase perdeu o animo quando se lembrou que já estava próximo dos quarenta anos. Como poderia um homem dessa idade, e quase invalido, percorrer todas as esferas do conhecimento antes de morrer? Três anos antes havia tido uma seria depressão nervosa e durante dezoito meses errava desesperançado de um ponto para outro. A consciência das suas possibilidades agravava ainda mais o seu mal-estar. Tinha a certeza de nunca restabelecer completamente a saúde e de cada vez não suportava mais de uma hora de trabalho mental. Nunca houve um homem menos adequado à tarefa que escolheu nem que a ela se entregasse tão tarde.

Spencer era pobre. Nunca dera muita atenção ao ganhar dinheiro. “Não pretendo ganhar dinheiro: acho que não vale a pena” [*J.A.Thonson; Herbert Spencer].Resignou a direção do The Economist ao receber o legado de 2.400 dólares de um tio; mas sua vadiagem consumiu o legado. Ocorreu-lhe então que poderia arranjar subscritores para as obras planeadas. Preparou o esquema que submeteu a Huxley, Lewes e outros amigos, os quais lhe arranjaram um imponente começo de lista ótimo para ornamentar os prospectos – Kings-Ley, Lyell, Hooker, Tyndall, Buckle, Froude, Bain, Herschel e outros. Publicado em 1860, esse prospecto rendeu 440 subscrições na Europa e 200 na América; o total produzia a modesta soma de 1.500 dólares por ano. Spencer deu-se por satisfeito e atirou-se ao trabalho.

Mas depois da publicação dos “Primeiros Princípios”, em 1862, muitos subscritores cancelaram seu nomes; a primeira parte da obra, que tentava reconciliar a ciência e a religião, ofendeu os dois lados. A tarefa de anjo da paz é espinhosa. Os Primeiros Princípios e a Origem das Espécies tornaram-se o centro da grande Batalha dos Livros, na qual Huxley serviu de generalíssimo das forças do darwinismo e do agnosticismo. Por uns tempos os evolucionistas foram conservados em severo repudio pelas pessoas respeitáveis; eram denunciados como monstros da imoralidade, sendo de bom tom insultá-los em publico. Os subscritores de Spencer falhavam de varias maneiras, obrigando-o a prosseguir como podia, pagando do seu bolso os deficits das edições. Por fim a coragem e os fundos exauriram-se, e ele endereçou uma nota aos subscritores declarando que a obra não podia ir avante.

Ocorreu então o imprevisto. O Mario rival de Spencer, o homem que encabeçava a filosofia inglesa antes do aparecimento dos Primeiros Princípios e se via agora obumbrado pelo filosofo da evolução, escreveu-lhe a 4 de fevereiro de 1866 o seguinte:

*caro Senhor:
Chegando cá a semana passada encontrei o fascículo de dezembro da sua Biologia, e é inútil frisar o quanto lamentei os dizeres da nota inclusa...Proponho-me garantir os interesses do editor contra qualquer perda, para que a obra prossiga...Peço que não considere esta proposta um favor pessoal, embora, se o fosse, eu ainda me atreveria a esperar que me fosse permitido fazê-la. Não se trata disto, porém, e sim de uma simples proposta de cooperação para um importante propósito de bem geral que vem consumindo o seu trabalho e a sua saúde.
Sou, meu caro senhor, com alta estima
J.S.Mill.

Spencer recusou cortesmente; Mill, porém, correu amigos e os fez subscreverem 250 exemplares cada um. Spencer de novo objetou e não foi demovido. Nisto chega da América uma carta do Prof. Youmans, dizendo que os admiradores transatlânticos de Spencer haviam adquirido em nome do filosofo sete mil dólares de títulos públicos cujos interesses lhe caberiam. Spencer, então, cedeu; o espírito da doação renovou a sua inspiração e o fez retomar o trabalho – e durante quarenta anos deu-se-lhe totalmente, até ver publicados todos os volumes da Filosofia Sintética. Este triunfo do espírito sobre a doença, e mais mil obstáculo, é um dos raios do sol do livro da humanidade.    

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Herbert Spencer_Comte e Darwin

A Filosofia kantiana que se dava como base de toda a metafísica futura, era maliciosamente um impulso ao modo tradicional de especulação; ao invés, entretanto, resultou em um golpe terrível em todas as metafísicas em geral. Porque a metafísica havia significado, através da história do pensamento, uma tentativa para descobrir a natureza intima da realidade, e os homens ficaram sabendo pela palavra do mais respeitável mestre que a realidade não poderia nunca ser apreendida pela experiência; que era um ‘noumenon’, concebível, mas não cognoscível; e que ainda a inteligência humana mais sutil nunca passaria além dos fenômenos e, pois, jamais levantaria o véu de Maia. As extravagâncias metafísicas de Fichte, Hegel e Schelling com suas varias interpretações do velho enigma, seus Egos e Idéias e Vontade haviam-se reduzido umas as outras a zero; e quando o século entrou a amadurecer já estava geralmente aceito que o véu não seria levantado. Após uma geração intoxicada do Absoluto,o pensamento europeu reagiu e se pôs contra a metafísica, de qualquer espécie que fosse.

Os franceses se haviam especializado no ceticismo; natural, pois, que da França brotasse o fundador do movimento ‘positivista’. Augusto Comte – ou Isidoro Augusto Marie François Xavier Comte – nasceu em Montplellier em 1798. Teve como ídolo na mocidade a Benjamim Franklin, ao qual chamava o moderno Sócrates. “Aos vinte e cinco anos Franklin deliberava tornar-se um puro sábio [wise] e realizou a tarefa. Embora eu ainda não tenha vinte anos, vou realizar a mesma coisa”, disse Comte, e começou bem, fazendo-se secretário do grande utopista Saint-Simon. Saint-Simon lhe transmitiu o entusiasmo reformador de Turgot e Condorcet e a idéia de que os fenômenos sociais, assim como os físicos, podem ser reduzidos a leis, e ainda que a ciência e toda a filosofia deve ter por alvo o melhoramento moral e político da espécie humana. Da mesma forma, porém, que muitos reformadores do mundo. Comte encontrou dificuldade em dirigir sua casa; em 1827, depois de dois anos de infelicidade no casamento, foi vitima de uma depressão mental e tentou afogar-se no Sena. Ao seu salvador, portanto, deve o mundo os cinco volumes da Filosofia Positiva, aparecidos de 1830 a 1842, e os quatro da Política Positiva vindos a luz entre 51 3 54;

Foi uma empresa que no escopo e na paciência, só teve similar na “Filosofia Sintética” de Spencer. Comte classificou as ciências de acordo com a decrescente simplicidade e generalidade do respectivo objeto: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia, cada qual repousando nos resultados das antecedentes; a sociologia, por isso, forma o ápice da pirâmide, de modo que todas as ciências existem para fornecer material para as conclusões da sociologia ou ciência da sociedade. Em seu sentido de conhecimento exato, a ciência subia de uma matéria a outra na ordem estabelecida, sendo natural que os complexos fenômenos da vida social fossem os últimos a se submeterem a disciplina cientifica. Em cada campo do pensamento o historiador das idéias pode observar a lei dos Três Estados: a principio a matéria é concebida teologicamente, com todos os problemas explicados pelo querer de alguma divindade -  como quando as estrelas eram deuses ou carros dos deuses; depois vem o estado metafísico, em que tudo é explicado por meio de abstração metafísica – como quando as estrelas são imaginadas moverem-se em círculos porque o circulo é a mais perfeita figura geométrica; finalmente surge o estagio positivo, em que a ciência se baseia em observação, hipótese e experimentação, sendo os fenômenos explicados de acordo com a regularidade de suas causas e efeitos naturais. A “Vontade de Deus” cede lugar a entidades como a “idéia” de Platão ou a “Idéia Absoluta” de Hegel, e estas por seu turno cedem o lugar as leis da ciência. A Metafísica é um estagio de desenvolvimento já paralisado: o tempo chegou, diz Comte, de abandonar essas puerilidades. Filosofia não é algo diferente de ciência, e sim a coordenação de todas as ciências, com vista no melhoramento da vida humana.

Há um certo dogmatismo intelectual neste sistema que talvez decorresse das desilusões e do isolamento do filosofo. Quando em 1845 Mme. Clotilde de Vaux [cujo marido estava encarcerado] empolgou o coração de Augusto Comte, a nova afeição passou a colorir e aquecer-lhe os pensamentos, determinado a reação que o levou a colocar o sentimento acima da inteligência como força reformadora, e a concluir que o mundo só poderia ser redimido por uma nova religião que fortificasse o fraco altruísmo da natureza humana por meio da exaltação da Humanidade como objeto de adoração. Gastou Comte seus últimos anos a arquitetar esta Religião da Humanidade, estabelecendo o sacerdócio, os sacramentos, as orações e a disciplina; e propôs um novo calendário, no qual o nome das deidades pagãs e dos santos medievais fossem substituídos pelos heróis do progresso humano. Comte oferecia ao mundo o mesmo rito católico, mas descristianizado.

O movimento positivista harmonizou-se com a corrente mental inglesa, que defluia da vida da industria e do comércio e olhava com reverencia para os fatos. A tradição baconiana voltava o pensamento inglês na direção das coisas, o espírito na direção da matéria; o materialismo de Hobbes, o sensacionalismo de Locke, o ceticismo de Hume, o utilitarismo de Bentham eram variações sobre o tema da vida ativa e pratica. Só Berkeley, um irlandês, discordava nesta harmonia domestica. Hegel sorria do habito inglês de honrar o equipamento físico e químico com nome de “instrumentos filosóficos”; mas essa expressão ocorre naturalmente aos que concordam com Spencer e Comte no definir a filosofia como a generalização dos resultados de  todas as ciências. Assim foi que o movimento positivista encontrou mais aderentes na Inglaterra do que no seu país de origem; aderentes não tão fervorosos como Littré, mas dotados daquela tenacidade inglesa que conservou John Stuart Mill e Frederick Harrison fieis por toda a vida a filosofia de Comte, embora, advertidos pela prudência britânica, arredados da parte religiosa do sistema.

Entrementes a Revolução Industrial, nascida de um pouco de ciência, entrava a estimular todas as ciências. Newton e Herschel haviam devassado a lei das estrelas; Boyle e Davy, aberto os tesouros da química; Rumford e Joule, demonstrado a transformabilidade e equivalência da força e a conservação da energia. As ciências haviam chegado a tal estagio de complexidade que foi com alivio que o mundo tonto recebeu a proposta de uma síntese. Mas acima de todas as influencias intelectuais que na juventude de Herbert Spencer agitaram a Inglaterra estava o crescimento da biologia e a doutrina da evolução. A ciência fora exemplarmente internacional no desenvolvimento desta doutrina. Kant falara da possibilidade dos macacos virarem homens; Goethe escrevera da “metamorfose das plantas”; Erasmus, Darwin e Lamarck propuseram a teoria da evolução das espécies, das formas simples as complexas, por meio da hereditariedade dos efeitos do uso e do não uso; e em 1830 St. Hilaire escandalizara a Europa e deleitara Goethe com o seu quase triunfo sobre Cuvier no famoso debate sobre a evolução, o qual lembrava um outro caso do Ernani – como revolta contra a idéia clássica da imutabilidade das coisas.

A evolução estava no ar. Spencer  exprimiu a idéia antes de Darwin em um ensaio sobre – “The Development Hypothesis” [1858], e nos seus Princípios de Psicologia [1855]. Em 1858 Darwin e Wallace leram as suas famosas comunicações na Linnaean Society; em 1859 o velho mundo veio abaixo, como os bispos o supuseram, com a publicação da Origem das Espécies. Não era mais uma vaga noção da evolução, as mais altas espécies evolvendo das mais baixas, e sim uma minuciosa e ricamente documentada teoria do processo da evolução “por meio da seleção natural, ou preservação das espécies mais favorecidas na luta pela existência”. Numa década o mundo inteiro estava a falar em evolução. O que elevou Spencer as cumeadas desta onda de pensamento foi a clarividência de espírito que lhe sugeriu a explicação da idéia a todos os campos de estudo e um preparo cientifico que lhe permitiu trazer quase todos os conhecimentos humanos para suporte da teoria. Como a matemática havia dominado a filosofia no século dezessete, dando ao mundo Descartes, Hobbes, Spinoza, Leinitz e Pascal; e como a psicologia impregnara a filosofia de Berkeley, Hume, Condillac e Kant, e mais tarde a de Schelling e Schopenhauer e Spencer e Nietzsche e Bérgson, a biologia se tornou o fundamento do pensamento filosófico. As idéias de uma época são produtos parciais de homens separados, mais ou menos obscuros; mas ficam ligados ao nome do que melhor as coordena e esclarece; assim o Novo Mundo tomou o nome de Américo Vespucio por ter ele desenhado o seu mapa. Herbert Spencer foi o Vespucio da época de Darwin – e também alguma coisa do seu Colombo.  

terça-feira, 10 de maio de 2011

Schopenhauer_Considerações Finais

A resposta natural a semelhante filosofia é um diagnostico medico do seu autor e da sua época.

Temos aqui um fenômeno aparentado com o que, logo depois de Alexandre e César, derramou sobre a Grécia e Roma uma vaga de fé e atitudes orientais. A característica do Oriente é ver a Vontade externa da natureza como muito mais poderosa que a do homem – e daí incubar doutrinas de resignação e desespero. Como a decadência da Grécia trouxe para o rosto de Helas a palidez do Estoicismo e do Epicurismo, assim do caos das guerras napoleônicas veio para a alma da Europa o lamentoso desanimo de que Schopenhauer foi a voz. A Europa sofreu de uma terrível cefalalgia em 1815 [*Considere-se a apatia e o desanimo da Europa de 1924 e a popularidade de livros como a Queda do Oriente, de Spengler].

A diagnose pessoal pode partir da admissão por Schopenhauer de que a felicidade do homem depende do que ele é antes do que das circunstancias. O pessimismo é um produto do pessimista. Dados uma constituição doentia e um cérebro neurótico, uma vida vazia e tediosa, a fisiologia das idéias de Schopenhauer emerge logicamente. Só o homem que dispõe de lazer é pessimista; a vida ativa otimiza o corpo e o espírito. Schopenhauer louva a serenidade que decorre dos ideais modestos de uma vida firme mas não fala disso por experiência pessoal...Difficilis in otio quies, muito bem; ele possuía meios para o lazer continuo e descobriu que o lazer continuo é mais intolerável que o trabalho ininterrupto. Talvez a tendência dos filósofos para a melancolia decorra do anti-natural da vida sedentária; freqüentemente uma diatribe contra a vida corresponde a mero sintoma de prisão de ventre.

O Nirvana é o ideal do homem sedentário, de um Childe Harold ou um René que desejou muito, jogou tudo em uma só paixão e, tendo perdido, passa o resto da vida em um tédio petulante. Se o intelecto se ergue como servo da vontade, esse particular produto do intelecto que conhecemos com o nome de filosofia de Schopenhauer não passa de uma escusa da vontade indolente ou mórbida. Suas primeiras experiências da mulher e dos homens desenvolveram nele uma desconfiança anormal e um estado de mórbida sensibilidade, como sucedeu a Nietzsche, Flaubert e Stendhal. Schopenhauer tornou-se solitário e cínico. Escreveu: “Um amigo necessitado não é um amigo e sim um tomador de dinheiro”; e “Nada diga a um amigo que não possa confiar a um inimigo”. Aconselhava a calma e a monótona vida do ermitão; fugia da sociedade e não tinha nenhum senso dos valores e das alegrias da associação humana. Mas a felicidade perece quando não compartilhada.

Há sem duvida no pessimismo um largo elemento de egotismo; o mundo não é bastante bom para nós e por isso torcemos o nosso nariz filosófico. Mas isto é esquecer a lição de Spinoza, de que nossos termos de censura ou aprovação moral não passam de simples juízos do homem, irrelevantes, pois, quando aplicados aos cosmos como um todo. Talvez que o nosso desgosto da vida seja um disfarce para esconder o desgosto para com nós mesmos; estragamos nossa vida e lançamos a culpa ao ‘ambiente’ ou ao ‘mundo’, que não possuem línguas para se defender. O homem maduro aceita as limitações naturais da vida; não espera que a providencia abra exceções em seu favor; não pede dados viciados para jogar no jogo da vida. Sabe, como Carlyle, que é desassizado vituperar o sol porque não nos acende o cigarro. E, talvez, se formos hábeis, até isso nos fará o sol; e este vasto cosmos neutro se tornará uma agradável moradia, se o ajudarmos com um pouco do nosso sol. Na verdade o mundo não é a favor nem contra nós; mas sim matéria prima em nossas mãos para com ela fazermos céu ou inferno.

Uma das causas do pessimismo de Schopenhauer e seus contemporâneos jaz em suas expectativas e atitudes românticas. A mocidade espera excessivamente do mundo; o pessimismo é a manhã seguinte do otimismo, como 1815 foi o pagante de 1789. A exaltação romântica e a libertação do sentimento, do instinto e da vontade, bem como o romântico desprezo pelo intelecto, pelas restrições, pela ordem, trouxeram suas naturais sanções; porque o ‘mundo’ como dizia Horace Walpole, “é uma comedia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem”. “Talvez nenhum movimento tenha sido tão fecundo em melancolia como o romantismo emocional...Quando o romântico descobre que o seu ideal de felicidade conduz a infelicidade, ele não acusa o seu ideal. Simplesmente conclui que o mundo é indigno de um ser tão finamente organizado como ele, romântico”. Como poderá um caprichoso universo satisfazer a uma alma caprichosa?

O espetáculo de Napoleão a caminhar para o trono, a denuncia de Rousseau e a critica de Kant ao intelecto, juntamente com o seu gênio apaixonado e suas experiências de vida, sugeriram a Schopenhauer o primado da vontade. Talvez Waterloo e Santa Helena hajam também contribuído para desenvolver um pessimismo oriundo do doloroso contato com a vida. Estava lá a individualidade mais dinâmica da história, imperioso comandante de continentes – e sua condenação era tão certa como a da mosca que nasce e morre no mesmo dia. Jamais ocorreu a Schopenhauer que era melhor ter lutado e perdido do que nunca haver lutado; ele não sentia, como o másculo Hegel, a gloria e a desejabilidade da luta; ansiava por paz -  e viveu no meio da guerra. Por toda parte via lutas e por trás das lutas não percebia o socorro amigo dos vizinhos; a alegria folgazã das crianças e dos moços, as danças das raparigas, o sacrifício voluntário dos pais e dos amantes, a paciente generosidade do solo e o renascer da primavera.

E que importa que um desejo satisfeito traga o surto de novo desejo? A felicidade, diz velha lição, reside antes no ato de realizar do que na realização em si. O homem sadio só pede como felicidade o ensejo para o exercício do seu esforço, e se por essa liberdade de agir tem de pagar a pena de dor, paga-a alegremente; não é grande o preço. O aeroplano e a ave necessitam da resistência do ar para erguerem vôo; nós necessitamos de obstáculos que estimulem nosso desenvolvimento e acrescentem nossa força. A vida sem tragédia seria indigna de um homem [*Schopenhauer: Não ter trabalho regular, que coisa miserável! Esforço, lutas contra as dificuldades – isto é tão natural para o homem como moer o é para a mó do moinho. Ter todas as suas necessidades satisfeitas torna-se intolerável – o sentimento da estagnação proveniente dos prazeres que duram muito. Para superar dificuldades é conhecer o deleito Maximo da existência – “Conselhos e Máximas”].

Será verdade que “o aumento do conhecimento cresce a dor” e que o organismo mais altamente apurado seja o que mais sofre? Sim; mas também é verdade que o crescer em conhecimento cresce a alegria tanto quanto a dor, e que os mais suaves deleites são reservados para as almas mais desenvolvidas. Voltaire dava preferência a sabedoria do brâmane “infeliz” a bem-aventurada ignorância da mulher do campo; queremos conhecer a vida a fundo ainda que ao preço de muita dor; queremos aventurar pelos seus mais recônditos recessos ainda que ao preço da desilusão [*Anatole France – ultima encarnação de Voltaire – dedicou uma das suas obras primas – ‘A Tragédia Humana’ – a tarefa de mostrar que, embora a alegria da compreensão seja uma alegria triste, os que uma vez a provam não a trocam nunca pelas frívolas alegrias e ocas esperanças do vulgo – Jardim de Epicuro]. Virgilio, que havia experimentado todos os prazeres e conhecera todas as excelências do favor imperial, mostrou-se no Tim “cansado de tudo, exceto das alegrias da compreensão”. Quando os sentidos cessam de nos dar prazer, há o acesso a camaradagem com artistas, poetas e filósofos, que só o espírito maduro pode compreender. A sabedoria é um doce-amargo deleite.

É o prazer negativo? Unicamente uma alma ferida e fora de contato com o mundo poderia enunciar uma semelhante blasfêmia. Que é o prazer senão a operação harmoniosa dos nossos instintos?

Não há duvida de que a morte é terrível. Muitos dos seus terrores, porém, desaparecem para os que vivem a vida normal; o homem tem que viver bem para morrer bem. E poderia a não-morte deleitar-nos? Quem ainda invejou a sina de Ashaverus, que recebeu a imortalidade como o pior castigo que lhe poderia cair sobre a cabeça? E por que é má a morte senão porque o viver é bom? Não precisamos dizer como Napoleão que todos os que temem a morte são no fundo da alma ateístas; mas podemos com segurança dizer que um homem que viveu sessenta anos e mais dez sobreviveu ao seu pessimismo. Nenhum homem, diz Goethe, é pessimista depois dos trinta anos. E dificilmente antes dos vinte; o pessimismo é luxo dos orgulhosos e da mocidade cheia de si; da mocidade que sai do seio quente da família comunistica para a atmosfera individualistica da competição pessoal – e sonha com as quenturas que deixou; da mocidade que se atira contra moinhos de vento e deleita-se em arquitetar utopias e idéias. Antes dos vinte anos há a alegria do corpo e depois dos trinta a alegria do espírito; antes dos vinte, o prazer da proteção e da segurança; e depois dos trinta a alegria do lar.

Como pode um homem escapar ao pessimismo, se viveu toda a vida numa casa de pensão? E se abandonou seu único filho a ilegitimidade anônima? [*Finot, Ciência de Fidelidade]. No fundo da infelicidade de Schopenhauer estava a repulsa da vida normal – sua repulsa da mulher, do casamento, dos filhos. Ele via na procriação o maior dos males – e é onde o homem normal encontra as maiores satisfações. Considerava o furtivo do amor como vergonha de continuar a perpetuação da espécie – e isto não passa de absurda pedanteria. Enxergava no amor unicamente o sacrifício do individuo a raça e ignorava os deleites com que o instinto paga tal sacrifício – tamanhos, que vem inspirando a maior parte dos poetas do mundo. Considerava a mulher unicamente como pecadora astuta porque não a conheceu de outro tipo. Declarava que o homem que se devota a sustentar uma mulher é um néscio; mas aparentemente esses homens não são mais infelizes do que o nosso apostolo da infelicidade solteira; e [como diz Balzac] custa tanto suportar um vicio como uma família. Schopenhauer desdenha da beleza da mulher – como se existisse qualquer forma de beleza que não fosse a cor e fragrância da vida. Que ódio a mulher um infortúnio gerou nessa alma!

Existem outras dificuldades mais técnicas, e menos vitais nesta notável e estimulante filosofia. Como pode o suicídio ocorrer em um estado onde a única força real é a da vontade do viver? Como pode o intelecto, nascido e criado como servo da vontade, alcançar independência e objetividade? Jaz o gênio no conhecimento divorciado da vontade, ou contem ele em si um imenso poder de vontade com larga dose de ambição pessoal ou orgulho?  Estará a loucura ligada ao gênio em geral, ou unicamente ao tipo romântico do gênio [Byron, Shelley, Pöe, Heine, Swinburne, Strindberg, Dostoievski, etc]; ficando os de tipo “clássico” e, pois, os mais profundos isentos dela [Sócrates, Platão, Spinoza, Bacon, Neuton, Voltaire, Goethe, Darwin, Whitman, etc]? A função própria do intelecto e da filosofia não será em vez da negação da vontade, a coordenação dos desejos em uma unidade de vontade harmoniosa? Que é a própria “vontade” em si senão uma abstração mística, tão vaga como “força”?

Há na filosofia de Schopenhauer, entretanto, uma nota de brutal honestidade que deixa os credos otimistas transformados em soporosas hipocrisias. Muito bom dizer, como Spinoza, que o bem e o mal são termos subjetivos, preconceitos humanos; mas somos obrigados a julgar este mundo, não de um ponto de vista “imparcial”, mas do ponto de vista real dos sofrimentos e das necessidades humanas.  Foi ótimo que Schopenhauer forçasse a filosofia a encarar a dura realidade do mal, e abrisse os olhos do homem a necessidade de aliviá-lo. Tornou-se mais difícil, desde esse dia, permanecerem os filósofos na atmosfera do irreal, a recrearem-se em metafísicas; os pensadores passaram a compreender que pensamentos sem ação é doença.

Schopenhauer abriu os olhos dos psicologistas para a sutil profundidade e força onipresente do instinto. O intelectualismo – a concepção do homem como, acima de tudo, um animal pensante, conscientemente adaptando meios para fins racionalmente escolhidos – adoeceu com Rousseau, foi para a cama com Kant e morreu nas mãos de Schopenhauer. Depois de dois séculos de analise introspectiva a filosofia encontrou atrás do pensamento o desejo; e atrás do intelecto, o instinto; justamente como depois de um século de materialismo, a física iria encontrar por detrás da matéria a energia. Devemos a Schopenhauer a revelação do nosso coração secreto a nós mesmos, mostrando que nossos desejos são os axiomas das nossas filosofias e abrindo caminho para a compreensão do pensamento como um flexível instrumento de ação e desejo, não mais como mero calculo abstrato de acontecimentos impessoais.

Finalmente, a despeito dos seus exageros, Schopenhauer ensinou-nos a necessidade dos gênios e o valor da arte. Viu que o bem supremo é a beleza e que a alegria suprema reside na criação ou no cultivo do belo. Schopenhauer juntou a Carlyle e a Goethe no protesto contra a tentativa de Hegel, Max e Buckle para eliminar o gênio como fator fundamental da historia humana; em uma idade em que todos os grandes pareciam extintos, ele pregou uma vez mais o nobre culto dos heróis. E com todos os seus defeitos entrou para a galeria dos gênios. 
M.L.

Schopenhauer_A Sabedoria da Morte

Algo mais ainda é necessário. Com o Nirvana o individuo alcança a paz da ausência de vontade e encontra a salvação; mas, e além do individuo? A vida sorri da morte de um individuo; sobrevive  na sua prole ou na dos outros;  e ainda que este riacho de vida seque, outros se vão tornando cada vez mais largos no decorrer das gerações. Como pode o Homem ser salvo? Há para as raças um Nirvana, como para o individuo?

Obviamente, a conquista final e radical da vontade se faria pela supressão da fonte da vida – a vontade de reproduzir: “A satisfação do impulso reprodutor é profunda e intrisecamente repreensível por ser a mais forte afirmação da vida”. Que crimes  cometeram as crianças para serem condenadas a nascer?

*Se contemplamos o torvelinho da vida vemos todo mundo ocupado com as suas misérias, lutando as extremas para satisfazer suas infinitas necessidades e varrer com suas inumeráveis aflições, e apesar disso não esperando outra coisa senão preservar o mais possível esse breve lapso de vida. No meio desse tumultuo brilham os olhares secretos, medrosos e furtivos dos amantes. Porque os amorosos são traidores que procuram perpetuar a inferneira da vida, que sem isso breve chegaria ao fim...dai o motivo de ter-se tornado vergonhoso o processo da geração.

É a mulher culpada aqui; porque são seus encantos que arrastam de novo o homem à reprodução. A mocidade não possui bastante inteligência para alcançar o breve dessas seduções; quando a inteligência acorda, já é tarde.

*Com as moças a Natureza parece ter em vista o que na linguagem do teatro se chama efeito; por alguns anos a Natureza as dota com os primores da beleza e do ‘charme’ as expensas do resto de suas vidas, e durante esse período elas capturam a imaginação dos homens arrastando-os ao encargo de as sustentar pela vida inteira – uma passo que jamais seria dado se unicamente a razão dirigisse o pensamento dos homens...Aqui, como nom ais, a Natureza procede com a habitual economia; porque, assim como a formiga fêmea depois de fecundada perde as asas já supérfluas, assim também, depois de ter dado ao mundo um ou dois filhos, a mulher em regre perde toda a beleza – e provavelmente pelas mesmas razões da formiga: asas e beleza iriam prejudicar a criação dos filhos.

Os moços devem refletir que se o “objeto que agora lhes inspira sonetos houvesse nascido dezoito anos antes, eles não lhe dariam um olhar”. E além disso o corpo do homem tem muito mais beleza que o da mulher.

*Unicamente um homem com a cabeça perturbada pelo impulso sexual pode dar o nem de ‘belo sexo’ a essa raça de pequena estatura, ombros estreitos, ancas largas e pernas curtas; a beleza de tal sexo decorre desse impulso. Em vez de considerá-las belas, o justo seria vê-las como inesteticas. Nem para a musica, nem para a poesia, nem para as belas artes possuem nenhuma sensibilidade real; por mero fingimento e para melhor agradar aos homens é que pretendem interessar-se por isso...São incapazes de tomar interesse objetivo pelo que quer que seja...Os mais notáveis intelectos do sexo feminino jamais puderam produzir uma só obra realmente original; nem dar ao mundo uma só obra de valor permanente em qualquer esfera [*Ensaio Sobre a Mulher].

Esta veneração da mulher é um produto do cristianismo e do sentimentalismo alemão; é por sua vez a causa do movimento romântico que exalta o sentimento, o instinto, e põe a vontade acima do intelecto. Os asiáticos sabem mais, e francamente reconhecem a inferioridade da mulher. “As leis que dão a mulher igualdade de direitos deviam dar-lhe também igualdade de intelecto”. A Asia também mostra maior honestidade do que nós nas suas instituições do casamento; aceita como normal e legal a poligamia que, embora largamente pratica entre nós, vive a coberto pela folha de parra. “Onde existem verdadeiros monógamos?” E que absurdo conceder direitos de propriedade a mulher! “Todas as mulheres são, com raras exceções, inclinadas a extravagâncias” porque vivem só no presente e seu dileto esporte consiste em comprar nas lojas. “A mulher julga que a missão do homem é ganhar dinheiro e a delas, gastá-los”; nisso se resume o conceito feminino da divisão do trabalho. “Sou portanto de opinião que a mulher não deve ser permitido dirigir seus negócios, devendo ficar sempre sob a supervisão do macho, seja pai, marido, filho ou estado – como na Índia; e que por conseqüência não lhe deve ser dado o direito de dispor da propriedade que não adquiriu” [*Wallace, pág.80. Eco do desgosto de Schopenhauer ante as extravagâncias de sua mãe]. Foi provavelmente o luxo e a extravagância das mulheres da corte de Luiz Quatorze que trouxeram a corrupção do governo, desfechada na Revolução Francesa.

Quanto menos lidarmos com as mulheres, melhor. Não são nem sequer um ‘mal necessário’ [*Frase de Carlyle]; a vida sem elas é mais segura e suave. Quando o homem perceber a armadilha oculta na beleza da mulher, a absurda comédia da reprodução cessará. O desenvolvimento da inteligência enfraquecerá ou frustrará a vontade de reproduzir, e teremos a extinção da espécie. Nada pode constituir melhor desenlace para a louca tragédia da vontade; por que há de a cortina que desce sobre a derrota e a morte erguer-se de novo para uma nova vida, uma nova luta, uma nova derrota? Por quanto tempo ainda seremos conservados neste muito-barulho-para-nada, nesta aflição continua que nos leva a morte? Quando teremos a coragem de lançar um desafio ao rosto da Vontade – e dizer-lhe que a beleza da vida não passa de mentira pura e que a grande bem-aventurança é a morte?