sábado, 9 de abril de 2011

Spinoza_O Tratado Político

Falta-nos analisar o torso trágico, o Tractatus Politicus, a obra ultima de Spinoza, interrompida subitamente pela sua morte prematura. É breve, mas cheia de pensamento e dá-nos a sensação do muito que o mundo se lesou com a perda do filosofo justamente a atingir o apogeu da maturidade. Ao tempo em que Hobbes exaltava a monarquia absoluta e denunciava o levante do povo inglês contra o rei quase tão vigorosamente como Milton o defendia, Spinoza, amigo do republicano DE Witt, formulava a filosofia política que encerrava as esperanças liberais e democráticas da Holanda e ia tornar-se uma das principais fontes da grande caudal de pensamento que culminou em Rousseau e na Revolução Francesa.

Toda filosofia política, pensa Spinoza, deve basear-se na distinção entre ordem natural e ordem moral, isto é, entre a existência antes e a existência depois da formação das sociedades organizadas. Spinoza supõe que os homens já viveram em comparativo isolamento, sem lei ou organização social; não havia então, diz ele, conceito do justo e do injusto; direito e força era tudo um.

*Em um estado natural nada pode existir que, por comum assentimento, seja considerado bom ou mau, desde que no estado natural cada homem só consulta a sua própria vantagem e só de acordo com a sua fantasia determina o que é bom ou mau, sem responsabilidade perante nenhuma lei; e por isso o pecado não pode ser concebido no estado natural, e sim apenas no estado civil, no qual por consenso comum se decreta o que é bom ou mau, ficando cada qual responsável perante o estado...A lei e a ordem da natureza sob que todos os homens nasceram nada proíbe do que seja desejado ou do que o homem possa fazer, e não se opõe a luta, ao ódio, a cólera, a traição ou, em geral, a nada que os apetites sugiram. [Tractatus Politicus].

Temos uma indicação desta lei da natureza, ou desta ausência de lei da natureza observando a conduta dos estados; “não existe altruísmo entre as nações” [*Tractatus Politicus], porque só podem existir lei e moralidades onde existem uma organização aceita e uma autoridade comum e reconhecida. Os “direitos” dos estados são hoje o que eram os “direitos” dos indivíduos. Simples potencias, e por descuidadoso deslize dos diplomatas os principais estados são muito propriamente chamados Grandes Potenciais. Assim entre as espécies; não havendo organização comum não existe entre elas nenhuma moralidade ou lei; cada espécie faz para outra o que quer e pode.

Mas, como necessidades comuns impõem muito auxilio, esta ordem natural de potencias passa entre os homens a ordem moral de direitos. “Desde que em todos os homens o medo da solidão existe, porque, desajudado, nenhum é bastante forte para defender-se e conseguir o necessário para a vida, segue-se que por natureza o homem tende a organização social”. Para guardar-se contra o perigo “a força de um homem dificilmente bastaria; daí se arranjarem em termos de mutuo serviço e ajuda”. Os homens, entretanto, não são por natureza equipados para a mutua tolerância da ordem social; só o perigo gera associação, que gradualmente nutre e fortifica os instintos sociais: “os homens não são nascidos para a cidadania, mas adaptados a ela”.

A maior parte dos homens mostra-se naturalmente rebelde contra a lei e os costumes; os instintos são mais tardios e fracos do que os individualisticos e necessitam de reforço; o homem não é ‘bom por natureza’, como Rousseau desastrosamente foi levado a supor. Mas através da associação, ainda que apenas familiar, a simpatia nasce, um sentimento que acaba gerando a bondade. Gostamos do que a nós se assemelha; “temos piedade não só de uma coisa amada mas também da que julgamos similar a nós”; sobrevêm além disso uma “limitação de emoções”, e por fim alguns graus de consciência. A consciência, todavia, não é inata mas sim adquirida; e varia cm a latitude. É o deposito no cérebro dos indivíduos das tradições morais de um grupo; por meio dela a sociedade cria para si um aliado mesmo no coração do seu inimigo – a alma naturalmente individualista.

Em uma sociedade organizada a lei do poder individual [estado de natureza] cede gradualmente diante do poder legal e moral do todo. A potencia ainda permanece direito, mas a potencia do todo limita a do individuo – teoricamente a linha no quantum necessário a não entrar em conflito com os seus semelhantes. Parte da potencia natural do individuo, ou soberania, é transmitida para a comunidade em troca do alargamento da esfera da potencia restante. Abandonamos, por exemplo, o direito a cólera e a violência em troca de ficarmos livres da cólera e da violência dos outros. A necessidade da lei decorre de serem os homens sujeitos a paixões; se todos só se guiassem pela razão seria desnecessária. A lei perfeita criaria para os indivíduos a mesma relação que a razão perfeita cria para as paixões; seria coordenação de forças hostis para evitar a ruína e aumentar o poder do todo. Justamente como na metafísica a razão é a percepção da ordem das coisas, e na ética é o estabelecimento da ordem entre os desejos, assim também na política é o estabelecimento da ordem entre os homens. O estado perfeito limitaria o poder dos cidadãos unicamente no quantum desse poder destrutivo; não retiraria  nenhuma liberdade, exceto para dar outra maior.

*O fim ultimo do estado não é dominar os homens, nem pelo terror restringir-lhes a ação; é antes libertá-los do terror, para que possam viver e agir em plena segurança e sem perigo para si e para o seu vizinho. O fim do estado, repito, não é transformar seres racionais em brutos ou maquinas. É habilitar o corpo e o espírito dos cidadãos a funcionar melhor. É levar os homens a viver pela e para a razão livre; para que não desperdicem a força em ódios e fraudes, nem se conduzam deslealmente. Assim, o verdadeiro fim do estado é a liberdade.

Liberdade é a meta do estado, porque a função do estado é promover o desenvolvimento e este depende da liberdade. Mas que sucede se as leis sufocam a liberdade nascente? Mas que deve fazer o homem se o estado, procurando preservar a sua existência [que ordinariamente significa conservação de empregos] se torna maquina de dominação e exploração? Obedecer ainda a lei injusta, responde Spinoza, caso o protesto razoável e a discussão forem permitidos e a palavra for deixada livre para reivindicar pacificamente mudanças. “Confesso que tal liberdade da palavra podem sobrevir inconvenientes; mas quem é no mundo que ainda não provocou abusos?” Leis contra a liberdade da palavra subvertem todas as outras leis; porque o homem deixa de respeitar as leis que não pode criticar.

*Mais um governo luta para suprimir a liberdade de pensamento, mais obstinada resistência encontra dos que, pela boa educação, sã moralidade e virtude, se tinham tornado mais livres. São os homens em geral constituídos de tal modo que nada sofrem com menos paciência do que verem as idéias que julgam justas serem tidas como crimes contra a lei. Sob tais circunstancias não consideram desonroso, antes acham honrosissimo, detestar as leis e tudo fazer contra o governo.

E Spinoza conclui como um bom constitucionalista americano: “Se só as ações fossem perseguidas e a palavra tivesse livre curso, a sedição nunca teria justificativa”.

Quanto menor o controle do estado sobre o espírito, tanto melhor para o estado e para o individuo. Embora reconhecendo a necessidade do estado, nele não confia Spinoza, pois o poder corrompe ainda os incorruptíveis [não era este o nome dado a Robespierre?]; e não olha com favor para a extensão da sua autoridade sobre a alma e o pensamento dos homens; seria isto o termo do desenvolvimento e a morte do grupo. Assim desaprova o controle do estado sobre a educação, especialmente nas universidades; “Academias fundadas a expensas do publico instituem-se, não tanto para cultivar os dons naturais dos homens, como para sufocá-los. Em uma republica livre as artes e as ciências serão melhor cultivadas se o ensino for livre; quem o quiser, autorize-se e ensine publicamente, por sua própria conta e risco”. Como encontrar um meio termo entre a universidade controlada pelo estado e universidade controlada pela riqueza particular? Problema que Spinoza não ventilou; em seu tempo a riqueza particular não havia crescido a ponto de dar margem a essa questão. Seu ideal era a alta educação que floresceu na Grécia, vinda, não de instituições, mas de individuo livres – “sofistas” -  que viajavam de cidade em cidade a ensinar, sem nenhum controle publico ou privado.

Estabelecidas estas premissas nenhuma diferença faz a forma de governo – e Spinoza exprime apenas morna preferência pela democracia. Qualquer das tradicionais formas políticas pode ser ajeitada de modo que faça o cidadão preferir o direito publico a vantagem privada; esta é a tarefa do legislador. A monarquia é eficiente, mas opressiva e militaristica.

*A experiência é suposta ensinar que a autoridade enfeixada nas mãos de um só homem é benéfica par a paz e a concórdia. De fato, nenhuma dominação durou tanto, sem nenhuma modificação notável, como a dos turcos; e por outro lado nenhuma dominação durou menos que a das democracias populares, nem foram tão agitadas de sedições. Mas se barbarismo, escravidão e desolação podem ter o nome de paz, não existe maior infortúnio para os homens do que a paz. Não há duvida que ocorrem mais disputas entre pais e filhos do que entre senhores e escravos; todavia não melhora a casa mudar os direitos paternos em um direito de propriedade e incluir os filhos na classe dos escravos. Escravidão, sim, não paz, é o que decorre da atribuição de toda a autoridade a um homem.

A isto Spinoza acrescenta algumas palavras sobre a diplomacia secreta:

8É nota insistente nos que querem o poder absoluto, que os interesses do estado exigem que os negócios sejam conduzidos secretamente. Esses argumentos, porém, quanto mais se disfarçam sob a mascara do bem publico mais opressivos tornam a escravidão a qual conduzem. É preferível que as boas decisões de um estado sejam conhecidas do inimigo a que os maus segredos dos tiranos sejam ocultos dos cidadãos. Os que tratam secretamente os negócios de uma nação põem-se em absoluto sob sua autoridade. E como conspiram contra o inimigo em tempo de guerra, assim conspiram contra os cidadãos na paz.

A democracia é a mais razoável das formas de governo; porque nela ‘cada qual submete ao controle da autoridade as suas ações apenas, não o seu critério ou a sua razão; isto é, visto como todos não podem pensar do mesmo modo a voz da maioria fica com força de lei”. A  base militar desta democracia deverá ser o serviço militar universal, retendo os cidadãos suas armas durante a paz; e a base fiscal será uma taxa única” [*”Os campos ou toda a terra, e ainda [se possível] as casas devem ser propriedade publica...arrendada aos cidadãos... e com esta exceção, nenhuma outra taxa em tempo de paz” – Tractatus Politicus, cap.6]. O defeito da democracia é a sua tendência de levar ao poder a mediocridade; e não existe meio de o evitar senão limitando o exercício dos cargos aos “homens preparados”. O numero em si não implica sabedoria e os mais altos cargos podem por ele ser atribuídos aos maiores lisonjeadores. “A volúvel disposição de animo das multidões leva ao desespero os que possuem experiências; porque a multidão é governada por emoções e nunca pela razão”. Assim, o governo democrático se torna um rosário de demagogos de vida curta, ao passo que aos homens de valor repugna interessar-se pelo governo, já que tem de ser escolhidos por gente que lhes é inferior. Cedo ou tarde os mais capazes rebelam-se contra semelhante sistema, embora estejam em minoria. “Desse modo as democracias se transformam em aristocracias e estas em monarquias”; o povo acaba preferindo a tirania a desordem. Igualdade de poderes constitui uma condição instável, e “quem procura a igualdade procura o absurdo”. A democracia tem ainda de solver o problema de mobilizar as melhores energias do homem com a escolha entregue ao sufrágio – mas o escolhido tem que sair dos preparados e estes governarão.

Que luz o gênio de Spinoza não poderia ter projetado sobre este problema Maximo da política moderna, se a morte prematura não lhe viesse interromper os trabalhos! O que nos legou não passa de um esboço imperfeito da sua concepção geral. Spinoza morreu enquanto traçava este capitulo sobre a democracia.

Spinoza_Religião e Imortalidade

Como nós a vemos, a filosofia de Spinoza foi uma tentativa de amor num mundo que o transformara num solitário proscrito; de novo, como Job, personificava ele o seu povo e perguntava a si próprio como podia ser justo, assim como o povo eleito, sofrer perseguição e exílio. Por algum tempo o conceito do mundo como processo de leis invariáveis e impessoais lhe bastou e o consolou; no fim, porém, o seu espírito essencialmente religioso transfez esse frio processo em algo amável. Experimentou fundir seus próprios desejos com a ordem universal das coisas e tornar-se parte quase indiscernível da natureza. “O maior dos bens é o conhecimento da união do espírito com a natureza inteira” [*De Emendatione]. Realmente, nossa separação individual é uma sensação ilusória; somos parte da grande corrente de lei e causa, parte de Deus; somos formas passageiras e perecíveis de um ser maior e sem fim. Nossos corpos não passam de células do corpo da raça; nossa raça, um incidente um drama da vida; nosso espírito, faísca da luz eterna. “Nosso espírito é um eterno de pensamento, determinado por outro modo de pensamento, que por sua vez se determina por outro e assim até ao infinito; e todos simultaneamente constituem o eterno e infinito intelecto de Deus. Nesta panteistica fusão do individuo com o Todo fala de novo o Oriente: ouvimos o eco de Omar, que “nunca chamou dois ao Um”, e recordamo-nos do velho poema da Índia: ”Reconhece em ti e no Todo uma mesma alma; bane o sonho de que és parte autônoma”.  “As vezes, diz Thoreau, quando vagueio no Walden Pond, cesso de viver para ser”.

Como parte de tal todos somos imortais. “O espírito humano absolutamente não pode ser destruído com o corpo; parte dele permanece eterna”, a parte que concebe as coisas sub specie eternitatis; mais concebemos desse modo as coisas, mais eterno é o nosso pensamento. Spinoza é ainda mais obscuro aqui do que em qualquer outra parte; após infindável controvérsia entre seus comentadores, suas palavras ainda falam diversamente a cérebros diversos. Imaninamo-lo as vezes a significar com essas palavras a idéia de George Eliot sobre a imortalidade pela reputação, isto é, que o que em nosso pensamento e em nossa vida há de mais racional e belo nos sobreviverá para exercer uma influencia indefinida para o diante. Spinoza as vezes parece ter em mente uma imortalidade individual ou pessoal; e pode ser que, como a morte o ameaçasse muito cedo, haurisse consolação na esperança que brilha eterna nos corações humanos. Insistentemente, todavia, distingue eternidade de duração. “Se dermos tento a opinião comum dos homens, os veremos todos conscientes da eternidade do espírito; as confundem eternidade com duração, e atribuem a imaginação ou memória o que julgam que durará depois da morte”. Mas, como Aristóteles, embora falando de imortalidade, Spinoza nega a sobrevivência da memória pessoal. “O espírito não pode imaginar nem recordar-se de qualquer coisa senão quando está no corpo”. Nem crê em recompensas celestiais: “Estão muito longe da virtude os que para ela esperam o galardão de Deus como a maior das recompensas; como se a virtude e o servir a Deus não fossem a felicidade em si”. “Bem-aventurança não é a recompensa da virtude, mas a virtude em si”. E talvez do mesmo modo a imortalidade não é a recompensa do alto pensamento, e sim o alto pensamento em si, que desse modo traz o passado ao presente e leva este ao futuro, superando os limites do tempo, e apreendendo a perspectiva que permanece eterna atrás das mudanças caleidoscopicas; tal pensamento é imortal porque cada verdade é uma criação permanente, parte de uma aquisição eterna do homem e que o influencia indefinidamente.

Com esta observação final termina Spinoza sua Ética. Raras vezes um livro acumulou tanto pensamento e provocou tantos comentários, permanecendo ainda hoje campo de batalha para interpretações hostis. Sua metafísica pode ser deficiente; sua psicologia, imperfeita; sua teologia, insatisfatória e obscura; mas da alma desse livro, do seu espírito, nenhum homem falará sem reverencia. No ultimo parágrafo esse espírito brilha luminoso:

*Completo assim a exposição do que pretendi mostrar no relativo ao poder do espírito sobre as emoções, ou liberdade do espírito, do qual ressalta quanto o homem sábio está na frente e quanto mais forte é ele que o ignorante, apenas guiado por apetites. Porque o ignorante, além de ser agitado de muitas maneiras por causas externas, jamais goza verdadeira satisfação de espírito; vive na quase inconsciência de si próprio, de Deus e das coisas, e logo que cessa de ser passivo cessa de ser. O sábio, ao contrário, tem consciência de si, de Deus e das coisas; nunca cessa de ser e goza sempre de satisfação de espírito. Se o caminho que mostrei é difícil, pode no entanto ser descoberto. E na realidade deve ser muito áspero já que não é raramente perlustrado. Todas as coisas excelentes são difíceis e raras.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Spinoza_Inteligencia e Moral

Hoje só subsistem três sistema de ética, três concepções do caráter ideal e da vida moral. Uma é a de Buda e Jesus, que dá preponderância as virtudes femininas; que considera todos os homens igualmente preciosos; que resiste ao mal contrapondo-lhe o bem; que identifica virtude com amor e se inclina, em política, a uma ilimitada democracia. Outra é a ética de Machiavel e Nietzsche, que dá preponderância as virtudes masculinas, que aceita a desigualdade dos homens; que se deleita nos riscos do combate, da conquista e do mando; que identifica virtude com poder e exalta a aristocracia hereditária. Terceira é a de Sócrates, Platão e Aristóteles, que nega a universal aplicabilidade das virtudes masculinas ou femininas; que considera que somente os espíritos maduros e bem informados podem decidir, de acordo com as circunstancias, quando deve imperar amor e quando deve imperar o poder; que identifica virtude com inteligência e advoga no governo uma mistura de democracia e aristocracia. Spinoza reconcilia estas filosofias aparentemente hostis numa harmoniosa unidade, produzindo um sistema de moral que é o máximo primor do pensamento moderno.

Começa fazendo da felicidade o objetivo da conduta; e muito simplesmente define felicidade como presença do prazer e ausência da dor. Mas prazer e dor são relativos, não absolutos; e não são estados e sim transições. “Prazer é a transição humana de um estado de menor para um de maior perfeição”. “Alegria é a sensação de que o nosso poder cresce”, disse Nietzsche. “Dor é a transição humana de um estado de perfeição maior para um menor. Digo transição porque o prazer não é a perfeição em si; se um homem nascesse com a perfeição não sentiria a emoção do prazer. E o inverso disto ainda torna a idéia mais clara”. Todas as paixões são passagens; todas as emoções são movimentos de ou para completação e poder.

“Por emoção [affectus] compreendo as modificações do corpo por meio das quais o poder da ação no corpo é aumentado ou diminuído, ajudado ou restringido; e também as idéias destas modificações” [esta teoria da emoção é habitualmente atribuída a James e Lange; mas se acha aqui formulada com mais precisão do que nesses psicologistas e concorda notavelmente com os estudos do professor Cannon]. Uma paixão ou uma emoção não é boa ou má em si, mas unicamente quando aumenta ou diminui nosso poder. “Por virtude e poder significo a mesma coisa”; virtude é poder de agir, uma forma de capacidade; “mais um homem pode preservar seu ser e procurar o que é bom para si, maior sua virtude”. Spinoza não pede ao homem o sacrifício pelo bem de outrem; é mais leniente que a natureza. Pensa que o egoísmo é o corolário do supremo instinto de conservação; “ninguém jamais rejeitou o que julga bom, exceto se tem esperança de com a rejeição alcançar um bem maior”. Isto parece a Spinoza perfeitamente razoável. “cada homem precisa amar-se a si mesmo e ser útil a si mesmo e desejar tudo quanto o leve a um maior estado de perfeição; e assim preservará seu ser”. O filosofo constrói desse modo a sua ética, não sobre o altruísmo, ou bondade natural do homem, como os reformadores utópicos, nem sobre o egoísmo cru e a natural perversidade do homem, como querem os cínicos – mas no que considera um inevitável e justificável egoísmo. Um sistema de moral que ensina o homem a ser fraco é sem valor; “o fundamento da virtude não é mais que o esforço para manter o individuo; e a felicidade do homem consiste em o conseguir”.

Como Nietzsche, Spinoza não dá valor a humildade; é, ou hipocrisia com segundas intenções, ou timidez do escravo; implica ausência de poder – e para Spinoza todas as virtudes são formas de habilidade e poder. Assim o remorso é mais defeito que virtude; “quem se arrepende é duas vezes infeliz e duas vezes fraco”. Mas Spinoza não perde tanto tempo como Nietzsche em investir contra a humildade; porque “a humildade é muito rara”, e, como disse Cícero, ainda os filósofos que escrevem livros em louvor dela botam seus nomes na pagina do frontispício. “Quem despreza a si próprio denota orgulho”, diz Spinoza, pondo em sentença uma teoria dileta dos psicanalistas, para os quais cada virtude consciente é um esforço para ocultar ou corrigir um vicio secreto. E conquanto Spinoza se desgoste da humildade, admira a modéstia e objeta contra o orgulho que não se realiza em feitos. O orgulho faz que um homem seja um incomodo para os outros: “o orgulho menciona unicamente seus grandes feitos e cala os alheios”; deleita-se com a presença de inferiores que se assombram com suas perfeições e façanhas, e torna-se, afinal, a vitima dos que mais o louvaram; porque “as maiores vitimas da lisonja são os orgulhosos”.

Até aqui o nosso filosofo nos oferece uma ética um tanto espartana; em outras passagens desce a tons mais suaves. Spinoza maravilha-se da soma de inveja, recriminação, mutua detração e ódio que agira e separa os homens; e não vê remédio para os males sociais senão na eliminação destas emoções. Crê mais simples mostrar que o ódio, talvez por aproximar-se muito de amor, possa ser mais facilmente vencido pelo amor do que pela reciprocidade. Porque o ódio é alimentado pelo sentimento de que é retribuído; daí “quem vem a saber-se amado da criatura que odeia torna-se presa de emoções em conflito, e como o amor tende a criar amor, o ódio desintegra-se e perde a força. Odiar é admitir a nossa inferioridade e o nosso medo; não odiamos ao inimigo que podemos confiadamente dominar. “Os que desejam vingar-se reciprocando ódio, viverão miseravelmente. Mas o que procura contrabater o ódio com o amor, luta com prazer e confiança; resiste igualmente a um ou a muitos homens e escassamente necessita a ajuda da sorte. Os que ele conquista cedem com alegria”. “Os espíritos são conquistados não com armas mas com grandeza d’alma”. Em tais passagens Spinoza parece banhado da luz que brilhou na Galileia.

Mas a essência de sua ética é antes grega do que cristã. “O esforço para compreender é a primeira e única base da virtude” – nada pode ser mais profundamente socrático. Porque “somos joguetes de causas extremas e, como vagas movidas por ventos contrários, ondeamos inconscientes dos nossos destinos”. Julgamo-nos mais nós mesmos quando estamos mais apaixonados, e portanto mais passivos, mais colhidos na torrente de sentimentos e impulsos ancestrais e propelidos a reações precipitadas que só atendem a parte da situação; o apaixonamento encurta a vista . Paixão é uma “idéia inadequada”; pensamento é resposta [response] retardada até que cada ângulo vital do problema tenha provocado uma reação correlativa, herdada ou adquirida; só então a idéia é adequada e a resposta completa [*Em outros termos: ação reflexa é a resposta a um estimulo local; ação instintiva, a resposta parcial a parte de uma situação; razão é a resposta total a toda a situação].Os instintos são magnificentes como força impulsora, mas perigosos como guias; porque, dado o individualismo dos instintos, cada qual procura a sua própria expansão sem atender ao todo da  personalidade. Que desastre tem sido para os homens a cupidez, por exemplo, a belicosidade, a luxuria e outros instintos que tornam as criaturas meros apêndices do instinto que as empolga. “As emoções que diariamente nos tomam sempre dizem respeito a alguma parte do corpo mais afetada que as outras, e por isso as emoções são em regra excessivas, pois conservam o espírito na contemplação de um só objeto e impedem-no de pensar em outros”. “O desejo procedente de prazer ou dor que só dizem respeito a uma ou a certas partes do corpo, não se mostra vantajoso para a totalidade do homem”. Para nos realizar temos de nos completar.

Isto não passa da velha distinção filosófica entre razão e paixão; mas Spinoza vai além de Sócrates e dos estóicos. Ele sabe que a paixão sem razão é cega, e a razão sem paixão é morta.  “Uma emoção só pode ser detida ou removida por outra emoção, contraria e mais forte”. Em vez de inutilmente opor a razão a paixão – caso em que o elemento de maiores raízes ancestrais sempre vence – Spinoza opõe as paixões desordenadas as paixões coordenadas pela razão e perfeitamente enfocadas dentro da perspectiva total da situação. Ao pensamento não deve faltar o calor do desejo, nem ao desejo a luz do pensamento. “Uma paixão cessa de o ser logo que de maneira clara a apreendamos, e o espírito é sujeito a paixões na proporção do numero de idéias adequadas que concebe”. “Todos os apetites são paixões unicamente quando emergem de idéias inadequadas; e são virtudes quando gerados de idéias adequadas” [*Note-se a semelhança destas duas citações com a teoria da psicanálise, de que os desejos são “complexos” unicamente enquanto não nos damos conta das suas causas exatas, e que o primeiro passo no tratamento é fazer virem à consciência essas causas para transformá-las em idéias adequadas]; toda conduta inteligente, isto é, que toma em conta a situação total, é uma ação virtuosa – e no fim a virtude confunde-se com a inteligência.

A ética de Spinoza deflue de sua metafísica: assim como naquela a razão jaz na percepção da lei no caótico fluxo das coisas, esta jaz no estabelecimento da lei no caótico fluxo dos desejos; lá jaz no ver, aqui no agir, sub specie eternitatis, fazendo a percepção e a ação se ajustarem a perspectiva eterna do todo. O pensamento nos ajuda nesta visão mais larga porque é auxiliado pela imaginação, a qual nos preluz os efeitos distantes das ações atuais. O grande obstáculo á conduta inteligente é a vivacidade muito maior das sensações do momento comparadas as sensações projetadas na memória [imaginação]. “Quando o espírito concebe uma coisa de acordo com os ditados da razão será ele afetado da mesma maneira, seja a idéia presente, passada ou futura. Por meio da imaginação e da razão enfocamos a experiência; tornamo-nos criadores do nosso futuro e libertamo-nos do passado”.

Desse modo realizamos a única liberdade possível ao homem. A passividade as paixões é gargalheira; a ação da razão é liberdade. Liberdade, não de leis causais, ou processos, mas de paixões parciais ou impulsos; liberdade, não da paixão, mas de paixões incoordenadas e incompletas. Só somos livres quando sabemos [*Dewey; “Um medico ou engenheiro é livre em seu pensamento e ação no grau em que sabe o que está fazendo. Possivelmente encontramos aqui a chave de todas as liberdades”, - Human Nature and Conduct].
Ser super-homem é ser livre, não das restrições da justiça e das amenidades sociais, mas do individualismo dos instintos. Com esta completação e integridade surge  a equanimidade do homem prudente; não a aristocratica complacência do herói de Aristóteles e muito menos a superciliosa superioridade do ideal de Nietzsche, mas paz de espírito e equilíbrio. “Homens bons pela razão, isto é, homens que guiados pela razão procuram o que lhes é útil, nada desejam para si que também não possam desejar para o resto da humanidade”. Ser grande não é colocar-se acima da humanidade a dirigir os outros; mas ficar fora das parcialidades e futilidades do desejo mal informado e dirigir-se a si próprio.

É esta liberdade mais nobre que a que os homens chamam livre arbítrio; porque a vontade nem é livre nem talvez seja ‘vontade’. E ninguem suponha que porque não é ‘livre’ deixa de ser moralmente responsável pela sua conduta e pela estrutura de sua vida. Exatamente porque as ações dos homens são determinadas pelas suas memórias, a sociedade precisa, para proteger-se, formar seus cidadãos dentro do quadro de suas esperanças e receios. Toda educação pressupõe determinismo e derrama no cérebro aberto da juventude um estoque de proibições destinadas a determinar-lhe a conduta. “O mal que decorre de maus atos não se torna menos de recear por vir da necessidade; livres ou não as nossas ações, nossos motivos continuam sendo esperança e receio. É falsa, pois a asserção de que eu não deixo espaço para preceitos e normas de conduta”. Ao contrario, o determinismo trabalha para uma melhor vida moral; ensina-nos a não desprezar, ridicularizar ou nos encolerizar contra quem quer que seja; os homens ‘não são culpados’; e embora punamos os perversos, agimos sem ódio, porque eles não sabem o que fazem.

Acima de tudo o determinismo nos habilita a esperar e suportar com o mesmo espírito as duas faces da sorte; sabemos que tudo decorre dos altos decretos de Deus. Talvez ainda nos ensine ele o “amor intelectual de Deus”, por meio do qual aceitemos alegremente as leis naturais e nos desenvolvamos dentro de suas limitações. Quem vê tudo como determinado não pode queixar-se, embora possa resistir; porque “percebe as coisas sob uma certa espécie de eternidade”, e encontra justificativas na seqüência eterna das coisas. Com o espírito assim conformado esse homem se ergue dos desordenados prazeres da paixão a alta serenidade da contemplação, vendo todas as coisas como partes de uma ordem e de um desenvolvimento eternos; aprende a sorrir diante do inevitável e, “realize-se agora ou de agora a mil anos, permanecerá contente”. Aprenderá a velha lição de que Deus não é uma personalidade caprichosa a absorver-se nos negócios particulares dos devotos e sim o sustentador invariável da ordem do universo. Platão o exprime belamente na Republica. “Aquele cujo espírito está fixo na ordem eterna não tem tempo para atentar nas pequeninas agitações dos homens ou encher-se de ciúme e inimizade na luta contra eles; seus olhos estão sempre dirigidos para os princípios fixos e imutáveis, princípios que ele não vê em choque uns contra os outros mas em movimento de perfeita harmonia”. “O que é de necessidade, diz Nietzsche, não me ofende. Amor fati – amor do fado – é o coração da minha natureza” [*Ecce Homo. Foi antes uma esperança de Nietzsche do que uma realização].

Ou Kears:
  • To bear all naked truths,
And to envisage circunstance, all calm:
That is the top of sovereignty. [Hyperion].

Tal filosofia nos ensina a dizer SIM a vida e também a morte – “Um homem livre não pensa na morte; sua sabedoria é uma meditação sobre a vida, não sobre a morte” [*Ética,IV]. Com a amplidão das perspectivas ela nos acalma os agitados egos; reconcilia-nos com as limitações dentro das quais nossos propósitos tem que ser circunscritos. Pode levar a resignação ou a passividade oriental; mas é a base indispensável de toda sabedoria e força. 

domingo, 3 de abril de 2011

Spinoza_Matéria e Espírito

Mas que é espírito e que é matéria? É o espírito material como alguns homens supõem? É o processo mental a causa ou o efeito do processo cerebral? Ou são, como ensinou Malebranche, desligados e independentes, e apenas providencialmente paralelos?

Nem o espírito é material, responde Spinoza, nem a matéria é mental; nem o processo cerebral é a causa ou efeito do pensamento; nem os dois processos são independentes e paralelos. Porque não existem dois processos, vistos internamente como pensamento e externamente como ação; só existe uma entidade, ora vista internamente como espírito, ora externamente como matéria, mas na realidade inextricável mistura de ambos. Corpo e espírito não atuam um sobre o outro porque não são um e outro – são um só. “O corpo não pode determinar o cérebro a pensar; nem o cérebro pode determinar o corpo a entrar em movimento ou cair em repouso”, pela simples razão de que a “decisão do espírito e o desejo e determinação do corpo...são uma e a mesma coisa”. E todo o universo é desta maneira unificadamente duplo; sempre que ocorre um processo “material” externo consiste ele em um lado ou aspecto do processo real, que para uma visão mas a ampla seria visto a implicar um processo interno correlativo ao processo mental que ocorre dentro de nós. O processo “mental” interno corresponde em cada estagio ao processo “material” externo; a ordem e a conexão das ideais são as mesmas que a ordem e a conexão das coisas”. “A substancia pensante e a substancia extensa constituem uma e a mesma coisa, compreendida agora através deste, agora através daquele atributo” ou aspecto. “Alguns judeus parecem ter alcançado isto, embora confusamente, quando disseram que Deus e seu intelecto, e as coisas concebidas pelo seu intelecto, são uma e a mesma coisa”.

Se “espírito” for tomado no sentido de corresponder ao sistema nervoso em todas as suas ramificações, então cada mudança no “corpo” será acompanhada de correlativa mudança no “espírito” – ou, melhor, forma com ele um todo. “Do mesmo modo que pensamentos e processos mentais são conectados e arranjados no espírito, assim também no corpo as suas modificações, e as modificações das coisas” que o afetam por meio de sensações, “são dispostas de acordo com sua ordem”; e “nada pode acontecer ao corpo que não seja percebido pelo espírito”, consciente ou inconscientemente. Assim como as emoções são parte de um todo, do qual mudanças no sistema respiratório, circulatório ou digestivo formam a base, assim uma idéia é parte de um processo orgânico complexo; ainda as infinitesimais sutilezas do pensamento matemático tem o seu correlativo no corpo. [Os “behavioristas” propuseram detectar o pensamento do homem pelo registro das involuntárias vibrações das cordas vocais que acompanham o processo de pensar].

Depois de assim experimentar fundir a distinção entre corpo e espírito, Spinoza reduz a uma questão de grau e diferença entre intelecto e vontade. Não há “faculdades” no espírito, nenhuma entidade autônoma como as chamadas intelecto e vontade, nem igualmente memória e imaginação; o espírito não é uma agencia de lidar com idéias, mas sim o próprio conjunto das idéias no seu processo de concatenação. Intelecto não passa de um termo abstrato designativo de uma séria de idéias; e vontade não passa de um termo abstrato para uma série de ações ou volições; “o intelecto e a vontade são relatados a esta ou aquela idéia ou volição, como penedias a esta ou aquela rocha”. Finalmente, vontade e intelecto são uma e a mesma coisa, porque volição é uma idéia que pela riqueza de suas associações [ou talvez por ausência de idéias competitivas] permaneceu bastante tempo em nossa consciência para tornar-se ação. Cada idéia se torna ação, salvo se for detida de passagem por uma idéia diferente; a idéia é em si o primeiro estagio de um processo orgânico unificado que se completa com a ação externa.

O que freqüentemente chamamos vontade -  força impulsiva determinada pela duração de um idéia na consciência – pode ser chamado desejo, o que “é a verdadeira essência do homem”. Desejo é um apetite ou instinto do qual temos consciência; mas os instintos não operam sempre através de desejos conscientes [*Spinoza atenta no poder do ‘inconsciente” como visto no sonambulismo; e nota o fenômeno da dupla personalidade]. Atrás do instinto está o vago e variado esforço de auto-conservação [conatus sese preservandi]; Spinoza vê isto em toda a atividade humana, como Schopenhauer e Nietzsche iriam ver em tudo a vontade de viver, e a vontade de poder. Os filósofos raramente estão em desacordo.

“Tudo procura persistir em seu próprio ser; e o esforço com que uma coisa procura persistir em seu próprio ser nada mais é que a essência real dessa coisa”; o poder pelo qual uma coisa persiste é o coração e a essência de seu ser. Cada instinto é um aparelho desenvolvido pela natureza para preservar o individuo [ou, como o nosso filosofo esqueceu de acrescentar, a espécie ou o grupo]. Prazer e dor são conseqüências dos instintos satisfeito ou contrariado; não as causas do nosso desejo, mas seus resultados; nós não desejamos coisas porque elas nos dão prazer; elas nos dão prazer porque as desejamos, e as desejamos porque temos de desejá-las.

Conseqüentemente não há vontade livre ou livre-arbítrio; as necessidades de sobrevivência determinam o instinto -  o instinto determina o desejo – o desejo determina o pensamento e a ação. “As decisões do espírito não passam de desejos que variam de acordo com as varias disposições”. “Não há no espírito vontade livre; mas no querer isto ou aquilo o espírito é determinado pela causa que por sua vez vem determinada por outra causa – e assim ao infinito. “Os homens julgam-se livres porque tem consciência de suas volições e desejos; mas ignoram as causas que determinam seus desejos e volições”. Spinoza compara a sensação da vontade livre ao pensamento de uma pedra a percorrer o espaço, que supusesse estar determinando a sua trajetória e pretendesse escolher o ponto onde cair.

Desde que as ações humanas obedecem a leis tão fixas como as da geometria, a psicologia deve ser estudada geometricamente, com objetividade matemática. “Escreverei sobre os seres humanos como se fossem sólidos, linhas ou planos”. “Tenho procurado cuidadosamente não mofar, lamentar ou execrar, e sim compreender as ações humanas; e com este objetivo considero as paixões não como vícios da natureza, mas como propriedades a ela tão pertinentes como o calor, o frio, a tempestade, os ventos, etc. são pertinentes a atmosfera”. É esta imparcialidade que dá ao estudo da natureza humana de Spinoza a superioridade que levou Freud a considerá-lo “o mais completo que ainda produziu um filosofo”. Taine não achou melhor meio de louvar Beyle senão comparando-o a Spinoza; e Johannes Muller, ao tratar do tema emoções e instintos, escreveu: “Com respeito a relação das paixões entre si, a parte suas condições fisiológicas, é impossível dizer melhor que Spinoza” – e o famoso fisiologista, com a modéstia própria dos grandes, passa a citar in extenso o terceiro livro da Ética. É através desta analise da conduta humana que Spinoza se aproxima, finalmente, dos problemas que dão titulo a sua obra máxima.