sexta-feira, 18 de março de 2011

Francis Bacon _ Ensaios

Sua ascensão ao poder parecia realizar o sonho platônica de um filosofo-rei. Pois, paralelamente a sua elevação ao poder político, Bacon subira as culminações da filosofia. É quase incrível que o vasto saber e a atividade literária daquele homem fossem apenas incidentes e distrações de uma tumultuosa carreira política. Sua divisa era que melhor se vive quando se vive ocultamente – bene vixit qui bene latuit. Ele não podia saber precisamente se preferia a vida contemplativa ou a vida ativa. Aspirava a ser filosofo e estadista, como Sêneca, embora suspeitasse que esta dupla direção de sua vida reduziria seu alcance e suas realizações. ”É difícil saber-se o que mais prejudica ou embaraça o espírito”,escreve ele [*Valerius Terminatus, ad fin]., “se a contemplação associada a vida ativa ou se a exclusiva contemplação em um retiro. Ele compreendia que o estudo não podia ser por si um fim ou a sabedoria, e que o saber não aplicado em ação constituía pálida vaidade acadêmica. “Empregar muito tempo em estudos é negligencia; utilizar-se em excesso deles como atavio do espírito é afetação; e formar juízo somente com suas regras é ter alma de escolástico...Os homens de habilidades praticas condenam os estudos; os simples admiram-nos e os sensatos os utilizam; pois os estudos não nos ensinam os meios de usá-los; existe acima deles uma sabedoria adquirida pela observação” [*”Sobre os Estudos”].Esta é uma nota nova que assinala o fim do escolasticismo – isto é, o divorcio entre o conhecimento e seu uso e a observação -  e coloca a experiência e seus resultados no trono da filosofia inglesa, fazendo-a culminar no pragmatismo. Não que Bacon por um só momento cessasse de amar os livros e a meditação; em palavras que lembram Sócrates ele escreve:”Sem a filosofia eu não desejaria viver” [*Dedicatória de A Sabedoria dos Antigos]; e descreve-se como sendo, em ultima análise, “um homem naturalmente mais fadado para as letras do que para qualquer outra coisa, e conduzido pelo destino, contra a vocação de seu gênio” [isto é, caráter], “para a vida ativa” [*De Aumentis, VIII,3]. Sua primeira obra publicada esteve a pique de receber o nome de “Elogio da Ciência” [1592]; seu entusiasmo pela filosofia obriga-nos a uma citação:

Meu elogio seria endereçado ao próprio espírito. O espírito é o homem. Não são os prazeres dos sentimentos maiores que os prazeres dos sentidos, e não são os prazeres da inteligência maiores que os prazeres do sentimentos? Prazer verdadeiro não é somente o que não produz saciedade? Não é apenas o saber que acalma todas as turbações do espírito? Quantas coisas imaginamos não existirem e, no entanto, existem? Quantas estimamos em mais do que realmente valem? Estas imaginações vãs, estas desproporcionadas avaliações são as nuvens do erro que se convertem em tempestade de perturbações. Existirá felicidade igual a do humano elevar-se sobre a confusão das coisas, donde não só pode descortinar a ordem da natureza como também os erros dos homens? Esse descortino, a um tempo, não deleita e origina descobertas? Não produz benefícios, além do contentamento que traz? De lá não avistaremos por igual as riquezas e belezas da natureza? È a verdade estéril? Não poderemos, utilizando-a, produzir efeitos dignos dela e assim dotar de infinito conforto a vida humana?

Sua mais bela produção literária, os Ensaios [1597-1623], mostram-no ainda hesitante em entre dois amores – a política e a filosofia. No “Ensaio sobre a Honra e a Reputação” ele concede todos os graus da honra as realizações políticas e militares e nenhum as literárias ou filosóficas. Mas no ensaio “Sobre a Verdade” escreve: “A investigação da verdade, que é o amá-la ou requestá-la; o conhecimento da verdade, que é o dar-lhe louvores; e a crença na verdade, que é o gozá-la – constituem o soberano bem da natureza. Nos livros conversamos os sábios, assim como na ação conversamos os néscios”. Isto, se soubermos escolher nossos livros. “Alguns são para serem provados”, diz um celebre fragmento, “outros para serem engolidos e poucos para serem mastigados e digeridos”; todos estes grupos são, sem duvida, parte infintesimal das cataratas de tinta com que o mundo é diariamente alagado, envenenado e afogado.

Sem duvida os Ensaios deverão incluir-se entre os poucos livros merecedores de ser mastigado e digeridos. Raro achareis iguaria tão rescendente e bem servida e em tão pequeno prato. Bacon detesta o acumular de frases e o desperdício de palavras inúteis; oferece-nos infinitas riquezas em pequenas sentenças; cada ensaio fornece em uma pagina ou duas a essência destilada das reflexões de um espírito poderoso sobre algum dos grandes problemas da vida. Difícil dizer-se o que é mais excelente: se a matéria ou a forma, pois sua linguagem na prosa é tão perfeita como a de Shakespeare no verso. Lembra o estilo compacto de Tácito, compacto, mas aprimorado; e, em verdade, sua concisão é devida em parte a uma hábil adaptação do idioma a frasear latinos. Mas a sua riqueza de metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a pletora da Renascença; nenhum escrito na literatura inglesa mostra-se tão fértil em comparações fecundas e substanciosas. A prodigalidade de ornatos é o único defeito do estilo de Bacon: as infindáveis metáforas, alegorias e alusões caem como vergastadas em nosso nervos, deixando-os, por fim, exaustos. Os Ensaios são um alimento tão rico quanto pesado, não podendo por isso ser digeridos em grande quantidade de uma assentada; mas tomados em doses de quatro ou cinco cada vez, constituem o mais fino alimento intelectual da língua inglesa.

Que extratos citaremos deste extrato da sabedoria? Talvez o melhor ponto de partida e o mais frisante desvio da filosofia medieval seja a franca aceitação, por Bacon, da moral epicurista. “Aquela progressão filosófica – não uses o que podes não querer e não queiras o que podes não recear – parece indicar um espírito fraco, desconfiado e timorato. E a verdade é que a maioria das doutrinas dos filósofos parece conter muita desconfiança e preocupar-se mais com a humanidade do que o requer a ordem natural das coisas. É assim que aumentam o medo da morte com os remédios que fornecem contra ela; pois, tornando eles a vida do homem pouco mais do que uma preparação para a morte, é impossível que o inimigo deixe de figurar-se terrível, uma vez que não tem fim as precauções para defender-nos contra ele.” [*Progresso da Ciência, VII, 2. Citando aqui certos trechos deste livro, evitaremos repetições ao referirmo-nos a outras obras].

Nada podia ser tão prejudicial a saúde com a repressão estóica do desejo; que vale prolongar-se uma vida que a apatia transformou em morte antecipada? E, além disso, é uma filosofia impraticável, pois o instinto se rebelará. “A natureza fica freqüentemente encoberta; as vezes vence; raro é destruída. Forçar a natureza é tornar mais violenta a reação; a doutrina e as exortações a fazem menos importuna; mas só o habito a modifica ou vence...Que o homem, todavia, não confie muito na vitória sobre a natureza, pos que esta, embora se conserve sepulta muito tempo, pode ressurgir conforme a ocasião ou tentação. Podemo-la comparar com a donzela da fabula de Esopo, que era gata metamorfoseada em mulher; conservou-se sentada corretamente a mesa até o momento em que viu um rato entrar. Por isso devemos ou evitar completamente as ocasiões, ou procurá-las com freqüência -  para nos abalarem menos” [*Da Natureza dos Homens]. Bacon entende, em verdade, que tanto se deve habituar o corpo aos excessos como as privações:do contrário, até uma intemperança ocasional pode prejudicá-lo. [Do mesmo modo, quem se habituou a certa alimentação, sente facilmente perturbações orgânicas quando, por esquecimento ou pela necessidade, deixa de tê-la]. Além disso “antes a variedade de prazeres do que o excesso”, pois “a resistência juvenil esconde o efeito dos excessos, o qual irá revelar-se mais tarde” [*Dos Cuidados com a Saúde];na maturidade o homem paga o que fez na mocidade. Uma boa estrada para levar a saúde é um jardim; Bacon concorda com a afirmação do autor do Gênesis, de que “o Todo-Poderoso plantou primeiro um jardim”; e com Voltaire, em que devemos cultivar nossa horta.

A filosofia moral dos Ensaios sabe mais a Machiavel do que ao cristianismo ao qual Bacon fez astutamente muitas reverencias. “Precisamos apegar-nos a Machiavel e a escritores dessa espécie, que abertamente e sem mascaras expõem o que os homens realmente fazem e não o que deveriam fazer; pois é impossível reunir a sabedoria da serpente a inocência da pomba, sem um prévio conhecimento do mal; do contrario a virtude, não guardada, se expõe a riscos” [*Sobre a Bondade]. ”Os Italianos tem um provérbio que diz em sua rudeza: Tanto buon Che val niente” – é tão bom que nada vale.

Bacon Poe de acordo sua teoria e a pratica, e recomenda uma judiciosa mistura de dissimulação e honestidade, a qual, como uma liga, tornará, aos metais mais preciosos e brandos, capazes de maior duração. Ele quer uma experiência rica e variada, que faça conhecer tudo o que amplie, aprofunde, vigoriza ou aguce o espírito. Não admira a vida meramente contemplativa; a exemplo de Goethe, despreza o saber que não conduz a ação; “os homens deveriam saber que no teatro da vida humana só os deuses e os anjos podem ser espectadores” [*Progresso da Ciência, VIII,1].

Sua religião é patrioticamente análoga a do rei. Embora mais uma vez acusado de ateísmo e de que toda a tendência de sua filosofia era profana e racionalista, ele faz uma eloqüente e aparentemente sincera reprovação da descrença. “Eu creria, de preferência, em todas as fabulas da lenda, do Talmud e do Alcorão, do que na não existência de um espírito a dirigir a fabrica deste universo...Um pouco de filosofia inclina o espírito ao ateísmo porém maior profundeza o reconduz a religião; porque quem olha destacadamente as causas segundas, pode algumas vezes não passar delas, deixando de ir além; mas quem lhes contemplar o encadeamento, remonta até a Providencia e a Divindade” [*Sobre o Ateísmo]. A indiferença religiosa é devida a multiplicidade de divisões na religião. “As causas do ateísmo são as cisões em religião, se forem muitas;  pois com uma ou outra cisão recrudesce o zelo das facções contrárias, mas muitas geram o ateísmo...E também os tempos ricos em saber, principalmente havendo paz e prosperidade, pois as perturbações da ordem e a adversidade fazem os espíritos inclinar-se mais para a religião” [*Idem].

Mas o valor de Bacon reside menos na teologia e na ética do que na psicologia. É um analista seguro da natureza humana e dispara certeiras setas nos corações. Nos mais sovados assuntos é renovadamente original. “No primeiro dia do casamento um homem torna-se espiritualmente sete anos mais velho” [*Carta a Lord Brugley, 1606]. Vê-se amiúde que os maus maridos tem mulheres boas”. [Bacon era uma exceção]. A vida do celibato é de conveniência aos clérigos, pois a caridade regará o chão quando primeiro é preciso encher um poço...Quem tem mulher e filhos está como reféns dados a fortuna, porquanto mulher e filhos servem de empeços para as grandes empresas, quer da virtude, quer do mal. [*Sore o casamento e o Celibato. Contrasta com a frase mais apreciada de Shakespeare:”A cada poder dá o amor um duplo poder”.

Perece que o árduo trabalho de Bacon não lhe dava tempo para o amor e talvez não conhecesse o amor em toda a sua profundeza...Nunca o homem orgulhoso pensa tão absurdamente bem de si próprio, como o enamorado pensa do objeto amado...Podereis observar que entre todas as pessoas eminentes e dignas [das quais haja antigas ou recentes memórias] a nenhuma o amor levou até a loucura, o que prova que os grandes espíritos e os grandes empreendimentos mantêm a distancia essa fraqueza” [*Sobre o amor].

Ele avalia a amizade em mais que o amor, mau grado possa também mostra-se cético no respeitante a ela.”Pouca amizade há no mundo e menos ainda entre os iguais, que estão habituados a ser homenageados. A que existe é entre superiores e inferiores, cujas sortes dependam uma da outra...O principal fruto da amizade é aliviar e descarregar os corações cheios em excesso de toda a espécie de paixões”. Um amigo é um ouvido. “Os que não tem amigos para com eles se expandirem são canibais de seus próprios corações...Quem tem o espírito atulhado de muitos pensamentos sentirá mais lúcida e vigorosa a inteligência comunicando-se e discorrendo com outrem; desenvolverá mais facilmente as idéias e as disporá com mais ordem e verá como se mostram ao serem vasadas em palavras; enfim, sentir-se-á mais inteligente do que de costume e ganhará mais com o expandir-se uma hora do que com um dia de meditação” [*Sobre os Companheiros e Amigos:Sobre a Amizade]. 

No ensaio “Sobre a Mocidade e a Idade Adulta” ele condensa um livro em um parágrafo. “A aptidão dos jovens é mais para inventar do que para julgar, mais para a execução do que para deliberar e mais para projetos novos de que para trabalhos já definidos; pois a experiência da idade adulta dirige-se a si própria no que é de seu conhecimento; mas desnorteia-se em se tratando de coisas novas...Os moços, no agir, abarcam mais do que podem segurar e agitam mais coisas do que as que podem aquietar; precipitam-se para o fim sem refletir nos meios e sem graduar o impulso; obedecem absurdamente a alguns poucos princípios tomados ao acaso; não se tem de inovar, o que acarreta inconvenientes não previstos...Os homens de idade põem muitas objeções em tudo, resolvem mui demoradamente, aventuram-se pouco, arrependem-se cedo  e raro realizam plenamente suas empresas, contentando-se com resultados mesquinhos. Sem duvida é um bem utilizá-los a uns e outros conjuntamente... porquanto suas qualidades respectivas poderão corrigir-lhes mutuamente os defeitos”. Ele pensa, contudo, que a juventude e a meninice poderão investir-se de excessiva liberdade e assim desenvolver-se tumultuarias e imprestáveis. “Escolham os pais temporariamente as profissões ou carreiras dos filhos, pois em pequenos são mais maleáveis; e não tomem muito a sério o que julgam ser a vocação dos filhos, supondo que por si eles tomarão resolução melhor do que a que os pais tenham em mente. É certo que, se as tendências ou aptidões dos filhos forem extraordinárias, será conveniente não as contrariar; mas geralmente é bom o preceito dos pitagoricos: “Optimum lege, suave et facile iluud faciete consuentudo” – escolhe o melhor; o hábito o tornará agradável e fácil [*Sobre os Pais e os Filhos]. Pois o “hábito é o principal Corregedor da vida do homem” [*Sobre os Costumes].

A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em quem aspirava ao governo. Bacon desejava que existisse um Bacon desejava que existisse um forte poder central. A monarquia é a melhor forma de governo, e em regra a eficiência do estado depende da concentração do poder. “Existem três pontos a considerar na função pratica do governo: a preparação; a discussão ou exame; e a perfeição” [ou execução]. “Do que se conclui que, se desejardes diligencia, deixai somente o segundo ponto aos cuidados de muitos, e confiai a poucos o primeiro e o ultimo” [*Sobre a Diligencia].

É militarista confesso; lastima o desenvolvimento da industria que torna que torna os homens inaptos para a guerra, e bem assim a prolongada paz, por adormecer a belicosidade. Não obstante, reconhece a importância das matérias primas: “Solon disse a Creso (quando Creso, por ostentação, lhe mostrava seu ouro): - Senhor, se aparecer outro rei que tenha melhor ferro que o vosso, ele será o dono de todo este ouro” [*Sobre a Verdadeira Grandeza dos Reinos].

Bem como Aristóteles, deu alguns conselhos para se evitarem revoluções: “O meio mais seguro de evitarem sedições...é eliminar o material que as possa fazer lavrar; pois se houver lenha preparada, de qualquer lado pode vir a faísca que lhe ateará fogo...Não se segue que o proibirem-se as discussões com demasiada severidade possa obviar rebeliões; desprezá-las é as vezes o melhor meio de as reprimir, e querer atalhá-las é dar-lhes grande incentivo...É de duas espécies o material das sedições: pobreza e descontentamento...As causas das sedições são: inovação em religião; modificação das leis e costumes; supressão dos privilégios; estado geral de opressão; ocupação de altos cargos por pessoas indignas e adventícias; carestia geral; soldados desincorporados; facções reduzidas ao desespero; e tudo aquilo que, molestando o povo, o reúne em uma causa comum”. O essencial para os chefes, portanto, é dividir os inimigos e reunir os amigos. “Geralmente, o dividir e enfraquecer todas as facções...contrarias ao governo e mantê-las separadas umas das outras, ou com menos confiança recíproca, não é dos piores remédios, pois seria de desesperar, se entre os solidários com o governo reinassem discórdia e cisões, enquanto os adversários se mostrassem perfeitamente unidos”.[*Sobre as Sedições e Outras Perturbações da Ordem].

A melhor receita para se evitarem resoluções é a distribuição eqüitativa da riqueza: ”O dinheiro é semelhante ao esterco – só é bom quando muito espalhado [*Idem]. Mas isto não implica socialismo ou mesmo democracia; Bacon não confia no povo, ao qual, em seu tempo, a educação era completamente inacessível; “a mais baixa de todas as lisonjas é a lisonja do povo comum” [*Em Nichol:II,149];e Phocion compreendeu-o bem, porque, como a multidão o aplaudisse, perguntou: -“Que asneira eu disse?” [*Progresso da Ciência, VI,3].O que Bacon deseja é, primeiro, uma casta rural de pequenos lavradores proprietários; depois, uma aristocracia para a administração; e, acima de tudo, um filósofo-rei. “Não há exemplo de uma nação não prosperar quando os governantes são sábios” [*Idem]. Ele mencionou Sêneca, Antonio Pio e Marco Aurélio; e sua esperança era que ao nome destes a posteridade acrescentasse o dele próprio.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Francis Bacon _A Carreira Política

Ocorreu o nascimento de Bacon a 22 de janeiro de 1561, em York House, Londres, residência de seu pai, Sir Nicholas bacon, que nos primeiros vinte anos do reino de Elizabeth fora o Guarda do Grande Selo. “A fama do pai”, diz Mamaulay, “ficou na sombra com a do filho. Mas Sir Nicholas não era homem comum”. [*Ensaios, Nova York, 1860,342]. É o que se poderia ter calculado, pois o gênio é uma culminância a que uma família se eleva por meio do talento; e com o decair do talento na descendência do gênio ela desce de novo ao nível da mediocridade humana. A mãe de Bacon era Lady Anne Cooke, cunhada de Sir William Cecil, Lord Burghley, Tesoureiro-Mór de Elizabeth e um dos homens mais poderosos da Inglaterra. Seu pai fora preceptor principar do rei Eduardo VI; ela era lingüista e teologa e não sentia dificuldade em corresponder-se em grego com bispos. Assumiu o encargo de professora de seu filho e não se poupou trabalho para sua educação.

Mas a maior criadora da grandeza de bacon foi a Inglaterra elizabetana, a época mais notável da mais poderosa das nações modernas. A descoberta da América desviara o comercio do Mediterrâneo para o Atlântico e guindara as nações atlânticas – Espanha, França, Holanda e Inglaterra – a supremacia comercial e financeira que pertencerá a Itália, quando metade da Europa fizera da Itália seu porto de chegada e partida para o comércio no Oriente; e com esta mudança a Renascença se passara de Florença, Roma, Milão e Veneza para Madrid, Paris, Amsterdã e Londres.

Após a destruição do poder naval da Espanha em 1588, o comercio inglês dilatou-se párea todos os mares; suas cidades prosperaram com a industria nativa; seus navegantes deram a volta ao globo e seus capitães conquistaram a América. A literatura floriu com a poesia de Spencer e a prosa de Sidney; seus palcos se animaram com os dramas de Shakespeare, Marlowe, Bem Jonson e mais cem outros. Nenhum homem poderia deixar de florescer em tal tempo e em tal país, se nele existisse qualquer semente germinal.

Na idade de doze anos mandaram Bacon para o Colégio da Trindade, em Cambridge. Lá permaneceu três anos e saiu com grande aversão a seus textos e métodos, com uma franca hostilidade ao culto de Aristóteles e resolvido a meter a filosofia em vereda mais fértil, desviando-a das discussões escolásticasa para o esclarecimento dos espíritos e aumento do bem-estar humano. Embora fosse um menino de dezesseis anos, ofereceram-lhe um cargo na embaixada inglesa da França; e só depois de cuidadosa pesagem de prós e contras, ele aceitou. No Proemio da Interpretação da Natureza comenta esta decisão inelutável que o desviou da filosofia para a política. É passagem de leitura indispensável:

Como me acreditasse a prestar serviços ao gênero humano e reconhecesse que o trabalho a bem do país figurava entre os deveres comuns a todos, assim como são comuns a água e o ar, perguntei-me o que poderia ser de mais vantagem à humanidade e qual a tarefa que eu, dado o meu natural, seria mais apto a realizar. E quando o procurava saber, não achei obra mais meritória do que a descoberta e o aperfeiçoamento das artes e das inovações que tendem a civilizar a humanidade... E, mais que tudo, se algum homem pudesse conseguir – não meramente deitar mais luz sobre determinada descoberta, por mais útil que fosse – mas acender para as coisas naturais um luzeiro que, ao despontar, projetasse alguma luz sobre os limites e confins atuais das descobertas humanas,e que depois, a proporção que se levantasse mais e mais sobre o horizonte, patenteasse e iluminasse todos os recantos e intersticios sombrios – parecia-me que um tal descobridor mereceria ser chamado Ampliador do Reinado do Homem sobre o universo, Paladino da liberdade humana e Debelador das necessidades que agora escravizam os homens. Mais ainda – encontrei em minha própria natureza uma adaptação especial para a contemplação da verdade. Pois eu tinha o espírito suficientemente versátil para aquela coisa essencial que é o reconhecimento das similitudes – e, ao mesmo tempo, suficientemente constante e concentrável para  observação dos sutis matizes diferenciadores. Possuía paixão pelas investigações, o poder de suspender pacientemente o juízo, de meditar com prazer, de assentir com cautela, de retificar com presteza as impressões falsas e de concatenar meus pensamentos com escrupuloso trabalho. Não sentia sede de novidades, nem cega admiração pela antiguidade. Detestava com veemência a impostura sob qualquer de seus aspectos. Por estes motivos entendi que meu natural e disposição de espírito tinham, como era realidade, uma espécie de parentesco e conexão com a verdade.

Mas meu nascimento, minha criação e educação apontavam-me não para a filosofia, mas para a política. Eu fora impregnado de política desde a infância; e,  que não raro sucede as pessoas novas, sentia as vezes abaladas as minhas convicções. Ponderei também que ao meu dever para com meu país, que tinha sobre mim direitos especiais, não podiam predominar outros quaisquer deveres de minha vida.

Por ultimo refleti esperançado de que, se conseguisse algum honroso posto em meu país, poderia assegurar auxilio e amparo para os meus trabalhos relacionados com a realização da tarefa a mim destinada. E tornei-me político.[*Tradução de Abbot:Francis Bacon, Londres, 1885, pág.37].

Sir Nicholas Bacon morreu subitamente em 1579. Pretendera dar ao filho um patrimônio; mas a morte transtornou-lhe os planos, de forma que o jovem diplomata, chamado com urgência a Londres, se viu, na idade de dezoito anos, sem pai e sem vintém. O jovem Bacon já se acostumara a quase todo o luxo de seu tempo, pelo que difícil lhe foi habituar-se então a vida simples que era forçado a levar. Dedicou-se a advocacia e ao mesmo tempo importunava seus parentes de influencia para que lhe conseguissem algum cargo publico que o livrasse de preocupações pecuniárias. Suas cartas quase suplicantes deram pouco resultado, se lhe considerarmos a elegância e o vigor de estilo e a provada aptidão de seu autos. Talvez porque Bacon não tivesse em menos conta essa aptidão e considerasse a colocação ambicionada como lhe sendo devida, Burghley deixou de  dar-lhe resposta; e talvez também nessas cartas o missivista repisasse em demais sua dedicação passada, presente e futura ao respeitável Lord; na política, assim como em amor, ninguém se deve dar totalmente; deve dar-se sempre, mas em tempo nenhum dar tudo.
A gratidão alimenta-se com a expectativa.

Afinal Bacon subiu sem que o puxassem de cima; mas a ascensão de cada degrau exigiu muitos esforços. Em 1583 foi eleito para o Parlamento por Taunton; e seus representados apreciaram-no tanto, que em eleições sucessivas o reelegeram. Tinha eloqüência vigorosa e pronta nos debates e era orador sem oratória. “Nenhum homem”, disse Bem Jonson, “falava mais clara, mais concisa, mais ponderadamente ou tinha menos vacuidade ou frases ociosas no que dizia. O valor da sua oratória não se baseava na sedução pessoal. Os ouvintes não podiam tossir ou desviar dele o olhar sem perder alguma coisa. Falava como quem ordena...Homem nenhum sabia dominar melhor seus sentimentos. O receio de todos que o ouviam era de que ele acabasse de falar”. Invejável Orador! [*Nichol, Francis Bacon, Edimburgo, 1907,I, 37].

Um amigo poderoso mostrou-lhe generoso – o belo conde de Essex, a quem Elizabeth amou em vão, passando por isso a odiá-lo. Em 1595, como compensação de ter falhado seu plano de obter um cargo político para Bacon, Essex presenteou-o com uma bela propriedade em Twickenham. Dádiva magnífica, e seria de presumir-se que, a vida toda, ela acorrentasse Bacon a Essex; mas tal não sucedeu. Poucos anos após Essex fomentou uma conspiração para aprisionar Elizabeth e lhe escolher sucessor no trono. Bacon escreveu cartas sucessivas a seu benfeitor, protestando contra esta traição; e como Essex persistisse, Bacon preveniu-o de que poria sua fidelidade a rainha acima da gratidão ao amigo. Essex fez a tentativa, que falhou. E foi preso. Tantas vezes Bacon intercedeu a seu favor junto a rainha que por fim ela lhe ordenou que “mudasse de assunto”. Quando Essex, temporariamente livre, reuniu forças armadas e marchou para Londres tentando fazer a população revoltar-se, Bacon voltou-se contra ele, colérico. Nesse entrementes fora-lhe dado um cargo na procuradoria do reino; e, quando Essex, novamente preso, foi julgado pelo crime de traição, Bacon tomou parte ativa na acusação do homem que fôra seu amigo incondicional. [*Escreveram-se centenas de volumes, sobre este aspecto da carreira de Bacon. O processo contra bacon. “o homem mais sábio e mais vil da espécie humana” (conforme o chamou Pope) encontra-se no ensaio de Macaulay e mais circunstanciadamente no Francis Bacon de Abbott; estes lhe aplicaram suas próprias palavras:”A sabedoria do eu humano, assim como a dos ratos, o faz achar mais seguro abandonar a casa antes que ela caia” (Ensaio “Da Sabedoria do Eu Humano”).O processo contra Bacon é reproduzido na obra Vida e Tempos de Francis Bacon, de Speddin, em seus Serões com um Critico (minuciosa replica a Macaulay), In médio veritas.

Essex foi condenado a morte e executado. A parte tomada por Bacon nesse julgamento tornou-o por algum tempo impopular – e desde essa época viveu cercado de inimigos que procuravam oportunidade para aniquilá—lo. Sua insaciável ambição não lhe dava tréguas; estava sempre descontente e sempre despendia adiantadamente os rendimentos de um ano. Pródigo em suas despesas; gastar muito era satisfazer a uma exigência da política. Quando se casou, na idade de quarenta e cinco anos, a opulência dispendiosa da cerimônia deu grande rombo no dote da noiva, que era o que mais o seduziu nela. Em 1598 foi preso por divida. Mesmo assim, continuou a subir. Suas varias aptidões e conhecimentos quase ilimitados tornavam-no membro de valor em qualquer junta importante; gradativamente abriram-se as portas dos mais altos cargos: em 1666 foi nomeado Solicitador Geral; em 1613 tornou-se Procurador Geral; em 1618, na idade de cinqüenta e sete anos, chegou, afinal, ao posto de Lord Chanceler.

                       

Francis Bacon_De Aristoteles à Renascença

Quando Sparta bloqueou e derrotou Atenas, em fins do quinto século antes de Cristo, a mãe da filosofia e arte gregas perdeu a supremacia política, e decaíram o vigor e a independência do espírito ateniense. Quando Sócrates foi condenado a morte, em 399 a.C., a alma de Atenas morreu com ele, apenas perdurando em Platão, que se orgulhava de ser o seu discípulo. E quando Filipe da Macedônia derrotou os atenieneses em Queroneia em 338 a.C., e Alexandre incendiou totalmente a cidade de Tebas três anos depois, mesmo o fato de ser ostensivamente poupada a casa de Pindaro não podia dissimular a realidade de estar irremessivelmente finda a independência de governo e de pensamento dos atenienses. A dominação da filosofia grega pelo macedônio Aristóteles refletia a sujeição política da Grécia aos povos viris e mais novos do norte.

A morte de Alexandre [323 a.C] acelerou a decadência. O adolescente imperador, que continuava a ser bárbaro apesar de ter tido Aristóteles como preceptor, aprendera, mesmo assim, a reverenciar a rica cultura da Grécia, sonhando estendê-la pelo Oriente, na esteira de seus exércitos vitoriosos. O desenvolvimento do comercio grego e a multiplicação dos entrepostos comerciais gregos pela Ásia Menor proporcionavam a base econômica para a unificação daquela região, integrando-a no império helênico; e Alexandre esperava que, daqueles postos comerciais, não só as mercadorias gregas, como também o pensamento grego se propagaria e conquistaria os paises anexados.

Mas ele não tomara em devida conta a inércia e a resistência do espírito oriental, nem o volume e profundidade da cultura oriental. Não passava, em suma, de fantasia juvenil, pretender que civilização tão imatura e instável como a grega substituísse civilizações incomparavelmente mais espalhadas e arraigadas em veneráveis tradições. A quantidade da Ásia era excessiva para a qualidade da Grécia. O próprio Alexandre, na hora do triunfo, sentiu-se conquistado pela alma do Oriente; casou-se [entre várias damas] com a filha de Dario; adotou o diadema e o manto régio dos persas para as solenidades publicas; introduziu na Europa a noção oriental do direito divino dos reis; e por fim assombrou uma Grécia cética, anunciando-lhes, em pomposo estilo oriental, que ele era um deus. A Grécia riu-se; mas Alexandre embriagou-se a ponto de morrer.

A esta sutil impregnação da alma asiática no corpo fatigado do senhor dos gregos, sucedeu-se rapidamente o golfar dos cultos e da fé oriental na Grécia, pelas mesmas vias de comunicação rasgadas pelo jovem conquistador. Esses diques rotos fizeram o oceano do pensamento oriental derramar-se nas terras baixas do ainda adolescente espírito europeu. A fé mística e supersticiosa que deitara raízes entre as classes mais pobres da Helade, fortalecera-se e propagara-se; e o espírito oriental da apatia e resignação encontrou terreno preparado na Grécia decadente e abatida.
A introdução da filosofia estóica em Atenas pelo mercador fenício Zenon [cerca de 310 a.C]., foi uma dentre as numerosas infiltrações de idéias orientais. Tanto o estoicismo como o epicurismo – a apática aceitação da derrota e o esforço para olvidá-la nos braços do prazer – eram teorias para poder-se ainda ser feliz apesar da sujeição ou escravidão: precisamente como o pessi-mistico estoicismo oriental de Schopenhauer e o desalentado epicurismo de Renan simbolizaram, no século dezenove, uma revolução frustrada e uma França esgotada.

Não que essas antíteses naturais da teoria ética fossem totalmente novas para a Grécia. Achamo-las no sombrio Heráclito e no ‘risonho filosofo’ Demócrito; e podemos ver os discípulos de Sócrates a cindir-se em cínicos e cirenaicos, sob a chefia de Antístenes e Aristipo,e a exalçarem – uns, a apatia sistemática e, outros, a felicidade. Mesmo assim, eram modos de pensar quase exóticos: a Atenas imperial não os adotaria. Mas quando a Grécia viu Queroneia alagada em sangue e Tebas reduzida a cinzas, começou a ouvir Diógenes; e após o ocaso do esplendor atenienses, o campo mostrou-se amadurecido para Zenon e Epicuro [*A tabua as págs. 110-111 indica aproximadamente as linhas essenciais da evolução filosófica na Europa e na América].

Zenon edificou sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um futuro estóico, Crisipo, achou difícil diferenciar do fatalismo oriental. – Quando Zenon, que não acreditava na escravidão, estava a bater em seu escravo, este, para justificar-se, invocou as idéias filosóficas de seu senhor, segundo as quais ele, escravo desde o principio do mundo, estava predestinado a cometer aquela falta; mas Zenon redargüiu-lhe com a calma de um sábio que, de acordo com as mesmas idéias, ele, Zenon, também estava predestinado a bater-lhe.

Do mesmo modo que Schopenhauer julgava inútil o individuo lutar contra a vontade universal, também o estóico argumentava que a indiferença filosófica era a única atitude razoável em face de uma existência na qual nossa luta pela vida é tão injustamente condenada a uma inevitável derrota. Se a vitória é completamente impossível, devemos desdenhá-la. O segredo para s obter paz é não tentar fazer nossas realizações igualar-se a nossos desejos e sim baixar os desejos ao nível de nossas realizações. “Se o que tens te parece insuficiente – disse o estóico romano Sêneca [morto no ano 65 da E.C] – então, mesmo que possuas o mundo ainda te sentirás na miséria”.

Tal preceito bradava aos céus pelo preceito contrário – e Epicuro produziu-o, embora vivesse como estóico, assim como Zenon. “Epicuro – diz Fénelon – [*Citado (como divisa) no frontispicio do livro de Anatole France, Jardim do Epicuro] – comprou um belo jardim, que ele mesmo cultivava. Ali era sua escola e nele viveu mansa e agradável vida com seus discípulos, a quem ensinava enquanto passeava e trabalhava...Era delicado e afável para com todos...afirmando nada haver mais nobre do que dedicar-se alguém a filosofia”. Seu ponto de partida é ser a apatia impossível e que o prazer – posto que não necessariamente o prazer sensual – é a única concebível e perfeitamente legitima finalidade da vida e da atividade. “A  natureza faz todos os organismos preferir seu próprio bem ao bem alheio”; - até o estóico encontra um sutil prazer na renuncia. “Não devemos evitar os prazeres e sim escolhê-los”.

Epicuro, portanto, não é um epicurista; ele apregoa os prazeres intelectuais, de preferência aos dos sentidos; acautela-nos contra os prazeres que exaltam e perturbam a alma que eles deveriam, apaziguar. Por fim propõe não se procurar o prazer em seu sentido usual, e sim a ataraxia – a tranqüilidade, a equanimidade, a paz do espírito; tudo isso fica beirando a “apatia” de Zenon.

Quando os romanos foram saquear a Helade em 146 a.C., encontraram essas escolas a dividir o campo filosófico; e como não tivessem lazeres nem sutilezas para tais especulações, levaram consigo essas filosofias com os mais despojos para Roma. Tanto os dirigentes de elevados sentimentos como os escravos que não podem forrar-se ao cativeiro, tendem as atitudes estóicas; dificilmente o homem sensível pode ser senhor ou servo. Por isso, a filosofia dos romanos era mais aparentada a escola de Zenon, quer no imperador Marco Aurélio, quer em Epíteto, o escravo; e o próprio Lucrecio apregoava estoicamente o epicurismo [como o inglês de Heine a divertir-se melancolicamente], rematando seu austero evangelho do prazer com um suicídio. Seu grandioso poema épico “Sobre a Natureza das Coisas” [*O professor Shotwell (introdução à Historia da História) chama-lhe “a mais maravilhosa obra de toda a literatura antiga”].,segue as pegadas de Epicuro, condenando o prazer com seu frouxo elogio do mesmo. Quase contemporâneo de César e de Pompeu, Lucrecio viveu em meio a tumultos e alarmas; sua pena nervosa está sempre a dedicar louvores à tranqüilidade e à paz.

Houve quem o pintasse como uma alma tímida cuja juventude fora obscurecida com temores religiosos, pois nunca se cansa de dizer aos leitores que não existe inferno, a não ser aqui, e que não existem deuses, exceto os que vivem senhorilmente nas nuvens, em um jardim de Epicuro, que nunca se intrometem nos negócios dos homens. Opõe um implacável materialismo a crença no céu e no inferno, que nascia entre os habitantes de Roma. A alma e o espírito desenvolvem-se com o corpo, crescem juntamente com ele, doem-se com suas dores e morrem com sua morte. Nada existe a exceção dos átomos, do espaço e das leis naturais; e a lei das leis é a da evolução e dissolução de todas as coisas.

Não perdura coisa alguma; tudo passa. Partículas juntam-se a partículas; crescem as coisas assim, até as conhecermos e darmos-lhes nomes. E gradualmente se dissolvem e não são mais as coisas que conhecemos.
Feitos de átomos a cair lentos ou rápidos, no vácuo, vejo os sóis e as constelações erguerem-se no firmamento; e essas constelações e seus sóis declinarão vagarosos em seu eterno curso.

Tu também, ó Terra – com teus impérios, terras e mares e estrelas e via-lactea, formada do mesmo modo, também passarás assim. Hora em hora já estás a passar, como aqueles.

Nada perdura. Teus mares, transfeitos em tênues nevoas, desaparecem: os alvos areais abandonam o seu lugar; e onde agora estes estão, outros mares, por sua vez, segarão outras baias com suas alvas foices liquidas.[*Paráfrase de Mallock: Sobre a Vida e a Morte de Lucrecio, págs. 16-16].

A evolução e dissolução astrais ele acrescenta a origem e extinção das espécies:

A terra antiga também tentou produzir muitos monstros, de caras e membros estranhos...alguns sem pés, outros sem mãos, quais sem boca e quais sem olhos...Outros monstros como esses a terra tentou criar, mas em vão: pois a natureza interditou o desenvolvimento, pelo que não puderam atingir a desejada flor da idade, nem encontrar alimento, nem acasalar-se...e muitas raças de coisas vivas devem ter-se então extinto, por sua incapacidade para procriar e perpetuar-se. Pois as espécies de todos os seres que vêsdes a respirar o sopro da vida, foram desde o principio protegidas pela astúcia, pela coragem ou pela rapidez...Aqueles a quem a natureza não concedeu alguma dessas qualidades ficaram abandonados como presa e alimento dos mais, até suas espécies se extinguirem. [*N.f.830, tradução de Munro].  

Também as nações crescem com lentidão e morrem inevitavelmente, como os indivíduos; “algumas prosperam, outras decaem e em breve espaço substituem-se as gerações de coisas vivas, como os corredores flamularios, entregando-se, um ao outro, a lâmpada da vida”. Em face da luta e da morte inevitável só existe sabedoria na ataraxia, que é – “contemplar as coisas com espírito sereno”. É claro haver desaparecido aqui a velha alegria pagã de viver; um espírito quase exótico é que dedilha a lira quebrada. A historia, que é humorista, nunca se mostrou tão mordaz como ao dar-se a esse pessimismo abstinente e épico o nome de epicurismo.

E se este é o espírito do adepto de Epicuro, imagine-se qual não será o otimismo de estóicos declarados, como Aurélio ou Epíteto. Nada em toda a literatura é mais desalentador que as “Praticas” do escravo, a não serem as “Meditações” do imperador.:

Não queirais que as coisas sucedam conforme os vossos desejos e sim deixá-las suceder tais quais são, que com isso vossa vida prosperará” [*Enquiridio e Praticas de Epíteto; ed Rolleston, pág.81]. Não há dúvida de que, por este modo, podemos pretaçar o futuro e jactar-nos de dominadores do universo.
Registra a historia que o Senhor de Epíteto, que o tratava com inalterável crueldade, pôs-se um dia, por divertimento, a torcer-lhe a perna. “Se continuar a torcê-la”, disse Epíteto calmamente, “quebrará a minha perna”. Continuando o amo a fazê-lo, quebrou-a. “Não lhe disse”, observou mansamente Epíteto, “que quebraria minha perna?” [*Enquiridio e Praticas de Epíteto, XXXVI].Apesar de tudo há certa grandeza mística nesta filosofia, como na plácida coragem de um pacifista dostoievskiano. ”Jamais digas, em qualquer hipótese: - Perdi isto ou aquilo e, sim: Restitui. – Morreu teu filho? Foi restituído. Morreu tua mulher? – Ela foi restituída. Perdeste os teus bens? Não foram eles também restituídos?” [*Enquiridio e Praticas de Epíteto, 86].

Em trechos como esses antevemos o aproximar-se do cristianismo e seus corajosos mártires; e a ética cristã da abnegação, a política ideal cristã de uma fraternidade humana quase comunista e a escatologia cristã da conflagração final do mundo, não eram, em verdade fragmentos da doutrina estóica a flutuarem na torrente do pensamento filosófico? Em Epíteto a alma greco-romana perdera o paganismo e estava preparada para a nova fé. Seu livro teve a honra de ser adotado como manual religioso pela primitiva Igreja Cristã. Das “Práticas” e das “Meditações” de Aurélio só faltavam um passo para chegar-se a “Imitação de Cristo”.

Enquanto isso o ambiente histórico ia sofrendo mutações de aspecto. Em notável trecho de sua obra, Lucrecio [*II,1,170. Esta é a mais antiga e também a mais recente hipótese sobre a decadência de Roma; cf. Simkhovitch:Para a Compreensão de Jesus, Nova York, 1921]., descreve a decadência da agricultura romana e atribui a exaustação do solo. Fosse ou não essa a causa, o certo é que a riqueza de Roma se transmudou em pobreza, sua organização em desintegração, e seu poderio e orgulho em decadência e apatia. As cidades decaiam no hinterland; as vias publicas ficavam sem reparos e já nelas não regorgitava o trafego mercantil; o sangue das pequenas famílias dos romanos educados se caldeava com o da vigorosa e indisciplinada estirpe de germanos que, anos sucessivos, transpuseram as suas fronteiras; o paganismo cedeu lugar aos cultos orientais; e quase imperceptivelmente o Império se transformou em Papado.

Amparada em seus primeiros séculos pelos Imperadores cujo poder ela gradualmente absorvia, a Igreja aumentou rapidamente quer em numero de fieis, quer em riqueza e influencia. Pelo século treze pertencia-lhe um terço do território europeu [*Robinson e Bernard: Esboço de História Européia, Boston, 1914, I, 443], e seus cofres se achavam atulhados com os donativos dos ricos e dos pobres. Durante mil anos ela uniu, pela magia de um credo invariável, a maioria dos povos de um continente; nunca antes disso houve organização tão espalhada e tão pacifica. Mas esta união exigia, assim como as idéias cristãs, uma fé comum, exaltada pelas sanções sobrenaturais superiores as mudanças do tempo; por esse motivo os dogmas mais limitados e definidos encapsulavam, a maneira de um molde, o espírito adolescente da Europa medieval. Era no exíguo interior desse molde que a filosofia escolástica oscilava da fé para a razão e vice-versa, em um circulo falacioso de presunções e de pré-ordenadas conclusões, não submetidas a critica. No século treze toda a cristandade se espantava com as traduções de Aristóteles para o judaico e o árabe; mas o poder da Igreja era ainda capaz de assegurar, por intermédio de Tomaz de Aquino e outros, a transmutação de Aristóteles em um teólogo medieval. O resultado foi a sutileza e não a sabedoria. “Se o espírito do homem”, segundo Bacon se expressou, “atuar sobre dada matéria, atuará de acordo com a substancia dela e por ela se limitará; mas se atuar sobre si próprio, como a aranha a tecer sua teia, será uma coisa sem fim, acarretando com isso teias de aranhas de conhecimento, admiráveis pela delicadeza do fio e do trabalho, mas sem valor ou utilidade”. Mais cedo ou mais tarde o molde rebentaria, emancipando o espírito da Europa.

Após mil anos de cultivo o solo frutificou novamente; os produtos multiplicaram-se de modo a compelir ao comércio; e o comercio, nas encruzilhadas de suas vias, edificou outra vez grandes cidades onde os homens, de colaboração, podiam incrementar a cultura e reconstruir a civilização. As cruzadas rasgaram estradas para o Oriente, donde jorraram torrentes de luxurias e heresias que condenaram a morte o ascetismo e o dogma. Vinha agora papel barato do Egito, substituindo o caro pergaminho que tornará o saber um privilegio do clero; a imprensa, que longo tempo aguardava matéria não dispendioso, estourou como um explosivo libertado, derramando por toda a parte seu influxo destruidor e iluminador. Ardidos marinheiros providos agora de bússola aventuraram-se nos mares remotos, acabando com a ignorância do homem sobre a terra; observadores pacientes armados de telescópios aventuravam-se para além dos confins dos dogmas e acabavam com a ignorância do homem sob o céu.

Aqui e ali, sem universidades e mosteiros e retiros recatados, os homens cessavam as disputas e começavam a investigar; por via indireta, depois de esforçar-se para transmutar metais inferiores em ouro, a alquimia se transformou em química; abandonando a astrologia, os homens abriram caminho, timidamente, para a astronomia; e das fabulas de animais falantes nasceu a ciência da zoologia.

Começou o despertar com:

Ø      Roger Bacon [falecido em 1294];
Ø      desenvolveu-se com o incomensurável Leonardo [1452-1519];
Ø      chegou a seu fastigio com a astronomia de Copérnico [1473-1543] e de Galileu [1564-1642];
Ø      com as pesquisas de Gilbert [1544-1603] sobre o magnetismo e eletricidade;
Ø      de Vesalius [1514-1564] sobre anatomia;
Ø      de Hervey [1578-1657] sobre a circulação do sangue.  
      
A proporção que o saber aumentava, o medo diminuía; os homens já pensavam menos em adorar o desconhecido e mais em triunfar sobre ele. Todas as energias vitais se reanimavam numa confiança nova; derribavam-se barreiras; não havia agora limites para os cometimentos humanos. “mas a felicidade de nossos tempos é que navios pequenos possam dar volta ao redor do globo como corpos celestes. Estes tempos podem com razão empregar o plus ultra” – mais além – “ nas coisas em que os antigos empregavam o non plus ultra” [*Bacon: O progresso da Ciência, I.,II, cap.10. Uma divisa medieval mostrava um navio voltando-se em Gibraltar para tornar ao Mediterrâneo, com a inscrição: Non plus ultra – não vai para mais longe]. Era uma época de realizações, esperanças e energia; de novas iniciativas e empreendimentos em todos os terrenos; época que aguardava uma voz, uma alma sintética que abrangesse seu espírito e aspirações. Foi Francis Bacon, “a mais poderosa mentalidade dos tempos modernos” [*E.J.Payhe, na Historia Moderna de Cambridghe,I,65], “quem fez soar o toque de reunir os espíritos” e proclamou que a Europa atingira a maturidade.


quarta-feira, 16 de março de 2011

Aristóteles_Considerações Finais

Que dizer desta filosofia? Talvez nada entusiástico. É difícil a gente entusiasmar-se com Aristóteles, porque a ele era difícil mostrar-se entusiasta sobre qualquer coisa; e si vis me flere, primum tibi flendum [*”Se quiseres que eu chore, chora primeiro”. Horácio, Ars, Poética, dirigindo-se aos autores e escritores]. Sua divisa foi nihil admirari – não admirar-se ou maravilhar-se de coisa alguma; e em seu caso evitamos violar essa divisa. Não vemos nele o zelo reformador de Platão, o colérico amor a humanidade que fez o grande idealista acusar seus contemporâneos; não encontramos nele a audaz originalidade de seu mestre, a imaginação alcandorada, a capacidade de criar generosas ilusões. Mesmo assim, depois de lermos Platão, nada nos é tão salutar como calma cética de Aristóteles.

Sumariemos nossa displicência. Aborrecemo-nos, de começo, com o seu insistir sobre a lógica. Ele entende ser o silogismo uma descrição do modo de raciocinar do homem, ao passo que essa operação lógica apenas descreve o modo de o homem racionar com o fim de persuadir a outro espírito; ele supõe que o pensamento começa com as premissas e lhes procura em seguida as conclusões, quando a verdade é que o pensamento começa com hipotéticas conclusões, procurando depois suas premissas justificadoras – e procura-se melhor com a observação de particularidades, em condições fiscalizadas e isoladas de experiência. Mas seriamos insensatos se esquecêssemos que o lapso de dois mil anos apenas modificou minúcias na lógica de Aristóteles; que Occam e bacon e Whewell e Mill e cem outros mais descobriram unicamente manchas em seu sol; e que a criação por Aristóteles dessa nova disciplina do pensamento, e a firme determinação de suas linhas essenciais, ainda perduram entre as duradouras realizações do espírito humano.

É a ausência da experimentação e de frutíferas hipóteses que converte a ciência natural de Aristóteles em um amontoado de observações indigestas. Sua especialidade foi coligir e classificar dados; em todos os terrenos aplica suas categorias e organiza catálogos. Mas paralelamente a esta tendência e ao seu talento de observador, há uma propensão platônica pra a metafísica; ela o salteia em todas as ciências e o impele as mais vertiginosas suposições. Este era, em verdade, o grande defeito do espírito grego: a falta de disciplina; não possuía tradições limitadoras e estalizadoras; movia-se livremente em um campo sem limites pretraçados e formulava muito facilmente teorias e conclusões. Por isso a filosofia grega já se remontava a alturas ainda inatingidas, enquanto a ciência grega tropegamente a seguia. Nosso perigo moderno é exatamente o contrário; os dados indutivos chovem sobre nós de todos os lados como lavas do Vesúvio. Asfixiamo-nos com os fatos incoordenados; nosso espírito aturde-se com o surgir e multiplicar-se das ciências especializadas sem que surja uma filosofia unificadora. Somos todos meros fragmentos daquilo que um homem poderia ser.

A ética de Aristóteles é uma ramificação de sua lógica; a vida ideal assemelha-se a um autentico silogismo. Ele dá-nos um manual das conveniências em vês de um estimulo para o aperfeiçoamento. Um critico antigo capitulou-o de “moderado em excesso”. Em extremista poderia chamar sua Ética a mais perfeita coleção de vulgaridades de todas as literaturas; e um anglofobo se consolaria com a ideia de que os ingleses em adolescência são punidos antecipadamente pelas culpas imperialistas da idade adulta, por serem forçados a ler, tanto em Cambridge como em Oxford, palavra por palavra, a Etica Nicomaqueana. Ser-nos-ia agradável misturar algumas verdes Leaves of Grass a estas paginas ressecas, acrescentando a ardente apologia de Whitman, do prazer dos sentidos, a apologia de Aristóteles, de uma felicidade puramente intelectual. Nós nos perguntamos se este ideal aristotélico da imoderada moderação terá alguma coisa que ver com a virtude incolor, a perfeição rígida e as boas maneiras inexpressivas da aristocracia britânica.

Conta-nos Mattew Arnold que em seu tempo os professores de Oxford consideravam a Ética infalível. Durante trezentos anos este livro e a Política formavam o espírito dos estadistas ingleses, talvez para grandes e nobres realizações, mas indubitavelmente para uma lenta e fria eficiência. Qual seria o resultado se os senhores do maior dos impérios se tivessem, ao invés, alimentado com o ardente entusiasmo e a paixão criadora da Republica?

Afinal de contas, Aristóteles não era completamente grego; já tinha posição definida e o espírito formado antes de mudar-se para Atenas; antes nada existira de ateniense em torno dele, nada do febril e estimulante experimentalismo que fizera Atenas palpitar de élan patriótico e por fim a fizera submeter-se a um déspota unificador. Ele obedeceu em demais a ordem delfica de evitar excessos; toma tanto cuidado em evitar os extremos que por fim nada resta. Tanto receia a anarquia que se esquece de temer a escravidão; e teme-se tanto da incerteza das mudanças, que prefere uma imutabilidade muito parecida com a morte. Falta-lhe aquele senso do fluxo, de Heráclito, que justifica o conservantismo, convencendo-nos de que toda a mudança permanente é gradual, e justifica o radicalismo convencido de não ser definitiva imutabilidade alguma.

Ele esquece-se de que o comunismo de Platão somente se referia ao escolastica, aos poucos não-egoistas ou gananciosos e chega por linhas travessas a mesma idéia Platônica, quando diz que embora a propriedade deva ser particular, seu uso deveria tornar-se o mais possível comum. Não vê [e talvez não fosse possível vê-lo naquele tempo]que o monopólio dos meios de produção só seria estimulante e salutar enquanto esses meios fossem tão simples que qualquer homem pudesse adquirir, e que a crescente complexidade e custo desses meios traria uma perigosa centralização da propriedade e do poder e, depois, uma desigualdade artificial e por fim desagregadora.

Mas afinal estas criticas de ponto secundários são nada no que nos resta da mais maravilhosa sistematização do saber jamais concatenada por um só espírito. Nunca outro qualquer pensador contribuiu tanto para dar mais luzes ao mundo. Todos os séculos posteriores se abeberaram em Aristóteles e treparam em seus ombros para divisarem a verdade. A variada e grandiosa cultura de Alexandria encontrou em suas obras a inspiração cientifica. Seu “Organon” desempenhou o papel principal na formação do espírito dos bárbaros medievais, dando-lhe disciplina e coerência ao pensamento. As outras obras, traduzidas pelos cristão nestorianos para o siriaco no quinto século da era cristã, e depois para o árabe e hebreu no século décimo, e em seguida para o latim, mais ou menos em 1225, desviaram a escolástica de seus eloqüentes primórdios em Abelard, para o feitio enciclopédico de Tomaz de Aquino. Os cruzados trouxeram copias mais perfeitas, em grego, dos textos do filosofo; e os estudantes gregos de Constantinopla trouxeram novos tesouros de Aristóteles quando, após 1453, fugiram dos turcos que sitiavam aquela cidade. As obras de Aristóteles chegaram a ser para a filosofia européia o que a Bíblia é para a teologia – um texto infalível, com soluções para todos os problemas. Em 1215 o representante do Papa em Paris proibiu aos professores que ensinassem em seus livros; em 1231 Gregorio IX nomeou uma comissão para expurgá-lo; em 1260 era de rigor adotá-lo em todas as escolas cristãs e as assembléias eclesiásticas impunham penas a quem se desviasse das opiniões de Aristoteles. Chaucer declara feliz o estudante por ter

“A cabeceira do leito
Vinte volumes de encadernação preta ou vermelha
De Aristóteles e sua filosofia;

E num dos primeiros círculos do Inferno diz Dante:

“Lá eu vi o Mestre dos sábios
No meio de sua família de filósofos.
Por todos admirado e venerado;
Lá vi também Platão e Sócrates
Mais perto dele que os demais.

Linhas como essa dão-nos idéia da honra que os séculos prestaram ao estagirita. O reinado de Aristóteles não findou senão quando os novos instrumentos científicos, as observações acumuladas e a paciente experimentação, transformaram a ciência, dando armas irresistíveis a Occam e Ramus, a Roger e a Francis Bacon. Nenhum outro espírito governou por tanto tempo a inteligência humana.

_Últimos tempos, e a morte de Aristóteles
Enquanto isso, a vida tornara-se terrivelmente complicada para o nosso filosofo. Por um lado, desaviera-se com Alexandre por protestar contra a execução de Calistenes [sobrinha de Aristóteles] que se recusara a adorar o déspota como a um deus; Alexandre respondera ao protesto dando-lhe a entender que, para sua onipotência, era também possível mandar matar os filósofos. Ao mesmo tempo, Aristóteles ocupava-se em defender Alexandre entre os atenienses. Ele preferia a unidade grega ao regime de cidades independentes e achava que a cultura e a ciência vicejavam melhor quando desapareciam as pequenas soberanias e discórdias; e via em Alexandre o que Goethe iria ver em Napoleão -  a filosófica unidade de um mundo caótico e intoleravelmente vario. Famintos de liberdade, os atenienses rosnavam contra Aristóteles e tornaram-se ainda mais irados quando Alexandre lhe mandou erigir uma estatua no coração daquela cidade hostil.

Nesse torvelinho temos de Aristóteles uma impressão polarmente contraria da que nos deixou em sua Ética: não de um homem frio e se sobre-humana calma, mas de um lutador, a prosseguir, rodeado de inimigos, em sua obra titânica. Os continuadores de Platão na Academia, a escola oratória de Isocrates e as enraivecidas turbas dominadas pela acre eloqüência de Demóstenes, urdiam intrigas e clamavam pelo exílio ou a morte.

E então, subitamente, Alexandre morreu [323 a.C]. Atenas delirou de jubilo patriótico; derribou o partido macedônio e proclamou a independencia. Antipater, sucessor de Alexandre e amigo intimo de Aristóteles, marchou contra a cidade revoltada. A maioria dos elementos do partido macedônio fugiu. Eurimedon, um sumo sacerdote, acusou Aristóteles de ter ensinado que nada valiam as preces e os sacrifícios -  e o filosofo se viu na iminência de ser julgado por assembléias e multidões incomparavelmente mais hostis do que as que condenaram Sócrates. Muito avisadamente abandonou a cidade, declarando que não daria aos atenienses ensejo para segundo atentando contra a filosofia. Não foi ato covarde; os que era acusados em Atenas podiam optar pelo exílio. [*Grote, 20]. Chegado a Calcis, Aristóteles caiu gravemente enfermo; Diógenes Laércio refere que o velho filosofo, grandemente desgostoso por se voltarem assim as coisas contra ele, suicidou-se bebendo cicuta. [*Zeller, I, 37, nota]. Fosse o que fosse, sua enfermidade se mostrou fatal; e poucos meses depois de partir de Atenas Aristóteles morreu isolado de todos. [322 a.C].

No mesmo ano, em com a mesma idade de sessenta e dois, Demóstenes, o maior inimigo de Alexandre, bebeu veneno. No espaço de doze meses a Grécia perdera o seu maior soberano, o seu maior orador e o seu maior filosofo. A gloria helênica já empalidecia com o despontar do sol romano, mas a grandeza de Roma era mais a pompa do poder do que a luz do pensamento. Aquela grandeza, depois, também decaiu e aquela luz quase se extinguiu. Durante mil anos as trevas envolveram a face da Europa. O mundo ficou a aguardar a ressurreição da filosofia.
-
GR.       

   

Aristoteles_A Política

1]Comunismo e Conservantismo
De uma ética assim aristocrática deriva naturalmente [ou era o contrário que devia derivar?] uma filosofia política rigorosamente  aristocrática. Não se poderia esperar que o preceptor de Alexandre e marido de uma princesa mostrasse exagerada afeição pelo comum do povo, ou mesmo pela burguesia comerciante; nossa filosofia depende do nosso tesouro. Além disso Aristóteles era sinceramente em virtude da confusão desastrosa proveniente da democracia de Atenas; como verdadeiro estudioso ele anseia pela ordem, segurança e paz; aqueles tempos em seu pensar, não eram próprios para extravagâncias políticas. O radicalismo é um luxo da estabilidade; só podemos atrever-nos a mudar as coisas quando as temos firmes nas mãos. E, em regra, diz Aristóteles, “o costume de mudar facilmente as leis é um mal; quando as vantagens da mudança forem poucas, melhor é que se tolerem filosoficamente alguns defeitos, quer nas leis, quer nos governantes. O cidadão ganhará menos com a mudança do que perderá adquirindo o habito da insubordinação [*Política, II,8].O poder da lei de impor a sua observância e, portanto, de manter a estabilidade política, repousa em grande parte no costume; e “passar facilmente do regime de leis velhas para o de novas é o meio de enfraquecer a intima essência de quaisquer leis” [*Id, V,8]. “Não desprezemos a experiência de um longo passado; não há duvida de que, no curso de tantos anos, estas coisas, se fossem boas, não teria ficado desconhecidas.[*Id.II,5]

Com “estas coisas’, naturalmente, Aristóteles significa sobretudo a republica comunista de Platão. Aristóteles combate o realismo de Platão sobre os universais e o idealismo de Platão sobre o governo. Acha muitos pontos obscuros no quadro pintado pelo Mestre. Não lhe agrada o contacto permanente da vida em barracas ao qual Platão condenou seus reis-filosofos; como conservador que é, Aristóteles preza mais as qualidades individuais, a vida intima e a liberdade, do que a eficiência e o poder sociais. Não se lhe dá de chamar a todos os contemporâneos irmãos e irmãs, nem aos mais velhos, pais em mães; se todos são irmãos, nenhum o será; e quanto é melhor ser primo verdadeiro de alguém, do que filho a moda de Platão! [*Id,II,3]. Num estado em que as mulheres e os filhos fossem comuns, “o amor não passaria de água chilra...Das duas coisas que principalmente inspiram interesse e afeição [que alguma coisa seja nossa e que algum ser desperte em nós verdadeiro amor] nenhum pode existir em um estado” como o de Platão. [*Id,II,4].

Talvez houvesse existido, num vago passado, alguma sociedade comunista, quando o único estado era a família, e o pastoreio ou a agricultura rudimentar os únicos modos de vida. Mas “em um estado mais dividido da sociedade”, no qual a divisão do trabalho em funções de desigual importância estimula e aumenta a natural desigualdade dos homens, o comunismo malogra-se porque não proporciona incentivo conveniente para o exercício das habilidades superiores. O estimulo do lucro é necessário ao trabalho árduo; e o estimulo da propriedade é necessário para o fomento da industria, da agricultura e para o cuidado com as coisas. Quando cada um é dono de tudo, ninguém tem cuidado com coisa alguma. “Aquilo  que é comum ao maior numero atrai menos as atenções. Todos pensam muito no interesse próprio e pouco no interesse publico” [*Política,II,3].E, “é sempre difícil viver em comum, ter coisas em comum, e mais difícil ainda manter propriedade em comum. Bom exemplo sobre este ponto são as pessoas que viajam juntas [para nada se dizer sobre a difícil comunhão do casamento, pois geralmente se desavêm no caminho e questionam por ninharias que transtornam tudo”. [*Política,II,5].

“Os homens ouvem com prazer coisas sobre Utopias e são facilmente induzidos a crer que existe algum modo miraculoso de todos se tornarem mutuamente amigos, sobretudo após a enumeração dos males existentes...que dizem ser causados pela propriedade particular. Estes males, porém, derivam de outra fonte – a perversidade da natureza humana”. [*Id.Note-se que os conservadores são pessimistas e os radicais otimistas sobre a natureza humana que não é provavelmente tão boa nem tão má como lhes apraz crer e pode não ser tanto natureza e sim efeito da primeira educação e do meio].”A ciência política não faz homens e sim toma-os como a natureza os fez”.[*Id., I,10].

E a natureza do homem normal fica mais próxima dos animais do que de Deus. Em sua grande maioria os homens são estúpidos e mandriões; em qualquer organização política essas criaturas ficarão sempre em baixo; e auxilia-las com subsídios públicos é querer “encher d’água barris furados”. Essas criaturas devem ser governadas na política e dirigidas na industria – com seu consentimento, se possível; sem ele, se necessário. “Desde o instante em que nascem, uns são destinados a sujeição e outros ao mando” [*Id., I, 5]. “Pois quem tem o espírito previdente é pela natureza destinado a ser amo e senhor, e quem pode apenas trabalhar com o corpo é por sua natureza um escravo”. [*Id, I, 5.Talvez seja excessivamente brutal traduzir-se outros como ‘escravo’; esta palavra era simplesmente um franco reconhecimento de um fato brutal que em nossos dias é enfeitado com frases sobre a dignidade do trabalho e a fraternidade humana. Nós facilmente sobrepujamos os antigos no fazer frases.

O escravo está para o amo como o corpo está para o espírito; e assim como o corpo deve submeter-se ao espírito, melhor é para os homens inferiores que fiquem sob o domínio de um senhor. [*Política,I,5]. “O escravo é um utensílio dotado de vida e um utensílio é um escravo sem vida”. E em seguida nosso cruel filosofo, com um vislumbre das possibilidades postas em nossas mãos pela Revolução Industrial, escreve, pensativo e esperançoso por um instante: “Se cada instrumento fizesse o seu trabalho, obedecendo ou prevendo a vontade de outrem...se a lançadeira tecesse ou o plectro ferisse a lira sem que a mão os guiasse os chefes não precisariam de auxiliares, nem os escravos de senhores”.[*Id., I, 4].

Esta filosofia é um exemplo típico do desdém helênico pelo trabalho manual. O trabalho em Atenas não se tornara tão complexo como hoje, tempo em que a inteligência necessitada para muitas artes manuais é as vezes muito maior do que a requerida para os atos da classe media inferior; e ainda um professor universitário pode encarar certos maquinismos automáticos como verdadeiros deuses; o trabalho manual era então meramente manual e Aristoteles olhava-o de cima para baixo, das altitudes da filosofia, como próprio a homens sem espírito, unicamente adequado para servos e adequando os homens para a escravidão.

O trabalho manual, a seu ver, embota e prejudica o espírito, não deixando lazer nem energia para reflexões políticas; como razoável corolário, figura-se a Aristóteles que só as pessoas que dispõem de lazeres deveriam influir nos atos governamentais [*Política, III,3,VIII,8].”A melhor forma de governo não admite maquinas como cidadãos...Em Tebas era lei que nenhum homem poderia exercer funções publicas se já não se tivesse retirado, há dez anos, da atividade comercial” [*Id., III,5]. Até os mercadores e os capitalistas são arrolados por Aristóteles entre os escravos. “O Comércio é anti-natural...é um modo pelo qual uns homens auferem lucros de outros homens. A mais detestada espécie de negócios é...a usura, que faz o dinheiro dar lucro por si mesmo e não por sua função natural. Pois o dinheiro foi destinado a servir para comprar e vender e não a produzir juros. Esta usura [tokos], que significa o dinheiro a gerar dinheiro...é de todos os modos de obter ganhos o mais antinatural” [*Id.,I,10. Esta opinião influiu na proibição dos juros, na Idade Média]. O dinheiro não deve reproduzir-se só por si. Em conseqüência, discutir teoricamente finanças não é indigno da filosofia; mas dar-se a atividade financeira ou ao ganho do dinheiro é indigno de um homem livre” [*Política,I,II. Aristóteles acrescenta que os filósofos teriam bom êxito nesse terreno, se quisessem descer ao mesmo; e orgulhosamente citou Tales que, prevendo boas colheitas, comprou-as antecipadamente de todos os seareiros de sua cidade e, depois, no tempo de colher, revendeu pelo preço que quis o que comprara; a este ponto Aristóteles observa que o segredo universal das grandes fortunas é a consecução de um monopólio].   

2]Casamento e Educação
“A mulher é para o homem o que o servo é para o amo, o trabalhador manual para o trabalhador mental, o bárbaro para o grego. A mulher é um homem inacabado, que se quedou imóvel em um grau inferior da escala do desenvolvimento. [*De Gen.Animatium,II,3;Hist. Animatium, VIII, 1; Política, I,5.Confronte-se com Weninger; e com a frase de Meredith:”A mulher será a ultima coisa que o homem civilizará (A Provação de Ricardo Feverel,pág.1).Parece contudo que é o homem que foi (ou será) a ultima coisa civilizada pela mulher; pois a família e uma vida econômica consolidada são os grandes fatores da civilização; e ambas essas coisas são obra da mulher].O macho em um grau inferior da escala do desenvolvimento [*Política,I,13]O macho é por sua natureza superior e, a fêmea, inferior; um manda e a outra é mandada; e este principio se estende necessariamente a todo o gênero humano”. A mulher tem a vontade fraca; e é por isso incapaz de independência de caráter ou atitude; sua melhor condição é a calma vida do lar; e ao passo que o homem a manda no que se refere as relações externas, ela pode, em questões domesticas, assumir também a direção. Não se deve procurar igualar as mulheres aos homens, como na republica de Platão; ao contrário, deverá acentuar-se a divergência, pois nada atrai mais do que o que é diferente. “A coragem de um homem e a de uma mulher não são a mesma coisa, como Sócrates supunha; a coragem do homem mostra-se no mandar, e da mulher, no obedecer...Conforme diz o poeta, o silêncio é a glória da mulher”.

Aristóteles parece suspeitar que esta subordinação ideal da mulher ao homem é rara, e que com freqüência o certo está mais com a língua do que com o braço. Como para dar ao homem uma indispensável superioridade, aconselha-o a protelar o casamento até aproximar-se a idade dos trinta e sete anos, consorciando-se então com uma jovem de vinte. Uma jovem aproximadamente desta idade é em geral equiparável a um homem de trina anos, mas pode talvez ser governada por um guerreiro maduro de trinta e sete. O que atrai Aristóteles nesta matemática matrimonial é a consideração de que essas duas pessoas de idades desiguais perderão as paixões e a capacidade reprodutora proximamente ao mesmo tempo.

“Se o homem ainda estiver apto a procriar quando a mulher já fez ponto, ou vice-versa, surgirão questões e discórdias. Uma vez que o limite do tempo da procriação para o homem são os setenta anos e, para a mulher, os cinqüenta, o começo da vida em comum deve conformar-se com essa diferença. A união do macho e da fêmea muito novos é má para a criação de filhos; em todos os animais os descendentes de casais jovens são pequenos e mal desenvolvidos -  e geralmente fêmeas”.

A saúde é mais importante que o amor. Além disso, “habitua a temperança o não se casa mui cedo, pois as mulheres que se casam cedo propendem aos desregramentos;e aos homens também prejudica o desenvolvimento do corpo o casarem-se na época do crescimento” [*Política,VII,16. Transparece daqui que Aristóteles apenas se lembrou da temperança das mulheres; não parece tê-lo preocupado o efeito moral, do casamento protelado, sobre os homens].Não se deve deixar este ponto a mercê do capricho juvenil; cumpre ser devidamente regulado: o estado determinaria o mínimo e o máximo de idade para cada sexo, as melhores estações para a concepção  e o coeficiente do acréscimo de população. Se o coeficiente natural do acréscimo for muito alto, a pratica cruel do infanticídio pode ser substituída pela do aborto; e o ‘aborto seria provocado antes que começasse o sentir e a vida’. [*Id., VII,16].
Há um numero ideal de habitantes para cada estado, variável segundo as condições e recursos. “Se os habitantes são muito poucos, o estado não pode, como o cumpriria, bastar as suas necessidades; sendo excessivos...tem-se um povo em vez de um estado, e quase incapaz de reger-se por um governo constitucional”, ou de assumir a unidade étnica e política. [*Id.,VIII,4]. Em matéria de população, é indesejável tudo o que exceder de 10.000 almas.

A educação também deve ficar nas mãos do estado. “O que mais contribui para a permanência das constituições é a adaptação da educação a forma de governo...O cidadão deve ser amoldado a forma de governo sob a qual vive”. [*Id.,V,(;Viii,1]. Com a fiscalização das escolas pelo estado poderíamos canalizar para a agricultura homens da industria e do comercio; e, mesmo conservando a propriedade privada, conseguiríamos educar os homens de forma que franqueassem suas propriedades para determinado uso comum. “Entre os homens bons que respeitam o uso da propriedade, persistirá o adágio de que “os amigos devem ter tudo em comum” [*Política,VI, 4;II,5].Mas, deverão, sobretudo os homens, no período do desenvolvimento, aprender a obediência as leis, pois do contrário seria impossível o estado.”Foi muito sabiamente dito que quem não aprendeu a obedecer não sabe mandar. O bom cidadão teria aptidão para as duas coisas”. E unicamente uma organização de ensino publico pode realizar a unidade social em meio a heterogeneidade étnica; o estado é uma pluralidade que deve ser transformada em unidade e comunidade por meio da educação.[*Id., III,4;II,5].

É necessário também ensinar aos jovens a grande vantagem que é o estado, a inapreciável segurança proveniente da organização social e da liberdade que promana da lei. “O homem, quando aperfeiçoado, é o melhor dos animais; mas, isolado, é o pior de todos; pois a injustiça é mais perigosa quando armada, e o homem equipa-se aos nascer com a arma da inteligência e com qualidades de caráter que pode usar para os fins mais reprováveis. Por conseguinte, se ele não tiver virtude, será o mais daninho e feroz dos animais.

E só o freio social pode dar-lhe virtude.

Com a palavra o homem desenvolveu a sociabilidade; pela sociabilidade, a inteligência; pela inteligência, a ordem; e com a ordem a civilização. Em um estado com ordem o individuo vê franqueados para si mil oportunidades e meios de desenvolvimento que a vida solitária jamais lhe proporcionaria: “Para viver só deve ser um animal ou um deus” [*”ou”, acrescenta Nietzsche, suja política é haurida quase toda em Aristóteles, “deve-se ser as duas coisas, isto é, um filosofo”].

Por isso as revoluções são quase sempre condenáveis; podem produzir algum bem, mas a custa de muitos males, dos quais o principal é a perturbação e, quiçá, a dissolução daquela ordem e estrutura sociais de que depende o bom governo. As conseqüências diretas das inovações revolucionárias podem ser calculáveis e salutares, mas as indiretas são geralmente incalculáveis e não raro desastrosas. “Os que levam em conta unicamente poucos pontos, acham fácil formular um juízo”, e um homem pode de pronto tomar uma resolução se, para fazê-lo, tomar em conta poucas circunstancias. “Os moços são enganados facilmente, pois são fáceis de conceber esperanças”.

A supressão de hábitos estabelecidos de longa data acarreta a queda dos governos inovadores, porque os velhos hábitos persistem no povo; os caracteres não se mudam de pronto, com as leis. Para uma constituição tornar-se permanente, todos os elementos da sociedade devem desejar-lhe a manutenção. Por isso um governante que quisesse evitar revolução, deveria evitar o extremo de pobreza e riqueza – “condição que o mais das vezes é o resultado das guerras”; fomentaria [como os ingleses] a colonização como válvula de escape para a população perigosamente densa, e incentivaria a religião. Um dirigente autocrata “deve mostrar-se fervoroso na adoração dos deuses, pois, se os homens sabem que o governante é religioso e presta culto as divindades, tornam-se menos receosos de sofrer de sua parte injustiças e mostram-se menos dispostos a conspirar, acreditando que os deuses se mostrarão, na luta, partidários do governante devoto”. [*Política, IV, 5; II,9;V,7;II,11].

3]Democracia e Aristocracia
Com essas salvaguardas da religião, da educação e da organização da vida familiar, quase todas as formas tradicionais de governo equivalem-se. Todas contem em si coisas boas e más. Teoricamente a melhor forma de governo seria a centralização de todo o poder político no homem melhor. Homero tem razão: “É má a soberania de muitos, basta que um seja o soberano e o senhor”. Para tais homens a lei seria mais um instrumento do que uma limitação: “para homem de notável aptidão não há lei – são eles próprios a lei. Seria ridículo tentar impor-lhes leis, porquanto replicariam como os leões na fabula de Antístenes, quando as lebres começaram a discursar reclamando igualdade para todos: “onde estão vossas garras?” [*Id., III, 13. Aristóteles tinha provavelmente no espírito Alexandre ou Filipe quando escreveu esta passagem, exatamente como Nietzsche parece ter sido influenciado pelas brilhantes carreiras de Bismarck e de Napoleão para chegar a conclusões análogas].

Mas na pratica a monarquia é geralmente a pior forma de governo, pois grande poderio e grandes virtudes dificilmente se aliam. Por isso o melhor governo praticável é o aristocrático, o domínio dos mais esclarecidos e capazes. Governar é coisa muito complicada para ter suas dificuldades resolvidas pelo maior numero; em coisas de menor monta quem resolve é o saber e a competência. “Assim como o medico deve ser julgado pelo medico, também os homens devem ser julgados por seus pares...E por que este mesmo principio não se aplicar as eleições? Uma eleição perfeita só pode ser realizada pelos competentes: um geômetra, por exemplo, decidirá bem as coisas referentes a geometria; ou um piloto as de navegação [*Política, III, 11. Confronte-se com a argumentação moderna para as ‘representações de classe’]...Por isso, a eleição de magistrados, nem a tomada de contas dos mesmos, não pode ser atribuição das maiorias”.  

A dificuldade de uma aristocracia hereditária é não ter base econômica permanente; o eterno aparecimento dos ‘nowveaus riches’ faz que os cargos públicos mais cedo ou mais tarde sejam postos em leilão. “É certamente grande mal...comparem-se os mais altos cargos. As leis que permitem este abuso dão supremacia as riquezas em detrimento da competência – e no estado lavrará a ganância. Pois quando os primeiros da nação consideram honrosa alguma coisa, os demais cidadãos seguem-lhes o exemplo” [pelo instinto da imitação’ da psicologia social moderna]; “e onde a competência não ocupa o primeiro plano, não existe verdadeira aristocracia”. [*Id.,II, 11].

A democracia é ordinariamente o resultado de uma revolução contra a plutocracia. “O amor ao ganho das classes dirigentes tende a reduzir-lhe o numero dos seus componentes [a “eliminação da classe media”, de Marx]e, portanto, a reforçar as massas populares, que por fim se precipitam contra seus senhores e estabelecem democracias”. Este “governo do pobre” tem algumas vantagens. “os do povo, embora individualmente possam ser piores juizes do que os dotados de conhecimentos especiais, são coletivamente tão bons quanto eles. Ademais, existem artistas cujas obras são melhor julgadas – não por eles somente, mas pelos que não exercitam a arte; exemplo: o morador ou dono de uma casa será melhor juiz sobre a mesma, do que seu construtor;...e o convidado opinará melhor que o cozinheiro sobre o banquete” [*Id., III, 15,8,11]. E “essa maioria é menos corruptível do que a minoria; assemelha-se a uma grande quantidade de água, que se corrompe menos facilmente do que pouca. Um individuo é sujeito a deixar-se dominar pela cólera ou por outra paixão, e então seu juízo necessariamente se turvará; é difícil, porém, conceber que grande numero de pessoas sejam arrastadas ao mesmo tempo por alguma paixão e cometam desatinos”. [*Id., III, 15. Tarde, Lê Bon e outros psicólogos sociais sustentam precisamente o contrário; e embora eles exagerem os defeitos das multidões, poderiam encontrar melhor confirmação, do que em Aristóteles, na Assembléia Ateniense [430-333 a.C].

A democracia, apesar disso, é em tudo inferior a aristocracia. [*Política,II,9]. Pois se baseia numa falsa presunção de igualdade; esta “se origina da noção de que, se todos forem iguais sob certos pontos de vista ... também o serão em todos os outros; pelo fato de serem os homens igualmente livres perante a lei, eles reivindicam absoluta igualdade em tudo”. A conseqüência é que o critério da aptidão será sacrificado ao critério do maior numero; e esse maior numero é levado por embustes. Como o povo é tão facilmente iludido e tão versátil em opiniões, o sufrágio só deveria competir aos inteligentes. O de que precisamos é uma combinação de aristocracia com democracia.

O governo constitucional oferece esta feliz associação. Não é o melhor dos governos concebíveis – a aristocracia da educação seria esse governo – mas é a melhor organização possível para um estado. “Devemos perguntar-nos qual a melhor constituição para a maioria dos estados e a melhor vida para a maioria dos homens; não se deverá pretender um nível de excelência superior ao do comum das pessoas, nem uma educação excepcionalmente favorecida pela natureza ou pelas circunstancias, nem ainda um estado ideal que não passaria de aspiração; mas tenhamos em mente uma existência de que a maioria das pessoas possam participar e uma forma de governo que os estados possam geralmente conseguir”. “Cumpre começar admitindo-se o principio de que os elementos nacionais que desejam a continuação do governo sejam  mais fortes que os que não a querem” [*Política, IV, 11, 10]., e de que a força não consiste unicamente no numero de pessoas, nem somente na maioria de bens, nem apenas na aptidão política ou militar, e sim na combinação dessas coisas, de modo a atender-se a liberdade, a riqueza, a cultura e nobreza de nascimento, ao mesmo tempo que a superioridade numérica”.

Ora, onde encontraremos tal maioria econômica para amparar nosso governo constitucional? Talvez na classe media: teremos aqui de novo a áurea mediania; o governo constitucional é um meio termo entre a democracia e a aristocracia. Nosso estado será suficientemente democrático se todas as funções publicas forem franqueadas a todos, e suficientemente aristocrático se o acesso for vedado aos que não fizerem todo o percurso e não chegarem plenamente preparados para exercê-las. Sob qualquer ângulo que encaremos nosso eterno problema político, chegaremos repisadamente a mesma conclusão, de que a comunidade determinará os fins a serem demandados, mas só os componentes poderão escolher e aplicar os meios; de que  se devem escolher os dirigentes com um critério democraticamente amplo, reservando-se, porém, rigorosamente os cargos aos mais aptos.