quarta-feira, 9 de março de 2011

Aristóteles_A Ética e a Natureza da Felicidade

E, no entanto, a proporção que Aristóteles evoluía, rodeado de turbas de moços ávidos de ensino, mais e mais seu espírito se derivava das minúcias da ciência para os problemas mais amplos e vagos da conduta e do caráter. Ocorreu-lhe com clareza que acima de todas as questões do mundo físico estavam as questões supremas: Qual a melhor vida? Qual o supremo bem da vida? Que é virtude? Como poderemos atingir a felicidade e a realização de nosso destino?

Aristóteles é realisticamente simples em sua ética. Sua educação cientifica preservava-o de pregar ideais superhumanos, ou vazios conselhos de perfeição. “Em Aristóteles – diz Santayana – o conceito da natureza humana é perfeitamente equilibrado; todo ideal tem base natural e todo natural tem desenvolvimento ideal” Aristóteles começa reconhecendo francamente que o objetivo da vida não é o bem por si mesmo e, sim, a felicidade. “Pois nós escolhemos a felicidade por si mesma e nunca tendo em vista algo além dela; amamos a honra; o prazer, a inteligência...por os supormos meios de atingir a felicidade. [*]Ética, I,7. Mas ele compreende ser mero truísmo dizer que a felicidade é o bem supremo; que é preciso um conhecimento mais claro da natureza da felicidade e do meio de alcançá-la. Espera encontrar este meio perguntando em que difere o homem dos outros seres e presumindo jazer a felicidade do homem na plena manifestação dessa qualidade exclusivamente humana.

Ora, a excelência peculiar ao homem é sua faculdade de pensar; por ela ele excede e domina todas as outras formas de vida; e como o desenvolvimento desta faculdade lhe deu a supremacia, podemos presumir que o desenvolvimento dessa qualidade lhe proporcionará a realização de seu destino para o alcance da felicidade.

A condição capital da felicidade, em vista disto, abstraindo-se de certos requisitos físicos, é a vida da razão – gloria particular do homem e seu poder. A virtude, ou antes, a excelência [*A palavra excelência é provavelmente a tradução mais adequada da grega Arete, geralmente mal traduzida por virtude. O leito evitará compreender  mal Platão e Aristóteles se quando os tradutores escrevem virtude subentender excelência, aptidão ou capacidade. O grego Arete é a virtus romana; ambas implicam uma espécie masculina de excelência[Área, deusa de guerra. Vir, macho]. A antiguidade classica concebe virtude como qualidade masculina, exatamente como o cristianismo medieval a concebe como atributo feminino.], depende do juízo lúcido, autodomínio, desejos em proporção com as possibilidades e meios; não é acessivel ao homem simples nem dom conferido a inocência; e sim uma realização da experiência no homem plenamente desenvolvido. Mesmo assim há um caminho para ela, um roteiro para a excelência, que atalha muitos desvios e tardanças: o caminho mediano, a áurea mediocridade.

As qualidades de caráter podem ser dispostas em tríades, em cada uma das quais a primeira e a ultima qualidade serão extremos e defeitos, e a do meio uma virtude ou excelência. Assim, entre a covardia e a temeridade está a coragem; entre a sovinice e a dissipação, a liberdade; entre a indiferença e a ganância, a ambição; entre a humildade e o orgulho, a modéstia; entre a excessiva reserva e a loquacidade, a discrição; entre a taciturnidade e a bufonaria, o bom humor; entre a hostilidade e a bajulação, a amizade; entre a indecisão de Hamleto e a impulsividade de D.Quixote, o domínio de si mesmo [*Ética,I,7].O “certo” na ética ou no proceder, pois, não difere do “certo” nas matemáticas ou na engenharia; significa – correto, adequado, o que melhor atua para a consecução do melhor resultado.

A áurea media, todavia, não é, como a media matemática, a media precisa de dois extremos calculáveis com exatidão; e vacila de acordo com as circunstancia conexas, patenteando-se unicamente a razão madura e ponderada. A excelência é uma arte adquirida com o exercício e o habito; nós não procedemos retamente por termos virtude, ou excelência, e sim temos virtude ou excelência por procedermos retamente; “estas virtudes formam-se no homem com a pratica de seus atos” [*Ética,II,4]; somos aquilo que fazemos repetidas vezes. A excelência não é, então, um ato e sim um habito: “o bom para o homem é fazer a alma esforçar-se no caminho da excelência toda a sua vida:... pois assim como uma andorinha ou um belo dia não fazem a primavera, também não é um dia ou curto lapso de tempo que faz um homem venturoso” [*Idem, I,7].

A juventude é a idade dos extremos: “se um jovem comete uma falta é sempre por excesso ou exagero”. A grande dificuldade dos jovens [e de muitas pessoas de mais idade] é escapar de um extremo sem cair no oposto. Pois de um extremo passa-se facilmente a outro, quer por ‘excesso de correção’, quer por outra causa; a deslealdade resvala para os excessivos protestos de dedicação e a humildade paira sobre o abismo da presução.[*”A vaidade de antístenes, o Cinico”, diz Platão, “espia por todos os buracos de seu manto”.] Os que se acham conscientemente em um dos extremos dão o nome de virtude, não ao meio, mas ao extremo oposto. Algumas vezes é isto um bem; pois se temos consciência de estar errado em um dos extremos, “aspiramos chegar ao outro e atingiremos assim a posição intermediária...,a exemplo do que os homens fazem para endireitar madeira torta” [*Ética,II,9] Mas os que estão nos extremos sem disso ter consciência, encaram a áurea media como o defeito maior; eles “empurram para o extremo oposto o homem da posição media; o bravo é chamado temerário pelo covarde, e chamado de covarde pelo temerário” [*Idem,II,8]; assim, na política moderna o “liberal” é tido como “conservador” pelos radicais, e como “radical” pelos “conservadores”.

É obvio ser esta doutrina da media formulação de uma atitude característica que aparece em quase todos os sistemas filosóficos da Grécia; Platão tivera-a em mente ao chamar a virtude – ação harmoniosa; e Socrates, ao identificá-la com o saber. Os Sete Sábios haviam firmado essa tradição gravando no templo de Apolo em Delfos a divisa meden agan – nada em excesso. Talvez, como afirma Nietzsche [*A Origem da Tragédia], com isso os gregos se esforçassem para refrear sua própria violência e impulsividade; mais verdadeiro, porém, será que esse preceito refletia o sentir grego de que as paixões não são defeitos por si mesmas e sim a matéria prima tanto dos defeitos como das virtudes, conforme atuem com excesso e desproporção ou com justa medida e harmonia [*Confronte-se com um enunciado sociológico da mesma idéia:”Os valores nunca são absolutos e, sim, unicamente relativos...Uma certa qualidade da natureza humana está condenada a ser menos abundante do que o deveria ser; por isso damos-lhe valor e...a incentivamos e cultivamos...O resultado desta valorização é lhe chamarmos virtude; mas se a mesma qualidade superabundasse, nós lhe chamaríamos vicio e tentaríamos combatê-la”. – Carver, Ensaios de Justiça Social.]

Mas o áureo meio termo – diz Aristóteles – não encerra todo o segredo da felicidade. Devemos ter, também, em boa proporção, bens mundanos: a pobreza torna o homem avarento e rapace, ao passo que a posse de bens lhe confere aquela emancipação de cuidados e cupidez que é fonte de despreocupação e encanto aristocrático. O mais nobre dos auxiliares externos da felicidade é a amizade. Ela é em verdade mais necessária aos felizes do que aos infelizes, pois a felicidade se multiplica sendo compartida por outros. É de maior monta que a justiça, pois “quando os homens são amigos, torna-se desnecessária a justiça; mas se são justos, a amizade é ainda uma benção”.

“Um amigo é uma alma em dois corpos”. Mesmo assim, amizade subentende antes poucos amigos do que muitos, “quem tem muitos amigos não tem nenhum”; e “ser amigo perfeito de muita gente é impossivel”. A amizade lidima requer mais duração do que efêmera intensidade; e isto exige estabilidade de caráter; é ao caráter inconstante que devemos o inconsciente caleidoscópio da amizade. E amizade requer igualdade, pois a gratidão lhe proporciona, na melhor das hipóteses, uma base resvalida. “Considera-se comumente que os benfeitores tem mais amigos devido a sua bondade do que por si próprios. A explicação deste ponto que satisfaz a maioria é que uns se tornam devedores e outros credores...e que os devedores desejam ver  os credores fora de seu caminho, ao passo que os credores se sentem ansiosos para que lhes preservem seus devedores”. Aristóteles repete esta interpretação, preferindo crer que a afeição maior do benfeitor pode ser aplicada, por analogia, como afeição do artista por sua obra, ou da mãe pelo filho. Amamos aquilo que fizemos.[*Ética,VIII e IX.] 

Apesar de serem os bens materiais e as relações necessários à felicidade, a essência desta reside em nós, no profundo saber e na claridade da alma. Indubitavelmente o prazer dos sentidos não é o meio de a atingirmos; esse meio é um circulo vicioso, e, como Sócrates disse do ideal mais grosseiro de Epicuro, coçamos porque comicha e comicha porque coçamos. Nem pode levar a felicidade a carreira política, por ficarmos sujeitos aos caprichos do povo – e nada há de tão volúvel como as multidões.

Não; a felicidade deve ser o prazer do espírito; e nela só podemos confiar quando se origina da procura ou da descoberta da verdade. “A ação da inteligência...não aspira a outro fim além de si mesma e encontra em si o prazer que a incita a outros atos intelectuais; e desde que os atributos da autossuficiencia, da infatigabilidade e da aptidão para o repouso...pertencem claramente a esta função, nela deve encontrar-se a verdadeira felicidade” [*Ética, X, 7]

Todavia, o homem ideal de Aristóteles não é meramente metafísico.

Ele não se expõe desnecessariamente ao perigo, uma vez que há poucas coisas que ame suficientemente para isso mas nas grandes emergências se dará de bom grado a vida, sabendo que em certas condições a vida não é digna de ser vivida. Sempre disposto a ser prestadio aos homens, envergonha-se de que lhe prestem serviços. Fazer benefícios é prova de superioridade; recebê-los é indicio de subordinação...Ele não toma parte em manifestações publicas...É franco em suas aversões e preferências; fala e age abertamente, devido ao seu desdém pelos homens e pelas coisas...Nunca se abrasa de admiração, uma vez que nada é grande aos seus olhos. Não se mostra complacente com os outros, exceto se forem amigos; a complacência é característico do escravo...Nunca é malévolo; sempre esquece as ofensas ou não lhe dá tento... Não é muito amigo de falar...Não lhe importa que o louvem, nem que o censurem. Não fala mal de outrem, nem mesmo de seus inimigos a não ser que seja diante deles. Sua atitude é calma, sua voz grave – e pesará bem as palavras; não gosta de apressar-se pois somente poucas coisas o interessam; não se sente inclinado a veemência, pois pensa que tudo são coisas de pouca monta. Só as aflições dão ao homem voz aguda e passos precipitados...Ele suporta os azares da vida com dignidade e elegância, tirando das circunstancias o beneficio possível, como um hábil general que comanda poucos homens com grande estratégia bélica...É ele mesmo o seu melhor amigo e encontra prazer no recolhimento, ao passo que o homem sem virtude ou sem aptidões torna-se o pior inimigo de si próprio e teme a solidão. [*Id., IV,3].
Tal é o superhomem de Aristóteles.



terça-feira, 8 de março de 2011

Aristóteles_A Psicologia e a Natureza da Arte

A psicologia de Aristóteles se ressente de análoga obscuridade e indecisão. Há nela muitas passagens interessantes; acentua o poder do habito, que é pela primeira vez chamado “segunda natureza”; e as leis da associação, se bem não desenvolvidas, encontram aqui uma formulação definida. Mas as duas questões viscerais da psicologia filosófica – a liberdade da vontade e a imortalidade da alma – são deixadas no vago e na duvida. Aristóteles fala as vezes como um determinista: ”Nós não podemos diretamente querer ser diferentes do que somos”; mas a seguir argumenta, contra o determinismo, que podemos escolher o que havemos de ser, escolhendo o meio que nos modelará; somos livres, por isso, no sentido de que podemos modelar nossos próprios caracteres com a escolha de amigos, ocupações e divertimentos [*]Ética,III, 7. Ele não antecipa a replica imediata do determinista, de que essas escolhas formadoras do caráter são por sua vez determinadas por nosso caráter anterior a este, afinal, pela hereditariedade e primeiro ambiente, não escolhidos por nós. Ele frisa o ponto de que nosso uso constante do louvor e da censura pressupõe responsabilidade moral e vontade livre; não lhe ocorre que o determinista pode, dessas mesmas premissas, tirar a conclusão oposta de que se fazem louvores e censuras para que estes se incluam entre os fatores determinantes dos atos subseqüentes.

A teoria da alma, de Aristóteles, começa com uma definição interessante. A alma é todo o principio vital de qualquer organismo, a soma de seus poderes e processos. Nas plantas a alma é simplesmente um poder nutritivo e reprodutor; nos animais é, além disso, poder sensitivo e locomotor; no homem é, ainda, o poder da razão e o pensamento [*]De anima,II. Sendo a alma o total dos poderes do corpo, não pode existir sem este; os dois são a forma e a cera, apenas mentalmente separáveis mas, na realidade, um todo orgânico; a alma não é posta no corpo como o azougue colocado por Dédalo dentro das imagens de Vênus para fazê-las ficar de pé. Uma alma pessoal e particular só pode existir em seu próprio corpo. Entretanto, a alma não é material, como Demócrito o entenderia; nem toda ela morrerá.

Parte da faculdade racional da alma humana é passiva: está ligada a memória e perece com o corpo que produziu a memória; mas a “razão ativa”, a pura faculdade de pensar, é independente da memória e a decadência não a atinge. A razão ativa é o universal a diferenciar-se do elemento individual do homem; o que sobrevive não é a personalidade, com suas afeições e desejos transitórios, mas o espírito, em sua mais abstrata e impessoal formula [*]De anima,II,4;III,5. Em suma, Aristóteles destrói a alma para dar-lhe a imortalidade; a alma imortal é “puro pensamento”, não poluído pela realidade, exatamente como o Deus de Aristóteles é atividade pura, não marcada pela ação. Quem puder que se conforte com esta teologia. A gente pergunta-se, as vezes, se esta metafísica de comer o bolo e ao mesmo tempo guardá-lo não foi o modo sutil de Aristóteles garantir-se contra a cicuta anti-macedonica.

No terreno mais sólido da psicologia escreve ele com mais originalidade e precisão, e quase cria o estudo da estética, a teoria da beleza e da arte. A criação artística, diz Aristóteles, surge do impulso formativo e do anseio da expressão das emoções. A forma da arte é em sua essência uma imitação da realidade; ela coloca um espelho em face da natureza. [*]Poética, I, 1447. Existe no homem o prazer da imitação, que parece faltar nos animais inferiores. Todavia, o intuito da arte não é representar a exterioridade das coisas e sim sua intima significação; pois esta, e não os externos modismos e particularidades, é a realidade das coisas. Pode encontrar-se mais verdade humana na austera moderação clássica de Édipo Rei do que em todas as lagrimas realistas das Mulheres Troianas.

A mais nobre das artes tanto fala a inteligência como aos sentimentos [bem como uma sinfonia não os agrada apenas pelas harmonias e seqüências, mas também pela estrutura do conjunto e desenvolvimento]; e este prazer intelectual é o mais elevado dos prazeres a que um homem possa exaltar-se. Por isso uma obra de arte deve aspirar a forma e, acima de tudo, a unidade, que é a espinha dorsal da estrutura e o foco para o qual converge a forma. Um drama, por exemplo, precisa ter unidade de ação, sem planos secundários que desorientem nem episódios que sejam digressões [*]Aristóteles dedica unicamente uma sentença a unidade do tempo: e não menciona a unidade de lugar; de modo que “três unidades” comumente atribuídas a ele foram invenções posteriores [Norwood, A TRAGÉDIA Grega, pág. 42, nota]. Acima de tudo, porém, a função da arte é a catarsis -  a purificação: as emoções acumuladas em nós pelo recalcamento das restrições sociais e que podem súbito explodir em atos antissociais  e destruidores, são expedidas sob a forma inócua da emoção dramática; desta maneira a tragedia “por meio da piedade e do medo, efetua a purgação conveniente dessas emoções” [8]Poética, VI, 1449. Aristóteles não trata de certos aspectos da tragédia [como o conflito dos princípios com as responsabilidades]; mas nesta teórica da catarsis fez uma sugestão de fertilidade inesgotável para a compreensão do poder quase misterioso da arte. É um exemplo luminoso de sua habilidade em abordar todos os campos de especulação e de iluminar tudo aquilo em que toca.

Aristóteles _A Metafisica e a Natureza de Deus

Sua metafísica surgiu de sua biologia. Tudo neste mundo é movido por um impulso intimo a tornar-se um tanto maior do que é. Cada coisa é a forma e a realidade que se desenvolveu de alguma coisa que era sua matéria ou sua matéria prima. E cada coisa pode por sua vez ser a matéria de que se vão desenvolver formas mais elevadas ainda. Deste modo, o homem é a forma da qual a criança era a matéria, a criança era a forma da qual o embrião era a matéria: o embrião era a forma e o óvulo a sua matéria, e assim vamos recuando até chegarmos, de modo vago, a concepção da matéria sem forma alguma. Mas tal matéria sem forma seria uma não-coisa, pois todas as coisas tem forma. A matéria, no seu sentido mais amplo, é a possibilidade da forma; a forma é a realidade final da matéria. A matéria obstrui; a forma constrói. A forma não é apenas o aspecto exterior, mas também a força modeladora, necessidade e impulso internos que afeiçoam um mero material bruto em figura e finalidade especificas; é a realização de uma aptidão potencial da matéria; é a soma das potencialidades existentes em alguma coisa a fazer, a ser, ou a tornar-se. A natureza é a conquista da matéria pela forma, é o constante incremento e a vitória da vida. [*]A metade de nossos leitores agradará e a outra metade divertirá saber que entre os exemplos prediletos de Aristóteles, sobre a matéria e a forma, figuram a mulher e o homem; o macho é o principio ativo, formador; a fêmea é a argila passiva, desejosa de ser formada. Os descendentes das fêmeas são a conseqüência da forma não conseguir dominar a matéria. [De Gen.Anim., I, 2].

Todas as coisas do mundo tendem naturalmente a uma realização especial. Das varias causas determinantes de um evento, a causa final, que determina o objetivo, é a mais decisiva e importante. Os erros e as coisas inúteis da natureza são devidos a inércia da matéria em resistir a força modeladora da finalidade – donde resultam os abortos e monstruosidades que maculam o panorama da vida.

O desenvolvimento não é causal ou acidental [do contrário, como explicar o aparecimento e a transmissão quase universais de órgãos úteis?]; tudo é guiado por um impulso interno para determinada direção, por sua natureza, estrutura e entelequia; [*]Entelecheia – que tem [echo] seu objetivo [telos] dentro [entos]. Um daqueles magníficos termos de Aristóteles em que se contem toda uma filosofia; o ovo da galinha está intimamente destinado a não tornar-se um pato e sim um pinto; a bolota não se tornará salgueiro e, sim, carvalho. Isto, para Aristóteles, não significa que haja providencia exterior predeterminando a estrutura e os fatos das coisas terrestres; esta predeterminação é, ao contrário, interior, e origina-se do tipo e função das coisas. “A Divina Providencia coincide perfeitamente para Aristóteles com a ação das causas naturais” [*]Ética, I,10.

Mesmo assim há um Deus, embora não seja o deus humano e simples, concebido pelo perdoável antropomorfismo do espírito adolescente. Aristóteles associa este problema ao velho quebra-cabeça sobre o movimento. Como começou o movimento? Pergunta. Ele não admite a possibilidade de não ter tido principio, apesar de conceber a matéria sem principio; a matéria pode ser eterna, porque é meramente a perene possibilidade de futuras formas; mas quando e como principiou esse vasto processo de movimentação e formação, que afinal encheu o universo de uma infinidade de formas? O movimento teve sem duvida uma origem, diz Aristóteles; e se não quisermos, mergulhando no passado, retroceder infinitamente, fazendo, passo a passo, recuar sem fim o nosso problema, deveremos admitir um primeiro motor imóvel [primum móbile immotum], um ser incorpóreo, indivisível, sem tamanho, sem sexo, sem sentimentos, imutável, perfeito e eterno. Deus não criou, mas move o mundo; e move-o, não como força mecânica e sim como motivo único de todas as espécies de atividade do mundo; “Deus move o mundo assim como o objeto amado move aquele que o ama”. [*]Metafísica,IV,7. Ele é a causa final da natureza, o impulso e a finalidade das coisas, a forma do mundo, o principio da vida do mundo, o total de seus processos e poderes vitais, o escopo inerente de seu desenvolvimento entelequia do todo.  Deus é pura energia [*] Ibid.,XIII,8.; é o escolástico Actus Purus – a atividade ‘per si’; e porventura a Energia mística da física e filosofia modernas. É menos uma pessoa do que um poder magnético [*]Grant,173.

Mesmo assim, com sua habitual incoerência, Aristóteles representa Deus como espírito consciente de si mesmo. UM espírito verdadeiramente misterioso, pois o Deus de Aristóteles nada faz; não tem desejos, nem vontade, nem fins; é uma atividade tão pura, que nunca age. Absolutamente perfeito; por isso nada pode desejar; por isso, inerte. Sua única ocupação é contemplar a essência de todas as coisas; e como ele próprio é a essência de todas as coisas, é a forma de todas as formas, sua ocupação é a contemplação de si mesmo. [*]Metafísica,XII,8;Ética,X,8. Infeliz Deus de Aristóteles! – pois é um roi-fainéant, um rei que nada faz: “o rei reina, mas não governa”. Não é de admirar que os ingleses amem Aristóteles; o Deus de Aristóteles é claramente uma copia do rei inglês. 

Ou do próprio Aristóteles. Nosso filosofo amava tanto a contemplação que a ela sacrificou a sua concepção da divindade. Seu Deus é do calmo tipo aristotélico, nada romântico, apartado em sua torre de marfim do conflito e da contaminação das coisas;fica a um mundo de distancia dos reis-filosofos  de Platão, da severa realidade  em carne e osso de Jeová, ou da mansa e solicita paternidade do Deus cristão.

    

Aristoteles _ A Organização da Ciência

I_A ciência grega antes de Aristóteles
“Sócrates – disse Renan [*]Vida de Jesus, cap.38  - deu aos homens a filosofia e Aristóteles deu-lhes a ciência. Existia filosofia antes de Sócrates e ciência antes de Aristóteles; e depois de Sócrates e de Aristoteles a filosofia e a ciência progrediram muito, mas tudo se construiu sobre os fundamentos que eles lançaram”. Antes de Aristóteles a ciência estava em embrião. Nasceu com ele.

Civilizações anteriores a grega também volveram a atenção para a ciência; mas, o que se consegue inferir tanto quanto lhes apreendemos o pensamento com a leitura de sua escrita ainda obscura em caracteres cuneiformes e hieróglifos, sua ciência não se diferenciava da teologia. Quer isto dizer que os povos prehelenicos atribuíam todos os fenômenos da natureza a algum poder sobrenatural; havia deuses por toda parte.

Foram, ao que parece os gregos jonios que primeiro se abalançaram a dar explicações naturais das complexidades cósmicas e dos sucessos misteriosos: procuravam na física as causas naturais de fatos particulares e na filosofia uma teoria natural do todo. Tales [640-550 a.C.], o “Pai da Filosofia”, foi primeiramente um astrônomo que espantava os habitantes de Mileto dizendo-lhes que o sol e as estrelas [que eles costumavam adorar como deuses] eram simples bolas de fogo. Seu discípulo Anaximandro [610-540. a.C], o primeiro dos gregos que fez mapas astronômicos e geográficos acreditava que o universo começara como massa confusa de que todas as coisas surgiram pela separação dos contrários; que a historia dos astros se repetia periodicamente com a evolução e a dissolução de um infinito numero de mundos; que a terra se mantinha parada no espaço por um equilíbrio de impulsos interiores [como o burro de Buridan]; que todos os nossos planetas  foram a principio fluidos, mas que o sol os fizera secar pela evaporação; que a vida apareceu primeiramente no mar, mas invadiu depois a terra por se haverem baixado as águas; que desses animais saídos de seu elemento alguns adquiriram a faculdade de respirar o ar e se tornaram os geradores de toda a vida surgida mais tarde na terra; que o homem não poderia ter sido desde o começo o que era, pois se ao nascer tivesse a mesma fraqueza e necessitasse tão longa adolescência como hoje, não teria provavelmente sobrevivido.

Anaxímenes, outro natural de Mileto [floresceu em 450 a.C], descreveu a primitiva condição das coisas como uma massa muito rarefeita que gradualmente se condensou em vento, nuvem, água terra, pedra; os três estados da matéria – gasoso, liquido e sólido – foram estágios progressivos de condensação; o calor e o frio eram meramente rarefação e condensação; causava os terremotos e solidificação de uma terra originariamente fluida; vida e alma eram a mesma coisa, uma força animadora e expansiva existente em tudo e em toda a parte.

Anaxágoras [500-428 a.C], professor de Péricles, parece ter dado explicação verdadeira dos eclipses do sol e da lua; descobriu o modo de respirar das plantas e dos peixes, e deu como causa da inteligência do homem a faculdade de servir-se dos membros anteriores, libertando-os do trabalho da locomoção.

Lento e lento, nestes homens, o saber se transformava em ciência.

Heráclito [530-470 a.C],que abandonou a riqueza e seus cuidados para viver vida pobre e estudiosa sob os pórticos dos templos de Efeso, fez a ciência volver-se da astronomia para as coisas terrestres. Todas as coisas estão em eterno fluxo e mudança, disse ele; até na matéria mais imóvel há invisível fluxo e movimento. A historia cósmica realiza-se em ciclos repetidos, tudo começando e acabando em fogo [eis aqui uma das fontes da doutrina dos estóicos e cristão sobre o juízo final e o inferno]. “Através da luta – diz Heráclito – todas as coisas surgem e passam...A guerra comanda tudo; a alguns ela fez deuses e a outros fez homens; a alguns escravos e a outros livres”; Onde não há discórdia há decadência: “a mistura não agitada decompõe-se”. Neste fluxo de mudança, luta e seleção só há uma coisa constante, que é a lei natural. “Esta ordem, que é a mesma para todos, não foi criada por nenhum deus ou homem; mas sempre foi e será”.

Empédocles [fl.em 455 a.C., na Sicília], levou a um estagio mais avançado a idéia de evolução[*]Confronte-se com Osborn, Dos Gregos a Darwin; e com M.Arnold, Empédocles no Etna. Os órgãos não se criam intencionalmente, mas pela seleção. A natureza submete a muitas tentativas e experiências os organismos, combinando variadamente os órgãos; se a combinação se mostra bem adaptada ao meio envolvente, o organismo sobrevive e perpetua-se em seres semelhantes; se a combinação se malogra, o organismo é eliminado;  a proporção que passa o tempo, os organismos tornam-se mais e mais complicados e melhor adaptados ao meio.

Em Leucipo [fl.em 455 a.C], finalmente, e em Demócrito [466-360 a.C], na Abdera trácia, atinge o ultimo estagio a ciência prearistotelica – o atomismo materialista e determinista. “Tudo é ocasionado pela necessidade” – dizia Leucipo. “Em verdade – dizia Demócrito – só existem os átomos e o vácuo”. A percepção é devida a expulsão de átomos do objeto que incide sob os órgãos dos sentidos. Existe ou existirá um numero infinito de mundos: a cada instante planetas entrechocam-se e extinguem-se e novos mundos surgem do caos pela agressão seletiva de átomos de tamanho e forma semelhantes.  Não há um plano no universo; este é uma maquina.

De modo sumário, resume-se nisto a historia da ciência grega antes de Aristóteles. Devem-se-lhes perdoar essas rudes concepções atendendo-se aos limitados meios de experimentação e observação de que dispunham tais pioneiros. A estagnação da industria grega, devida a asa negra da escravidão, impediu o pleno desenvolvimento desses grandiosos começos; e a rápida complicação da vida política em Atenas desviou os sofistas e Sócrates e Platão das investigações físicas e biológicas, fazendo-os enveredar para os campos da teoria ética e política. Uma das muitas glorias de Aristóteles foi ter amplitude de visão e arrojo suficientes para abranger e combinar as duas diretrizes do pensamento grego; a física e a moral; ter recuado aos tempos anteriores ao seu mestre para retomar o fio da evolução cientifica entre os gregos pressocraticos, empreendendo a continuação da obra deles com particularidades decisivas e mais variadas observações e reunindo todos resultados acumulados em um majestoso edifício da ciência organizada.

II_ Aristotes Naturalista
Começando cronologicamente com sua Física ficaremos desapontados, reconhecendo que este tratado é em verdade uma metafísica, uma analise abstrusa de matéria, movimento, espaço, tempo, infinito, causa e outros análogos ‘últimos conceitos’. Uma das passagens mais eloqüentes é um ataque ao ‘vácuo’ de Democrito; não pode haver vazio ou vácuo na natureza, diz Aristóteles, pois em um vácuo todos os corpos cairiam com igual velocidade; sendo isto impossível, “esse suposto vácuo, afinal, não contem nada em si” – o que serve, a um tempo, de amostra do humorismo ocasional e raro de Aristóteles, de sua adoção de conceitos não provados e de sua tendência a menosprezar seus precursores em filosofia.

Era costume de nosso filosofo prefaciar suas obras com sumulas históricas das contribuições anteriores para o assunto tratado e acompanhar a referencia a cada contribuição com uma refutação arrasadora. “Aristóteles, assim como os otomanos – disse Bacon – acreditava não poder reinar com segurança, se não matasse todos os seus irmãos” [*]Progresso da Ciência, livro III, cap.4.9.A esta mania fratricida devemos muito do que conhecemos sobre as idéias pressocraticas.

Pelas razões já expostas, a astronomia de Aristóteles apresenta pouco progresso em relação a seus antecessores. Ele repele a opinião de Pitágoras, de ser o sol o centro de nosso sistema; prefere das esta honra a terra. Mas seu pequeno tratado de meteorologia encerra brilhantes observações, e até suas puras especulações projetam viva claridade. Este é um mundo ciclico, diz nosso filosofo; o sol constantemente evapora o mar, seca os rios e as fontes e transformaria por fim o imenso oceano em um leito de rochas nuas. Mas, reunindo-se em nuvens, a umidade desprendida cai e renova os rios e os mares. Tudo se vai mudando imperceptível mas continuamente. O Egito é obra do Nilo, produto de seus depósitos em milhares de séculos. Aqui, o mar vai invadindo as terras, além a terra avança timidamente para o mar; surgem novos continentes e novos oceanos, desaparecem os continentes e oceanos antigos e toda a face do mundo se muda e remuda em amplas sístoles e diástoles de crescimento e dissolução. As vezes estes grandes efeitos ocorrem a súbitas e destroem as bases geologia e material da civilização e até a própria vida;  grandes catastrofes desnudam periodicamente a terra, fazendo os homens retroceder a seus hábitos primordiais; como Sisifo, a civilização reiteradas vezes avizinhou-se do zênite para recair depois na barbárie e recomeçar ‘da capo’ de seu trabalho de reerguimento. Temos aqui “Eterna Recorrência” da civilização a civilização, das mesmas invenções e descobertas, das mesmas ‘idades medias’ de vagaroso passo econômico e cultural, o mesmo renascer dos conhecimentos, da ciência e da arte. Sem duvida alguns mitos populares são vagas tradições sobrevivendo a prístinas culturas. Desta forma, a historia do homem gira em um circulo trágico, porque ele não é ainda senhor da terra em que habita.

III_A criação da Biologia
Vagueando pelas ruas de seu grande jardim zoológico, Aristóteles torna-se convicto de que a infinita variedade de seres vivos pode ser alinhada em uma seria continua da qual cada elo seria quase indiferençavel dos contíguos. A todos os respeitos, quer pela estrutura, quer pelo modo de viver, de reprodução e desenvolvimento, ou pelas sensações e sentimentos, há mínimas gradações e aperfeiçoamentos dos organismos mais ínfimos até os mais elevados.[*]Hist. Animatium, VIII. Na base da escala mal poderemos extremar os seres vivos dos ‘mortos’; ‘é tão gradativa a transição, feita pela  natureza, das coisas inanimadas para as animadas, que as linhas fronteiriças são indistintas e duvidosas’; e talvez também exista nos corpos inogarnicos certa porção de vida. Igualmente não podemos com segurança classificar como plantas ou animais muitas espécies conhecidas. E como nestes organismos inferiores é quase impossível determinar-lhes o gênero e a espécie por serem muito semelhantes, assim em cada espécie de seres vivos a continuidade das gradações e diferenças é tão notável como a diversidade das funções e formas. Mas em meio a esta assombrosa riqueza de estruturas, certas coisas sobressaem claramente: que a vida se desenvolveu com segurança em complexidade e força [*]De Anima, II, 2; que a inteligência progrediu em correlação com a complexidade de estrutura e mobilidade de formas [*]De Partibus Animalium,I, 7;II.10; que houve uma crescente especialização de funções e uma continua centralização de direção fisiológica[*]De Part.Anim.IV,10. Paulatinamente a vida criou para si um sistema nervoso e um cérebro; e o espírito resolutamente empreendeu dominar o meio ambiente.

Nisto o que há de se notar é que, saltando aos olhos de Aristóteles todas estas gradações e similitudes, ele não chegasse a teoria da evolução. Ele refuta a doutrina de Empédocles,da sobrevivência dos órgãos e organismos mais adequados[*]De Anima,III,4; que houve uma crescente especialização de funções e uma continua centralização de direção fisiológica [*]De Part.Anim. IV,10. Paulatinamente a vida criou para si um sistema nervoso e um cérebro; e o espírito resolutamente empreendeu dominar o meio ambiente.

Nisto o que há de se notar é que, saltando aos olhos de Aristóteles todas estas gradações e similitudes, ele não chegasse a teoria da evolução. Ele refuta a doutrina de Empédocles, da sobrevivência dos órgãos e organismos mais adequados e a idéia de Anaxágoras, de que o homem se tornou inteligente por utilizar-se das mãos antes para outros fins que não o de locomover-se; Aristóteles, inversamente, pensa que é por ser inteligente que o homem se utiliza das mãos [*]De Part. Anim,IV,10.Em verdade, Aristóteles incorria no Maximo de equívocos para um homem que estava a criar a ciência da biologia. Ele pensa, por exemplo, que na reprodução o elemento masculino serve apenas para estimular e apressar; não lhe ocorreu [o que sabemos por experiências de partenogênese] que a função essencial do esperma é menos fertilizar o óvulo do que dotar o embrião com as qualidades transmissíveis do pai, permitindo assim a descendência ser uma vigorosa variante, uma nova associação de duas estirpes genitoras.

Como sem eu tempo não se praticava a dissecação anatômica, sua obra é particularmente abundante de erros fisiológicos; ele nada sabe sobre os músculos, ignorando-lhes até a existência; não distingue as artérias das veias; julga que o cérebro é um órgão para esfriar o sangue: acredita, o que é perdoável, ter o crânio do homem mais suturas que o da mulher; menos perdoavelmente, porem, acredita ter o homem só oito costelas de cada lado; e é incrível que suponha a mulher com menos dentes que o homem [*]Gomperz, IV, 57. Zeller, I, 262, notas; Lewes, 158, 165, etc. Aparentemente, suas relações com as mulheres foram de natureza muito amistosa...

Mesmo assim deu maior impulso a biologia do que qualquer grego antes ou depois dele. Percebe que as aves e os répteis são muito aparentados de estrutura; que o macaco é pela forma intermediário entre os quadrúpedes e o homem; e uma vez intrepidamente se abalança a declarar que o homem pertence ao mesmo grupo animal dos quadrúpedes vivíparos [nossos ‘mamiferos’][*]Hist. Anim., I, 6; II,8. Observa que na infância a alma mal é diferençavel da alma dos animais [*]Ibid., VIII,1. Faz a observação elucidativa de que a alimentação determina com freqüência o modo de viver; “pois, dentre os animais, alguns são gregarios e outros solitários – vivem do modo mais apropriado...a obterem os alimento de sua predileção” [*]Política,I,8. Aristóteles antecipa a celebre lei de Von Baer de que os caracteres comuns ao gênero [como os olhos e os ouvidos] aparecem nos organismos em evolução antes dos caracteres peculiares a sua espécie [como a “formula” dos dentes], ou a próprio individuo [como a ultima coloração dos olhos *Hist.Anim., I, 6]; e com dois mil anos de antecedência prenuncia a generalização de Spencer, relativamente ao numero de indivíduos e a natureza da gênese – isto é, que quanto mais altamente desenvolvida e especializada é a espécie ou o individuo, menor é o numero de seus descendentes [*]De Generationes Animalium, II,12.

Aristóteles menciona e explica a reversão ao tipo – a tendência de uma variação preeminente [como o genio] a dissolver-se nos descendentes e desaparecer nas gerações seguintes. Faz muitas observações zoológicas que, rejeitadas mais tarde pelos biologistas, foram confirmadas pelas investigações modernas – de peixes que fazem ninhos, por exemplo, de tubarões providos de placenta.

E cria, enfim, a ciência da embriologia. “Quem vê as coisas desenvolver-se desde o principio, faz delas juízo mais perfeito” – escreve ele. Hipocrates [nascido em 460 a.C],o maior dos médicos gregos, deu belo exemplo do método experimental quebrando ovos de galinha em varias fases da incubação e expôs o resultado dessas observações na obra “Sobre a Origem da Criança”. Aristóteles seguiu-lhe o exemplo; fez experiências que o habilitavam a descrever o desenvolvimento dos pintos de modo que até hoje espanta os embriologistas [*]De Part. Anim.III,4]. Ele deve ter feito experiência originadas sobre a genetica, pois rebate a teoria de que o sexo da criança depende dos testículo que fornece o fluido reprodutor, citando o caso de um pai a quem um dos testículos fora suprimido e que mesmo assim tinha filhos dos dois sexos [*]Lewes, 112.    

Aristóteles ventila alguns problemas muito modernos sobre a hereditariedade. Um mulher de Eléia casara-se com um negro; seus filhos vieram todos brancos, mas na geração seguinte apareceram negros; e Aristóteles pergunta “onde ficou oculta a cor preta, na geração intermediária?”  [*]Gomperz,IV,169. Dessa pergunta vital e inteligente as experiências modernas de Gregor Mendel [1822-1882] mediava um passo apenas. Prudens quaestio dimidium scientiae – saber o que se há de perguntar já é saber a metade. Não há duvida de que, apesar dos erros que mareiam essas obras biológicas, elas constituem o maior monumento que algum dia um homem isolado haja erigido. Ao considerarmos que antes de Aristóteles, tão remotamente quanto podemos investigar, nada existia de biologia senão observações esparsas, compreendemos que só esse trabalho fosse bastante para encher a vida de um homem e dar-lhe a imortalidade.
Mas Aristóteles estava apenas a principiar.