sábado, 5 de março de 2011

Aristoteles _ A Criação da Lógica

O primeiro grande mérito que singulariza Aristóteles é que, quase  sem precursores, quase completamente por sua aturada reflexão, criou uma ciência nova – a LÓGICA. Renan [1]Historia do Povo de Israel, vol, V, pág.38, refere-se a “má educação do espírito que não se pautou, direta ou indiretamente, pela disciplina grega”; mas a verdade é que a inteligência grega era indisciplinada e caótica até as inflexíveis formulas de Aristóteles fornecerem um meio pronto de por em prova e corrigir o raciocínio. O próprio Platão [se é possível semelhante suposição a um seu adorador] era espírito insubmisso e desregrado, subvertido muitas vezes nas brumas do mito e deixando a beleza velar, com excessiva opulência, a face da verdade. O mesmo Aristóteles, conforme veremos, violou flagrantemente seus próprios cânones, mas então ele era o produto de seu passado e, não, do futuro que seu pensamento iria criar.

A decadência política e econômica da Grécia acarretou o depauperamento do espírito e caráter helênicos, depois de Aristóteles; mas quando uma nova raça, após um milênio de trevas bárbaras, teve outra vez lazeres e capacidade para especulações filosóficas, foi o “Organon’ da Lógica traduzido por Boecio [470-525 E.C] que se converteu em molde para o pensamento medieval, em mãe legitima daquele filosofar escolatisco que, embora tornado estéril pelos dogmas constritores, ensinou e compeliu a inteligência da jovem Europa a raciocinar e subtilizar idéias, edificou a terminologia da ciência moderna e assentou as bases da maturidade de espírito que ia expandir-se e derrocar o próprio sistema e os próprios métodos que lhe deram origem e fortaleza.

Lógica significa, simplesmente, a arte e o método de pensar com acerto. È a lógica ou método de todas as ciências, disciplinas e artes; a própria musica a admite. Ela é uma ciência, porque em considerável extensão o processo de pensar exatamente pode ser reduzido a leis semelhante as da física e geometria e ensinado a todo espírito normal; é uma arte porque com a pratica dá, por fim, ao pensamento aquela inconsciente e viva perícia que faz os dedos do pianista tirar, em esforço, harmonias do teclado. Nada é tão enfadonho como a lógica e, nada, tão importante.

Neste nova ciência encontram-se vestígios da terrível insistência de Sócrates sobre as definições e do habito de Platão de apurar cada conceito. O pequeno tratado de Aristóteles sobre Definições mostra quanto sua lógica se abeberou nesta fonte. “Se quiserdes discutir comigo – disse Voltaire – define primeiro vossos termos”. Quantas controvérsias se reduziriam a um parágrafo,s e os antagonistas se atrevessem a defini-los! O alfa e o Omega da lógica, sua própria alma, é que todos os termos importantes de uma exposição sejam submetidos a exame e definição mais rigorosa. É difícil e fatigante para o espírito; mas, feito isso, tem-se meio caminho andado.

Como procederemos para definir um objeto ou um termo?  Aristóteles responde que toda a boa definição se compõe de duas partes, mantem-se sobre dois sólidos pés: primeiro, inclui o objeto em questão em uma classe ou grupo cujos caracteres gerais são também os seus – assim, o homem é, antes de tudo, um animal. Em segundo lugar, indica por que o objeto difere de todos os outros membros de sua classe – por isso, o homem, no sistema de Aristóteles, é um animal racional; sua diferença especifica que o extrema de todos os outros animais é ser racional [disto se originou interessante lenda].

Aristóteles mergulha um objeto no oceano de sua classe e em seguida retira-o embebido de sua significação genérica, com os característicos de sua família ou de seu grupo; quanto a sua individualidade e diferença, sobressaem mais claras com as justaposição a outros objetos que tanto se lhe assemelham e tanto dele diferem.

Deixando a retaguarda da lógica, avencemos até o grande campo de batalha em que Aristóteles cruza armas com Platão sobre a temerosa questão dos ‘universais’; foi a primeira escaramuça de uma guerra que se prolongou até nossos dias, e fez em toda a Europa medieval soar o estrepido dos ‘realistas’ e dos ‘nominalistas’. [1]Foi referindo-se a este debate que Friedrich Schelegel disse: “Cada homem nasce platônico ou aristotélico” (em Benn, I, 291). Um universal, para Aristóteles, é qualquer nome comum, qualquer nome capaz de aplicação universal a todos os componentes de sua classe: assim animal, homem, livro, arvore, são universais. Mas estes universais são noções subjetivas e, não, realidades objetivas tangíveis; são nomima [nomes] e não res [coisas]; tudo o que existe fora de nós é um mundo de objetos individuais e específicos, e não coisas genéricas e universais; existem homens, arvores e animais; mas o homem em geral, ou o homem universal, não existe a não ser no pensamento; é uma abstração mental cômoda e não uma presença exterior ou realidade.

Ora, Aristóteles compreendeu ter Platão sustentado que os universais tem existência objetiva; e de fato Platão afirmou que o universal é incomparavelmente mais duradouro e importante e substancial que o individual – sendo, este ultimo, leve ruga num mar perenemente revolto; os homens vêm e vão-se, mas o homem perdura eternamente. Aristóteles era um espírito pratico; espírito rijo, como diria William James; e vê a raiz do inesgotável misticismo e dos disparates escolásticos naquele “realismo” platônico; e ataca-o com todo o vigor de uma primeira polemica. Do mesmo modo que Bruto não amava menos a César do que a Roma, também Aristóteles diz: Amicus Platô, sed magis amica veritas – “Amemos a Platão, porém amemos mais a verdade”.

Algum comentador hostil poderia observar que Aristóteles [assim como Nietzsche] critica tão vivamente a Platão por ter consciência do muito que lhe tomou de empréstimo; nenhum homem é herói para os seus devedores. Mas Aristóteles assumiu uma atitude salutar; ele é quase um realista no sentido moderno; cingiu-se ao objetivo presente, ao passo que Platão se absorvia num subjetivo futuro.

Existia, na exigência socrático-platonica de definições, uma tendência para trocar as coisas e os fatos pelas teorias e idéias, os particulares pelas generalidades, a ciência pelo escolasticismo: “Platão, por fim, tornou-se tão dedicado as generalidades, que estas começaram a determinar os seus particulares, e tão dedicado as idéias que estas começaram a definir ou a selecionar seus fatos. Aristóteles prega o retorno as coisas, a ‘imarcescivel face da natureza’ e a realidade; tinha ele forte preferência pelo concreto particular, pelo individuo de carne e osso. Platão amava tanto o geral e o universal que na Republica destruiu o individuo para criar o estado perfeito.

Também a ironia da historia faz-nos comumente ver o jovem guerreiro adquirir muitas das qualidades do velho senhor a quem acomete. Temos sempre em nós grande provisão daquilo que condenamos: como só as coisas similares podem ser contrastadas com proveito, somente as pessoas similares se hostilizam; as  mais encarniçadas guerras foram incitadas por mínimas divergências de intuitos ou crenças. Os cavaleiros cruzados encontraram em Saladino um gentil-homem com quem podiam contender amistosamente; mas quando os cristãos da Europa se dividiram em campos contrários, não houve mais quartel para o mais cortes adversário.

Se Aristóteles é tão implacável com Platão, é por nele haver muita coisa de Platão; também continua a amar as abstrações e as generalidades, traindo freqüentemente essa tendência com alguma teoria especiosamente brilhante e demonstrando um esforço continuo para dominar sua paixão pelas especulações transcendentais.

Há disto um traço bem acentuado na mais característica e original das contribuições filosóficas de Aristóteles – a doutrina do silogismo. Um silogismo é uma trindade de proposições das quais a terceira [a conclusão] emana da verdade admitida nas outras duas [as premissas ‘maior’ e ‘menor’]. Exemplo: O homem é um animal racional; Sócrates é um homem; logo, Sócrates é um animal racional. O leitor matemático verá imediatamente que a estrutura do silogismo se assemelha a proposição: duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si. Se A é B, e C é A, conclui-se que C é B. Como no caso matemático obtêm-se a conclusão cancelando-se nas premissas seu termo comum A, assim em nosso silogismo alcança-se a conclusão cancelando-se em ambas as premissas seu termo comum ‘homem’ e combinando o que resta. A dificuldade, como os lógicos o  indicaram desde os tempos de Pirro até os de Stuart Mill, está na circunstancia de que a premissa maior do silogismo admite precisamente como verdadeiro o ponto que necessita ser provado; pois se Sócrates não for racional [ninguém põe em duvida que ele seja um homem] não é universalmente verdade que o homem seja um anima racional.
Aristóteles replicaria que quando um individuo possui grande numero de qualidades características de uma classe [Sócrates é um homem] forte presunção se estabelece de que esse individuo tem as outras qualidades características dessa classe [racionalidade]. Mas aparentemente o silogismo não é tanto um mecanismo para a descoberta da verdade como o é para a clareza da exposição da idéia.

Tudo isto, bem como outros muitos pontos do “Organon”,  tem seu valor. “Aristóteles descobriu e formulou todos os cânones da congruência teórica e todos os artifícios das discussões dialéticas com uma habilidade e argúcia que nunca se poderá louvar em excesso; e seu labor, nessa direção, contribuiu mais do que o de qualquer outro escritor isolado para o estimulo intelectual dos outros séculos”. [1]Benn, I, 307. Mas a nenhum homem que haja até agora existido a lógica não afinou grandemente o raciocínio; um manual que ensine a racionar corretamente é tão educativo como um tratado de etiqueta; pode este ser-nos útil, porém dificilmente nos conferirá nobreza. Nem mesmo o mais arrojado filosofo decantaria arroubadamente sua utilidade. Com relação a lógica, todos se portam como Virgilio mandou Dante proceder ante os que foram condenados por sua neutralidade incolor: Non ragionam dilor, ma guarda e passa [1] – Inferno, III, 60 “Não reflitamos sobre eles; olha e passa”.    

A Obra de Aristóteles

Não era difícil ao professor do reis dos reis encontrar discípulos, mesmo em cidade tão hostil com Atenas. Quando, coma idade de cinqüenta e três anos, Aristóteles criou o Liceu, tantos estudantes afluíram, que se fez mister organizar regras complicadas para manter a ordem. Os próprios estudantes estabeleciam essas regras, elegendo, de dez em dez dias, um dos seus colegas para dirigir a escola. Não se pense, porém, que lá reinasse disciplina rígida; ao contrario – as cenas cujas descrições chegaram até nós são de estudantes a tomar em comum as refeições com o mestre e a aprender com ele enquanto passeavam ao longo do campo atlético, do qual o Liceu tomou o nome. [1]O passeio chamava-se Peripatos; daqui proveio mais tarde o nome Escola Peripatetica. O campo atlético fazia parte do terreno do templo de Apolo. Liceu – o protetor dos rebanhos contra os lobos [lycos].

A nova escola não era simples imitação da platônica. Na Academia cuidava-se precipuamente de matemática e da filosofia especulativa e política, e o ensino do Liceu tendia mais para a biologia e ciências naturais. A dar-se fé a Plínio [2] His.Nat.VIII, 16; em Lewes, Aristóteles, um capitulo da Historia da Ciência, Londres, 1864, pág.15, Alexandre deu ordem a seus caçadores, guarda-caças, jardineiros e pescadores para que fornecessem a Aristóteles todos os espécimes zoológicos e botânicos que ele desejasse; narram-nos outros escritores antigos que certa ocasião tinha ele mil homens ao seu serviço, espalhados pela Grécia e Ásia, a reunirem-se exemplares da flora e fauna de todos os paises. Com esse farto abastecimento, estava em condições de criar o primeiro grande jardim zoológico do mundo. Seria fácil compreender a influencia dessa coleção sobre sua ciência e filosofia.  

Onde conseguiu Aristóteles fundos para custear tais trabalhos? Ele próprio, a esse tempo, já era homem de vultuosos rendimentos e, casando-se, aquinhoara da fortuna de um dos mais poderosos soberanos gregos. Ateneu [sem duvida com algum exagero] relata-nos que Alexandre deu a Aristóteles, para materiais e pesquisas físicas e biológicas, a quantia de 800 talentos, equivalente a cerca de quatro milhões de dólares [3]Grant, Aristóteles, Edimburgo, 1877, pág.18.

Pensam alguns que, por sugestão de Aristóteles, Alexandre enviou dispendiosa expedição a explorar as nascentes do Nilo, com o fim de descobrir as causas de suas inundações periódicas. [4] A expedição relatou que as inundações eram devidas a fusão da neve nas montanhas da Abissínia.

Obras, como o digesto de 158 constituições políticas, organizadas por Aristóteles, sugerem um grande corpo de auxiliares e secretários. Em suma – temos aqui pela primeira vez na historia européia o exemplo do erário publico custear trabalhos científicos em grande escala. Que tesouros de conhecimentos não auferiríamos se as nações modernas financiassem as investigações nessa escala relativamente considerável!

E faríamos injustiça a Aristóteles não mencionando as limitações quase fatais de aparelhagem coexistentes com esses recursos e essas facilidades sem exemplo. Ele era forçado ‘a calcular o tempo sem o relógio; a comparar graus sem o termômetro; a observar o céu sem o telescópio; e o estado do tempo sem o barômetro... De todos os nossos instrumentos matemáticos, óticos e físicos, só dispunha da régua e do compasso, e de imperfeitissimos substitutos de alguns outros. Analise química, as pesagens e medidas exatas e a perfeita aplicação da matemática a física eram desconhecidas. A atração da matéria, a lei da gravitação, os fenômenos elétricos, as condições das combinações químicas, a pressão do ar e seus efeitos, a natureza da luz, do calor, da combustão, etc., todos os fatos, em suma, em que se baseiam as teorias físicas da ciência moderna estavam totalmente ou quase totalmente por se descobrir”.

Veja-se aqui como as invenções influem no mundo: por falta de um telescópio, a astronomia de Aristóteles é um tecido de historias infantis, e a mingua de um microscópio sua biologia erra em constantes extravios. Foi, em verdade no terreno das invenções industriais e técnicas que a Grécia se mostrou muito abaixo do nível geral de seu progresso sem precedentes. O desdém dos gregos pelos trabalhos manuais resultava de que apenas escravos indiferentes se mantinham em contato com os processos da produção, e é esse estimulante contato com os maquinismos que revela defeitos e prefigura possibilidades; a invenção não seria possível aqueles que nela não tinham nenhum interesse. A barateza dos escravos retardava o desenvolvimento das invenções; os músculos eram menos caros que as maquinas.

E, dessa forma, enquanto o comercio grego conquistava o Mar Mediterrâneo e a filosofia grega conquistava o espírito mediterrâneo irradiando-se pelas outras nações, a industria grega permanecia quase egeia dos tempos em que os gregos invasores a aprenderam em Canossa, em Tirinto e Micenas, mil anos antes. Sem duvida temos aqui a razão por que Aristóteles tão raramente recorre a experiência: aparelhos para experiências ainda não existiam; e o melhor que tinha a fazer era dedicar-se a uma universal e continua observação. Não obstante, o grande volume de dados por ele e seus auxiliares coligidos tornou-se o alicerce do progresso da ciência, o livro do saber para dois mil anos – verdadeira maravilha do trabalho humano.

Contam-se por centenas de obras escritas de Aristóteles. Alguns escritores antigos atribuem-lhe a autoria de quatrocentos volumes e, outros, de um milheiro. Resta-nos apenas parte, que mesmo assim constitui uma biblioteca, fazendo-nos conceber o escopo e a grandeza do conjunto. Vem, primeiramente, as obras sobre lógica: “Categorias”, “Tópicos”, “Analise a priori” e “a posteriori”, “Proposições”, e “Refutação dos Sofistas”; estes trabalhos foram depois reunidos e editados pelos peripateticos sob o titulo geral de “Organon” de Aristóteles, isto é, o órgão ou o instrumento para o correto pensar. Em segundo, vem os livros científicos: “A Física”, “Sobre o Céu”, “Crescimento e Decadência”, “Metereologia”, “Historia Natural”, “Sobre a Alma”, “As partes dos Animais”, “Os movimentos dos Animais”, e “A geração dos Animais”. Em terceiro, estão as obras de estética: “Retórica” e “Poesia”. E em quarto, as obras mais estritamente filosóficas: “Política” e “Metafísica”. [1]Esta, ao que se sabe, é a ordem cronológica [Zeller, I, 156, e segs] Nossa discussão seguirá esta ordem, exceto no caso da Metafísica.

Temos aqui, evidentemente, a Enciclopédia Britânica da Grécia; todos os problemas sobre coisas existentes abaixo e em torno do solo encontram ai o seu lugar~; não admira, pois, que haja mais erros e absurdos em Aristóteles do que em qualquer outro filosofo que tenha escrito livros. Vê-se aqui uma síntese de conhecimentos e teorias como  não houve igual até os tempos de Spencer, e nenhuma de tanta grandiosidade. Esta foi, realmente, mais que a efetuada pelas vitórias brutais e efêmeras de Alexandre, a conquista do mundo. Se filosofia significar a procura da unidade, Aristóteles merece o grande nome que vinte séculos lhe deram – Ille Philosophus: O Filosofo.  

É natural que falte a poesia em espírito de tal pendor cientifico. Não podemos esperar de Aristóteles o mesmo brilho literário que esplende nas paginas do filosofo-dramaturgo Platão. Em vez de proporcionar-nos alta literatura que em mitos e imagens encerra [e obscurece] uma filosofia, Aristóteles dá-nos ciência, técnica, abstrata, condensada. Se o procurarmos como leitura amena enganamo-nos. Em vez de expandir-se em vôos literários, como faz Platão, ele cria a terminologia da ciência e da filosofia; mal poderemos falar hoje sobre qualquer ciência sem usar termos inventados por Aristóteles; esses termos jazem como fosseis no substractum de nossa linguagem: faculdade, meio, máxima [que é, em Aristóteles, a maior das premissas de um silogismo], categoria, energia, atualidade, motivo, fim, principio, forma -  esta moeda corrente do pensamento filosófico foi cunhada por seu espírito. E talvez esta passagem do dialogo ameno para o preciso tratado cientifico fosse um passo necessário ao desenvolvimento da filosofia; e a ciência, que é a base e a espinha dorsal da filosofia, não poderia desenvolver-se antes do evolver de seus métodos exatos e próprios, de aplicação e expressão. Aristóteles escreveu também diálogos literários, que em seu tempo eram lidos em tão alto conceito como os de Platão: mas perderam-se, assim como se perderam os tratados científicos de Platão. Provavelmente o tempo preservou da destruição a melhor parte de cada um desses dois homens.

Afinal, é possível que obras atribuídas a Aristóteles não sejam suas e, sim, de discípulos e continuadores que embalsamaram em suas notas a desataviada essência das preleções do mestre. É de  crer-se que em sua vida Aristóteles não escreveu obras técnicas, a exceção das sobre lógica e retórica e que a forma atual de seus tratados de lógica possa atribuir-se a publicação feita mais tarde. Quanto a Metafísica e a Política, parece que as notas por ele deixadas foram reunidas sem revisão ou alteração pelos encarregados desse trabalho. Até a igualdade de estilo que assinala as obras aristotélicas e serve de argumento aos que defendem a sua autoria direta, pode, afinal de contas, não passar de uniformidade adotada em todos os trabalhos da Escola Peripatetica. A este respeito deflagram controvérsias de ardor quase épico, como no caso de Homero; mas ao atarefado leitor não interessará aprofundá-las, nem tem um modesto estudioso da filosofia competência para tentar solve-las. [1] Confronte-se com Zeller, II, 204, nota e Shule, Historia dos Livros de Aristóteles. Podemos, entretanto, estar certos de que Aristóteles é o autor espiritual de todos os livros que tragam seu nome. Mesmo que em alguns possa ser alheia a mão que os escreveu, a verdade é terem nascido da sua cabeça e do seu coração. [2]O leitor que desejar conhecer diretamente o filosofo, achará na Meteorologia um interessante exemplo da obra cientifica de Aristóteles; e haurirá muitos conhecimentos práticos na Retórica; e achará o melhor de Aristóteles nos livros I e II da Ética e nos I e IV da Política. A melhor tradução da Ética é a de Welldon; da Política, a de Jowett. O Aristóteles, de Sir Alexandre Grant,é um livro singelo; o Aristóteles de Zeller (vols, III e IV de sua obra Os Filósofos Gregos) é clássico, mas seco; Os Pensadores Gregos (Vol.IV) de Gomperz, é magistral, mas difícil.            

Aristóteles e a Ciência Grega

Ambiente Histórico
Aristóteles nasceu em Stagira, cidade da Macedônia situada a cerca de duzentas milhas ao norte de Atenas, no ano 384 a.C. Seu pai era amigo e medico de Amintas, rei da Macedônia e avô de Alexandre. O próprio Aristóteles parece ter sido membro da confraria medica de Asclepiades. Ele foi educado em odor da medicina, assim como mais tarde muitos filósofos o foram em odor da santidade; teve todas as oportunidades e incitamentos para desenvolver seu pendor para a ciência, da qual ia tornar-se fundador.

Temos varias versões, a escolha, sobre sua adolescência. Uma, apresenta-o a esbanjar seus bens em uma vida desregrada, após o que se alista no exercito para evitar a fome, voltando em seguida a Stagira para exercer a medicina, donde segue para Atenas, aos trinta anos, para estudar filosofia com Platão. Versão mais favorável o faz ir para Atenas aos dezoito anos, tornando-se lá, desde logo, discípulo do grande Mestre; todavia, mesmo nesta versão mais versossimil, existem suficientes referencias a uma adolescência desmandada e perdulária [1].Girote,Aristóteles, Londres, 1872, pág 4; Zeller, Aristóteles e os Primeiros Peripatéticos, Londres, 1897, V.1, pág 6.f. Que o leitor escandalizado se console com a circunstancia de que em qualquer das duas versões nosso filosofo vai finalmente ancorar a sombra dos calmos bosques do jardim da Academia.

Com Platão estudou oito anos – ou vinte; e o fato de que o platonismo impregna as especulações de Aristóteles – até nas mais antiplatonicas – faz pensar na hipótese dos vinte anos.

De bom grado imaginamos de grande ventura esses anos em que um aluno de viva inteligência e seu incomparável mestre deambulavam, como dois enamorados, pelos jardins da filosofia. Mas ambos eram gênios;e é sabido que os gênios se harmonizam tanto entre si como a dinamite e o fogo. Separava-os quase meio século; para a imatura compreensão era difícil suprimir esse abismo da diferença de idades, de modo a corrigir a incompatibilidade das almas. Platão reconhecia o grande valor daquele seu novo e estranho discípulo da raça do norte, que consideravam bárbara, e citou-o uma vez como o “Nous” da Academia, isto é, a Inteligência personificada.

Aristóteles prodigalizou dinheiro para colecionar livros [que naqueles tempos eram feitos a mão]; foi o primeiro, depois de Euripedes a organizar uma biblioteca; e entre suas muitas contribuições, há os fundamentos da classificação bibliográfica. Essa era a razão por que, ao referir-se a residência de Aristóteles, dizia Platão: ‘casa do leitor’ e parece que estas palavras envolviam um louvor sincero, e não sutil e intencional alfinetada ao excessivo amor aos livros, como alguém murmurou. Divergência mais autentica surgiu no fim da vida de Platão. Desenvolveu-se um ‘complexo de Edipo’ na alma de nosso ambicioso jovem contra seu pai espiritual, pela muita afeição comum a filosofia, pelo que começou a sugerir que a sabedoria não morreria com Platão – ao passo que o velho sábio se referia ao discípulo como a um poldro que escoicinhasse a mãe depois de mamar-lhe todo o leite [1] Benn, Os Filósofos Gregos, Londres, 1882, vol.1, pág.283 (2) Vol.I, pág.11. O douto Zeller, em cujas paginas Aristóteles quase alcança o Nirvana da respeitabilidade, é de parecer que se devam rejeitar essas referencias; mas podemos presumir que tanto fumo deve indicar algum fogo.

Outros episódios deste período de sua vida em Atenas são ainda mais problemáticos. Narram-nos alguns biógrafos que Aristóteles fundou uma escola de oratória para rivalizar com a de Isocrates e que entre seus alunos figurava o rico Hermias, que se tornou o autocrata da cidade-estado de Atarneus. Havendo atingido essa culminância, Hermias convidou Aristóteles a transferir-se para sua corte, e, no ano 344 a.C., recompensou o professor pelo que por ele fizera dando-lhe em casamento uma irmã [ou sobrinha]. Poder-se-ia suspeitar ter sido um presente de grego; mas os historiadores apressam-se a certificar-nos de que Aristóteles, apesar de sua genialidade, foi muito feliz com a esposa, a qual se refere com as mais afetuosas palavras em seu testamento.

Foi precisamente um ano depois que Filipe, o rei da Macedônia, mandou chamar Aristóteles para, em Pela, sua corte, encarregar-se da educação de Alexandre. A circunstancia de o maior monarca do tempo, que, certo, procuraria o melhor mestre, preferir Aristóteles para professor do futuro dominador do mundo, testemunha a reputação crescente de nosso filosofo.

Filipe resolvera dar ao filho a mais apurada educação, por ter formado ilimitados planos para ele. Sua conquista da Tracia em 356 a.C, tornou-o Senhor de minas de ouro que prontamente lhe forneciam desse metal quantidade dez vezes maior do que a de prata fornecida a Atenas pelas decadentes minas de Laurion; seus súditos era robustos camponeses e soldados ainda não degenerados pelo luxo e pelos vícios das cidades: esta circunstancia lhe possibilitaria a sujeição de um cento de pequenas cidades livres e a conseqüente unificação política da Grécia.

Filipe não simpatizava com o individualismo que favorecera a arte e a inteligência da Grécia, mas ao mesmo tempo lhe desintegrara a ordem social; em todas aquelas pequeninas capitais não via grande cultura e a arte inexcedível, e sim a corrupção comercial e o caos político; via insaciáveis negociantes e capitalistas absorverem os recursos vitais da nação, políticos incompetentes e oradores hábeis a arrastarem o povo operoso a conspirações e desastrosas guerras, facções que se cindiam em classes e classes que se cristalizavam em castas: aquilo, dizia Filipe, não era uma nação e sim um ajuntamento de indivíduos – gênios e escravos; propunha-se ele por ordem na balburdia, elevando e unindo toda a Grécia, que se tornaria forte para servir de centro político e fundamento do mundo.

Em sua adolescência em Tebas, Filipe aprendera com o nobre Epaminondas a arte da estratégia militar e organização civil; e agora, com coragem tão ilimitada como a ambição, melhorava a sua instrução. Em 388 a.C. derrotou os atenienses em Queroneia e viu por fim uma Grécia unida, embora acorrentada. E quando, após essa vitória, planejava o modo de, ele e o filho, dominarem e unificarem o mundo, foi morto pela mão de um assassino.

Quando Aristóteles chegou, Alexandre era um terrível menino de treze anos; ardente, epiléptico, quase alcoólico; seu divertimento era amansar cavalos para os outros indomáveis. Não foram de grande eficácia os esforços do filosofo para arrefecer o ardor daquele vulcão. Alexandre tinha melhor êxito com Bucefalo do que Aristóteles com Alexandre.

“Durante algum tempo – diz Plutarco – Alexandre amou Aristóteles não menos do que se fosse seu próprio pai, dizendo que, se um lhe dera a vida, o outro lhe ensinara a arte de viver”.

[“A vida – diz um sutil filosofo grego – é um dom da natureza, ao passo que uma vida bela é um dom da sabedoria”]. “Quanto a mim – declarou Alexandre em uma carta a Aristóteles – prefiro aperfeiçoar-me no conhecimento do que é bom, a aumentar meu poderio e meus domínios”. Mas isto não era talvez mais do que grande amabilidade juvenil; sob o entusiasmo do noviço da filosofia latejava o natural indômito do filho de uma princesa e de um rei bárbaros; os freios da razão eram frágeis em excesso para manter disciplinadas suas paixões atávicas; dois anos depois Alexandre abandonou a filosofia para galgar o trono e governar o mundo.

A historia dá-nos a liberdade de crer {embora nos causem suspeita estes pensamentos amáveis] que a ânsia unificadora de Alexandre hauria de sua força e grandiosidade nas idéias de seu mestre, o mais sintético dos pensadores na historia da filosofia – e que o estabelecimento da ordem dos domínios políticos, por parte do discípulo, e nos domínios filosóficos, por parte do preceptor, não passava de aspectos diversos de um só projeto nobre e arrojado; seriam dois eminentes macedônios a ordenar o caos de dois mundos.

Partindo para conquistar a Ásia, Alexandre deixou após si, nas cidades da Grécia, governos que lhe eram favoráveis, mas populações francamente hostis. A longa tradição de uma Atenas livre e anteriormente imperialista, tornava intolerável a submissão, mesmo a um afamado déspota conquistador do mundo; e a acida eloqüência de Demóstenes conservava a Assembléia sempre a pique de revoltar-se contra o ‘partido macedonio’ que empunhava as rédeas do governo. Quando Aristóteles, após outro período de viagens, regressou a Atenas no ano 334 a.C., aderiu muito naturalmente ao grupo macedônio, não se preocupando de ocultar sua aprovação a política unificadora de Alexandre.

Ao observarmos a notável sucessão de trabalho de especulação e pesquisas a que Aristóteles se deu nos últimos doze anos de sua vida, e ao acompanhar-lhe as múltiplas tarefas de organizar sua escola e coordenar tão grande riqueza de conhecimentos, que antes nunca havia povoado o espírito de um só homem, devemos lembrar que não eram de calma e segurança os tempos de sua investigação da verdade e que a cada instante podia enfarruscar-se o firmamento político, desencadeando a tormenta na sua pacifica vida de filosofo. Tendo-se em mente esta circunstancia é que bem poderemos compreender a filosofia política de Aristóteles – e o seu fim trágico.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A Preparação de Platão _ Utopia

O encontro de Platão com Sócrates representou uma mudança no rumo de sua vida. Ele fora criado no meio do conforto, e talvez mesmo na opulência. Moço, belo e robusto – e chamava-se Platão, consoante dizem, devido a largura dos ombros, distinguia-se como soldado, e duas vezes ganhara prêmios nos jogos ístmicos. Tal adolescência não é própria a produzir filósofos. Mas ao sutil espírito de Platão apresentara-se como um prazer novo jogo ‘dialético’ de Sócrates; era um deleite ver o mestre esvaziar os dogmas e ferretoar as idéias preconcebidas com as aceradas pontas de suas perguntas. Platão entregara-se a esse desporto com o ardor com que se dedicara a outras espécies de lutas mais grosseiras; e guiado pelo velho tavão [conforme Sócrates se denominava a si mesmo] passou das simples conversações a meticulosa analise e as discussões frutíferas. E tornou-se apaixona adorador da sabedoria e de seu mestre. “Rendo graças a Deus, costumava dizer, por ter nascido grego e não bárbaro; livre e não escravo; homem e não mulher; rendo-as, porém, acima de tudo, por ser contemporâneo de Sócrates”.

Tinha vinte e oito anos quando o mestre morreu; e aquele trágico remate de uma vida serena deixou marca em todas as fases do pensamento do discípulo. Encheu-se de desdém pela democracia, de ódio as multidões ainda maior que o natural na sua educação e linhagem aristocrática; isso o levou a convicção catonica de dever acabar-se com a democracia, substituindo-a pelo governo dos mais sábios e melhores. Um dos problemas de sua vida iria se achar o meio de descobrir os mais sábios e melhores e ainda de habilitá-los e persuadi-los a governar.  

Entrementes, seus esforços para salvar Sócrates tornaram-no suspeito aos chefes democraticos; seus amigos fizeram-lhe ver o perigo de ficar em Atenas; e também que a oportunidade era ótima para correr mundo. No ano de 399 a.C Platão partiu. Por onde andou não podemos saber ao certo; as autoridades na matéria colidem sobre o seu itinerário. Parece ter ido primeiro ao Egito, onde se escandalizou um tanto vendo a casta sacerdotal dirigente afirmar que a Grécia ainda era um país infante, não podendo pois ser levada a serio por aqueles misteriosos “pundits” do Nilo; mas nada educa tanto como esses choques -  e bem vivida ficou em sua memória  a lembrança daquela casta a reger teocraticamente um povo agrícola estacionário; essa recordação iria influir na sua Utopia. Em seguida velejou para a Sicília e a Itália, onde conviveu algum tempo com os sectários da escola fundada pelo grande Pitágoras; seu espírito impressionável também recebeu fundos vincos daqueles homens que se isolavam dos demais para darem-se ao estudo e governar, vivendo com simplicidade apesar de terem nas mãos as rédeas do poder.

Platão peregrinou doze anos, impregnando-se da sabedoria de todas as fontes, prostrando-se ante todos os altares e provando de todas as crenças. Querem alguns que tenha chegado a Judéia, onde por algum tempo se influenciou com as tradições daqueles profetas quase socialistas; e mesmo que se haja  dirigido as margens do Ganges, ai conhecendo as meditações místicas dos hindus. Mas não há certeza.

Regressou para Atenas em 387 a.C; era então homem de quarenta anos, de espírito amadurecido pela visão da variedade de povos e pela sabedoria das muitas terras perlustradas. Perdera um pouco do ardente entusiasmos juvenil, mas adquirira a perspectiva intelectual que faz apreciar cada extremo como uma semi-verdade, e os muitos aspectos de cada problema como outras facetas da verdade. Platão tinha saber, e também arte; por uma vez ao menos, um filosofo e um poeta fundiram-se em uma só alma; e criou para si um meio de expressão em que a beleza e a verdade se davam mãos – o dialogo.

Supomos que nunca antes dele tenha a filosofia assumido tanto brilho, nem também depois dele. Mesmo traduzido, seu estilo é todo centelhas e efervescência. ‘Platão’, disse um de seus admiradores, Shelley, “casa e lógica cerrada e sutil com o arroubo típico da poesia; funde-os no esplendor de seus períodos em irresistível torrente musical, que nos empolga o espírito em impetuosa irrupção”. [1] Citado por Barker, Teoria Política dos Gregos, Londres, 1918, pág.5.  Não foi inútil ter o jovem filosofo começado como escritor dramático.

A dificuldade de compreender-se Platão reside nesta embriagadora mescla de filosofia e poesia, de ciência e arte; nem sempre poderemos dizer em que caráter fala o autor do dialogo, nem de que modo; se diz literalmente as coisas ou se fala por metáforas; se graceja ou fala sério. Seu amor ao gracejo, a ironia e ao mito deixa-nos por vezes desorientados; quase poderíamos dizer a seu respeito que ensina exclusivamente por parábolas. “poderei, sendo mais velho, falar a vós, que sois moços, por meio de parábolas e mitos?” pergunta o seu Protágoras [1]Protágoras,320. Estes diálogos, já dissemos, foram escritos por Platão para o comum dos leitores daqueles tempos: por seu método de debate, pela viva disputa dos prós e contras, gradual desenvolvimento e freqüente repetição de cada argumento, vê-se claro que eram adaptados [por mais obscuros que hoje nos possam parecer] a compreensão do homem para quem a filosofia é como um luxo ocasional e que, pela brevidade da vida, é compelido a ler correndo. Encontramos por isso nesses diálogos muita coisa para recrear, muita metáfora e numerosas coisas só inteligíveis para os doutos versados nas particularidades sociais e literárias dos tempos de Platão; muitas coisas, ainda, que hoje parecem insignificantes e fantasiosas, mas que poderiam perfeitamente constituir delicioso adubo para tornar digerível a espíritos não afeitos a tais iguarias o pesado prato filosófico.

Confessemos, igualmente, que Platão possui em suficiente copia as qualidades que condena. Arremete contra os poetas e mitos e aumenta o numero daqueles com mais um, e o de mitos com centenares de outros. Deplora haver sacerdotes que se vão correndo terras a falar sobre o inferno e a oferecer a redenção em troca de alguma dádiva [confronte-se com A Republica, 364], mas é ele por sua vez um sacerdote, um teólogo, um pregador, um super-moralista, um Savonarola a malsinar a arte e a receitar a fogueira para as vaidades do mundo. Reconhece, como Shakespeare, que “as comparações são resvaladias” [O Sofista, 231], mas resvala a cada passo em comparações sucessivas; anatematiza os sofistas como discutidores, mascates de frases, mas não se põe fora de maltratar a lógica como um calouro.

Faguet parodia-o: “O todo é maior que a parte? – Certamente. E a parte é menor que o todo? Sim...E claro, por conseqüência, que os filósofos deveriam governar a Nação. – Por que? É evidente; se quiser, repitamos a argumentação” [2]. Para se ler Platão, Paris, 1905, pág.4.

Mas isto é o pior que se possa dizer dele; e apesar de tudo os Diálogos continuarão um dos mais inapreciáveis tesouros do mundo [3].Os diálogos mais importantes são: Apologia de Sócrates, Criton, Fedon, O Banquete, Fedra, Gorgias, Parmênides e o Estadista. As partes mais importantes de A Republica [as referencias são as secções numeradas as margens e, não, as paginas] São 327-32, 336-77, 384-5, 392-426, 441-76, 481-3, 512-20, 572-94. A melhor edição é a de Jowett; o mais necessário está na Coleção Everyman. Quando não se menciona o dialogo, as referencias são a obra.O melhor deles, A Republica, é, só por si, um tratado completo; é Platão condensado em um livro; nele encontraremos sua metafísica, sua teologia, sua ética, sua psicologia, sua pedagogia, sua política e sua teoria da arte. Encontraremos problemas de sabor moderno e contemporâneo: comunismo e socialismo, feminismo, anticoncepcionismo; eugenia, os problemas de Nietzsche sobre a moralidade e aristocracia, os de Rousseau sobre o retorno a natureza e educação livre, o ‘elan vital’ de Bérgson e a psicanálise de Freud – tudo. Para a elite é um banquete oferecido por generoso anfitrião. “Platão e a filosofia é Platão”, diz Emerson; e aplica A Republica a frase de Omar sobre o Alcorão: “Queimem-se as bibliotecas, pois o que elas tem valioso encontra-se neste livro” [1]Homens Representativos , pg.41.

Passemos a examinar A Republica.

O PROBLEMA ÉTICO
Agrava-se a discussão em casa de Cefalo, um aristocrata, rico. Fazem parte do grupo Glauco e Adeimanto, irmão de Platão e Trasimaco, sofista rabugento e irritadicço. Sócrates, que representa Platão no dialogo, pergunta:

“Qual consideras o maior beneficio que tens colhido da riqueza?”

Cefalo responde que a riqueza é para ele um beneficio, principalmente por lhe facultar ser generoso, honesto e justo. Sócrates, com sua maneira ardilosa, pergunta-lhe o que entende por justiça. E dessa forma, eis livres da trela os cães da luta filosófica. Pois nada é tão difícil como definir, nem pode haver melhor prova e exercício para a clarividência e aptidão intelectual. Sócrates acha fácil destruir uma a uma as definições que lhe são propostas, até que afinal Trasimaco, menos paciente que os outros, prorrompe num rugido.

“Que mania é essa, Sócrates? Que gosto de dar rasteiras? Se queres uma definição de justiça, responde em vez de perguntar, sem te envaidecerdes com o refutar os outros... Pois muitos há que podem perguntar, mas não sabem responder” 

Sócrates não se atemoriza; prossegue mais a perguntar que a responder; e após breve escaramuça provoca o descuidado Trasimaco a aventurar-se a uma definição:

“Ouve, diz o iroso sofista;  eu proclamo que a força é o direito, e que a justiça é o interesse do mais forte. As varias formas de governo, democrática, aristocrática, ou autocratica, ditam leis tendo em vista seus respectivos interesses; e estas leis assim feitas para servir a seus interesses apresentam-nas aos súditos como sendo ‘justiça’ e punem como culpados os que as transgridem...Estou a referir-me a injustiça em grande escala; e minha idéia se verá mais patente na autocracia, que pela fraude e pela força arrebata a propriedade alheia, não a retalho, mas a geral. Quando um homem toma o dinheiro dos cidadãos e escraviza-os, é considerado – em vez de fraudador e larapio – um benemérito.

Os que censuram a injustiça fazem-no movidos pelo receio de lhe sofrer as conseqüências – mas os censores não teriam escrúpulo em praticá-la”. [338-44].

Esta, aliás, é a doutrina a que hoje se associa mais ou menos o nome de Nietzsche. “Ri-me muitas vezes dos aleijados que se julgam bons pela razão de serem coxos” [1]Assim Falou Zaratustra, Nova York, 1906, pág.166. Stirnem exprimiu concisamente a mesma idéia ao dizer que ‘a mão cheia de poder é preferível ao saco cheio de direito”. Talvez em nenhuma filosofia fosse essa doutrina melhor formulada do que pelo próprio Platão em outro dialogo, Gorgias [483f], onde o sofista Calicles increpa a moralidade de ser uma invenção dos fracos para neutralizar o poder dos fortes.

Eles distribuem louvores e censuras conforme o convenha aos seus interesses pessoais; dizem que a desonestidade é uma vergonha e injusta – classificando a desonestidade o desejo de ter mais que o vizinho. Como reconhecem a própria inferioridade, pugnam pela igualdade... Mas se existisse algum homem dotado de suficiente poder [aqui figura o Super-Homem], romperia as peias e se libertaria de tudo; calcaria aos pés as nossas formulas e sortilégios e encantamentos e todas as nossas leis que pecam contra a natureza...Quem realmente vive, permite que os próprios desejos se expandam ao Maximo e então terá coragem e inteligência bastantes para satisfazê-los, bem como a todas as suas fantasias. Afirmo serem estas a justiça e a nobreza verdadeiramente naturais. Mas a maioria dos homens não é dado possuí-las; por isso censuram os que o podem, pejando-se da própria inaptidão, que desejam ocultar; daí o falarem em vis descomedimentos...Eles escravizam as naturezas mais nobres e enaltecem a justiça pela mera razão de serem covardes.

Esta justiça baseia-se em moral não de homens, mas de lacaios [oude par andros all dou tinos]; em moral de escravos e não de heróis; as verdadeiras virtudes de um homem são a coragem [andréia] e a inteligência [phronesis] [2]Gorgias, 491; confronte-se com a definição de Machiavelli, de virtude, como cinteligencia associada a força.

Talvez este rígido ‘imoralismo’ refletisse o desenvolvimento do imperialismo na política exterior de Atenas e seu modo cruel de tratar os países mais fracos. [1]Barker, pág. 73. “Vosso império”, diz Péricles pela boca de Tucidides, ‘baseia-se mais na vossa própria força do que na boa vontade de vossos súditos”. E o mesmo historiador refere-se aos mensageiros atenienses que forçaram Melos a aliar-se a Atenas na guerra contra Sparta:”Sabeis tanto como nós que só se cogita de direitos quando existe igualdade de poder; os fortes fazem o que podem fazer e os fracos suportam o que podem suportar” [2]Historia da Guerra Peloponesica, v.105.Temos aqui o problema fundamental da ética, o pivô da Teoria do Procedimento Moral. Que é Justiça? Devemos aspirar a retidão ou ao poder? Melhor é ser bom ou ser forte?

De que modo Sócrates – isto é, Platão – enfrenta o dilema? Primeiramente, não o enfrenta. Declara ser a justiça uma relação entre indivíduos, dependente da organização social que, por conseqüência, pode ser estudada melhor como parte da estrutura da comunidade, do que como elemento do procedimento pessoal. Se nós pudermos representar um estado justo – sugere ele – estaremos em melhor posição para retratar um individuo justo. Platão desculpa-se desta digressão alegando que, assim como pomos a prova a divisão de um homem fazendo-o ler primeiro caracteres maiores e, depois, menores, mais fácil é analisar a justiça em grande escala do que na escala exígua do procedimento individual. Mas não nos iludamos; a verdade é que o Mestre pretende unir dois livros um ao outro e se utiliza daquele argumento como de uma ‘costura’. Não só deseja discutir os problemas da moral individual, como também os da reconstrução social e política. Tem engatinhada sua Utopia e está resolvido a apresentá-la. Perdoado seja, pois tal digressão constitui a alma e o valor do livro.



O PROBLEMA POLÍTICO
Seria coisa simples a justiça, diz Platão, se os homens fossem simples; bastaria a pratica de um comunismo anarquista. Por um momento ele deixa a imaginação erguer vôo:

“Consideremos, então, primeiro, qual seria o meio de vida do homem...Não produziriam eles cereais, vinho, roupas, calçado e não construiriam casas para si mesmos? E depois de alojados trabalhariam no verão levemente vestidos e de pés descalços, mas no inverno com roupas próprias e bem calçados Alimentar-se-iam com cevada e trigo, cozendo este com farinha sob forma de nobres bolos e pães; servi-los-iam em esteirinhas de palha ou em folhas largas, reclinando-se em leitos de ramos de teixo ou murta. E se regalariam com seus filhos, bebendo o vinho de seu fabrico, as cabeças cingidas de grinaldas e com louvores aos deuses nos lábios; fruiriam suave convívio e teriam o cuidado de que a prole não excedesse seus meios de subsistência, pois ao perderiam de vista a possibilidade da pobreza ou da guerra... Regalariam naturalmente o paladar com outras coisas – sal, azeitonas, queijo, cebolas, couve e tantas ervas próprias para serem cozidas e dar-lhes-iamos como sobremesa figos, legumes, frutas do mirto e da faia,que eles assariam ao fogo; e beberiam com moderação. Com um tal passadio poderiam chegar a idade avançada e transmitir a sua descendência esse modo de viver. [372]”.

Observe-se aqui a referencia a limitação da família [pelo infanticídios, presumivelmente], ao vegetarianismo e a um ‘retorno a natureza’, a primitiva simplicidade do Jardim do Éden, descrita pela lenda hebraica. Tudo isto reflete as idéias de Diógenes o Cínico, o qual, como significa seu epíteto, achava que devíamos ‘tornar a ser como os animais, que vivem tranqüilos e sabem refrear-se tão bem’; e durante alguns momentos sentimo-nos inclinados a colocar Platão junto a St. Simon, Fourier, Willian Morris e  Tolstoi. Mas Platão é um pouco mais cético do que estes homens de boa-fé e passa calmamente a perguntar: Por que nunca se vê um paraíso como o descrito por ele? Por que nunca surge no mundo o país da Utopia?

E responde: por causa da cobiça e do amor ao luxo. Os homens não se contentam com a vida simples: domina-os a ganância, a ambição, a inveja, a rivalidade; logo se aborrecem do que possuem a anseiam pelo que não têm; e raro desejam coisa que não pertença a outrem. Disso resulta um grupo invadir o território de outro, degladiarem-se pela posse dos recursos do solo e depois empenharem-se em guerras. O incremento do comercio e das fortunas acarreta novas divisões de classes. “Qualquer cidade desdobra-se em duas, a dos pobres e a dos ricos – em luta, as duas, uma com a outra; e em cada divisão existem subdivisões menores – por isso, muito nos enganaríamos se as tratássemos como unidades perfeitas [423]. Surge uma burguesia comerciante, cujos membros procuram galgar posições sociais a força de dinheiro:”Eles despendem grandes quantias com suas mulheres” [548].Estas mudanças de fortuna originam transformações políticas; quando a riqueza do negociante ultrapassa a do proprietário de terras, a aristocracia cede o lugar a uma oligarquia plutocrática – e são os ricos negociantes e os banqueiros ricos que passam a governar o país. E então a arte de governar, que é a coordenação das forças sociais e a adequação do governo ao desenvolvimento nacional, é substituída pela política, no sentido vulgar, que é a estratégia dos partidos e o anseio pela posse dos benefícios públicos.

Todas as formas de governo tendem a morrer pela hipertrofia de seu principio básico. A aristocracia arruína-se restringindo demais o circulo em que o poder se acha confinado; a oligarquia perde-se pela imprudente ambição do enriquecimento imediato. Em ambos os casos o desfecho é a revolução. Ao sobreviver a revolução, parece esta dimanar de pequenas causas e caprichos; mas embora possa surgir de pequenas causas, já é verdadeiramente o resultado da acumulação de graves males; quando um corpo se acha enfraquecido por moléstias cujo tratamento descuramos, a mais simples exposição as intempéries pode produzir sérias conseqüências [556]. “Surge então a democracia; os pobres triunfam sobre seus contrários, matando parte, exilando o resto e dando ao povo quinhões iguais de liberdade e poder” [557].

Mas a própria democracia arruína-se pela hipertrofia de si própria. Seu principio fundamental é ser igual o direito de todos  de ocupar os cargos públicos e influir no exercício do poder.

A primeira vista, é uma idéia atraente; torna-se, porém, desastrosa, porque o povo não está convenientemente preparado pela educação para escolher os melhores chefes de governo e os mais sábios métodos de governar [558]; é inteligente e limita-se a repetir o que ouve dos seus dirigentes [Protágoras, 317]: para tornar uma doutrina aceita ou recusada, basta que a elogiem ou ridicularizem em uma peça popular [alusão, sem duvida, a Aristocracia, cujas comedias atacavam quase todas as idéias novas]. A soberania do povo é para a nau do Estado um mar encapelado; cada rajada oratória acastela as águas, desviando-a do roteiro. O remate de uma tal democracia é a tirania ou a autocracia; como as turbas amam a lisonja e são ‘famintas de mel’ surge afinal o mais vil e inescrupuloso dos lisonjeiros que, proclamando-se ‘protetor do povo’, galga o poder supremo [565]. [Considere-se a historia de Roma].

Quanto mais Platão medita a este respeito, mais se admira da loucura de confiar-se ao capricho e a credulidade das multidões a escolha dos dirigentes nacionais -  para não falarmos na obtenção dos postos pelos estrategistas servidores da riqueza, que, da sombra, atrás dos bastidores do palco democrático, movem os cordões da oligarquia.

Lastima-se Platão de que, apesar de em coisas mais simples -  como a fabricação de calçados – entendermos que só a pessoa exercitada neste oficio pode fazer o que precisamos, presumimos, em política, que todos os que sabem apanhar votos estão habilitados e reger uma cidade ou um país. Achando-nos doentes, mandamos chamar um medico bem pratico, cujo diploma é garantia de seus conhecimentos especializados e competência técnica; não reclamamos a presença do mais belo ou mais eloqüente clinico; da mesma forma, quando o estado se acha totalmente enfermo não deveríamos reclamar os serviços e a orientação dos mais sábios e melhores?

Descobrir o meio de impedir que a incompetência e a improbidade se instalem nos cargos públicos e de selecionar e preparar os melhores para governar em beneficio da comunidade – eis o problema da filosofia política.

O PROBLEMA PSICOLÓGICO
Mas atrás destes problemas políticos está a natureza do homem; para compreendermos a política, precisamos, infelizmente, conhecer a psicologia humana. “Tais homens, tais estados” [575]; os governos variam de acordo com a variação do caráter dos homens...os estados são conformados pela natureza humana existente neles” [574]; o estado é o que é, porque os cidadãos são o que são. Conseguintemente, não esperemos ter melhores estados enquanto não tivermos melhores homens; até lá, todas as mudanças deixarão as coisas essenciais na mesma. “Como são interessantes os povos! Sempre a serem medicados, e mesmo assim a verem aumentadas e complicadas as suas desordens; imaginando poderem curar-se com panacéias que qualquer pessoa aconselha e, em vez de melhorar, pioram sempre...Não são engraçados em sua fúria legislativa, a acreditar que com reformas porão termo a desonestidade e maroteira do gênero humano – e ignorando que na realidade estão a cortar as cabeças sempre renascentes da hidra? [425].

Examinemos por alguns momentos o material humano que a filosofia política deve manipular.

O procedimento humano, diz Platão, deflue de três fontes principais: desejo, emoção e conhecimento. Desejo, apetite, impulso, instinto – constituem uma delas; emoção, entusiasmo, ambição, coragem – outra;conhecimento, pensamento, inteligência, razão – a terceira.

O desejo tem a sede nos rins; é um reservatório repleto de energia fundamentalmente sexual. A emoção tem por sede o coração, o fluxo e a força do sangue; é a ressonância orgânica da experiência e do desejo. O conhecimento tem por sede a cabeça; é o olho do desejo e pode tornar-se o piloto da alma.

Estes poderes e faculdades existem em todos os homens, mas em diversos graus. Alguns são a corporificação do desejo; almas inquietas e gananciosas, absorvidas por preocupações materiais e lutas, ansiando pela opulência e ostentação e sempre julgando nada o que conseguem em comparação com o que aspiram -  são estes os homens senhores da industria. Mas há outros que são templos de sentimentos e de coragem, não se preocupando tanto com a causa pela qual combatem, como pela vitória ‘em si e por si mesma’; tem animo mais pugnaz que ganancioso; orgulham-se mais com o poder do que com a posse das riquezas, e se sentem mais contentes no campo de batalha do que no mercado: são os militares. Existem outros, finalmente, cujo prazer se encontra na meditação e na compreensão; não desejam bens materiais, nem vitórias e, sim, o saber; abandonam tanto os campos de batalha como os mercados para insular-se no sereno resplendor da meditação; sua vontade é mais luz do que fogo e sua aspiração suprema não é o poder e sim atingir a verdade; são os homens de sabedoria, que se quedam a parte, desaproveitados pelo mundo.

Ora, como na ação individual o desejo, embora aquecido pela emoção, é guiado pelo conhecimento, assim num estado perfeito as forças industriais deverão produzir mas não governar; as militares deverão proteger, mas igualmente não dirigir; quanto as outras, versadas em ciência e filosofia, deverão ser sustentadas e protegidas, competindo-lhes  governar. Não orientado pelo saber, o povo é uma multidão desordenada, semelhante a desejos em tumulto; necessita ser guiado pelos filósofos, assim como os desejos requerem a luz do conhecimento. “Sobrevêm a ruína quando assume o governo o mercador cuja ambição cresceu com as suas riquezas [434]; ou quando o general se utiliza de seu exercito para estabelecer a ditadura militar. O produtor fica melhor no campo econômico e o combatente, no campo de batalha; ambos se sentirão deslocados na direção do país porquanto em suas rudes mão sossobra a arte de governar, transformando-se em baixa política. Governar é uma ciência e uma arte; o governante deve dedicar a vida a esse fim, depois de longa preparação. Só um rei filosofo está apto a dirigir uma nação. Enquanto os filósofos não forem reis ou reis e príncipes deste mundo não tiverem filosofia de modo que sabedoria e a aptidão para governar se encontrem reunidas no mesmo homem... não terminarão os males da cidade nem da raça humana” [473].

Esta é a chave da abobada do pensamento de Platão.

A SOLUÇÃO PSICOLÓGICA
Que devemos, então, fazer?
Primeiro, ‘enviar para o campo os habitantes da cidade com mais de dez anos, e apossar-nos dos de menor idade para os preservarmos de contrair os hábitos dos pais’.[540]. Não podemos criar o reino da Utopia com moços que vão sendo corrompidos pelos exemplos dos mais velhos. Devemos fazer, de começo, tabula rasa, tanto quanto estiver em nosso alcance. É perfeitamente possível que algum governante esclarecido nos faculte dar começo a esta realização em alguma parte ou colônia de seus domínios. [Um soberano o fez conforme veremos]. Em todos os casos deve-se dar as crianças, desde o principio, completa igualdade de possibilidades educativas; impossível prever onde vai surgir a luz do talento ou do gênio; devemos procurá-la por toda a parte, imparcialmente, em todas as raças e classes sociais. O primeiro passo no caminho a trilhar é a educação generalizada.

Até os dez anos deve a educação ser predominantemente física; todas as escolas terão ginásio e campo de jogos; jogos e desportos preencherão todo o ‘curriculum’. A saúde adquirida nessa primeira década tornará desnecessária a medicina.

“Não é uma desgraça ter de invocar o auxilio da medicina, por terem os homens, com a vida de ociosidade e luxo, se enchido de flatulência e catarros?...Pode-se dizer que nossos atuais processos curativos são mais para educar moléstias”, para prolongar-lhes a duração, do que para sará-las. Mas isto é um absurdo só próprio para ricos ociosos. “Quando um carpinteiro adoece, pede ao medico um meio de pronto efeito curativo – um vomitório, um purgante, um vesicatorio ou o emprego do escalpelo. Se algum medico lhe disser que precisa seguir um regime e enfaixar-se todo e envolver a cabeça em panos e outras coisa que tais, responderá que não tem tempo para ficar doente e que não vê utilidade alguma em uma vida passada a alimentar a moléstia, com prejuízo das ocupações ordinárias; por isso, voltando as costas a essa espécie de médicos, retoma seu habitual modo de vida e, ou sara e continua a dar-se ao trabalho, ou morre e tudo está terminado” [405-6]. Não podemos tolerar uma ação de mamparreadores e inválidos;  a Utopia deve começar com o corpo do homem.

Mas simples exercícios ginásticos desenvolvem muito a unilateralidade das aptidões. “Como encontrar um homem de natureza delicada que seja também dotado de grande coragem, já que essas qualidades parecem incompatíveis? [375]. Não queremos uma nação de ganhadores de prêmios de luta ou de erguedores de pesos. Talvez a musica resolva nosso problema; as almas, por meio dela, adquirem harmonia e ritmo e até mesmo propensão a justiça; pois  “poderá aquele que é harmoniosamente constituído ser injusto? E esse grande poder da educação pela musica não é devido, Glauco, a razão de penetrarem o ritmo e a harmonia nos recônditos da alma, dando graça aos impulsos desta e tornando-a graciosa?” [401;Protágoras, 326]. A  musica modela o caráter, contribuindo assim para o bom êxito social e político. “Disse-me Damon, e creio-o firmemente, que quando a musica muda, também se mudam com ela as leis fundamentais do estado” [1] Cf. Daniel O’Connel:”Deixem-me escrever as canções de uma nação, que não me preocuparei com quem lhe fizer as leis”.

Não só é valiosa a musica por apurar o sentimento e o caráter, senão também porque conserva e restabelece a saúde. Existem enfermidades que se podem apenas curar por meio de espírito [Carmides, 157]; tanto é verdade, que o sacerdote coribantico tratava mulheres histéricas por meio de melodias da flauta, que as excitavam a dançar até caírem exaustas e dormirem; ao despertarem viam-se curadas. As fontes inconscientes do pensamento humano são por esse meio atingidas, e seus males, aliviados; e é neste substractum do proceder e do sentir que o gênio enterra suas raízes. “Nenhum homem no estado consciente chega a intuição da verdade ou alcança a inspiração, e sim quando o poder da inteligência é estimulado pelo sono, pelas moléstias ou pela demência”; o profeta [mantike] ou o gênio é aparentado com o louco [manike] [Fedro, 244].

Platão passa em seguida a expor uma notável antecipação da psicanálise. Nossa psicologia política, diz ele, sente-se perplexa pelo não havermos cumpridamente estudado os vários apetites e instintos humanos. Os sonhos podem proporcionar-nos a chave de algumas das mais sutis e fugidias destas disposições.

Certos desejos e instintos são considerados como legítimos; revelam-se, ao que parece, em todos homens; mas em muitos estão submetidos ao domínio da lei e da razão [“sublimados”], e como instintos e desejos de ordem mais elevada prevalecem sobre eles, são eles totalmente suprimidos, ou quebrados em sua força e número; em outros homens esses desejos se revelam abundantes e fortíssimos. Refiro-me aos desejos que despertam quando o poder raciocinante e diretor da personalidade está adormecido [“censura”]; o anima selvagem que temos em nós, só alimentado de materialidades, sai do seu antro e dá largas a sua vontade; não existe crime ou loucura, por mais vergonhosa e anti-natural – como o parricídio e o incesto [“complexo de Edipo”], que tais naturezas  não cometeram. Mas quando o homem está em sadio equilíbrio e vai dormir sob o sereno domínio de sua razão... tendo satisfeito sem excessos seus apetites de modo a adormentá-los da sua razão...está ele com poucas probabilidades de fazer-se joguete de visões desordenadas... Em todos nós, ainda nos de melhor natureza, subsiste a fera que durante o nosso sono abre os olhos e espia [571-2].

A musica e a cadencia emprestam graça e saúde tanto a alma como ao corpo; todavia, o excesso de musica é prejudicial, assim como a demasia de esportes. Ser simplesmente atleta é quase ser um selvagem – e ser-se meramente musico é “dissolver-mo-nos e abrandarmo-nos além do conveniente”. Devem combinar-se as duas coisas; depois dos dezesseis anos, abandonar-se a pratica individual da musica, embora os cantos corais, bem como os jogos comunais, devam continuar por toda a duração da vida. Nem a musica será simplesmente musica; deveremos usá-la para dar atrativo ao estudo as vezes desagradável das matemáticas, da historia e da ciência; não há razão para que não suavizemos estes difíceis estudos para os jovens, apresentando-os em forma de versos e aformoseando-os em cantos. Mesmo assim, não se devem ensinar a força estas matérias aos que não queiram aprendê-las; dentro de certos limites convêm prevalecer o espírito de independência.

Os primeiros elementos da instrução...devem ser apresentados ao espírito durante a infância, mas não compulsoriamente, pois um homem livre tem que ser livre também na aquisição de conhecimentos. Os conhecimentos adquiridos pela coação não se fixam na mente. Em conseqüência, não devemos empregar a coação e sim transformar a primeira educação em uma espécie de divertimento; isto nos habilitará melhor a descobrir a propensão da criança [536].

Com os espíritos a se desenvolverem assim livremente e os corpos robustecidos pelos desportos e por toda a espécie de atividade ao ar livre, nossa condição ideal teria base psicológica e fisiológica com solidez e amplitude bastantes para favorecer todas as possibilidades e desenvolvimentos. Mas também é necessária a base moral; os membros da comunidade devem constituir uma unidade, aprender que são partes integrantes uns dos outros e se devem mutuamente em certas atenções e deveres.

Mas se os homens são de seu natural gananciosos, invejosos, belicosos e eróticos, como os persuadiremos a proceder bem? Pelo onipresente bastão da policia? É um método brutal, caro e irritante. Muito melhor levá-los aos predicados para a vida em sociedade por meio da sanção de uma autoridade sobrenatural. Devemos ter uma religião.  

Platão acredita que sem a crença em Deus nenhuma nação pode ser forte. Uma simples força cósmica, ou primeira causa, ou ‘élen vital’, qualquer coisa não dotada de personalidade, não poderia incutir esperança, nem inspirar devoção e sacrifício; seria inapta a confortar os corações sofredores e a alentar as almas cheias de tribulações. Mas um  Deus vivo pode fazê-lo e ainda servir de freio para os egoístas moderarem sua cobiça e dominarem as próprias paixões. Ótimo que a esta crença em Deus se acrescente a crença na imortalidade individual; a esperança de outra vida nos dá coragem para suportar a idéia da nossa morte e da dos seres a quem amamos; e estaremos duplamente armados se combatermos com fé.

Mesmo que a verdade de nenhuma crença pudesse ser demonstrada; que Deus, no fim de contas, não fosse mais que a personificação ideal de nosso amor ou de nossa esperança e que a alma fosse como a musica da lira, que não mais se deixa ouvir quando se quebra o instrumento que a produz: é certo, mesmo assim [tal o argumento, no Fedon, semelhante ao de Pascal], que o crer não nos traria prejuízo e poderia fazer-nos imenso bem, a nós e a nossos filhos.

Pois teríamos provavelmente muito trabalho com estes nossos filhos se procurássemos explicar e justificar todas as coisas a seus espíritos simples. Particularmente difícil será para nós a ocasião em que atingirem a idade de vinte anos e tiverem de por a prova o que aprenderam nos anos de educação comum. Sobreviverá então um implacável joeirar a Grande Prova Eliminatória, se assim nos pudermos exprimir. Esta prova não equivalerá a meros exames acadêmicos; revestir-se-á de caráter tão pratico como teórico; terão de fazer trabalhos penosos e de entrar em determinadas competições [413]. A toda espécie de habilidade se dará ensejo de manifestar-se, e todas as inaptidões serão pesquisadas e postas em relevo. Aos que tiverem maus existo serão confiados os trabalhos econômicos da nação; tornar-se-ão negociantes, empregados, operários, agricultores. As provas deverão ser imparciais e impessoais; não mais a oportunidade, o favoritismo ou o nepotismo determinarão que alguém deva ser lavrador ou filosofo; a seleção será mais democrática do que a democracia.

Os vitoriosos nestas primeiras provas receberão mais dez anos de educação e treino de corpo, espírito e caráter. Em seguida terão de enfrentar segundas provas muito mais rigorosas. Os malogrados tornar-se-ão auxiliares ou subalternos da administração publica e da milícia. É justo, porém, que nesta grande seleção recorramos a todos os meios para persuadirmos delicada e pacificamente os malogrados a conformarem-se com o seu destino. E qual o meio de evitar que a grande maioria dos excluídos na primeira prova, e que os em menor numero, porém mais vigorosos da segunda, empunhem armas e destruam o nosso País da Utopia? Como evitar que fundem uma sociedade que de novo seja governada meramente pelo numero ou pela força, e reproduza ‘da capo ad nauseam’ a comedia de uma vergonhosa democracia? A salvação residirá na religião e na fé: diremos a esses jovens que a divisão de classes é irrevogável decreto divino – e todas as suas lagrimas não nos levarão a voltar atrás. Contar-lhes-emos então o mito dos metais:

Cidadãos, sois irmãos, porém Deus vos formou diversamente. Alguns de vós tendes o poder da dominação e esses ele fez de ouro, razão pela qual lhe são devidas as maiores honras; a outros fez de prata, para serem os auxiliares dos primeiros, e outros, destinados a agricultores e artífices, fez de bronze e de ferro. Mas sendo vós da mesma família original, um pai de ouro pode ter um filho de prata; ou um pai de prata, um filho de ouro. E Deus ordena...que se o filho de um pai de ouro ou de prata mostrar alguma liga de bronze ou ferro, sua natureza exigirá uma transposição de classe; e o governante não se deverá apiedar de seu filho por haver descido de categoria para tornar-se agricultor ou artífice; contrariamente, os filhos destes podem ascender a classes mais nobres e tornarem-se dirigentes ou auxiliares do governo. Pois diz um oráculo que, se um homem de bronze ou de ferro assumir a soberania, o estado será destruído”. [415]

Talvez com esta excelente fabula asseguremos um geral assentimento a execução do nosso plano.

Mas, agora, que será feito desses felizes restantes que vencem nessas sucessivas eleições? Entram a educar-se em filosofia. Já atingiram a idade de trinta anos; não seria de bom aviso deixá-los “provar muito cedo o querido passatempo... pois os moços, ao sentirem na boca, pela primeira vez, o gosto da filosofia, passam a discutir por divertimento e estão sempre a abjetar e a refutar...como cãezinhos novos que se regalam a puxar e estraçalhar com os dentes tudo quanto lhes fica ao alcance. [539]. Este querido passatempo, a filosofia, significa principalmente duas coisas: pensar com clareza, e isto é metafísica; e governar sabiamente, e isto é política. Pensar com clareza é, portanto, a primeira coisa que deve aprender a nossa jovem elite. Para este fim estudará a doutrina das Idéias.

Mas esta celebre doutrina das Idéias, embelezada e obscurecida pela fantasia e pela poesia de Platão, é um desalentador labirinto para os estudantes modernos e deveria constituir outra difícil prova pra os vitoriosos nas depurações anteriores. A Idéia de uma coisa pode ser a ‘idéia geral’ da classe a que a coisa pertence [a Idéia de João, Manuel ou Pedro é Homem]; ou pode ser a lei ou leis de acordo com a qual ou com as quais a coisa procede [a Idéia de João seria a redução de toda a sua conduta a ‘leis naturais’], ou pode, ainda, ser o perfeito fim ou perfeito ideal para o qual possam tender a coisa e a sua classe [a Idéia de João é o João da Utopia]. Mui provavelmente a Idéia é tudo: é idéia, lei e ideal.

Atrás da superfícies dos fenômenos e das coisas particulares que impressionam nossos sentidos, ficam as generalizações, a regularidade e a direção do evoluir, não percebidas como sensações mas concebidas pela razão e pelo pensamento. Estas idéias, leis e ideais são mais permanentes – e, por conseguinte, mais ‘reais’ – d que as coisas particulares percebidas pelos sentidos, sendo por meio destas coisas que as concebemos e deduzimos. Homem é mais permanente do que Manuel, Pedro ou João. Este circulo produzido pelo movimento do meu lápis desaparece com o passar a borracha, mas a concepção de Circulo perdura para sempre. Esta arvore está de pé e aquela arvore cai, mas as leis que determinam que os corpos caiam e o quando e o como caiam, não tiveram começo e nunca terão fim.

Existe, como diria o suave Spinoza, um mundo de coisas perceptíveis pelos sentidos e um mundo de leis inferidas pelo pensamento. Nós não vemos a lei da razão inversa nos quadrados, mas essa lei se manifesta em toda a parte; existia antes que alguma coisa material existisse e sobreviverá depois que o mundo das coisas materiais for como um romance que findou. Aqui está uma ponte; os sentidos percebem centenas de toneladas de cimento e ferro; mas o matemático vê na ponte, com o olhar do espírito, a ousada e delicada adequação daquele volume de material as leis da mecânica, das matemáticas e da engenharia, leis de acordo com as quais todas as boas pontes devem ser feitas; se o matemático for também um poeta, verá essas leis sustentando a ponte; se essas leis forem violadas, a ponte cairá: as leis são o Deus que mantêm a ponte no côncavo de sua mão.

Aristóteles sugere algo a este respeito ao dizer que por Idéias Platão entendia o que Pitágoras significava com a palavra “numero”, ao ensinar que este é um mundo de números [entendendo, provavelmente, com isto, que o mundo é regido pela Constancia e regularidade matemática]. Diz-nos Plutarco que, de acordo com Platão, “Deus sempre geometriza”; ou, pelo modo como Spinoza apresenta igual pensamento, Deus e as leis universais de estrutura  e a atuação são suma e a mesma realidade. Para Platão, assim como para Bertrand Russell, a matemática é, por isso, a indispensável introdução para a filosofia e sua mais alta forma; na testeira da porta de sua academia Platão inscreveu dantescamente, estas palavras: “Aqui não entram os ignorantes da geometria” [1].Os pormenores do argumento para a interpretação dada aqui da doutrina das Idéias podem ser lidos no Platão, de D.G.Ritche, Edimburgo, 1902,especialmente nas paginas 49 e 85.  

Sem estas Idéias – generalizações, regularidades e ideais  - o mundo se nos antolharia como se deve apresentar aos olhos de um recém-nascido, isto é, como acumulo de sensações particulares não classificadas e sem significação, pos é só classificando e generalizando as coisas e encontrando as leis de seus modo de ser e o objetivo de sua atividade que se pode dar significação as mesmas. O mundo sem Idéias seria como um acervo de títulos de livros não catalogados, em vez de figurarem esses títulos em ordem, de acordo com suas espécies, conexões e assuntos; seria como as sombras de uma caverna comparadas com a realidade exterior banhada pela luz do sol, que espanca as sombras enganadoras -514].Dai ser a essência de uma educação mais elevada a procura das Idéias – das generalizações, das leis de dependência e dos ideais de perfeição; atrás das coisas deveremos descobrir suas relações e significação, seu modo e suas leis de atuação, a função e o ideal que elas servem ou parecem servir; devemos classificar e coordenar a experiência de nossos sentidos de conformidade com sua lei e seu fim; pois unicamente a falta disto faz o espírito de um imbecil diferir do espírito de César.

E agora, após cinco anos de iniciação desta secreta doutrina das Idéias, desta arte de aprender formas significativas, seqüências causais e potencialidades ideais em meio ao acaso e ao tumulto das sensações; após cinco anos de aprendizado para a aplicação deste principio a conduta do homem e a direção dos estados; finda a longa preparação que foi da infância aos trinta e cinco anos – após tudo isso achar-se-ão esses perfeitos produtos da educação aptos a revestir-se da regia púrpura e a exercer  as mais altas funções da vida publica? Já são eles, enfim, os filósofos-reis que deverão governar e libertar a espécie humana.

Infelizmente ainda não! Sua educação acha-se ainda incompleta, visto que foi uma educação teórica; requer-se alguma coisa mais. Façamos agora estes doutores despencarem das alturas filosóficas para a “caverna” dos homens e das coisas; as generalizações e as abstrações não tem valor quando não comprovadas neste mundo concreto; deixemos nossos estudantes ingressar neste mundo sem os ajudarmos em coisa alguma; entrarão em competência com homens de negócios, com egoístas gananciosos e velhacos, com indivíduos poderosos ou sagazes; nesta arena de lutas aprenderão diretamente no próprio livro da vida; ferirão seus dedos e embaterão suas canelas filosóficas nas duras realidades da vida; ganharão o pão e a manteiga com o suor de suas nobres frontes. E esta ultima e mais penosa prova prosseguirá implacavelmente durante quinze anos. Alguns de nossos perfeitos produtos se alquebrarão sob tal peso e sossobrarão nesta derradeira e grande prova eliminatória. Os que sobreviverem cheios de cicatrizes e com cinqüenta anos, comedido e confiantes em si, despidos da vaidade intelectual pelo inexorável atrito da vida, e armados agora de toda a sabedoria que de colaboração podem proporcionar a tradição e a experiência, a cultura e a luta – estes homens, por fim, tornar-se-ão automaticamente os regentes do estado.

A SOLUÇÃO POLÍTICA
Automaticamente – sem nenhuma hipocrisia eleitoral, Democracia significa perfeita igualdade de oportunidade, especialmente em educação. Não se trata de rotação nos cargos públicos de todos os Jões, Manueis ou Pedros. Cada homem terá igual oportunidade de tornar-se apto para a complexa tarefa administrativa; mas somente os que deram provas de sua tempera [ou, como em nossa fabula, da qualidade de meu metal] e que demonstraram sua aptidão em todas as provas, podem ser escolhidos para a direção do estado. Os governantes não serão eleitos por votos, nem por secretas camarilhas que puxam os fios invisíveis da simulação democrática, mas por sua própria competência demonstrada na democracia fundamental de um povo de iguais. Nenhum homem poderá exercer cargos sem previa educação especializada nem ocupará os mais elevados antes de haver bem exercido os inferiores [Gorgias, 514-5].

Isto é aristocracia? Não devemos ter medo da palavra, se for boa a realidade que significar; as palavras não tem valor próprio, não passando de meros sinais; só valem dinheiro em caixa para os tolos e políticos. Queremos ser governados pelos melhores, e está é a significação de aristocracia. Não temos, a exemplo de Carlyle, reclamado ardentemente um tal governo? Mas isto nos leva a pensar na aristocracia hereditária; convêm notar que a aristocracia platônica não pertence a esta categoria; poderá até chamar-se uma aristocracia democrática. Em vez de o povo eleger as cegas o menor de dois males indicados como candidatos pelas respectivas facções, candidatas serão todas as pessoas que constituírem o povo, as quais terão oportunidades iguais de participar das ‘eleições educacionais’ para os cargos públicos. Não existem castas aqui: não se herdam quaisquer posições ou privilégios; os competentes nascidos pobres não se verão tolhidos de fazer carreira; o filho de um governante começa-a no mesmo nível em que os demais, com o mesmo tratamento e oportunidades que o filho de um engraxate; se o descendente do governador for um parvo, cairá na primeira depuração; e se o do engraxate tiver aptidões, abrir-se-á para ele caminho livre a cúspide do estado [423]. Para o talento, a carreira, seja qual for o nascimento. Esta democracia é cem vezes mais honesta e efetiva que a democracia dos pleitos eleitorais.

E assim, ‘deixando de lado quaisquer outros misteres, os guardiões do estado se dedicarão totalmente a manter a liberdade nacional, tornando-a sua ocupação e não se dando a outra atividade que não vise tal objetivo’[395]. Serão simultaneamente os poderes legislativo, executivo e judiciário; as próprias leis não lhes servirão de peias, como outros tantos dogmas, quando se modifiquem as circunstancias; a diretriz  dos guardiões será uma compreensividade ‘maleável’, não entravada pelos precedentes.

Mas como poderão homens de cinqüenta anos ter inteligência ‘maleável’? Já não se acham mentalmente modeladas pela rotina? Adeimanto [com o eco, sem duvida, de alguma calorosa disputa fraternal na casa de Platão] objeta que os filósofos são estúpidos ou desonestos e que governariam insensata ou egoisticamente ou dos dois modos a um tempo. “Os que se voltam a filosofia, consagrando-se a seu estudo não só na primeira juventude, tendo em vista educar-se, mas tomando-a como preocupação dos anos maduros – estes homens, em sua maior parte, se tornam seres excêntricos, para não dizer completos marotos; e o que resulta ainda para os considerados melhores, é tornarem-se inúteis para o mundo em virtude do mesmo estudo que vós exaltais’ [487].

Esta aí um bom retrato de alguns modernos que capam de filósofos; mas Platão retruca que obviou a esta dificuldade dando aos a educação da vida pratica, além da erudição teórica e que, conseguintemente, serão eles mais homens de ação do que meros intelectuais – homens sazonados para altos destinos, e de boa tempera pela grande experiência e pelas provas por que passaram.

Com a palavra filosofia Platão significa uma cultura ativa, uma sabedoria associada com as atividades pratica da vida; não pretende formar metafísicos de gabinetes, sem o traquejo do mundo; Platão ‘é o homem que menos se assemelha a Kant, o que implica dizemo-lo com todo o respeito, considerável mérito’ [1] Faguet, pág 10.

Isto no que se refere a incompetência; quanto a improbidade, preveni-la-emos estabelecendo entre os custódios do estado um sistema comunista:

Em primeiro lugar, nenhum possuirá bens, alem dos estritamente necessários; nem terão casas suas, com trancas e chaves nas portas, fechadas a soldados veteranos, homens de temperança e coragem; sua compensação será receber dos concidadãos determinada paga, suficiente para as despesas anuais e não mais que isso; terão refeições comuns e viverão juntos como soldados em acampamento. Quanto a ouro e prata, dir-lhe-emos que eles já os receberam de Deus; os mais nobres metais já se encontram neles e por isso não necessitam da escoria terrena a que damos o nome de ouro, não devendo poluir sua natureza mesclando-a a essa impureza terrestre, pois estas escorias tem sido as causadoras de muitas ações reprováveis, ao passo que o nobre metal da natureza deles se acha incontaminado. E dentre todos os cidadãos só eles não poderão tocar nem utilizar ouro ou prata ou ficarem sob teto em que esses metais existam, ou usá-los nos trajos ou beber em vasos feitos dos mesmos. E isto será sua salvação e a salvação do estado. Se, ao contrário, tivessem casas ou terras ou dinheiro próprios, tornar-se-iam zeladores desses bens, em vez de dirigentes da nação; inimigos e tiranos, em lugar de aliados dos outros cidadãos. Odiando e odiados, conspirando e sendo alvo de conspirações, passariam a vida temendo muito mais os inimigos internos do que os externos; e estariam sua queda e o desmoronamento da nação [416-17].

Estas medidas tornarão improficuo e, ao mesmo tempo, perigoso para os governantes regrem o país com uma facção que visa o beneficio de sua classe de preferência ao da comunidade considerada como um todo. Pois estarão resguardados contra penúria; para as necessidades e as modestas exigências de uma nobre vida terão o suficiente sem as atenazantes preocupações pecuniárias. Por esse mesmo talismã se preservarão da cupidez e das baixas ambições; terão sempre o bastante dos bens temporais, e não mais que isso; serão como médicos a prescrever e, ao mesmo tempo, a observar um regime dietético favorável a nação.

Comerão juntos, como os religiosos de um mosteiro,e juntos dormirão em barracas, como soldados em sua vida rude. Consoante Pitágoras, “os amigos devem ter tudo em comum” [Leis,807]. Deste modo purifica-se a autoridade dos detentores do governo e seu poder se tornará inócuo; suas únicas recompensas serão a estima publica e a consciência dos serviços prestados. E serão tais porque desde o começo concordaram deliberadamente em seguir uma carreira assim limitada materialmente e também porque ao fim daqueles rigorosos estágios aprenderam a ter em maior conceito a reputação de um estadista do que os rasteiros proventos dos políticos ou do ‘homem econômico’. Ao seu advento desaparecerão as lutas partidárias.

Que dirão porém suas esposas, sobre tudo isso? Estarão dispostas a renunciar aos requintes do luxo e as dispendiosas ostentações? Os governantes não terão esposas. Seu comunismo, em relação a mulher, será o mesmo respeitante aos bens materiais. Não somente estarão libertos do egoísmo próprio, como do egoísmo da família: não se deverão rebaixar a ansiosa sede de ganho dos maridos espicaçados pelas mulheres; não se deverão dedicar a uma certa mulher e sim a coletividade.

Até os próprios filhos deverão ser indiferençaveis: todos os filhos da casta governante serão, ao nascerem, tomados de suas mães e criados juntos, de modo que se perca o conhecimento dos parentescos particulares [466]. Todas as mães dessa casta cuidarão de todas as crianças; assim, a fraternidade humana se transformará de palavra em fato; cada menino será um irmão dos outros meninos, cada menina uma irmã, cada homem um pai e cada mulher uma mãe.
Mas donde provirão essas mulheres? Algumas, sem duvida, os zeladores do estado tirarão dentre as classes industriais ou militares; outras tornar-se-ão de direito mulheres desses homens públicos. Pois não há barreiras sexuais de qualquer espécie nessa comunidade e menos ainda na educação; dar-se-ão as meninas as mesmas oportunidades intelectuais que aos meninos, as mesmas probabilidades de elevar-se aos mais altos cargos públicos.

Quando Glauco objeta [453.f] que a admissão da mulher em algum cargo, dado que resista as provas todas, viola o principio da divisão do trabalho, recebe a viva replica de que essa divisão se atenderá a aptidão e a habilidade e não ao sexo; se a mulher mostrar capacidade para ocupar cargo publico, que o ocupe; e se algum homem unicamente se mostrar apto para lavar pratos, que exerça igualmente a função a que a Providencia o destinou.

A comunhão das mulheres não significa que as uniões se façam indiferentemente; deve, ao contrário, haver rigorosa previsão eugênica no ato da reprodução. Tem aqui seu ponto de partida o argumento, sempre repetido, baseado na seleção de animais: se obtemos tão bom resultado criando-os de modo a apurar as qualidades desejadas e escolhendo para esse fim só os melhores em cada geração, por que não aplicar semelhante principio aos humanos[459]? Pois não basta educar convenientemente as crianças; é mister que sejam de boa estirpe, de progenitores escolhidos e sadios; “a educação começará antes do nascimento” [Leis, 789]. Por isso, nenhum homem ou mulher procriará se não tiver perfeita saúde; cada noivo e cada noiva deverão sempre exibir um atestado de saúde [Leis, 772].

Os homens só poderão procriar se tiverem mais de trinta e menos de quarenta e cinco anos; e, as mulheres, mais de vinte e menos de quarenta. Os homens solteiros a partir de trinta e cinco anos ficam sujeitos a imposto [Leis,771]. Aos filhos de conúbios não autorizados, ou disformes, devem os pais abandonar e deixar morrer. Antes e depois da idade fixada para a procriação podem unir-se pessoas, mas com a condição de abortarem os fetos. “Concedemos esta permissão com ordens rigorosas para que as partes interessadas façam o impossível para evitar que os embriões vejam a luz; e se permitissem que nascessem normalmente, deveriam compreender que o fruto de uma tal união não pode  ser conservado e por isso tomariam suas providencias de acordo com as circunstancias” [461].

Proíbe-se o casamento entre parentes por produzir degeneração da prole [310]. “Sempre que possível, as melhores das pessoas dos dois sexos devem consorciar-se entre si e as inferiores com os inferiores; só se poderá criar a descendência dos primeiros e, não, a dos últimos, pois este é o único meio de conservar a coletividade em sua condição primitiva...A nossos jovens mais valentes e melhores, além das outras honras e recompensas, será permitida maior variedade de uniões, porque pais dessa natureza deverão ter o maior numero de filhos possível” [459-60].

Mas a nossa sociedade eugênica não deve unicamente ser protegida internamente contra a moléstia e a decadência e sim também contra os inimigos externos. Cumpre estar pronta, se necessário for, a empenhar-se vitoriosamente em guerras. A sociedade modelo será naturalmente pacifica, pois restringirá a população de acordo com os meios de subsistência; mas os paises vizinhos, não organizados desse modo, poderiam ver na ordem e prosperidade da nossa Utopia um incitamento para incursões e rapinancias. Por isso, embora lamentando tal necessidade, termos um numero suficiente de soldados bem adestrados, vivendo vida rude e simples como a dos dirigentes, e fornecidos parciomoniosamente de bens por seus “mantenedores e pais”, isto é, o povo. Ao mesmo tempo serão tomados todas as precauções para se evitarem as guerras. A causa principal das guerras é a superpopulação [373]; em segundo lugar vem o comercio exterior com as inevitáveis dissenções que o interrompem. Em verdade, a concorrência comercial é realmente uma espécie de guerra; “a paz não passa de um nome” [Lei,622]. Seria conveniente, por isso, instalar nosso país ideal bem no interior das terras, afim de evitar-se o grande desenvolvimento do comercio externo. “O mar enche um país de mercadorias, facilita as permutas lucrativas; insinua no espírito do homem hábitos de avidez pecuniária e deslealdade, tanto nas relações internas como nas externas” [Leis, 704-7]. O comercio exterior exige grande armada para protegê-lo e tão mau é o navalismo como o militarismo. “Em todos os casos, cabe a  poucos a culpa das guerras, sendo os homens em sua maioria amigos uns dos outros” [471]. As guerras mais freqüentes são precisamente as mais ingloriosas – isto é, as guerras civis, guerras de gregos contra gregos; formem por isso os gregos uma liga pan-helenica, unindo-se, “para que a raça grega não caia um dia sob o jugo de povos bárbaros” [469].

Conseguintemente, nossa estrutura política será encimada por uma pequena casta de dirigentes; será protegida por uma casta numerosa de soldados e “auxiliares”, a qual, por sua vez, se firmará sobre a grande base da população comercial, industrial e agrícola. Estas ultimas, isto é, as classes econômicas, poderão ter propriedade particular e cada qual terá seu próprio cônjuge e sua própria família. Mas o comercio e a industria serão regulados pelos dirigentes para evitar a excessiva riqueza ou pobreza individual; se alguém adquirir mais de quatro tantos da média dos bens de seus concidadãos, entregará ao estado o excedente [Leis, 714f]. Talvez se proíbam os juros e se restrinjam os lucros [Leis,920]. O comunismo dos governantes é impraticável para a classe econômica; os característicos distintivos desta são os fortes instintos de aquisição e competição; algumas almas nobres libertar-se-ão desta luta febril pela posse de bens – mas a maioria a ela se escravizará sem fome e sede de justiça, nem de honrarias, e sim de bens multiplicados ao infinito. Os homens absorvidos por essa ânsia não são aptos para governar uma nação, e todo o nosso plano repousa na esperança de que se os dirigentes governarem bem e viverem com simplicidade, os da classe econômica os deixarão monopolizar o governo em troca de ficarem com o monopólio da riqueza.

Em suma, sociedade melhor seria aquela em que cada classe e cada individuo fizessem o trabalho mais adequado a sua natureza e aptidões e em que nenhuma classe ou individuo se imiscuísse nas funções alheias, cooperando, cada qual, com sua diferente capacidade, para produzir um eficiente e harmonioso conjunto [433-4]. Este seria um estado perfeito.

A SOLUÇÃO ÉTICA
E agora que finalizou a digressão política estamos aptos a  responder a nossa pergunta inicial: Que é justiça? Existem unicamente três coisas valiosas no mundo – a justiça, a beleza e a verdade – e talvez nenhuma possa ser definida. Quatrocentos anos depois de Platão um procurador romano da Judéia formulou desalentado a pergunta: “Que é verdade?” e os filósofos até hoje não lhe responderam, - como também não nos disseram o que é beleza. Todavia, em relação a Justiça, Platão aventura-se a uma definição. “Justiça é termos e fazermos o que nos compete” [433].

Desaponta um bocado; depois de tanta demora esperávamos revelação infalível. Que significa isso? Simplesmente que cada homem deve receber o equivalente do que produz e exercer a função para qual foi talhado. Homem justo é o que se acha em seu devido lugar, esforçando-se o mais que pode e retribuindo com o equivalente perfeito daquilo que recebe. Uma sociedade de homens justos seria, por conseguinte, um agrupamento altamente harmônico e eficiente, pois cada elemento estaria em seu lugar, desempenhando a função respectiva, como os músicos de uma orquestra perfeita.

A justiça em uma sociedade se assemelha a harmonia das relações por meio das quais o conjunto dos planetas é mantido em seu movimento bem ordenado[ou musical, como diria Pitágoras].Assim organizada, a sociedade está em condições de subsistir a justiça que recebe uma espécie de sanção darwinica. Onde os homens se acham deslocados de seus lugares naturais, onde os homens de negócios se superpõem aos estadistas, ou o soldado usurpa o lugar do rei, acha-se destruída a coordenação das partes, decaem os elementos que se juntaram e a sociedade desintegra-se.
A justiça é uma coordenação eficaz.

Para o individuo, também, a justiça é uma coordenação eficaz; harmônico funcionamento dos elementos de um homem, cada elemento em seu lugar próprio e todos, de colaboração, contribuindo para a sua conduta. Cada individuo é um cosmos ou um caos de desejos, emoções e idéias; se estes se harmonizam, o individuo subsiste e triunfa; mas se perderem a função própria, se a emoção procurar tornar-se a luz ou o fogo da ação [como no fanático], ou se o pensamento tentar tornar-se o fogo e a luz da ação [como no intelectual], começará a desintegração da personalidade e se aproximará a derrota, como noite inevitável. Justiça é ‘taxis kai kosmos’- a ordem e a beleza – das partes da alma; ela está para a alma como a saúde para o corpo. Todo o mal é desarmonia: entre o homem e a natureza, entre o homem e os homens, ou do homem consigo mesmo.

Por isso Platão responde a Trasimaco, a Calicles e a todos os futuros nietzcheanos: Justiça não é meramente força, e, sim, força harmônica; são  os homens e os desejos dos homens sujeitos aquela ordem que produz a inteligência e a organização; justiça não é o direito do mais forte, sim a harmonia eficiente do todo. É verdade que o individuo que sai do lugar adequado a sua natureza e aos seus talentos, pode por algum tempo auferir vantagens; mas persegue-o uma Nemesis de que não pode escapar – como dizia Anaxágoras sobre as Fúrias que encalçavam algum planeta que errasse fora da órbita; a terrível batuta da natureza das Coisas força o instrumento refratário a volver ao seu lugar e altura e afinação própria. O tenente corso pode tentar governar a Europa com um pomposo despotismo mais adequado a uma monarquia antiga do que a uma dinastia surgida na véspera  - mas acaba prisioneiro em um rochedo no meio do oceano, reconhecendo tristemente que é “um escravo da Natureza das Coisas”. A injustiça não prevalece.

Nada existe de singularmente novo nesta concepção; e em verdade devemos desconfiar, em filosofia, de alguma doutrina que se jacte de nova. A verdade muda freqüentemente de vestuário, como todas as damas bem educadas; mas, sob a nova roupagem, continua sempre a mesma. Em moral não devemos pretender surpreendentes inovações; a despeito das interessantes aventuras dos sofistas e dos nietzscheanos, todas as concepções morais giram em redor do bem geral.

A moralidade começa com a associação, a interdependência e a organização; a vida social requer a cessão da parte da soberania do individuo para a ordem comum; e, por fim, o bem-estar da comunidade torna-se a norma de conduta. A natureza assim o quer e seu julgamento é sempre o ultimo; se sobrevive um agrupamento em competição ou conflito com outro, é devido a sua união e poder, e a capacidade de cooperação de seus membros para fins comuns. E que melhor cooperação poderia existir do que cada qual fazer o que melhor sabe fazer? Este é o alvo que toda a sociedade deve demandar, se quiser subsistir. A moral, disse Jesus, é a bondade pra com os fracos; a moral, diz Nietzsche, é o desassombro do forte; a moral, diz Platão, é a eficaz harmonia do todo. Provavelmente devem-se combinar estas três doutrinas para encontrar-se a ética perfeita; mas poderemos saber qual seja, dentre esses elementos, o fundamental?




CRITICA
E que diremos agora de toda esta Utopia? Praticável?  E caso não o seja, terá alguns aspectos praticáveis, que possam ser aproveitados? Já foi em algum lugar ou em certos limites realizada?

Ao menos a ultima pergunta deverá ser respondida a favor de Platão. Durante mil anos a Europa foi governada por uma espécie de dirigentes muitíssimos semelhantes a imaginada por nosso filosofo. No período medieval era costume classificarem-se os povos da cristandade em ‘laboratores’ [trabalhadores], ‘bellatores’ [soldados] e ‘oratores’ [clero]. O ultimo grupo, muito menos numeroso, monopolizava os meios e as oportunidades de cultura e regia com poder quase ilimitado metade do continente mais poderoso do globo.

O clero, bem como os governantes de Platão, era investido da autoridade, não pelo sufrágio popular, mas pela aptidão demonstrada em estudos eclesiásticos e na administração, pela tendência a uma vida de meditação e simplicidade e [talvez se possa acrescentar] pela influencia dos parentes que dirigiam o estado e a igreja. Na ultima metade do período em que dominou, o clero era tão livre das preocupações de família quanto Platão o poderia desejar; e, em alguns casos, parece, gozava não em pequeno grau da liberdade reprodutora concedida aos dirigentes. O celibato fazia parte da estrutura psicológica do poder do clero, pois, por um lado, não tinha os embaraços do estreito egoísmo da família,e, por outro, sua aparente superioridade sobre os reclamos da carne aumentava o respeito que lhe votavam os pecadores, contribuindo para que estes lhes narrassem nuamente suas vidas ao confessionário.

Muito da política do catolicismo derivou das ‘brilhantes mentiras’ de Platão ou sofreu o influxo delas: podem-se rastrear no ultimo livro da “Republica” as idéias do céu, do purgatório e do inferno; a cosmologia do escolsticismo promana fartamente do “Timeu”; a doutrina do realismo [a realidade objetiva das idéias gerais] era uma interpretação da doutrina da Idéias; até o ‘quadrivium’ educativo [aritmética, geometria, astronomia e musica] modelava-se no curriculum esboçado por Platão.

Com este corpo de doutrina era governado o povo europeu, sendo raro recorrer-se a força; e o povo aceitava tão docilmente esse governo que por mil anos contribuíram abundantemente para manter seus dirigentes, sem reclamar o direito de intervir no governo. E esta aquiescência não se limitava ao povo baixo; negociantes e soldados, senhores feudais e poderes civis, todos se genuflectiam ante Roma. Era uma aristocracia de invulgar sagacidade política a que criou, talvez, a mais maravilhosa e poderosa organização que o mundo tenha conhecido.

Os jesuítas que por algum tempo governaram o Paraguai eram guardiões semiplatonicos; formavam uma oligarquia clerical fortalecida pela posse do saber e das artes em meio a uma população de bárbaros. E por algum tempo o Partido Comunista que governou a Rússia, após a revolução de novembro de 1917, assumiu a forma que lembrava estranhamente a ‘Republica’. Era uma pequena maioria, ligada por uma convicção quase religiosa, a brandir armas da ortodoxia e da excomunhão, tão fortemente devotada a causa como os santos a sua, e levando vida frugal embora dispusessem de metade do território da Europa.

Tais exemplos indicam que dentro de certos limites e com modificações, o plano de Platão é exeqüível; a verdade é ser ele em grande parte produto de suas observações pessoais durante as viagens que empreendera. Sentiu-se impressionado pela teocracia do Egito: havia nesse país uma civilização grande e antiga e a soberania era exercida por pequena casta sacerdotal; e comparando-o com as dissenções: tirania e incompetência da ‘Eclesia’ateniense, Platão intuiu que o governo egípcio representava forma de estado muito mais alta [Leis,819]. Na Itália estanceou por algum tempo em uma comunidade pitagorica, vegetariana e comunista que, durante varias gerações, dominara a colonia grega que habitavam. Em Sparta, vira uma pequena classe dirigente a viver existência comum, rude e simples, em meio a massa dos seus súditos: comiam juntos, restringiam com intuitos eugênicos as uniões sexuais e concebiam aos valentes o privilegio de muitas esposas.

Platão ouvira, sem duvida, Euripedes advogar a idéia da comunhão de mulheres, da libertação dos escravos e da pacificação do mundo grego por meio da liga helênica[Medeia,230;Frags.,655]; sem duvida também conhecera alguns dos cínicos que incentivavam um forte movimento comunista entre os que poderíamos agora chamar “a esquerda socratica”. Em suma, Platão deve ter compreendido que, propondo seu plano, não estava a esboçar uma impossível melhoria das realidades que com seus olhos contemplara.

Não obstante, desde os tempos de Aristóteles até hoje, a critica tem encontrado na Republica numerosas falhas com que fundamentar objeções e duvidas. “Estas e muitas outras coisas”, diz o Stagirita com céptica concisão, “foram várias vezes ideadas no curso dos tempos”. Muito belo é planear uma sociedade em que os homens sejam irmãos; mas amplia-la de modo abranger todos os homens é retirar-lhe toda a força e significação. O mesmo com referencia a comunhão de bens; significaria a diminuição da responsabilidade; se tudo pertencer a todos, ninguém terá cuidado com coisa alguma. E, finalmente, argumenta o grande conservador, o comunismo forçaria as pessoas a ficar em continuo e intolerável contato; não daria ensejo para a vida intima ou individual e subentenderia qualidades de paciência e cooperação apenas possíveis a uma minoria santa. “Não devemos exigir um modelo de virtude inacessível para as pessoas comuns, nem uma educação excepcionalmente favorecida pela natureza e pelas circunstancias e, sim, precisamos ter em mira o modo de vida de que a maioria possa participar e as formas de governo que todos os paises possam adotar”.

Assim se exprime o maior [e mais cioso] discípulo de Platão; e posteriormente a maioria dos críticos feriram a mesma corda. Platão, dizem-nos, não dá o justo valor a força do costume acumulada na instituição da monogamia e no código moral associada a essa instituição; não tomou em devida conta o ciúme dos machos, supondo que um homem possa contentar-se com possuir apenas uma fração de esposa; menosprezou o instinto materno, acreditando que as mães concordariam em que lhe tomassem os filhos e os criassem num cruel anonimato. E acima de tudo olvidou que, abolindo a família, destruía a grandeza zeladora da moral e a principal fonte desses hábitos de cooperação e comunhão que deveriam ser a base psicológica de seu estado; com inigualável eloqüência, serrou o próprio galho em que se achava sentado.

A todas estas criticas poderemos redargüir singelamente que elas destroem um homem de palha. Platão expressamente exclui a maioria de seu plano comunista; reconhece com suficiente clareza que somente poucos seriam capazes dessa renuncia material que ele alvitra para a classe dirigente; só os seus membros se poderiam chamar irmão ou irmã; exclusivamente eles não possuíram ouro nem outros bens. A grande massa conservaria todas as instituições respeitáveis – a propriedade, o dinheiro, o luxo, a concorrência – e quaisquer outros benefícios privados que desejassem. Poderiam ter a vontade casamento monogâmico e toda a moral dele derivada e da família; os maridos conservariam suas esposas, as mães seus filhos, ‘ad libitum e nauseam’. Quanto aos dirigentes que lhes é menos necessário terem disposição para o comunismo do que o sentimento de honra e o amor a honra; é ao orgulho e não a bondade que obedecerão. E com relação ao instinto materno, ele não é tão forte por ocasião do nascimento ou, mesmo, do crescimento do filho;em regra, a mãe aceita o recém-nascido mais resignada do que jubilosa; o amor ao filho é mais resultado de um desenvolvimento do que de um repentino milagre – aumenta a proporção que ele se desenvolve a força de cuidados maternos; enquanto o filho não se torna a criação dessa arte materna, não se apodera invencivelmente do coração da mãe.

Outras objeções são mais econômicas do que psicológicas. Argumenta-se que a republica de Platão divide cada cidade em duas, e depois no-la apresenta dividida em três. A resposta é que a divisão, no primeiro caso, é causada pela competição econômica; no estado de Platão a classe governante e as auxiliares são expressamente excluídas desta concorrência para a aquisição de bens. Mas se os dirigentes teriam o poder sem a responsabilidade, isto não os levaria a tirania? Absolutamente não; dispõem do poder político, mas não tem poder econômico ou riqueza; se a classe econômica ficar descontente com o modo de governar de seus guardiões, pode cortar-lhes a subsistência, como os parlamentos cortam asas ao executivo negando-lhe orçamentos. Mas se os governantes tiverem o poder político e não econômico, de que modo poderão manter sua soberania? Arrington e Marx e muitos outros já não mostraram que o poder político é um reflexo do econômico, tornando-se precário assim o poder econômico se transfere para um grupo politicamente subordinado – como as classes medias no século dezoito?

Esta é uma objeção fundamental e porventura fatal. Poder-se-ia responder o que o poder da Igreja Católica Romana, que levou até reis a se ajoelharem ante ela em Canossa, era baseado, nos seus primeiros séculos de soberania, mais na inculcação de dogmas do que na estratégia das riquezas. Mas é possível que a longa dominação da Igreja fosse devida as condições agrícolas da Europa; uma população de lavradores é inclinada a crença no sobrenatural pela sua dependência completa do capricho dos elementos e pela incapacidade de dominar a natureza, incapacidade que sempre arrasta ao medo e, por meio deste, a adoração; quando se desenvolvem a industria e o comercio, surgem nova mentalidade e novo tipo de homem, mais realista e terrestre – e a Igreja começou a vacilar logo que entrou em conflito com a nova situação econômica.

O poder político deve reajustar-se constantemente ao mutável equilíbrio das forças econômicas. A dependência da classe econômica em que se achavam os governantes de Platão, logo os reduziria a posição subalterna de instrumento de classe; mesmo a circunstancia de dispor da classe militar não protelaria por muito tempo esse inevitável desfecho; não foram bastantes as forças militares da Rússia revolucionaria par evitar o desenvolvimento de um individualismo proprietário entre os camponeses em cujas mãos estava o incremento das colheitas e, por conseguinte, o destino nacional. Só isto poderia restar para Platão: que embora a política deva ficar dependente do grupo econômico dominante, melhor que ainda assim seja ela dirigida por estadistas especialmente preparados, do que por homens de comercio ou das fabricas sem nenhum aprendizado da arte de reger os povos.

O que acima de tudo falta a Platão é, talvez, o senso heracliteano da mutação das coisas; ele anseia em demasia que o cinema deste mundo se fixe na imobilidade de um quadro. Ama exclusivamente a ordem, como todos os filósofos timoratos; atemorizou-o a turbulência democrática de Atenas consorciada a um extremo descaso pelos valores individuais; dispõe os homens em castas, como um entomologista classifica moscas; e não é contrario a utilizar-se da mistificação sacerdotal para atingir seus fins.

Seu estado é estático; poderia facilmente converter-se numa sociedade caduca, regida por inflexíveis octogenários ciosamente hostis a novidades e mudanças. Mera ciência sem arte; ele exalta a ordem, tão cara aos espíritos científicos, esquecendo completamente a liberdade que é a alma da arte; cultua o nome da beleza, mas exila os artistas que poderiam, só eles, criá-la ou revelá-la. É uma Sparta ou uma Prússia e não um estado ideal.

E agora que já obedecemos a necessidade desagradável de expor imparcialmente estas objeções, resta-nos prestar sincera homenagem a pujança e profundeza na concepção de Platão. Em essência ele tem  razão de dizer que este mundo precisa ser governado pelos homens mais sábios. A nós compete adaptar seu pensamento ao nosso tempo e as nossas limitações. Podemos hoje considerar a democracia como firmada: não conseguiremos restringir o sufrágio do modo proposto por Platão; é-nos, porém, possível criar restrições ao exercício dos cargos governamentais, e por esta maneira assegurar aquele misto de democracia e aristocracia que Platão tinha em mente. Poderíamos aceitar sem objeção sua ideai de terem os estadistas um aprendizado especial e completo como o dos médicos; poderíamos estabelecer em nossas universidades cursos de ciência política e administrativa; e quando estes cursos começassem a funcionar convenientemente, consideraríamos elegíveis para os cargos públicos os que não fossem por eles diplomados. Poderíamos também só considerar elegíveis para determinados cargos públicos os que se tivessem preparado especialmente para eles; dessa forma acabaríamos com o complexo sistema de indicações ao eleitorado, alma da corrupção de nossa democracia; escolha o eleitorado qualquer dentre os homens que, com o aprendizado e predicados necessários, se apresentem como candidatos. Por este modo a escolha democrática seria infinitamente mais ampla do que agora, neste tempo em que Tweedledum e Tweedledee representam de quatro em quatro anos um espetáculo vergonhoso. Bastaria apenas uma modificação na lei fundamental para que se tornasse perfeitamente democrático este plano de seleção dos graduados na técnica administrativa para a investidura dos cargos; e a igualdade de oportunidades abriria a todos, independentemente dos recursos dos pais, o caminho para a preparação universitária e para as carreiras políticas. Seria simplicíssimo o manterem as municipalidades, condados e países cursos superiores para todos os diplomados em cursos secundários que houvessem revelado certo grau de aptidão e cujos pais não pudessem, por motivos pecuniários, fazê-los seguir. Seria uma democracia digna deste nome.

Afinal, é conveniente acrescentar que no entender de Platão sua Utopia não estava perfeitamente ao terreno das coisas realizáveis. Ele admite ter criado um ideal difícil de atingir; mas existe vantagem em representar-se a condição que desejamos; ser homem quer dizer – ser-se capaz de imaginar um mundo melhor e converter ao mesmo parte dele em realidade; o homem é um animal sonhador de Utopias. “Olhamos para trás e para diante e ansiamos por aquilo 1que não existe”. Nem tudo deixa de produzir resultado: muitos sonhos ganham pernas e caminham, ou adquirem asas e erguem vôo, como o sonho de Icaro. Afinal, mesmo que o que fizéssemos fosse apenas compor um quadro, poderia ele servir de ideal e modelo para nossa atividade e proceder; quando formos capazes de, ao ver um quadro, guiarmo-nos pelo seu resplendor, a Utopia terá sua vez. Enquanto isso, “no céu existe o modelo de uma tal cidade e a pessoa que quiser poderá contemplá-lo e, contemplando-o, reger seus atos por esse padrão. E quer exista ou possa algum dia existir no mundo tal cidade...aquela pessoa procederá de acordo com as leis dela, e não de outra” [592]. O homem bom aplicará, mesmo em um estado imperfeito, a lei perfeita.

Entretanto, com todas estas concessões a duvida, o Mestre mostrou-se suficientemente animoso para arriscar a realização do seu sonho, quando a oportunidade surgiu. No ano 387 A.C Platão recebeu convite de Dionísio, rei da florescente e poderosa Siracusa, capital da Sicília, para converter seu reino em uma Utopia; e o filosofo, pensando como Turgot que era mais fácil educar um homem – mesmo rei – do que um povo inteiro, aquiesceu. Mas quando Dionísio alcançou que o plano requeria ele se tornasse filosofo ou deixasse de ser rei, renunciou a tudo; e a conseqüência foi uma azeda altercação. Registra a historia que Platão, reduzido a condição de escravo, foi salvo por seu amigo e discípulo Aniceris; e que, quando os adeptos atenienses de Platão quiseram reembolsá-lo do resgate que pagara, Aniceris o recusou, dizendo que não era privilegio deles amparar a filosofia. Este incidente [e outro semelhante, a dar credito a Diógenes Laércio] pode ter contribuído para o conservadorismo desiludido da ultima obra de Platão – As Leis.

Os derradeiros anos de sua longa vida, entretanto, devem ter sido muito venturosos. Discípulos espalharam-se para todos os rumos e seus triunfos tornaram o mestre venerado em toda parte. Platão vivia em paz na Academia, dirigindo-se de grupo em grupo de seus discípulos, formulando-lhes questões e sugerindo-lhes investigações; depois voltava de novo para receber as respostas.

Disse La Rochefoucauld que “poucas pessoas sabem envelhecer”. Platão sabia: era aprender como Sólon e ensinar como Sócrates; guiar os ardentes jovens e grangear-lhes a estima intelectual de camaradas. Pois seus discípulos o amavam tanto como os amava ele; além de filosofo e guia; era-lhes também um amigo.

Um de seus discípulos, arrostando o grande abismo chamado casamento, convidou-o para a festa de núpcias. Platão foi, com a riqueza de seus oitenta anos, e alegremente insinuou-se entre convidados folgazões. As horas corriam e o velho filosofo, em dado momento, retirou-se a um recanto sossegado da casa, para dormir um pouco. Pela manhã, terminada a festa, os fatigados convivas foram despertá-lo. E então viram que durante a noite ele se passara quietamente, sem espalhafato, de um breve sono para o grande sono que não se acaba mais. Toda Atenas o acompanhou a sepultura.
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G.R