sábado, 28 de maio de 2011

Spencer_ Biologia: A Evolução da Vida

O segundo e terceiro volumes da Filosofia Sintética apareceram em 1827 sob o titulo de Princípios da Biologia. Revelaram as naturais limitações de um filósofo que invade o campo do especialista; mas os erros de detalhes desaparecem diante das luminosas generalizações que deram nova unidade e inteligibilidade a vastas áreas do fato biológico.

Spencer começa com a famosa definição: “Via é um continuo ajustamento de relações internas e relações externas”. A vida completa depende do completo dessa correspondência e a vida perfeita depende do perfeito dessa correspondência. A correspondência não é simples adaptação passiva; o que distingue a vida é o ajustamento das relações internas em antecipação de uma mudança nas relações externas, como quando um animal se agacha para evitar um golpe ou um homem faz fogo para aquecer seu alimento. O defeito da definição jaz não somente na sua tendência para desprezar a atividade remodeladora que o organismo exerce sobre o meio ambiente, mas também no não explicar que poder sutil é esse que habita um organismo a fazer esses proféticos ajustamentos característicos da vitalidade. Em um capitulo adicionado a edições posteriores Spencer foi forçado a discutir o ‘elemento dinâmico da vida’, e a admitir que sua definição não havia apreendido a natureza da vida. “Somos obrigados a confessar que a Vida em sua essência não pode ser concebida em termos físico-químicos”. O filosofo não calculou como essa admissão iria ser prejudicial para a unidade do seu sistema.

Assim como Spencer vê na vida do individuo um ajustamento de relações internas e externas, assim também vê na vida das espécies um notável ajustamento da fertilidade reprodutiva as condições do habitat. A reprodução surge originalmente como uma readaptação da superfície nutritiva a massa nutrida; o crescimento da ameba, por exemplo, envolve um aumento da massa muito mais rápido que o aumento da superfície através da qual a massa recebe sua nutrição. Divisão, abotoamento, formação de esporos e reprodução sexual tem isto de comum, que a proporção da massa para a superfície se reduz e o equilíbrio nutritivo se restaura. Daí o crescimento do organismo individual ser perigoso além de um certo limite; e daí o crescimento normal ceder o passo, depois de certo tempo, a reprodução.

Na media o crescimento varia inversamente proporcional ao gasto de energia; e a reprodução varia inversamente proporcional ao grau de crescimento. “E é sabido pelos criadores que se uma égua reproduzir em sua fase de potranca nunca atingirá o crescimento normal...Ao contrário, animais castrados, capões e principalmente gatos, freqüentemente se tornam maiores que os normais não mutilados”. A relação da reprodução tende a cair a medida do desenvolvimento do progresso individual. “Quando por fraqueza de organização a capacidade de enfrentar perigos externos é menor, torna-se necessária uma grande fecundidade para compensar a mortalidade conseqüente; de outro modo a raça depereceria. Quando, ao invés, altas faculdades proporcionam maior capacidade de preservação, uma baixa correspondência na fecundidade é requerida”. Para que o passo da multiplicação não exceda as possibilidades de alimento. Em geral, pois, existe uma oposição de individuação e gênese, ou de desenvolvimento individual e fecundidade. A regra opera nos grupos e espécies com mais regularidade do que nos indivíduos; quanto mais altamente desenvolvido o grupo ou a espécie, mais baixo será o índice de natalidade. Mas também funciona para a media dos indivíduos. Por exemplo, o desenvolvimento intelectual parece hostil a fecundidade. “Onde excepcional fecundidade existe, existe também frouxidão de espírito; e quando, durante a educação, ocorre excessivo dispêndio de energia mental, segue-se uma completa ou parcial infecundidade. Daí o especial tipo de evolução do homem daqui para diante, e que, mais que qualquer outra causa, poderá trazer declínio ao seu poder de reprodução”. Os filósofos são notoriamente de fraca prole. Na mulher, por outro lado, o advento da maternidade traz diminuição da atividade intelectual; e talvez sua mais breve adolescência seja devida ao sacrifício precoce à reprodução.

A despeito desta adaptação do índice de nascimento as necessidades da sobrevivência do grupo, a adaptação nunca é completa e Malthus tinha razão no seu principio geral de que a população do globo tende a sobre-exercer os meios de subsistência. “Desde os começos esta pressão de densidade da população tem sido a causa próxima do progresso. Produziu de começo a difusão das raças. Compeliu o homem a abandonar os hábitos predatórios e a fazer Levou-o a arrotear toda a superfície da terra. Forçou-o a vida em sociedade e desenvolveu os sentimentos sociais. Estimulou o melhoramento progressivo da produção e aumentou a habilidade e a inteligência. É a causa principal da luta pela vida por meio da qual os mais aptos sobrevivem elevando assim o nível da espécie.

Se o domínio dos mais aptos é devido principalmente a variações espontâneas favoráveis ou a uma parcial herança de caracteres, ou de capacidades adquiridas repetidamente por sucessivas gerações, é ponto sobre que Spencer não dogmatizou; aceitava alegremente a teoria de Darwin, mas sentia que certos fatos ficavam inexplicados e compeliam a uma aceitação das vistas de Lamarck modificadas. Spencer defendeu Lamarck vigorosamente na sua controvérsia com Weismann, e apontou certos defeitos da teoria de Darwin. Naqueles dias estava Spencer quase que só ao lado de Lamarck; e é de notar que entre os neolamarckeanos de  hoje se incluem descendentes de Darwin, ao passo que os maiores biologistas ingleses opinam que a teoria particular de Darwin sobre a evolução [não a teoria geral] deve ser abandonada [*Comunicação de Sir Win. Bateson a América Association for the Advancemente of Science_Toronto, dezembro, 1921].   

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