sábado, 5 de março de 2011

Aristóteles e a Ciência Grega

Ambiente Histórico
Aristóteles nasceu em Stagira, cidade da Macedônia situada a cerca de duzentas milhas ao norte de Atenas, no ano 384 a.C. Seu pai era amigo e medico de Amintas, rei da Macedônia e avô de Alexandre. O próprio Aristóteles parece ter sido membro da confraria medica de Asclepiades. Ele foi educado em odor da medicina, assim como mais tarde muitos filósofos o foram em odor da santidade; teve todas as oportunidades e incitamentos para desenvolver seu pendor para a ciência, da qual ia tornar-se fundador.

Temos varias versões, a escolha, sobre sua adolescência. Uma, apresenta-o a esbanjar seus bens em uma vida desregrada, após o que se alista no exercito para evitar a fome, voltando em seguida a Stagira para exercer a medicina, donde segue para Atenas, aos trinta anos, para estudar filosofia com Platão. Versão mais favorável o faz ir para Atenas aos dezoito anos, tornando-se lá, desde logo, discípulo do grande Mestre; todavia, mesmo nesta versão mais versossimil, existem suficientes referencias a uma adolescência desmandada e perdulária [1].Girote,Aristóteles, Londres, 1872, pág 4; Zeller, Aristóteles e os Primeiros Peripatéticos, Londres, 1897, V.1, pág 6.f. Que o leitor escandalizado se console com a circunstancia de que em qualquer das duas versões nosso filosofo vai finalmente ancorar a sombra dos calmos bosques do jardim da Academia.

Com Platão estudou oito anos – ou vinte; e o fato de que o platonismo impregna as especulações de Aristóteles – até nas mais antiplatonicas – faz pensar na hipótese dos vinte anos.

De bom grado imaginamos de grande ventura esses anos em que um aluno de viva inteligência e seu incomparável mestre deambulavam, como dois enamorados, pelos jardins da filosofia. Mas ambos eram gênios;e é sabido que os gênios se harmonizam tanto entre si como a dinamite e o fogo. Separava-os quase meio século; para a imatura compreensão era difícil suprimir esse abismo da diferença de idades, de modo a corrigir a incompatibilidade das almas. Platão reconhecia o grande valor daquele seu novo e estranho discípulo da raça do norte, que consideravam bárbara, e citou-o uma vez como o “Nous” da Academia, isto é, a Inteligência personificada.

Aristóteles prodigalizou dinheiro para colecionar livros [que naqueles tempos eram feitos a mão]; foi o primeiro, depois de Euripedes a organizar uma biblioteca; e entre suas muitas contribuições, há os fundamentos da classificação bibliográfica. Essa era a razão por que, ao referir-se a residência de Aristóteles, dizia Platão: ‘casa do leitor’ e parece que estas palavras envolviam um louvor sincero, e não sutil e intencional alfinetada ao excessivo amor aos livros, como alguém murmurou. Divergência mais autentica surgiu no fim da vida de Platão. Desenvolveu-se um ‘complexo de Edipo’ na alma de nosso ambicioso jovem contra seu pai espiritual, pela muita afeição comum a filosofia, pelo que começou a sugerir que a sabedoria não morreria com Platão – ao passo que o velho sábio se referia ao discípulo como a um poldro que escoicinhasse a mãe depois de mamar-lhe todo o leite [1] Benn, Os Filósofos Gregos, Londres, 1882, vol.1, pág.283 (2) Vol.I, pág.11. O douto Zeller, em cujas paginas Aristóteles quase alcança o Nirvana da respeitabilidade, é de parecer que se devam rejeitar essas referencias; mas podemos presumir que tanto fumo deve indicar algum fogo.

Outros episódios deste período de sua vida em Atenas são ainda mais problemáticos. Narram-nos alguns biógrafos que Aristóteles fundou uma escola de oratória para rivalizar com a de Isocrates e que entre seus alunos figurava o rico Hermias, que se tornou o autocrata da cidade-estado de Atarneus. Havendo atingido essa culminância, Hermias convidou Aristóteles a transferir-se para sua corte, e, no ano 344 a.C., recompensou o professor pelo que por ele fizera dando-lhe em casamento uma irmã [ou sobrinha]. Poder-se-ia suspeitar ter sido um presente de grego; mas os historiadores apressam-se a certificar-nos de que Aristóteles, apesar de sua genialidade, foi muito feliz com a esposa, a qual se refere com as mais afetuosas palavras em seu testamento.

Foi precisamente um ano depois que Filipe, o rei da Macedônia, mandou chamar Aristóteles para, em Pela, sua corte, encarregar-se da educação de Alexandre. A circunstancia de o maior monarca do tempo, que, certo, procuraria o melhor mestre, preferir Aristóteles para professor do futuro dominador do mundo, testemunha a reputação crescente de nosso filosofo.

Filipe resolvera dar ao filho a mais apurada educação, por ter formado ilimitados planos para ele. Sua conquista da Tracia em 356 a.C, tornou-o Senhor de minas de ouro que prontamente lhe forneciam desse metal quantidade dez vezes maior do que a de prata fornecida a Atenas pelas decadentes minas de Laurion; seus súditos era robustos camponeses e soldados ainda não degenerados pelo luxo e pelos vícios das cidades: esta circunstancia lhe possibilitaria a sujeição de um cento de pequenas cidades livres e a conseqüente unificação política da Grécia.

Filipe não simpatizava com o individualismo que favorecera a arte e a inteligência da Grécia, mas ao mesmo tempo lhe desintegrara a ordem social; em todas aquelas pequeninas capitais não via grande cultura e a arte inexcedível, e sim a corrupção comercial e o caos político; via insaciáveis negociantes e capitalistas absorverem os recursos vitais da nação, políticos incompetentes e oradores hábeis a arrastarem o povo operoso a conspirações e desastrosas guerras, facções que se cindiam em classes e classes que se cristalizavam em castas: aquilo, dizia Filipe, não era uma nação e sim um ajuntamento de indivíduos – gênios e escravos; propunha-se ele por ordem na balburdia, elevando e unindo toda a Grécia, que se tornaria forte para servir de centro político e fundamento do mundo.

Em sua adolescência em Tebas, Filipe aprendera com o nobre Epaminondas a arte da estratégia militar e organização civil; e agora, com coragem tão ilimitada como a ambição, melhorava a sua instrução. Em 388 a.C. derrotou os atenienses em Queroneia e viu por fim uma Grécia unida, embora acorrentada. E quando, após essa vitória, planejava o modo de, ele e o filho, dominarem e unificarem o mundo, foi morto pela mão de um assassino.

Quando Aristóteles chegou, Alexandre era um terrível menino de treze anos; ardente, epiléptico, quase alcoólico; seu divertimento era amansar cavalos para os outros indomáveis. Não foram de grande eficácia os esforços do filosofo para arrefecer o ardor daquele vulcão. Alexandre tinha melhor êxito com Bucefalo do que Aristóteles com Alexandre.

“Durante algum tempo – diz Plutarco – Alexandre amou Aristóteles não menos do que se fosse seu próprio pai, dizendo que, se um lhe dera a vida, o outro lhe ensinara a arte de viver”.

[“A vida – diz um sutil filosofo grego – é um dom da natureza, ao passo que uma vida bela é um dom da sabedoria”]. “Quanto a mim – declarou Alexandre em uma carta a Aristóteles – prefiro aperfeiçoar-me no conhecimento do que é bom, a aumentar meu poderio e meus domínios”. Mas isto não era talvez mais do que grande amabilidade juvenil; sob o entusiasmo do noviço da filosofia latejava o natural indômito do filho de uma princesa e de um rei bárbaros; os freios da razão eram frágeis em excesso para manter disciplinadas suas paixões atávicas; dois anos depois Alexandre abandonou a filosofia para galgar o trono e governar o mundo.

A historia dá-nos a liberdade de crer {embora nos causem suspeita estes pensamentos amáveis] que a ânsia unificadora de Alexandre hauria de sua força e grandiosidade nas idéias de seu mestre, o mais sintético dos pensadores na historia da filosofia – e que o estabelecimento da ordem dos domínios políticos, por parte do discípulo, e nos domínios filosóficos, por parte do preceptor, não passava de aspectos diversos de um só projeto nobre e arrojado; seriam dois eminentes macedônios a ordenar o caos de dois mundos.

Partindo para conquistar a Ásia, Alexandre deixou após si, nas cidades da Grécia, governos que lhe eram favoráveis, mas populações francamente hostis. A longa tradição de uma Atenas livre e anteriormente imperialista, tornava intolerável a submissão, mesmo a um afamado déspota conquistador do mundo; e a acida eloqüência de Demóstenes conservava a Assembléia sempre a pique de revoltar-se contra o ‘partido macedonio’ que empunhava as rédeas do governo. Quando Aristóteles, após outro período de viagens, regressou a Atenas no ano 334 a.C., aderiu muito naturalmente ao grupo macedônio, não se preocupando de ocultar sua aprovação a política unificadora de Alexandre.

Ao observarmos a notável sucessão de trabalho de especulação e pesquisas a que Aristóteles se deu nos últimos doze anos de sua vida, e ao acompanhar-lhe as múltiplas tarefas de organizar sua escola e coordenar tão grande riqueza de conhecimentos, que antes nunca havia povoado o espírito de um só homem, devemos lembrar que não eram de calma e segurança os tempos de sua investigação da verdade e que a cada instante podia enfarruscar-se o firmamento político, desencadeando a tormenta na sua pacifica vida de filosofo. Tendo-se em mente esta circunstancia é que bem poderemos compreender a filosofia política de Aristóteles – e o seu fim trágico.

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