quinta-feira, 22 de julho de 2010

Alquimia _Livro Primeiro


Que, de um antigo manuscrito, foi aqui trazido à luz.

O Onipotente Todo-Poderoso DEUS e SENHOR, Aquele Único que é Onisciente e Verdadeiramente Sábio, deu ao Homem compreensão superior à de qualquer de Suas criaturas, para que este possa conhecer as Suas obras e não deixá-las inexploradas. Ora, desde que esse Homem, a quem o Deus onisciente concedeu a inspiração e, assim, a descoberta desta alta e profunda Obra secreta e o grande segredo da antiga ‘Pedra d’Água dos Sábios’, ele deve provar-se na sua correção. Se há algo na Terra que seja coisa natural, esta é a Preparação e o ‘Magisterium da Pedra do Filósofo’, natural, e não da fabricação do Homem, mas totalmente obrada pela Natureza, pois nada acrescenta a ela o Artista. Só a Natureza dirige o crescimento, como no caso de cada cultivador do solo com suas frutas e plantas; só que ele deve ser de mente sutil e ter a graça de DEUS, para que a possa dirigir à medida que a obra se torna evidente na fervura e através dos tempos sucessivos: a saber, no principio é o ‘Subjectum’, que se recebe da Natureza diretamente nas mãos. Aí jaz oculta a Tintura Universal de todos os metais, animais e plantas. É um ‘Corpus’ cru e rudimentar, sem contornos de animal ou planta, mas é no início uma substancia áspera, terrosa, pesada, viscosa, dura e nebulosa, na qual a natureza parou de obrar; mas quando o Homem esclarecido abre tais matérias, investiga em ‘Digestão’ as densas e nebulosas sombras com as quais elas se cercam, eles as purifica, permitindo que o oculto emerja, e através de adicional ‘Sublimação’, sua Alma mais interior, que ali fica escondida, também se separa e é trazida a uma forma corporal. Então será descoberto o que a Natureza tinha oculto m tal substancia, que fora informe, e que poder ‘Magnalia’ o Supremo Criador deu a seu Creato e nele implantou. Pois Deus teve este Creato para todas as outras criaturas, já que no inicio da Criação este poder foi implantado, e Ele ainda o dá diariamente, pois do contrário não seria só impossível a uma pessoa levar tal trabalho natural até o fim desejado, como também seria impossível criar aqui qualquer coisa de útil. Mas o bom e dadivoso Deus não negaceia ao Homem os tesouros e bens que Ele implantou na Natureza, do contrário não teria concedido tais coisas às Suas criaturas; não, Ele criou tudo o que é bom para o Homem, o fez Senhor de toda a Sua criação. Portanto, é próprio do Homem compreender e engajar-se em tal Obra natural e filosófica, pois de outro modo uma criação tão dadivosa e maravilhosa teria sido em vão, contemplaríamos a Natureza como se fôssemos animais sem discernimento, que por aqui perambulam, e seguiríamos vâmente os conselhos de Deus, e não nos ajustaríamos às finalidades da Natureza. ‘Deus autem et Natura, nihil facitum frustra [Deus e a Natureza em vão]. Mas o Deus Todo-Poderoso tudo comanda. Ele ordena e provê para que a forragem seja posta diante do asno e do cavalo, mas que o ser humano racional seja servido de alimentos mais custosos, mais deliciosos. Portanto, aqueles que tentam investigar e que desejam esse ‘Arcanum’ e grande tesouro tão profundamente oculto, na maneira correta, não precisam depender da colheita do ignorante, que não possui conhecimento sob a Luz de nosso Sol.

Os Filósofos e Sábios, bem como os ‘Neotrici e Veteres’, já se envolveram em grandes discussões sobre essa arte secreta, e tentaram indicar, sob muitos nomes diferentes, alegorias e palavras sofismadas, maravilhosamente estranhas, o ‘Subjectum e sua Essentia’, e que espécie de Matéria, que espécie de ‘Corpus’, que espécie de ‘Subjectum’, e quão maravilhosa e secreta é uma Criatura, que tenha incorporado poderes tão fortes, estranhos e celestiais, e com os quais, depois de ‘Digestio’ e purificação, pode-se ajudar a seres humanos, animais, plantas e metais, e pode-se levar sua saúde e perfeição até o mais alto grau, podendo-se também praticar outras maravilhosas ações. Entretanto, todos os que foram e ainda são verdadeiros ‘Philosophi’ unanimemente afirmam que há apenas um único ‘Scopum’ e uma única ‘Materiam’, o ‘Fili Sapientat’, sendo muitos e variados os discursos e escritos sobre ele. Com relação à coisa essencial, entretanto, só há silencio, e tal silencio trancou firmemente suas bocas e sobre elas colocou um sólido ‘Sigili’, pois, caso se tornasse um conhecimento vulgarizado, como o dos padeiros e cervejeiros, o mundo em breve pereceria.

Muitos são os que buscaram esta única RES, que ‘solvit se ipsum, coagulat se ipsum, se ipsum impregnat, mortificat et vivicat’ [dissolve-se, coagula-se, impregna-se, mata-se e revive-se a si própria], mas a maioria de tais pesquisadores falharam, pois se perderam em meio à busca. Portanto, é algo que mais se aproxima do ouro; e é algo que tanto pode ser ganho pelo pobre como pelo rico, seja lá o que for. Mas aquele que, de sua própria boca, venha a falar ‘expressamente sobre este Subjectum’, o faz sob a ameaça da ‘Philosophi execrationem divinam’, e sobre si chama a maldição de Deus.

Quando os filósofos pronunciavam um ‘Execratio’, o Deus Todo-Poderoso respeitava o seu apelo e o outorgava, dando-lhes o que até então Ele havia guardado em Suas próprias mãos por muitos e muitos séculos. Ora, o referido ‘Subjectum’ é de tal natureza, que ele, nossa ‘Magnesia’, não apenas contém uma quantidade em pequenas proporções do Spiritus Vitalis universal, como também um pouco de energia celestial condensada e comprimida em si. Muitos dos que o encontraram ficaram de tal modo intoxicadas pelo seu fumo que se mantiveram em seus lugares e não mais puderam erguer-se. Somente um sábio, e um que conheça tais coisas poderá tomar de uma medida desse mesmo fluido e levá-la para si, desde o lugar onde a encontrou, seja este qual for, mesmo que das profundezas das montanhas. Pela singular e abundante graça de Deus, tanto ricos como pobres possuem a mais absoluta liberdade de tomar disso, para que vá de volta a casa com isso, e coloque isso atrás da chaminé ou em qualquer outro lugar que lhe aprouver onde lhe for conveniente, e poderá começar a trabalhar isso e fazer experimentos, pois poderá deixar isso de lado tão rapidamente que nem seus próprios servos o notarão. Pois esta obra natural não é tão desajeitada como a dos alquimistas comuns, como seus desastrados trastes, seus fogareiros de carvão, suas cubas fundidoras e seus cadinhos de refinação, e com todo o restante de suas tralhas. Não, esta é uma obra que se pode guardar, numa arca fechada, em qualquer aposento que se queira, tão sossegadamente que nem mesmo um gato a encontrará, e, caso necessário, ele poderá prosseguir com seu ofício, tomando cuidado apenas para que a fornalha tenha um testador triplo, e que ele a mantenha no calor certo, deixando que a Natureza siga o seu curso. Quando, finalmente, a Solutio for retirada do ‘Terrestriat’ e fortalecida por longa ‘Digestio’, ficará então livre de ‘Crudae Materiae’ e estará preparada e renascida de forma mais sutil. Subseqüentemente, claro está, este agudo e potente ‘Spiritus’ recebe em certas ocasiões uma quantidade bem medida, como sucede nos casos de bebida e nutrição, ‘per modum inibibitionis et nutriotionis’. E sua potencia assim fica condensada e dia a dia torna-se como se fora novos suportes para seus irmãos, e muito ativa. Em verdade pensas que podes trazer esta obra e levá-la a tal potencia em intensidade oculta imensurável, um ‘Spiritus Vitalis?’ ‘ As Crudae Materiae’ ou o ‘Subjectum’ originam-se das ‘Astris e Constellatio dos céus, descendo para seu reino terreno’, sendo então sacado o ‘spiritus universi secretur’ dos Filósofos, que é o Mercuriuns dos Sábios, e é o principio, o meio e o fim, nos quais, o ‘Aurum Psysicum’ está determinado e oculto, que o alquimista comum pensa poder extrair do ouro ordinário, mas em vão. EEnquanto isso, os Philosophi lidam muito, em seus escritos, sobre Sol e Luna que de todos os metais são os mais duráveis no /_\. Mas isto não deve ser tomado literalmente, pois o seu Sol e Luna, quando levados à sua intia ‘puritaet’, através de preparação verdadeira, natural, correta e filosófica, podem muito bem ser comparados com os corpos celestiais, tais como o sol e a lua, que com o seu brilho iluminam, dia e noite, o alto e o baixo ‘Firmamentum’. Portanto, estes dois nobres metais, como Sol e a Luna dos Filósofos, assemelham-se, por natureza, ao corpo humano, e para os que sabem como prepará-los corretamente e usá-los sabiamente, dão muita saúde, e exceto isso,e acima disso, nada mais deve ser preparado, além do ponto tríplice do Universalis, pois o Spiritus a ser encontrado nestas duas coisas produz consistência, força e virtude, entre outras coisas.

Ora, o Homem perdoado por Deus pode preparar e aprontar um objeto ou substancia do supramencionado vermelho oou branco , do Sol e Luna, o que é chamado de Lapidem Philosophorum, ou a antiqüíssima Pedra d’Água dos Sábios, feita da substância na qual Deus colocou potencia na criação ou gênese do mundo, ou dos materiais freqüentemente mencionados ou Subjectum, os quais Deus, por amor e por graça, implantou no altamente dotado homem divino. Porém, creio, por isso, que a substancia divina deixada para ele na primeira Criação do mundo, do Spiritu Vitali, da Inspiração, tem sobrevivido em todas as espécies de criaturas. Todos receberam o mesmo Spiritum no mencionado Massam, e firmemente oculto nas mais internas profundezas da terra, e foi indicado e permitido aos Sábios desenterrá-lo, extraí-lo, usá-lo realizar as mesmas Miracula com ele, através do santo conhecimento que nele ainda está implantado e com o qual é diariamente suprido.

Ambas as substâncias acima mencionadas, como o Sol e a Lua, ou vermelho e branco, ou, antes, a Preparação, é, e os Mercurii são, os ingredientes na Composição de nosso Lapidis Philosophorum. Ora, as Matéria são no inicio purificadas e purgadas através de bastantes e repetidas Sublimentiones, e então cuidadosamente pesadas e logo depois compostas; também tu não deves ignorar o que representa a potência e a ocasião de ambos os ingredientes mencionados, porém deves saber como dispor ambas as Pondera, secundum proportionem Physicam [de acordo com a analogia da Física], pois uma boa porção da Preparação e do Mercúrio é misturada com uma pequena porco de animae Sollis vel Sulphuris, e então unem-se ambos com delicada mão, parra que finalmente a Preparação e o trabalho mais difícil sejam completados. Mas terás que saber que deverás primeiramente tingir a Preparação com a vermelha Tinctur, todavia ela não se tornará vermelha ‘in continenti’, mas permanecerá branca, pois o Mercurius tem o privilégio de querer ser tingido primeiro, antes de todos os outros. Os ‘Philosophi’ dizem que o fazer em adição com a Anima Solis desta Tinctur do Mercurii, e de onde deve ser tirada. O Fermento do ouro é ouro, justamente como o Fermento da massa é massa. Ademais, é o Fermento do ouro proveniente de sua própria natureza, e então sua potencia é perfeita quando retransformada em terra. E então isso é primeiro o inicio dos Filósofos, a certa e verdadeira Prima Matéria Philosophorum metallorum [a primeira Matéria dos metais dos Filósofos]. Daí para diante os verdadeiros Mestres, experienciados na Arte, começam a estimular seus Ingniam e aproximar-se da Grande Obra. E então o ‘Artifex’ continua com tal obra, e através da benção de Deus, leva-a ao final, para o qual tende e onde é encarnada por Deus, nominalmente, para a abençoadíssima Pedra Filosofal. De modo que de nada senão per Spiritum universali Secretum a verdadera matéria prima Philosophorum é preparada e aprontada. Quem, então, compreender bem este Spiritum Secretum entende também, sem dúvida, os segredos e milagres da Natureza e tem a percepção da luz da Natureza. Pois ela é ‘motus harmonicus Sympaticus e magneticus’, da qual se origina a Harmonia e Concordantia, a magnética e simpática força ou efeito do mais superior e do mais inferior. Porém, nota que a natureza de ambos os ingredientes não é semelhante uma à outra no inicio, por causa de suas opostas qualidades. Pois uma é quente e seca, a outra é fria e úmida, e logicamente,elas devem ser unidas. Mas quando isso está prestes a ocorrer, então suas qualidades opostas devem vagarosamente ser mudadas e igualadas, de modo que nenhuma das suas naturezas opostas, por meio de seu intenso fogo, retire da outra sua potencia. Mas tu jamais poderás juntá-las, pois ambas as naturezas devem elevar-se simultaneamente no poder do fogo. Então a Discrasia será retirada do Corpori, e uma Aequalitas e boa Temperatur são estabelecidas, o que ocorre através da moderada e constante ebulição.

Pois quando ambas as naturezas Sulphur e Meercurius são encerradas em espaço muito apertado e são mantidas sob calor moderado, começam a extenuar suas características opostas e a unir, até finalmente terem todas as qualidades. Elas se tornam Conspiratio e se elevam ao mesmo tempo, e certamente no topo do vidro se encontra número um. Elas estão prontas a consorciar-se, e então o noivo coloca o anel de ouro em sua noiva, dizem os Philosophi. E assim que Mercurius com seu Sulphur, como a água e a terra entre si, estiverem devidamente ebulidos [ quanto mais tempo, melhor], expelem de si todas as suas superfluidades e as partes puras encontram-se e dispõem de seus ‘corlicibi’; de outro modo as partes impuras impedem a unificação e o Ingressus.

Pois o Mercurius, como o primeiro Corpus, é inteiramente imperfeito e pode ‘per anima’ nem ser misturado nem perpetuado, pois nenhum dos Corpus ingressa no outro nem será unido a ele, seja ‘in vere’ ou ‘in radice’. Mas devem essas coisas ser tratadas de modo que uma verdadeira Tinctur se formará, e deverá ser preparada dela um novo Corpus espiritual que provenha de ambos, pois após a purificação um adotada as virtudes do outro, e de vários provém o único, numero et virtute [em numero e força]. Porém, se o fogo for por demais intenso e não for controlado de acordo com as exigências da Natureza, ambos estes acima mencionados serão sufocados ou separados. Se a eles não for dispensado o modo certo de preparo, transformar-se-ão em nada, em trabalho estragado e um Monstrum. Mas quando se proceder prudentemente e com o calor devidamente controlado, então ambas as substâncias se elevarão na Sublimatio do topo ou cúpula do vidro. Então, quando tu colheres estas lindas flores, poderás já desfrutar delas em particularia.

Mas não poderás observar o motum occultum naturae; assim como não poderás ouvir ou ver a erva crescer, pois ninguém pode observar, nem notar, o aumento e desenvolvimento destes dois ingredientes, Mercurii e Sulphuris, por causa de seu sutil, oculto e vagaroso Progressus de hora em hora. Somente por meio de marcas colocadas d semana em semana isso poderá ser observado e uma conclusão tirada, pois o fogo interno é muito delicado e sutil. Porém, por mais vagaroso que o processo possa ser, não terminará até chegar ao final, quando seu intento poderá ser visto, como em todas as plantas, a não ser que tal sutil e competente ebulição seja detida pelo calor demasiado do sol e seja queimada, ou detida por frio de aparição instantânea; ‘ergo qui scit occultum motum naturae, scit perfectum decotionm’ [por isso, aquele que conhece o movimento oculto da Natureza, conhece também a perfeita ebulição ou preparação]. Este motum deve agora tomar seu rumo natural e autodeterminado,apesar de ninguém poder ouvi-lo nem vê-lo, como também ninguém pode compreender. O Centra et ignem invisibilem seminum invisibilum [ o Centro e o fogo invisível]. Por isso deverás deixar tal assunto somente à Natureza, e observá-la, e nenhuma vez tentar opor-se à Natureza, mas depositar nela toda a confiança,até que ela produza seu fruto.

Quando alguém trata a Natureza com calor gentil e agradável, ela faz e produz tudo de si mesma, o que, para o suprimento de um Creati ou para a introdução de uma nova forma, é o objeto de necessidade: pois o Verbo Divino Fiat ainda reside em todas as criaturas e em todas as plantas, e tem sua poderosa força nestes tempos, assim como teve no inicio.

Existem, entretanto, quatro principais Virtudes e Potentias, das quais a nobre Natureza faz uso em cada ebulição; através disso ela completa sua obra e a leva a um final.

A PRIMEIRA VIRTUS
É, e é chamada, ‘appellativa et attracctiva’, pois lhe é possível atrair para si, de longe ou de perto, alimento pelo qual se mostre desejosa de resultados e lugares agradáveis à sua natureza, e ela pode crescer aumentar. E aqui ela não tem um poder magnético, tal como o de um homem por uma mulher, o Mercurius pelo Suplhur, o seco pelo úmido, a Matéria pela forma. Por isso o axioma dos Filósofos é: natura naturam amat, ammplectitur prossequitur. Omnia namquam crescentia, dum radices agunt et vivant, succum ex Terra altrahunt, atque avide arripiunt ilud, quo vivere et augementari sentiunt – isto é, a natureza ama a natureza, a envolve e segue. Pois todas as plantas, quando lançam raízes e começam a viver, tiram a seiva da terra, e a sugam avidamente, pois sentem que deste modo elas podem viver e multiplicar-se. Pois onde há fome e sede, alimento e bebida serão recebidos com avidez esta Virtus e Potentia será desperta e provém do calor e da seca mediana.

A SEGUNDA VIRTUS E POTENTIA
É, e é chamada natura retentiva et coagulativa. Pois a Natureza em si não somente é útil a ela e serve por sua continuação e é vantajosa quando ela carece daquilo que é avidamente produzido de si mesma, mas tem também com ela o laço com o qual ela tira e traz e a segura a si mesma. Sim, a Natureza até se muda em si mesma, pois como tem ela escolhido, destas duas, as mais puras partes, ela separa o resto e as leva à boca e a faz crescer, e não está carecendo de qualquer outra ‘calcinação ou fixação:natura naturam continent’[A natureza retém a natureza], e tal habilidade provém de sua secura, pois o frio constringe as partes obtidas e formas e as reduz, por secura, na Terrae.

A TERCEIRA VIRTUS E POTENTIA
[naturae in rebus generandis et augmentandis]

Est Virtus digestiva, quae fir per putrefactionnem seu in putrefactione [é a força digestiva, que ocorre por meio da putrefação ou na putrefação], em calor e umidade moderados e temperados. Pois a Natureza dirige, muda e introduz um tipo e qualidade, a imperfeição é eliminada, o amargo é adoçado, o autero é abrandado, o áspero é feito liso, o imaturo e selvagem é domado,o que era anteriormente incapaz é agora habilitado e tornando eficiente, e leva à execução finalmente pretendida e perfeição da Obra, e representa os Ingredientia da Compositio.

A QUARTA POTENTIA NATURAE
Est virtus expulsiva mundificativa, segregativa [a força expelente, purificante, separadora] que separa e divide, que purifica e purga, que lava durante a Sublimação ou Decocção.

Ela parte do Sordibus da escuridão e trás consigo um Corpus ou substância pura, transparente, poderosa ou iluminada; ela reúne as Partes homogneis, e é gradualmente liberada do heterogeneis, repele a Vitia e tudo o que for estranho, inspeciona o rude, e dá a cada parte um lugar especial. Isto é causado por – e é proveniente de – agradável calor, constante em umidade apropriada, e isso é a Sublimação e fruta madura que agora cairá da casca. Por isso foi no inicio designado pela Natureza artesãos, a saber: o Patiens é liberado do Agente e será aperfeiçoado. Nam liberatio illa a partibus heterogeneis est vita et perfectio omnis Rei – isto é, para a liberação destas desiguais partes, é a vida a perfeição de todas as coisas. Para o Agens e Patiens que até agora estiveram em contenda um com o outro, de modo que cada um afetava e oferecia resistência de acordo com a resistência de seu oponente – isto é, o quanto for possível ela quebrará a resistência de seu oponente e não se devem unir durante o tempo de sua Decocção, porém a melhor parte deverá ganhar a vitória e expelir o impuro, e subjugá-lo.

Agora, quando todas as Naturalis potentia tiverem desempenhado seu Officium, então virá o novo nascimento e como a fruta madura se apresenta em todas as outras plantas, assim também agora sucederá em nosso Subjecto e obra natural que, quando aperfeiçoada, surpreendentemente em nada mais parece com seu primeiro inicio e não tem mais qualidade, e é nem frio nem seco, nem úmido nem quente, e ´nem masculus nem foemina. Pois o frio é por si mesmo transformado m calor, e o seco em úmido, e o pesado em leve, pois ela é uma nova ‘Quinta Essentia’, um ‘Corpus Spirituale’, e tornou-se um ‘Spiritus Corporales’, tal Corpus é claro e puro, transparente e cristalino: por si mesma, a natureza jamais poderia ter produzido tal corpo enquanto existir o mundo. O Artifex e o homem iluminado, entretanto, auxiliante Deo et natura [pela ajuda de Deus e da Natureza], produziu por meio do seu intelecto a arte, e ele o coloca lá por si mesmo. De modo que subseqüentemente ele encontra uma Miracula e que é chamada: ‘unguentum anima, aurum Philosophorum, flos auri’[o ungüento, a alma, o ouro do filósofo, a flor do ouro]. Theopharastus e outros o chamam de Glutem aquilae.

Agora, o que foi mostrado sobre as quatro ‘potentiis naturae’ foi efetuado por meio do fogo, que deve ser incombustível, agradável à Natureza, e de acordo com a Natureza deve continuar estável e deve também sr vantajoso à Obra: porém nesta Obra dois tipos de fogos são particularmente bem tratados, a saber: o fogo elementar externo que o Artifex produz e o qual aplica à Obra, e depois deste o fogo natural, inato, interno, das substancias. Embora encontre em todas as três coisas primárias ou genera um fogo natural, tal como nos Animalibus, Vegetabilus e Mineralibus, através dos quais ele iniciou e se moveu, mantendo a vida, foi fortificado e aumentado; e pode continuar seu inato poder de continuidade e de virtude radicada de acordo com o caráter de cada um.

Mas o fogo que se encontra em nosso Subjecto em si mesmo não é mínimo entre as criaturas e os minerais. Ele tem oculto dentro d si o mais maravilhoso, o mais potente fogo, confrontado com o qual o fogo externo é semelhante à água, pois nenhum fogo elementar comum pode consumir e destruir o puro ouro, que é a mais durável substancia entre todos os metais, por mais intenso que o fogo possa ser, mas apenas os essenciais /_\ e \¨/ dos filósofos o podem conseguir.

Se tivéssemos hoje este fogo com o qual Moisés queimou o bezerro de ouro e o triturou em pó e o espalhou sobre a água de que então fez os Filhos de Israel beber [Êxodo, cap.32] – que seja esta uma parte da obra alquímica de Moisés, o homem de Deus! Pois ele foi instruído na arte egípcia e nela habilitado. Ou o fogo que o profeta Jeremias escondeu sob o pé da montanha, da qual Moisés avistou a Terra Prometida e onde ele morreu, o fogo que foi recuperado senta anos mais tarde pelos Sábios, os descendentes dos antigos sacerdotes, após o retorno do Cativeiro Babilônico. Porém, no entretempo, o fogo da montanha foi mudado e se transformou em água [II Macabeus, cap. 1 e 2]. O que pensas tu? Não nos deveríamos aquecer nele e manter afastado de nós o frio do inverno?

Tal fogo dormita em nosso Subjecto calma e pacificamente, e não se move espontaneamente. Se agora este secreto e oculto fogo devesse auxiliar seu próprio Corpori, de modo que possa elevar-se e ter seu efeito, e manifestar seu poder e força, para que o Artista possa alcançar o final desejado e predestinado, este fogo deverá ser estimulado pelo fogo elementar externo, ser atiçado e ser trazido para seu curso. Este fogo pode estar em lâmpadas ou em qualquer outro lugar que desejares, ou engedrares, pois ele sozinho é suficientemente capaz de executar a atividade com facilidade, e tal fogo e calor externos devem ser cuidados e mantidos durante todo o tempo, até o final da Sublimação, para que o fogo essencial e interno seja mantido aceso, para que os dois fogos mencionados possam ajudar-se um ao outro e o fogo externo possa dignificar o fogo interno, até que em seu tempo apropriado l se torne tão forte e intenso que rapidamente reduzirá a cinzas, pulverizará, reverterá a si mesmo e igualará a si tudo aquilo que for nele colocado, mas que é, todavia, de sua própria espécie e natureza.

Todavia, é necessário a todo Artifex, à custa do final desejado, saber que entre estes dois fogos mencionados ele mantenha determinada proporção entre o mais externo e o mais interno, e que ele atice o fogo apropriadamente, pois se o deixar fraco, então a Obra será paralisada, e o fogo mais externo não é capaz de aumentar o interno, e desde que ele o atice moderadamente por várias vezes, produzirá um vagaroso efeito de processo muito longo, e quando tiver esperado com tal paciência e obtiver seus dados, então finalmente alcançará seu objetivo. Porém, se alguém fizer um fogo mais forte do que o adequado a este processo, e este for apressado, então o fogo interno padecerá e será inteiramente inepto, a Obra certamente será destruída, e o apressado jamais alcançará seu fim.

Se após a duradoura Decocção e Sublimação as nobres e puras partes do Subject forem gradualmente, e com a vantagem de um tempo calculado, separadas e liberadas da rústica substancia terrosa imprestável, o impulso m tal atividade deverá ser de acordo com a Natureza e deverá ser ajustado com moderação que seja agradável, complacente e vantajosa ao fogo interno, a fim de que o fogo interno essencial não seja destruído por calor demasiadamente intenso, ou mesmo extinguido e tornado imprestável. Não, antes ele será mantido em seu grau natural, será fortificado, enquanto as partes puras e sutis se ajuntam e se reúnem, sendo o imperfeito separado, de modo que as partes puras combinem e o melhor alcance o objetivo em vista. Portanto, tu deves aprender da Natureza sobre o grau deste fogo que a Natureza usa em suas operações até que ela faça amadurecer seus frutos, e disso conhecer a Razão e fazer os cálculos. Pois o fogo essencial interno é realmente aquele que leva o Mercurium Philosophorum à aequalitaet; mas o fogo externo estende-lhe uma mão, para que o fogo interno não seja impedido em sua operação, e, portanto, o externo deverá estar em concordância com o interno e deverá ajustar-se de acordo com o mesmo, e vice-versa. Então, em tal uso do fogo elementar universal, ele deverá ser levado ao calor natural interno, e o calor externo será ajustado a ele, para que este não exceda no CREATO a força do SPIRITUS úmido e quante, o qual é inteiramente ‘subtil’; de outra maneira, a natureza quente de tal ‘spiritus’ seria rapidamente dissolvida, e não poderia mais manter-se unida, e não teria mais potência. Segue daí que um fogo mais intenso do que for necessário para reviver e manter o fogo natural interno implantado em nossa Materiae poderia ser apenas para o impedimento e a deterioração. In natura et illius Creatis et generationibus sit tua Imaginatio, isto é, na natureza e no que foi criado ou trazido por ela deverás mediar. Por isso leva o Spiritum úmido para terra, faze-o secar, agglutinirs e figurs, com um suave fogo. Assim deveras tu também levar o Animam para o Corpus morto e restaurar o que tiveres levado embora, e tu restaurarás o que não tem alma e o que é morto para a vida, para que se eleve e se equipe novamente, porém o que assim o fez não suportará o calor, pois este não se tornará constante como no caso de ter sido recebido espontaneamente com boa vontade, com alegria e com desejo, ficando profundamente impressionado.

E isto é ‘sicci cum humido natuiralis unio et ligamen tum optimun’ [a unificação natural do seco com o úmido, e também a melhor ligação]. Sim, se alguém realmente deseja discutir este assunto: os Sábios mencionam três tipos de fogo, cada um dos quais está encarregado do ‘operis magni’, assim é que cada melhor forma em particular deve em sabedoria e boa prontidão tê-lo também em governo. Assim, ele não trabalhará como um cego, mas de maneira entendida e prudente, como é adequado a um Philosophus inteligente.

O primeiro fogo é o externo, feito pelo Artista ou vigia, o qual os Sábios chamam de ‘ignem frotem’, do qual ‘Reginem’ depende a segurança ou a ruína da Obra inteira, e isto de dois modos:’nemium sumiget cave’ [tome cuidado para que não fumegue demais], mas também é dito:‘combure igne fortissimo’[queime-o com o mais forte fogo].

O segundo fogo é o ninho no qual a Phoenix dos Filósofos tem sua morada, e lá choca ‘ad regenerationem’. Isto não é nada mais que o ‘Vas Philosophorum’. Os Homens Sábios o chamam de ‘ignem corticum’, pois está escrito que a ave ‘Phoenix’ ajuntou todos os gravetos de madeiros balsâmicos com os quais cremou-se a si mesma. Se não fosse assim, a Phoenix morreria de frio e não alcançaria a Perfeição. Sulphura Sulphuribus continentur [os enxofres são mantidos pelos enxofres]. Pois, o ninho deve proteger, assistir, nutrir e vigiar a descendência do pássaro até o final.

O terceiro, entretanto, é o verdadeiro fogo inato do nobre Sulphuris, ele mesmo a ser encontrado ‘in radice subjecti’, e é um ‘Ingrediente’, e ele acalma o ‘Mercurium’ e lhe dá forma; este é o verdadeiro Senhor, sim, o verdadeiro ‘Sigillum Hermetis’. Em relação a este fogo ‘Creberus’ escreve: ‘In profundo mercurii est Suplhur, quod tandem vincit frigiditatem et humiditatem in Mercúrio.Hoc nihil aliud est, quam parvus ignis occultus in mercúrio, quod in mineris nostris exitatur et longo temporis sucesse digerti frigiditatem et humiditatem in mercurio, isto é: Na essência do Mercurii está um enxofre que finalmente subjuga a frieza e a umidade no Mercúrio. Isto nada mais é do que um pequeno fogo oculto no Mercúrio, que é feito presente em nosso Mineris, e na integridade do tempo ele absorve a frieza e a umidade do Mercúrio ou as remove, e isto também é dito sobre o fogo.


FINIS.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Rosa _ Símbolo de Psicologia Espiritual?


Durante muitas décadas, pode-se dizer que de modo geral psicologia e espiritualidade foram vistas como antinômicas. Jung, porém, colocou em evidencia a importância da dimensão espiritual como fator de evolução do ser humano, que é um ser em ‘devenir’, com real capacidade de transformação. Mas reconheçamos que na França Jung foi pouco compreendido que a maior parte dos ensinamentos da psicologia nas universidades francesas permanece fortemente marcada pelo pensamento materialista, o que, aliás, vai inteiramente contra o fenômeno da retomada de interesse pela espiritualidade; fenômeno com que nos encontramos e que deveria cumprir seu papel de pôr a questão em evidência em muitos campos.

Falar de psicologia espiritual é ter em conta, de modo global, a dimensão espiritual do ser no quadro da abordagem psicológica. Portanto, não se trata apenas de se interessar pela primeira infância, a infância, a esfera psico-afetiva ou a esfera profissional de um indivíduo, mas também de se ter em conta a esfera espiritual ou o despertar espiritual, com as qualidades psíquicas relacionadas, como por exemplo, a intuição, e com toda a simbologia que expressa, através dos sonhos, do corpo físico [simbologia corporal], do corpo psíquico [psico-energético], certos eventos interiores e certas enfermidades significativas. É também ter em conta os elementos da sombra em nós, isto é, os elementos negativos de nosso EU, os elementos que representam um problema e que devem ser reconhecidos e canalizados, para serem depois transmutados - é o caso da agressividade ou da passividade que devem ser reconhecidos como tal conscientemente. Posto que devem ser transmutados ao longo dos anos em uma energia positiva disponível para outra coisa. E é também integrar os fenômenos que fogem ao ordinário e que levantam questionamentos, como as experiências PES, as visões místicas, a sincronicidade, a memória de vidas anteriores, etc. – tudo isto faz parte da alquimia interior.

Como disse o Dr. JACQUES Vigne, “o que diferencia a psicologia espiritual é a experimentação pessoal: as observações são feitas mergulhando-se na própria psique, coisa que os sábios vêm praticando há milhares de anos, graças à meditação e a outras técnicas de expansão da consciência. Para eles, cada ser humano é seu próprio laboratório para explorar seus próprios estados interiores. Isto não é uma questão de crença ou de fé, é uma questão de experiência...”

Para nós ocidentais, não se trata de rejeitar, digamos assim, a psicologia clássica, convencional, que desenvolveu bastante o aspecto analítico, mas de inscrevê-la numa perspectiva espiritual que desenvolva o aspecto mais intuitivo e metafórico. Em outras palavras, trata-se de conciliar em nós o analítico e o intuitivo.

Freud, em sua obra, trabalhou bastante na estruturação do Ego, insistindo no papel da primeira infância, da infância, etc. Jung, por outro lado, aprofundou suas pesquisas na evolução do Ego rumo ao Eu. Em alquimia mental e em psicologia espiritual, sabemos que é essencial que haja um Ego bem estruturado – de onde a importância da infância e da adolescência – e sabemos também que a partir desse Ego bem estruturado pode se dar uma evolução de boa qualidade rumo ao Eu.

Os místicos aspiram à realização desse Eu, e a psicologia espiritual se interessa muito particularmente por esse campo. O Eu é o que há de mais elevado em nós e representa na verdade a ‘Imago Dei’ que todo ser humano possui em seu intimo, o reino de Deus dentro de nós. Como constatou o psiquiatra Adler, do ponto de vista psicológico o Eu pode ser considerado como a experiência de Deus em nós, de certo modo o Deus do nosso coração. Ele constitui o que podemos chamar de a mais alta intensidade de vida.

E é através da ampliação progressiva do campo da consciência que nosso Ego pode tender ao Eu cósmico, sendo a experiência última a reintegração da alma no Uno. E é essa ampliação que os rosacruzes realizam, aprendendo a desenvolver em si mesmos a consciência cósmica.

Abordaremos neste artigo três pontos simbólicos concernentes à rosa, de um ponto de vista psico-espiritual.

I – A Rosa como Símbolo do Desejo Espiritual de Realização do Eu
A jornada interior pode ser simbolizada pelo desabrochar da rosa na cruz. A rosa é considerada como um dos símbolos desse processo de mudança, dessa transmutação alquímica, mas outros símbolos, como o diamante, a flor de lótus, a criança interior, a esfera dourada, a luz branca, são também exemplos de símbolos do Eu. Podemos encontrá-lo nos sonhos espirituais, nos grandes mitos da humanidade, em alguns contos infantis tradicionais, como também nos manuscritos alquímicos ou ainda, por exemplo, nas cartas do Tarô iniciático.

Alertamos, porém, que não é suficiente sonhar com símbolos maravilhosos para que se seja um Realizado: os símbolos do Eu, as situações arquetípicas, devem ser consideradas sobretudo como um encorajamento e uma expressão do desejo de ir mais longe; não é o fim do processo, mas na verdade um novo começo para uma nova volta da espiral.

Do mesmo modo, podemos dizer que uma experiência de despertar, como uma visão mística, não é O Despertar. É simplesmente uma experiência de despertar, um encorajamento para a senda ou uma arrancada na evolução. A rosa em seu desabrochar, com suas diferentes pétalas, pode então traduzir esse desejo, mostrando que novas tarefas devem ser empreendidas.

II – A Rosa Como Símbolo do “Saber Dar” e do “Saber Receber”
A rosa pode ser apreendida como um magnífico símbolo de harmonização entre o ‘saber dar’ e o ‘saber receber’. Um bom numero de escritores já insistiu nessa necessidade de equilibrar em nós o saber dar e o saber receber, e entre esses podemos citar Jung, Maslow, Stanilas Grof, Annick de Sounzenelle, entre outros. Esse equilíbrio resulta de um movimento harmonioso, de uma aliança entre esses dois componentes, movimento que constitui uma dinâmica entre o exterior e o interior de nós mesmos. Em nossa vida cotidiana, não façamos a partilha do ‘saber dar’ e do ‘saber receber’. Por exemplo, não há uma hora de ‘saber dar’ seguida de uma hora de ‘saber receber’.

Nossa psique é constituída de uma energia masculina e uma feminina. A energia masculina representa nossa capacidade de ação no mundo físico: pensar, falar, mover-se, etc. Para o homem, como para a mulher, é a energia masculina que permite o agir; é a emissividade, a função emissa, e o ‘saber dar’ participa deste processo de emissividade.

A energia feminina representa nossa porção mas intuitiva, essa porção interior que pode se abri à inteligência suprema do universo. Para o homem, como para a mulher, é a receptividade, a função receptiva, e o ‘saber receber’ participa deste processo de receptividade.

De um modo esquemático, podemos dizer que o processo criativo traduz-se assim: o aspecto feminino recebe a energia criadora universal e o aspecto masculino a exprime no mundo pela ação; isto é parte da nossa alquimia mental e espiritual.

Se tomarmos o símbolos da rosa, poderemos nos dar conta de que este símbolo possui um núcleo central de onde emanam as pétalas. Ania Teillard, psicóloga, observou que tudo se passa como se neste símbolo da rosa houvesse, ao mesmo tempo, uma reunião em torno do ponto central e uma irradiação estelar emanando do centro:

- Por um lado, as energias vindas do exterior, que passam pelas diferentes pétalas e que são reunidas no centro da rosa, representam de certo modo nosso ‘saber receber’ – do exterior para o interior, o fenômeno da interiorização.

- Por outro lado, as energias que partem do interior, do centro da rosa, e se difundem através das pétalas irradiando-se para o exterior, representam de certo modo nosso ‘saber dar’ – do interior para o exterior, o fenômeno da exteriorização.

Tudo isso representa simultaneamente a concentração interior e a união com o mundo exterior. A mesma coisa participa também do processo de evolução individual e coletivo. Temos necessidade de ambos: do ‘saber receber’ e do ‘saber dar’. Talvez seja útil recordar em que consistem esses dois conceitos.

1_O ‘Saber Receber’
Nem todo mundo sabe receber ou estar em receptividade. Sylvie Galland e Jacques Salomé, psicoterapeutas, dizem que “reagimos como doentes do receber e, numa relação de longa ou de curta duração, muitas são as situações em que temos receio de receber.”

Receber presentes, palavras agradáveis, elogios, sinais de amor – pode parecer incrível, mas há muitas pessoas que não suportam essas atenções. Os autores citados acima colocaram a seguinte questão: a visão que temos de nós mesmos é tão severa, tão exigente, que não podemos aceitar o reconhecimento daquilo que é?

Mas receber é também receber as evidências, as opiniões diferentes, as proposições novas e até perturbadoras. A maioria dos seres humanos funciona com uma atitude defensiva; muitos dizem não pegar para si aquilo que lhes parece desconhecido; poucos estão realmente abertos às diferenças, o que explica bem os problemas das nossas sociedades contemporâneas que se caracterizam às vezes pela intensidade de sua intolerância. A falta de tolerância é um medo ancestral, um fechamento, um bloqueio de energia do receber.

2_ O ‘Saber Dar’
Assim como podemos estar doentes do ‘saber receber’, do mesmo modo podemos estar doentes do ‘saber dar’. Assim como a rosa pode receber a luz e o calor do sol sem reservas, do mesmo modo esta rosa pode dar seu perfume, sua irradiação, desinteressadamente e sem ficar privada do quer que seja.

Há prazer no saber dar, mas esse prazer não é algo calculado nem um troca de bons procedimentos, e menos ainda uma estratégia. O saber dar não põe em relevo o sofrimento e o sacrifício, ele revela uma forma de amor. Na vida cotidiana, é freqüente se ouvir frases como: “ E dizer que sacrifiquei dez anos de minha vida a tal causa, a tal ideal, a tal pessoa...” Aí não está a dádiva, o amor, mas o dever, e na psicologia moderna conhecemos bem os limites do dever. O dever nada tem a ver com o amor. Ora, é importante ter em mente que tanto no ‘saber dar’ como no ‘saber receber’ o prazer desempenha seu papel. Prazer de dar como prazer de receber, e vice-versa...

E isso pode ser feito muito naturalmente, como no exemplo da rosa que recebe calor e luz, e dá seu perfume e irradiação. O equilíbrio no cotidiano acha-se talvez na proporção, nessa adaptação com flexibilidade do ‘saber dar’ e do ‘saber receber’ que se faz simultaneamente.

O que dissemos da rosa, podemos aplicar ao símbolo Cruz. A cruz é qualquer parte da nossa vida cotidiana, isto é, um conjunto de experiências a serem vividas, com o braço vertical simbolizando a espiritualidade, o horizontal simbolizando a materialidade, e o ponto de encontro onde floresce a rosa, o desabrochar do ser. Podemos agora retomar os conceitos do ‘saber receber’ e do ‘saber dar’, pois material e espiritualmente recebemos do exterior elementos, informações, energias que vêm circular ao longo dos braços da cruz para se concentrarem no núcleo essencial que é a rosa; e inversamente, da rosa emana todo tipo de irradiações que vão se difundir ao longo dos braços da cruz, ressoando em nossa vida espiritual e material.

Não nos esqueçamos também que o que é válido para o funcionamento do individuo é igualmente válido para o funcionamento de um conjunto de indivíduos, podendo esse conjunto ser um grupo, uma nação e, por que não, todo o planeta. Se nosso planeta não vai atualmente muito bem, talvez seja por ele ter perdido o senso da proporção.

3_ A Rosa como Símbolo da Abertura do Coração
O que vamos abordar agora está completamente ligado ao que foi dito anteriormente: trata-se do que chamamos a ‘abertura do coração’, elemento essencial num caminho iniciático.

Na rosa-cruz, a rosa esta no centro da cruz, isto é, no ponto do coração do Cristo. Ângelus Silesius, místico do século XVII, autor de uma obra intitulada ‘O Peregrino Querubínico’, fez da rosa a imagem da alma, como também do Cristo.

Mantenhamos, então, essa imagem da rosa, símbolo, entre outros, da abertura do coração ... e mais particularmente da explicação simbólica da imagem do iniciado carregando um botão de rosa, que não deseja outra coisa além do desabrochar, como se o iniciado, em sua jornada interior, tivesse feito assomar em si o essencial. Esse essencial passa em verdade pela via do coração e a regeneração do Ser interior. O coração pode ser considerado como símbolo central dessa via, pois indica, quanto é importante para o homem saber amar a todos os níveis de seu ser, sendo o Amor Cósmico o nível mais elevado. Saber amar abre muitas portas, e num dos livros secretos dos gnósticos do Egisto havia esta expressão significativa: Vós, os Filhos do Conhecimento do Coração.

O centro cardíaco é um dos 7 centros psíquicos maiores. Lembremo-nos que, conforme recomendam os ensinamentos, é preferível não se polarizar excessivamente nesse ou naquele centro psíquico, pois é mais natural que o despertar, ou mais precisamente o redespertar, desses centros se faça de modo harmonioso, na exata medida em que se realiza a evolução espiritual. Do mesmo modo, as qualidades psíquicas, correspondentes aos centros psíquicos, despertam progressivamente. Os 7 centros psíquicos têm todos sua importância e seu desenvolvimento deve ser harmonioso, a fim d que a circulação energética possa ser feita normalmente de baixo para cima e de cima para baixo.

O centro cardíaco ocupa, entretanto, um lugar interessante no plano dos 7 centros psíquicos. De cima para baixo ele é o 4º, de baixo para cima é também o 4º. Alguns falam dele como sendo o primeiro centro altruísta. Sua localização mediana, à meia-distância entre a parte de baixo e a de cima, confere-lhe um papel especial, pois a abertura do coração, como se costuma dizer, favorece o desenvolvimento dos outros 3 centros superiores e tem uma ação aquietadora e harmonizadora sobre os outros 3 centros inferiores – são esses 3 centros inferiores que estão talvez exacerbados em nossa sociedade de hiperconsumismo e de hiperaglomeração emocional e especular.

É possível que a abertura do coração desenvolva o desejo espiritual de se ter uma relação mais intima com a alma. É possível que ele permita ao homem compreender melhor a natureza do amor.

Podemos acrescentar também que quanto mais adentramos na luz cósmica, mais somos iluminados no interior de nosso ser, e mais desejamos ajudar os outros e compartilhar com eles essas bases de compreensão, de conhecimento e de revelação mística que integramos em nós. De fato, quanto mais essa comunhão cósmica se dá, mais podemos amar e ajudar naturalmente e sem esforço da vontade pessoal, pois ajudar com esforço da vontade pessoal denuncia algo do conceito de poder.

Auxiliamos os outros na qualidade de transmissores, como canal espiritual. A abertura do coração, isto é, essa rosa que aos poucos se abre simbolicamente em nós, nos ensina a bondade interior. Esse desenvolvimento, pelo fato de estar carregado de amor, vai muito além do mero desenvolvimento intelectual. Ele tende a uma evolução mais profunda do ser, que proporciona uma expansão do campo da consciência e às vezes uma hiperconsciência – uma hiperconsciência transitória mas, ainda assim, uma hiperconsciência – como também um desejo espiritual de comunhão interior, e é sta comunhão interior que permite que se tome consciência do sentimento de universalidade e de unidade.

Não é então de se admirar que, a despeito de todo seu conhecimento, alguns cientistas passem longe da sua verdade: eles trabalham tão somente com a cabeça.

Ora, reconhecemos essa simplicidade do coração, esse calor interior, na tradição mística ocidental. A rosa e a cruz, através de seus diversos sentidos simbólicos, nos propõem manter, tão intactas quanto possível, essas qualidades da via do coração, mesmo no decorrer de experiências difíceis e talvez até mais ainda durante elas. Os estudantes sabem muito bem que vivenciar isto é parte do campo da iniciação. As experiências a serem vivenciadas podem ser individuais ou coletivas, mas todas devem ser consideradas significativas, ou seja, plenas de sentido.

E o conjunto das experiências, por um lado cotidianas, com seu quinhão de alegrias e sofrimentos para cada um, e por outro lado místicas e espirituais, pode conduzir afinal à experiências fundamental da luz interior, e com isto a aceitação plena e inteira do Plano Divino.


Há um adágio que diz: Ao te engajares num caminho, pergunta-te se esse caminho tem um coração. Não se trata,claro, do coração físico e nem do coração afetivo e emocional, mas do coração enquanto centro de integração de certas faculdades espirituais, esse coração centro do ser.

No limiar da Era de Aquário, sentimos, na psicologia espiritual, que o homem deve se reconciliar com seu coração. A inteligência sem coração, a ciência sem consciência, nos levaram à situação planetária atual, com nossas sociedades a um só tempo muito analíticas e muito emocionais na superfície, mas muito frias na profundidade. A abertura do coração pode dar um sentido e uma outra visão às descobertas da inteligência na vida cotidiana, e o coração purificado, no sentido alquímico da expressão, torna-se capaz de ver ‘aquilo que’ é em sua essência.

E como disse o poeta, numa visão muito idealista: Que é um coração puro senão aquele olho capaz de contemplar todas as coisas sem projeção, sem transferência, com aquela qualidade da inocência que faz com que o mundo nele se reflita como sobre água límpida...

Paralelamente a esta visão poética, podemos recordar a explicação de Mircéia Eliade sobre o simbolismo, que ele considera como um dado imediato da consciência total, quer dizer, do homem que se descobre como tal, do homem que toma consciência de sua posição no universo; essas descobertas primordiais são tais que o próprio simbolismo determina simultaneamente a atividade do subconsciente e as mais nobres expressões da senda espiritual.

UM TRIÂNGULO
Vimos assim 3 pontos simbólicos concernentes à rosa numa abordagem psico-espiritual; portanto, um triângulo com:

1ª ponta:a rosa como símbolo do desejo espiritual de realização do Eu.
2ª ponta:a rosa como símbolo do saber dar e do saber receber.
3ª ponta:a rosa como símbolo de abertura do coração.

Três pontos simbólicos que favorecem o sentimento de unidade. Três em Um – sentimento de unidade que pode ser traduzido também pela rosa no centro da cruz.

- Sentimento de unidade no Eu, com a harmonização dos diferentes componentes do nosso ser.

- Sentimento de unidade com os que vivem o mesmo ideal místico, e quanto a isto conhecemos o papel desempenhado pela Egrégora.
- Sentimento de unidade com os que estão na busca spiritual, de uma maneira geral.

- Sentimento de unidade com o conjunto da humanidade, com a qual somos solidários no nível das alegrias e das tristezas.

- E um dia, sentimento de unidade com o infinito...

A unidade através do Amor e do Conhecimento auxilia no estabelecimento de novos valores.

É a tudo isso que nos convida o símbolo da rosa que irradia no sentido espiritual do termo, mas também no sentido psicológico, com as mudanças de valores e de comportamento que ela acarreta no mundo do pensamento; e, claro, no sentido cotidiano, com as aplicações práticas, concretas, pragmáticas, na vida de todo dia. Portanto, uma irradiação nos três planos – espiritual, psicológico e cotidiano.

CONCLUSÃO
Pode-se dizer que a senda espiritual e também a psicologia profunda a que nos referimos, isto é, a que leva em consideração a dimensão espiritual, introduzem o conceito de jornada interior. Cada um tem em si uma parcela da imensidão cósmica, da infinitude, e da busca da harmonia possível com o Cósmico. A jornada interior consiste nos encontros consigo mesmo, no casamento alquímico interior, na unificação, efetuando um circulo completo que, como Ulisses, nos conduz ao nosso ponto de partida, mas com uma consciência muito maior e com as múltiplas experiências que terão balizado nossas vidas sucessivas como etapas necessárias.

A senda iniciática é uma imensa jornada de Amor, tal como a empreenderam todos os alquimistas, e somos todos, com diz a Ordem, alquimistas espirituais. É um imenso poema de Amor pela vida, nessa busca pelo Absoluto, uma jornada através dos planos de consciência, das estrelas também - por que não? – através do cotidiano que se torna nosso verdadeiro laboratório, para descobrir passo a passo a realidade crística do Amor e da Luz. Algo semelhante ao que disse Jacob Boehme quando afirmou que somos de natureza terrestre no âmago dessa natureza terrestre havemos de descobrir nossa existência celeste.

Sócrates e depois Platão, cada qual em sua época, ansiaram por estimular os homens a fim de revelar neles os traços de conhecimentos acumulados ao longo da jornada da alma, de modo que esses conhecimentos pudessem servir como fonte interior da verdade. A tradição iniciática, como fizeram Sócrates, Platão e muitos outros,apóia-se no fato de que as fontes de sabedoria, de amor e de conhecimento se ocultam nas profundezas do ser, e que são elas que se desenvolvem da maneira mais significativa, desde que lhes seja permitido expressarem-se totalmente. No mundo da psicologia contemporânea, numerosos são os que, aos poucos, admitem essa realidade, e cujas tentativas de modelos psicológicos e psicoterapêuticos de visão espiritual buscam responder às nossas necessidades modernas.

Edouard Schuré, m 1889, autor do Livro ‘Os Grandes Iniciados’, escreveu o seguinte capítulo sobre Pitágoras: “Será esta, segundo nós, a tarefa de fazer com que se venha a render às faculdades trancendentes da alma humana sua dignidade e sua função social, reorganizando-as com o auxilio da ciência e sobre bases universais, abertas a todas as verdades. Então, a ciência regenerada, de olhos abertos, alcançará essas esferas onde a filosofia especulativa vagueia de olhos vendados e tateando. Sim, a ciência se tornará clarividente e redentora, na medida em que nela crescerão a consciência e o amor à humanidade.”

A ciência com consciência e não mais a ciência sem consciência.

Então, a rosa, cuja importância história não requer maiores provas, permanece um autentico símbolo da maior consciência de ser e do ensinamento espiritual.

E o que melhor se pode desejar para a humanidade do século XXI do que esperar vê-la ampliar seu campo de consciência e sua capacidade de amor?

Uma ultima imagem simbólica para encerrar: nos manuscritos alquímicos dos séculos passados, a rosa foi muitas vezes denominada Flor dos Sábios, e nos seus casamentos místicos a rosa vermelha era atribuída ao Rei e a rosa branca à Rainha. Retenhamos em nossos pensamentos esta imagem da rosa como Flor dos Sábios e como símbolo de abertura da consciência.

A consciência é uma questão de qualidade e não de quantidade técnica conhecida, e a Flor dos Sábios se reconhece, claro, por sua qualidade....
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[Texto de Jean-Pierre Clainchard]


segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Homem _ quem ele é? Uma Visão Antropológica Filosófica

O Homem _ quem ele é? _ Uma Visão Antropológica Filosófica

“O interrogar-se sobre o homem, sobre a sua posição presente e futura no mundo, faz parte dos problemas centrais da filosofia. Na conjuntura da passagem mundial da humanidade pelo capitalismo, pelo socialismo e pelo processo de radicais mudanças técnico-científicas, essa questão ganha atualidade. À sua solução são dirigidos também esforços dos representantes da filosofia, da sociologia e da cultura, de maneira sempre mais intensa”.

Praticamente todos estão portanto de acordo em reconhecer a importância ‘capital de um estudo profundo do homem’.

Mas como realizá-lo? De onde começar? Que aspecto examinar? Qual o método a ser seguido, o da ciência experimental ou o da psicanálise, o da sociologia ou o da metafísica? Em outras palavras, para alcançar uma resposta conclusiva à interrogação “Quem é o Homem?” que tipo de antropologia se deve elaborar: a cientifica, a fenomenológica ou a filosófica?

A tentativa de abordar o estudo do homem prevê por seu próprio turno um numero considerável de ciências, pseudociências e especulações as mais variadas.

Variando pela abordagem, estas tentativas são cognominadas de acordo com seu enfoque. As ‘logias’ que conhecemos confirmam este fato.

Entretanto, ressaltaremos o homem como tema central – ele e suas relações, e mais ainda, discorreremos respeitando a sua Totalidade. Tal categoria representa, segundo o conceito aristotélico, um todo completo nas suas partes e perfeito na sua ordem. Plenitude.

Max Scheler afirma: “Num certo sentido, todos os problemas fundamentais da filosofia podem reconduzir-se à questão seguinte: que é o homem e que lugar e posição metafísica ele ocupa dentro da totalidade do ser, do mundo, de Deus”. Daí a importância da antropologia filosófica.

Representa efetivamente uma ciência fundamental acerca da essência e da estrutura de eidos [*eidos – um dos termos que Platão usava significando a idéia, Aristóteles a forma, usado na filosofia contemporânea por B.Husserl para indicar a ‘essência’]do homem; da sua relação com os reinos da natureza [minerais, plantas e animais] e com o princípio de todas as coisas; da sua origem essencial metafísica e ao seu inicio físico, psíquico e espiritual no mundo; das forças e potencias que agem sobre ele e aquelas sobre as quais ele age; das direções e das leis fundamentais do seu desenvolvimento biológico, psíquico, espiritual e social, consideradas nas suas possibilidades e realidades essenciais.

Historicamente, até dois séculos atrás, o estudo do homem era chamado ‘De Anima’. Era ao mesmo tempo ‘experimental e metafísico’, diríamos mais o segundo.

Foi Wolff o primeiro a distinguir os dois tipos de pesquisa, e as chamava respectivamente: Psychologia empírica [Frankfurt,1732] e Psychologia rationalis [Frankfurt, 1734].

Essa distinção depois assumiu caráter definitivo.

Hoje tende-se a substituir o termo ‘psicologia’ por ‘antropologia’, que é mais apto a indicar o conteúdo da pesquisa filosófica: ela diz respeito a todo homem e não só à sua alma.

O termo ‘antropologia’ afirmou-se por mérito de Kant, que intitulou uma de suas obras ‘Anthropologie in Pragmatischer Hinsicht [1798]’. Nela se define essa ciência como:”Uma doutrina do conhecimento do homem ordenada sistematicamente”.

Hoje ele é adotado para denominar três disciplinas bem diferentes:
a) O estudo do homem do ponto de vista físico-somático: antropologia física.
b) O estudo do homem do ponto de vista da sua origem histórica: antropologia etmológica ou cultural.
c) O estudo do homem do ponto de vista dos seus princípios últimos: antropologia filosófica.

Embora o termo antropologia tenha sido cunhado em tempos mais recentes, o homem tem sido objeto de estudo m todos os períodos da historia.

O homem foi estudado pela filosofia grega, assim como pela cristã, pela filosofia moderna como pela contemporânea. Não foi, porém, estudado sempre do mesmo modo, do mesmo ponto de vista, do mesmo ângulo.

*Na filosofia clássica o homem foi estudado a partir de uma perspectiva cosmocêntrica; na filosofia cristã, de uma perspectiva teocêntrica; na filosofia moderna e contemporânea, de uma perspectiva antropocêntrica.

É lógico que destas diversas perspectivas se obtiveram imagens do homem profundamente diferentes.

As antropologias mais significativas elaboradas numa perspectiva cosmocêntrica são as de Platão, Aristóteles e Plotino.

Para Platão o homem é essencialmente alma: alma espiritual, incorruptível, e portanto certamente imortal; a imortalidade da alma para Platão não constitui verdadeiramente um problema: o único problema para ele é libertar a alma da prisão do corpo.
A visão cosmocêntrica possui o Cosmo como centro, tendo portanto o homem uma importância relativa.

Nesta visão, a preocupação destaca-se pela origem, funcionamento e manifestações da natureza, do Cosmo e de Deus. É a fase a que se atribuem aos mitos as explicações e desígnios e é também chamada de mítica. A busca da ‘substancia primordial’ pelos filosóficos pré-socráticos é um marco deste período cosmocêntrico.

A visão teocêntrica mais característica do período medieval tem Deus como centro da visão e da origem do homem. Com o cristianismo abre-se para o homem [e portanto também para a reflexão antropológica] uma nova perspectiva. O fundo sobre o qual se desenvolve a vida humana não é mais o da natureza, do cosmo, como para os gregos, mais sim aquele da história da salvação, ou seja, a história das relações entre Deus e a Humanidade. Por conseguinte, a reflexão antropológica dos autores cristãos tem como ponto de referencia constante o próprio Deus: é uma reflexão evidentemente teocêntrica.

Com o inicio da época moderna a pesquisa antropológica abandona a impostação cosmocêntrica dos filósofos gregos e a teocêntrica dos autores cristãos e se dirige para a impostação antropocêntrica: o homem constitui o ponto de partida de onde se origina e em torno ao qual fica constantemente polarizada a pesquisa filosófica. A investigação critica, que em Descartes é o necessário ponto de partida de todo reto filosofar, tem por objeto o homem. Na Ethica, Spinoza não se propõe outro objetivo que estabelecer cientificamente qual seja o escopo da vida humana e os meios para o conseguir. Hume [em Treatrise on Human Nature] pretende oferecer um quadro definitivo do homem como indivíduo; Comte e Marx pretendem apresentar um quadro completo do homem como ser social; Freud estuda o homem como um complexo de instintos, etc... Enfim, o homem como centro das buscas do pensador moderno.

Existem modelos, métodos e enfoques para o estudo do homem que quando conhecidos pelo estudante rosacruz ampliam seu horizonte, contribuindo com subsídios à questão do homem em suas relações materiais e espirituais.

Propomo-nos trazer à tona um enfoque que o enxerga como um ser espiritual, como uma alma vivente, conforme a Ontologia Rosacruz, mas que sobretudo avalia-o inserido num contexto, numa manifestação material enquanto ser-no-mundo. Daí a necessidade da ética como mediadora das relações da sociedade humana e do conhecimento das classificações feitas pela ciência da antropologia filosófica como elemento vital desta compreensão.

É desta maneira que nos ocuparemos nos próximos artigos desta seção, a fim de que, conhecedor dessas ‘facetas’, o estudante possa efetivamente adequar o seu conhecimento místico-filosófico à realidade e expressão de seu ser na vida, na terra e na sociedade humana.

Deve-se observar que embora todos partam de uma perspectiva antropocêntrica, os filósofos modernos, de um primeiro estágio moderno, continuam inspirados em Platão, elaborando antropologia de cunho metafísico. Temos como exemplo as antropologias de Descartes, Spinoza, Pascal, Malebranche, Vico e Leibnitz.

Um novo modo de estudar o homem toma lugar quando um pensador de renome resolve provar a absurdidade da metafísica. Nada menos que Emmanuel Kant, autor da Critica da Razão Pura, procurou provar que o saber humano é limitado e a mente humana não pode adquirir um saber absoluto, nem do mundo nem do homem nem de Deus; a mente pode adquirir somente um conhecimento de caráter prático, moral. Daí seu imperativo categórico fundamentado, etc.

A critica kantiana à metafísica, os progressos da ciência, o emergir da consciência histórica e outros fatores já no século XIX, e depois mais decididamente ainda no século XX, deram uma reviravolta decisiva na investigação antropológica: abandona-se o terreno metafísico no qual, como se viu, os filósofos haviam trabalhado até Kant, para se colocarem em outros terrenos – os da história, da ciência, da cultura, da fenomenologia, da psicanálise, da religião, etc...

A proposta da Antropologia Filosófica é abarcar o quadro completo da situação do homem e responder a Questão: “Quem é o homem enquanto tal?”

Isto, sabendo que a realidade humana traz problemas que a razão de per si não consegue resolver. Desmascara deste modo a auto-suficiência do saber cientifico e aborda a questão acima não com o rigor parcial das especialidades cientificas, mas sobretudo buscando a resposta total, completa, exaustiva, última, uma resposta em condições de esclarecer plenamente o que seja o homem tomado globalmente, em seu todo, o que ele seja efetivamente além e sob as aparências, o que seja em si mesmo afora as diferenças causadas pelo ambiente, pela idade, pela educação, etc...

O homem nos interessa na sua totalidade, não por esse ou aquele de seus aspectos. As ciências especializadas [antropologia, lingüística, medicina, psicologia, sociologia, economia, ciências políticas], malgrado os seus esforços, tendem a limitar a totalidade do individuo, considerando-o do ponto de vista de uma função ou d um impulso particular. O nosso conhecimento do homem resulta de uma função ou de um impulso particular. O nosso conhecimento do homem resulta fragmentado: muito freqüentemente tomamos uma parte pelo todo. É esse erro que nos propomos evitar.

Isto posto, consideramos apresentada a legitimidade da Antropologia Filosófica. Nosso método será lento, porém de uma exploração, a mais ampla possível, do fenômeno humano, tomando para exame as suas principais manifestações que citaremos a seguir.

Depois, seguindo certo indícios que nos serão sugeridos por essas mesmas manifestações, procederemos à decifração do sentido profundo, último e completo do homem.

O Homem é a expressão do Homo Somaticus; Homo Vivens; Homo Sapiens; Homo Volens; Homo Loquens; Homo Socialis; Homo Culturalis; Homo Faber; Homo Ludens; Homo Religiosus.
_
[Estudode Hélio de Moraes e Marques]

O Homem _ quem ele é? [Parte II] Homo Somáticus

HOMO SOMATICUS
A principio cabe esclarecer qual método usaremos para abordar o tema. Embora rara nos dias de hoje, a expressão ‘Homo Somaticus’ não o era nos tempos d São Paulo e Filão Alexandrino que, como outros do mesmo período, separam no homem dois elementos:
* um psíquico, ligado à alma;
* e, outro somático, ligado ao corpo.

A expressão Homo Somaticus é um termo usado para identificar a dimensão corpórea do homem.

O corpo humano tem sido objeto de reflexão filosófica em quase toda parte da história do pensamento. Encontra-se em Platão, Aristóteles, Filão, Santo Agostinho, São Tomás, Descartes, Spinoza, Leibnitz, Schopenhauer, Nietzsche, Bérgson, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Marcel e outros.

O fato de muitos pensadores antigos e até modernos não considerarem o corpo em si mesmo mas apenas e exclusivamente em relação com a alma, coloca-o numa posição de pouca importância nas suas reflexões antropológicas, razão pela qual vêmo-lo sempre no fim de seus postulados.

Não é exclusividade dos platônicos [Platão, Plotino, Descartes, Leibnitz] que, identificando o homem com sua alma, estudam antes de tudo e sobretudo esta última, mas também os aristotélicos [Aristóteles, Tomás, Locke], que vêem no corpo uma parte essencial do homem. Justifica-se pela forma como avaliam a questão: tantos os platônicos como os aristotélicos, em antropologia, se valem do método metafísico, o qual exige que se estude antes as causas e depois os efeitos, antes as coisas mais perfeitas e depois aquelas menos perfeitas. E, dado que ambos sustentam que a alma é mais perfeita que o corpo e que exerce sobre ele uma atividade causal, logicamente concentram suas atenções sobretudo na alma.

Cabe lembrar que a exceção são os existencialistas, que centram suas atenções no homem com seus atributos enquanto ser-no-mundo e sua existência concreta – a partir da qual está condenado a ser livre, construtor do próprio destino e arquiteto da sua vida, submetido embora a limitações concretas e existenciais.

Daí a famosa frase do contemporâneo francês existencialista, Jean-Paul Sartre:”O inferno é o outro.”

Avaliando qual o melhor método para nossa abordagem, destacamos dois: um é focar o corpo como realidade física. Estudá-lo pelo método experimental chamado de ‘cientifico’. Na época moderna, a partir de Descartes até Pavlov e Watson, vigorou o costume, também entre os filósofos, de aplicar o método experimental ao estudo da dimensão da corporeidade.

O problema é que desse modo reduziu-se o corpo a uma coisa, a uma maquina, com leis mecânicas perfeitamente calculáveis.

E sabemos que o corpo não pode ser reduzido a uma coisa.

Essa característica de Descartes e outros se deu porque foram induzidos a depositar fé cega no método cientifico, que só reconhece como verdadeiro e real aquilo que é experimental – os objetos físicos e as coisas materiais.

Outro método é o Fenomenológico.

A quebra desse paradigma se deu quando, no inicio do nosso século, homens como Bérgson, James, Dilthy, Husserl e Scheler provocaram uma forte reação a essas pretensões da ciência de monopolizar toda a esfera do saber, e mostraram que existem outros modos de conhecimento tão precisos como os da ciência.

A separação entre método cientifico e método experiencial para o estudo do corpo originou duas considerações diferentes do fenômeno da corporeidade: a cientifica – o corpo – coisa, objeto, o corpo como se manifesta aos outros, aquilo que os alemães chamam ‘körper’; e a consideração fenomenológica, que estuda o próprio corpo, como é sentido, experimentado, vivido, aquilo que os alemães chamam leib.

A chave para compreender o método é atentar para que, embora posa se efetuar dupla investigação pelo corpo, nos ateremos não à cientifica, mas à fenomenológica, sem, é claro, ignorar de todo a primeira.

Para nós, estudantes, pode-se dizer que ‘leib’ é a sensação ou percepção do nosso próprio eu. É a consciência dos próprios pensamentos internos.

Assim,percebe-se dois aspectos: de um lado a realidade física com uma estrutura ‘coisal’ objetiva, e de outro o vivido imediato da consciência, sem distância ou objetivação, uma estrutura próxima da subjetividade, constantemente operante no seu relacionamento com o mundo.

Por isso, antes de procedermos à análise filosófica da corporeidade humana, escutemos a ciência para que ela nos diga o que é esse complexo físico tão importante que é o corpo humano e que se distingue dos animais.

PROPRIEDADES DO CORPO HUMANO
Uma propriedade surpreendente é o mecanismo, a perfeição do aparelho circulatório, dos tecidos, mãos, sistemas nervosos, aparelho reprodutor, etc...

O homem é capaz de manejar seu corpo, adestrá-lo e torná-lo apto a realizar movimentos de uma perfeição admirável. Basta ver o que os instrumentistas os prestidigitadores fazem com as mãos, os dançarinos e os bailarinos com os pés, os artistas com os dedos, etc.

O homem não só é senhor do seu corpo, como também, graças a ele, torna-se senhor do mundo.

O homem no exercício de suas atividades consegue superar qualquer outro animal. Alguns estudiosos definem o homem como o ser não especializado. Enquanto no reino animal cada um é especialista em uma determinada função orgânica [da visão, audição, objeto, movimento, etc], o homem é uniformemente dotado nestes ponto, tornando-o em muitos casos até carente de certos instintos.

Entretanto, o elemento fisiológico que o distingue e o possibilita superar todas as várias especializações dos animais é o cérebro. O cérebro aparece como fator de equilíbrio biológico. A compensação da carência com a formação do cérebro aparece como uma hipercompensação de uma inferioridade biológica constitucional. O homem torna-se então um ser especializado no cérebro.

Um outro aspecto que caracteriza o corpo humano e o distingue nitidamente de todos os corpos dos animais é a sua posição vertical. Esta posição e o porte ereto são atos livres e conscientes do homem, já que a criança deve aprender a andar [e com quanto esforço!].

FUNÇÃO DE CORPOREIDADE EM GERAL
A dimensão somática pode ser aprendida estudando suas principais funções. A somaticidade é componente fundamental do existir, do viver, do conhecer, do desejar, do fazer, do ter, etc...É através dela e de sua consciência que ‘realizamos’ o mundo tal qual é.

Ou seja, o corpo é essencial ao homem. Sem ele, o homem:

_ não pode se alimentar
_ não pode se reproduzir
_ não pode aprender
_ não pode se comunicar

É mediante o corpo que o homem é um ser social.

É mediante o corpo que o homem é um ser-no-mundo.

“Entre au monde à travers um corps”

Entre essas funções, algumas são essenciais para a compreensão da natureza especifica do ser humano. As funções de ‘mundanização’, de individuação, de autocompreensão, de posse, são as mais importantes e por isso as destacaremos especialmente.

FUNÇÃO MUNDANIZANTE
É uma das principais porque a somaticidade tem a condição de ‘mundanizar’ o homem, isto é, de o fazer um ser-no-mundo.

É por obra do corpo que o homem faz parte do mundo; ele se reconhece constituído dos mesmos elementos do mundo, sujeito às mesmas sortes e às mesmas leis por causa do seu corpo.

Esta verdade, que não foi ignorada pela filosofia clássica [mesmo que Platão e Aristóteles tenham-na interpretado d maneira oposta], adquiriu uma nova clareza e profundidade graças aos estudos dos existencialistas [Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty]. Eles mostraram que a somaticidade nos situa no mundo das coisas e nos faz participantes de suas restrições espaciais.

Como qualquer outro corpo, o nosso também se insere em uma situação espacial bem definida e deve ocupar sempre uma determinada porção do espaço.

A somaticidade faz do homem um ser-no-mundo: ela lhe designa uma determinada posição no espaço e o condiciona a ter relações ônticas apenas com as realidades que lhe são espacialmente próximas. Apenas estas entram junto com nosso corpo a fazer parte de nossa vida.” otivado por uma necessidade original, o meu corpo é ponto de referencia em relação ao qual cada coisa toma seu lugar e torna-se situada; eis-me, pois, transformando em centro de um imenso circulo – o meu ‘ambiente’: cada raio seu define, para mim,, uma perspectiva, e a sua circunferência é o meu ‘horizonte’. No interior deste circulo uma coisa qualquer não se transforma em objeto [objetum] para mim senão quando se encontra lá, defronte ao meu corpo; a uma distancia variável. O meu corpo é o centro e o foco de todo o universo espacial; o ambiente geométrico do meu ambiente vital; graças ao meu corpo localizado, atraio para mim todos os pontos do espaço; os concentro, os recapitulo, os interiorizo. Em compensação, adquirindo impulso desta posição me projeto em direção a todos os pontos do meu horizonte. Graças a este ritmo o universo inteiro reside em mim, enquanto eu habito todo o universo.”
Também a dimensão das coisas é relacionada com nosso corpo [quando éramos crianças a cadeira era mais alta...]. Assim também o movimento das coisas tem como ponto de referencia o nosso corpo.

FUNÇÃO EPISTEMOLÓGICA
Foi demonstrado que a somaticidade é, antes de tudo, instrumento necessário para uma autoconsciência. Não é de fato verdadeiro que na auto-consciência podemos nos desfazer do corpo, como afirmava Descartes. Realmente a autoconsciência se cristaliza na cinestesia: o sistema fundamental que possuímos do nosso ser, o qual se qualifica sistematicamente mediante as condições e disposições somáticas - me sinto bem ou mal, confortável ou não, sereno ou preocupado, etc. O quanto é importante a somaticidade como fator de autoconsciência se vê quando estamos indecisos se alguma coisa está acontecendo ao nosso redor ou se trata de situações puramente imaginárias, sonhadas ou reais. Então apalpamos o nosso corpo: esta é a verificação do nosso ser. Se encontramos a cabeça, as mãos, os pés, onde e como devem ser, damos um suspiro de alivio e voltamos a ficar tranqüilos.

Outra coisa que foi bem evidenciada pelos fenomenólogos contemporâneos é o caráter fortemente somático que tem o nosso conhecimento do mundo [e não raramente também de Deus]. O mundo é sistematicamente retalhado sobre categorias somáticas.

Para se fazer uma idéia de quão forte é a incidência da somaticidade na nossa concepção das coisas, basta que demos uma olhada num dicionário de qualquer língua e leiamos os artigos dedicados aos termos principais de nossa anatomia: descobriremos que esses termos são transferidos sistematicamente à denominação das coisas. Fala-se do pé da mesa, da cabeça do prego, do coração da alcachofra, etc. Isto mostra que nós lemos, pensamos e exprimimos o mundo não só mediante as categorias da razão, mas também mediante o nosso corpo vivido, tomado como princípio e forma de organização concreta. A nossa linguagem torna-se então algo de fenomenológica, empírica e óbvia.

FUNÇÃO ECONÔMICA OU DE POSSE
Com o exercício da função de posse, nós temos a impressão de que ocorre uma dilatação do nosso corpo, da nossa dimensão somática. Por esse motivo nós consideramos as coisas como possíveis prolongamentos do nosso corpo: “ Quando uma pessoa aprende a guiar um automóvel, de início tem a impressão de estar sempre sentada com o seu pequeno corpo em uma grande máquina que não conhece. Mas, depois aprende a identificar-se com essa máquina, adquire o sentido da massa externa do seu veículo. Funde-se com seu carro em uma unicidade de movimento. O veículo torna-se seu corpo. Se logo depois sofrer um acidente, não dirá: ”O outro bateu no meu carro com o seu”, mas sim: “O outro me bateu”. E freqüentemente sentirá isso como uma ofensa pessoal. O carro, como se vê,não é considerado apenas como instrumento de locomoção, mas sim como parte do próprio EU. O motorista não é apenas o patrão de seu carro; este realmente reage sobre ele, quase como se fosse o seu corpo, e lhe confere a sua marca. Uma análoga dilatação da autoconsciência está no trabalho numa fábrica, no escritório, no hospital, na leitura dos jornais ou sentado defronte ao televisor. O material ao redor do qual alguém trabalha é também o meio no qual ele se expõe. A sua existência se desenrola no jogo combinado entre ele e o seu ambiente. Torna-se, por isso, sempre mais difícil distinguir entre si o ambiente que lhe foi edificado pelos homens; de fato, os seus instrumentos não são apenas os meios dos quais se servem de maneira soberana; eles são, juntos, parte de sua figura, assim como ele é parte da deles. A relação que existe entre o homem e a máquina, se entendermos aqui a ‘máquina’ no sentido lato de obra humana, não é a relação entre sujeito e objeto, mas antes uma nova figura que une o homem e a máquina.”

FUNÇÃO ASCÉTICA
Filósofos, moralistas, escritores de coisas espirituais, tem sempre instituído alguma relação entre perfeição moral e espiritual, de uma parte, e uso do próprio corpo, de outra. Mas o fizeram de duas maneiras opostas. Alguns [Platão, Plotino, Agostinho], julgam que o corpo, com suas paixões, os seus instintos, as suas misérias e fraquezas, constitui um peso ou um laço para a alma e a impede na sua ascensão e, portanto, sugeriam àqueles que aspiravam a um grau elevado de vida moral e espiritual a mais completa separação do corpo. Outros [Aristóteles, Tomás, Rosmini], ao contrário, creram que o corpo, enquanto constitutivo essencial do homem, seja diretamente envolvido na sua perfeição: ela depende m grande parte dos hábitos somáticos que uma pessoa consegue atingir.

Para nós, este não é ainda o momento de discutir o valor das perspectivas antropológicas opostas em que se inspiram as ditas teorias. A experiência cotidiana nos diz que o exercício de uma virtude, como a prática de um vicio, é em larga medida devido aos hábitos que conseguimos adquirir com o nosso corpo. Por exemplo, os vícios do fumo e da bebida dependem essencialmente de hábito somático. Outro tanto vale também para a pratica da castidade, que para alguns parece tão árdua e mesmo impossível: também esta é uma questão de hábito somático. Quem controla por muito tempo os instintos do próprio corpo o habitua a ser continente. E como no corpo do não fumante se estabelece uma aversão ao fumo, assim no corpo do continente se forma uma repugnância pelo prazer carnal.

Não há, pois, nenhuma dúvida que o corpo tenha uma função capital a desenvolver também em relação ao ascetismo e à vida espiritual.

IMPLICAÇÕES ONTO-ANTROPOLÓGICAS
Entendemos por implicações onto-antropológicas da análise fenomenológica de uma dada dimensão do homem as implicações relativas ao ser do homem que estão contidas em tal análise.

Após uma análise da somaticidade podemos tirar algumas conclusões.

A somaticidade é um componente essencial do ser humano. Sem deixar de dar à alma o seu devido valor, a afirmação de Merleau-Ponty sintetiza esta primeira conclusão: “Eu sou o meu corpo.” Graças à minha somaticidade, eu estou situado em uma determinada posição, estou fechado dentro de certos confins, sou diferente dos outros seres: sou eu mesmo e não outras coisas; tenho a minha personalidade.

Todavia, eu sou infinitamente mais do que me consente ser o meu corpo. Há dentro de mim alguma coisa que me faz superar os confins que não são prescritos pelo corpo. Enquanto fisicamente sou pequeníssimo, intencionalmente posso tornar-me todas as coisas. Eu supero incessantemente o meu corpo: estou sempre além de mim mesmo e, não obstante a pequenez da minha configuração corpórea, consigo fazer minha a imensidão do universo.

A somaticidade, não obstante o seu intrínseco recolhimento, não impede o homem de possuir uma abertura radical, uma abertura que não olha somente para a frente, mas também para o alto: a somaticidade é transcendida tanto na direção horizontal quanto na vertical.

Embora essencial ao homem e embora revelativo do mistério profundo que o homem faz de si mesmo [o corpo é a epifania desse mistério], o corpo não é o homem. Eis as razões principais:

- Mesmo perdendo uma parte de meu corpo, sinto-me ainda substancialmente o mesmo;

- o corpo sem vida, ainda que permanecendo por algum tempo substancialmente o de antes, não é mais o homem;

- a autoconsciência distingue nitidamente o nosso ser do nosso corpo [Descartes];

- Nas nossas atividades há um aspecto físico e um aspecto psíquico [por exemplo, quando movo um braço, há o movimento do braço e a consciência de tal movimento; o que não se dá no caso dos fantoches e dos robôs, etc.].

Mas a finitude, a contigência, a corrupção, não parecem ser a última palavra da somaticidade humana. A somaticidade em si mesma parece inexoravelmente bloqueada entre certos confins e exposta à corrupção. Mas, ao mesmo tempo, a somaticidade humana leva consigo alguns sinais que constrastam com essas limitações. É uma somaticidade cheia de consciência, aberta no ser, estendida para a felicidade mais completa. É uma somaticidade que transcende a própria natureza da somaticidade e se transforma em epifania do espírito.

A somaticidade humana é efetivamente ‘fenômeno’, ou seja, manifestação de alguma coisa que a ultrapassa; é símbolo de uma realidade mais profunda, que a permeabiliza e transforma totalmente, à qual nós rosacruzes damos o nome de alma. É dessa realidade intima e profunda, que ela ao mesmo tempo esconde e revela que a somaticidade manifesta as condições e o estado definitivos. É no próprio corpo que lemos a bondade, a malicia, o prazer, a serenidade, a astúcia,a preguiça, a luxuria, a avareza, etc., de um homem.

Por isso, por mais necessário e esclarecedor que seja o estudo da corporeidade para a determinação do ser humano, esse estudo não pode ser suficiente: com efeito, ele não apenas não basta para revelar-nos o sr total do homem, mas não nos faz nem conhecer a verdadeira natureza da somaticidade humana. Ela poderá ser revelada apenas através do estudo daquela realidade íntima, de que o corpo é a epifania, ou seja, a alma.

GLOSSÁRIO

SER: O que existe – aquilo que é real; o ser excede o parecer. Na filosofia rosacruz poderíamos equipará-lo ao Cósmico.

SER-NO-MUNDO: Utiliza-se a expressão s.n.m. quando se deseja colocar o homem inserido num contexto que é o mundo – existir no mundo.

FENOMENOLOGIA: Filosofia de E. Husserl que se caracteriza principalmente pelo método que busca ‘as coisas mesmas’, objetivando reencontrar nos dados originários da experiência.

PARADIGMA: Conceito retomado por Thomas Khun em seu livro “A Estrutura das revoluções Cientificas”, que significa modo, modelo, padrão.

ESTRUTURA COISAL: Constituição de algo material; objetal; manifesto.

DIMENSÃO SOMÁTICA: Dimensão relativa ao corpo do homem enquanto expressão material.

ÔNTICO: Pertencente ou relativo ao ente.

ENTE: Coisa; substancia; objeto; aquilo que existe manifesto, expresso, visível.

ONTOLOGIA: Parte da filosofia que trata da natureza do ser, do ser enquanto ser, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um do seres.

O Homem _ quem ele é? [Parte III] Homo Vivens

HOMO VIVENS – [A VIDA HUMANA]
Uma das propriedades fundamentais do ser humano é a vida. O homem é homo vivens: ele é humano enquanto é vivo. Enquanto o fenômeno da vida é um dado certo, a sua verdadeira natureza e a sua origem são coisas muito complexas e misteriosas.

A vida abrange uma forma vastíssima de seres [dos moluscos às plantas, aos animais, aos homens] e se apresenta com propriedades marcantemente diversas nos grupos em separado. Nossa tarefa é procurar descobrir aquele denominador comum que se realiza em todos os seres viventes.

Tal estudo é importante para nós como estudantes do misticismo porque de sua consideração depende o próprio modo de ver as coisas no plano filosófico, ético, místico e político. Conceber a vida de modo mecanicista ou vitalista significa iniciar a própria existência segundo regras éticas e espirituais diametralmente opostas. Por isso, o estudo da vida dificilmente pode ser conduzido de modo frio, fragmentado, desapaixonado, pois muito alta é a aposto em jogo.

Conforme afirmamos no artigo anterior, se para o estudo da somaticidade do homem não se consegue abordá-lo na sua plenitude pelo método experimental, sendo necessário o método fenomenológico, o que dizer do estudo da vida?

A distinção entre um e outro é que enquanto um [o cientifico ou metodológico] procura provar suas teses pelo encantamento lógico de suas experiências, desvendando suas causas e leis subjacentes, o outro [o experiencial] está associado à vivência, à característica de expressão de um fenômeno; é a visão fenomenológica. O primeiro método teve seu apogeu no final do século XIX, durante o postivismo europeu. O segundo tem nos pensamentos d Merleau-Ponty Martin Heiddger a representatividade de seu conteúdo, pois afirmam que a vida não pode ser fragmentada ou muito analisada, porque constitui-se de ‘algo’ muito mais sutil e que uma abordagem cientifica pode colher apenas alguns aspectos superficiais.

Para abordar a vida em toda sua plenitude e originalidade, é preciso vivê-la, senti-la, percebê-la.

Os vitalistas sustentam sua tese com os seguintes argumentos:

ð Não se pode reduzir um organismo à sua máquina, ou seja, os fenômenos de autoconstrução, de autoconservação, de auto-regulação, de auto-reparação, são típicos de organismos vivos.

Como estudantes do misticismo, sabemos que tais propriedades existem pela presença da inteligência cósmica em nossas células, bem como em todo universo.

ð A máquina só funciona talvez perfeitamente sob condições ideais. O organismo vivente, por sua vez, trás ‘em potência’ a improvisação e a utilização das circunstancias; é uma tentativa em todos os sentidos.

As máquinas são invenções do homem como imitação dos organismos vivos, dos quais não estão nunca em condições de atingir a perfeição.

A máquina é posterior ao organismo em todos os sentidos, histórico e ontológico, e, por isso, o organismo nunca poderá ser reduzido a uma máquina.

O vitalimso não morreu, na verdade há um continuo rejuvenescimento de sua fundamentação, a despeito das mais recentes descobertas científicas.

A ciência não sepultou realmente o vitalismo, pois ele voltou a florescer depois do positivismo com Bérgson, Dilthey, Heidderger, reconquistando seu prestígio com Teilhard de Chardin, Gadamer e outros.

A eficiência da física e o triunfo da matemática contribuíram para que filósofos como Descartes, Gassendi e cientistas da época sustentassem ser possível dar uma interpretação mecanicista da vida, aplicando à biologia modelos tirados da mecânica clássica e da física em geral.

Os mecanicistas sustentam sua tese atacando os vitalistas com os seguintes argumentos:

ð O vitalismo não tem provas a seu favor, mas somente suposições e preconceitos; investiga forças desconhecidas que nenhuma demonstração ou verificação cientifica pode documentar.
ð O vitalismo é vitima do antromorfismo.

Trata-se de abandonar a idéia de que seja privilegiada a esfera dos viventes, à qual pertencemos. Positivamente, trata-se de afirmar e adotar de modo sempre amplo o grande principio da indiferença da natureza.

Dizem os mecanicistas que o vitalismo é uma máscara que serve de cobertura a certas concepções metafísicas, éticas e religiosas das coisas, de certos valores morais, etc.

Na verdade,vitalismo e mecanicismos não são incompatíveis, eles se completam, sendo portanto legítimo concluir que o estudioso tem a possibilidade de ser mecanicista quando assume o ponto de vista cientifico, e vitalista quando ultrapassa o ponto de vista cientifico e busca uma explicação exaustiva do fenômeno da vida.

INFORMAÇÕES CIENTIFICAS
Do ponto de vista cientifico, a vida é uma particular organização da matéria. A biologia molecular demonstrou que a substancia vivente se distingue da não-vivente graças a um modo diferente e muito mais complexo de estruturação: a substancia não-vivente ou inorgânica é constituída de moléculas extremamente simples, por exemplo, a molécula de água é formada de um só átomo de oxigênio e de dois de hidrogênio; a substancia vivente, ou orgânica, por sua vez, é constituída de moléculas extremamente organizadas e complexas.

As moléculas da substancia vivente são formadas em noventa e nove por cento pela associação dos átomos pertencentes a quatro elementos: carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio. O resultado da sua associação é representado pelos constituintes orgânicos, que são denominados carboidratos, gorduras, proteínas, ácidos nucléicos, os quais são os constituintes fundamentais da célula. Cada um desses complexos desenvolve, no harmonioso equilíbrio do ciclo vital, uma tarefa bem especifica. Os carboidratos e as gorduras são as fontes principais de energia das células. A reunião ou síntese d moléculas de substancias realiza-se graças ao estímulo e ao comando de um tipo de proteínas: as enzimas. Trata-se de moléculas químicas muito complexas, que cada célula produz segundo as substancias que deve desagregar ou sintetizar. A enzima pode ser considerada como um verdadeiro e próprio laboratório químico, que toma certas substancias e as elabora segundo certo programa; o seu poder de ação é extraordinário.

No que tange aos ácidos nucléicos, a eles cabe a tarefa de conservar e de transmitir o código genético. O ácido que exerce essa função chama-se DNA [ácido desoxirribonucléico]. As moléculas desse ácido fundamental para a vida concentram-se em número relevante em todas as células de todos os seres vivos.

Mas nestes últimos anos a biologia nuclear deu passos gigantescos não somente na direção de um maior conhecimento da célula, mas também no de uma sua parcial reconstrução.

Outra descoberta importante é a realizada por alguns estudiosos da Rockfeller University, de Nova Iorque: a criação em laboratório da enzima ribonuclease, que é a enzima preposta à cisão do ácido ribonucléico que, como sabemos, é a molécula química que serve de mensageiro para transformar o código genético que atua quando uma célula se reproduz. O edifício químico da enzima ‘ribonuclease’ é composto de uma cadeia de cento e vinte e quatro aminoácidos. Trata-se da menor enzima conhecida. A maior tem uma cadeia de dez mil peças.

Essas descobertas geniais não devem, porém, criar a ilusão de que estamos próximos de desencadear o mistério da criação da vida em síntese. O que fica bem claro é que a célula é um objeto muito complicado e que será decerto extremamente difícil para nós sintetizá-lo de ponta a ponta.

QUE É A VIDA DE UM PONTO DE VISTA NÃO-CIENTIFICO E, MAIS ESPECIFICAMENTE, DO PONTO DE VISTA FILOSÓFICO?
Se colocarmos a questão assim, de modo geral, quase que provavelmente o homem comum responderá: a vida é amor, a vida é luta, a vida é dor, a vida é esperança, ou qualquer coisa semelhante.

Ora, a vida do homem é, indubitavelmente, tudo isso e muitas outras coisas ainda, e apenas tomando em conta essas múltiplas expressões da vida é possível alcançar uma determinação de sua verdadeira natureza e, por conseguinte, a elaboração de uma antropologia filosófica que coadune com nossos princípios místicos e contemple a questão da vida de modo muito mais amplo.

Todavia, a vida não é um fenômeno peculiar ao homem, mas um fenômeno que se manifesta em muitíssimas outras coisas. E aquilo que nós queremos conhecer antes de tudo é a natureza da vida entendida como propriedade comum a todos os seres animados e não como qualidade própria do homem. Nós nos perguntamos: o que é esta propriedade singular e extraordinária pela qual dizemos que uma planta é viva, enquanto que uma viga, um pedra, dizemos serem mortas? É possível desenvolver uma fenomenologia da vida?

A fenomenologia, já sabemos, não é a especulação abstrata, mas uma observação concreta: é um exame de casos particulares com o fito de tornar-lhes o sentido profundo e universal. Por isso, fazer fenomenologia da vida significa escolher determinado grupo de seres viventes e observar as propriedades das suas manifestações vitais.

Para uma primeira aproximação, podemos pôr em confronto um ser seguramente não vivente com um ser seguramente vivente, por exemplo, um bloco de mármore e um cão.

O bloco de mármore é parado, inerte, sem reação, sem mudanças, não cresce nem diminui se não é exposto a influxos externos, não se estraga, não se desfaz. Por sua vez, o cão move-se, ingere outras substancias, assimila-as, desenvolve-se, gera outros cães e se multiplica, reage à luz, aos rumores, ao contato com outros corpos, late, zanga-se, morde...adoece e morre. Essa fenomenologia, bastante sumária, nos diz que o vivente e o não-vivente têm propriedades essencialmente diferentes, de cujo confronto podemos derivar uma certa idéia da vida.

A vida caracteriza-se como:

Poder de crescer e desenvolver-se, tomando certa quantidade de matéria do ambiente circundante e reorganizando-a segundo as estruturas da substância orgânica. Na escolha do material conveniente para o próprio desenvolvimento, o organismo vivente revela uma habilidade e uma sagacidade excepcionais.

Poder de responder aos estímulos externos ou capacidade de excitação. Com ela o organismo ordena a sua relação com os objetos circundantes, que o golpeiam com os seus estímulos. Ele se relaciona com eles não de forma passiva, mas se insere ativamente no mundo, que se torna, assim, o seu ambiente.

Poder de s reproduzir segundo a sua própria espécie. Dado que crescer, se reproduzir, se irritar, são formas de movimento, os filósofos definem geralmente a vida como uma espécie de movimento. Nenhuma pedra, nenhum objeto sem vida, faz o esforço que mesmo a mais simples forma de vida necessita fazer, pelo menos, nos sugere a experiência e poderemos começar com o certificar que a diferença entre ‘vida’ e ‘não-vida’ consista nessa capacidade de fazer esforço. Poderemos, depois, definir a morte como a perda dessa capacidade.

Segundo São Tomás, “o nome vida se usa para indicar uma substancia à qual cabe mover-se por si mesma, por força de sua própria natureza.”

Porém, o movimento que caracteriza a vida não é um movimento qualquer; ele possui propriedades bem precisas. Quanto à origem, o movimento da vida é espontâneo, ou seja, não vem do exterior, mas sim do interior; é um ‘motus ab intrinseco’. No entanto, não é totalmente espontâneo: a ação vital não é um início absoluto sob todos os aspectos; ela depende, sim, de diversos fatores, condições e causas externas. Todavia, esses fatores, essas causas externas não bastariam para produzi-la se o ser já não fosse vivo.

Aqui nos encontramos defronte a um principio metafísico fundamental: “quidquid movetur ab alioo movetur” [tudo o que se move é movido por terceiros]. Mas como é salvaguardado tal principio quando se trata de seres viventes? A solução, segundo Aristóteles, é a seguinte: um ser vivente, uma parte move a outra, porque é um ser organizado que comporta diversos tipos de órgãos; mas se trata sempre de partes de um só ser, de modo que, considerando-o em seu todo, vê-se que a sua ação, o seu movimento, fica no sujeito.

Nesse sentido, a vida é essencialmente movimento. Mas se reconhece isso e também que se trata de um movimento que não é causado pelo exterior, mas sim pelo interior, é fácil compreender como tal movimento não é explicável senão reconhecendo a existência de um principio intrínseco, uma fonte interna que o produz. A esse principio interior das manifestações vitais, dos tempos mais remotos, os filósofos e o homem comum deram o nome de alma.

Portanto, a alma é o principio primeiro do movimento vital.

Também no que concerne à origem da vida, manteremos a nossa distinção entre discurso cientifico e discurso filosófico. Só que neste caso preferimos inverter a ordem do estudo e começamos com o filosófico ao invés do cientifico.

Sob o aspecto filosófico, o problema da origem da vida não apresenta dificuldades singulares.

Concordamos que a vida tem como seu ultimo principio a alma. Agora, mesmo não havendo ainda explorado a natureza ultima desse principio e a sua origem, uma coisa é clara: ela não pode ter origem de baixo, da matéria, porque se fosse assim não se compreenderia por que apenas uma parte e não toda a matéria é dotada de alma. Precisa-se então admitir que a alma tenha origem do alto, mediante a ação de um Ser Inteligente. Recentes descobertas parecem confirmar essa hipótese. Que o homem consiga sintetizar a vida constitui um argumento a favor e não contra a tese de que a alma surge mediante a ação de um ser inteligente: o homem, de fato, é uma expressão deste Ser, sendo por conseguinte um ser inteligente!

Ao problema da origem da vida os cientistas [mas não só eles] deram muitas soluções, que contudo podem ser reduzidas a quatro tipos fundamentais:

1. Criação direta por parte de Deus;
2. Evolução segundo um plano estabelecido por Deus;
3. Geração espontânea;
4. Geração por evolução, por puro acaso.

A solução da criação direta por parte de Deus foi acolhida também por muitos cientistas do passado [inclusive Darwin, que atribuía à ação direta de Deus a origem de quatro ou cinco protótipos viventes] e foi rigorosamente reafirmada por alguns cientistas contemporâneos, particularmente por Servier.

“... ela não pode ter origem de baixo, da matéria porque se fosse assim não se compreenderia por que apenas uma parte e não toda a matéria é dotada de alma.”

A solução da geração espontânea, também abordada em nossas monografias, afirmou-se no início da época moderna, conquistando de improviso todo o mundo cientifico, incluindo pensadores de talento como Descartes e Newton. Essa solução afirma que a vida é originária da transformação espontânea da matéria inerte em matéria vivente.

Posteriormente a tese da geração espontânea foi definitivamente afastada.

Neste século, foi proposta e reproposta por vários cientistas a teoria da geração da vida na matéria por acaso. Em resumo, essa teoria afirma que através de uma combinação casual de elementos químicos formou-se a primeira célula viva; por ela foi estabelecido, imediatamente, um código genético formado por uma série de moléculas de DNA, que assegurou definitivamente a transmissão da vida.

Mas como ocorreu a distinção entre todos os seres vivos que conhecemos? Isso é devido ao puro acaso. ”Através de uma série de gerações e seleções,uma molécula de DNA, que no inicio poderia significar tantas coisas, acabou sendo associada a um dado sistema de moléculas, que juntas constituem as células do organismo por nós chamado formiga, por exemplo: aquele DNA se reproduzirá sempre idêntico, se associará sempre às mesmas moléculas e se encontrará sempre nas células de formiga e nunca em outras.”

Enfim, a tese é contraditória, porque de um lado ela postula a irreversibilidade do primeiro DNA, enquanto de outro pretende que o DNA seja passível de erros, para poder explicar a origem de novas espécies de seres vivos. É um principio extremamente redutivo: ele elimina a possibilidade de colher o ‘sentido’ e a intencionalidade de qualquer coisa.

“Se, de tempos em tempos, os cientistas pensam que podem produzir a vida in vitro, não fazem nada além de prolongar por um ou dois séculos a velha teoria da geração espontânea. O vírus que eles querem fazer nascer em um cristalizador são os descendentes diretos dos camundongos que, segundos os filósofos do século XVI, se formavam do contato de uma camisa suja com uma porção de semens, isto é, de quimeras. Nem mesmo a síntese das proteínas dará a chave do mistério da reprodução.”

“Nunca, no estado atual de nossos conhecimentos, a vida pôde nascer da matéria em laboratório, enquanto, pelo contrario, podemos constatar correntemente que a matéria pode nascer da vida.”

Uma teoria intermediária entre a concepção da origem da vida por criação direta da parte de Deus e a oposta é aquela que afirma: a vida teve origem por evolução programada, ou seja, a evolução se realiza segundo um programa preestabelecido por Deus, e Deus estabeleceu que das forças de que dotou inicialmente a matéria, num certo momento, surgisse a vida. Aliás, essa é a que mais se coaduna com a visão rosacruz, na qual da inteligência cósmica presente na natureza, e cujo movimento é a expressão desta inteligência, manifesta-se a ordem geométrica do aparente caos, evidenciando que tudo existe potencialmente na mente do Criador.

Essa hipótese parece-nos filosoficamente aceitável; tanto quanto ao seu valor cientifico como místico. Parece-nos que o cientista não está em condições de refutá-la com nenhum argumento válido e decisivo.

A VIDA HUMANA
O homem é um ser vivente. Esse é um fato indiscutível que tomamos em consideração desde o inicio deste artigo. Antes, o homem é o vivente por antonomásia. Com efeito, embora havendo tantas coisas que classificamos como viventes, entre todas há uma que consideramos particularmente rica de vida: o homem. De outro lado, sabemos que privar o homem da vida e destruir o seu próprio ser são a mesma coisa.

Isso significa que o homem é essencialmente vivente; a vida faz parte de sua essência. Por isso, para compreender o homem é necessário compreender antes o que é a vida.

Mas o estudo da vida em geral que efetuamos aqui não parece lançar muita luz sobre o ser humano. A filosofia tem dito somente que é um ser dotado de movimento interior, autógeno, particularmente rico, variado e intenso.

Em geral acolhemos favoravelmente as informações que a ciência vem acumulando acerca do fenômeno da vida, na medida em que se apresentem como seguras e definitivas. Se refutamos certas explicações cientificas, fizemo-lo somente porque se tratam de pseudo-explicações. Assim, quando alguns cientistas nos dizem que a origem da vida tem início por acaso, não podemos estar de acordo com eles, porque isso não é dar uma solução ao problema, mas tapar os olhos e recusar-se a vê-lo.

Por isso, se queremos compreender o homem através da janela da vida, não podemos contentar-nos com informações ainda muito incompletas que nos fornece a ciência e nem tampouco com os poucos e magros dados que nos ofereceu até agora a filosofia.

Para tomar o homem através da janela da vida, não devemos em consideração a vida em geral, ou seja, as propriedades de que a vida se reveste em qualquer ser vivente, do molusco ao homem, mas devemos examinar a vida humana como tal. É a vida humana que caracteriza o homem e é, portanto, dela que é necessário partir se quer ter uma compreensão autentica do seu ser.

O ‘homo vivens’ destaca-se nitidamente dos outros seres viventes pelo tipo de vida que o caracteriza, uma vida consciente de si mesma. Aqui está a chave da compreensão deste artigo, o fato de que o homem tem consciência de si mesmo, ou seja, os níveis de consciência vão aumentando conforme evolui a espécie ou expressão desta Inteligência Criadora. Diz-se em concordância com este pensamento que: Deus dorme no mineral, repousa no vegetal e acorda no animal.

“L´home cést lê vivant separé de la vie par la science et séssayant à rejoindre l avie à travers la science.” [O homem é o vivente separado da vida pela ciência e tentando reunir-se à vida através da ciência].

A vida do homem é especialmente diferente da dos animais e das plantas. A linguagem ordinária mostra essa consciência quando diz de um homem que leva a vida de um animal. Platão declara que assinalar como fim da vida humana o prazer é reduzir o homem a um molusco.

A vida do homem s distingue da dos animais e dos outros seres viventes pelos níveis espirituais que atinge e pelas dimensões sociais que alcança: por isso se pode falar em vida mística, vida espiritual, vida intelectual, vida social, vida política, etc.

Distingue-se, além disso, pela atitude nova que o homem possui nos confrontos da vida: o homem coloca-se o problema da vida, aprecia a beleza da vida, tende a transcender os limites do espaço e do tempo em que a vida está confinada. Ele pode elaborar o seu próprio conceito de vida perfeita e é por essa vida que ele sente um fascínio ardente. O homem é dono da própria vida, pode em larga escala controlá-la, dirigi-la, aperfeiçoá-la, segundo o seu próprio livre-arbítrio.

A vida humana caracteriza-se, enfim, por uma riqueza e variedade estupendas. Os animais, mesmo os mais evoluídos, fazem sempre as mesmas coisas: comem, bebem, dormem, reproduzem-se, e o fazem sempre do mesmo modo, com extrema monotonia. Ao contrário, os homens tem uma vida variadíssima: dormem, mas são capazes de resistir ao sono por dias e dias, em caso de necessidade; bebem e comem, mas servindo-se de maior variedade de comidas e bebidas e segundo os mais diversos modos; divertem-se, combinando continuamente os próprios passa-tempos: estudando, pensando, rezando, etc.

Em suma, a vida humana é uma vida que atinge níveis espirituais muito elevados, níveis que procura sempre superar. O seu olhar está sempre apontando para a frente. Por isso, o seu verdadeiro significado pode ser colhido apenas descobrindo a finalidade para a qual é orientada. Qual é a finalidade ultima da vida humana?

Ainda é cedo para descobri-la; existem muitas coisas para estudar no homem antes de se arriscar uma resposta para este difícil problema. Mas o resultado é certo: o significado ultimo da vida humana não pode ser tratado nem de baixo nem do passado, porque ela aponta sempre para o alto e para o futuro.

Um outro resultado importante do que vimos dizendo é que a vida, esse fenômeno extraordinário, é ostensiva do ser próprio do homem apenas se for tomada em toda a sua riqueza e complexidade; uma riqueza e complexidade distendidas para transbordar sistematicamente todos os confins que lhe são impostos pelo ambiente sócio-cultural em que se encontra.