sexta-feira, 28 de maio de 2010

Lidando com Doenças Mentais


Sabe-se que as doenças mentais são um dos sofrimentos mais comuns que afetam o ser humano. A depressão e a ansiedade são os sintomas mais freqüentes de condições que podem impedir severamente a eficiência e a felicidade das pessoas. Exaltação e impulsividade excessivas, alucinações e ilusões são outros sinais e sintomas de condições menos freqüentes porém comuns que estorvam a concretização do pleno potencial humano. Essas condições são tão comuns, que todos nós conhecemos pelo menos uma pessoa que delas sofre. Muitos de nós temos algum parente ou familiar nessas condições. E alguns de nós talvez estejamos lutando contra algum desses sintomas em nós mesmos. É freqüente que o primeiro passo para o autodomínio seja o de adquirir a capacidade de lidar com a doença mental.

Lidar com a doença mental envolve a compreensão em duas áreas: a natureza da doença mental e o que fazer a esse respeito.

A maioria dos sintomas de doença mental são extensões mais severas ou persistentes de sensações, emoções ou pensamentos naturais. É muito comum que pessoas mentalmente sadias sintam alguma preocupação e dúvida sobre tais sintomas, e temam que possam estar mentalmente enfermas e que um parecer ‘oficial’ possa confirmar sua preocupação. Por outro lado, é também bastante comum que pessoas mentalmente enfermas minimizem e neguem seus sintomas, evitando confronto consciente com a evidência de sua conclusão.

A distinção entre ‘normalidade’ e ‘doença’ é verdadeiramente vaga. A doença mental é definida em termos sociais. Diz-se que a doença mental existe quando sensações, emoções ou pensamentos comuns são tão intensos ou persistentes, que a pessoa é incapaz de operar adequadamente nas atividades comuns da vida. Lidar com as doenças mentais, portanto, é efetivamente uma questão de saber lidar com os sintomas, as crenças e o comportamento de pessoas que, por razões individuais, estão sobrecarregadas de uma intensidade incomum de experiência subjetiva ‘normal’.

Experiência Subjetiva Intensa
A maioria de nós deseja experiência subjetiva intensa...desde que prazerosa. Poucos de nós acharíamos que o prazer intenso é um ‘peso’. Antes, o prazer intenso é um alvo muito almejado da experiência objetiva. Analogamente, evitar o intenso desprazer ou a dor é um atributo universal da personalidade humana. Tanto prazer como dor são essencialmente atributos subjetivos do eu mundano, da individualidade subjetiva. A excessiva dedicação de tempo, energia e consciência à busca de prazer ou a evitar a dor pode se tornar uma grande sobrecarga para os recursos da individualidade objetiva. Quando muito sobrecarregada, a individualidade objetiva deixa de dirigir com eficiência as necessidades da realidade objetiva, e essa é a definição social de doença mental.

Para lidar com a doença mental é preciso primeiro compreender as limitações da individualidade objetiva. A individualidade objetiva geralmente se relaciona exclusivamente com o mundo da experiência emocional e física comum. Sem a consciência de algo maior que o próprio ego, a experiência mundana será assimilada como uma experiência física contínua., forçosa e hostil. As chances de dor parecerão grandes e as de prazer pequenas. Em quase todas as atividades, a pessoa será motivada a procurar o prazer e evitar a dor, ao passo que, com a consciência de um Eu maior, a personalidade-alma, é possível a paz, a beleza e a harmonia, que não dependem de forças controladoras da natureza física. A dor e o prazer não são recusados; são reduzidos,em proporções corretas, a meras condições objetivas.

O autodomínio é o único meio de lutar com a doença mental da própria pessoa e também das outras.

Mudando Outra Pessoa
Quando nos deparamos com o comportamento desarmonioso ou a inquietação emocional duma pessoa acometida por doença mental, nosso primeiro impulso é fazer algo para que ela mude. De modo geral, bastam duas tentativas para compreender que o esforço não é muito eficiente. O fundamento disso fica mais evidente quando compreendemos que cada um de nós é uma sutil porém poderosa expressão de um Eu superior e de um Eu inferior. Ao tentarmos mudar outra pessoa, nossa atenção se volta principalmente para o Eu inferior, a personalidade objetiva, que exibe a condição de doença mental.

Nosso segundo impulso é tentar produzir uma mudança na outra pessoa, motivados conforme a perspectiva de nosso Eu superior. Aspiramos curar a doença mental, ou levando o indivíduo a tomar consciência de seu Eu superior, ou buscando invocar pensamentos de cura. Uma vez mais, porém, somos traídos pela atenção no eu inferior, a qual, ao julgarmos que o Eu necessita ser curado, apenas reforça a importância dele.

Em outro nível, lidar com doenças mentais consiste num desafio para o autodomínio. Segundo esse critério, a atenção não se prende a mudar a outra pessoa, mas a conseguir a paz harmonia ante os mais intensos tipos de experiências mundanas. Quando o temor, a raiva, o ódio e o desespero perdem o poder de evocar sua contra-parte e deixam de diminuir a compaixão, a doença mental começa a desaparecer. A atração inata pela paz, beleza e harmonia existentes no ser humano desperta e estimula a automotivação de cura. Cada encontro com a inquietação de outros que estão perdidos na intensidade da experiência mundana constitui uma oportunidade de recordarmos nosso próprio apego a ilusão e coisas insignificantes, de dissolvermos esse ego e readquirirmos o aspecto de consciência que só conhece o amor.

Se não a própria doença mental, suas primas chegadas - a cobiça, a autodestruição, a arrogância, a impaciência, a auto-depreciação, a inatividade, a teimosia – são eternos lembretes de nossa própria tarefa de autodomínio. O poder desses lembretes pode ser especialmente intenso devastador quando destrói os relacionamentos afetivos que temos com os outros. Com freqüência sentimos a maior angustia quando começamos a despertar para o nosso Eu superior, pois é então que percebemos o maior contraste entre o que sabemos ser possível e o que nos mostra nossa experiência atual. Lidar com a doença mental e suas primas egotistas pode parecer a tarefa mais difícil no momento.

Como reação ao desespero ocasionado pelo despertar, é comum querer refugiar-se no Eu superior – dissociar-se do mundo terreno de nosso veículo nele, a individualidade objetiva. A pessoa pode buscar uma devoção espiritual que refute a realidade do mundo objetivo e suas muitas frustrações dolorosas. Entretanto, isso não é autodomínio, e não constitui luta vitoriosa contra a doença mental. Ao contrário, a excessiva devoção ao transcendente pode se tornar uma doença mental por si só. Devemos usar as técnicas de meditação não como fuga, mas com a finalidade de expandir o despertar dentro do mundo objetivo.

Com a plena consciência e a relevante participação na realidade objetiva podemos oportunamente dissolver a fonte de desespero e a doença mental, com verdadeira compreensão.
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[Texto de Richard A. Rawson]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Princípios Metafísicos na Psicoterapia


A fé, o discernimento e a responsabilidade, constituem a base da saúde mental e o cerne da harmonia espiritual. A ‘psicoterapia’, como a terapêutica metafísica, visa à transmutação da consciência egoísta numa harmonia holística com forças naturais, mentais e físicas. Os princípios em que assenta a mudança duradoura são entretanto metafísicos, e fundamentais.

A psicoterapia, como ciência médica, consiste no tratamento de estados graves de desarmonia psíquica, muitas vezes incapacitantes. O tratamento de distúrbios mentais por métodos psicológicos tem sido empregado, de uma ou outra forma, através dos tempos. Foi somente no século dezenove que ele ganhou ímpeto científico, fundamentalmente sob a liderança de Sigmund Freud. Seu emprego da hipnose no tratamento da histeria levou ao desenvolvimento da psicanálise. No século atual, grande variedade de outras ‘terapias’ ganhou popularidade, algumas apenas transitoriamente ou em áreas de interesse local.

Embora tenha surgido uma grande diversidade de ponto de vista e método, no tratamento da insanidade mental, alguns princípios são denominadores comuns. Na psicoterapia, esses mesmos princípios de cura metafísica são essenciais ao desenvolvimento de mudanças significativas e duradouro bem-estar.

DEFINIÇÃO DE FÉ
Sabe-se há muito que a ‘fé’ é um dos princípios mais importantes na cura metafísica. Palavra fé vem do latim, ‘fidere’, confiar. È comumente usada no sentido de ‘crença incondicional’. Crença é a aceitação mental de algo, como verdadeiro, talvez com base em raciocínio, preconceito, ou autoridade. No ponto de vista místico, porém, ‘fé é a confiança ou o conhecimento proveniente da experiência’.

Na psicoterapia psicanalítica, a ‘resistência’ é o oposto da fé ou confiança. Consiste na ‘oposição instintiva demonstrada para com qualquer tentativa de expor o inconsciente’.

Desde a infância somos treinados na disciplinação consciente da nossa vida. O comportamento impulsivo e os atos destrutivos são suprimidos no processo de nos tornarmos criaturas sociais. Se não são transmutados, esses impulsos são reprimidos para além da percepção consciente. Assim, pode-s vir a sentir que o ’inconsciente’, como a caixa de Pandora, tem um pernicioso conteúdo. Na insanidade mental, a possibilidade de que seja aberto o inconsciente é sentida como ameaça a toda ordem, a toda segurança reconhecida.

Todos nós já sentimos resistência em algum aspecto de nossos experimentos metafísicos. Em formas mais amenas, é ela sentida como desconfiança, fuga, irritabilidade, e impaciência. Em formas mais intensas, e associada a circunstâncias mais comuns, apresenta-se essa resistência como suspeita, agitação, bloqueios mentais de memória ou de percepção, e inconsistência de ação. Uma versão muito comum da resistência é a ilustrada na resposta, ‘vou tentar’, como reação a uma solicitação, quando o indivíduo age com grande esforço e sem sucesso.

A penetração no inconsciente revela que a resistência está sempre associada a uma crença. Na intensa desarmonia psíquica associada à insanidade mental, a crença diz respeito ao imaginário poder da emoção, do medo.

O medo está relacionado com a ameaça da perda. É suscitado quando nossa integridade física e nossas necessidades básicas, como de alimento, de abrigo, etc., são ameaçadas. No condicionamento social, ameaça de perda é freqüentemente usada para controlar o comportamento. O poder da ameaça de perda torna-se um recurso da personalidade na preservação do corpo e na proteção de relacionamentos sociais importantes. A aplicabilidade do poder do medo reforça a crença no mesmo.

A insanidade emocional, no entanto, a crença ultrapassa as fronteiras da realidade física. Torna-se a base para a manipulação de realidades emocionais, psíquicas, e espirituais. Aqui, a crença no medo opõe-se à confiança proeminente da experiência, ou fé. Compele a personalidade a reverter ao padrões condicionados de comportamento, ao invés de permitir a experiência criadora. O meio, então, passa a ser usado pela personalidade para justificar o comportamento egocêntrico, em nome da sobrevivência ou da constância da personalidade.

A compreensão intelectual, por si só, é ineficaz para produzir modificação terapêutica. A busca intelectual da compreensão racional pode constituir uma resistência ao processo terapêutico. A personalidade, em seu esforço para adquirir segurança através da ordem, procura racionalizar a experiência. Uma experiência insólita, ou criativa, é reduzida a termos coerentes com atitudes estabelecidas. O paciente, ao empregar o raciocínio motivado pelo medo,raramente constrói uma outra crença que se integra à sua resistência.

INSIGHT
Para o místico, o ‘insight’ é a habilidade para perceber e compreender claramente a natureza íntima das coisas, a maneira como a natureza interior [esotérica] e a natureza exterior [exotérica] se harmonizam. Em função dessa harmonização, novo conhecimento é adquirido. O novo conhecimento torna-se parte da base da realidade do indivíduo. Esse ‘insight’ é um recurso essencial da psicoterapia. “Com o perfeito ‘insight’ dá-se o reconhecimento da anormalidade pela qual passou o paciente. O ‘insight’ é um produto do processo de concentração, contemplação e meditação, conhecido como ‘a experiência intuitiva’. O ‘insight’ resulta da síntese subconsciente de idéias, que depois se transfere para a mente consciente, sem volição e com grande clareza.

Na psicoterapia, as crenças são transformadas, no processo intuitivo. A mente racional é temporariamente supressa, num ambiente relaxante. Os sintomas do paciente são usados como foco de concentração. Memórias e emoções reprimidas emergem na contemplação. As emoções primitivas são descobertas e eliminadas ao serem reconhecidas. As crenças que as sustentam se dissipam. Fatos objetivos são encarados numa perspectiva mais profunda. O ser humano conquista mais um grau de liberdade.

A responsabilidade, ao nível psicológico, consiste em poder ser o individuo responsabilizado por seus próprios atos, em contraste com sua sujeição a forças que transcendam sua vontade. Quando crianças, sentimos que nossos pais são ‘responsáveis’ pelo provimento de nossas necessidades básicas. Como adultos, assumimos essa responsabilidade. Quando nos emancipamos da adolescência, a responsabilidade torna-se um símbolo da liberdade adulta.

Para muitas pessoas, a responsabilidade está carregada de atitudes protetoras, de autodefesa. Essas pessoas são dominadas por um sentimento de incapacidade e vulnerabilidade. Comumente, tiveram pouca liberdade de expressão, em sua formação. Em função de fortes necessidades de ordem social, cultivaram atitudes de auto-repressão. Para elas, o fato de poderem ser responsabilizadas por seus atos não significa liberdade de opção, mas, a obrigação de estarem sempre corretas, em sentimento e ação.

Para o paciente que sofre emocionalmente de dor, medo e culpa, incapacitantes, a libertação é altamente desejada, mas fortemente temida. O exercício da opção é dominado por atitudes protetoras e fortes expectativas. Esse paciente vive preocupado com o fracasso, e o exercício da opção para desencadear mudanças causa-lhe tenebrosas sensações. Sente ele a responsabilidade como obrigação carregada de culpa e vergonha. Em grau extremo, a opção responsável é uma maldição.

O livre arbítrio é essencial à cura metafísica. É preciso que o paciente, em algum nível de consciência, faça a opção de ser curado, para que a energia curadora possa ser mobilizada. Neste sentido, toda cura é, em ultima análise, ‘cura de si mesmo’. Na insanidade mental, a opção de aceitar a cura é o ponto crítico da recuperação da saúde. O paciente precisa superar a aversão à responsabilidade e optar por enfrentar o medo, em suas múltiplas formas. Uma vez que ele tenha feito esta opção, terá despertado seu potencial para estar bem, sadio.

A psicoterapia prática usualmente emprega vários recursos de simples apoio, para o alivio de emoções e pensamentos intensamente negativos. Eles permitem a relaxação de tensões e produzem oportunidade para a opção de cura. O apoio de amigos ou parentes bem-intencionados muitas vezes cria oportunidade para o paciente fugir à responsabilidade. Seu fardo é transferido para aqueles que o auxiliam. Estes podem desenvolver sintomas semelhantes aos do paciente, assim como um terapeuta metafísico, tendo perdido sua neutralidade, pode adquirir sintomas físicos do paciente. O psicoterapeuta profissional é treinado para proporcionar apoio sem envolvimento pessoal que o venha desqualificar.

A psicoterapeuta, ou psiquiatra, atribui a sociedade uma imagem de autoridade. Em virtude de nossa dependência, na infância, todos passamos a buscar o apoio da autoridade, nas áreas em que nos faltam experiência e autoconfiança. Em conseqüência dessa dependência, usamos crenças baseadas na autoridade, para obter um sentimento de segurança e controle.

A autoridade atribuída ao psiquiatra tem objetivo análogo, quanto a proporcionar apoio temporário às pessoas, no auge de sua dor. Quando a dor diminui, deve o paciente desvencilhar-se de sua dependência da autoridade arbitrária do psiquiatra. No cultivo de seu próprio livre arbítrio, deve ele chegar ao ponto de reconhecer autoridade em sua própria experiência. Dentro de sua capacidade, pode o psiquiatra continuar a ajudar o paciente a descobrir campos de responsabilidade ainda mais amplos. Cada passo nesta senda, no entanto, evolui da dependência, através do reconhecimento da crença e de sua transformação, para a responsabilidade; ou, como dizem: as crenças são transmutadas no conhecimento que produz o domínio da vida.

Para o místico, a autoridade suprema é o Absoluto. Como neófitos, disto dependemos como base para as nossas crenças e orientação quanto ao rumo a seguir com confiança. À medida que nos adiantamos na Senda, defrontamo-nos com nossas dependências, nossas próprias questões de fé. Transformamos essas dependências pela iniciação, o estudo e a meditação, até que a crença é substituída pela fé e a iluminação. Assim alcançamos o ponto de reconhecer a Grande Fraternidade que transcende todo medo, dela compartilhar e para ela contribuir.

A cura metafísica ampara o individuo em seu progresso para a harmonia nas relações humanas, e restaura o reconhecimento entre o Cósmico e a alma humana. Analogamente, o objetivo da psicoterapia é de levar o paciente a um sentimento de harmonia ou bem-estar consigo mesmo, com sua família, e com seu ambiente físico e social. Nesse estado de harmonia, o paciente torna-se apto a reagir apropriada e espontaneamente aos eventos de sua experiência. Para o místico, porém, estar em harmonia não é apenas estar apto a reagir apropriada e espontaneamente à experiência; é também a vivência de sua imediata identidade com a Mente Cósmica. O sermos a fonte da nossa própria experiência constitui a suprema responsabilidade.
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O filósofo deve ser um homem disposto a escutar toda sugestão, mas determinado a julgar por si mesmo. Não se deve deixar levar por aparências, nem ter hipóteses prediletas; não deve pertencer a escola alguma e, quanto a doutrinas, não deve ter mestre... A verdade deve ser o seu objetivo primordial. [Michael Faraday]
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[Texto de Richard A. Rawson]

terça-feira, 25 de maio de 2010

Criando uma Filosofia Pessoal


_Seja Autêntico para Consigo Mesmo é uma verdade filosófica indiscutível. Mas essas palavras, em primeira leitura e reflexão, abrem um pouco as portas da sabedoria. Algumas notas musicais aparentemente simples abrem a ‘Quinta Sinfonia’ de Beethoven. Mas essas notas apenas abrem uma criação complexa e magistral. O buscador da sabedoria deve criar uma filosofia de vida de modo tão cuidadoso como um compositor cria uma sinfonia.

Cada obra-prima passa por uma primeira etapa, que não tem muito valor se o tema não for expandido por meio de um cuidadoso processo de reflexão. Um estudante que comece a fazer perguntas oportunas e a buscar respostas quando nenhuma se apresenta começa a criar uma filosofia pessoal.

No poema ‘Invictus’, Ernest Henley escreveu: “Sou o senhor de minha sina; sou o capitão da minha alma’. Tendo buscado respostas desde minha infância, posso agora dizer que alterei o meu destino: encontrei minha alma interior. Precisamos criar uma filosofia pessoal de vida, pois é assim que começamos pouco a pouco a perceber que devemos mudar em nosso próprio ser.

Devemos ter consciência do que é e do que não é possível. Não podemos mudar o caráter de ninguém, nem devemos tentar fazer isso. Toda pessoa muda quando percebe a necessidade de mudar. Quando um modo de vida já não serve mais, deve-s, ainda que com relutância, tentar um novo. A pessoa começa a pensar com mais autonomia quando os caprichos da sociedade não mais lhe trazem prazer. Todos chegarão a isso em algum momento, em alguma encarnação.

Não mais encontrando conforto em caminhos percorridos, o buscador precisa encontrar o que seja mais significativo para a consciência. Buscando interiormente, encontra a natureza superior do ser. Por esse despertar, acende-se uma centelha, que é nutrida por um incessante desejo de saber.

Iniciar o estudo de verdades esotéricas é um importante passo para o buscador. Devemos, portanto, ter suficiente confiança na busca individual para que esta se sustente em seus próprios méritos, a despeito de quaisquer oposições. Quando algo é benéfico para nós, é assim, quer outros o reconheçam ou não.

A nobre senda do auto-aprimoramento às vezes é solitária. Devemos reunir toda a coragem que possamos para enfrentar novos desafios. Mas há ocasiões em que somos reconfortados pelo amor daqueles que nos antecederam nessa senda. Sentimos a imparcial consciência de grandes personalidades que também tiveram de buscar interiormente o reino da Luz.

O ALVORECER DA VERDADE
Começamos a perceber que o conhecimento interior não pode ser medido em termos intelectuais; precisa ser ‘vivenciado’. Precisamos conhecer a simples verdade que suavemente desponta na consciência: o silente conhecimento interior, que diz ‘Sou Quem Sou’. Em gratidão, maravilhamo-nos pelo tanto que já caminhamos. Buscamos força interior para caminharmos ainda mais. Os horizontes se expandem; novos objetivos se revelam; enxergamos além daquilo que esperávamos no inicio.

Alguém que procure um caminho fácil, apegando-se aos outros para evoluir, estará seriamente perdido. O caminho individual percorre atalhos para os quais os outros não estão preparados. Se alguém seguir outro nessa floresta desconhecida, as conseqüências podem ser desastrosas. Podemos ganhar inspiração pela motivação de outra pessoa. Podemos conhecer o melhor meio de lidar com aspectos da vida pelo que outros escreveram. Mas cada um de nós em última instância deve encontrar seu próprio caminho.

Cedo ou tarde cada pessoa deve se defrontar com o espelho da alma interior. Para mantermos uma relação saudável com a imagem nesse espelho, precisamos elaborar uma filosofia pessoal de vida. Em nós há processos mentais criativos que devemos usar para transcendermos aquilo que aprendemos no mundo exterior.

ð Quanto precisamos de paz mental?
ð Quanto acalentamos a satisfação de sabermos que estamos fazendo o melhor que podemos?
ð A que grau de ansiedade desejamos enxergar com a clara visão do serviço impessoal a situação geral do Mundo?
ð Quando respondermos a essas perguntas com autenticidade, saberemos com que esforço estamos dispostos a criar nossa filosofia pessoal de vida. E a obra nunca termina, pois ao evoluirmos, nossa filosofia de vida também evolui.

Aqueles que tentam manter algo que os reconfortava há muito tempo podem estacionar. Não devemos levar à maturidade os contos de fada da infância, exceto como lembranças agradáveis. E qualquer pessoa que tentar empreender três ou quatro caminhos filosóficos diferentes ao mesmo tempo não conseguirá os resultados almejados. Seguir muitas escolas de pensamento é como fazer ziguezagues em várias rodovias quando em viagem. O destino fica mais distante que o necessário.

Muitas religiões,filosofias e culturas podem conviver harmoniosamente numa sociedade. Podem ser estudadas, observando-se as diferenças e as convergências. Mas se desejamos ser ‘donos de nós mesmos’, devemos escolher um caminho que incite ao uso de nossa intuição, imaginação e a processos mentais. Se somos uma pessoa intuitiva e reflexiva, devemos escolher um caminho de estudo que nos permita criar uma filosofia pessoal.

Formule perguntas ao seu EU Interior. O ser exterior deve ficar silente enquanto fala a voz da alma. Ouça o forte chamado da alma. É seu contato com a sabedoria das eras. Na alma de seu ser, você encontrará a verdade sobre a qual se sustentar. Deixe que o reino interior o conduza à criação de uma filosofia pessoal de vida.
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[Texto de M.Eve. Morgan]

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Busca do Santo Graal


_Simbolismo
Uma combinação de lenda, romance e misticismo envolve o Santo Graal. O uso mais familiar da expressão ‘Santo Graal’ aplica-se à lendária taça usada por Cristo na Última Ceia. Entretanto, parece haver maiores suportes literários para a interpretação segundo a qual o Graal seria um vaso que José de Arimatéia coletou sangue das feridas do Mestre Jesus. Nas lendas, algumas vezes o Graal aparece como uma escudela; na verdade há muitas variações em seu significado. Nas fontes mais autenticas, essa palavra está relacionada com a palavra latina ‘crater’, ou ‘taça’.

Foi durante o período de 50 anos de 1170-1220 d.C., que o grande corpo do romance sobre o Graal veio à existência. Entretanto, foi só muito recentemente,em 1861, que textos sobre o Graal começaram a aparecer. A maioria desses textos eram transcrições dos séculos XIII e XIV de um manuscrito feito por Chrétien de Troys. A maioria das histórias sobre o Graal baseava-se em mitos antigos. Isso teve como resultado o aparecimento de quatro heróis diferentes nos relatos: Percival, Gawain, Bors e Galahad – que provavelmente foi uma criação mais recente. Acredita-se que Galahad foi criado por Walter Map, possivelmente como um tributo ao filho de Henrique II.

Conta-se que o Graal foi levado para a Inglaterra por Josef, o filho de José, ou por Brons, cunhado de José. A lenda afirma que o Graal passou de mão em mão, de uma geração à outra, e acreditava-se que possuía muitas propriedades místicas. Um relato conta que ele foi usado para alimentar uma multidão de famintos que não estavam em pecado, por meio da multiplicação de uns poucos pães, alimentando 500 pessoas. Os que não eram puros e que olharam para o Graal perderam a voz.

As referências a Percival um dos heróis associados com a história do Graal, relatam que ele vivia distante da corte real e, portanto, nada sabia a respeito da cavalaria. Um dia, encontrou-se com vários cavaleiros e, à primeira vista, ‘vendo o esplendor de suas armas duras, tomou-os por anjos’. Subseqüentemente, continua a lenda, Percival, Gawain, Bors e Galahad partiram numa busca pelo Graal. Embora se relate que um grupo de cavaleiros da corte do Rei Arthur tenha partido nessa jornada, a Galahad é que foi dada a liderança na busca. Cota-se que eles contemplaram o Graal nas terras do Extremo Oriente. A alma de Galahad foi elevada ao céu por uma grande multidão de anjos. Percival morreu num erimitério e Bors retornou à Inglaterra.

_ O Graal como Iniciador
Como disse, há muitas interpretações do romance do Graal, o qual acredita-se que seja principalmente uma alegoria expondo certos preceitos morais. Há também a TEORIA DA INICIAÇÃO. Segundo esta, ele é similar a certos testes e interrogatórios pelos quais os iniciados das antigas escolas de mistério. Durante as Cruzadas, os cavaleiros e outros ocidentais entraram em contato pela primeira vez com certos mistérios das antigas escolas iniciáticas do Oriente. Nas antigas iniciações aos mistérios faziam-se perguntas aos candidatos. Se dessem as respostas corretas, eram então considerados dignos de aprovação e aceitação. Se falhassem em responder corretamente ou tivessem segundas intenções, dizia-se então que ficavam sujeitos a determinados efeitos supernaturais ou cármicos. As perguntas e os testes a que os buscadores do Graal foram submetidos, na opinião de alguns estudiosos, tem uma forte semelhança com os antigos ritos iniciáticos, especialmente aqueles que continham segredos parecendo envolver certo conhecimento sagrado.

Há ainda uma outra hipótese com relação ao simbolismo do Graal. Trata-se da idéia de que o Graal representa a busca pelo ‘segredo da vida’. Esta seria igualmente reminescente dos antigos segredos buscados pelos alquimistas, tanto físico como transcendentais, que queriam conhecer os segredos supremos relativos ao propósito subjacente à vida e ao mistério da morte.

O aspecto moral da busca do Santo Graal relaciona-se com “os princípios sacramentais aceitos por toda cristandade e reverenciados como o meio através do qual as almas buscadoras da vida de fato encontram a vida. Conseqüentemente, o Graal tornou-se o emblema da pureza moral, da fé triunfante, do heroísmo soldadesco ou da caridade graciosa.”

Uma alegoria da natureza do Graal é, naturalmente, compatível com os princípios místicos. Basicamente, o Graal fala de uma pessoa pura buscando o poder e a sabedoria que sua natureza sagrada pode revelar e conceder a ela. Os que não possuíam essas virtudes morais estavam fadados à frustração e a falhar em sua busca. Assim sendo, é fácil substituir o Graal pelo Mestre Interior. Esse termo significa Iluminação pessoal, despertar espiritual, o alcançar a Consciência Cósmica ou Unidade mística com o Absoluto. Qualquer uma dessas expressões pode ser misticamente elegível como substituta para o termo Graal. A busca, então, é o puro de coração, a pessoa moralmente correta que procura adquirir o conhecimento maior do eu e sua relação cósmica.

A aventura vivida por Galahad em sua busca pelo Graal pode igualmente ser interpretada como sendo o conflito humano com sua própria natureza inferior, tentando transcendê-la. Se quiséssemos dramatizar, ou melhor, criar uma alegoria ilustrando a busca individual de cada pessoa pelas qualidades espirituais de seu próprios ser, e um canal dentro de nosso próprio ser que conduzisse à consciência cósmica, como também os obstáculos que nos defrontaríamos nessa busca, então certamente o Santo Graal seria um exemplo excelente.

_O Graal como Objeto
O Mito do Graal, que trata da busca de um cavaleiro por um objeto misterioso, provou ser um dos mitos mais estáveis de todos os tempos. Sua força como sobrevivente adormecido no inconsciente humano e sua emergência intermitente no consciente, em vários pontos da história, podem ser atribuídos a dois grupos de fatores.

Primeiro: há a atração humana pela busca os desafios da jornada, o próprio objeto e sua relativa inacessibilidade.

Segundo: como na natureza, há a aparente natureza cíclica dos eventos na sociedade humana, na qual elementos do mito do Graal emergem no consciente da sociedade assaltadas por crises intensas [freqüente e excessiva violência, opressão, injustiça, guerras e lutas civis, e nos dias atuais, catástrofe ambiental iminente], que representam os ‘baixos’ do ciclo do ‘progresso’ humano.

O velho mito do Graal é uma resposta, uma contrabalança para o lado ‘negro’ dos eventos históricos. É uma tentativa de salvar algo que foi perdido ou que se acredita perdido no espírito humano, um novo impulso na alma humana para levar a consciência humana a um outro ‘alto’ no ciclo, um triunfo dos ideais sobre a realidade cruel, uma vitória do eu sobre o ego ou a libertação da centelha divina, na humanidade, da subserviência ao desejo. O mito toma conta quando é sentida a necessidade de estimular a consciência da humanidade a se tornar ativa para criar ou restaurar um paraíso na terra, de modo a conter a pressuposta inevitabilidade do aumento do sofrimento causado por ignorância e erro.

Buscar um objeto misterioso, um talismã ou elixir, torna-se importante nesse desvio da consciência. É o reconhecimento humano da nossa incapacidade de lutar e vencer sem ajuda, e nossa disposição em assumir um compromisso que garanta essa ajuda. O objeto então torna-se a meta visada pelo individuo, isto é, ele guia e motiva a jornada por causa de seu valor. Esse valor pode residir no egocêntrico desejo de poder, mas depois revela ser algo não-egoísta, nobre e inspirador para outros; ou então, é percebido como sendo exatamente aquilo que é, do início ao fim da busca – um objeto físico ou um símbolo que fornece o propósito para moldar o destino do buscador e indiretamente o destino da humanidade.

Independente das origens dos componentes primordiais do mito do Graal [sejam celtas, do Oriente Médio, Asiáticas ou da cristandade medieval], sua forma, tal como a conhecemos, foi moldada nos séculos XII e início do XIII, começando coma história de Percival, ou a ‘Lenda do Graal’, de Cherétian de Troyes. Esta foi seguida por diversos outros contos centrados em torno da lenda da busca do Graal. No poema e Chrétien, o Graal, que parecia ser uma escudela ou uma taça, foi levado até o salão das refeições, em uma procissão solene, durante a visita de Percival ao castelo supranatural do Graal. Aqui, o Graal é descrito como sendo mais brilhante do que toas as velas do salão juntas, consistindo de puro ouro refinado e cravejado de pedras preciosas.

_QUALIDADES MÁGICAS

Em vários outros romances, o Graal apresenta outras qualidades mágicas: ele ‘flutuou’ pela sala, ficou parecido com um cálice de pedra, cegou temporariamente seus espectadores ou os emudeceu, tomou a forma de diversas imagens que apareceram em série ante seus espectadores, proveu um inesgotável ‘menu à la carte’ para todos os convidados presentes no refeitório ou estendeu a duração de vidas individuais, curou feridas e restaurou a fertilidade a terras inférteis.

Pouco depois de ter sido escrito o poema de Chrétien, no qual não há qualquer sugestão de que o Graal seja de proveniência cristã, o tema do Graal foi logo cristianizado [mas não oficialmente sancionado pela Igreja] por dois outros escritores do Graal, Robrt de Boron e Heinrich von dem Thürlin. O primeiro, em seu poema ‘José de Arimatéia’, chamou o Graal de ‘Cálice da Última Ceia’, que também foi usado para colher o sangue de Cristo em sua crucificação. O segundo, em ‘A Coroa’, descreveu seu Graal como uma urna contendo pão, que era acompanhada de um tecido manchado de sangue. A alusão era óbvia – intencionava a sugestão à Eucaristia. Muitos são os que vêem o Graal em seu conteúdo como parte – ou como simbolicamente explicando o significado – da Eucaristia. Nesta visão, a comunhão recebida toda semana estabelece contato entre o buscador do Graal [isto é, o celebrante] e o Graal e seu conteúdo [isto é o partilhamento ativo do corpo e do sangue do Redentor]. Esta é a visão mais popular.

A cristinização do Graal foi apoiada por um outro relato que liga o Graal ao Cristo, mas não através do Sagrado Sacramento. O romance, chamado ‘O Grande Santo Graal’, afirma que o Graal era um ‘livro’ escrito pelo próprio Cristo depois da Ressurreição; e ainda, uma outra referencia na introdução de ‘O Graal de Lancelot’ menciona que uma visão apareceu ante um eremita do século VIII, na qual Cristo apareceu para ele e disse: “Aqui começa o livro do Santo Graal, aqui começa o terror, aqui as maravilhas”. Isto faria do Graal um registro ou um depositário da sabedoria iniciática, comunicado à humanidade por um grande mestre na tradição sacerdotal, representado por figuras como ‘Melquisedeque, Hermes Trismegistus ou Merlin’, quer tenha o livro escrito ou comunicado oralmente.

_TRADIÇÃO INICIÁTICA
Uma descrição bastante incomum do Graal apareceu no romance do escritor anônimo de ‘Perlevaus ou a Nobre História do Graal’. Aqui o Graal era um mudador-de-forma. Isto, junto com os subtons templários do romance e outras referências, sugere uma forte ligação com a tradição iniciática das antigas escolas de mistério. Ao invés da identidade do Graal ser um único objeto fixo, ele assume uma série de formas diferentes ante o temeroso espectador, que vê imagens de um rei coroado e crucificado, uma criança, um homem com coroa de chifres e com feridas no corpo, uma outra manifestaçao indescritível e, finalmente, um cálice. As transformações desse ‘filme’ eram acompanhadas de perfumes agradáveis e uma luz extraordinária. O escritor de ‘Perlesvaus’ parecia estar sugerindo uma iniciação a algum culto de mistério, seja cristão ou de alguma outra escola de sabedoria. As imagens, e outras referencias na história, parecem conter mensagens secretas de natureza mística com significados mais profundos, compreendidas apenas por certos leitores ou ouvintes que olham além do simples entretenimento dado pela narrativa.

Entretanto, foi o Graal, compreendido como uma taça sagrada seu sagrado conteúdo, as histórias de sua origem, suas extensas jornadas, o imenso trabalho de seus protetores para ocultá-lo de seus inimigos, e seu poder transformador sobre aqueles que o vêem ou tocam que deu ao cálice seu forte conteúdo evocativo do mito de hoje.

_A TAÇA DE GLASTONBURY
Ao longo dos séculos parece ter se erguido um orgulho regional ou nacional localizando o Graal [seja ele um cálice ou outro objeto] em certas partes da Europa. A História de Glastonbury, associada a José de Arimatéia, é refletida por histórias similares na França e na Espanha.

Na Inglaterra, o cálice foi popularizado no século XIX por Alfred Lrd Tennyson, o poeta, e na Alemanha pelo compositor ‘Richard Wagner’. De fato, não muito tempo depois de Tennyson ter escrito seu ‘idílios’ do Rei, tornou-se sabido que uma taça, um cálice físico feito de madeira de oliveira, estava em posse da família Powell, que zelava por ela há séculos em Nanteos, perto de Aberystwyth, em Wales. Ela viera para suas mãos logo depois de Henrique VIII ter cortado relações com Roma e, implementado sua política de dissolução dos monastérios, saqueado a Abadia de Glastonbury. Por causa de Borons e sua lenda sobre José de Arimatéia, e suas outras conexões arturianas, acreditou-se que Glastonbury fosse o local de descanso do cálice sagrado.

Pouco antes dos comandados de Henrique invadirem o monastério, a historia conta que sete dos guardiões [monges] do cálice fugiram para seu monastério-irmão em Strata Florida, não muito longe de Aberystwyth. Mais tarde, esse monastério caiu vítima da dissolução, mas antes da invasão os sete monges [e seu precioso objeto] receberam asilo da nobre família de Nanteos, que não ficava muito longe da Abadia. Richard Wagner, vinte e sete anos antes de compor sua ópera ‘Percival’, visitou a família ‘Powel’ em Nanteos [1855], e relatou ter visto a taça de oliveira. A família Powel mudou-se para a Inglaterra e desde então não se ouviu mais falar da taça.

Há outras histórias a respeito do que teria acontecido com a taça de Glastonbury. Uma delas relata que na época da dissolução dos monastérios, a taça estava em meio ao tesouro que foi repartido entre dois grupos de monges que fugiram para Wales. Um grupo se dirigiu para a Strata Florida. O outro seguiu pela costaa sul de Wales e se abrigou num monastério m Caldy Island, levando com ele a taça, onde ainda hoje permanece, escondida para sempre!

Uma terceira versão da história da taça de Glastonbury nos é reconhecida por Hank Harrison, em seu livro ‘O caldeirão e o Graal’. De acordo com esta fonte, os guardiões do Poço do Cálic em Glastonbury tinham colocado sobre a mesa do sótão, na Casa do Poço do Cálice, seu genuíno Graal, juntamente com guarnições de mesa, para o retorno dos doze discípulos de Jesus. O espaço aqui nos impede de enumerar os vários outros locais secretos do Graal que existem nas Ilhas Britânicas.

_FRANÇA E ESPANHA
No continente, a história de José de Arimatéia e Glastonbury é refletida pela história da visita de Madalena [Maria Madalena] a Marselha, no sul da França, na Espanha há uma lenda da taça do Graal associada a São Lourenço e à região de Huesca.

Já no século IV, a lenda descreve Madalena deixando a Terra Santa, levando com ela algo chamado de Graal. A História conta que esse Graal foi escondido numa caverna no sul da França, cuidada pelos cátaros, um movimento religioso centrado nos Pirineus. No inicio do século XIII, os cátaros foram declarados heregs e a Cruzada Albigense lançou-se contra eles. Pouco antes da última fortaleza dos cátaros, o forte de Monsteségur, cair nas mãos dos Cruzados e dos sobreviventes queimados na fogueira, cerca de quatro ou cinco deles escaparam, levando com eles um tesouro desconhecido que se acredita incluir a taça, e que o esconderam numa caverna nos Pirineus Franceses. De lá, foi provavelmente levado para o monastério de Montserrat, perto de Barcelona.

A História espanhola leva a taça para as mãos de São Lourenço, um legado papal, que a levou de Roma para um ponto no distrito de Huesca, no nordeste da Espanha. Ela foi escondida numa caverna, na área em que foi construído o monastério de San Juan de la Peña. O medo da iminente ocupação árabe levou os guardiões da taça a removê-la para os Pirineus Franceses, para Monstségur ou Montreal-de-Sos, ou para ambos em seqüência, trazendo-a depois de volta para o monastério de San Juan de la Peña. Finalmente, foi transferida para a catedral em Valência. É provável que as duas histórias se refiram ao mesmo “Graal” associado a Madalena.

O debate ainda continua para saber se o Graal é um objeto físico, um talismã terrenal, mágico e digno de ser reverenciado como tal, ou um símbolo de algo no espírito humano que desencadeia mudanças aperfeiçoadas nos indivíduos e nas sociedades. Para o coração do peregrinador, seu significado simbólico é talvez melhor compreendido se manifestado numa forma concreta, um livro de sabedoria, uma taça mágica, uma pedra preciosa ou uma relíquia associada a grande instrutor religioso.

Há os que, em face da natureza especulativa sobre a existência real do objeto Graal, preferem expressar o mistério do Graal em algo menos tangível, mas espiritualmente real e em termos mais significativos. Para alguns, diz John Mattews, o Graal ‘não tem existência alguma, mas serve antes como uma idéia luminosa que assume forma à vontade, conforme a necessidade do indivíduo...’. E para outros, “ele é parte de um processo comportamental de transformação, um sonho alquímico da alma em sua busca de evolução humana ou unicidade com Deus”. A idéia parece ter entrado na consciência de ser, vinda de várias partes do mundo, simultaneamente ou em diferentes períodos da evolução humana, e se expressado nos vários mitos das sociedades individuais.

Geoffrey Ashe dá uma dimensão adicional ao Graal como uma idéia poderosa, vendo-o também como uma relação especial entre o Absoluto e o Homem. Ele expressa isso de forma muito apaixonada em seu livro ‘Avalon do Rei Arthur’:

“Ele [o Graal] era um sinal visível... da amizade de Deus pela Humanidade... [mas] a amizade pode ser tragicamente exigente e disruptiva...Um cavaleiro que busca corre o risco de arruinar sua vida. Mas o Graal compensa isso com preciosa certeza. Deus está lá. A mão de Deus se estende através da crueldade e da indiferença do mundo... qualquer que seja o sacrifício, e esse sacrifício vale a pena...”
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[Texto de:R.M.Lewis e Earle de Motte]