sábado, 22 de maio de 2010

A Sabedoria dos Sábios


Será que podemos dizer que a alguns homens escolhidos foi concedida a SABEDORIA das eras – que ‘alguns’ homens possuem conhecimentos que não são comuns e compreensíveis a todos? Essa afirmação não pode ser feita sem alguma alteração. A pergunta lógica seria: ‘escolhidos por quem e por quê’?

Conhecimento compreensível! A compreensão pressupõe uma base de entendimento e uma completa percepção consciente. Mas a ‘base de entendimento’ depende da ‘relatividade’, e esta da apresentação de fatos...

Afirma-se que ‘conhecimento’ é o “estado de ser ou de ter se tornado consciente do fato ou verdade”. A posse do fato e da verdade, que essencialmente são uma coisa só, constitui conhecimento. A educação é a ‘transmissão ou aquisição de conhecimento’ - consistindo em fato e verdade...

“O conhecimento”, diz o místico, “é a soma dos fatos e verdades colhidos da experiência, educação ou compreensão, sem preconceito com relação ao canal pelo qual o influxo de conhecimento possa advir, a fonte da educação, sua natureza, ou a objetividade da compreensão”.

Para o místico todo fenômeno requer observação cuidadosa para que seja classificado e relacionado corretamente com outras causas ou com a grande causa primordial. Não mais o místico pode ser considerado ‘aquele que sustenta a possibilidade duma relação inequívoca, direta e consciente com Deus através duma espécie de êxtase’, a menos que esse êxtase inclua todo método sadio de raciocínio...

O místico não sente qualquer estranheza em sua comunhão com Deus através de todos os fenômenos. Para lê, o contato com Deus não apenas é possível, mas é uma constante realidade, através do estudo da mais diminuta forma de vida celular.

Para ele a ‘compreensão’ é fundamental - ele compreende o que outros não compreendem, entende o que os outros não podem entender. Se a base do entendimento é a ‘relatividade’, o Místico tem perfeito entendimento sobre porque descobriu a verdadeira relação de todas as coisas e todas as leis...

Essencialmente, portanto, o Místico e aquele cuja compreensão está baseada num entendimento divino de coisas fundamentais; e aquilo que ele analisa deve revelar fatos verdadeiros... que se associam com os fundamentos bem estabelecidos em sua consciência.

Meras abstrações não encontram lugar no verdadeiro conhecimento... Toda lei deve ser ‘demonstrável’ e deve enquadrar-se no esquema perfeito das coisas, segundo revelação de seu conhecimento e compreensão singulares.

Será que não poderemos, portanto, dizer que a poucos homens advém a sabedoria que não é comum a todos? E não será a lei da escolha tão lógica e justa quanto todas as outras leis da natureza?

A LEI DA ESCOLHA

O primeiro mandamento do decálogo da Lei da Escolha é:
1] “Desejarás a sabedoria com um coração isento de dúvidas!”
A dúvida é a lança envenenada do Maligno, com a qual ele nos espeta em nossas inquirições e pesquisas, mas também nos tortura tanto que acabamos nada mais desejando além da libertação do veneno da ‘ansiedade específica’. A dúvida nos conduz por um caminho longo e escuro, rumo à porta atrás da qual esperamos encontrar a luz, e rejubila-se com o fato de que nos mantém nas trevas e nos impede de perceber os muitos portais que não havíamos notado.

O segundo mandamento é:
2]”Não serás crédulo!"

A credulidade é definida como débil ou ignorante consideração quanto à natureza ou força da evidencia sobre a qual uma crença está fundamentada ... em geral, uma disposição, proveniente da ignorância ou debilidade de acreditar-se prontamente – especialmente em coisas impossíveis ou absurdas”.

Em que é que a dúvida e a credulidade diferem essencialmente? Ao duvidarmos, não estamos considerando a evidencia apresentada? Não demonstramos disposição para crer? Não substituímos certa crença, em geral nossa credulidade preciosa, pela de outra pessoa?

O místico nem duvida nem é crédulo. Exige e ‘busca’ a prova. Ele não acredita em nada – ou sabe ou não sabe.

O terceiro mandamento é:
3]”Buscarás com uma mente aberta!”

Isso parece muito simples. Mas ousamos dizer que a média dos homens de negócios não abrem o jornal pela manhã sem estarem dispostos a encontrar ali o que confirmará suas idéias preconcebidas ou que fortalecerá suas dúvidas e credulidade.

Uma mente aberta? A oscilação no número de membros duma congregação deve-se à determinação que o buscador da verdade bíblica faz no sentido de que essas revelações coincidam com suas noções preconcebidas ou que venham ao encontro das crenças mutáveis de sua mente vacilante...

A verdade deve primeiro estabelecer sua capacidade de lembrar o caráter das coisas no interior da mente do buscador, ou o buscador não penetrará na câmara para aprender!

O quarto mandamento é:
4]“Buscarás com humildade e sinceridade!”

Para o humilde todas as coisas são possíveis. Isso não é uma abstração para o Místico – que a ‘sabe verdadeira’...

Humildade não é submissão no sentido da submissão que impede a existência do caráter e magnetismo pessoais. A humildade dirige o caráter e o magnetismo pessoal a canais eficientes, proporcionando expressão mais livre à personalidade interior enquanto o manto exterior é calmamente abandonado.

A pessoa deve aprender que a alma é apenas uma parte do infinito, residindo temporariamente num corpo mortal, e que a compreensão e a harmonização perfeitas dependem da percepção da humildade da alma e da relação com Deus, isenta de qualquer espécie de poder temporal.

A sinceridade parece uma qualificação óbvia, mas, como a da mente aberta, raramente existe no grau necessário a que se cumpra o mandamento. O Lord Lytton, disse: “O entusiasmo é o espírito alentador da sinceridade.” Se a sinceridade da pessoa não se manifestar em entusiasmo [e numa disposição de fazer sacrifícios em favor da busca], a busca da Sabedoria, que só se manifesta ao humilde e sincero, é infrutífera.

O quinto mandamento do decálogo é:
5]“Aproxima-te com reverência daquilo que é Sagrado!”

No sentido de que o que é Sagrado é santificado, podemos concordar com a afirmação do Místico: “Eu santifico aquilo que está livre de equívocos morais, físicos e espirituais. Aquilo que é de caráter nobre, puro e inviolável, e que se prova um eficiente meio para a felicidade anímica e bem-aventurança espiritual, é verdadeiramente santificado.”...

O Místico sempre tem consciência do ‘fato’ de que em Deus e através de Deus são todas as coisas. Na operação de toda a lei em todos os fenômenos naturais, o Místico vê a mente de Deus e reconhece a ‘divindade’. Para ele, tudo é ‘sagrado’, por sua própria natureza e por existir simplesmente.

Aproximar-se com reverencia do ‘umbral’ do conhecimento místico é como aproximar-se da presença de Deus com santidade no coração e na mente.

O sexto mandamento é:
6]“Não por direito, mas por privilégio desfrutarás o conhecimento!”
É tão simples acreditar que o conhecimento devesse ser propriedade comum de todos os homens, por ‘direito’. É verdade que Deus nos concedeu olhos para ver, ouvidos para ouvir e um cérebro para compreendermos e recordarmos. Mas esses dons são privilégios, e tudo o que é retido na consciência, como resultado do funcionamento das faculdades sensoriais, é um privilegio e não um direito. Assim diz o Místico.

A aceitação de um dom não acarreta maior obrigação de reconhecimento e reciprocidade que o uso dum privilégio nos obriga a sentir o inegoísmo do nosso benfeitor. Por isso, lógica e racionalmente, o Místico concorda com o outro mandamento do decálogo...

O Sétimo mandamento é:
7] Com um coração abnegado beberás do vinho e compartilharás do pão na festa dos Sábios Místicos!”

O vinho que enche o corpo com o espírito da vida e o pão que fortalece os tecidos do ser mortal: esse o místico partilha com um coração altruísta.

Será inegoísmo buscar-se o conhecimento pelo qual se possa vangloriar do poder assim alcançado, ou usar esse conhecimento exclusivamente para o progresso pessoal, ou negar aos outros qualquer serviço que possa ser prestado pelos benefícios colhidos desse conhecimento? Isso constitui aquele ‘egoísmo’ que deve ser purgado do coração e da mente para que a Iluminação divina possa manifestar-se na compreensão das maiores verdades.

O Oitavo mandamento é:
8]”Amarás teu semelhante pelo amor que Deus te deu!”

Pode parecer meramente filosófica a afirmação d que todo Amor é de Deus. Se qualificarmos o termo Amor, interpretando-o como o principio de atração compassiva ou prazerosa dos seres sencientes e racionais [que é puro, nobre e bom], poderemos seguramente concordar que o Amor é Deus é Deus em manifestação a nós aqui na Terra.

Visto que Deus inspirou Amor m nós, devemos amar nossos semelhantes. O Místico sabe que aparentemente é impossível amar o seu semelhante como ele mesmo. Mas como provam todos os atos e pensamentos do verdadeiro Místico, acha ele possível amar seu semelhante com a inspiração que lhe permite ser amável e tolerante, justo e obsequioso, cordial e prestativo, atitudes que todo homem espera que Deus manifeste a ele, por causa do Amor que habita em Deus.

...Não é preciso estabelecer-se outra fraternidade universal que não a da expressão do Amor de Deus que, potencialmente, está no coração de todos os seres humanos. Quando o alvorecer da Consciência Mística chega ao neófito, junto chega a compreensão de que toda a humanidade está unida divinamente por um laço Infinito.

O Nono mandamento é:
9]” Preparar-te-ás para a missão de tua existência!”

Nascemos para cumprir uma missão na vida!... Não é preciso acreditarmos que cada personalidade-alma foi colocada num corpo físico para cumprir certa missão predeterminada... Viemos a esta vida ignorantes e sem poderes ou capacidade, exceto os que Deus nos conferiu. Com esses dons adquirimos, por privilégio, outros conhecimentos e capacidades. Esses dons nos obrigam a usá-los para a finalidade que Deus tinha em mente ao concedê-los a nós – e isto se torna nossa missão na vida: ‘fazer aquilo que beneficiará os outros e trará Luz do conhecimento e a paz da compreensão àqueles que não as possuem.

Devemos nos preparar para essa missão - aprender a enxergar bem, pois quanto melhor for nossa visão e acurada a nossa interpretação, melhor será a nossa compreensão...

Devemos ampliar o nosso armazém de memória para que disponhamos da faculdade de recordar aquilo que servirá a nós ou aos outros quando preciso. Devemos conhecer as leis da natureza para que disponhamos das potentes possibilidades que sempre estão ao nosso alcance e esperam a nossa aplicação. Devemos nos preparar para que, quando surgir a oportunidade ou a ordem de cumprirmos a ‘missão’, estejamos prontos em conhecimento e experiência para realizar aquilo que nossa preparação nos inspire a fazer como nossa ‘missão.

O Décimo mandamento é:
10]”Agirás segundo a Trindade – Consagração, Cooperação e Organização!”

Este último mandamento revela o objetivo deste artigo. Visa ele oferecer-lhe a oportunidade de seguir os mandamentos do decálogo e, pela preparação que só advêm a poucos, cumprir sua missão na vida. Pela consagração de ideais, cooperação com outros inspirados analogamente, devemos auxiliar de modo organizado a difundir a Grande Luz nos vales obscurecidos do nosso planeta.

Considere isto um convite a obedecer o terceiro e quarto mandamentos deste artigo. E tendo assimilado esta mensagem, você a transmitirá, de acordo com o sétimo mandamento, àqueles que compartilhem da oportunidade que chegou a você. Desse modo esta mensagem chegará a muitas pessoas, não ficando restrita ao coração de somente um. Considere-se escolhido para distribuir esta mensagem entre os seus conhecidos que estejam interessados, que por sua vez a transmitirão a outros. Em silencia, e sem nome ou personalidade, a chegará alguém que está buscando, e assim se cumprirá a missão dum simples artigo.
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[Texto de Spencer Lewis]

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ciência x Religião _ O Hiato cada vez maior


Qual é o objetivo da sociedade atual?
As variedades dos interesses humanos, hoje em dia, são consideráveis. No entanto, para as chamadas nações adiantadas, o interesse principal parece ser um crescente ‘materialismo’. Este pode ser definido em termos de posses e prazer sensual. Em outras palavras, o objetivo da vida parece ser o ‘prazer e a aquisição de coisas’ que contribuam primordialmente para a satisfação dos ‘desejos físicos’.


Tais desejos físicos são naturais para um organismo autoconsciente. Constituem aquilo que pode proporcionar e assegurar sua vida com um mínimo de irritabilidade. Esses desejos, porém, embora biologicamente necessários, se não são disciplinados intensificam a agressividade na medida em que inibem os sentimentos e emoções mais elevados. Simplesmente, nossos desejos acabam se tornando o ideal da vida a ser obtido sem consideração para com os interesses alheios.

O instinto de autopreservação é compulsivo em suas exigências para manter o EU Físico. Mas essas compulsões podem acabar resultando na destruição do indivíduo, especialmente se ele é um membro da sociedade. O Eu maior do homem, no sentido ‘físico,é a sociedade’.Não mais podemos existir como pequenos grupos de indivíduos ou como tribos, ou mesmo como uma sociedade maior ‘isolada’. Nossa sobrevivência depende de sermos membros integrantes e cooperativos da sociedade. Podemos ser competitivos, mas não ao ponto de prejudicarmos outros membros do conjunto social de que nós mesmos participamos. Não podemos restringir outras pessoas ao ponto de que elas não tenham a mesma oportunidade de se valer das vantagens da vida coletiva.

Figuradamente falando, se há um tal declínio de moral e ética que a vantagem pessoal se torna o direito supremo, então os homens estão impiedosamente entrincheirados uns contra os outros.

Não basta que se tenha somente compreensão intelectual desta necessidade. É preciso que haja também uma ‘compaixão emocional maior’, um mais firme senso de retidão. Sempre que esse tipo de emoção está adormecido ou é inibido, o homem se torna impiedoso [querer, para esse individuo, é ter direito].

Hoje em dia, sentimos que um crescente ‘materialismo’ parece estar tomando conta do mundo. Mesmo nações subdesenvolvidas e em depressão econômica parecem avaliar o sucesso e a felicidade exclusivamente em termos de riqueza e cupidez – [isto é, o amor às posses é o sonho de muitos]. É compreensível que uma pessoa subnutrida anseie e trabalhe pelas necessidades de sobrevivência.

Mas o sonho de muitos indivíduos, assim como de nações ricas, é um estado ‘máximo de luxo’.

DA CIÊNCIA
Grande parte das mentes da sociedade se vê entre dois fortes pólos opostos. Um desses pólos é a exagerada ênfase posta na ‘ciência’. Para as massas, a ciência parece uma espécie de ‘gênio’ moderno; isto é, uma espécie de ser que, figuradamente, agitando a varinha mágica de sua tecnologia, pode criar uma vida maravilhosa de abundância e conforto material para toda a humanidade. Isto, naturalmente, é mais evidente no extraordinário desenvolvimento das ciências físicas e sua ‘aplicação’ para transporte, comunicação e comodidade. É claro que esta interpretação é grosseiramente injusta para com a ciência.

Existem dois aspectos gerais da ‘ciência’. Um é a ‘pesquisa pura’, a busca de ‘conhecimento’ para compreender as leis da natureza. Trata-se de transformar o desconhecido em conhecido, e com isto erradicar a superstição e sua perigosa influencia sobre a mente humana. Esta é uma das maiores contribuições à ‘verdadeira liberdade’ do homem.

O outro pólo ou sentido da ciência é sua ‘aplicação’, seu valor utilitário. ‘Conhecimento é poder’. As leis naturais que são reveladas pela ciência tornam-se ferramentas para ‘uso’ do homem. Essas ferramentas podem ser e são aplicadas pelo homem, tanto em prol da sociedade como contra ela. Em outras palavras, elas podem ser empregadas de maneira a beneficiarem não somente aqueles que as estejam usando, mas outras pessoas também. Inversamente, podem ser usadas em beneficio de alguns e em detrimento de outros.

A dificuldade está na ‘motivação moral’ da ciência aplicada. Se a avareza, a cobiça, predominam, então um materialismo empedernido se espalha pela sociedade. As descobertas, as revelações da ciência, são então pervertidas. A resultante produtividade da ciência é por conseguinte entendida como vantagem material exclusiva do individuo. E essa vantagem é encarada como diminuição de trabalho, mais lazer e recursos financeiros suficientes para satisfazerem qualquer prazer desejado.

Grande ênfase é posta em modernos recursos para diminuição de trabalho, nesta explosão da era cibernética. Promete-se que os homens terão mais tempo livre de trabalho para suas variadas maneiras de viver. Em que irão eles investir esse tempo? Significará isso que eles estarão procurando novos meios de intensificar a satisfação de seus sentidos mais grosseiros?

DA RELIGIÃO
Numa consideração superficial do assunto, dir-se-ia que a influencia mediadora deveria ser a ‘religião’. Presume-se que isso, por inspiração, despertaria os sentimentos e emoções mais nobres, que se acredita constituir a cultura avançada da sociedade.

Mas a religião tornou-se extremamente ‘polarizada’. Ela tem sentido fortemente que está em perigo devido a Ciência; simplesmente, que a ciência está se apresentando como a futura ‘salvação’ da humanidade há de proporcionar alívio de muitas pressões que o homem sofre hoje em dia. Além disso, a religião muitas vezes interpreta o desenvolvimento e progresso da ciência como uma tentadora utopia aqui na Terra. Por contraste, então, a atual ortodoxia teológica pareceria apenas uma ‘vaga promessa’ de uma sublime vida póstuma.

PROBLEMAS ATUAIS POR RESOLVER
Para combater o que considera uma influencia destrutiva da ciência, a religião insiste na aceitação literal das escrituras. Este ‘fundamentalismo’ se recusa a reconhecer que a Bíblia é principalmente uma composição de ‘fatos’ históricos, uma antologia e uma matriz de simbolismo. Ela encerra valores morais, porém muitos de seus relatos são lendários e grande parte do seu conteúdo foi reescrita por ‘concílios de teólogos’. Não é portanto racional, nesta época de cultura moderna, impor crença absoluta na Bíblia tal como existe, como se ela fosse o ‘fiat’ final de Deus.

O resultado do fundamentalismo religioso, portanto, é uma transferência da geração jovem de cultura mais moderna para o campo da ciência. O simples fato de que certos grupos fundamentalistas tentam repudiar aquilo que a ciência pode apresentar como evidências comprovadas indica sua intolerância. Esta atitude contribui para diminuir o apoio geral à atual ortodoxia religiosa ‘extremada’.

Tais condições causam um hiato, um vácuo, entre os dois pólos: de um lado o progresso da ciência, com sua busca de conhecimento e a aplicação do mesmo; e, de outro lado, a inflexibilidade da ortodoxia religiosa radical. Os indivíduos que desejam satisfazer suas impressões psíquicas de retidão, ou que desejam ampliar seu sentimento de ‘unidade’ com a realidade, o Cósmico, são aparentemente isolados. Seu problema parece ser o seguinte: deverão todos os sentimentos superiores do u, que eles sentem, ser primeiro submetidos a explicação cientifica, isto é, como resultados exclusivamente de fenômenos físico? Ou, por outro lado, se o que eles sentem é chamado de espiritual, deverá isso então ser explicado somente por limitadas ou restritas doutrinas religiosas, que não satisfazem?

O hiato entre os dois extremos, esses pólos de diferença, está aumentando. A ciência pura não é a responsável. Mas aqueles que a ‘comercializam’ exclusivamente em termos d materialismo e conforto material, são uma das principais causas do estado de coisas reinantes.

A outra causa é o aspecto da religião que insiste em restringir a “Consciência Pessoal”; que persiste em impor sua interpretação de ‘idealismo espiritual’, declarando que ela detém o único critério verdadeiro para o estado supremo de consciência.

O individuo que tende a se dedicar ao estudo do misticismo, metafísica e assuntos correlatos, é com freqüência encarado, por muitos daqueles que são devotos estritos do valor utilitário da ciência, como excêntrico e dado a fantasias. Por outro lado, ele pode ser considerado, pelos fundamentalistas religiosos, como carente de espiritualidade, se não como ateu!

Não podemos ver nesse estado de coisas um fator de criminalidade? Por um lado, parece a muitos que o ‘hedonismo’ [isto é, o materialismo e seus prazeres] constitui a plenitude da vida, a ser alcançada a qualquer preço. Por outro lado, a espiritualidade parece estar aprisionada pelo dogmatismo ortodoxo. Este problema básico terá de ser resolvido ao avançarmos mais na era da tecnologia.
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[Texto do Imperator]

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Jung e a Alquimia


Antes de Jung se interessar pela alquimia, foi atraído d 1918 a 1926 para os gnósticos e os Doutores da Igreja, vendo neles buscadores e pensadores preocupados com as questões metafísicas, e que queriam não apenas crer mas conhecer. É verdade que os gnósticos haviam à sua maneira atinado com o mundo primitivos do inconsciente, e o maior cuidado de Jung foi o de estabelecer uma ponte entre a gnose, o neoplatonismo e nossa época moderna. Quando tomou consciência do valor místico, simbólico e arquetípico da alquimia, ele compreendeu que ela era de algum modo esse elo entre o passado e o presente.

Os sonhos de caráter antecipativo e/ou premonitório, tratando de forma repetitiva do mesmo tema, intrigariam Jung imensamente [nos anos que precederam o começo do seu interesse pela alquimia]: “Ao lado da minha casa, ‘conta ele’, havia uma outra, quer dizer, uma ala de casa ou uma construção anexa, que me era desconhecida. Toda vez eu me espantava, no sonho, por não conhecer aquela parte da casa que, ao que parecia, sempre estivera ali. Finalmente, aconteceu um sonho em cujo desenrolar eu entrei nessa ala desconhecida. Ali descobri uma biblioteca maravilhosa, provinda na maior parte dos séculos XVI e XVII. Nas paredes havia in-fólios encadernados com pele de porco. Alguns estavam decorados com gravuras em cobre de natureza estranha e imagens representando símbolos singulares, como eu jamais havia visto. Eu não sabia então a que se referiam esses símbolos e só bem mais tarde vim a reconhecer que se tratava de símbolos alquímicos. Essa ala que eu desconhecia era patê de minha personalidade, um aspecto de mim mesmo. Representava algo que fazia parte de mim, mas de que eu ainda não tinha consciência. Essa construção e, em particular, a biblioteca referiam-se à alquimia, ao estudo da qual eu iria me dedicar durante muitos anos”.

Quinze a vinte anos mais tarde, Jung tinha em seu poder uma das mais belas coleções européias de manuscritos alquímicos, que ele tinha guardado em uma biblioteca muito parecida com aquela do seu sonho.

Não nos esqueçamos também daquele outro sonho que anunciou a Jung seu encontro com a alquimia. Esse sonho terminava com sua prisão no paço de uma construção medieval, próxima do palácio de um Príncipe da Itália do Norte. Um camponês que o acompanhava exclamou, quando o portal se fechou com um ruído surdo: ‘somos prisioneiros do século XVII’. E Jung, no sonho, diz então:’seremos prisioneiros por muitos anos’, mas se consola pensando que tornará a sair desse lugar ao fim de alguns anos.

Mais tarde ele compreendeu o sentido desse sonho que se referia à alquimia, cujo tempo mais vigoroso foi o século XVII, a qual ele ajudou a resgatar da obscuridade no século XX.

Dois personagens provavelmente participaram nesse contato de Jung com a alquimia. O primeiro Hans Silberer, um de seus amigos, tinha escrito em 1917 um trabalho sobre a questão do ‘misticismo e seu simbolismo’, no qual colocara em evidência que, contrariamente ao pensamento de Freud, ‘a experiência mística era uma simples sublimação da sexualidade’. A participação de Silberer foi talvez involuntária, pois Jung pretendeu ter esquecido as reflexões de seu amigo sobre a alquimia; mas o que foi na realidade esse esquecimento? O segundo, Richard Wilhelm, deu-lhe em 1928 um curioso trabalho intitulado. “O Segredo da Flor de Ouro”. Esse livro era um tratado de alquimia taoísta, narrando a revolução da luz, que terminava na eclosão de um germe imortal e que se apresentava como uma obra mística, integrando elementos da alquimia e de filosofias orientais, onde o objetivo da meditação é o elixir da vida.

A alma ali simbolizada sob a forma de um demônio-nuvem masculino e de um fantasma branco feminino ligado à terra. Jung viu nisso os símbolos de ‘ânimus e de ânima’ e se conscientizou do fato de que o objetivo da alquimia espiritual consistia em produzir um corpo etérico chamado ‘corpo diamantino’:

“Se queres completar o corpo diamantino sem demora
Aquece com cuidado a raiz da consciência e da vida
Ilumina a região
Bem-aventurada que está
Sempre próxima
E faz nela habitar para
Sempre, oculto, teu
Verdadeiro Eu.”


Richard Wilhelm traduziu para o alemão, além desse, um outro trabalho chinês célebre, o “I Ching” ou “Livro das Mutações”, que descreve uma metodologia particular que permite obter-se uma espécie de oráculo com a ajuda de pequenos bastões, o qual mostra-se útil para aquele que utiliza essa técnica, no momento em que a emprega.

Jung sentiu-se atraído para a simbologia e metodologia do I Ching, que se tornaram um dos pontos de partida das suas TEORIAS sobre a SINCRONICIDADE. O I Ching tem por hipótese que todo evento que se produz em um dado momento acha-se necessariamente revestido da qualidade geral característica desse momento.

Jung, desejando profundamente estabelecer um elo entre o cristianismo primitivo e a psicologia profunda, encontrou nesse livro “O Segredo da Flor de Ouro”, a idéia de se voltar para a alquimia como essa possível ponte. Um comerciante de livros de Munique conseguiu-lhe então diversas obras alquímicas, entre as quais a primeira foi “A Arte Aurífera”, volumosa coleção de tratados em latim, que ele achou incompreensíveis, deixou de lado, voltando a eles de tempos a tempos, e isto durante dois anos, até o dia em que descobriu que os alquimistas se expressavam por símbolos. E esse foi o início de uma extraordinária jornada e de um trabalho gigantesco através dos manuscritos alquímicos.

Notando que no “Rosário dos Filósofos” certas expressões repetiam-se freqüentemente, como “Solve et coagula” [dissolve e coagula], “prima matéria” [matéria primeira], etc., ele decidiu compor um verdadeiro dicionário de termos de referência.

“Percebi rapidamente”, disse ele, “que a psicologia analítica casava-se singularmente com a alquimia. As experiências dos alquimistas eras as minhas experiências o mundo deles, em certo sentido, era o meu mundo”. Jung se deu conta da estreita correlação entre a alquimia medieval e os símbolos dos sonhos, fez comparações entre os símbolos dos alquimistas e os descritos por seu pacientes em seu sonhos.

Bem sabemos que os alquimistas, que se consideravam bons cristão, procuravam a transformação interior e não a obtenção de ouro, e que eles não se satisfaziam com um caminho de salvação como o que lhes oferecia a Igreja. Eles desenvolveram em si mesmos um caminho de conhecimento, utilizando seus processos químicos para favorecer a visão psíquica e traduzindo suas experiências através dos símbolos. E há pontos comuns entre os processos alquímicos e o processo analítico do trabalho com os sonhos: os dois conduzem a uma transmutação interior que pode desembocar na dimensão espiritual.

Só que não é suficiente ter bons sonhos; todo mundo pode ter a experiência dos arquétipos em sonhos, até mesmo do ‘self’, sem que se opere uma verdadeira e autêntica transmutação. O cotidiano continua sendo o laboratório necessário para que sejam interligadas as mensagens fornecidas em sonho pelo inconsciente. E uma pessoa que tome esse caminho deve cultivar aquilo que emerge de novo, de bom e de diferente. Vários autores atuais consideram que esse trabalho do analista é o opus do alquimista. O simbolismo alquímico se situa sobre o plano cosmológico e a alquimia pôde ser encarada como uma extensão e uma aceleração da geração natural, representando a evolução humana do nível materialista ao nível espiritual: transformar os metais em ouro equivale a transformar o homem em puro espírito...

Os diversos processos alquímicos são bem simbolizados pela expressão ‘solve et coagula’, que pode ser traduzida como ‘purifica e integra’, correspondendo estas duas fases às do ritmo universal: inspiração/expiração, involução/evolução, e a prática da alquimia, seja material ou espiritual [será possível não ser material?] permite entrar em contato com o que em si mesmo pode ser denominado a ‘caverna do coração’.

Num artigo escrito para a Enciclopédia Hebraica, Jung diz o seguinte:

“Uma pesquisa comparativa provou que os símbolos alquímicos são formados por uma parte de variações de temas mitológicos que pertencem ao mundo dos alquimistas e por outra parte de produções espontâneas do inconsciente. Isso torna-se evidente no paralelismo observado entre o simbolismo dos sonhos e aquele da alquimia. O símbolo principal da substancia transformada no curso do processo é indicado por Mercurius. Sua descrição nos textos concorda em essência com as características do inconsciente. No inicio do processo ele está na ‘massa confusa’, o caos ou a ‘nigredo’. Mercurius aqui representa o papel de ‘prima matéria’. Ele também é chamado de alma cativa do mundo, um sistema pelo qual as potências mais altas encontram-se nas mais baixas. Isso descreve uma condição obscura [inconsciente] do adepto. Os procedimentos da fase seguinte têm por objetivo iluminar a escuridão pela união dos elementos opostos. Isso conduz à ‘albedo’ [obra ao branco] que se compara ao nascimento do Sol. A transformação da escuridão em luz é simbolizada pelo tema da luta com o dragão; a passagem ao vermelho se dá pela intervenção da ‘conjunctio’, a lua une-se ao Sol, a prata ao ouro, o feminino ao masculino.

“O desenvolvimento da ‘prima matéria’ até a ‘rubedo’ descreve a tomada de consciência de um estado inconsciente de conflito que será daí em diante mantido na consciência, e durante esse processo a sobra que não pode ser melhorada deve ser rejeitada. Tornar-se consciente de um conteúdo inconsciente equivale à sua integração na psique consciente e forma, deste modo, uma ‘conjunctio Solis et Lunae’. O processo de integração é um dos fatores mais importantes e mais úteis da psicoterapia moderna, interessada prioritariamente pela psicologia do inconsciente, pois a natureza da consciência, assim como a do inconsciente, é modificada por esse processo. Via de regra, ele é acompanhado do fenômeno da transferência, isto é, da projeção de conteúdos inconscientes sobre o terapeuta. Encontramos igualmente esse fenômeno na alquimia onde amiúde uma mulher adepta desempenha o papel da ‘soror mystica’ [Nicolas Flamel e Pernelle, Zósimo e Teosébia]. A ‘conjunctio’ cria o ‘lapis philosophorum’, símbolo central da alquimia; o ‘lápis’ representa a personalidade que foi modificada pela integração do inconsciente.”

QUAL A TEORIA DE JUNG SOBRE A ALQUIMIA?
Para Jung, tudo se passou assim: ‘numa época em que a matéria permanecia cheia de incógnitas, o alquimista abordava a Grande Obra com uma seriedade de tal intensidade que ele projetava, de maneira perfeitamente inconsciente, imagens de seu inconsciente num material de sua escolha e se esforçava em ali realizar a transmutação. O alquimista utilizava inconscientemente sua imaginação criativa, engendrando visões que invadiam seu laboratório como sonhos vivos.’

“ A alma possui por natureza uma função religiosa”, diz ele em “Psicologia e Alquimia”, e a função religiosa do inconsciente encontra sua expressão por meio de símbolos na alquimia. A pesquisa da significação do sonho alquímico ocupou Jung em duas obras: “Psicologia e Alquimia” e “Mysterium Conjuncitionis”.

Jung estabeleceu um paralelismo estreito entre o processo de individuação e a Grande Obra, que têm em comum o fato de se estenderem por muitos anos, de serem um movimento circulatório em torno do qual vê-se aparecer cores sucessivas, como o negro [que evoca a angustia da dissolução da consciência], o branco e o vermelho [luz da consciência renovada e o devir operante]. Cada autor alquímico, segundo Jung, tem seu próprio caminho, como é o caso da individuação, e os sonhos veiculam freqüentemente imagens alquímicas desconhecidas do sujeito.

Em nossa época da física nuclear que realiza a transformação da massa em energia, e às vezes em claridade mortal, a psicologia profunda permite reencontrar o antigo caminho que conduziu Dante até o fundo de si mesmo, e permite ao homem reencontrar-se.

“O desenvolvimento da consciência individual e a integração, pelo indivíduo, dos conteúdos inconscientes são as únicas verdadeiras garantias contra a possessão pelos arquétipos e, conseqüentemente, contra perigosos movimentos de massa. A integração dos conteúdos inconscientes constitui um ato individual de tomada de consciência, de compreensão e de julgamento moral”,
escreveu Jung, acrescentando que esta é uma tarefa muito difícil, que demanda um alto grau de responsabilidade ética e que talvez poucos sejam capazes dessa consecução, os quais não são os dirigentes políticos mas os guias morais da humanidade.

De fato, s obas alquímicas de Jung, nos ensinam muitas coisas quanto ao seu autor e às suas idéias fundamentais, porém seu valor intrínseco relativamente à própria alquimia é discutível.

QUE PENSAR ENTÃO DESSA TEORIA DE JUNG?
Constatamos que existe uma alquimia dita operativa e uma alquimia dita espiritual. Onde classificar a descrita por Jung: a alquimia dos sonhos que se tornam uma via de conhecimento do Eu? Em que pé estava a alquimia no momento em que Jung a redescobriu? Geralmente oprimida pelo sarcasmo, ela seguia através de certos adeptos [Cyliani, Fulcanelli e Eugène, por exemplo]sua jornada subterrânea, solitária e mais do que nunca dissimulada, seus praticantes considerando seu isolamento, até mesmo sua cladestinidade, como um sinal da idade das trevas. Entretanto, como expressão da tradição hermética, a alquimia jamais cessou completamente de existir. Sob sua dupla forma, espiritual e operativa, a alquimia é a expressão de uma tradição que remonta a Hermes Trismegisto e que, através da Babilônia, Egito e mundo árabe, está difundida no Ocidente, constituindo uma das vias do esoterismo.

Lembremo-nos que cada praticante da arte propõe-se a regenerar a matéria acelerando o crescimento dos metais e os purificando até a obtenção da Pedra Filosofal; e através da transmutação que põe em cena quatro elementos [ar-água-fogo-terra], três princípios [mercúrio-enxofre-sal] e a energia cósmica, o alquimista tenta realizar a obra divina da criação, completando com perfeição o trabalho da natureza.

È evidente que essa Teoria junguiana foi severamente criticada pelos depositários da antiga sabedoria. Basta ver as reações da Eugène Cansaliet quando se evocava diante dele as hipóteses de Jung; escreveu aliás o seguinte: “O grande volume de Jung”, “Psicologia e Alquimia”, não nos parece nem mais nem menos nocivo,l o qual, numa muito pessoal e frágil interpretação, reúne todavia grande número de extratos de obras, notas bibliográficas e, particularmente, figuras simbólicas. Fora isso, esse mirrado espólio que poderia servir ao estudante de alquimia, e com mais razão, ao operador cioso de toda verificação em laboratório, que se poderia esperar de um escritor peculativo que compreendeu tão pouco a ciência a ponto de pretender submetê-la à sua acrobacia psicológica e reconduzi-las simplesmente às dimensões reduzidas de seus procedimentos banais e de suas falaciosas induções?”. Severas reflexões...

Em comparação ao que se convencionou chamar ‘A Tradição’, a proposta de Jung fez papel de reducionismo psicológico. A obra junguiana não esgota as múltiplas faces da alquimia e deixa intacta a visão mística, mas por honestidade cientifica circunscreveu o campo de estudo, fornecendo uma metodologia que garantiu a credibilidade de suas asserções.

JUNG PRESTOU UM MAU SERVIÇO À CAUSA DA ALQUIMIA?
Certamente que na. Ele participou de uma renovação da alquimia, evidentemente sob um ângulo que os alquimistas não haviam previsto. Participou de uma recolocação, ao gosto moderno, do simbolismo e dos sonhos. Tudo isso interessa muito aos místicos.

Evidentemente, para Jung a alquimia deve ser compreendida no sentido da transformação do EU. A via alquímica é o processo de individuação que permite essa transmutação, e essa via régia utiliza a arte da interpretação e da utilização dos sonhos. “A consciência é a verdade”, disse o sábio Ramana Maharshi. Jung não cessava de repetir a mesma coisa. E os iniciados, que dizem? A mesma coisa! A seu próprio modo, com uma outra forma simbólica. O importante é fazer vir à consciência elementos primordiais e necessários, capazes de fazer evoluir o ser.

Os limites da obra junguiana, em sua relação com a Grande Obra, são que sua explicação é apenas uma entre as interpretações possíveis da alquimia.

O ponto que eu pessoalmente encaro com muita reserva é a afirmação de Jung de que o alquimista, em suas operações de laboratório, parece trabalhar projetando ‘inconscientemente’ sobre a matéria elementos simbólicos procedentes de si mesmo. Esse certamente foi o caso para um grande numero deles, mas não para todos; é possível que Jung tenha demonstrado certo desconhecimento do mundo do esoterismo. Talvez tenha se iludido ao afirmar que o alquimista é solitário: ele é aparentemente um solitário, um taciturno, um incógnito. Mas na verdade os alquimistas autênticos freqüentemente eram membros integrantes de fraternidades iniciáticas, ou estiveram ligados a elas em alguma época de sua vida; toda uma formação simbólica de base lhes havia sido ensinada; alguns puderam ter acesso a arquivos da mais alta importância. Toda uma estruturação de seu trabalho alquímico pôde assim sr ordenada.

Falar da solidão do alquimista é esquecer seu senso de segredo, como também suas relações com os planos superiores, as hostes celestes, o Mestre Invisível que cada iniciado pode encontrar um dia, psiquicamente, em sua senda.

Tenhamos em mente que os praticantes da arte, os adeptos, insistiam sobre o trabalho interior, as meditações no oratório. O alquimista realiza uma obra que se desenrola simultaneamente em diversos planos; sua reflexão mística não cessa de alimentar o processo operatório, e o trabalho na matéria permite verificar e ampliar as intuições que brotam durante suas contemplações no oratório. A meditação do alquimista iniciado revela as relações misteriosas, invisíveis mas reais, que associam a alma universal – a alma mundi – e a via secreta dos elementos e dos metais. Com humildade, o adepto faz experiências até desembocar na luz do Impessoal. A busca do UM supõe efetivamente que o iniciado se despoje progressivamente de seus afetos e desejos, e o alquimista ao final da obra participa de uma visão unitiva: é a união do conhecimento e do Amor.

O PAPEL DA LITERATURA ALQUÍMICA

Ela tem a tarefa de transmitir uma revelação cuja compreensão depende diretamente do grau de conhecimento espiritual adquirido pelo adepto. A leitura alquímica é um teste iniciático: o adepto deve decifrar e aprender a vivenciar, a perceber em seu próprio interior os símbolos que se remetem aos fenômenos materialmente observáveis.

Concluindo, podemos afirmar que, pondo de lado certas reservas expressas acima, o papel de Jung em sua abordagem da alquimia permanece considerável e permite a um bom número de buscadores conhecer a si mesmo, e operar essa transmutação necessária, tornando-se assim alquimista espiritual.
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[Texto de Jean-Pierre Clainchar]

terça-feira, 18 de maio de 2010

Confissão ao Deus Desconhecido


Deus de meu coração e de minha compreensão:

Por muito tempo te procurei, com o coração cheio do desejo de ‘contemplar tua face’, como Moisés e outros teus intermediários especiais com que, segundo consta, te comunicavas diretamente. Quis te compreender em plenitude, saber como eras, quem ou o que eras, abranger tua magnificência e grandeza, verte e fundir-me em ti, e assim vivenciar em tua glória,luz e conhecimento.

Não me dei conta de quanto era arrogante meu anseio, de quanto sou pequena, ignorante e incapaz para ousar imaginar tão extravagante tentativa. Perdoa-me, eu não sabia o que fazia! Era com amor que eu buscava te conhecer, mas um amor nebulado pela incompetência, equivocado em seus desígnios, tolado pela vã curiosidade, pela sede de saber, conhecer, com minha pobre e restrita mente!

Procurei e não te encontrei, inteiro como queria te encontrar. E duvidei de que existisse, pois eu não te encontrava! E pensei: “o mundo é obra do acaso, Deus é o Acaso. E se existe, não se importa comigo, com meus sofrimentos e aspirações”. Mas, bem no fundo de meu ser, continuava o desejo de te encontrar, e eu tentava te imaginar como eras:

ð luz?
ð Energia invisível e inexprimível?
ð Inteligência pura?

Li tudo que pude a teu respeito, fiz milhões de perguntas, e só consegui ficar mais confusa e perdida entre tantas teorias – pateticamente pobres, poeticamente lindas, inspiradas, apaixonadas, amargas, felizes, simples ou complicadas, e sempre suficientes e insatisfatórias!

Um dia, mandaste-me um recado especial. Num lugar retirado, no meio da mata, entre árvores, montanhas, em frente a um rio límpido e cantante, vi uma tempestade acontecer. Ribombos de trovão, nuvens gordas e cinzentas, chuva brilhante – sim, a chuva brilhava como o cristal, pois ao longe fazia Sol e sua luz se refletia na cortina d’água que caía à minha frente. Lufadas de vento fresco começaram a soprar e derrubar as grandes folhas da gameleira em frente à casa. Elas começaram a cair, aquelas folhas amareladas, grandes e grossas,às dezenas, numa dança encantadora. Ecos de trovão, reflexos de luz na chuva de verão, rio, montanhas e folhas caindo ... Após várias rajadas d vento, o chão estava forrado de amarelo, a grama luzindo, o céu voltando a ficar azul, e a voz da trovoada se perdendo ao longe, cada vez mais distante.

Em êxtase, comecei a sentir que algo me estava sendo dito, que ‘alguém’ me falava. Intui que era a tua presença que se fazia sentir naquelas coisas todas, e que m dizias: “Criança boba, como queres me conhecer por inteiro? Não percebes que és minúscula demais para conter o Todo, e que só o Todo pode te conter? Lê meus signos, minhas manifestações, que é tudo o que podes absorver de mim. Ouviste minha voz nas montanhas, meu toque na carícia do vento, minha poesia nas folhas douradas flutuando no ar, minha musica na canção do rio – manifestações simples, que te encheram d assombrada emoção. Imagina se me contemplasses por inteiro! Por que ambicionas o impossível? Continua a buscar-me, pois é meu desejo que me conheças cada vez melhor. Mas atém-te às tuas limitações, óh humana e sequiosa alma!”.

E então compreendi que só te encontraria por partes, e que um dia - quem sabe? – o quebra-cabeça seria completado.

Começou então uma nova etapa. Fiquei atenta a tudo. Passei a procurar vislumbres teus no canto dos passarinhos, na flor mais singela, no olhar das crianças, no balanço das árvores ao vento, na música do homem, nas suas artes, na terra, na semente, no céu, no mar, nas lágrimas sentidas, percebendo com certa surpresa que não é só no belo que te encontras...

Quando olhei para irmãos meus oprimidos pela fome, pela injustiça, pelo ódio, pelo ressentimento, achei que ali ‘não’ estavas. Até que falaste pela voz de minha consciência, pacientemente me instruindo; disseste que estavas ali, sim, mas que nem mesmo tu poderias interferir na vontade, no arbítrio dos homens, já que Tu mesmo o havias concedido; que estavas ali, sim, aguardando que as espessas camadas de ignorância e do medo fossem pelo próprio homem afastadas, a fim de que tua luz brilhasse e fosse vista. Disseste-me, ainda, que eu podia ajudar-te a mostrar tua radiância amando o ignorante, o raivoso, o revoltado, o marginal, e me ensinaste muitas formas de fazê-lo. E me conduziste a fontes de sabedoria, a pessoas especiais; fui aprendendo, e nem percebi que, ao tentar humildemente seguir teus conselhos, ‘em mim’ brilhou um pouquinho mais a tua luz, aumentou meu alcance de entendimento. Houve momentos em que até esqueci que te buscava, no afã de aprender a amar impessoalmente ’toda’ a humanidade, sem julgamentos ou preconceitos, eliminando invejas, ciúmes, percebendo o malefício desses sentimentos – é óbvio que só o consegui precariamente, tendo recaídas, tentando de novo, numa luta constante na arena da consciência, luta que não sei se e quando vai terminar...

Mas foi quando esqueci que te buscava, no acesso desta luta, que encontrei muito mais de ti! Só então compreendi um pouco mais, e percebi a sabedoria da frase “Deus de meu coração e de minha compreensão”. Sei agora que serás sempre o ‘Incognoscível’ que aparentemente se esconde mas está em toda parte. Não importa como nem por que – só importa que ‘és’ e que aquilo que eu conseguir saber de ti me será dado por merecimento – um merecimento que depende da eterna luta contra meus inimigos internos – arrogância, ansiedade, presunção, orgulho, preguiça, desamor, ignorância.

Procuro, pois, estar disponível à tua presença e tua voz, que me falam em muitas linguagens e me prometem uma abrangência cada vez maior de tua inefável vastidão. Aspirei ao infinito, esquecendo que o finito não pode contê-lo. Hoje aspiro apenas a ter a sabedoria de TE reconhecer em tuas manifestações. Continuas sendo o Deus Desconhecido que se desvenda por misteriosos meios. Reconheço um sorriso teu nas estrelas do céu, uma idéia tua no resplendor do dia que desponta, uma alegria tua na flor que desabrocha, o teu poder criador na semente que germina, tua grandeza no coração que ama, tua potência na vida que chora e canta, tua beleza na sinfonia do vento afagando um roseiral ou uma campina ondulante, tua pujança no calor do deserto, em cada animal, em cada pedra, enfim, no mistério de cada célula, cada átomo, cada respiração. Sim, te encontro e te sinto em cada segundo que passa, em cada chama de ódio que consigo extinguir, em cada esperança que renasce, em cada gesto fraterno que recebo, em cada perdão, em cada lágrima de arrependimento, em cada momento de alegria, em cada onda do mar que se abate sobre a areia e canta louvores à eternidade da vida, que é mutável, imprevisível, mas perene e cheia de promessas.

Perdoa, pois, minha antiga presunção e me concede a graça de tua paciência e tolerância. Aprendi a não querer saber, a não ter pressa, a apenas ‘ser em ti’. Sabes melhor do que eu o que me cabe conhecer. Agradeço por me amparares quando sofro, por me permitires o alivio do chorar quando preciso, do cantar quando é hora de louvores, de saber levantar cada vez que tropeço. Não sei como nem o que és, e isso não tem mais importância. Estou em ti isso me contenta, como se contenta a criança no abraço do pai, no afago da mãe, na cantiga de roda, sem perguntas nem complicações.

Continuo ignorante, e tu continuas a ser o Grande Mistério. Mas uma coisa aprendi – estou em ti, estás em mim. Não sou Deus, não és pessoa, entretanto, SOMOS UNOS. Como? Não sei, e, esplêndida e maravilhosamente, isso não tem importância! Não tenho mais perguntas, e nisso está a resposta que eu buscava...
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[Texto de Ceslawa M.Nicz]

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Segredos da Mente _ A Verdade por Trás dos SÍMBOLOS


Presentes de forma espontânea no nosso dia-a-dia, os símbolos escondem um significado emocional importante para a compreensão da nossa própria história psíquica.

Para começar, um exemplo de um objeto que s torna um símbolo: ‘uma mulher perde, na pressa da faxina, seu anel de casamento. Inicialmente é possível encontrá-lo. A mulher pensa em fazê-lo depois da faxina; fica nervosa, intranqüila: será que o jogou fora com a água suja? Ela começa a refletir: será que a perda do anel tem algum significado? “Que direi ao meu marido?” Ela tenta se acalmar: “Ora, é apenas um anel!” Mas não é apenas um anel, é um anel de casamento. Sente medo de precisar contar o fato ao marido: curiosamente, fica com sentimentos de culpa. Nisso ela experiência seu marido como alguém muito compreensivo.

Por acaso sua amiga passa por ali. A mulher imediatamente lhe conta o que aconteceu. A amiga, uma pessoa resoluta, logo diz: “Está bem claro que por uma mera faxina você perde a relação com seu marido.”

A mulher reflete sobre a relação com o marido, tenta lembrar-se de quais sentimentos e expectativas associou a esse anel. Ela se pergunta se realmente não quer mais a relação. E também se pergunta por que sente tanto medo.

Não se pode separar a perda do anel de seu significado. O meda da reação de seu marido aponta para isso. O marido que ela não teme de modo algum. É o medo de poder perder ou ter perdido essa totalidade na relação, simbolizada pelo anel; em todo caso, mesmo que se compre um novo anel, é o medo de que surja o tema separação, que é assustador. Por isso, o impulso da separação é freqüentemente projetado sobre o(a) parceiro (a), de tanto que se temem as reações do(a) parceiro (a) em lugar dos próprios impulsos de separação.

Outros significados ou interpretações não ocorrem à mulher nessa situação. Ela poderia ter pensado que um novo anel era esperado, como expressão do desejo d renovar a relação com o parceiro, pois já se distanciara claramente bastante do velho anel.

Escolhi esse exemplo para tornar compreensível o fato de inicialmente se tratar, no tocante ao ‘símbolo’, de um objeto cotidiano percebido pelos sentidos, mas que aponta para algo encoberto, enigmático, para um significado e para um excesso d significado, tudo que não pode ser esgotado no primeiro momento. Esse objeto cotidiano e seu significado não devem ser separados.

SOBRE O CONCEITO ‘SIMBOLOS’_ A palavra ‘símbolo’ origina-se do grego ‘symbolon’, um sinal de reconhecimento. Na Grécia antiga, quando dois amigos se separavam, quebravam uma moeda, um pequeno prato de argila ou um anel. Quando o amigo ou alguém de sua família voltava, tinha de apresentar a sua metade. Caso ela combinasse com a outra metade remanescente, esse alguém teria revelado sua identidade de amigo e tinha, assim, direito à hospitalidade.

A etimologia mostra o símbolo como algo composto. Apenas quando combinado é um ‘símbolo’, tornando-se símbolo de alguma coisa: nesse exemplo ele está como representante da realidade espiritual da amizade e – apontando para além da amizade pessoal – da amizade de famílias, juntamente com o direito à hospitalidade. Nesse caso, o símbolo – e isso se aplica a todos eles – é um sinal visível de uma realidade invisível, ideal. Portanto, no símbolo observam-se dois níveis: * em algo externo, pode-se revelar algo interno, em algo visível algo invisível, em algo corporal o espiritual, no particular o geral. Na interpretação,procuramos a realidade invisível por trás deste algo visível e sua conexão. Nesse processo, o símbolo caracteriza um excedente de significado, nunca poderemos esgotar inteiramente seus significados.

O símbolo e o que nele está representado têm uma conexão interna, não devem ser separados um do outro, e é nisso que o ‘símbolo se distingue do sinal’. Sinais são acordos fixados por meio de uma declaração, não possuem um excedente de significado, mas são representantes. Consideremos, como exemplo, o sinal ‘faca em cruz com um garfo’ para restaurante: poderíamos substituir faca e garfo por meio de um novo acordo. Aceitaríamos um prato com uma colher como sinal para restaurante. Com um sinal não se retrata nada de encoberto, enigmático, é uma simples função de representação, indica-se algo. Sinais podem ser substituídos e adaptados ao gosto da época.

Símbolos não podem ser substituídos mediante um acordo. Vamos tomar, por exemplo, a cor vermelha: as cores são, para além de sua qualidade corante, portadoras de significado. Relacionamos o vermelho ao sangue vermelho, que experienciamos existencialmente: e assim o vermelho ganha o significado de vida, vivacidade, sofrimento, paixão, etc. Mal se pode pensar em criar uma convenção segundo a qual se simbolizaria por meio da cor verde tudo que tem a ver com sofrimento, paixão, emoção ardente. Não podemos dar outro significado a um símbolo mediante um novo acordo, pois esse significado vincula-se diretamente à imagem.

O sinal é compreensível de modo bem mais racional,fala ao intelecto, sendo, por este motivo, usado na matemática, na ciência e no processamento de informações. O símbolo é muito mais irracional, não totalmente compreensível.

Não obstante, o sinal pode assumir o caráter de um símbolo. Tomemos, por exemplo, o numero: é um sinal, estipula-se que o dois é sinal para duas unidades, designando uma quantidade. Mas podemos encarar o numero qualitativamente: o numero 13 é o sinal para 13 unidades no sistema decimal; no entanto, pode-se dizer do 13 – de um ponto de vista qualitativo – que é um número de ‘sorte ou de azar’, etc. A ele são atribuídos um conteúdo, uma qualidade. Sinais podem converter-se facilmente em símbolos, especialmente quando nos aproximamos do mundo com uma postura simbolizadora.

O APARECIMENTO DE SÍMBOLOS_ Experienciamos símbolos nas imagens oníricas,em fantasias, em metáforas poéticas, em contos de fadas, em mitos, na arte, etc. Os símbolos podem surgir e ser representados de maneira bastante espontânea.

Um exemplo: durante a discussão de uma conferencia sobre relacionamento conjugal, um ouvinte pintou vários bodes num folha de papel. Ele os pintava de modo cada vez mais selvagem, com demasiada energia. Em certo momento, recua e olha seu último bode com uma expressão de satisfação no rosto. Agora, o bode parecia estar de acordo com sua intenção.

Quando lhe perguntei por que acabava de desenhar bodes com tanta dedicação, olhou-me espantado [como se eu estivesse lhe comunicando nesse momento que ele desenhou bodes]. E concordamos com o fato de que deveria se tratar de uma formação espontânea de símbolos. Mas um símbolo para que? Um símbolo para o orador? Para um participante da discussão? Um símbolo para a parte suprimida da conferencia? [na conferencia não se falou do âmbito sexual]. O bode pode ser um símbolo para esse homem nesse momento, ele próprio talvez se sinta um pouco como um bode. Ludicamente tentamos relacionar esse símbolo ao cotidiano. De repente, ele diz: “Agora me lembro: isso provém do fato de eu ter visto, hoje de manhã, ilustrações do lobo e as sete cabritas.” Olhei irritada para ele, eu vi um bode e não um lobo. Ele notou minha irritação: “Ah, realmente não pode ter vindo daí, afinal não é nenhum lobo”.

Quando olhamos mais de perto o conto de fadas do lobo e as sete cabritas, perguntamos categoricamente; por que a cabra não tem um bode, onde está o pai das sete cabritas? Ele é que poderia proteger os filhos. Transmiti essas reflexões ao desenhista, e ele me contou que, pela manhã, tivera uma discussão com sua mulher. Tratava-se dele, portanto, do pai tão freqüentemente ausente. Agora, tornava-se compreensível para o desenhista o seu símbolo ‘bode’.

Havia a probabilidade de que naquele momento ele descobrisse mais níveis de significação. Mas é muito comum sentir-se satisfeito quando um nível de significação faz sentido emocionalmente.

Símbolos mantêm sua importância por certo tempo; a vida se torna significativa em conexão com tais símbolos; em algum momento, eles passam para segundo plano, e outros tornam-se mais importantes. Quando as pessoas vivem com símbolos, a historia de vida pode ser reconstruída por meio deles, e fica claro que símbolos têm um tempo de origem, um de floração e um tempo de perecimento.

Símbolos surgem não apenas em longos processos terapêuticos, eles podem irromper espontaneamente a partir de situações de vida. A pergunta é apenas esta: nós os aguardamos e lhes dedicamos atenção?

A ATITUDE SIMBOLIZADORA_ Há símbolos que se nos impõem numa situação de vida, símbolos que percebemos como imagens a partir dos sonhos, fantasias que mal conseguimos repudiar, etc. Há também ‘uma atitude simbolizadora’ como atividade do eu, como mostra o seguinte exemplo:

‘Um homem dirige seu carro ao mesmo tempo fala com sua mulher sobre seus planos profissionais. Ele fala interessado e dirige o carro com bastante afinco. O trânsito se torna cada vez pior, ele fala e xinga, e em certo momento vem o grande engarrafamento, e diz:
- Agora ficamos encalhados. Mas que absurdo é esse, dirigir quando a gente sabe que vai ficar preso!
De repente ele fica pensativo e diz:
- Como não percebi que isso é um símbolo? Agora está tão claro para mim seu significado: profissionalmente, faço tudo como desenvolvi previamente, e no fim para num engarrafamento, fico preso, ficamos presos, pois não temos mais nenhuma liberdade de movimento. Impera um sentimento inteiramente miserável.

Para ele o engarrafamento possui o sentido de chamar a atenção para o fato de o plano formulado poder ter um aspecto perigoso.

Simbolizar significa descobrir o segredo oculto na situação concreta. Assim, o cotidiano concreto sempre teria um lado oculto, enigmático, e teria também a ver conosco. Essa maneira de ver vai bastante longe para muitas pessoas, principalmente quando se pensa: o símbolo seria bom para quê? O símbolo tem um aspecto que aponta para o futuro, mas em geral ele é muito enigmático para poder dizer linearmente a alguém o que é bom na situação atual.

Apesar disso, podemos questionar se toda a concretude não possui um significado oculto: o engarrafamento é um símbolo para a situação difícil que criamos para nós mesmos. A única questão é se não seria mais sensato ver situações coletivas como símbolos para problemas coletivos e, em tais circunstancias, conceber-nos inseridos com nossa temática de vida em situações coletivas e então buscar transformações. A pergunta sobre o significado oculto, enigmático é também uma pergunta sobre o sentido. A psicologia de Jung é continuamente julgada como ‘ávida de sentido’. A atitude simbolizadora é, de fato, parte essencial da terapia junguiana, ela está refletida no conceito teórico da interpretação no nível subjetivo e no objetivo, e no pensamento de que o externo é também interno e o que está no macrocosmo está no microcosmo. Mas a atitude simbolizadora é também uma atitude humana muito natural. Quando estamos, por exemplo, diante do mar, nós o percebemos primeiro com todos os sentidos à nossa disposição; talvez percebamos como nos sentimos nessa ocasião. Constatamos então que o mar não é apenas água, mas que transmite, por exemplo, a experiência da ‘infinidade’. O tema ‘eu e a infinidade’começa a nos ocupar, ou o tema ‘eu e o ritmo do eterno ir e vir’. Quando observamos o mar mais detidamente, outros aspectos de nossa psique tornam-se perceptíveis, e finalmente se pode dizer muita coisa sobre ele.

Nessa atitude simbolizadora, trata-se de um processo de projeção: projetamos nosso inconsciente sobre a realidade na superfície. No entanto, não podemos projetar um tema qualquer, mas apenas temas – no tocante ao símbolo – que tenham conexão interna com nossa existência. Simbolizar significa, por um lado, questionar a realidade superficial em vista de uma realidade oculta e, por outro, observar a realidade superficial no espelho dessa realidade oculta, desconhecida para nós.

O ENVOLVIMENTO COM O SÍMBOLO_ Para vivenciar os símbolos realmente como tais – e em última análise o que importa é a vivência -, devemos estar prontos para nos deixar tocar emocionalmente por eles.

Um exemplo: Um homem de 35 anos, durante sua terapia, diz: ”Tive um sonho com um menino de 7 anos, que chorava. Eu ficava impaciente, aquela criança devia parar de chorar”. Casualmente, ele me diz que esse sonho nada significa, pois a realidade é assim mesmo, as crianças sempre choram e ele não queria, por isso, ter filhos. Ele não é casado. E não quer saber mais nada a respeito desse sonho.

Já que o sonhador não tem, de inicio, nenhuma relação com o símbolo, é tarefa minha estabelecer a relação simbólica. Se ele tivesse filhos nessa idade, poderíamos perguntar se lida com eles de modo tão impaciente. Poderíamos pensar que há em sua vizinhança uma criança de 7 anos que sempre chora.

Para entrar em contato com o símbolo, deve-se primeiramente questionar o nível de vida concreto e depois ocupar-se com o que está no plano oculto, enigmático.

O que representa essa criança? Representa a própria infância e/ou a idéia de ser criança? Faço a ligação com a infância do analisando com a seguinte pergunta: “Que tipo de criança você era quando tinha aproximadamente 7 anos?”

Ele responde:

- Ah,veja bem, eu era um menino muito chorão, nem mesmo era um menino. Vamos deixar isso de lado.

Imagino esse menino e formulo:
- Posso pensar que você foi um menino rejeitado, para o qual as pessoas adorariam ter comprado um sorvete.

Ele:
- Então você gosta de meninos chorões?

Respondo:
- Eles despertam em mim a necessidade de consolá-los e de fazê-los sorrir.

Ele:
- Ah!

As perguntas e minha fantasia levam-no a sentir em si essa criança de 7 anos e que ela ainda existe nele.

Durante semanas, tentamos permanecer em contato com esse lado, o que é possível por meio de minha empatia com o menino de 7 anos que o analisando foi outrora. Assim entramos em contato com o símbolo.

Quando estabelecemos relação com um símbolo, tudo o que está ligado a ele torna-se repentinamente vivo. Com o símbolo ‘criança’ a lembrança torna-se viva; que tipo de criança eu era? Como foi minha infância? Como lido com meus próprios filhos? E logo desperta o sentimento de vida que se tinha na infância: o futuro ainda está à minha frente; espera apenas que eu cresça. Contudo, esse símbolo não se refere só a própria infância, é também um símbolo de abertura ao futuro, da vontade de vida, da constante renovação. Embora saibamos que somos adultos e estamos, por isso, comprometido com várias coisas, é o sentimento de vida do tornar-se novo que se aproxima de nós no símbolo criança; o sentimento do despertar e do perigo do despertar. Experienciar esse sentimento de vida é importante justamente para pessoas com a vida difícil.

Um símbolo com o qual nos envolvemos ativamente pode vivificar toda uma série de experiências psíquicas, mas isso ocorre apenas quando entramos em contato com ele emocionalmente. Se não for esse o caso, podemos discorrer sobre toda a mitologia, apresentar todo elemento da mitologia da ‘criança divina’: o efeito não será especialmente notável. No entanto, sabemos ao menos que tivemos um sonho muito significativo, o que às vezes tem um efeito; transmite-se o sentimento de que espontaneamente acontece algo significativo em nossa vida. Mas toda a eficácia contida no símbolo e a energia presa nele são liberadas apenas quando conseguimos nos envolver emocionalmente com ele.

Assim, quando um símbolo se torna significativo ou nosso envolvimento emocional com ele se torna possível, inicialmente toda uma multiplicidade de interpretações do símbolo irá nos ocupar.

Símbolos são categorias de condensação: uma gama de associações está atada a um símbolo; para nossa necessidade de clareza, um aborrecimento, para nossa necessidade d mistério e sentido, uma mina de ouro.

No símbolo também são expostas lembranças de âmbitos da vida que não gostaríamos de recordar, são vivificadas expectativas angustiantes, pois não-conciliáveis com a auto-imagem que formamos de nós mesmos. Por isso deve-se contar com mecanismos de defesa no envolvimento e no trabalho com símbolos.

Apesar das dificuldades, dos mecanismos de defesa, podemos admitir: se um símbolo é emocionalmente significativo para nós, prestamos atenção ao deparar com ele na literatura, em conversas, na arte., etc. Começamos a nos lembrar de coisas de nossa história de vida na perspectiva do símbolo vivificado; muitos fatos do passado são visíveis nele, e não só o passado pessoal, mas também o passado dos seres humanos tais como os conhecemos na mitologia, nos contos de fadas, na arte, na literatura. A expectativa também está ligada ao aparecimento dos símbolos, e até mesmo à esperança de uma abertura, de uma vida melhor.
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[Texto de Verena Kast_ Excerto do segundo capitulo do livro A Dinâmica dos Símbolos – Fundamentos da Psicoterapia Junguiana, publicado pelas Edições Loyola, tradução:Milton Camargo Mota].