sábado, 24 de abril de 2010

O PAPEL DA CULTURA HUMANISTA


Uma observação circunstancial da História Contemporânea revela-nos com bastante nitidez o perfil da Educação, notadamente a que se dispensa aos jovens, como uma profunda dissociação cultural.

As questões básicas de sobrevivência e de participação indispensável no complexo processo de evolução social perderam a característica de naturalidade e transformaram-se em duros desafios para as novas gerações, por força da incontrolável generalização de interesses, resultantes da expansão cientifica e tecnológica.

Nesse contexto, a Educação orientou-se para ‘fora’, preparando o caminho para múltiplas especializações.

Todas as formas de conhecimentos, insuficientes por si próprias para assegurarem aos jovens uma posição social economicamente orientada, foram progressivamente abandonadas.

A juventude, sentindo, ainda que de forma nebulosa, a perda de sua identidade, lançou-se numa busca quase desesperada de novos valores.

Essa reação desamparada de uma filosofia, que pudesse definir o verdadeiro sentido da liberdade, redundou, como é facilmente compreensível, em comportamentos distorcidos e, conseqüentemente, não logrou de imediato a compreensão da sociedade.

Instalou-se, dessa forma, uma crise de proporções imprevisíveis.

Em algum momento, entretanto, o senso comum foi mobilizado e surgiu aquilo que presentemente constitui opinião unânime daqueles que se ocupam com a tarefa da Educação: ‘a conscientização da necessidade de reformulação dos métodos e da qualidade do ensino’.

Toda a crise é fruto de extremismo. Afortunadamente, qualquer tipo de extremismo conduz o germe de sua própria regeneração.

A História é testemunha de que toda a crise de grande estrutura decorre do enfraquecimento do sentido de humanidade e da inversão de valores, que sustentam a sociedade humana. A restauração desses valores está em íntima relação com o desenvolvimento de uma cultura humanística.

A inversão cultural é um fenômeno sem fronteiras, que entretanto parece mais evidente no mundo ocidental. No ocidente o primeiro movimento humanista, que mudou o rumo de toda a civilização, caracterizado pela verdadeira descoberta do Homem, foi o Renascimento ou Renascença. A importância desse movimento cultural, que marcou o inicio da Idade Moderna, está longe de ser completamente avaliada.

Através dos canais das artes, do pensamento filosófico, das ciências e das letras, o Renascimento recriou o Homem,revestindo-o de interesses e aspirações temporais sem estimular o materialismo, mas objetivando libertá-lo da religião no que esta tinha de escravizante e punitivo.


A reação moderadora do Humanismo Renascentista e o seu indestrutível poder residual consagraram-no como um padrão, até o momento insuperável, restaurador dos mais profundos anseios da humanidade.

Podemos alimentar essa ‘convicção’ ao admirarmos as criações da arte e da literatura barroca, especialmente a estatuária e a escultura, nas quais as combinações salientes do corpo harmonizam-se com o toque de espiritualidade consentida dos anjos, que sustentam, simbolicamente, pilares e colunas das naves a altares de velhas igrejas.

Toda a ação moderadora de comportamento social está sujeita à lei do ritmo, o que a torna, em conseqüência, incapaz de conter indefinidamente o impulso de radicalização.

Contudo, o Humanismo refreou a ‘religiosidade’, mas aplainou o caminho para a eclosão do cientismo. A fé simplória foi envolvida pela ânsia de comprovação.

A ciência conquistou o estágio experimental e se tranqüilizou com a convicção de que havia encontrado o instrumento único para a revelação da verdade.

Esse posicionamento é uma dentre as muitas evidências de radicalização e está proporcionando o desabrochar de um Novo Humanismo, que reúne,além do material histórico do Renascimento, as conquistas da própria ciência.

Com a mesma intensidade que o extremismo cientifico a vinha oprimindo, a cultura humanística estava sendo revitalizado no seu embrião.

Na medida em que este cresce para o seu destino de restaurar a realidade antiga, mas sempre nova, dos valores humanos, delineia-se o início de uma nova época.

A cultura humanística que deverá reviver em sua plenitude não deverá desfazer-se de quaisquer modalidades de conhecimentos. Deverá com certeza, ordená-las dentro de um critério anti-radical, buscando extrair de cada uma delas o que concorrer essencialmente para a melhoria do individuo e da coletividade no sentido mais amplo.

A valorização do Homem, integralmente considerado, como objetivo da cultura humanística, é o ponto de partida para qualquer reforma.

Nesse passo, com a identificação das disciplinas que integram a cultura humanística, cabe a narração de alguns incidentes, que despertaram na consciência coletiva a necessidade de uma reformulação cultural com uma previsível repercussão na educação da juventude.

A reformulação deverá enfatizar o valor das disciplinas definidas como Humanidades, que deverão ser integradas na programação educativa dos jovens, tais como a Filosofia, a Literatura, a História, a Sociologia, a Biografia, a Musica e as Artes.

Algumas dessas disciplinas, notadamente a História e a Filosofia, são frutos amadurecidos da sabedoria, pois ligam-se ao conhecimento do passado. Esse conhecimento é o grande reservatório de experiências que coloca a mente do estudante predisposta à reflexão e estimula o auto-conhecimento.

Um fenômeno que exemplifica bem a perda de contato com o passado cultural é a massificação de informações. A massificação estimula a memória, mas atrofia a capacidade de reflexão e inibe a criatividade.

O rápido crescimento da Informática, ciência e tecnologia a serviço da massificação de informações, é a prova mais evidente da congestão a que vem sendo submetida a memória do Homem.

Os veículos de divulgação interferem sutilmente no convívio das pessoas e conquistam o tempo que deveria ser dedicado ao estudo sistematizado e à reflexão.

O volume indiscriminado de informações lembra os hormônios ativadores do crescimento vegetal, nutrientes artificiais, que aceleram o metabolismo, produzindo espécimes avantajados e belos, mas que não possuem em equilíbrio os elementos indispensáveis à nutrição do organismo animal.

Outro fato que com freqüência se observa é o da existência de pessoas bem preparadas tecnicamente, mas que são incompetentes ao extremo em conhecimento de linguagem falada ou escrita. Isso denota, evidentemente, uma deficiente preparação em Humanidades e uma cultura anômala.

Essa condição é ainda de alguma maneira pouco estimulante para o processo de interiorização do individuo, e os prejuízos que acarreta não podem ser medidos em termos econômicos, mas em crescimento pessoal.

Nessa linha de raciocínio é possível entender-se facilmente que a sabedoria decorre de uma vivência global só possível com a generalização sistematizada do conhecimento.

Nesse quadro, o Misticismo, que promove o encontro do Homem com o seu Deus Interior e a consecução dos mais sublimes objetivos da existência, tem o poder de harmonizar ciência e humanismo, influindo positivamente numa educação substancial da juventude, responsável por seu destino e participante indispensável no plano evolutivo do Cósmico.
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[Texto de Eduardo Teixeira]

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Espírito, Alma e Energias Vitais _ A Teoria Energética de Carl Gustav Jung.


Os místicos que conhecem a Teoria ontológica das Vibrações e o conceito de Nous sentirão um surpreendente acordo com as tentativas do Dr. Carl Gustav Jung de desenvolver um sistema unificado de ‘psicologia’ que correlacionasse a ciência da metafísica com os avanços da ciência material.

O mais importante conceito inicial de Jung foi a TEORIA DOS TIPOS; mas a tentativa de descobrir a relatividade de qualquer ponto de vista psicológico automaticamente provoca a necessidade da unidade como compensação, e foi isto que despertou o interesse de Jung pelo conceito chinês do ‘Tao’. Como foi que Jung agiu para explicar a diversidade na unidade? O que Jung fez pela psicologia foi chegar a uma teoria lógica e completa de ‘energia’. Jung via os impulsos instintivos do homem, como sexo, poder, fome, e assim por diante, como manifestações ‘qualitativas’ de uma energia psíquica ‘quantitativa’, assim como as manifestações variáveis da energia eletromagnética, comprimento de onda e freqüência são qualidades da energia física, que por si só foge a uma definição absoluta.

Jung achava que não só nossos ‘grandes’ sonhos, mas também nossas fantasias ou ‘visões’ especiais podem nos dirigir ao que ele chamou de ‘complexos sincronizados com sentimentos’ que, em linguagem mais simples, resultam de forças que se tornam ‘bloqueadas’ dentro de padrões perceptíveis ou imagens representativas simbólicas no subconsciente. Estes padrões subconscientes, quando percebidos e interpretados pela nossa consciência subjetiva, por assim dizer, parecem ser uma compensação para nosso estado de percepção, quando em vigília.

SÍMBOLOS
Esses símbolos especiais do subconsciente surgem espontaneamente quando conseguimos diminuir a intensidade dos cinco sentidos objetivos e dos processos de pensamento, como ocorre, por exemplo, no estado de meditação. Em outras palavras, não podemos ‘forçar’ esses símbolos ‘numinosos’ [sagrados ou inspiradores de reverencia] a se manifestarem. Em vez disso, eles começam aparecendo automaticamente no espelho temporariamente vazio de nossa mente subjetiva. Estas imagens também são freqüentemente experimentadas por nós como astromitológicas ou alquímicas em natureza. Além disso, um contato ‘direto’ com qualquer um desses símbolos numinosos, inspiradores de reverência, produz efeitos emocionais automáticos em nós.

Necessitamos de linhas diretivas firmes que nos ajudem a manter nosso controle objetivo. Esse autocontrole é necessário para desfrutarmos de uma participação harmoniosa nos processos cósmicos de transformação interior gradual. Sabemos que as escolas místicas tradicionais têm essas diretrizes, mas como é que Jung agiu para provê-las?

O Dr. Jung descobriu que o subconsciente é ‘submetido a mudanças e produz mudanças’. Só depois de familiarizar-se com a alquimia ele compreendeu plenamente que o subconsciente ‘é um processo’, e que a ‘psique’[reino subjetivo] é mais prontamente transformada ou desenvolvida pelo relacionamento harmonioso entre a objetividade de nosso ser ‘exterior’ e o ser subconsciente ‘interior’. Na vida coletiva da humanidade, este processo deixou sua marca, principalmente nas diversas mitologias e sistemas religiosos com seus símbolos mutáveis. Através de um estudo desses processos coletivos de transformação, e pela análise do simbolismo alquímico, Jung chegou ao conceito central da sua psicologia: ‘o processo da individuação’, conhecido pelos místicos como ‘autodominio’.

Mas que é que leva as forças arquetípicas da energia do subconsciente a se formarem nesses padrões de símbolos ou imagens perceptíveis? Se há uma energia criativa primal, como podemos conhecer ou suspeitar de sua existência?

Agora podemos presumir, com segurança, que os fenômenos sincronísticos dos experimentos de PES* de Rhine são um fato estabelecido. Mas também estamos numa posição de TEORIZAR logicamente que além das ligações verificáveis entre causa e efeito, psíquicas e físicas, existe um fator inexplicável e sempre inesperado, na natureza, que se expressa no ‘significado’ que se encontra além da coincidência ou equivalência de um estado psíquico ou ocorrência sem relação causal entre si. Jung deu a esta ‘coincidência’ o nome de ‘SINCRONICIDADE’.

Como ilustração, suponhamos que eu tenha um sonho extraordinário sobre um escaravelho egípcio de ouro. Ao contar este sonho espantoso a um amigo, um escaravelho dourado, voando pela janela, entra no quarto onde estávamos sentados. Imagine o efeito ‘eletrizante’ que sentimos quando ocorre uma dessas estranhas coincidências de sonho e realidade!

É óbvio que não podemos explicar esta coincidência através da tríade usual da ‘Física’, ou seja, ‘espaço, tempo e causalidade’. Também é óbvio para o sujeito que o escaravelho visto no sonho tinha um equivalente físico. Mas a coincidência psíquica por si só não explica [nem tampouco a lei da física] o que realmente seja a ‘SINCRONICIDADE’ ou coincidência que causou a ‘equivalência’. Assim como duas pessoas que vêem o mesmo acidente tenderão a interpretar o que viram de um modo individual, todos nós igualmente experimentamos a ‘sincronicidade’ ou o significado do fenômeno sincronístico de um modo diferente.

EXPERIÊNCIA INDIVIDUAL
De todas as TEORIAS de Jung até a presente data, somente aquelas que se referem aos ‘tipos’ e certos fenômenos sincronísticos, como os de PES, parecem se prestar a qualquer possibilidade de confirmação cientifica. Mas mesmo levando em conta a apresentação magnificante concisa de Jung, sua TEORIA DA ALMA-ARQUÉTIPO ainda permanece nos domínios da metáfora e da filosofia pessoal que parece ser experimentada de forma diferente por cada indivíduo. A idéia de Jung de que a energia psíquica poderia ser ‘qualitativamente’ diferente, e assim mesmo igual em importância à energia física que forma os átomos, apesar de já ser conhecida por certas escolas de mistério, ainda é uma idéia comparativamente nova na moderna medicina conservadora. Até o momento, muitos médicos consideram nosso temperamento psicológico e os fenômenos psíquicos como quase exclusivamente dependentes dos delicados hormônios do corpo.

Alguns poucos ‘Jungianos de terceira geração’ apontam o fato de que Jung e seus seguidores mais próximos tentaram ‘assentar’ o conceito arquétipo da alma por demais firmemente em ‘esquemas científicos’ ou diagramas que na verdade desafiam a confirmação. Mas os mais modernos metafísicos e psicólogos igualmente elaboraram sua maior compreensão do processo subconsciente com base em premissas semelhantes encontradas nos ensinamentos das antigas escolas de mistérios e no trabalho de pioneiros empíricos mais recentes, como Jung.

Todos os pioneiros, inclusive místicos e médicos psicólogos, devem se opor radicalmente contra um ponto de vista consagrado. Jung não foi exceção. Ele esperou ansiosamente pelo dia em que outros não só fossem capazes de provar suas TEORIAS mas também estabelecer um ponto de vista mais ‘holístico’, que viesse a sanar a antiga brecha entre as ciências da metafísica e do materialismo.

Foi preciso um auto-sacrifício e uma grande experiência pessoal da ‘qualidade vital da alma’ para alguém tão famoso como o Dr. Jung admitir que aquilo que ele pensava ser suas próprias idéias empiricamente desenvolvidas tinha, afinal de contas, sido descoberto por aqueles que vieram antes dele!

Um interessante casão ilustrativo é o conceito arquétipo de Jung de ‘anima e animus’ que são as personificações da natureza feminina do subconsciente do homem e da natureza masculina no subconsciente da mulher. Numa carta em resposta a um colega que lhe perguntara se ele tinha ‘tomado emprestado’ suas imagens da alma-arquétipo da novela de ‘Laurence Sterne’, Tristam Shandy, Jung observou com humor e humildade:”...nos últimos cinco anos, isto se tornou cada vez mais assombroso, porque descobri traços muito suspeitos da mesma idéia também entre os antigos alquimistas, e agora a confusão parece estar completa pois eu tinha sido descoberto já no século dezoito. Só posso concluir que Laurence Sterne recorreu aos ensinamentos secretos – presumivelmente Rosacruzes – de seu tempo. Eles contêm o Real Segredo do Rei e da Rainha, que não eram outros senão o ‘animus e anima’, ou Deus e Dea [deusa].

O TAO
O antigo conceito Hermético das ‘correspondências’ também intrigou o Dr. Jung e ele foi grandemente influenciado, segundo declarações suas, pelos escritos de Paracelso, o médico medieval que também tinha a reputação de ser místico. A qualidade vital que os alquimistas viam, não só no homem mas também na natureza inorgânica, é uma expressão do espírito da vida, o antropo [‘anthropos’] que anima todo o cosmos, assim como o divino arquiteto que ‘pensa’ o universo, trazendo-o ao estado de ser, existir. Há realidades duais ou complementares que são parte da estrutura energética do mundo físico e psíquico; uma não pode existir sem a outra, e vice-versa. Podemos ver que tanto o YIN como o YANG contêm a semente do oposto, mas é o ‘significado’ que estabelece um símbolo de totalidade como o todo-abrangente Tão ou Nous.

Porque usava símbolos universais, Jung ‘falou’ em mil idiomas. Seu espírito havia se tornado humilde, um espírito que admirava as maravilhosas e surpreendentes atividades de uma natureza terrível e ao mesmo tempo bela, e embora ele formulasse muitas teorias, foi incapaz de chegar a quaisquer conclusões duradouras que não fossem paradoxais. Ele chegou ao fim de sua vida exatamente como a começa, cheio de reverência e deslumbramento.

Embora em sua idade avançada Jung tivesse concordado com a declaração de Lao-Tzu:”Tudo está claro, só eu estou nublado”, mas incerto Jung se sentia a respeito de si mesmo, e mais crescia dentro dele um sentimento de harmonia com todas as coisas, como plantas, animais, nuvens, o dia e a noite, e o eterno no homem. Ele viera a concordar com um místico desconhecido, que ‘Gradualmente a vida que você está vivendo revela a Vida que está vivendo você’.
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[Texto de June Schaa]

Notas* J.B.Rhine, psicólogo americano, muito conhecido por suas investigações clinicamente controladas sobre parapsicologia e fenômenos de percepção extra-sensorial.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Veio Áureo da Civilização


Haverá, em toda cultura e civilização, algum fator ascendente que se perpetue a si mesmo? E estará esse fator presente mesmo quando uma cultura encontra-se em declínio?

No que se refere à influencia de seus indivíduos, nenhum grande Estado ou civilização já foi absolutamente retrógrado. Em termo de alcance coletivo, o sr humano adquiriu uma inata autodisciplina.

Se tivéssemos de enquadrar a natureza humana em duas classificações genéricas e arbitrárias, poderíamos dizer que são elas a ‘sensual’ e a ‘emocional’ e, além disso, que o intelecto exerce variada influencia em ambas. O aspecto sensual da natureza humana consiste na gratificação instintiva dos apetites e de outros desejos com eles relacionados. Embora todos esses impulsos sensuais sejam comuns a todos os homens, sua intensidade varia conforme o organismo. A compulsão de uns, em comparação com a outros, resulta em excesso.

Quanto à outra classificação da natureza humana, a ‘emocional’, consiste em impulsos variados. Os mais comuns são amor, ódio, medo, raiva, admiração, tristeza e alegria, que impelem a uma forma específica de comportamento. A predominância de alguma das emoções pode resultar de várias causas: desordens nervosas, tensões, influências ambientais.

O ‘amor’ é o desejo daquilo que ‘agrada’. Mas existe uma ‘gradação’ de coisas que agradam. Alguns amores estão relacionados exclusivamente com o aspecto ‘sensual’, a satisfaça dos apetites sensuais. Basicamente, são apetites biologicamente essenciais, mas de uma ordem inferior a certos outros amores que o homem vivencia. Os amores ‘superiores’ podem ser categorizados como impulsos estéticos, impulsos morais e impulsos de indagação.

Esses ‘amores’ são considerados ‘superiores’ porque seus resultados são mais abrangentes; são, em outras palavras, menos egocêntricos e abrangem mais os outros, ainda que não tenham essa intenção. Ao amor estético, atribuímos as artes, como a musica, a pintura e a escultura. O amor estético envolve uma consciência da harmonia e ritmo da natureza. Faz com que o indivíduo experimente maior afinidade com a vida; em termos simples, o ‘amor estético’ abrange a realidade mais plenamente que os ‘amores inferiores’.

OS IDEAIS
Outro dos amores superiores é o moral. De nosso ponto de vista, não restringimos o significado de moralidade aos ditames ou dogmas explícitos de um credo religioso. Por ‘moral’, referimo-nos antes ao senso imanente de retidão inerente ao homem. Essa retidão está contida nas profundezas do ‘eu psíquico’, o ‘subconsciente’. Embora esses impulsos morais, ou CONSCIÊNCIA, não sejam universais em sua expressão ou interpretação, todos os seres humanos percebem-nos.

Todo ser humano tem consciência de dois valores fundamentais de seu comportamento: “o certo e o errado”. A conquista dos impulsos morais indica subjugar os amores inferiores – os desejos sensuais. Os desejos sensuais possuem um valor essencial, mas não a despeito dos amores ‘superiores’. A pessoa verdadeiramente moral interpreta seu senso de certo em termos de sua relação comportamental com os outros indivíduos; sucintamente: “Não faça aos outros o que você não quer que façam a você”.

INDAGAÇÃO
A indagação é outra das ordens superiores do amor. Está relacionada com o instinto de ‘curiosidade’. É o amor pela investigação, a excitação de rasgar o véu do desconhecido. A indagação leva o intelecto a conhecer, compreender e a identificar. Esse é o amor expresso pelos ‘místicos, filósofos e cientistas’.

O amor à indagação não serve ao eu pessoal apenas. Como geralmente se expressa em ‘criatividade’, seus produtos encerram eventualmente um valor para os outros componentes da sociedade. Por exemplo: um escritor não escreve um livro exclusivamente para si mesmo, nem um engenheiro eletrônico inventa um aparelho que não se aplique às necessidades dos outros. E o esclarecimento ou iluminação dos místicos e filósofos contribuiu para o acúmulo de conhecimento humano. Haverá algum amor maior e de ordem mais elevada à humanidade que aquele que rompe as correntes da superstição e o medo que escravizam a humanidade?


A natureza inferior do homem, o aspecto sensual e seus desejos, está voltada essencialmente ao indivíduo. Tais ações e suas conseqüências são benéficas somente para o indivíduo e para os que com ele se relacionam estreitamente, como os integrantes de sua família. As conseqüências de tais ações contribuem muito pouco no sentido de inspirar os outros a transcenderem seu modo de vida.

O ódio, a cobiça, a concupiscência – e as cinzas de uma cultura outrora grande por eles produzidas – podem despertar a tristeza naquele que os observa, ou levá-lo a se revoltar contra os homens do passado que deixaram sua vida ser aprisionada num escalão inferior do EU.

A ASCENSÃO DA CIVILIZAÇÃO
Observar a devastação de uma cultura passada não suscita na imaginação a cena de um futuro repleto de aprimoramentos, especialmente se se enxerga tais ruínas em sua totalidade. Mas os observadores que possuem a sensibilidade suscitados pelos amores superiores podem detectar nas ruínas de uma grande civilização [simples talvez, e inconspícua para alguns]: aquilo que se percebe como ‘símbolo’ dos dramas e aspirações dos homens do passados que eram motivados pelos amores da estética, moralidade e indagação.

O brilho desse veio áureo, pelo qual o homem e sua sociedade lentamente ascenderam, jamais foi completamente diminuído, pois está sempre preservado na sensibilidade dos amores superiores dos novos homens. As culturas podem surgir e desaparecer, ou parecer estagnar como na chamada ‘Era do Obscurantismo’. Mas sempre haverá indivíduos que possuem dentro de si um filamento do veio áureo. Esses indivíduos têm em mira uma ascensão maior da humanidade. Têm o amor, o desejo exacerbado e a capacidade de manifestar essa ascensão.

Assim, como a fênix, uma cultura mais esclarecida nasce das cinzas do passado. O acelerado avanço da sociedade em termos humanitários, isto é, da disciplina do EU, dependerá de que aspecto da vida o homem enfatize mais: o sensual ou os impulsos refinados do seu ‘eu psíquico’.

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[Texto do Imperator]

Que é a Personalidade


Quando fazemos um estudo da personalidade, descobrimos muitos fatos interessantes que normalmente não são percebidos ou que são mal entendidos. Hoje em dia é comum o costume de dar nome a uma criança, nome esse que a criança portará durante toda sua vida, exceto se o mesmo for mudado pelo casamento ou se for mudado voluntariamente por permissão legal. A história deste costume mostra que já no alvorecer da civilização os homens procuravam distinguir a sua personalidade e a personalidade de suas relações por certos sons destinados a identificá-los.

A principio esses nomes consistiam de uma ou duas sílabas, e durante muitos séculos cada pessoa geralmente possuía um único nome, isto é, um prenome. Finalmente, devido à multiplicidade de tais prenomes e às muitas semelhanças, acrescentaram-se aos prenomes certos adjetivos de modo que se pudesse distingui-los.No começo esses adjetivos denotavam a aparência da pessoa, sua procedência, sua casa, seu castelo, sua ocupação e, finalmente adotou-se o nome da família ou do clã. Assim, a principio, muitos nomes de família eram nomes de castelos, propriedades, províncias, ou ocupações do patriarca ou do chefe da família.

Contudo, nossos nomes, que cumprem a finalidade de nos distinguir dos outros, não distinguem nossa personalidade mas, sim, nossa individualidade. O que nos distingue de modo mais claro, mais definido, e certamente de modo mais satisfatório, é o retrato de nossa própria personalidade.

Para ilustrar o que estou pretendendo dizer, conto aqui um incidente. Uma grande organização social de nossa cidade precisava selecionar dentre suas afiliadas um comitê de quinze mulheres para comparecer a um importante evento cívico como representante das mulheres da região central do Estado. Eu estava presente no momento em que as duas monitoras responsáveis estavam selecionando as integrante do comitê. Quando começaram a seleção, notei que elas levavam em muita conta certas características proeminentes da personalidade dos indivíduos.


A Sra. Smith não fora escolhida porque se chamava Sra Smith, ou porque este nome a distinguia das outras, mas por causa de algum traço encantador, agradável ou marcante de sua personalidade, ou devido, a algum talento intelectual que ela desenvolvera e manifestara de modo eficiente e em ações úteis. Em outras palavras, as monitoras estavam selecionando quinze ‘personalidades’ e não quinze indivíduos ou quinze nomes.

Isto tornou-se evidente quando uma das monitoras sugeria a escolha de alguma senhora cujo nome desconhecida: “Há aquela senhora, aquela que sempre sorri quando cumprimenta as outras; que é conservadora no vestir; que nunca faz criticas mas tem sempre uma sugestão construtiva a oferecer. É aquela que sempre chega cedo às reuniões perguntando se pode ajudar em alguma coisa”.

Como vemos, elas não descreveram sua aparência física muito definidamente, nem descreveram a aparência do seu marido, sua posição social, a casa em que ela morava, sua idade, nem quaisquer outros pontos que a distinguissem a não ser alguns que de forma limitada tivessem algo a ver com sua personalidade. Foi a sua ‘personalidade’ que causou impressão nas duas monitoras, e não o fato de que ela era esposa de um dos maiores banqueiros da cidade, ou que ela tinha uma casa magnífica, que era muito rica, que tinha viajado algumas vezes à Europa, ou que tinha três filhos muito conhecidos no mundo dos negócios.

Nos contatos com executivos bem sucedidos de grandes corporações e instituições, tenho notado que, ao selecionarem empregados ou associados para posições importantes, levam eles em consideração, acima de tudo, a personalidade daqueles a serem escolhidos. Todo executivo importante dirá que ele está mais familiarizado com as ‘personalidades’ do que com os nomes dos funcionários de sua organização. Facilmente admitirão que há muitas pessoas com as quais ocasionalmente entram em contato e cujos nomes jamais souberam, mas que ficaram gravadas quase inconscientemente em sua mente devido a alguma característica marcante de sua personalidade.

Às vezes tais características são negativas , por este motivo, a pessoa fica registrada em sua mente de modo desfavorável, sendo talvez a primeira a ser demitida se qualquer redução no número de funcionários se fizer necessária. Por outro lado, outras pessoas serão promovidas, e receberão oportunidades de utilizarem suas capacidades devido a pontos marcantes favoráveis de sua personalidade.

Nossa personalidade é algo que nós construímos e criamos, mais do que podemos imaginar. É verdade que herdamos alguns traços de nossos antepassados, mas mesmo estes podem ser modificados, como de fato o são, por traços que adotamos voluntariamente. Não quero, porém, deixar de mencionar o fato de que a saúde exerce alguma influencia sobre nossa personalidade. Uma pessoa cuja saúde esteja abaixo do normal, e que esteja sofrendo a algum grau, ou que tenha sua condição de harmonia perturbada por alguma forma de doença, cedo ou tarde terá refletido em sua personalidade o estado de espírito interior. É fato sabido que uma pessoa de saúde fraca nem sempre pode manifestar de modo natural uma personalidade agradável, ou mesmo a verdadeira personalidade que manifesta se tivesse saúde normal.

Sob certas condições, sempre é possível nos vestirmos com o manto de uma personalidade fictícia, mas esta apresentação hipócrita de nós mesmos não enganará ninguém por muito tempo. Um manto pode encobrir nossa verdadeira personalidade, ocasionalmente, por algumas horas, entre estranhos, mas há uma razão por que um manto assim, se usado por muito tempo, malogra sua finalidade; quem o está usando deve mantê-lo constantemente novo e atuante. Por isso o indivíduo está permanentemente pouco à vontade, não é natural, e logo cria na mente das pessoas a impressão de que ele ou ela está sempre ‘representando’. O charme, o poder e o bem de nossa personalidade devem ser revelados a outrem de modo o mais natural possível para que ela conquiste seu lugar ao sol.

Se compreendemos que nossa aparência física e nossa individualidade mudam ano após ano devido ao amadurecimento, à experiência e aos testes e tribulações da vida, devemos igualmente compreender que a personalidade também está constantemente mudando, e que cada experiência da vida, cada tribulação, sofrimento, cada teste de nossas capacidades e poderes contribuem muito e mais definitivamente para a modelação de nossa personalidade que o fazem para com a aparência física de nosso corpo. A pessoa que teve uma vida longa, com o passar dos anos tornou-se mais velha, ganhou mais rugas e tornou-se mais curvada, mas também adquiriu uma personalidade mais amadurecida.

Felizmente, para o gênero humano e o avanço da civilização, bem como para o desabrochar de nossa evolução, as tribulações da vida, século após século, modificaram construtivamente a personalidade do comum dos indivíduos.

Os cientistas nos lembram que, na evolução da espécie humana através das idades, o homem tornou-se mais ereto, suavizou sua aparência física e adquiriu movimentos mais graciosos. Ele perdeu uma série de características físicas que se tornaram desnecessárias e que tornavam sua aparência primitiva e embrutecida. Contudo estes grandes aperfeiçoamentos em nossa aparência são muito menos importantes para o progresso da civilização do que os aperfeiçoamentos ocorridos na personalidade do homem.

Como dissemos, o homem é o criador de sua personalidade, e pode torná-la praticamente o que ele queira. Assim mesmo, porém, não podemos nos esquecer do fato de que as experiências da vida acrescentam à personalidade do individuo, às vezes involuntária e inconscientemente, certos traços de caráter. Mas estes aperfeiçoamentos involuntários não se comparam aos traços de caráter que o homem desenvolve consciente e deliberadamente.

Um dos traços mais marcantes da personalidade humana talvez seja a tendência de sorrir alegremente. Tem-se que o homem é o único membro vivo do reino animal que pode sorrir e através disto revelar alegria e felicidade. O homem desenvolveu ao máximo esta sua capacidade, tanto deliberada quanto inconscientemente. Os seres humanos que parecem não ter capacidade de sorrir, e nenhuma facilidade de exprimir alegria ou a felicidade que possa haver em seu coração, certamente constituem uma minoria.

Esta é uma característica da personalidade que, quando deliberadamente desenvolvida, torna-se um traço marcante e visível. Logo descobrimos que gostamos da companhia das pessoas que sorriem fácil e sinceramente. Elas ajudam a contribuir para a nossa felicidade e experiências agradáveis do dia, fazendo-nos sentir que são felizes interiormente, que encontraram a verdadeira chave para alguma felicidade.

Há pessoas que, conscientemente ou não, procuram o lado sórdido e infeliz da vida. Tais pessoas são mentalmente desequilibradas, mentalmente deficientes, ou carecem de desenvolvimento psíquico. Mesmo entre pessoas de índole criminosa, cuja tendência é ligarem-se ao deplorável, destrutivo, infeliz ou anormal, há certo grau de desequilíbrio mental e psíquico, não sendo, portanto, seres humanos normais. Mesmo quando psicanalistas afirmam que algumas dessas pessoas deliberadamente se ligam ao lado sórdido e infeliz da vida, nos casos em que isto não se deva a algum impulso incontrolável de seu interior, devemos admitir que tais pessoas são mentalmente anormais ou deficientes e que, por isso, sua deliberação neste particular não é sinal de forte mentalidade mas, sim, sinal de uma condição que deveria despertar em nós compaixão e piedade. Por este motivo, a maioria dos criminosos e daqueles que sentem satisfação em pertencer ao submundo deveriam ser encarados como pessoas que necessitam de tratamento psiquiátrico ao invés de punição desumana.

Quando apresentamos nossa personalidade a nossos amigos e conhecidos, apresentando um retrato de nossa verdadeira personalidade interior. Nas horas de trabalho, quando estamos exercendo alguma função importante e sentimos que devemos usar um manto de dignidade e autoridade para exigir o respeito dos subordinados, podemos vestir esse manto e assumir uma postura artificial que não corresponde à nossa verdadeira personalidade.

Mas nos momentos de lazer, nos contatos em que não estejamos conscientes do fato, nossa verdadeira personalidade encoberta revelar-se-á. Produzirá impressão mais compreensível e duradoura que a que possamos ter assumido. Subordinados de certos executivos francamente admitirão que relevam o rigor de suas atitudes porque notam que em momentos de descontração e sob o manto exterior há uma personalidade gentil, justa e feliz. Entretanto, da mesma forma, um manto artificial de bondade, sinceridade e justiça também é logo detectado devido à sua falsidade.

Não há nada que mais tenda a desenvolver uma personalidade agradável [que de modo muito sutil e misterioso causa boa impressão e inspira confiança nas pessoas com quem entramos em contato] que a adoção de uma atitude tolerante em todas as questões que envolvam distinções de personalidade. Em outras palavras, se adotamos um ponto de vista humano e universal com relação à distinção dos indivíduos e suas experiências da vida, tornamo-nos personalidades amáveis e gentis. Se, e enquanto, acharmos que algum povo raça ou nação, é melhor ou pior que outro, ou enquanto estivermos convencido de que pessoas de certa cor ou classe social são inferiores, tenderemos a manter certas características indesejáveis em nossa personalidade. Cedo ou tarde essas características negativas manifestar-se-ão de modo desfavorável para nós.

A inexistência de qualquer forma de sentimento religioso em nosso ser é uma característica negativa da personalidade, e que certamente se refletirá de modo desfavorável. A pessoa que não ama a Deus, ou um Ser Supremo que de alguma forma representa a onipotência do universo, está carecendo d um dos primeiros componentes de uma personalidade agradável. A pessoa incapaz de amar os seres humanos como seus semelhantes, livre de quaisquer distinções que menosprezem alguns, carece de outro componente importante que constitui a personalidade agradável. A pessoa que não possa sentir verdadeira alegria na vida e pela própria vida, está carecendo de um componente verdadeiramente essencial.

A pessoa que não pode ver que no mundo existe muito mais bem do que mal, muito mais alegria, felicidade, beleza e coisas que correspondem ao mundo ideal, está condenada a ter uma personalidade extremamente desagradável. A pessoa que sempre está disposta a ouvir comentários depreciativos e observações criticas sobre outrem, e que se interessa por isto, está fadada a ter obscurecida a sua personalidade, e certamente deixará que outros percebam essa nuvem sombria que a envolve.

Vemos assim que nossa personalidade é algo que podemos regular e controlar. Deve ser algo que é composto de um código de vida que podemos adotar a principio e desenvolver e torná-lo parte integrante de nós mesmos. Devemos nos interessar pelo desenvolvimento dessa personalidade na mesma medida que nos interessamos pelo desenvolvimento do cérebro, da mente e suas faculdades.

Esta instrução deveria começar cedo na vida. Gradualmente, à medida que ensinamos a criança a falar e a andar, a ler e a compreender, deveríamos também ensinar-lhe os fundamentos de uma personalidade agradável e feliz. Ao mesmo tempo que ela aprende a lavar o rosto e as mãos, a remover a sujeira que esconde suas feições reais, deveria também ser ensinada a remover de sua consciência tudo aquilo que encobre o verdadeiro encanto de sua personalidade. Um exemplo deveria sr estabelecido pelo desenvolvimento das personalidades dos pais, e as coisas que lemos ou de que nos permitimos participar são fatores que muito contribuem, e dos quais geralmente não temos consciência.

O homem ou a mulher que com relativa freqüência lê apenas os jornais ou periódicos que tratam das divergências entre capital e trabalho, dos diversos fatores conflitantes das condições econômicas e sociais, e os ataques recíprocos dos diversos partidos políticos, pode ter certeza de que desenvolverá uma personalidade excessivamente critica e tendente ao conflito. Por outro lado, aqueles que lêem literatura e especialmente jornais que apresentam o lado melhor e mais refinado da vida, que deixam de lado como coisas insignificantes as coisas sórdidas e infelizes, desenvolverão uma tendência para se harmonizarem com o lado feliz do mundo.

Certos jornais se deliciam em enfatizar excessivamente coisas sórdidas como se estas constituíssem as noticias mais importantes. Há outras publicações, porém, que enfatizam as coisas boas e belas da vida diária.

Não é possível, por exemplo, que alguém leia cuidadosamente um livro de astronomia sem convencer-se de que há no universo leis maravilhosas que constantemente agem para o bem do homem. Ao olharmos para o céu à noite, podemos sentir novo júbilo ao notar a disposição das estrelas, descobrindo coisas que antes não havíamos enxergado. Lendo semelhante livro, que nos torna familiarizados com outra parte do universo, descobrimos um novo campo de contemplação que nos traz prazer e felicidade. Aqueles que só lêem livros que tratam de crimes, guerras, ou contendas econômicas de nossos sistemas terrenos, tenderão a olhar para tudo com uma atitude algo crítica e cínica. Estas coisas afetam nossa personalidade, do mesmo modo que o fazem nossos pensamentos secretos e nossas convicções pessoais, que são sutilmente criados e moldados pelo que lemos e ouvimos, observamos e compreendemos.

A criação da personalidade é infindável e eterna, do nascimento à transição, e além; a personalidade é imortal. Conforme a modelemos e criemos hoje e amanhã, agirá, re agirá e se expressará no eterno futuro. A personalidade é a real parte de nós que sobrevive à nossa existência terrena e se torna nossa herança espiritual no reino de Deus.
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[Texto de Spencer Lewis]

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Humanidade e o Binômio Energia – Informação


Durante milênios o Universo, no conceito humano, era constituído de matéria e energia, sobre as quais operavam as leis naturais e espirituais.

As leis nada mais são que uma ordenação do curso dos fenômenos ou acontecimentos após a ocorrência de uma ou mais causas. Estas leis são produzidas pela Mente Cósmica, que faz uso de seu conhecimento ou informação.

Portanto, durante muito tempo o conceito de Universo estava fundamentado nas definições de espaço, tempo, matéria e energia. Estes conceitos passaram por muitas metamorfoses ao longo da história do pensamento humano e os diversos sistemas filosóficos lhe legaram significados distintos.

As conseqüências a que a Física Atômica e a Teoria da Relatividade deram lugar alteraram em muito a visão do Mundo.

A Teoria da Relatividade alterou os conceitos de espaço e tempo, os quais passaram a ser variáveis e a constituírem o chamado “continuum espaço-tempo”.

A Física Atômica alterou o conceito de matéria e sua relação com a energia.

Quando Albert Einstein enunciou que matéria e energia guardavam uma relação de equivalência, o Universo ficou reduzido à energia onde atua a informação, a lei, sob ação de ato volitivo.

A humanidade, no início, fazia uso de sua própria energia, e com a pouca informação existente em seu cérebro, sobrevivia. Aos poucos conheceu e dominou fontes externas de energia e desvendou processos de coleta, processamento e armazenamento de informação para uso posterior.

Cada nova etapa alcançada representou um estágio da sociedade, m que foram profundas as transformações de todas as atividades humanas; assim foi a passagem da Sociedade Agrícola para a Industrial.

Hodiernamente vivemos o limiar de uma nova era, decorrente da maior capacidade de processar a informação e de armazená-la em menores volumes e com decrescente dispêndio de energia. As máquinas, simples transformadores de energia, tornaram-se mais potentes com a possibilidade de processar informação.

1_A LONGA CAMINHADA
O homem atravessou as glaciações à custa do controle do fogo, uma das mais antigas fontes de energia sob controle e uso humano. E foi o uso do fogo que tornou possível penetrar profundamente na estrutura da matéria.


A roda, que era conhecida antes de 3.000 a.C., tornou-se o pivô de inúmeras invenções, aumentando o rendimento do trabalho humano, pois o desperdício de energia por atrito foi reduzido ao mínimo.

Durante milênios o homem usou a sua própria energia muscular, a dos animais, a dos ventos, a dos rios e a da queima de lenha.

Até então a vida do homem dependia de quatro elementos: o fogo, o ar, a água e a terra; estes lhe proporcionavam a energia e os alimentos necessários à sua sobrevivência.

Até 1760, a lenha foi, virtualmente, o principal combustível utilizado pelo homem. Foi a queima do carvão que forneceu energia para a Revolução Industrial. A força existente na expansão do vapor d’água, na máquina inventada por James Watt, em 1864, passa a substituir, com vantagem, os músculos humanos e animais.

Esta revolução faz aflorar uma questão:

Há muito as fontes de energia eram buscadas na natureza: Sol, vento, água e carvão.

Por que razão todas elas realizavam a mesma coisa?

Que relação existe entre elas?


Suspeita o homem da existência de unidade na natureza, não através da fé, e sim por intermédio da observação de fatos concretos.

A humanidade começa a descobrir que é possível transformar elementos naturais para, desta forma, obter energia.

No final do século XIX desenvolveram-se os motores de combustão interna.

M 1800, Volta descobre a pilha elétrica. A partir de então um armazenador de energia produzido pelo homem passa a existir.

Em 1859, na Pensilvânia, Edwin Drake obtêm sucesso na perfuração de um poço de petróleo. A simplicidade de extração, de transporte, de armazenamento e de uso nos motores de combustão interna foram os grandes responsáveis pela implantação e disseminação da Revolução Industrial.

Podia o homem agora carregar consigo grandes quantidades de energia, não mais ficando ao sabor dos ventos para inflar as velas de suas naus, e podia viajar grandes distâncias, interior a dentro, antes só alcançáveis a pé ou no lombo de animais.

O homem, enquanto nômade, não podia ter muitos pertences. Ao deixar a vida errante, cria condições propícias ao armazenamento de informações.

Durante séculos a tradição foi transmitida via oral, e muitas são as deficiências desta forma de comunicação. Com a invenção da escrita alfabética, por volta de 1.300 a.C., o homem passa a poder ler e escrever. Foram os escribas os veículos de uma grande revolução – é agora possível transmitir, de geração a geração, de forma mais precisa, maior volume de conhecimentos.

Para nós,ocidentais, por volta de 1450, têm início outra grande modificação. Johann Gutemberg inventa a impressão sobre papel, com tipo móveis. A escrita pode agora ser impressa seriadamente, e a transmissão do conhecimento, conjunto de informações, às gerações futuras, se avoluma. Foi a imprensa que espalhou as idéias revolucionárias francesas, que derrubou reis e mudou sistemas políticos, sociais e econômicos. E a máquina a vapor, novo patamar do domínio tecnológico sobre o manuseio da energia, embasou esta nova sociedade, nomeada industrial.

As bibliotecas, depósitos organizados do conhecimento, ao surgirem, facilitaram a acumulação de informação e permitiram a consulta, de forma sistemática e organizada.

Em 1844, Samuel F.B. Morse enviou, de Baltimore a Washington, a seguinte mensagem:

“Que foi que Deus fez?” ,

... sem que alguém tivesse de transportá-la, mas usando um código composto de traços e pontos, e a eletricidade. Era o nascimento do telégrafo. Pela primeira vez se combinavam energias e informação num invento.

Em 1888, Heinrich Hertz aprende a maneira de produzir e captar ondas de rádio, e no ano de 1901, Guglielmo Marconi passou a fazer uso de tais ondas para enviar informações através do Oceano Atlântico.

As experiências realizadas por Oersted, Ampére, Faraday e muitos outros, elucidaram os princípios relacionados com os fenômenos eletromagnéticos. Estudos posteriores desvendaram as leis pertinentes à propagação das ondas eletromagnéticas, brilhante e concisamente expressas nas equações de Maxwell. Tudo isto combinado com o domínio das técnicas de modulação tornaram possível a gravação, com relativa facilidade, de uma informação num conteúdo energético, e sua transmissão através de qualquer meio.

No período de 1923 a 1928 nasce a televisão; transmite-se agora a imagem e o som, simultaneamente.

As imagens começam a falar!

No desenrolar da II Guerra Mundial desenvolvem-se o radar e as microondas; estes representam dois novos degraus na capacidade de manuseio, simultâneos, da energia e da informação. O radar permite a detecção de formas materiais a grandes distâncias, pela reflexão da energia sobre as mesmas. E as microondas aumentam a capacidade de transmissão de informação por unidade de energia empregada, e com maior velocidade.

O nível de conhecimento do homem sobre as leis que regem a energia e a informação, em meados do século XX, era grande, e dava a impressão de se quase completo. Não poderia ser maior o engano dos que assim pensavam.

II_ A ENERGIA
O que é energia?


Apesar de usá-la há milênios nós não sabemos responder precisamente esta pergunta.

A capacidade de um sistema produzir trabalho é energia.

Ou seja, não se define energia, ela apenas é!

Conhecemos os seus efeitos, algumas leis, umas empíricas, outras experimentais, e mais nada.

A principal lei é:

- a energia pode ser transformada de uma forma para outra, mas não pode ser criada ou destruída; e a energia total do universo é constante.

A primeira parte desta lei tem sua confirmação em quase tudo o que realizamos diariamente. Ao ligarmos o chuveiro elétrico, ocorre a transformação da energia elétrica em calorífica, e tomamos nosso banho quente. As máquinas são transformadores energéticos; por exemplo, o motor de um automóvel transforma a energia química da mistura gasolina-ar em energia mecânica.

Já a última parte – a energia total do Universo é constante – é um postulado, ou melhor, um dogma. E acredito que não teremos uma prova formal de que a energia total é constante. Mas, se assim não for, teremos enormes modificações nas postulações cientificas, bem mais profundas quer as resultantes da Teoria da Relatividade.

O principio da conservação da matéria, desde sua enunciação pelo poeta Lucrécio, contemporâneo de Júlio César, em sua obra “De Rerum Natura”, não foi modificado.

“As coisas não podem nascer do nada, quando geradas, não podem voltar ao nada”.

Ou seja, tudo sempre existiu e sempre existirá.

Este princípio foi a argamassa com a qual se construiu grande parte da Química e da Física.

Quando Einstein enunciou o principio da equivalência entre energia e matéria, ficou estabelecido que:”as coisas materiais vêm da energia e a ela retornam”.

A mais bela demonstração desta afirmação nos é dada pela aniquilação ou formação de partículas duais. O elétron e o pósitron ao se encontrarem aniquilam-se, e no lugar de ambos surge energia. O processo inverso, a materialização, ocorre quando há a formação de partículas duais de certa porção de energia.

III_ AS VIBRAÇÕES
Tudo que existe vibra, e cada ser tem seu nível vibratório que o identifica.

A energia luminosa é um bom exemplo.

As vibrações apresentam três características:

1] A freqüência vibratória nos identifica a cor: o violeta, por exemplo, tem maior freqüência vibratória que o vermelho;

2] A intensidade nos indica a quantidade de energia, ou seja, se a cor é mais ou menos viva;

3] A fase contém informação do instante de início da emissão de energia, ela é responsável pela idéia de forma das coisas.

As vibrações podem coexistir numa mesma região do espaço sem perderem a identidade. Exemplo típico é a decomposição da luz branca ao passar por um cristal prismático.

Podemos alterar o fluxo energético que atravessa o nosso corpo e mente em quantidade e qualidade; podemos, ainda emitir conteúdos energéticos ou simplesmente refleti-los por simples mudanças das nossas condições físicas, mentais ou psíquicas.

Isto tudo é algo amplamente usado pelos místicos há muito tempo, e pela ciência, no rádio, na televisão e demais dispositivos eletrônicos.

IV_ A INFORMAÇÃO
Em 1948, Claude Shannon estabelece a TEORIA MATEMÁTICA DE COMUNICAÇÃO.


Vejamos três exemplos, para mostrar, qualitativamente, o conteúdo de informação de cada um:

- amanhã o sol vai nascer – quase nenhuma informação;
- amanhã vai chover – pouca informação, se for época de chuva.
- amanhã às 10hs vai haver chover - bastante informação.

A TEORIA DA INFORMAÇÃO é um assunto matemático que tem por objeto:

- medir a informação;
- estabelecer a capacidade de um canal de comunicação de transferir informação;
- criar códigos que aumentem a capacidade de utilização do canal de comunicação.

Vejamos como podemos medir o conteúdo de informação:

..........A
C A S ? <
..........O


A ? O R
\/

Ç L M P T

A informação contida na letra omitida na segunda palavra é bem maior que a contida na primeira.

Codificar é dar maior conteúdo de informação a um símbolo. Por exemplo: A soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa.

Em ambos os casos usei letras, mas o conteúdo de informação das letras difere. É evidente que a codificação economiza símbolos e, em conseqüência, conseguimos aumentar a capacidade de transmissão de informação de um canal.

Como a comunicação tem lógica, os símbolos que a compõem sofrem influencia recíproca. Por exemplo:

A cas _ ?

O cas _ ?

O ‘s’ e os artigos ‘a’ e ‘o’ determinam a última letra da palavra. Em ambos os exemplos a última letra não tem nenhum conteúdo de informação, ou seja, ela é redundante. Logo, as mensagens estruturadas de forma lógica possuem redundância, e esta é que torna possível a comunicação, pois se todos os símbolos tivessem a mesma quantidade de informação a perda de um ocasionaria a não compreensão da mensagem pelo receptor.

A natureza é redundante e seus símbolos não são igualmente prováveis, caso contrário o caos já teria se estabelecido, por perda da informação inicial.

V_ COMO GRAVAR UMA INFORMAÇÃO NUMA VIBRAÇÃO
Vimos anteriormente, que uma vibração possui uma freqüência, uma amplitude e uma fase.

Será que podemos fazer varias um destes parâmetros, segundo uma certa lei?

A resposta é SIM, e de mais de três modos distintos.

Esta prática toma o nome de MODULAÇÃO, e esta pode ser de amplitude, de freqüência ou de fase.

As estações de rádio usam a de amplitude ou a de freqüência.

A fotografia armazena informação através da variação da amplitude e da freqüência. Por só usar dois parâmetros, a imagem é plana e necessita de suporte material.

Na holografia, fotografia feita com laser, a imagem é tridimensional e não precisa de suporte material, pois contém a informação completa – a amplitude, a freqüência e a fase.

Nós, de uma certa forma, poderíamos ser o resultado da incidência de luz sobre um holograma.

Somos o reflexo do SER, ou melhor, criados à sua imagem e semelhança!

A informação pode ser manipulada, alterando-se o seu conteúdo; pode ser armazenada para uso posterior; e pode ser transmitida num conteúdo energético.


Os livros, os discos, as fitas magnéticas e as memórias de computador permitem a manipulação, o armazenamento e a transmissão da informação.

A natureza nos proporciona novamente um belo exemplo.

O ADN, ácido desoxiribonucléico, encontrado na parte central das células, suporta as instruções codificadas responsáveis pela transferência, de geração a geração, da informação denominada ‘hereditariedade’. O ‘código genético’ atua durante toda a vida celular e é ele o responsável pela transformação da energia transportada pelos alimentos em produtos úteis a vida humana.

Que mente imprimiu esta precisa mensagem genética, pela primeira vez?

Posso gravar mensagens, ou melhor vivências, em conteúdos energéticos, e a cada nova encarnação alterar as gravações existentes. Podemos dar o nome que quisermos a este conteúdo, por exemplo, alma.

VI_ UMA VISÃO DA GÊNESE
Novo Testamento segundo São João:

“No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.

Verbo é a palavra, é a informação contida na divindade.

Qualquer que tenha sido o curso da gênese, uma coisa parece certa: ‘um Ser, por ato de vontade, imprime sobre suas próprias energias a mensagem, e, ato seguinte, a libera’.

Deus, ao emitir a palavra, liberou energia, e o Universo tornou-se manifesto. A energia fluiu da fonte, e palavra, informação impressa, deu rumo à criação.

Cada espécie recebe um programa impresso, um conjunto de instruções, que estabelece a ordenação básica.

A harmonia da criação resulta da inter-relação de todas as espécies, porque a matriz geradora de todos os programas é única. A Mente Cósmica gera os programas das espécies segundo um sistema.

Sistema é a inter-relação que implica na existência de unidade de vontade na geração das coisas manifestas.

Gira a roda da vida em SISTEMA e ORDEM.

Se existem mutações numa espécie é porque o meio ambiente atua no conteúdo da informação original, alterando os registros. Se o homem exerce o livre-arbítrio, sua vontade alterando o curso dos acontecimentos, este imprime alterações no conteúdo energético. Por conseguinte, os programas, conjunto de informações e instruções dos homens, são abertos, ou seja, são alterados de forma dinâmica. Isto não deixa de ser uma forma de evolução.

Mas tudo isto ocorre em si mesmo, e o Todo energético vive o seu Eterno Agora.


VII_ A NOVA ERA A SOCIEDADE INFORMATIZADA
Em dezembro de 1976, Giscard D’Estaing, então Presidente da França, confiou a seu Inspetor-Geral de Finanças, Simon Nora, a ‘missão de exploração que consistirá em fazer progredir as reflexões sobre os mio de conduzir a informação da sociedade’. Em janeiro de 1978, encerrada a missão, estava elaborando o relatório “A Informatização da Sociedade”, que ficou conhecido como “Relatório Nora”. Em dado trecho deste importante documentos lemos:

“A revolução informático, no entanto, terá conseqüências maiores. Embora não seja a única inovação técnica destes últimos anos, constitui o fator comum que permite e que acelera todas as demais. E, mais que isso, na medida em que transforme o tratamento e a conservação da informação, modificará o sistema nervoso das organizações e da sociedade inteira”.

Será que só os franceses tem esta visão da questão? A resposta é NÃO. Yoneji Masuda, Presidente do Instituto para a Sociedade da Informação, do Japão, num dos trechos do seu artigo “Sociedade Informatizada” , diz:

“O homem está ingressando no período de transformação da Sociedade Industrial par a Sociedade da Informação. A Sociedade da Informação é simplesmente uma visão vaga do futuro. Ela está realmente no horizonte. Muitos exemplos de ações que têm sido tomadas por governos, em várias partes do mundo, estão indicando que o movimento na direção da concretização da Sociedade da Informação está ocorrendo”.

De fato, existem vários exemplos concretos em diferentes países.

Em 1973, o Instituto Japonês de Desenvolvimento do Uso do Computador, organização não-lucrativa, apresentou ao Governo japonês um plano, de longo prazo, para o desenvolvimento de uma sociedade informatizada. O objetivo é estabelecer uma consciência da sociedade computadorizada. Deste plano, destacamos:

- Computópolis, na qual um sistema de informações bidirecional fornece, nas residências, noticias, lazer, consulta médica, educação; possui sistema de transporte controlado por computador e supermercados automatizados.

- Hospital Computadorizado para uma população de 100 mil habitantes, onde são realizados diagnósticos, tratamento médico, estudo clínico e onde há um sistema de vigilância médica para áreas remotas.

- Educação Orientada por computador, numa escola distrital experimental.

Podemos citar outros projetos, como “A Cidade Interconectada”, no Canadá, o TERESE, na Suécia, e experimentos menores nos Estados Unidos e Inglaterra.

O que se tem procurado avaliar nestas experiências são as modificações comportamentais do homem e de suas estruturas sociais em face da presença do computador em bancos, correios, hospitais, supermercados, industrias, escolas, lares, demais setores, obrigando o homem a ter que travar diálogos com os mesmos.

Em 1980, um grupo de peritos, em trabalho apresentado à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE[1] estudou o impacto da microeletrônica no emprego. Nesta análise são abordados os aspectos relacionados com as mudanças nas rotinas de trabalho em face da transformação estrutural das industrias e dos negócios, bem como em virtude do surgimento do consumidor de produtos e serviços de informação. Será necessário,segundo seus autores, uma continua atividade de retreinamento, ocasionada pela migração do trabalho entre profissões, empresas e setores econômicos. Concluem que caso não sejam administrados os atritos que ocorram entre a industria, o governo e os trabalhadores no período de transição, poderão ocorrer rupturas sociais; contudo, não consideram o impacto da tecnologia microeletrônica como negativo.

Já começa a ser citado um quarto setor industrial, intitulado industria da informação, compreendendo a industria de processamento da informação, a de serviço da informação e a de programas de computação.[realidade].

Nesta nova sociedade os microprocessadores, os computadores, os terminais de computadores e os robôs estarão presentes em todos os setores, interferindo no saber e no fazer humanos.

Voltemos agora nossas atenções para a energia.:

A guerra do “Yom Kippur” foi o lance final na obtenção do controle dos negócios do petróleo. A decretação do embargo da venda do petróleo significou o controle do fluxo de energia dos países industrializados e, por conseqüência, de seu crescimento econômico, por uns tantos potentados árabes.

No curso dos anos, todos foram substituindo, gradativamente, por equipamentos consumidores de energia barata os equipamentos dependentes da mão-de-obra, cada dia mais cara. Desta maneira, metade da produção cumulativa mundial de petróleo ocorreu durante um período de cerca de doze anos, a partir de 1956 [3]. A sociedade de consumo apóia-se nesta particularidade, e o automóvel é o símbolo máximo do desperdício e baixo custo da energia proveniente do petróleo. E esta é a razão pela qual a indústria automobilística é a primeira vitima da crise da mudança.

Após a estupefação geral dos primeiros momentos do embargo, os países tornam-se conscientes de suas fragilidades e irresponsabilidades no uso e conservação da energia.

Foram necessárias as altas desmesuradas no preço do petróleo e o embargo decretado pelos árabes, para que a humanidade tomasse consciência de que muitas das fontes energéticas disponíveis não são renováveis e que, em conseqüência deve-se fazer uso parcimonioso da energia. Sob este enfoque, os árabes, com sua política, beneficiaram a humanidade.

Será que se o barril de petróleo custasse, hoje US$ 2,00, existiriam tantos programas de pesquisa de fontes alternativas e de conservação de energia?

A resposta é NÃO. Alguns poucos estariam discutindo se o petróleo acabaria no ano tal, em alguns congressos científicos, e a maioria dos mortais estaria achando a discussão semelhante à que pretenderia definir qual seria o sexo dos anjos.

Os recursos das sociedades humanas são energia e informação, com as quais manipulam a natureza para produzir bens e serviços de seu interesse.

A cada instante alcançamos maior capacidade de processar grande volume de informações com menor consumo de energia. A crise energética fornece o catalizador que está acelerando o processo de mudança estrutural da humanidade.

A melhor forma de compreendermos e identificarmos as características da Sociedade Informatizada é compará-la com as anteriores.

O primeiro aspecto a ser enfocado é a estrutura do poder de produção. Na Sociedade Agrícola o poder vinha da terra, na Industrial da máquina, e na Informatizada vem do computador. Nas anteriores, o produto do trabalho eram bens materiais, e na que está se instalando, o produto é o conhecimento.

No estágio agrícola buscava-se o aumento da produção vegetal; no seguinte, substitui-se e ampliou-se a capacidade física do homem pelo uso da máquina, poupando-lhe energia, que foi dirigida para a execução de maior atividade intelectual. Os computadores realizam o trabalho monótono e repetitivo das operações mentais. Desta forma o homem poderá dirigir a maior parte de sua energia para o trabalho criativo.

As vilas isoladas, a permanência e o tradicionalismo eram as características principais da Sociedade Agrícola. A indústria, ao mobilizar quantidades cada vez maiores de mão-de-obra, gerou as grandes concentrações urbanas, onde existe grande dinamismo e alta competitividade. O homem, habituado a usufruir das vantagens oferecidas pelas grandes cidades, mas sentindo cada vez mais saudade da paz desfrutada nos vilarejos, vai passar a viver em núcleos de pequeno tamanho, interligados por redes telemáticas, que lhe proporcionarão inúmeros serviços e oportunidades de emprego, sem que se desloque. A nova sociedade otimizará os gastos energéticos por causa dos preços, escassez das fontes e poluição ambiental.

As maiores mutações dar-se-ão nos valores. Inicialmente, o relevante era manter a vida; o avanço do conhecimento médico e da tecnologia, ao assegurar melhores condições de vida, despertou os desejos e, então, o bem supremo passou a ser a satisfação dos desejos sensuais e emocionais. No inicio, o domínio do corpo físico; a seguir, o conhecimento dos sentimentos; e na nova era irão empreender o conhecimento da mente, e portanto, buscarão a satisfação de múltiplos desejos, ou seja, o homem imerso no todo e não mais o individuo isolado.

O sentimento religioso, que era intenso e dominava inclusive a política, nos primeiros tempos foi substituído pela ciência, democracia, capitalismo e comunismo, oriundos das revoluções Industrial, Francesa e Bolchevista.

O advento da comunicação áudio-visual fez surgir a aldeia global, e estará presente na mente dos homens a sua condição de co-participe de um todo indivisível – é o despertar da consciência da humanidade. Quais serão as novas formas políticas e econômicas?

Não poderíamos deixar de comparar os padrões éticos.

A lei, a moral e o poder emanavam de Deus, assim concebiam os nossos antepassados. Hoje nos preocupamos com a defesa dos direitos humanos básicos e com o de propriedade: é a defesa do indivíduo em face do grupo. Isto é conseqüência da sociedade materialista.

A sociedade que está no horizonte já mostra quais serão os novos valores. A tomada de consciência, por parte de todos os homens, da necessidade de preservar a natureza a fim de que ele sobreviva trará, como conseqüência, a busca de maior harmonia com a natureza. É o triunfo do pensamento ecológico.

O conceito de humanidade e a produção de serviços trazem, como efeito, mudanças nas relações de trabalho, e o servir será a nova forma de trabalho.

Assim, a humanidade ocupará o centro do pensamento e das preocupações. Buscar-se-á os valores espirituais, pois, libertos dos trabalhos físicos e cerebrais, poderá o homem dirigir suas energias à expansão das suas faculdades psíquicas até então adormecidas.

Aos místicos, afeitos há milênios ao uso de seus poderes psíquicos, cabe ajudar na transição, minimizando as dores dos que não suportarão as mudanças; esclarecendo os confusos por não saberem perder os seus valores materiais; difundindo o conhecimento para que cresça o numero daqueles que preparam o nascer e a implantação da nova era.

Estas são nossas idéias e as entrego à meditação de todos.
-
[Texto de Jorge M. Fernandes]

Um cuidadoso exame de toas as nossas experiências passadas, por nos revelar o fato surpreendente de que tudo o que nos aconteceu foi para o nosso bem _ Henry Ford.

domingo, 18 de abril de 2010

A Vida e a Essência dos Cristais


A formação dos cristais vem intrigando e fascinando as pessoas desde os primeiros sinais de percepção que experimentaram, e de certa forma expressa o mistério do desabrochar da mente. Nossa mente luta por despertar mais completamente à luz da consciência plena ou cósmica. No transcorrer desse denodado esforço, os poderes subconscientes que forma a nossa natureza humana, ou mente, são atraídos para forças semelhantes que fazem parte da natureza. Contudo, sem a poesia da experiência, do poder da observação analógica e do espírito buscador, o nascimento criativo de nosso EU mais profundo e transparente não possui o veículo nem a semente capaz de gerar um novo crescimento e uma nova vitalidade. A formação ou crescimento dos cristais, tal como o crescimento das pessoas, merece uma intensa concentração, contemplação e meditação de nossa parte. Os místicos e poetas nos afirmam que a ciência da ‘cristalografia’ revela princípios da natureza, princípios que, sendo universais, agem em nós mesmos como agem no mundo que nos cerca.

Em termos de evolução, quando uma legião de moléculas agrupadas sofrem uma mutação inicial em direção àquilo que é em geral considerado vida, essa mutação aparece inicialmente como uma intensificação de atração ou viscosidade, uma qualidade familiar de estabilidade. A operação do principio de atração-repulsão é o principio da ordem essencial à vida.

Mas que forma toma essa viscosidade vital ao se dirigir para a estabilidade e à ordem? Como, exatamente, as moléculas se colocam?

A resposta é que elas começam a se alinhar, a se posicionar, formando filas, camadas, treliças. Em resumo, elas se cristalizam, pois o cristal é, em sua essência, uma estrutura organizada. Por este motivo, o cristal é a estrutura básica da vida, da ordem e a razão pela qual os elementos sólidos organizados, da pedra, da madeira, dos músculos e ossos, podem ser descritos como cristais.

O que dá aos cristais e sua organização seu potencial vital, seu curioso elo com a vida? Sendo o cristal mais frio, mais tranqüilo e mais em repouso que um liquido ou gás, por que então não é menos vivo?


Afinal de contas, a latência e a inércia são mais ou menos sinônimas. Provavelmente existe um fator de relatividade neste paradoxo, uma espécie de ajuste dimensional entre ordem e movimento, com a vida exigindo, ao mesmo tempo, suficiente ordem para organizar seu movimento e suficiente movimento para desenvolver e mover sua ordem. Esta não é uma questão fácil, pois aparentemente ninguém sabe por que os átomos aceitam disposições ordenadas.

Possivelmente, cargas positivas e negativas inerentes, localizadas em várias regiões de átomos, atraem e repelem átomos próximos de um modo tal qual que grupos de átomos simplesmente se ajustam melhor naquela forma. Como se fossem vivos, eles parecem sentir-se mais confortáveis quando estão em ordem, especialmente quando a pressão externa, a seca ou temperatura muito baixas os forçam a formar uma massa densa. Em algumas situações, uma ordem desse tipo pode significar a diferença entre a vida e morte, demonstrando de forma dramática sua qualidade prometéica. Entretanto, existem inúmeras classes de ordem e ordem parcial. Para podermos compreender os cristais e a vida precisamos conhecê-los melhor. Tenhamos em mente que isto não é tão simples quanto estudar a desordem. Estudar a desordem geralmente significa examinar gases e líquidos que praticamente não têm estrutura ou forma. Além disto, há muitas espécies de ordem que não estão baseadas em padrões repetidos e uniformes. Por esta razão, não se qualificam integralmente como cristalinas; presumivelmente, isto quer dizer que, em grau idêntico, não são apropriadas para servirem de material de construção da vida.

Quando chegamos finalmente à ordem viável dos cristais com seus padrões repetidos, as variedades nos parecem não apenas infindáveis mas literalmente multiplicadas ainda mais por impurezas, por ‘doenças’ contagiosas, por microbolhas, por misturas de diferentes substâncias e por inevitáveis descontinuidades que se insinuam nos sistemas de cristais, mesmo na forma de substância pura, sem misturas. O enfoque biológico sobre a complexidade dos cristais seria lembrarmo-nos de que os cristais estão hoje classificados em cerca de 1.500 ‘espécies’.

Cada uma dessas espécies tem uma forma característica que representa apenas a expressão externas de um arranjo interno [quase que genérico], altamente organizado, de sextilhões de átomos que são diferentes para cada elemento ou composto que formam. O tráfego e a balbúrdia que ocorrem são sugeridos por um cálculo recente o qual revela que um cubo cristalino de um milímetro de espessura tem cerca de um quintilhão de ‘níveis’ de energia, ocupados pelos elétrons de valência de seus átomos constituintes, formando um continuum. Além disto, qualquer faceta deste cristal cresce à razão aparentemente lenta de dois milímetros por dia, sendo que em média uma centena de camadas de moléculas deve ser precisamente colocada em sua superfície a cada segundo, cada camada compreendendo cerca de dez milhões de átomos exatamente arrumados.

Não é de surpreender que neste microtufão, que espalha um bilhão de átomos por segundo, alguns deles [ou alguns poucos milhões deles] deixem de encontrar seu nicho apropriado, formando então espaços vazios ou bolhas, nem que partículas alienígenas se insinuem entre eles, ocupando lugar dos que estão ausentes ou simplesmente se introduzindo nos interstícios desocupados. Quanto às áreas de descontinuidade entre dois cristais orientados de maneira diferente mas do mesmo material, essas zonas fronteiriças são hoje classificadas como defeitos cristalinos. Uma curiosa característica desses defeitos cristalinos é que as camadas de átomos envolvidos no processo mostram sinais [seus movimentos errantes] de não saberem com certeza a qual ‘cristal’ pertencem. Este fenômeno estranho, quase que mental, aparentemente ocupa um dos veios internos da vida onde nasce o ‘indeterminismo’ em meio ao ‘determinismo’, e onde o ‘livre-arbítrio’ surge da pétrea resignação ao destino.

De um modo simbólico, o crescimento dos cristais ilustra a natureza organizada dos processos de crescimento e desenvolvimento de todos os tipos. Surgem hiatos no crescimento de nossa mente e de nossas relações humanas, tal como ocorre no crescimento dos cristais,em que o desenvolvimento ou evolução nem sempre ocorre de modo compassado, ordenado e cadenciado. Esses hiatos podem ser considerados como uma falta ou não-integralidade que evoca em nós um intenso desejo por conforto e unificação. Assim como ocorre com os cristais, esse desejo pode ser a fonte de força vital criativa para a consecução de uma nova evolução de forma e de caráter.
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[Texto de George f. Buletza]

Fantasia Prática _ A Verdadeira Chave das Portas da Alma


Havia, em certa época, grande respeito pelos ‘tecedores de histórias’ natos. Mas, em nosso elogiável e prático progresso visando o domínio do nosso ambiente mundano, creditamos aos ‘tecedores de histórias’ um respeito intelectual não muito maior do que o que creditamos ao piloto que imprudentemente permite que seu avião entre em parafuso. Apesar disto, será que pode haver um lugar legítimo e uma utilidade prática em nossa vida para fantasias de ocasionais tecituras de pensamentos ‘autônomos’? Como uma teia de aranha que atrai gotas de orvalho coloridas, a fantasia tradicional pode formar uma teia capaz de captar um mundo interior em que duendes e fadas – a ’gente miúda’ – podem viver uma existência significativa através de nós.

‘Fantasia’ é um termo mais respeitoso para ‘sonhar acordado’, embora todos saibamos o quanto improdutivos podem ser esses sonhos e devaneios. Aprendemos também, desde crianças, que só se entregam a este passatempo aparentemente inútil pessoas de mentalidade infantil ou os menos afortunados de intelecto inferior.

É verdade que, em sua maior parte, os seres humanos tendem a ser mentalmente preguiçosos. É bem mais fácil deixarmos para o dia seguinte o que podemos fazer hoje. Por isso é preciso que se nos lembrem de dirigirmos nossos pensamentos positivamente, para que os concretizemos criativamente pois, com efeito, tornamo-nos aquilo que pensamos.

Contudo, na luta que travamos contra as nossas naturais características de indolência e protelação, devemos cuidar para que não nos descartemos de nossa ‘criança fantasiosa’ com um ‘não-prático banho de água fria’. Devemos apreciar criteriosamente nossa capacidade natural de devaneio e fantasia, permitindo-lhe enriquecer nossa vida de labuta diária que, caso contrário, torna-se insípida. Vista sob este ângulo, a fantasia pode transformar-se em imaginação, atributo mental que sempre merece nosso respeito. Não obstante, devemos admitir que mesmo usada construtivamente a fantasia é de fato uma estranha esposa casada com o intelecto objetivo, mas este casamento alquímico pode ocorrer por uma porta de fantasia que dá acesso à terra do visível bem e mal dos contos de fadas.

CONTOS DE FADAS
Na maior parte da primeira metade do século vinte, época em que a ‘psicanálise’ tornou-se popular, o interesse por contos de fadas era considerado um estágio mental que o homem intelectualmente culto havia deixado para trás juntamente com a Era Vitoriana. Muitos pais de então concluíram que os contos de fadas exercem influência desnecessária e indesejável sobre seus filhos. Esses pais, algo preocupados, não desejavam atemorizar seus pequeninos com contos que encerravam horrores medonhos, nem desejavam alimentar as já naturais capacidades de seus filhos para criar fantasias e ‘inventar histórias’ que não pudessem ser provadas pela realidade diária. Implícita nessas admoestações havia a sutil insinuação de que ‘contar histórias’, como as ‘mentirinhas inocentes’, não era próprio de crianças ‘boazinhas’. E alguns adultos, indevidamente influenciados pelas primitivas descobertas da Psicologia, pensaram que essas histórias de regiões imaginárias apenas acentuavam a já selvagem e bárbara natureza de seus filhos.

Devido a que as histórias de fadas falam a própria linguagem simbólica da criança, despertam em sua mente infantil a confiança que lhe permite alcançar objetivos de um ainda desconhecido mundo do gigante adulto. Como adultos talvez pensemos que a fantasia é coisa infantil e ingênua. Mas será também inútil e não-prática? A criança indefesa precisa da esperança reconfortante de que ela pode [e d que vai de fato] conquistar o desconhecido [para a criança] mundo da realidade do adulto. Ela precisa que lhe ensinem a alcançar isto numa linguagem com que pode se identificar e compreender. Caso contrário, ela pode desejar permanecer num estágio mais primitivo, resistindo às forças que procuram fazê-la adaptar-se às responsabilidades que a civilização moderna espera de seus cidadãos adultos.

Ornitólogos têm documentado evidências de que pássaros criados m total isolamento, sem nenhum contato com pássaros adultos, passarão a assobiar um tipo de melodia muito primitiva dos da sua espécie. Do mesmo modo, uma criança que tenha sido criada sem o conhecimento reconfortante das ‘histórias de fadas’ viverá um conto de fadas primitivo pessoal. Por conseguinte, como o pássaro isolado, esta criança dificilmente sra capaz de alcançar na idade adulta o refinamento que alcança a pessoa que na infância teve contato com os exemplos contidos nos contos de fada. Essas maravilhosas histórias infantis nos ensinam a linguagem simbólica de nossa herança interior. Precisamos, a cada nova vida, renovar nosso contato com essas histórias para que reafirmemos e cumpramos criativamente nossa herança evolutiva como adultos.

Do mesmo modo que os contos de fada ajudam a criança a se ajustar a um mundo terrível e desconhecido da realidade do adulto, a relígio-mitologia pode auxiliar o adulto amadurecido a se ajustar a uma igualmente terrível existência de além transição.

A título de exemplo, ‘O Livro Egípcio dos Mortos’ aponta um dedo de esperança para a vida após a morte. As imagens simbólicas contidas nesses Mistérios de Osíris esboçam o desmembramento do deus morto e a coleta das diferentes partes do seu corpo pela deusa Ísis, como irmã, esposa e mãe, ocasiona a eterna renovação da vida através de Hórus, filho seu e de Osíris.

Com o ultimo período de nossa vida terrena advém o tempo em que devemos começar a escrever nosso ‘Mahabharata’ individual. Em outras palavras, podemos começar pela emulação do venerado deus hindu ‘Ganesa’*. Ao tomarmos indiviso interesse no registro acurado dos acontecimentos interiores e exteriores de nossa vida individual, dissecando então suas diferentes partes, podemos reuni-los todos em nossa maturidade, vivenciando assim o significado pleno que reside além da diversidade de nosso curto período de vida. Mas, como a criança que distingue a fantasia da realidade que irá viver no estágio seguinte de sua vida, o adulto pode fazer uso prático de uma verdadeira ‘chave mitológica’ que o ajudará a abrir as portas de um mundo transcendental, liberando a silente melodia que é a Alma.

Entretanto, dos anos setenta para cá, eminentes autoridades, como o Dr Bruno Bettleheim, conhecido psicólogo freudiano infantil, estão apresentando alguns fatos contrastantes sobre a relação que existe entre os contos de fadas e a adaptação da criança ao seu ambiente familiar e mundano. Assim é que o conto de fadas está assumindo um papel importante e adequado no ensino infantil. De acordo com o Dr. Bettleheim, há evidências suficientes que apóiam sua TEORIA de que a criança automaticamente elaborará fantasias primitivas sobre algum objeto inanimado do seu ambiente se não leu ou ouviu os clássicos contos de fadas.

Os adultos que em criança foram privados dos contos de fadas tradicionais tendem a ser mais inseguros. Muitos inclusive parecem suscetíveis a mais aflições mentais e sociais que os que tiveram contato com os contos de fadas em infância. Por outro lado, a criança a quem ensinaram a pôr ordem em seu ‘modo caótico’ de travar contato com as experiências do mundo [pela imaginação ou aprendizado do natural processo de mudanças dos exemplos unidimensionais contidos nas fantasias dos contos de fadas] parece comparativamente menos insegura sobre sua vida interior, tanto na infância quanto na maturidade. Com certa surpresa, crianças assim tornam-se mais motivadas a se adaptarem à vida no mundo da verdadeira maturidade. Isto certamente é o reverso do anterior ponto de vista: de que os contos de fadas são nocivos ou, na melhor das hipóteses, inúteis.

Certa dose de contos de fadas, de acordo com o Dr. Bettleheim, ajuda a criança a enfrentar um mundo desconhecido, a realidade do mundo adulto que para ela é muito mais atemorizante do que o mundo de fantasia no qual ela se sente bem mais em casa. O Dr. Bettlheim constatou também que a criança mentalmente sadia tem muita consciência das diferenças que existem entre a verdade do cotidiano a fantasia porque ‘intuitivamente ela compreende que embora os contos de fadas sejam irreais, não são inverídicos’ para sua compreensão.

Em muitos contos de fadas o herói ou a heroína é a criança enjeitada, a menor, a mais nova, algumas vezes portando alguma deficiência física – um personagem absolutamente insignificante que, apesar de tudo isto, enfrenta os muitos testes e tribulações até que finalmente alcança seu objetivo tão almejado. Esses contos possibilitam que nós, como crianças ‘mentalmente orfanadas’, nos identifiquemos com alguém que também é um ‘patinho feio’, ou com uma bela criança deixada aos cuidados de um padrasto ou madrasta cruel.

Mas os contos de fadas também mostram à criança que no fim tudo dá certo se o herói [com quem a criança se identifica] perseverar e mantiver uma atitude de confiança amorosa. Embora muitas vezes fraco, tendo bom coração, o herói [ou a heroína] recebe a informação e o auxílio necessários de animais como pássaros, cobras, e insetos, bem como de fantásticas criaturas do reino vegetal e mineral.

Desafios e recompensas estão sempre sendo proporcionados pela ‘gente miúda’ – magos, feiticeiras, duendes e fadas. Com a ajuda recebida, o herói ou a heroína alcança seu objetivo e retorna para viver ‘feliz para sempre’.
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[Texto de June Schaa]
*Notas: O Mahabharata é um poema épico hindu de quase 100.000 dísticos, no qual está contido o conhecido Bhagavad Gita. A mitologia hindu atribui a autoria deste poema a Ganesa, deus das Letras e do Aprendizado.