quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Lúcifer _ O Portador da Luz.


Conforme anuncia a Esfinge, quem OUSAR poderá desvelar o Mistério.
Daremos aqui apenas algumas indicações, todavia não faremos qualquer relato comprometedor pois resta-nos CALAR. Cada um, por si mesmo, terá que QUERER e depois SABER...Querer, Ousar, Saber e Calar são os verbos-guias da Esfinge Humana.


Todo real Processo de Iniciação tem muita semelhança com o Processo de Individuação apresentado pela Psicologia Profunda de Carl Gustav Jung. Ambos têm por fundamento os postulados básicos da Alquimia Transcendental, eis que buscam a UNIDADE DE CONSCIÊNCIA ou CONSCIÊNCIA CÓSMICA, simbolicamente representada na Alquimia como o encontro da Pedra Filosofal ou do Ouro dos Filósofos. Trata-se da Psicologia do Inconsciente [Jung] e da Iniciação da Consciências aos seus níveis mais profundos.

Ora, ao ingressarmos nesses recessos de subconsciência, verificamos que TUDO É TREVAS, ANTES DE SURGIR A LUZ. Trevas, Caos, Abismo, Vazio, etc., são denominações alquímicas e iniciáticas a indicar o estado de consciência primordial do Ser.

Sócrates assim se expressou: ”Cada homem é um Caos, mas há em cada ser humano um deus, o qual, se tu quiseres, ordenará em Cosmo e em Felicidade o teu Caos doloroso”.

Colocar todo o conhecimento numa ORDEM COMPREENSÍVEL é o objetivo da Filosofia “latu sensu”, notadamente da Filosofia Mística e da Psicologia Profunda. Ordenar em Cosmo e em Felicidade o Caos da consciência humana. Agora, mais do que nunca, o homem moderno vive nesse ‘caos doloroso, onde ainda predominam os processos primários, onde não há uma síntese de idéias e onde os afetos são passíveis de deslocamento. Onde o princípio soberano que governa os processos psíquicos é o da obtenção do prazer, tudo isto devido ao fato de que, para a mente objetiva, as manifestações existenciais, são descontínuas e quantificadas. Saímos da Unidade Paradisíaca e caímos na dialética serpentina da dualidade.

Perdemos os referenciais! Então, porque queremos [como sugeria Sócrates], ingressarmos numa Ordem Mística, somos conduzidos por um Guia e assim penetramos nesse labirinto trevoso, o Mar de Trevas com seus abismos de Inconsciência. Temos um referencial iniciático e podemos considerar o nosso lugar no Grande Esquema Cósmico.

A Dra. Jacob, discípula junguiana, escreveu: “ Jung desejava ampliar o RAIO DE CONSCIÊNCIA, estendendo seu Feixe de Luz sobre o Mar de Trevas, completando assim a Obra da Criação”, a mesma tarefa cometida aos Buscadores da Luz, conforme preconiza os ensinamentos: Continuar a Obra da Criação.

Para executar esses Trabalhos de Hércules, Lúcifer porta o facho de Luz, queimando como um Fogo do Crisol.E o Mestre convoca o(a) Portador(a) do Archote, o Anjo da Luz ou Lúcifer. Este, com seu facho ilumina as trevas do abismo da subconsciência [abismo do Mar Hermético]. E a Criação continua!

Ilumina e regenera as trevas do Inconsciente, tornando-o consciente [todo o Processo de Iniciação e de Individuação é um programa de Regeneração].

A Luz SE FAZ, refletindo na consciência humana a Sua própria natureza. A Luz SE reconhece na consciência, feito espelho...

A Sabedoria “caótica” do Inconsciente é posta em ordem compreensível pelo intelecto da mente objetiva, como a luz menor.

CAOS EM COSMO!

O Si Mesmo, aqui identificado como o Mestre, comanda toda a Constelação Arquetípica e ordena essa atividade de seu Arquétipo de Luz. Diz-se então em termos de Psicologia Profunda: “Como Deus está para a Criação do Cosmo, o Si Mesmo está para a Criação da Psique”. O Si Mesmo é o Arquétipo do Centro, o Mestre ou nosso Eu Interior, que assim ordena nosso caos pessoal em Cosmo.

O Mistério da Luz [o maior Mistério da Natureza] é desvelado pelo Portador do Archote ou Portador da Luz, nosso amado Lúcifer, matriz de nossa Inteligência Superior. Então, somente então, é feita a “revelação” espantosa de nossa real natureza, um “Mysterium Tremendum”. A Luz SE revela à alma humana, encontro de Cupido e Psyquê. O homem se conhece, um “Mysterium Cognitionis”, de acordo com as expressões de Jung.

Saímos da dialética dos ‘Opostos da Natureza’:Consciente-Inconsciente, luz-trevas e voltamos à unidade de consciência, voltamos à Casa do Pai. Ali o Rei e a Rainha misturam as suas substâncias psíquicas. Assim vemos que todo o Processo Alquímico está plenamente identificado como o Processo de Individuação e com a Psicologia do Inconsciente apresentada por Jung.

Essa figuração arquetípica que é o Portador do Archote ou Lúcifer está sempre a ilumina a Senda para que o Mestre possa dar prosseguimento ao Processo iniciático, o qual deverá culminar com as Bodas Místicas da alma com o Noivo, o Filho da Nova Aliança feita no Shekinah...

Embora tão vilipendiado quanto o mal compreendido Judas Iscariotes, é Lúcifer quem nos resgata dos mundos da Sombra, esse outro Arquétipo da nossa constelação psíquica. Todavia, atribui-se a Lúcifer a identificação com o Diabo, o adversário [dyá-bolos]’fundamental’, também mal-visto em função do maniqueísmo religioso. Mas, como foi dito, essas intelecções espirituais tem lugar ativo em nossa estrutura psíquica. Então serão logo resgatadas à Luz da Compreensão que nos traz o Portador do Archote. Quando isso acontece, o Homem conhece a si mesmo, o SI MESMO da psicologia junguiana.

E na Aurora Consurgens da Alma Humana eles estarão esperando por nós debaixo do arco da Vida Eterna, porque nessa aurora de nossos dias nascerá a Divina Compreensão.

O Anjo da Noite terá passado com o seu licor sombrio, pois saímos da Morte Mística na Noite do Grande Abandono.

Entramos na História dos Grandes Heróis, os Iniciados, como o foram Hércules, Perseu, Teseu, Orfeu. Da forja de Vulcano ou Hefaystos, com o seu Fogo do Crisol, sai um Novo Homem para a Luz de Osíris!
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“O Lúcifer da Cabala não é um Anjo Maldito e fulminado; É o Anjo que ILUMINA e que regenera, queimando...

Quando Deus disse: Faça-se a Luz, a inteligência foi feita e a Luz apareceu...

A inteligência tomou a forma de um Anjo esplêndido e o Céu o saudou com o nome de Lúcifer.” [ Eliphas Levi_Dogma e Ritual]
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[Texto de Hélio Francisco Fernandes].

Gênesis_Uma Interpretação Rosacruz.


1_ No começo Deus concebeu a criação do universo e o pensamento dirigiu as vibrações do espírito por todo o espaço, que estava vazio.

2_ E o Espírito penetrou naquilo que era sem Espírito e deu-lhe vida. E aquilo que foi vivificado não tinha forma, não tinha definição, e estava em trevas absolutas, e a umidade surgiu em todo o espaço, que também foi vivificado pelo Espírito.

3_ E Deus ordenou que toda a matéria fosse consciente de sua existência e conhecesse o Espírito pelo qual se tornou manifesta. E foi criada a Consciência Cósmica, que era a Grande Luz do mundo.

4_ E a Luz era o Bem; pois dispersou as trevas e revelou as manifestações de Deus. E o que não foi iluminado pela Grande Luz estava m trevas e era o mal; e o Bem e o mal foram separados.

5_ E Deus chamou Dia à Consciência Cósmica, e as trevas foram chamadas de Noite, pois eram ignorantes e não tinham consciência. E assim se completou o Primeiro Ciclo de Evolução.

6_ E Deus decretou que o Espírito efetuasse a divisão dos Quatro Elementos.

7_ E o espírito dividiu todas as coisas em seus elementos apropriados e as colocou nos Reinos Material e Espiritual. O Espírito uniu-se às Células que as vibrações fizeram surgir, e os quatro elementos, Fogo, Ar, Terra e Água, tornaram-se manifestos.

8_ A Consciência Cósmica deu ao ar o nome de “NOUS” e ele se tornou o Elemento Espiritual que constitui o Reino Espiritual. E assim se completou o Segundo Ciclo de Evolução.

9_ E o Espírito uniu-se aos elementos Fogo e Água, e do vapor que daí se formou surgiram os minerais.

10_ E a Consciência Cósmica deu o nome de Terra aos minerais e a umidade foi chamada de Água; e foram separados um do outro.

11_ E Deus vivificou a Terra com Espírito para que ela pudesse fazer surgir o que lhe correspondesse, conforme suas Células.

12_ Então a Terra fez surgir a grama, as ervas e as árvores, produzindo segundo sua própria espécie, porque as Células nelas estavam e foram tocadas pelo Espírito.

13_ E assim se completou o Terceiro Ciclo de Evolução.

14_ Em seguida, Deus ordenou que o Espírito tivesse Símbolos através dos quais pudesse se manifestar a todas as coisas criadas, e enviar suas vibrações; e aqueles seriam por Signos e Estações, através dos quais o tempo e a vida poderiam ser medidos.

15_ E eles deveriam emitir Luz e Vida de sua espécie.

16_ E foi criado um Grande Símbolo para aparecer no Dia e dispersar as trevas;era o Símbolo do Espírito e era o Bem. Do mesmo modo foi criado um Símbolo Menor para aparecer na Noite; era o Símbolo da Consciência Cósmica, refletindo a glória do Espírito. Daí em diante foram criados outros Símbolos para representar as forças criativas e os atributos do Espírito.

17_ E Deus ordenou que tudo isso permanecesse no Reino Espiritual.

18_ E do Reino Espiritual eles revelariam o Dia e a noite, a Luz e as trevas, o Bem e o mal.

19_ Assim se completou o Quarto Ciclo de Evolução.

20_ O Espírito tocou e vivificou as células que estavam nas águas para que se reproduzissem abundantemente conforme sua espécie; do mesmo modo foram vivificadas as células no ar para que produzissem criaturas conforme sua espécie.

21_ E assim foram criadas as grandes e as pequenas criaturas das águas, e as aves do céu.

22_ E a Consciência Cósmica as dotou de Instinto e foi-lhes ordenado que se multiplicassem com o toque do Espírito.

23_ E assim se completou o Quinto Ciclo de Evolução.

24_ E o Espírito fez surgir Sobre a terra vida em várias formas, segundo as células que dentro delas existiam.

25_ E surgiram feras e rebanhos, e os que rastejam sobre a face da terra.

26_ E Deus concebeu uma expressão física da Consciência Cósmica na face da Terra, para ser uma contraparte da expressão no Reino Espiritual.

27_ E o Espírito criou o Homem segundo a Imagem Cósmica de Deus a partir das células animais na terra; positivas e negativas, masculinas e femininas, eram as criações da Expressão Cósmica.

28_ E Deus abençoou a obra do Espírito, e disse ao Homem:”Com o Espírito em ti, deves desenvolver as células da terra que estão em ti e te multiplicares e te reproduzires segundo tua própria espécie, a fim de povoares a terra e te tornares mestre de tudo o que é da terra, do ar, do fogo e da água.”

29_ E a Consciência Cósmica no homem sabia que sobre a face da terra e no ar acima dela estavam os elementos nos quais o corpo do homem podia crescer e com os quais o Espírito no homem devia se manifestar e ser sustentado na expressão física.

30_ E do mesmo modo, a cada animal da terra, a cada ave do céu e a cada criatura das águas foram dados Elementos para a Vida.

31_ E a mente de Deus estava ciente de tudo o que fora criado; e isto era Bom. Assim se completou o Sexto Ciclo de Evolução.

32_ Desse modo foi criado tudo o que é. Na mente de Deus todas as coisas foram concebidas; e a concepção dirigiu as vibrações do Espírito para que ele criasse, e assim foi.

33_ E no Sétimo Ciclo a mente de Deus glorificou-se em sagrada comunhão com tudo o que fora criado; e o Espírito habitou em paz e harmonia, sua vibrações em perfeita harmonização com as vibrações de toda a matéria. E deus santificou o Sétimo Ciclo como o Ciclo da Perfeição, da Totalidade e da Harmonia.

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Notas:

* Esta é uma interpretação da Criação do Mundo da história Bíblica, sob um ponto de vista rosacruz. Entretanto, não seria dessa forma que o rosacruz escreveria a história da criação conforme sua própria compreensão da mesma.

Portanto, está é uma tentativa de traduzir a história bíblica para as doutrinas e ensinamentos rosacruzes, e de jogar luz sobre os pontos de semelhança entre ambas.

Como leitura correlata, o Primeiro Capítulo do Evangelho Segundo São João lança uma luz considerável sobre os quatro primeiros versos deste artigo.

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Texto de H.Spencer Lewis – Artigo Publicado no “The American Rosae Crucis”, fevereiro de 1916.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Fantasia Mental da Realidade_


Será o homem a única realidade?

Os filósofos conhecidos como solipistas sustentam que não há outra realidade a não ser o próprio EU;em outras palavras, toda experiência é considerada uma fantasia, não havendo qualquer existência exterior que lhe corresponda. Muitos pensadores ilustres, porém, tem refutado esta TEORIA de modo lógico e racional. As noções verdadeiras vivenciadas pela mente têm sua origem nas impressões dos sentidos objetivos do homem. O homem pode distorcer as impressões de seus sentidos a um estado de fantasia. Não obstante, ‘alguma’ coisa existe por detrás da fantasia; não se trata pura e simplesmente de um produto da consciência humana.

No entanto, não podemos presumir que a mente do homem seja um espelho da realidade; que aquilo que percebemos seja uma imagem autêntica da realidade. Nem podemos estar certos de que a nossa consciência do que chamamos ‘realidade’ seja sequer uma sombra da mesma, conforme Platão a ela se refere em seu diálogo ‘A República’.

Há uma enorme complexidade entre a natureza dos estímulos de nossos sentidos objetivos e sua interpretação em sensações e, finalmente, em idéias. Conferimos a essas variações exteriores de energia, às quais reage nossa consciência, uma identidade específica, como cor, som, gosto, etc.

Se tais impressões são as mesmas e aparentemente absolutas para todo mundo, constituirão então realidade?

Sabemos que certos comprimentos de onda da luz visível do espectro solar sempre produzem determinadas cores para a visão normal do homem. O mesmo pode ser dito quanto a certas oitavas de som que produzem diversas vibrações para a audição normal.

Mas terão elas a característica de realidade independente da consciência do homem?

Surge a questão:

ð “Pareceriam diferentes estes fenômenos a um ser senciente que não o homem?
ð Alguns animais são cegos às diversas freqüências da luz visível que o homem interpreta como cor. Qual, pois, constitui a realidade?
ð Será a interpretação do homem das energias do ‘espectro eletromagnético’[como as ondas de rádio, ondas infra-vermelhas, ultravioletas, raio-x, e raios cósmicos]a realidade pura?
ð Deverá aquilo que se apresenta ao homem como uma ‘constante’, aquilo que é percebido por todas as pessoas, ser aceito como ‘realidade absoluta?’

O célebre filósofo e cientista ‘Albert Einstein disse:

“A crença num mundo exterior independente do sujeito que o percebe é a base da ciência natural. Entretanto, visto que a percepção sensorial só fornece informação desse mundo exterior ou da ‘realidade física’ indiretamente, só podemos inferir a última por meio especulativos. Segue-se que nossas noções da realidade física não podem jamais ser conclusivas. Devemos estar sempre prontos para mudar essas noções... de modo a fazer justiça aos fatos percebidos de modo mais logicamente perfeito.”

O HOMEM E O COSMOS_
Uma vez que não podemos racionalmente aceitar a TEORIA DO SOLIPISTA, de que o homem é a única realidade, e sim a de que ele é apenas uma minúscula parte do Cosmos, será o ser humano então o único fenômeno a ser admitido exatamente como ele é vivenciado?

Mais sucintamente, será o EU, o nosso ser, o único arquétipo do todo da realidade que nossa consciência pode perceber em sua verdadeira natureza?

O homem ‘existe’, e tudo o mais de que ele tem consciência também ‘existe’; mas existirão o homem e as coisas de que ele tem consciência exatamente como ele próprio as conhece?

Os homens tem em comum um padrão de avaliação pelo qual consideram a existência. Confiam nesse padrão devido à sua universalidade; isto é, todos os seres humanos ‘normais’ tem-no de igual forma. Esse padrão de avaliação consiste nas características dos sentidos objetivos e nas construções mentais que o homem faz dos mesmos. Esses instrumentos de medida inatos são as classificações de:

ð identidade;
ð quantidade;
ð qualidade;
ð continuidade;
ð tempo-espaço [sucessão]; e –
ð causalidade.

I] A ‘identidade’ é mais do que a percepção. Não se trata simplesmente dos estímulos dos sentidos objetivos específicos, como a visão, a audição, etc. Antes, identidade, é a ‘compreensão’ que decorre da experiência. Deve haver uma existência independente; em outras palavras, o que se percebe deve ser compreendido como uma espécie específica ou ‘classe’ de coisas. PÓ analogia, para que uma banana tenha identidade, não basta apenas que ela assuma para nós certa forma, certa cor, e exale um cheiro característico. Deve também ser distinta, isto é, algo em si mesma, exceto no que ela pode ser relacionada a muitas de sua própria espécie, ou àquilo que lhe parece semelhante; assim, ela é ‘identificada’ como uma classe de sensações semelhantes.

Conseqüentemente, quando somos capazes de atribuir identidade a nossas experiências sensoriais, elas assumem então uma ‘relativa’ realidade para nós. Trata-se daquilo a que atribuímos ‘significação’ e existência igual às nossas próprias, no que diz respeito à consciência.


II] O conceito de ‘quantidade’ surge da repetição da mudança espacial ou da repetição de mudança de forma, ou de ambas. Por exemplo, diversas bolinhas de gude do mesmo tamanho e da mesma cor, embora colocadas bem próximas, tem uma variação de espaço em sua posição com relação uma às outras. Esta alteração espacial implica a idéia de quantidade em contraste com a de um único objeto.

Por outro lado, objetos de diferentes cores e formas, embora agrupados, transmitem a impressão de uma repetição de mudança de forma e dos elementos da forma que fazem dos objetos coisas distintas. Obviamente, a ‘identidade’ não pode ser separada da ‘quantidade’. Deve existir aquilo que possa ser ‘percebido como algo’, para que lhe possamos atribuir quantidade. Conseqüentemente, a quantidade é outro fator que contribui para nossa crença comum na realidade da nossa experiência objetiva.

III] A idéia de ‘qualidade’
tem sua origem nas impressões de cada um de nossos sentidos objetivos. Em outras palavras, só podemos julgar a qualidade de algo pela visão, pelo paladar, aroma, som e toque. Quanto mais as impressões dos sentidos objetivos confirmem uma a outra, ou seja, contribuam para a noção de realidade, tanto mais aceitação terá a experiência. A qualidade, não obstante, é uma classificação cultivada. É algo que se avalia da satisfação proporcionada pela experiência daquilo que está sendo percebido. Por exemplo, o que é satisfatório ou prazeroso para nós, chamamos de ‘bom’. Aquilo que proporciona estas sensações é a excelência da natureza da coisa; em outras palavras, é a sua ‘qualidade’. Inversamente, aquilo que não nos é aceitável em níveis variáveis é de menor qualidade.

IV] Espaço e Tempo_ A ‘ continuidade’ ou ‘sucessão’ está relacionada com o conceito de ‘espaço e tempo’. A experiência mais comum de sucessão e tempo constitui-se dos três estados fundamentais de consciência. Em relação ao nosso estado de percepção imediata, como a visão, a ‘memória’ diz respeito ao passado. A experiência imediata por que passamos constitui o presente. Apesar de que a recordação de qualquer acontecimento esteja na categoria de experiência imediata, as impressões da memória não trazem consigo a intensidade das impressões sensoriais diretas. O que percebemos ‘agora’ normalmente causa uma impressão mais real na consciência do que uma imagem da memória.

A ‘imaginação’ sugere a noção de ‘futuro’. A mente ’normal’ pode distinguir a imagem mental criada volitivamente daquela que é ‘percebida diretamente’. Aquilo que imaginamos constitui também uma percepção do presente, porém,sabemos que não se trata da conseqüência de uma experiência sensorial imediata ou de memória. Sabemos que sua apreensão como uma atualidade pode só ocorrer num período posterior; assim, aquilo que imaginamos pode ser considerado parte de um possível futuro.

Vários fatores matemáticos, que dependem do contínuo espaço-tempo, implicam de igual modo o conceito de tempo. Por exemplo, o ponto de referência de um indivíduo no espaço modifica o conceito de tempo. Consideremos o clássico exemplo freqüentemente empregado para transmitir esta idéia. A luz viaja à velocidade de 300.000/km por segundo. De uma estrela “A”, ela leva dez anos para alcançar a Terra, e leva quatro anos para alcançar uma estrela “B”. Digamos agora que você se encontra na Terra olhando a estrela “A” através de um potente telescópio. Sua visão da mesma será no ‘presente’. Em nenhuma outra ocasião no passado ou no futuro você poderia vê-la. Para quaisquer seres na estrela “A” o evento estaria se desenrolando dez anos no passado. Para um observador na estrela “B”, o evento estaria quatro anos no passado. Assim a realidade do tempo e do espaço depende de como a ‘percebemos’, sendo ‘relativa’ à nossa posição no espaço.

V] A classificação de ‘causalidade’ normalmente se apresenta como realidade; simplesmente, parecem existir causas ‘absolutas’. Mas haverá realmente causas independentes, ou seja, causas que não dependam de qualquer fator precedente? As causas são uma concatenação de fatores que contribuem para o acontecimento que chamamos de ‘efeito’. Há uma transição de um evento [coisa] para outro, numa sucessão de causa e efeito. No entanto, nem sempre temos consciência do que antecedeu aquilo que pensamos ser a causa. Nenhum efeito está isolado, nem é inerte. Sua transição para algo diferente, porém, nem sempre é observável. Esse efeito, por sua vez, pode ser a causa de outra forma ou condição. Algo como uma causa absoluta teria de sr uma coisa imutável; não apenas imutável, mas, também uma singular criação primordial. Nenhum verdadeiro começo ou término ocorre na natureza; há somente aquela corrente de mudanças em que todas as coisas estão relacionadas. Não há qualquer realidade especifica quanto ao que percebemos serem essas mudanças em determinado momento; elas não são como nós a apreendemos.

Não estamos negando a existência do ser, da realidade, mas sim questionando nossa concepção objetiva da mesma. Citando Albert Einstein outra vez:

“Por trás dos incansáveis esforços do cientista esconde-se uma compulsão mais forte e mais misteriosa: a existência e a realidade que ele pretende compreender. Mas ele se esquiva ao uso destas palavras, pois logo se vê em dificuldades quando tem de explicar o que ele quer realmente dizer com “realidade” e “compreender” numa afirmação tão genérica como esta.”

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[Texto do Imperator]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Alucinações: Abismos ou Picos de Consciência?


Conta-se que Sócrates era guiado por inspirações e pensamentos singulares que ocasionalmente tomavam forma de vozes audíveis. Supõem-se, também, que, com cerca de quarenta anos de idade, ele tinha estados semelhantes a transe, em que podia manter a mesma postura física por horas. “Ele permaneceu imóvel desde as primeiras horas de um dia até o nascer do Sol no outro dia, por toda uma noite extremamente fria”. Hoje em dia, semelhante comportamento seria considerado sinal de grave doença mental, e, mesmo em sua própria época, Sócrates foi considerado um desequilibrado. Apesar disto, os místicos de todas as épocas relataram experiências de inspiração, de visões e sons divinos, e freqüentemente esforçavam-se por se abrir a essas experiências em intensivos [e às vezes prolongados] períodos de concentração e meditação.

Compreendemos que, as alucinações são visões mentais que se tornaram fixas em intensidade e interesse. Quando essas visões mentais estão sob controle, podem resultar nos mais profundos e criativos pensamentos.

Mas serão as alucinações sintomas dos abismos de doenças mentais, ou serão a fronteira criativa da Consciência Cósmica?

BUSCA DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA_

Com o advento do LSD [dietilamida do ácido lisérgico], a evocação de estados alterados de consciência com alucinações [as chamadas experiências psicodélicas] tornou-se mania entre os jovens da civilização ocidental, e ameaçou a estrutura social em algumas áreas da cultura do Ocidente. Embora a mania do “ácido” tenha passado, a busca de experiências psicodélicas enraizou-se numa busca maior, em todo o mundo, da consciência expandida e da consciência cósmica.

Essa busca não está livre de riscos: O “atalho” proporcionado pelas drogas [marijuana, cocaína, LSD, para citar algumas] tem provocado muitas conseqüências psíquicas desastrosas, indo de mero vício até o extremo de ferimentos físicos, de assassinatos e suicídios. Reconhecendo a fonte cósmica como a origem da consciência humana, devemos notar que não é a substância que provoca o inferno mental ou físico. Antes, é a ignorância dos princípios de domínio de si próprio que dá origem a fruto tão amargo.

Na tradição mística, a consciência humana origina-se na Consciência Cósmica, e passa por um processo de individualização e amadurecimento. Nesse processo, a consciência humana tem o potencial e o direito inato de alcançar o objetivo e a plenitude que Deus lhe determinou. A nascente consciência humana, ou personalidade-alma, é uma consciência única e pessoal, que tem à sua frente ilimitados reinos de experiência e oportunidades de auto-realização. Através do instrumento da individualidade objetiva, ela explora, testa, e experimenta um universo de experiências físicas, emocionais e espirituais no processo de individuação e amadurecimento.

Na imaginação, uma experiência com a característica de impressões sensoriais [visão, audição, paladar, etc] pode ser evocada por condições tóxicas, tumores, e substancias químicas. O sujeito não pode distinguir essa experiência de uma outra evocada pelos processos sensórios naturais, ainda que a mesma seja muito bizarra. A percepção é experimentada como real. Além disto, as alucinações podem ser provocadas por severa tensão física ou emocional.

Pacientes de hospitais para doentes mentais comumente descrevem experiências alucinatórias com estas palavras:

ð “substâncias químicas estão sendo jorradas sobre mim”;
ð “ouço chamarem meu nome”;
ð “vozes estão me dizendo para fazer coisas”.


Em certo caso, um paciente declarou que vozes o estavam dirigindo para que ele parasse com seu comportamento criminoso. Ele admitiu que ignorava essas vozes e foi subseqüentemente encarcerado.

Alguns pacientes afirmaram que as alucinações lhes foram muito significativas no momento em que ocorriam. Mas, ao fazerem uma retrospectiva, não mais reconhecem ou apreciam esse significado. Alguns pacientes, com aparente deliberação, cultivam as conversações e relacionamentos com as vozes, ignorando e mesmo afrontando a responsabilidade com relação a sua vida pessoal no tocante à realidade ordinária. Alguns desses indivíduos abusam dos ensinamentos e práticas metafísicos para conseguir experiências artificiais.

COMPREENDENDO O EU_
Existe um delicado relacionamento entre a Individualidade Objetiva, ou EU, e a personalidade-alma, que, quando equilibrado, constitui felicidade. O autodomínio é a consecução e manutenção de um estado de equilíbrio no relacionamento ente o Eu e a personalidade-alma através do curso e estágios de individuação e maturidade. Sob a perspectiva do relacionamento EU-ALMA podemos chegar a uma melhor compreensão das alucinações.

Por conveniência, podemos considerar que o curso de individuação e amadurecimento consiste de quatro fases.

ð Do ponto de vista do EU, a primeira fase diz respeito à identidade do EU como objeto. A Individualidade Objetiva está relacionada com o domínio das sensações e motivações físicas.
ð Na segunda fase o EU desenvolve sua identidade como uma entidade social. Ocupa-se do refinamento de suas relações com os seres humanos e outras criaturas.
ð A terceira fase implica na determinação, por parte do EU, de sua identidade com o universo. O EU desenvolve a consciência das dimensões ampliadas da realidade pessoal no contexto tempo-espaço.
ð A quarta fase diz respeito à identidade do EU como fonte. A experiência de identificação e identidade com o Cósmico torna-se o fator central.

O conteúdo das alucinações reflete o relacionamento EU-ALMA e a fase da individuação. O solo fundamental da fase um e dois é a separatividade. A comunicação entre a Personalidade-Alma e o EU será experimentada como se proviesse de fora. Em primeiro lugar os signos e símbolos mais significativos do EU são objetos. A comunicação provinda da alma será em termos de signos “miraculosos” de objetos estranhamente transformados. OU, na segunda fase, a comunicação pode tomar a forma de eventos ou acontecimentos sociais especialmente significativos.

A qualidade da experiência será colorida pelas emoções, pensamentos, e atitudes características do relacionamento EU-ALMA na ocasião. No caso de considerável imaturidade, de ‘stress’, irresponsabilidade, ou medo e hostilidade, a experiência de comunicação com a Personalidade-Alma será grandemente distorcida e percebida como ameaçadora. No estado de harmonia e apropriada responsabilidade por si próprio, a comunicação pode ser experimentada como uma co-participação benigna e sustentadora.

Com muita freqüência, quando se ministram drogas para suplantar os mecanismos fisiológicos da consciência, seja por medo ou ignorância, a pessoa vem a experimentar a característica de separação mais intensamente e a conferir maior realidade à crença de que o poder reside nas drogas como objetos. Analogamente, pode-se abusar de práticas místicas para forçar um estado alterado de consciência, realçando a intensidade da separatividade e o temor da realidade objetiva.

As terceiras e quarta fases da individuação são mais apropriadas do que as duas primeiras à busca de uma consciência superior. A Individualidade Objetiva será estabelecida e bem embasada em sua experiência de relacionamentos objetivos e sociais. A direção eficiente das necessidades físicas e emocionais estará baseada na compreensão madura, produto da prática e experiência. O autodomínio na experiência das emoções e pensamentos será eficazmente atingido. A Individualidade Objetiva, como um veículo da experiência, estará preparada para apreciar e traduzir experiências universais cada vez mais sutis. O relacionamento entre o EU e a ALMA estará apto a sustentar a necessariamente refinada cooperação entre as consciências objetiva e subjetiva.

O solo fundamental das fases três e quatro é a UNIDADE. A comunicação entre a Personalidade-Alma e o EU será experimentada como se proviesse da dimensão do próprio indivíduo. A comunicação tem a qualidade de aprofundar a compreensão e expandir a riqueza de significado. Objetos físicos e eventos sociais tornam-se contidos num contexto de significado e valor. O senso de identidade pessoal, outrora obscurecido pelo medo e pela luta pela sobrevivência, torna-se iluminado por uma co-participação divina e pela antecipação de um futuro inimaginável.

Sócrates era um desequilibrado na mente dos ignorantes, e louco aos olhos dos temerosos. Entretanto, tornou-se grande ante os olhos da história por sua coragem de viver sua vida na verdade. De que outro modo poderíamos nós vir a conhecer a PAZ PROFUNDA?
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[Texto de Richard A. Rawson]