quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aristóteles e a Busca da Certeza


Verdade é certeza. Não obstante, a certeza que é verdade esquiva-se à descoberta somente pelo intelecto; precisa ser também vivenciada pela alma. Ou assim declara Platão, que é um idealista, porque para ele o universo é bom e sua filosofia é um instrumento para provar a presença do bem em toda a Criação, como está expresso na máxima: “assim como em cima é embaixo”.

Por outro lado, o discípulo de Platão, Aristóteles, estabelece uma divisão na filosofia platônica; não nos aspectos primários do conhecimento [“as divinas e imutáveis realidades transcendentes”] mas apenas nos aspectos secundário ou “realísticos” do conhecimento. Evidentemente, os admiráveis ensinamentos de Aristóteles sobre lógica, ética e física foram e continuam a ser a pedra angular da civilização como a conhecemos hoje em dia. Entretanto, uma filosofia que limita sua aplicação à explicação dos fenômenos físicos da natureza corre o perigo de se tornar, ela própria, ‘irrealista’, no sentido de que as religiões do passado e do presente se tornem literalizadas.

Mesmo filósofos posteriores, como lamblico, Siriano e Plotino, na tentativa de preservar os ensinamentos de Pitágoras e Platão, enfrentaram obstáculos colocados pela filosofia de Aristóteles. A divina filosofia ficou dividida nos campos opostos do provável e do improvável. Todavia, dentro da filosofia platônica, a teologia e a ciência, como extensões ideais de polaridade, estavam suspensas de modo neutro entre o improvável e o provável. Por outro lado, a pessoa culta comum, então como agora, tem dificuldade para alcançar a disciplina abstrata necessária a uma compreensão experencial da geometria pitagoriana, para não falar nos arquétipos da Alma platônicos.

Aristóteles era um realista. Por toda a sua vida não conseguiu encontrar lugar para algo que não se ajustasse a fatos demonstráveis na natureza e suscetíveis de classificação em categorias. Não obstante, realizou um grande bem ao se opor às extravagâncias de pensadores abstratos; apenas levou esse ponto longe demais.

Em nossa cultura computadorizada, que muda rapidamente, muitos homens e mulheres de modo geral cultos não estão conscientes de sua dívida para com Aristóteles, embora a tendência para o experimental e o particular tenha dominado o escolasticismo religioso e científico por mais de dois mil anos. Obviamente, então, Aristóteles pode ser uma pessoa muito interessante de se conhecer melhor, mas o que é que realmente se sabe a respeito do homem propriamente? Bem pouco. Para o leitor com discernimento, pode haver um lado humorístico numa análise do mestre da análise científica.

A julgar pelas descrições e figuras de Aristóteles que chegara até nós, parece que ele era um homem de corpo pequeno e feições aquilinas. No busto herculaneano ele é visto sem barba, com cabelo curto e encaracolado, olhos fundos e penetrantes, queixo firme e agressivo, e lábios finos demais para uma disposição agradável – estando esta última observação em conformidade com um crítico. Mas parece que Aristóteles não tinha boa saúde. Sofria consideravelmente de dispepsia, que é tida tradicionalmente como “mal de ponto de vista”. Além disso, ele tem sido citado como propenso a discussões por natureza, de forte opinião pessoal e bastante intolerante para com aqueles que discordavam dele e que por sua vez o resumiam como “um mecanismo de pensar não tocado pelos sobretons da percepção mística”.

A declaração acima não é nada elogiosa, tratando-se de um homem quase deificado pela comunidade religiosa do passado e do presente! Haverá nisso algo mais que uma atitude do tipo “raposa e as uvas”? E quem pode responder, considerando que, quando é feita uma pesquisa imparcial, bem pouco parece restar para nos fazer amar Aristóteles como ser humano? Ele parece ter sido uma pessoa de pouco senso de humor. Seu enfoque de todo problema é de uma seriedade extrema que as vezes se torna opressiva.

Como um outro aspecto psicológico, é possível que tenha havido considerável dissipação de várias intemperanças em sua juventude, pois seu temperamento parece trazer a marca da pessoa auto-reformada. E é sabido que, quando um homem se arrepende de erros na sua maneira de agir, pode desenvolver uma atitude excessivamente virtuosa que leve a extremos e o faça tender a ser fanático em sua vida e em seu pensamento. Por um lado, e em sua defesa, Aristóteles era uma mente muito avançada para ser fanático, mas, por outro lado, seus discursos filosóficos indicam um inegável tom de amargura e ‘cinismo’ no sentido comum desta palavra. Esse cinismo ou essa irritação mental pode ter sido causada pela insistência de Aristóteles, ao longo de toda a sua vida, em limitar sua filosofia “exclusivamente” à explicação dos fenômenos físicos da natureza. Mas, como sabem todos os estudantes, a matéria encerra mudança – alteração constante – e as teorias científicas estão sempre se modificando.

Se Aristóteles tivesse atentado para os últimos discursos de Platão, poderia ter poupado ao mundo muita incompreensão e dificuldade. Platão conhecia filosofia “in totum”, como Aristóteles jamais conheceu. Mas isso não significa necessariamente, que Aristóteles negava realidades espirituais, e sim que ele edificava sua compreensão das mesmas em bases físicas, apegando-se por toda a sua vida ao visível como a suprema certeza. Era sua conhecida convicção: “O que eu vejo, assim é;o que eu não posso ver, talvez assim seja.”

Aristóteles, honrado hoje em dia como o filósofo que possibilitou a cultura moderna e o moderno modo de viver, tornou-se o guia infalível dos acadêmicos medievais. Destes já se disse que “apanharam os ossos das convicções de Aristóteles, até que não restou o suficiente da carcaça para fazer uma sopa”.

Por estranho que pareça, a Igreja Católica, atuando quase exclusivamente na esfera do improvável, desenvolveu uma paixão quase descomedida por Aristóteles. Em alguns casos, imagens do filósofo foram colocadas lado a lado com imagens do Mestre Jesus. Os primeiros teólogos aplicaram as classificações de Aristóteles às abstrações de sua fé, com um resultado espantoso. A concretização do cristianismo tornou-se uma obsessão para os escolásticos e, paradoxalmente, o resultado foi um complicado universo teológico, cheio de certezas incertas!

Para Platão e os demais gregos esclarecidos, os deuses, semideuses, as ninfas e os espíritos, eram símbolos místicos dos grandes poderes criativos da natureza. Esses poderes, propriamente chamados “seres espirituais”, não tinham nenhuma semelhança com o físico ou corpóreo, mas eram de várias maneiras simbolizados nas formas de imagens e figuras religiosas. Os seres espirituais mencionados na Bíblia eram também criaturas simbólicas que representavam poderes divinos presentes no espaço e que dirigiam o mundo. Ora, ao nível da mente subconsciente, imagens arquetípicas são perfeitamente aceitáveis, mas essas abstrações eram insatisfatórias para aqueles que haviam assumido o ponto de vista aristotélico e tinham de racionalizar sua doutrina de modo que ela se ajustasse ao pensamento mundano e concreto. O resultado foi um aglomerado de absurdos religiosos, e foram gastos séculos na tentativa de tornar o natural sobrenatural.

Nesta linha de pensamento e num tom mais leve, consideremos alguns exemplos dignos de nota de um livro publicado em Londres, em 1607, citado em “Jornada pela Verdade”, de M. P. Hall. Muito conhecido hoje em dia é o problema verdadeiramente aristotélico de quantos anjos poderiam dançar na ponta de um alfinete ao mesmo tempo. Também no espírito aristotélico houve o esforço de determinar a localização geográfica exata do Jardim do Éden. Podemos também imaginar com que alegria Aristóteles teria posto as mãos numa das penas [verde-claras] do anjo Gabriel, que foi descoberta uma pequena arca envolta em tafetá.Com uma pena como ponto de partida, o ávido Aristóteles tinha o “fato” de que necessitava. E, partindo desse “fato”, seria tão fácil reconstruir a pessoa de Gabriel como seria fácil para um cientista moderno remontar um dinossauro a partir de um único osso. A suspeita de que a pena da asa do Arcanjo Gabriel provinha da cauda de um papagaio proporcionou outro ótimo ponto para a discussão teológica. Foi finalmente decidido que a pena tinha sido arrancada da asa do anjo na ocasião em que ele aparecera à Virgem Maria para anunciar a imaculada conceição. Presumivelmente, a própria Virgem embrulhara a pena em tafetá, de modo que ela pudesse vir a ser uma das sete maravilhas do mundo da teologia. Um outro importante item de reverência religiosa foi uma unha de um querubim. E depois, maravilha das maravilhas, num ataúde de inestimável acabamento, foi encontrada uma das costelas do Verbo feito carne!

No tocante a encontrar prova para o improvável, a teologia demonstrou rara genialidade e considerável coragem, se não convicção. Sempre me pareceu que seria realmente difícil encontrar-se relíquia mais convincente do que um dos longos raios da estrela de Belém. Esse raio parece ter sido quebrado e guardado por um dos três Magos que foram adorar a Jesus na manjedoura. Quase tão convincente foi uma pequena garrafa dentro da qual havia notas que teriam sido entoadas pelas abelhas do Templo de Salomão.

Naturalmente, Aristóteles teria sido o primeiro a ridicularizar essas relíquias; mas ele foi indiretamente responsável pelo tipo de mentalidade que as imaginou como reais. E nem mesmo com essas fantasias teve fim essa triste história. A teologia resolveu eliminar todas as incertezas de suas crenças. E assim um elaborado sistema de leis e estatutos eclesiásticos foi instituído, sobrecarregando a religião com uma espécie de jurisprudência celestial. Todas essas leis foram consideradas infalíveis, embora nós, modernos, pudéssemos encarar seus autores como obviamente falíveis. Seja como for, a Igreja tem lutado desde então com essas “infalíveis” fantasias de tipo aristotélico. Por causa dessas desventuras filosóficas, a religião deixou de ser guiada por sua sublime inspiração espiritual e, de modo geral, tornou-se tão literalizada que de fato causa espanto ao intelecto mas dá bem pouco conforto ao coração.

Tivemos assim um vislumbre do que a filosofia aristotélica criou ao ser aplicada às abstrações da religião. O que pode ser de grande interesse aqui e agora é como os diversos aspectos da filosofia de Aristóteles continuam a afetar a ciência e a vida no mundo moderno. A compreensão de como funcionava a mente de Aristóteles pode ser conseguida comparando-se suas opiniões básicas com as de Platão, onde as duas opiniões estão em conflito. Parra o estudante, essa comparação pode parecer muito relevante e evidente; mas a revisão é claramente como encontrar um velho amigo. [Texto de Burnam Schaa]

CURA METAFÍSICA:UMA DEMONSTRAÇÃO CIENTÍFICA


Há, em todo o mundo, um denominador comum que é notado nas várias espécies de sistemas de cura metafísica. Em todos os métodos eficazes, o curador entra em um estado no qual estabelece contato com uma personalidade ou energia curativa, pondo-se, portanto, em harmonização com a Mente Cósmica. Em algumas civilizações, o curador poderia a isso se referir como transe, em outras como estado meditativo, hipnótico, ou como um afastamento do mundo exterior, semelhante ao sonho. Em todos os casos, porém, o curador a distância tem a sensação de abandonar a identidade e a volição. Sem dúvida, é a extrema receptividade mental, característica nos curadores a distância, que causa a sensação de que ele ou ela não é a causa da cura, mas, apenas, o instrumento de uma energia cósmica.

Uma segunda característica comum do curador psíquico é a sensação de identidade com o paciente ou pacientes. Experimentalmente, a unificação parece ser semelhante à associação de um sujeito hipnótico com o ambiente, tão logo o sujeito abandone sua superestrutura pessoal. Unido, por esse elo comum, com o paciente, o curador mobiliza e ajuda o mecanismo de auto-restauração do paciente. Assim, o paciente fundamentalmente cura a si mesmo pelo aceleração de seus próprios mecanismos de restauração do corpo. Todavia, como acontece com qualquer arte, a prática da cura a distância em uma sociedade requer treinamento, sistema experiência.

Além da aptidão e experiência do curador, um outro critério, menos observado e no entanto mais importante, existe. Desde que o curador deve se tornar receptivo à luz cósmica, o paciente também deverá estar receptivo ao influxo dessa luz. O curador atua como amplificador dessa luz. Ele não é a própria luz. Como amplificador, está harmonizado com a vibração cósmica; não modifica nem modula a vibração, porém pode canalizá-la, partilhando aquilo que recebe com o paciente com o qual também está harmonizado. O curador é um elo, embora não apenas um elo, entre o Cósmico e o paciente. Na verdade, ele está, melhor dizendo, em uma condição de ressonância entre o Cósmico e o paciente, e induz, por meio da ressonância, um equilíbrio harmonioso no paciente receptivo. Se o paciente não estiver “aberto” e receptivo à harmonia cósmica, o processo indutivo não poderá prosseguir. A maior causa de fracasso na cura psíquica é a falta de receptividade do paciente.

Tem sido e ainda está sendo demonstrado nos laboratórios, que é possível observar a harmonização indutiva por meio da arte de cura a distância. Em um dos experimentos contínuos, aos pacientes foi solicitado que se relaxassem. A eles foi dito que a potencialidade de seu corpo seria medida, embora eles pudessem meditar pelo espaço aproximado de uma hora. Os pacientes foram ainda instruídos no sentido de que durante esse período de meditação eles deveriam manter uma atitude de receptividade. Nas instruções preliminares, a atitude de receptividade e observação passiva foi enfatizada.

Os pacientes foram, em seguida, acolchetados a um voltímetro registrador, em zero [Hewllet Packard n. 419 A]. Um elétrodo de ouro, positivo, foi colocado no dedo indicador da mão direita, e um elétrodo de ouro, negativo, no dedo indicador da mão esquerda. O contato direto metal-pele foi evitado por meio de uma ‘ponte’ consistindo de uma solução de cloreto de sódio fisiológico. Sem conhecimento do paciente receptivo, o curador estava se harmonizando com o Cósmico e com o paciente.


Para que um tratamento seja bem sucedido, o paciente deverá se tornar receptivo e cooperativo; deverá desejar que uma mudança se processe em sua vida e em sua atitude para com a vida; deverá estar desejoso e preparado para aprender lições novas, a fim de poder cumprir a lei de compensação cósmica. Somente então poderá conseguir alívio físico e mental. Por meio desse processo, o curador poderá ajudar o indivíduo receptivo a restaurar a harmonia física e a estabilidade mental.

No primeiro experimento preliminar aqui relatado, o paciente não foi informado de que seria objeto da ajuda metafísica do curador. Sabia, apenas, que deveria manter um estado meditativo de receptividade. Durante um período de dezesseis minutos, o paciente gerou um potencial elétrico estável, no corpo, de – 16mv [milivolts]que, neste caso, significa que houve uma diferença de-16mv no potencial elétrico transferido de sua mão esquerda, negativa, para a mão direita, positiva. Esse registro é um pouco elevado, indicando possivelmente uma ansiedade de longa data ou a cura de uma doença ou trauma. Os registros normais geralmente situam-se na faixa de -1 a -10mv.

Uns poucos segundos após 12,51 PST, o curador, começou o tratamento do paciente. Instantaneamente, o potencial do corpo do paciente baixou para zero, indicando uma condição plenamente equilibrada no campo energético do corpo do paciente. O curador atuou por 90 segundos, e durante esse tempo o potencial do corpo do paciente permaneceu estabilizado em zero. Ao término do período de visualização do curador, o potencial do corpo do paciente voltou a -13mv. Durante o período de trabalho regular,o paciente rapidamente voltou a um potencial zero e então, uma vez mais, para -13mv. Durante o espaço de quinze minutos, o potencial gradativamente diminuiu para -11mv e, em seguida, subitamente baixou para uma condição estabilizada em que permaneceu por 30 minutos, tempo em que o experimento terminou. Os pacientes que tomaram parte em experimentos de cura a distância não se aperceberam das mudanças no potencial, na ocasião em que elas ocorreram. Eles apenas relataram uma sensação de bem-estar, que atribuíram ao seu período de meditação receptiva.

As mudanças surpreendentes e drásticas no potencial do corpo observadas nesse experimento, foram realmente excepcionais. Embora seja possível lentamente levar o potencial do corpo a uma condição mais estabilizada exclusivamente por meio da meditação e da relaxação, são necessários trinta a sessenta minutos para que os pacientes numa faixa de-8 a -10mv baixem para uma faixa de -1 a -3mv.

Embora não se faça milagres, este experimento demonstra, empiricamente, que a arte de cura a distância pode afetar, e realmente afeta, a aura eletromagnética, ajudando o Cósmico na restauração da estabilidade, da saúde, e da harmonia, em indivíduos receptivos. O trabalho, de cura, é ao mesmo tempo, prático e estimulante. É um trabalho que promove mudanças e melhoria na personalidade. Para todos aqueles que buscam: para todos aqueles que sonham e para todos aqueles que se tornam receptivos à harmonização com o Cósmico, a arte da cura a distância oferece esperança e confiança.
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[Texto de:Alden Holloway e George F. Buletza Jr (com adaptações)].

domingo, 17 de janeiro de 2010

É JUSTIFICÁVEL A EUTANÁSIA?_


O valor que o homem atribui à vida varia segundo a época. Essa variação é determinada tanto pelo próprio indivíduo como pela influência da cultura em que vive. Parece que a vida é o bem mais caro do homem pois, afinal de contas, direta e indiretamente todos os seus interesses e atividades centralizam-se na satisfação e preservação da vida.

Por outro lado, parece que os seres humanos tem voluntariamente sacrificado a vida em favor de certos ideais como o patriotismo, a religião e a compaixão. Nessa última categoria, a compaixão, o EU físico pode ser sacrificado para preservar aspectos superiores do EU. Por exemplo, a pessoa salva a vida de outra por causa daquele sentimento inato para com o valor da vida que transcende seu próprio ser com relação ao outro.

Contudo, será a vida apenas uma propriedade do individuo, ou será ela um atributo coletivo da sociedade. È o indivíduo o único possuidor de sua vida, ou sua vida é um atributo sobre o qual os outros tem direito e controle?

Esses dois pontos de vista com relação à vida tem existido há milhares de anos, desde as culturas primitivas até a nossa sociedade moderna. Em certas épocas, um desses dois pontos de vista era considerado o valor supremo da vida. Através da história, esses pontos de vista têm variado, cedendo às circunstâncias: ou justificando o valor do indivíduo, ou o da sociedade.

Para as mentes primitivas, vida e morte podem ter igual valor. Reconhecem, naturalmente, a diferença entre os dois fenômenos, mas não consideram um dos fenômenos necessariamente superior ao outro. Para a mente primitiva, a morte é mais misteriosa que a vida, porque a morte natural é inexplicável para ela. A transição pode ocorrer sem nenhuma causa perceptível. Se, por exemplo, o indivíduo morre sem estar ferido, a mente primitiva acredita que isso se deve a uma causa sobrenatural. Acredita ela que o morto foi vítima dum ‘feiticeiro’ ou de ‘espíritos malignos’.

MAGIA PRIMITIVA_
Na África, a causa incompreendida duma morte natural pode ser atribuída a um a ato duma tribo hostil ou de vizinhos maldosos. Paralelamente a essas idéias existem noções bem mais esclarecidas sobre a cessação da vida. Assim, os dois extremos podem existir em diferentes culturas [ou em segmentos da mesma cultura] da região.

Entre os aborígines australianos, constatamos a crença de que o indivíduo pode manipular forças naturais para provocar a morte. Eles podem pensar que práticas mágicas ocasionaram a morte dum amigo ou membro da família. A magia, porém, é a crença de que o homem pode aprender a “manipular” forças naturais e forças supostamente sobrenaturais para realizar seus desejos.

Na verdade, muitos ritos primitivos de magia aproximam-se do poder psicológico da sugestão. Podemos dizer também que o estudo e observação criteriosa das chamadas forças sobrenaturais da magia primitiva gradualmente levou à descoberta de “leis naturais” subjacentes.

Em certas sociedades primitivas, o bem-estar do indivíduo é bem menos importante que a sociedade como um todo. Acreditam elas que a sociedade confere todos os benefícios ao indivíduo. Mas simplesmente: tudo o que o indivíduo realize é resultado dum ‘poder’ emanado do grupo ao indivíduo.

Conseqüentemente, o indivíduo é ‘sacrificado’ quando acredita-se que ele minorou a força e função da comunidade. Assim, é comum o sacrifício humano nessas sociedades primitivas.

Os chefes de certas culturas primitivas e isoladas muitas vezes impõem o ‘infanticídio’. Fazem isso para restringir o crescimento populacional que poderia acarretar a escassez de alimentos e a fome. Podem recorrer a esse sacrifício quando o crescimento populacional pareça ameaçar quaisquer necessidades tribais.

RITOS DE SACRIFÍCIO_
Antigas civilizações adotavam muitas práticas de sacrifício da vida em favor da comunidade. Freqüentemente, os indivíduos que seriam sacrificados apresentavam-se como “voluntários”. Estrabão, o antigo historiador, fala de homens muito velhos, reunidos e enfestoados como para um banquete. Após um rito simples, bebiam cicuta, um narcótico venenoso. Compreendiam que tinham alcançado a idade em que não mais podiam servir à pátria e seriam um peso para seus compatriotas. Esse não era um ato de excepcional voluntariedade, mas de lealdade ao dever que deles se esperava.

Plutarco, relata um costume pelo qual os pais levavam o recém-nascido aos anciões nomeados, para que o examinassem. Se constatassem que a criança era enferma ou defeituosa, era ela atirada ao precipício. Faziam isso porque a vítima era considerada inadequada para o estado. Outro costume das antigas tribos gregas era conhecido como “sacrifício por exposição”. Os anciões e os defeituosos eram levados a uma montanha, sendo ali deixados ‘expostos’ aos elementos e animais.

Em outros casos, a vida humana é considerada como simples componente essencial ou parte duma unidade necessária que não deve ser preservada quando não mais pode fazer contribuições à sociedade e o seu valor ficou depreciado. Esse raciocínio primitivo entende que um elo especialmente fraco não tem permissão de destruir toda a corrente.

Para a mente moderna, esses atos parecem cruéis, completamente isentos de compaixão e idealismo moral. Mas que temos a dizer sobre as ‘guerras’ de todos os tempos? Milhares de vidas humanas, servindo obrigatoriamente ao exército dum rei ou ditador, foram sacrificadas em favor da ânsia de conquista e poder. Muitas dessas guerras foram deflagradas sob o pretexto de patriotismo.

Pensávamos que a ‘religião’, preocupada fundamentalmente em salvar o homem da corrupção da vida mundana, atribuísse maior valor ao fenômeno da vida. Entretanto, a história das práticas religiosas demonstra o contrário.

Certas seitas hindus ocasionalmente cometiam suicídio religioso. O indivíduo, sendo motivado por interpretação de algum livro sagrado, oferecia sua vida para alcançar uma benção espiritual por ele concebida. Ele fazia um voto à deidade, e passava então a jejuar até à morte, ingeria veneno, afogava-se, imolava-se ou atirava-se a um precipício. Nessas circunstâncias o ideal que ele nutria e o impulso emocional transcendiam o seu impulso de sobrevivência.

Os ‘jainistas’, proeminente e próspera seita religiosa da Índia, condenam essas práticas, considerando-as ‘mortes insensatas’. Por outro lado, em seus livros sagrados, estabeleceram o que chamam de “morte sábia”. Se um jainista contraiu uma doença mortal, e não pode por isso ‘escapar’ à morte, pode recorrer à morte pela fome. Segundo as práticas religiosas, um monge jainista pode submeter-se a anos de ascetismo através de auto-mortificação e autonegação. Se o monge não puder agüentar o ascetismo é melhor cometer suicídio que violar as regras de não se alimentar dos jejuns prolongados. Tão fundamentais são as regras de suicídio religioso, que estão contidas em três livros canônicos.

PONTOS DE VISTA RELIGIOSOS MODERNOS_
De que modo a sociedade ocidental moderna encara a questão de conceder-se o direito de escolher-se deliberadamente a morte, ou a eutanásia, como é chamada? Esse é um tema muitíssimo ‘controverso’. Existem dois pontos de vista básicos e opostos. O primeiro, é o conceito moral, ‘religioso’. Esse conceito declara que o homem não tem a plena posse de sua vida; simplesmente: não pode ele dispor de sua vida como queira. A vida é considerada um dom divino, espiritual, que o homem recebe sob certas ‘obrigações’. Essas obrigações são definidas diferentemente pelos vários credos. Em certo sentido, acredita-se que o homem precise redimir-se dum pecado original através dum processo de ‘salvação’. Por conseguinte, tirar a vida, em quaisquer circunstâncias, é revogar o sagrado dever de buscar a salvação. Houve mesmo um filósofo grego que disse que o homem não tem o direito de destruir sua vida, pois ela não é sua, mas dos deuses.

Existe ainda um fundamento racional em certas religiões, quando dizem que os sofrimentos, por mais severos que sejam, contribuem para a purgação da alma, purificando-a dos pecados que cometeu em sua existência mortal.

Em geral, a religião ‘não’ equipara vida e alma. Para ela a alma transcenderia o fenômeno da vida. Mas a vida seria uma acessório necessário à alma: em outras palavras, a vida atuaria como um veículo ou canal. Por isso, nesse sentido, a vida adquire um caráter sagrado à parte do instinto de sobrevivência.

DEVE A VIDA CONTINUAR?_
O outro ponto de vista, o ‘pragmático’, considera a dor e o sofrimento como anormalidades. O pragmatista acredita que o objetivo primordial do ser humano normal é evitar a dor ou a desarmonia das funções corporais. Afirma que uma pessoa que sinta dores aguda é incapaz de cumprir suas funções mentais e físicas normais. A vida, para ele ou ela, é uma miséria. Por séculos os sistemas e ciências terapêuticos tiveram como ideal não apenas a preservação da vida, mas a eliminação de sofrimentos para que a vida não fosse um suplício.

Do ponto de vista ‘pragmático’, será que um indivíduo que sofra duma doença incurável e sinta dores extremas deva ser mantido vivo apenas em função duma existência infrutífera e atormentada? Será justificável essa ação quando essas condições de sofrimento são cientificamente constatadas e o doente ‘deseja a transição’ também?

A “sociedade adiantada” dedica-se à preservação da vida, mas os defensores do ponto de vista pragmático podem perguntar: Deverá a vida continuar a despeito do que custe ao indivíduo? Podem ainda perguntar: Terá uma vida assim qualquer valor para o indivíduo, quando não há alternativa para a sujeição ao sofrimento que cresce?

Ao recusar-se a permitir [mesmo contra as opiniões profissionais e os desejos do paciente] a morte indolor como alternativa para um sofrimento extremo e infindável, não estará também a sociedade moderna adotando um ponto de vista semelhante ao da sociedade primitiva? Em outras palavras, observamos que na sociedade primitiva o indivíduo tinha pouca importância em contraste com os costumes e crenças da sociedade. Será que o indivíduo de hoje deve ser sacrificado em nome da ‘preservação da vida’?

O pragmatismo pode perguntar ao moralista religioso: Você acredita realmente que uma entidade divina, um deus, imporia penalidades a alguém que buscasse morrer devido às condições acima, situação em que a vida seria um verdadeiro inferno?

Existem, naturalmente, problemas legais quanto à responsabilidade de concluir se o paciente é verdadeiramente incurável e se o sofrimento poderia continuar por um período prolongado antes de a morte ocorrer. Obviamente, essa é uma questão dificílima a ser considerada.

Cedo ou tarde a sociedade arbitrará essa questão de um modo inteligente. “A morte por misericórdia”, ou “eutanásia”, pode ser contrária à doutrina defendida por certas pessoas, mas, por outro lado, poderia ser apoiada por aqueles que defendem o outro ponto de vista humanitário.

Não oferecemos aqui nenhum parecer final, mas achamos que qualquer revisão do tema deverá estar isento de qualquer parcialidade ou opinião preconcebida – se isso for possível. Por isso, devemos dar atenção ao tema da “eutanásia”. Devemos compreender, porém, que a ‘dor’ não é meramente uma questão religiosa ou moral a ser considerada, mas um estado muito ‘individual’ e ‘intimo’ para aquele que a está sentido. [Texto de Ralph M. Lewis].