terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Alucinações: Abismos ou Picos de Consciência?


Conta-se que Sócrates era guiado por inspirações e pensamentos singulares que ocasionalmente tomavam forma de vozes audíveis. Supõem-se, também, que, com cerca de quarenta anos de idade, ele tinha estados semelhantes a transe, em que podia manter a mesma postura física por horas. “Ele permaneceu imóvel desde as primeiras horas de um dia até o nascer do Sol no outro dia, por toda uma noite extremamente fria”. Hoje em dia, semelhante comportamento seria considerado sinal de grave doença mental, e, mesmo em sua própria época, Sócrates foi considerado um desequilibrado. Apesar disto, os místicos de todas as épocas relataram experiências de inspiração, de visões e sons divinos, e freqüentemente esforçavam-se por se abrir a essas experiências em intensivos [e às vezes prolongados] períodos de concentração e meditação.

Compreendemos que, as alucinações são visões mentais que se tornaram fixas em intensidade e interesse. Quando essas visões mentais estão sob controle, podem resultar nos mais profundos e criativos pensamentos.

Mas serão as alucinações sintomas dos abismos de doenças mentais, ou serão a fronteira criativa da Consciência Cósmica?

BUSCA DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA_

Com o advento do LSD [dietilamida do ácido lisérgico], a evocação de estados alterados de consciência com alucinações [as chamadas experiências psicodélicas] tornou-se mania entre os jovens da civilização ocidental, e ameaçou a estrutura social em algumas áreas da cultura do Ocidente. Embora a mania do “ácido” tenha passado, a busca de experiências psicodélicas enraizou-se numa busca maior, em todo o mundo, da consciência expandida e da consciência cósmica.

Essa busca não está livre de riscos: O “atalho” proporcionado pelas drogas [marijuana, cocaína, LSD, para citar algumas] tem provocado muitas conseqüências psíquicas desastrosas, indo de mero vício até o extremo de ferimentos físicos, de assassinatos e suicídios. Reconhecendo a fonte cósmica como a origem da consciência humana, devemos notar que não é a substância que provoca o inferno mental ou físico. Antes, é a ignorância dos princípios de domínio de si próprio que dá origem a fruto tão amargo.

Na tradição mística, a consciência humana origina-se na Consciência Cósmica, e passa por um processo de individualização e amadurecimento. Nesse processo, a consciência humana tem o potencial e o direito inato de alcançar o objetivo e a plenitude que Deus lhe determinou. A nascente consciência humana, ou personalidade-alma, é uma consciência única e pessoal, que tem à sua frente ilimitados reinos de experiência e oportunidades de auto-realização. Através do instrumento da individualidade objetiva, ela explora, testa, e experimenta um universo de experiências físicas, emocionais e espirituais no processo de individuação e amadurecimento.

Na imaginação, uma experiência com a característica de impressões sensoriais [visão, audição, paladar, etc] pode ser evocada por condições tóxicas, tumores, e substancias químicas. O sujeito não pode distinguir essa experiência de uma outra evocada pelos processos sensórios naturais, ainda que a mesma seja muito bizarra. A percepção é experimentada como real. Além disto, as alucinações podem ser provocadas por severa tensão física ou emocional.

Pacientes de hospitais para doentes mentais comumente descrevem experiências alucinatórias com estas palavras:

ð “substâncias químicas estão sendo jorradas sobre mim”;
ð “ouço chamarem meu nome”;
ð “vozes estão me dizendo para fazer coisas”.


Em certo caso, um paciente declarou que vozes o estavam dirigindo para que ele parasse com seu comportamento criminoso. Ele admitiu que ignorava essas vozes e foi subseqüentemente encarcerado.

Alguns pacientes afirmaram que as alucinações lhes foram muito significativas no momento em que ocorriam. Mas, ao fazerem uma retrospectiva, não mais reconhecem ou apreciam esse significado. Alguns pacientes, com aparente deliberação, cultivam as conversações e relacionamentos com as vozes, ignorando e mesmo afrontando a responsabilidade com relação a sua vida pessoal no tocante à realidade ordinária. Alguns desses indivíduos abusam dos ensinamentos e práticas metafísicos para conseguir experiências artificiais.

COMPREENDENDO O EU_
Existe um delicado relacionamento entre a Individualidade Objetiva, ou EU, e a personalidade-alma, que, quando equilibrado, constitui felicidade. O autodomínio é a consecução e manutenção de um estado de equilíbrio no relacionamento ente o Eu e a personalidade-alma através do curso e estágios de individuação e maturidade. Sob a perspectiva do relacionamento EU-ALMA podemos chegar a uma melhor compreensão das alucinações.

Por conveniência, podemos considerar que o curso de individuação e amadurecimento consiste de quatro fases.

ð Do ponto de vista do EU, a primeira fase diz respeito à identidade do EU como objeto. A Individualidade Objetiva está relacionada com o domínio das sensações e motivações físicas.
ð Na segunda fase o EU desenvolve sua identidade como uma entidade social. Ocupa-se do refinamento de suas relações com os seres humanos e outras criaturas.
ð A terceira fase implica na determinação, por parte do EU, de sua identidade com o universo. O EU desenvolve a consciência das dimensões ampliadas da realidade pessoal no contexto tempo-espaço.
ð A quarta fase diz respeito à identidade do EU como fonte. A experiência de identificação e identidade com o Cósmico torna-se o fator central.

O conteúdo das alucinações reflete o relacionamento EU-ALMA e a fase da individuação. O solo fundamental da fase um e dois é a separatividade. A comunicação entre a Personalidade-Alma e o EU será experimentada como se proviesse de fora. Em primeiro lugar os signos e símbolos mais significativos do EU são objetos. A comunicação provinda da alma será em termos de signos “miraculosos” de objetos estranhamente transformados. OU, na segunda fase, a comunicação pode tomar a forma de eventos ou acontecimentos sociais especialmente significativos.

A qualidade da experiência será colorida pelas emoções, pensamentos, e atitudes características do relacionamento EU-ALMA na ocasião. No caso de considerável imaturidade, de ‘stress’, irresponsabilidade, ou medo e hostilidade, a experiência de comunicação com a Personalidade-Alma será grandemente distorcida e percebida como ameaçadora. No estado de harmonia e apropriada responsabilidade por si próprio, a comunicação pode ser experimentada como uma co-participação benigna e sustentadora.

Com muita freqüência, quando se ministram drogas para suplantar os mecanismos fisiológicos da consciência, seja por medo ou ignorância, a pessoa vem a experimentar a característica de separação mais intensamente e a conferir maior realidade à crença de que o poder reside nas drogas como objetos. Analogamente, pode-se abusar de práticas místicas para forçar um estado alterado de consciência, realçando a intensidade da separatividade e o temor da realidade objetiva.

As terceiras e quarta fases da individuação são mais apropriadas do que as duas primeiras à busca de uma consciência superior. A Individualidade Objetiva será estabelecida e bem embasada em sua experiência de relacionamentos objetivos e sociais. A direção eficiente das necessidades físicas e emocionais estará baseada na compreensão madura, produto da prática e experiência. O autodomínio na experiência das emoções e pensamentos será eficazmente atingido. A Individualidade Objetiva, como um veículo da experiência, estará preparada para apreciar e traduzir experiências universais cada vez mais sutis. O relacionamento entre o EU e a ALMA estará apto a sustentar a necessariamente refinada cooperação entre as consciências objetiva e subjetiva.

O solo fundamental das fases três e quatro é a UNIDADE. A comunicação entre a Personalidade-Alma e o EU será experimentada como se proviesse da dimensão do próprio indivíduo. A comunicação tem a qualidade de aprofundar a compreensão e expandir a riqueza de significado. Objetos físicos e eventos sociais tornam-se contidos num contexto de significado e valor. O senso de identidade pessoal, outrora obscurecido pelo medo e pela luta pela sobrevivência, torna-se iluminado por uma co-participação divina e pela antecipação de um futuro inimaginável.

Sócrates era um desequilibrado na mente dos ignorantes, e louco aos olhos dos temerosos. Entretanto, tornou-se grande ante os olhos da história por sua coragem de viver sua vida na verdade. De que outro modo poderíamos nós vir a conhecer a PAZ PROFUNDA?
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[Texto de Richard A. Rawson]

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