quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Espiral misteriosa no céu na Noruega [Registrando]


Paula Rothman, de INFO Online Quarta-feira, 09 de dezembro de 2009 - 17h07
SÃO PAULO –
Uma misteriosa espiral de luz pairou nos céus da Noruega na noite de ontem, deixando centenas de residentes no norte do país intrigados.
Segundo reportagem do Daily Mail, das cidades de Trøndelag a Finnmark, moradores disseram ter presenciado as estranhas luzes, que acreditam ser um meteoro ou um teste de foguetes russo.
O fenômeno começou quando uma luz azul surgiu de trás de uma montanha, parou no meio do ar e começou a girar. Em segundos, uma espiral gigante teria se formado e coberto o céu.
Então, um feixe azul-esverdeado de luz saiu de seu centro, durando entre dez e 12 minutos antes de desaparecer completamente. A reportagem afirma que, segundos após o incidentes, o Instituto Meteorológico da Noruega foi inundado de telefonemas – e que muitos astrônomos não acreditam que as luzes estejam ligadas às auroras, fenômenos comuns na região.
O Controle Aéreo de Tromsø alegou que o acontecimento durou apenas dois minutos, mas admitiu que foi muito tempo para ser um fenômeno astronômico.
Em entrevista à imprensa norueguesa, o pesquisador do Observatório Geofísico de Tromso Truls Lynne Hansen disse ter certeza de que a luz foi causada por um lançamento de míssil – que, provavelmente, teria perdido o controle e explodido.
O porta-voz da Defesa Norueguesa Jon Espen Lien teria dito que os militares do país não sabiam do que se tratava, mas que era provavelmente um míssil russo.
No entanto, ainda segundo o Daily Mail, a Rússia negou ter feito qualquer teste de mísseis na região.

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FERNANDO PESSOA _ e o OCULTISMO


Treze de junho é a data de nascimento de Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em 1888. Suas últimas palavras,antes de morrer, em trinta de novembro de 1935, foram escritas em inglês erudito: “Não sei o que o amanhã me reserva.”

Acredito realmente que, com todo o brilhantismo de seu cérebro privilegiado, não poderia prever que sua obra causaria tamanho impacto no mundo inteiro. Obra que ainda está para ser totalmente desvendada, uma vez que seu “baú” [o lugar em que punha tudo o que escrevia] parece inesgotável. Ainda estão selecionando e publicando tudo o que deixou. Para ser estudada, então, séculos serão precisos como aconteceu com Camões e Shakespeare. Até hoje estudamos e amamos esses dois gênios.

Fernando Pessoa ocupa o mesmo pódio, com seus setenta e um heterônimos, que pouca gente sabe que existiram, pois divulgados foram apenas Alberto Caeiro, Álvaro de Campo, Ricardo Reis e posteriormente, Bernado Soares.

Com obra tão variada e tão extensa, somente muitas gerações pela frente é que estudarão tudo o que escreveu, que abrange muitos setores do conhecimento.

Deixando os dados biográficos, escolhemos um assunto de que ele gostava muito – o ocultismo – e esclarecemos que empregamos esse termo aqui de forma bem genérica, englobando esoterismo, espiritismo e entidades filosóficas, pois, conforme nossas pesquisas, Fernando Pessoa interessou-se por tudo.

João Gaspar Simões, o primeiro crítico a estudar esse aspecto da obra do Poeta, disse que ele se interessou pelo espiritismo, por influencia de sua tia Anica, tendo mesmo afirmado que era médium. Uma ocasião, escreveu para a tia, que então estava na Suíça, contando que foi praticamente obrigado a psicografar, tais as sensações que sentia, mas que não eram coisas compreensíveis. Isso aconteceu mais vezes e também uma tendência a psicografar números e a desenhar sinais cabalísticos e maçônicos, deixando-o um pouco preocupado.

Quando Casais Monteiro, a quem Fernando Pessoa escreveu sobre a origem dos heterônimos, perguntou-lhe sobre o ocultismo, respondeu:

“Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou esse mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por essas razões e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita [exceto a Maçonaria anglo-saxônica] a expressão “Deus”, dada as suas implicações teológicas e populares e prefere dizer “ Grande Arquiteto do Universo”, expressão que deixa em branco o problema de se Ele é Criador ou simplesmente Governador do Mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação direta com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico[...], o caminho místico [...], e o caminho alquímico.”

Ainda nesta carta, o Poeta diz não pertence a nenhuma ordem, mas protestou veementemente quando quiseram fechar a Maçonaria em Portugal, considerou-se médium quando escreveu à tia Anica, e afirmou ainda, em outra ocasião, “ter visto nitidamente” o que ia acontecer a Sá Carneiro [o suicídio do amigo].

Outra estudiosa de Fernando Pessoa, Dalila L.P. da Costa, vita dois períodos de profunda transformação na vida mística do poeta:

1] dos 26 aos 29 anos [1914-1917] – ele deseja e consegue, na poesia e na contemplação a união do ‘eu’ com o Absoluto, numa alquimia transmutadora da personalidade. Vejam-se os quatorze sonetos de “Passos da Cruz”.

[cito apenas alguns versos dos sonetos mais significativos, todos de Fernando Pessoa ele-mesmo, ou ortônimo]:

“Venho de longe e trago no perfil/
Em forma nevoenta e afastada/
O perfil de outro ser que desagrada/
Ao meu atual recorte humano e
Vil.//
Aconteceu-me do alto do
Infinito esta vida// Caiu chuvas
Em passado que fui eu// Narrei-me à sombra e
Não me achei sentido/ Hoje sei-me o deserto onde
Deus teve/ Outrora a sua capital de olvido.//
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela/ E
Oculta mão colocara em mim/ Pus a alma no nexo
De perdê-la / E o meu Principio floresceu em Fim./
/Inconscientemente me divido/ Entre mim e a
missão que meu ser tem.”

O sentimento do sagrado e da sacralidade da vida sempre esteve presente em Fernando Pessoa, com a crença num outro mundo, certeza compensatória de nosso exílio terrestre.


2] O segundo período é o da maior metamorfose de sua busca espiritual; dedicou-se ao estudo de textos órficos, templários, rosacruzes, percorrendo as doutrinas teosóficas, cabalísticas, neoplatônicas, espíritas, budistas, convencendo-se de que a Igreja não pode revelar mais que uma parte ínfima de Deus.

Os principais poemas místicos são dessa época. “O poema Iniciação, por exemplo, é a descrição da morte ritual como descida aos infernos. O neófito percorre os diversos graus de iniciação, sucessivos estados espirituais, com o objetivo de atingir crescentes níveis de sublimação. A progressiva perda do eu externo falso, para a realização do verdadeiro eu, até resgatar sua essência divina, na funda caverna e ultima purificação com seu corpo material abandonado na terra.”

Os sonetos que tem como título “No túmulo de Christian Rosencreutz”, são precedidos de uma citação de um documento rosacruz chamado “Fama Fraternitatis Rosae Crucis” e são também de Fernando Pessoa ortônimo; os estudiosos do Poeta afirmam, porém, que todos os heterônimos [pelo menos os mais conhecidos] apresentam elementos ocultistas em seus versos, e, para Fernando Pessoa ele-mesmo, a essência do universo, a substância última da vida são as forças ocultas. Vejam-se, por exemplo, Magnificat, de Álvaro de Campos, em que aparece a “noite negra” e o “áureo alvorecer”; algumas odes de Ricardo Reis; Iniciação e Mensagem, de Fernando Pessoa ortônimo.

Jacinto do Prado Coelho, grande conhecedor da obra de seu conterrâneo, chama Alberto Caeiro de “ místico da espantosa realidade”. Diz ainda: “Toda a poesia ortônima e heterônima pressupõe a amargura da incapacidade de conhecer o que está para além, uma vez adivinhado um além; a fome de Absoluto, sentimento do absurdo da vida, sentimento de que tudo é ilusão. Cada um deles, a seu modo, era místico, ocultista vez por outra. O poema Eros e Psique tem como epigrafe um trecho do ritual do Grau do Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal. O poema é de Fernando Pessoa ortônimo.

O critico Gilberto de Melo Kujawski diz que o poema ‘Além Deus’ documenta a entrada do Poeta no esoterismo e afirma: “O ocultismo em Fernando Pessoa não é farsa, é projeção cósmica de sua duplicidade fundamental.”

Vejamos os versos do poema:

“Olho o Tejo, e de tal arte/ Que me
esquece estar olhando/ E súbito isso me
bate/ De encontro ao devaneando -/ O que
é ser-rio, e correr? O que é está-lo eu a ver?
// Sinto de repente um pouco./ Vácuo, o
momento, o lugar./ Tudo de repente é oco
-/ Mesmo o meu estar a pensar./ Tudo –
eu e o mundo em redor - / Fica mais que
exterior. Perde tudo o ser, ficar,/ do
pensar, se me some./ Fico sem poder ligar
/Ser, idéia, alma de nome/ A mim, à terra
e aos céus...//............../ E súbito
encontro Deus.” [Há mais quatro poemas ainda, sobre esse ‘encontro’].

Nos últimos quatros anos de sua vida, Fernando Pessoa procura sua salvação ou seu verdadeiro ser. Em sete de novembro de 1933 ele localiza a “experiência do divino”, a sua “iluminação”, que classifica como a experiência mais importante de sua vida:

“[...] foi como o acordar, o fim das trevas, o conhecer pleno e afinal chegar ao abrigo, ao seio primitivo e perdido.”

Mensagem, a única obra publicada em vida do autor, é tida como a sua obra mais esotérica. Trata de Portugal, sua história, sua alma, mas, sobretudo, trata da condição humana, daí seu alcance universal.

Fernando Pessoa refere-se a fatos e personagens históricos diretamente ou em metáforas. Não é uma obra narrativa, como “Os Lusíadas” e as demais epopéias conhecidas.

O poema se divide em três partes:
1]Brasão, com 19 poemas;

2] Mar Português, com 12 poemas e;

3] O Encoberto, com 13 poemas.

Na primeira parte, é evidente o uso da numerologia esotérica. O escudo heráldico distintivo da nobreza de Portugal tem relações numéricas constantes e altamente significativas. Mensagem é o fruto final da iniciação hermética de Fernando Pessoa, sua grande obra alquímica.

Brasão fala das origens de Portugal, até o inicio da expansão marítima; Mar português trata das grandes viagens e tem os versos bastante conhecidos:”Valeu a pena? Tudo vale as pena/ Se a alma não é pequena”; O Encoberto tem o pequeno poema: “Que símbolo fecundo / Vem na aurora ansiosa?/ Na Cruz Morte do Mundo/ A vida, que é a Rosa// Que símbolo divino// Traz o dia já visto?/ Na cruz que é o Destino/ A Rosa que é Cristo// Que símbolo final/ Mostra o Sol já desperto/ Na cruz morta e fatal / A Rosa do Encoberto”, ‘Mensagem’ termina com a expressão Valete, Fratres!.

Para entender o poema, o próprio Poeta adverte: ”O entendimento dos símbolos e dos rituais [simbólicos] exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.”

“A primeira é a simpatia [...] pelo símbolo que se propõe interpretar.[...]A segunda é intuição[...], aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja[...]. A terceira é a inteligência. Para relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo [...] A quarta é a compreensão, o conhecimento de outras matérias que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionando com vários outros símbolos [...] A quinta é menos definível. Direi, talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma dessas coisas como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.”

Muito se poderia falar ainda sobre o ocultismo em Fernando Pessoa. Este trabalho é despretensioso e tem apenas o desejo de chamar a atenção para essa face do imenso poeta que ele é, a fim de que outros continuem o estudo, que é fascinante, especialmente para quem é igualmente conhecedor ainda que pouco, do esoterismo.

A respeito dos rosacruzes, em suas “Páginas Intimas” diz: [...] ”passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns, e contudo, pela grandeza da cousa transcendental que criaram, maiores do que os gênios todos da evidência humana[...]. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.”

Para encerrar, citamos a opinião sempre abalizada do professor Massaud Moisés, grande estudioso do Poeta: “ Hiperlúcido, podendo destruir-se até o suicídio, Pessoa submete tudo à sua diabólica inteligência. Espalhou por sua obra uma série de chaves que autorizam a iniciar um roteiro de sondagem no seu universo ocultista ... Uma delas é o poema ‘Tabacaria’.
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[Por Nilva Mariani, Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras – ARL, UBE e Ordem dos Velhos Jornalistas]

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PRECE
Senhor, que és o céu e a terra. Que és a vida e a morte!
O sol és Tu e a lua és Tu e o vento és Tu!
Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és Tu também.
Onde nada está, Tu habitas e onde tudo está – o Teu templo – eis o Teu corpo.
Dá-me alma para Te servir e alma para Te amar.
Dá-me vista para Te ver sempre no céu e na terra.
Ouvidos para Te ouvir no vento e no mar.
E mãos para trabalhar em Teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos,
Nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos.
E servir-te como a um pai.
Minha vida seja digna da Tua presença,
Meu corpo seja digno da terra, Tua cama.
Minha alma possa aparecer diante de Ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o sol para que eu possa Te adorar em mim.
E torna-me puro como a lua para que eu possa Te rezar em mim.
E torna-me claro como o dia para que eu Te possa ver sempre em mim.
E rezar-Te adorar-Te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta Teu!
Senhor, livra-me de mim.
[1912].


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

TEXTOS DE SARCÓFAGOS


Os Textos de Sarcófagos, encontrados no Egito Faraônico, constituem-se em documentos e paleografias e podem ser compreendidos como a estigmatização do Dharma no ser humano.

Na antiguidade a vida material estabeleceu-se na região conhecida como Crescente Fértil, mais precisamente, no Egito, há alguns milhares de anos, e evoluiu graças às peculiaridades do rio Nilo e a espiritualidade de uma população laboriosa que habitava a região.

A história deste povo não é muito diferente do florescer de outras civilizações orientais, a não ser pelo seu alto grau de religiosidade e respeito pela vida. Uma sociedade teocrática formada a partir de uma genética comum [sociedade gentílica], politeísta, antropozomórfico e ressurreicionista, mas acima de tudo, crente na imortalidade da alma e na existência de um “juízo final”.

Ao referir-se a esta conduta modelar não se quer generalizar e dizer que, sem exceção, todo o povo vivia dentro dos preceitos de fraternidade e harmonia, mas sim que a maioria buscava fazê-lo, pois este era, sem dúvida, o único caminho para se justificar no “julgamento de Osíris”.

Portanto o objetivo deste trabalho é examinar os chamados “textos de sarcófagos” ou confissões negativas que eram colocados junto à múmia que era por sua vez depositada dentro de um sarcófago. Esse documento era escrito em papiro e apresentava itens de defesa da moral, ética e religiosidade do falecido no seu juízo final.

FILOSOFIA DO POVO EGÍPCIO_
O entendimento de filosofia na Antiguidade Oriental difere das noções desta mesma matéria que emergiu na Grécia. Porém, sem dúvida é possível ver no Egito antigo especulações filosóficas a partir de preceitos litúrgicos, ritos de magia e pronunciamentos de figuras exponenciais da sociedade. Isto pode ser observado em textos como o “Diálogo de um homem casado”, tido como uma das mais profundas e introspectivas obras escritas no Egito.

Outro aspecto importante na filosofia egípcia era o constante preparo e diálogo escatológico para a transição de outra esfera de vida, que poderia ocorrer em qualquer momento, seja por vontade dos deuses ou em conseqüência da própria natureza finita do homem. E por isso buscavam seguir um estrito código de conduta estigmatizado em seu íntimo pelo próprio Criador.

Nos chamados textos de sarcófagos eram comuns os temas que diziam:” A alma no céu e o corpo firme na terra”, ou “ O corpo fincado na terra e a mente livre na Eternidade”. E assim era este povo em vida,queria, de todas as maneiras estabelecer um regime de parceria com os deuses e viver em completa e estreita relação com eles.

OS TEXTOS DE SARCÓFAGOS_ A compreensão dos “Textos de Sarcófagos” passa pela idéia da vida além-túmulo existente no imaginário egípcio. Entende-se por sarcófago um monumento fúnebre que abrigava o corpo mumificado. Para os egípcios, o que se chama de morte, era uma transição entre esferas de vida. O homem do vale do rio Nilo acreditava em um mundo subterrâneo onde os falecidos desenvolviam atividades semelhantes às que exerciam em vida. Contudo, além desta crença existia também a idéia de um paraíso atraente e acolhedor, cujo acesso era feito através do Tribunal de Osíris, onde ocorria uma psicopatia no atma nirvânico do ser.

Então, ainda de acordo com esta imaginação, apresentada em diferentes afrescos e textos escritos em hieróglifos, a alma do falecido era levada ao Tribunal de Osíris, que, sentado em seu trono, presidia a audiência, na qual, quarenta e dois juízes divinais iriam inquiri-las s obre os quarenta e dois aspectos morais, éticos e religiosos. Neste ato, a alma procedia a sua defesa apresentando uma confissão negativa, escrita em um rolo de papiro e colocado em seu sarcófago, na qual proclamava a sua inocência declarando entre outras coisas que:

1] NÃO CAUSEI SOFRIMENTO AOS HOMENS_
Os egípcios já observavam que causar sofrimento a um semelhante era “pecaminoso”, depunha contra os desejos dos deuses, poderia custar-lhe a vida eterna.

Observava-se que em um período onde a maioria das chamadas “civilizações” estavam quase na “barbárie”, este povo evoluído possuía definições acerca de seus deveres para com seus semelhantes. Além disso, poderíamos notar a presença de um elo quase fraterno entre os seres, mesmo não sendo íntegro, poderíamos dizer que florescia intimamente o tão decantado amor-ágape.

Seria, portanto, justo atribuir-lhes um grau de evolução muito além dos estabelecidos pelos demais povos. Ressalva-se os povos da região do Crescente Fértil, em redor do ano 1750 aC, pois o rei babilônio, Hamurabi, criou o primeiro código de leis escritas do mundo como também norteava seus princípios nas questões éticas e morais.

2] NÃO USEI DE VIOLÊNCIA PARA COM MINHA PARENTELA_
A violência já era vista como forma de deformidade do caráter e da personalidade, e a família como instituição sagrada, a qual dispensava-se respeito, consideração e admiração. É importante lembrar que o único país da antiguidade oriental onde a mulher desempenhava funções destacadas na sociedade, bem como possuía direitos era justamente no Egito.


Como já foi mencionado, o Egito era formado por uma sociedade gentílica, ou seja, todos tinham um antepassado em comum, isso é quase a visão dada pela enorme fraternidade hebraica no Velho Testamento. Esta questão era tão importante, que na família real, o herdeiro só podia ser concebido através de uma relação consangüínea preferencialmente com uma irmã. Portanto fica evidenciado que a base de sustentação era a família. Os laços familiares e a não violência faziam destes trechos dos textos de sarcófagos uma conotação bem vinda nos dias de hoje.


3] NÃO SUBSTITUÍ A INJUSTIÇA EM JUSTIÇA_
Este é o item de maior fundamento moral: não adulterar, não forjar, não se beneficiar com o prejuízo de outrem, não ser vil ou criminoso, não permitir que a injustiça triunfe. Esta passagem que demonstra a importância da justiça, principalmente a social, é premente e fica muito clara nesta carta escrita pelo faraó Altoés II para seu filho e herdeiro Mericaré:

“...um povo rico não se levante para se rebelar, não o empobreças, de maneira que não seja levado à rebelião...

...não faças diferença entre o filho de um homem de qualidade e o de um homem comum...”

4] NÃO FREQÜENTEI OS MAUS _
Esta é a visão de um povo que diferencia os bons e os maus, e sabe que a simples convivência pode tatuar o homem com o estigma do mal.
Afasta-te dos ladrões, assassinos, dos violentos, dos falsários e daqueles que sempre estão tramando algo infinitamente errado. Caso contrário sua eternidade estará comprometida. Depreende-se da mensagem percebendo-se também a importância que era dada a uma vida regrada e sadia. Isso também seria como lei de convivência.

Acredita-se ser possível que o ser humano, desde os primórdios, possa ter sido regido pelo medo do desconhecido, do eterno, mas este código, ao qual preferimos chamar de DHARMA, atemoriza até os mais altos dentro os mortais, o próprio faraó também levava consigo os textos de sarcófagos, também precisava se justificar perante o Tribunal de Osíris, isso indicava que poder terreno e ligação com os deuses não garantiam uma passagem para a eternidade.

Observe a partir deste trecho que existia um nivelamento ou condição de igualdade entre todos os seres.

5] NÃO COMETI CRIMES_
Estava estabelecido um modo de convívio. Havia uma lei. Mesmo sem a existência de um código escrito, e esta lei indicava que aquilo que desligava o homem na terra [sociedade]também o desligava nos céus[mundo extrafísico]. Estava tão implícito no homem que a criminalidade era impura que, quem a cometesse, fosse sob que aspecto fosse, jamais conquistaria a imortalidade. Seria antes julgado pelos homens e banido da sociedade para posteriormente ser julgado por Osíris e banido dos céus.

Quando uma sociedade estabelece o “crime”, e busca ao mesmo tempo formas de impedi-lo, conceitua-se assim como “evoluída”. Está alicerçada na firme teoria que tudo que está em baixo é exatamente como o que está acima.

A única forma de se transmigrar para a eternidade é cumprir rigorosamente aquilo que o Deus da compreensão do homem legou-lhe como DHARMA.

6] NÃO PERMITI QUE TRABALHASSEM EM EXCESSO PARA MIM_
Apesar de ter existido escravidão no Egito, nos períodos Antigo e Médio, e mesmo sendo costume fazer-se escravos aos que não podiam pagar as dívidas ou que caíssem prisioneiros em guerras, havia uma idéia perfeitamente clara que a exploração do homem pelo homem constituía uma das maiores contravenções contra os deuses e contra a sociedade. Observa-se o parâmetro de igualdade nas relações de trabalho, esta igualdade, no entanto, não caracterizava status ou direitos, mas uma equiparação entre ter o poder mas não para usá-lo contra seus semelhantes.

Esta forma de pensar perdeu-se pelo resto do mundo, onde, principalmente na Europa moderna, a escravidão e a expropriação do homem pela condição social ou cor de pele estabeleceu-se de maneira natural e não animalesca ou errônea como de fato o era. Para tanto, a sociedade européia buscou auxílio na Igreja para não ser taxada de maligna.

No mínimo o homem possuía conhecimento, mesmo sem a lei escrita, de que escravizar um ser igual era pecaminoso e corrompia sua alma imortal.

7] NÃO FOMENTEI INTRIGAS POR AMBIÇÃO_
Esta negativa encerra em si dois dos maiores crimes contra a lei divina, por isso era de suma importância: Negar a intriga e a ambição.

Muito tempo depois deste período, o próprio Cristo veio reafirmar esta versão: “A ambição nos deixa fora das portas do céu”.

Na visão judaica, a intriga e a ambição são maléficos contra toda a sociedade e pecados realmente pesados que comprometem a ascensão a um plano espiritualmente mais elevado.

Apesar de politeísta, a religião egípcia estava muito relacionada com o direito, e todos os deuses, convergiam para as questões do merecimento e da retidão de caráter. A justiça social também tinha um papel importante dentro das crenças estabelecidas. Mesmo que estes fatos não acontecessem exatamente assim, a visão era bem objetiva, real, e isso miseravelmente conduz para a realidade de que trinta séculos atrás vivia no planeta terra uma sociedade muito mais evoluída que a atual.

8] NÃO MALTRATEI MEUS SERVIDORES_
Outra visão contrária à exploração do homem pelo homem, independente de posição social. Portanto uma lei moral de relevante importância, pois teologicamente nos conduz ao ponto de que: todos somos iguais e que apesar de sermos, muitos, somos ‘unos’.

A valorização do homem que trabalha é a condição social desta negativa. Agrega ainda em si, a política, que necessita de trabalhadores ativos e satisfeitos, e a humana, que impede os maus tratos a todos que trilham seu aperfeiçoamento na terra.

Esta visão humanista do povo egípcio nos leva a pensar que a Declaração dos Direitos do Homem já estava impressa em nosso ser desde os primórdios da existência. Novamente temos em nossa ligação com o Cosmos uma condição única de vivermos indiferentes ao tempo e ao espaço, uma vez que o Todo nos leva, em sua Sapiência a sermos convivas de todas as épocas e de todos os lugares, pois somos herdeiros do mundo através do DHARMA.

Somente a Lei Imutável é capaz de anular o passado, o presente e o futuro, pois encerra uma única e perpétua verdade: a da imortalidade.

9] NÃO FIZ CHORAR, NÃO FIZ NINGUÉM SOFRER_
Aquele que não faz chorar ou sofrer pode também não fazer ninguém rir ou vencer.

Mas a questão em pauta é a da santidade da vida, é a visão de não ser o homem caminho para a dor ou para a desgraça. Portanto, não criar sofrimentos é uma virtude capaz de apagar muitos erros.

MAAT, a Deusa da Justiça, responsável pela condução do morto ao tribunal de Osíris, ganha destaque nesta negativa, e surge como sendo o caminho da eternidade, pois o simples fato de não fazer o mal, encerra o bem.

10] NÃO TIREI O LEITE DA BOCA DAS CRIATURAS_
O que é isso senão o velho adágio:”Daí a César o que é de César?”.

Todo aquele que trabalha tem que receber dignamente pelo que faz, isto é, poder sustentar aos seus, dar-lhes dignidade e respeitabilidade, é dar o direito à terra e ao cultivo,permitir aos socialmente menos abastados o direito à vida e a um lugar para descansar seu corpo. O que é isso senão o direito à infância e a vida, senão o direito da mãe amamentar e cuidar de sua prole.

No Antigo Testamento, o próprio código de ética do povo hebreu, também traz estas características rigorosamente estampadas:
“Não atemos a boca do boi que debulha”.

Resta dizer, após o exame das citações acima referidas, que no imaginário egípcio, do Tribunal de Osíris, Anúbis, o deus chacal, pesava o coração do falecido, e o equilíbrio da balança seria medido por uma pena de ave depositada na balança pela deusa Maat - a verdade. O coração não poderia pesar mais que a pena. Este era o grau de pureza que o indivíduo teria que ter para conquistar a eternidade, então, Thoth, o escriba dos deuses anotava o resultado e comunicava a Osíris.

O que nos assemelha, no entanto, é que os homens do Egito faraônico, durante o Antigo e Médio Império, traziam em si um referencial importante de conduta, parecendo que tinham estampado em si o DHARMA – a lei Divina e Imutável - que norteou os caminhos da decência do ser humano desde a mais tenra idade da humanidade.

Estes ‘TEXTOS DE SARCÓFAGOS’ põe à mostra uma consciência moral elevada, principalmente se considerarmos o contexto temporal, concluindo-se daí que a conduta ética do Egito antigo foi influenciada por estes mesmos textos.

Por outro lado é importante observar que em 1570 aC., no Médio Império, durante o reinado de Amena I, foi redigido o “Livro dos Mortos”, o mais importante veículo do conhecimento da religiosidade do povo do Nilo. Seus textos, em grande maioria foram extraídos das “escritas das pirâmides” e das “defesas de sarcófagos” e neste mesmo período estava tomando forma no Egito, a escrita hierática, - uma linguagem mais simples – o que facilitou a compreensão e o entendimento do mencionado “Livro dos Mortos”.

Se na introdução ficou claro o intuito deste trabalho é o exame dos Textos de sarcófagos, supõe-se que após o que foi apresentado sobre as confissões negativas, revela-se de modo inegável uma consciência moral elevada entre os egípcios. Por outro lado, fica implícito que o homem tem estabelecido com o Deus de sua compreensão um contato direto – mesmo que inconsciente – através da eternidade, e que este mesmo Deus manifestou na consciência humana um código, que encerra todas as questões sobre ética, moral, religiosidade, filosofia e vida em sociedade.

Além disso, também se conclui que esse código de condutas pode ser chamado de livre-arbítrio, pois somente estabelecendo “parâmetros” a Mente Cósmica pode cobrar os “excessos” humanos.

E, assim como foi escolhido o povo egípcio e os Textos de Sarcófagos para demonstrar essa questão, poderia ter sido escolhido o povo Caldeu, na Mesopotâmia e o Código de Hamurabi, ou ainda o povo Hebreu e o Velho Testamento. Contudo, pareceu ao autor, ser mais vibrante abordar a questão do juízo do homem, utilizando um código escrito apenas na consciência do seu imaginário. Por fim, deve ser dito, que o maior legado da religião egípcia foi sem dúvida a criação de uma ética e uma moral que garantissem a travessia para a eternidade.

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Notas:

1_[Texto de Rogério Sidaqui, Pesquisador da URCI – Seção C – Egiptologia e História Universal]

2_Referencias Bibliográficas:
- E.A.Wallis Budge – O Livro dos Mortos – Ed Pensamento;
- Os Mistérios do Egito – Ed Pensamento;
- Ferreira, Olavo Leonel – Egito, Terra de Faraós – Ed. Moderna;
- Bessant, Annie – O Dharma – Ed. Pensamento;
- Giordani, Mario Curtis – História da Antiguidade Oriental – Ed. Vozes – 1968;

Nota do Autor: O homem pronto é aquele que mesmo em estágio de evolução física, mental e espiritual, já estabelece uma relação de infinitividade entre aquilo que é e aquilo que será. Portanto quando indico o homem como ser pronto quero simplesmente dizer que ele, teologicamente se sabe infinito e ligado a um Ser superior com quem troca impressões e de quem recebe instruções.





terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O PRIMEIRO TRIÂNGULO DA PAZ


“Eles constroem muros porque sentem temor
Mas o diabo ri, pois encontra a brecha
E o muro desmorona ao sopro do tentador.
Se não houvesse muro, não haveria brecha.
Nenhuma fortaleza é intransponível.
A união é o remédio contra o espírito temível”.



TERRA -
Quanto mais avançamos na história da humanidade, menos a Terra é dividida por fronteiras, embora pareça que os homens se unem para melhor se odiarem. Mas se o movimento natural tende para a união dos Estados, ele é muito lento e os sentimentos nacionalistas e de independência estão exacerbados pelo peso das alianças que, ao produzirem um aumento da tensão internacional, causam a negligencia das particularidades internacionais. Antigamente as tribos compartilhavam a terra, hoje são as nações que o fazem. Mas na realidade, após o desaparecimento da cisão Oriente-Ocidente, damo-nos conta de que a oposição é bem diferente daquela do “capitalismo-comunismo” e que são a democracia e a ditadura que se defrontam, tendo esta última um terreno privilegiado: a crise econômica. E sempre o pobre é o mau e o rico, o bom. Entretanto, se pensarmos na união do mundo, veremos que o mau pode ser englobado pelo bom.

Alguns países se recusam a fazer parte de qualquer aliança, alegando o desejo de preservar sua neutralidade. É uma idéia: a agressividade é decuplicada pelo grupo. As guerras mundiais estão muito longe dos pequenos combates tribais como os que aconteciam, por exemplo, entre os índios da América. Quanto menos a Terra é dividida, mais as guerras são destrutivas. Contudo, não é necessário voltarmos à Idade da Pedra, e a neutralidade pode ser uma mostra de egoísmo. Um bom método de lutar contra a agressão consiste em desativar o impacto territorial, permitindo a cada um a liberdade de acesso total e a escolha de seu local de residência. Como? Suprimindo as fronteiras pela criação de uma só nacionalidade, uma supra-nacionalidade, a do Homem. Nosso tempo está contado; o novo tempo tem urgência de chegar.

Isto pode ser feito já. Não obstante, mesmo que a união seja completada, será necessário impedir a repetição de qualquer guerra. Como? Sublimando os conflitos, desfazendo as diferenças e os diferentes. Para evitar que a agressividade humana se dirija para a guerra sangrenta e assassina, existem duas medidas possíveis. A principal é o desarmamento total do Globo. A segunda medida é a utilização de práticas lúdicas e esportivas por meio de ‘despressionar’. Certamente será o caso de inventar outros esportes, outros jogos, que reúnam muitas pessoas, por exemplo, e que se pareçam com uma guerra, onde o número de participantes será muito importante, mas que se diferenciará pelo fato de não envolver nenhuma matança. O esporte, os jogos em geral, são a chave da felicidade. Poderão ser organizados encontros entre os diversos departamentos do mundo, que hoje são as nações. Que todos joguem, dancem, tornem-se crianças.

A idéia, na verdade, é focalizar os instintos humanos de rejeição, que realmente existem e que não podem ser sufocados sem que as conseqüências sejam nefastas; e essa focalização deve se operar pela ritualização lúdica: o jogo constitui um ritual de agressividade. É um prazer participar de jogos porque nos fazem sentir que dominamos o mal: matamos sem matar. O homem tem meios de transformar sua agressividade em horror, pelos modernos armamentos, mas também em felicidade, pelo jogo. A escolha entre o bem e o mal é sempre do ser humano. Ou ele se deixar enredar ou faz agir seu poder de controle. A maldade humana é igualmente o “berço da alegria”. Não há ódio que não possa transformar-se em amor. O mal não existe, porque tudo é Deus. O veneno pode tornar-se antídoto. É uma questão de transformação, uma questão de medida, um problema para o homem, o mais cruel dos animais, sendo contudo aquele que mais se assemelha ao seu criador.

Entretanto, existem outras condições para a completa união das nações. Essas condições podem ser resumidas em uma só palavra: intercâmbio – lingüístico, étnico, religioso, político, econômico, social. Em resumo, a unificação territorial é mantida pela troca, e o jogo é uma delas. É através dos encontros que os grupos se deformam - já sabemos que a aliança e o grupo aumentam a agressividade ao exaltarem o sentimento de ‘pertencer’, ou seja, a possessividade, nem mais nem menos. O grupo é o sectarismo, o dogmatismo: além do simples fato do indivíduo se inscrever num conjunto de homens, ele se apega ao mesmo e assume obrigações, ou, se não é ele que as assume, é o grupo que as impõe. Chega um momento em que o indivíduo perde a sua essência, que se dissolve na massa, sendo substituída pela personalidade constituída pelos hábitos do grupo. O homem nasce homem, mas torna-se um autômato. A divisão da humanidade pela compartimentalização provocou seu aprisionamento. O ser humano é prisioneiro de si mesmo;ele suprime seus apegos naturais porque não quer mais ser dependente da Mãe Natureza, e então os substitui por hábitos artificiais, falsos. O problema é bem este: o natural não é elevado, é simplesmente substituído, o homem passou do estado de animal ao de máquina. Os costumes selvagens são trocados por costumes estereotipados, tolos e disciplinados.

Como todo planeta, a Terra tem forma esférica; ora, a esfera é uma forma unidade, sem ‘propensões’, então nada nem pessoa alguma, por conseguinte, tem o direito de apropriar-se de uma parte dela. Também a hóstia tem a mesma imagem na religião cristã:símbolo de doação, um meio de ultrapassar o estado de criatura. Não, a Terra não existe para ser repartida - inteira ela nos foi dada, inteira deve permanecer, e não ser dividida por uma tantas idéias ultrapassadas. Cada grupo se apodera de uma parte do globo, sem se dar conta por um só momento de que essa atitude priva e restringe os outros. Disso decorrem comportamentos racistas e nacionalistas, e é então que ouvimos propostas que soam mal:querem que os estrangeiros voltem para o lugar de onde vieram e dizem:”cada um em sua casa...”mas não estão todos os homens em seu lar aqui na Terra?

Imaginemos o que encontraria um extraterrestre que tivesse descoberto nosso planeta: um mundo desunido, com povos que se detestam e discutem como jovens adolescentes.

Isto não é mais segredo – a posse da Terra é o fermento de todas as guerras e divisões entre os homens. Verificamos isso cada vez que uma nação se torna independente: a religião ou etnia serve de pretexto para uma aquisição territorial. E a motivação principal é o medo: o medo de errar, o medo do vazio, o medo de não ter nenhum apoio. No entanto, Deus é o apoio mais seguro, não em baixo mas em cima. É nessa mudança de registro que a humanidade pode encontrar o remédio contra todas as guerras.

“O Universo é um mundo bem mais vasto que a Terra, e está cheio de vida!”.

LÍNGUAS –
As diferenças lingüísticas são as cores da palavra. Conhecer esse arco-íris constitui a ponte lingüística.

Precisamos admitir que o aprendizado das línguas estrangeiras mantêm a amizade entre os povos. Não se trata de rejeitas a diversidade de palavras. As pessoas são bastante inteligentes para compreenderem mais do que sua língua materna, e isso pode ser feito através, da escola e, melhor ainda, através de viagens.

Ademais, o progresso das técnicas de comunicação encurta as distancias, dando ao globo terrestre uma maior acessibilidade, tornando o mundo familiar. Só que esse tipo de contato é artificial, indireto.

Vemos que viajar é para a palavra o que os jogos são para a Terra, a sublimação do contato. Ninguém deve se sentir estrangeiro. É preciso ir além do impacto das diferenças da palavra pela integração dessas diferenças no individuo, enriquecendo-o, pois dividir a palavra é dividir o ser humano – eis que o homem é verbo. O verbo é o liame entre o sujeito e o complemento do objeto, o homem é o liame entre Deus e a Matéria. As línguas do mundo são riquezas que permitem compreendê-lo, cada um a seu modo, cada uma delineando melhor certos domínios que outras, sendo o todo maravilhoso.

Na ausência da medida que acabamos de preconizar, a Terra nunca ficará unida. Lembremo-nos da história bíblica da torre de Babel, onde os seres humanos foram divididos pela diferenciação de sua linguagem em muitos idiomas. É preciso fazer voltar o homem ao estágio em que podia falar com todos os seus congêneres, onde todos podiam se entender e se ouvir, se compreender, e com isso não precisavam se altercar com quem quer que fosse. O que torna o ser humano superior aos animais é que ele foi dotado de uma alternativa de confrontação.

Dividir a palavra é,portanto, dividir os homens. Podemos contar com a forte natureza social do ser humano: ele ama se comunicar, trocar idéias. Isso fatalmente levará todo mundo a se auto-ensinar, tal como uma criança aprende escutando os adultos. Portanto, não será esse um aprendizado forçado, e sim vivo. Seria inútil tentar aprender todas as línguas faladas no mundo, o essencial é ter o desejo de aprender a palavra do outro a fim de compreendê-lo. Esse impulso é suficiente para transpor o abismo lingüístico.

É o múltiplo no UM que caracteriza o homem evoluído, e é esse o propósito de minhas idéias. Constatamos que, definitivamente, a palavra não é dividida e sim multiplicada, contudo os homens isolaram as múltiplas línguas, isolando-se uns dos outros, o que provocou o inverso do efeito que se poderia prever: em vez de UM MÚLTIPLO, a divisão. Não é uma adição, mas uma multiplicação que faz a união das línguas. A divisão preserva as diferenças, mas é uma preservação arriscada, pois uma diferença pode ser anulada por outra, já que a divisão cria o conflito, enquanto que a multiplicação preserva as diferenças sem risco, e as enriquece.

=> O lobo não teme o rebanho de carneiros, porque estes são egoístas, sendo unidos só em aparência e não em realidade.

O que conta não é o número de homens, mas a força do laço que os une para formar, por exemplo, um bom exército.

Um homem que fale muitas línguas não pode ser impedir de entrever e sentir a universalidade de seu ser, a multiplicidade de sua individualidade. É tão simples obedecer os instintos de casta, os impulsos primários e territoriais, mas o novo ser humano deverá colocar-se acima dessa animalidade, e por isso será necessário que ele seja sadio de espírito para poder suportar a imensidade de seu aspecto universal. É preciso que ele não tenha problemas de identidade como, por exemplo, os que encontramos entre tantos jovens de hoje, tão preocupados em manter seu ‘look’ mas negligenciando sua centelha interior. É preciso acabar com as mentiras publicitárias que aviltam a imagem do homem. O novo homem, indignado com as infames imagens do passado, varrerá as imbecilidades materialistas. È tempo de revolução.

Não esqueçamos que a harmonia perfeita está além das palavras. É um lugar sem palavras. Uma palavra é um espaço, um quadro dentro da realidade que não engloba; assim, valem mais muitos espaços [quadros] do que um só. O poliglota tem a tendência de expressar certas coisas numa língua mais que em outra [o espaço ou quadro está mais bem centrado]. A comunicação é o atributo de todos os homens e o sorriso é sua prova irrecusável.

Cada um de nós nasce, não com a palavra, mas com o dom da palavra. Cada um de nós aprende a falar; a fala é algo que se adquire como se fosse uma roupa; as diferenças são apenas diferenças exteriores.

O ser humano tem por característica identificar-se com o seu ambiente; a psicologia denomina isso de “introjeção”. Ele tem uma faculdade enorme de transformação, acomodação, adaptação. Aprender outras línguas, conhecer outras culturas, viajar, tudo isso traça o caminho para o homem universal.

POVOS _

Palavras de um índio Yaqui:

“ Prometi ao meu pai que viveria para destruir seus assassinos. Durante anos essa promessa permaneceu em mim. Agora ela mudou. Não estou mais interessado em destruir quem quer que seja. Não sinto mais ódio pelos mexicanos. Não odeio ninguém. Aprendi que os incontáveis caminhos que cada um percorre na vida são todos iguais. No fim, opressores e oprimidos se encontram, e a única coisa importante que resta é que a vida foi curta demais, tanto para uns como para outros. Hoje estou triste, não por causa da maneira como meu pai e minha mãe foram mortos. Sinto-me triste porque eles foram índios. Viveram como índios e morreram como índios. Nunca souberam que acima de tudo eles eram SERES HUMANOS”.

Desde o nascimento da humanidade, os grupos étnicos se aproximaram, dessa forma assegurando ao grupo um potencial cultural e genético. Esse contato étnico se desenvolveu continuamente no decurso do tempo e até os nossos dias, quando as mudanças econômicas proporcionaram a abertura de fronteiras às pessoas [mas sobretudo aos bens]; os países não se isolam mais. Isso conduziu ao aumento do turismo, o que provocou uma ligeira familiarização entre os povos. Mas o caleidoscópio étnico é intenso nos Estados de união: os povos se unem e o progresso não tarda em chegar. Podemos tomar como exemplo o caso dos Estados Unidos, onde o “melting pot”[1] se mostra muito benéfico, na medida em que traz para o país as qualidades de cada nação do Globo. Ainda falta deixar que as diferenças se expressem.

Trata-se de perceber o Homem acima da raça, algo que, aliás, já deixou de existir há muito tempo, exceto, talvez, entre algumas tribos isoladas. O mito da raça pura é uma aberração e se a mescla tiver de ocorrer, ocorrerá a despeito de tudo. Mistura genética ...bastardização, dirão alguns. Ora, isso não é uma perda das diferenças individuais, muito pelo contrário, seja o que for que os geneticistas queiram provar. É assim que se obtém mais diferenças, que são menos marcantes. Em suma, grandes diferenças são eliminadas, e no fim das contas os indivíduos continuam diferentes, apenas suas diferenças lhes são próprias, individuais. Não haverá mais diferenças entre grupos, as quais são causadoras de problemas. Todos serão iguais porque todos serão diferentes.

Nada temos a temer quanto às raças humanas ficarem mais divididas ainda, porque poderemos considerar melhor a espécie humana antes da questão da raça, e a ideologia hitleriana será completamente varrida pela ideologia contrária.

De qualquer forma, é essencial que os povos mantenham o contato entre si, não se isolem mais uns dos outros e se habituem às suas diferenças.

No final, perceberemos que não pode haver verdadeiramente uma uniformização racial e sim uma ‘desracialização’; conseqüentemente, o fim racismo. É preciso desarraigar completamente o ódio racial.

O fenômeno inverso do intercâmbio genético é a união consangüínea, e será supérfluo voltar a demonstrar seu aspecto negativo. Os faraós, por exemplo, pagaram caro por esse costume.

Desde os primórdios da humanidade os grupos se misturaram, e há muito tempo que praticamente não existem mais raças puras; o que, aliás, é uma felicidade, pois longe de serem superiores como pretendem alguns, elas são na realidade as menos adaptadas. Por isso os povos que se isolam estão sendo arrasados por aqueles que se intercomunicam com os demais.

Assim, cada povo tem sua cultura e o intercâmbio entre os povos não significa a perda das diferenças culturais, pois num clima de troca não pode haver predominância, sendo que só num clima de competitividade é que esse termo adquire realidade, e só nesse tipo de clima podemos qualificar esta ou aquela cultura como ‘imperialista’. Não tenhamos receio, o relacionamento com o outro não causa uma confusão na individualidade, pois é no jogo das interações que o indivíduo se descobre. Mas as relações sem fronteiras, sem discriminação racial, destroem o sentimento de ‘pertencer contra’ e formam um sentimento de ‘pertencer a favor’: a união dos povos para a glória de Deus. Sabemos que um bom meio de unir os indivíduos é fazê-los lutar contra um inimigo comum – seria o caso do ‘pertencer contra’, voltado para a destruição. Mas a aliança voltada para a construção, o laço positivo, embora necessitando mais elaboração, é sempre mais durável.

 “Se és diferente de mim, longe de me prejudicares, me enriqueces”. [Antoine de Sainda-Exupéry].

O ódio,o medo do estrangeiro, o racismo, a xenofobia, não tam mais peso num mundo de viajantes – Saint-Exupéry era aviador.

Como é seguro ficarmos fechados no enclave das particularidades nacionais ou raciais, enquanto a grande aventura do Homem nos chama! O nacionalista vive envolvido pelo medo do esquecimento, o medo do fim da história de seu povo, o medo da mistura [ o gene jamais se mistura, ele sobrevive], o medo do outro - contudo a morte o chama assim mesmo.

 A larva tem medo de se tornar borboleta.

Não é a mão que nos distingue do macaco, não é o cérebro que nos distingue do golfinho, nem é a conjunção de duas pessoas que distingue os povos abertos das tribos fechadas, mas a heterogeneidade – é esta que permite ao homem evoluir, pela conjunção das diferenças, pela troca. Um individuo heterogêneo, está mais apto a responder à heterogeneidade do meio ambiente.

O racista encerra o outro em sua pele. Não se nasce preto nem branco, os outros nos tornam assim. Pois é preciso que todos tomem consciência de que o homem é, acima de tudo, INDEPENDÊNCIA. No entanto, é errado dizer que quanto maior a diferença maior o ódio. Os acontecimentos da atualidade mostram o contrário: guerras civis ou étnicas, fratricidas. Para que haja ódio é preciso sobretudo que haja um centro de interesse, e para isso é necessário que haja semelhança. Ninguém odeias as plantas!

Em psicologia, encontramos o mesmo fenômeno. O amor nasce ao mesmo tempo da semelhança e da dessemelhança, é preciso que o outro contribua com a surpresa e a confirmação de si mesmo, é preciso que no outro nos encontremos parcialmente, a fim de evitar a estranheza e a alienação.

Num outro domínio, a psicologia de grupo, notamos o papel do bode expiatório, o laço de ódio que une os outros membros do grupo. Esse tipo de comportamento vergonhoso e covarde não pode ser encontrando num mundo unido, numa esfera que dele só tem o nome..

Esquematicamente:sejam 2 entidades [grupos ou indivíduos]


1_[a] [b] = indiferentes.

2_[]a => & b = uniformizados, só existe um grupo.

3_ a<= [[]] => b = detestam-se.

4_ [a[b]] = amam-se.


Eis por que é preciso criar laços na humanidade sem uniformizar, sem querer eliminar as diferenças, e sem separar;pois sempre haverá diferenças e, não obstante, todo homem se parecerá com outro homem.

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Notas
[1] Melting Pot: termo americano que caracteriza a mistura, a fusão de diferentes raças e nacionalidades nos Estados Unidos.

[*] Texto de:Joseph Choukroun
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CONSCIÊNCIA CÓSMICA E HIPNOTISMO


Quais são as possibilidades do hipnotismo? Poderia uma pessoa ser levada à maestria por contínuas sugestões em estado hipnótico, duas ou três vezes por dia, ou isso criaria uma ‘planta de estufa’ que não suportaria o teste da vida real? Poderia o hipnotismo ser usado como um atalho para a maestria? Estas perguntas são comuns.

O hipnotismo tem passado por toda uma gama mista de opiniões técnicas e populares, ao longo de séculos. Durante muito tempo esteve relacionado com o sobrenaturalismo e há toda indicação de que seus praticantes não tinham plena consciência de sua natureza. Mesmo quando devida e inteligentemente usado por uma minoria, foi injustificadamente condenado como um grosseiro charlatanismo, a despeito de quanto tenha sido bem aplicado.

Como e quando os primeiros princípios do hipnotismo foram aplicados é, naturalmente, desconhecido. Foi encontrado um papiro egípcio de 3.000 A.C., contendo um procedimento semelhante ao que é usado no moderno hipnotismo. Escritos antigos fazem referencia ao “sono no templo” induzido pelos ‘kherihebs’, ou sumos sacerdotes do Egito. Com toda probabilidade, os sacerdotes induziam o sono hipnótico.

Outros povos antigos, se interpretarmos corretamente seus escritos, estavam bastante familiarizados com o hipnotismo e as vantagens que ele oferecia. A razão de o hipnotismo ter tido má reputação por tanto tempo está no medo que ele causa. O fato de que um hipnotizador parece assumir o controle da mente de uma outra pessoa, combinado com a falta geral de conhecimento sobre as causas fisiológicas e psicológicas do hipnotismo, levou a esse medo.

Médicos responsáveis, que não estavam preocupados com as leis físicas em jogo, e que encaravam o hipnotismo como um mistério, satisfizeram-se em declarar toda essa prática fraudulenta. Foi somente no tempo de FRANZ MESMER [1734-1815] que foi feita uma pesquisa séria do hipnotismo e que seus princípios começaram a ser compreendidos. As declarações de MESMER de que o ser humano podia emanar um ‘magnetismo animal’ atraíram considerável atenção, especialmente à luz de muitas de suas espantosas demonstrações de natureza hipnótica. Cientistas da medicina deram início a estudos destinados a denunciar MESMER como uma fraude, bem como amainar o interesse e a pressão do público. Naquela época o hipnotismo, como um campo de fenômenos e estudo, estava na mesma posição, no tocante a pesquisa acadêmica, da telepatia hoje em dia. Muitos livros foram subseqüentemente escritos, contendo muitos casos típicos de experimentos com hipnotismo. Mas é de se admitir que ele ainda se encontra num estágio experimental no que tange a uma explicação cabal das causas do fenômeno.

A apresentação dos seguintes pontos altos é necessária a uma correta consideração do hipnotismo e de como ele se relaciona com outras práticas. A pessoa que nunca foi hipnotizada precisa primeiro ser levada a reagir ou responder a sugestões no estado de vigília. A pessoa que se ressente, ou que deliberadamente se opõe a sugestões diretas de uma outra pessoa, seria difícil de hipnotizar. Por exemplo, suponhamos que disséssemos a alguém:...”É melhor você beber um pouco de água; você deve estar com sede”. Se a pessoa reagisse ou respondesse positivamente a este estímulo auditivo [desde que estivesse com sede], iria beber água. Diríamos então que ela seria um tipo suscetível a sugestões diretas. Por outro lado, se a sugestão tivesse de ser muito sutil,por exemplo, “como está quente nesta sala!E como a gente fica seca nesta temperatura!”, diríamos então que a pessoa seria difícil de hipnotizar.


SUGESTÃO _ A sugestão é fator essencial no hipnotismo. Se uma pessoa se oferece como voluntária para ser hipnotizada, as experiências e os processos de ideação do passado determinam nesse momento se as sugestões vão ser aceitas. A sugestão tem de conter algo relacionado com elementos de experiências passadas. Obviamente, uma pessoa não pode aceitar alguma coisa que é incompreensível para ela. Suponhamos que sugeríssemos, em termos rigorosamente técnicos de Química, que o paciente produzisse um composto seguindo uma fórmula, embora ele não soubesse nada de Química. Por mais que ele desejasse ser hipnotizado, não poderia seguir essa sugestão.

A ideação exige que o tema seja de tal natureza que esteja contido no âmbito da capacidade intelectual do indivíduo. As idéias da sugestão precisam ter significados correspondentes para o paciente; devem sugerir alguma coisa a ele. Além disso, a ideação [opiniões ou conclusões bem implantadas na mente subjetiva do paciente] se oporá à sugestão do hipnotizador, se essa sugestão não estiver de acordo com ela. Por exemplo, mulheres em estado hipnótico não responderam positivamente em testes de sugestão de conduta imoral.

INDUZINDO O SONO HIPNÓTICO _ A estimulação visual é talvez um dos mais antigos métodos de induzir hipnose. O uso de um estímulo em movimento, para atrair e prender a atenção, é o principal meio de fazer uma sugestão em estado desperto para induzir o sono. Note-se que foi usada a expressão “sugestão em estado desperto”. A sugestão ao paciente enquanto ele ainda está desperto e normalmente consciente é uma parte tão essencial do processo quanto quaisquer sugestões depois que ele é hipnotizado. Esse estimulo móvel pode ser o lampejar de uma luz forte, ou a rotação de um vidro cortado de maneira que reflita luz nos olhos do paciente. A grande vantagem de um estímulo móvel é bem conhecida em publicidade. Isso é usado em várias mídias, como em letreiros elétricos com luzes que mudam e formas que se movem.

Ao contrário de um estímulo móvel, têm-se a fixação do olhar numa luz forte ou numa superfície altamente polida que reflete luz. Quando são usados tais estímulos, é recomendável que eles se originem num ponto ligeiramente acima do nível dos olhos do paciente; isso obriga os olhos a se voltarem para cima. Esta posição dos olhos é uma posição natural durante o sono.

Um estímulo visual não é suficiente por si mesmo para induzir o sono. Uma ideação adequada deve acompanhá-lo. Os estímulos visuais precisam ser reforçados por idéias que sugiram sono. As palavras, “você está se sentindo sonolento;suas pálpebras estão ficando cansadas; será muito confortável fechar os olhos e mergulhar num sono profundo!”, são muito eficazes quando acompanham estímulos visuais. Em termos simples, os estímulos visuais devem ser acompanhados de estímulos auditivos.

O leigo em geral acha que sons monótonos serão suficientes para induzir o sono hipnóticos. Estímulos auditivos como o tic-tac de um relógio, ou de água pingando, ou uma batida rítmica com uma vara, são também ineficazes a menos que sejam acompanhados de ideação. Se for dito ao paciente voluntário que estiver escutando esse som monótono, “este som vai fazer você se sentir muito cansado;você vai pouco a pouco fechar os olhos e adormecer”, então o estimulo auditivo dos sons monótonos poderá, por sugestão, induzir o sono hipnótico.

Há um terceiro topo de estímulo que pode ajudar a induzir o sono hipnótico: sensações táteis. Bater na testa leve e regularmente, ou nas pálpebras fechadas, induz relaxação. Com o apoio de estimulação auditiva, da sugestão de que o paciente está descansando confortavelmente, de que ele vai dormir, e assim por diante, isso provocará um estado de sono hipnótico.

A mente responde muito facilmente a sugestões que estão em consonância com suas experiências e sua ideação do passado. Tais sugestões são aceitas como reais. Numerosos testes psicológicos foram feitos para demonstrar a resposta visual e auditiva de adultos e crianças e sugestões totalmente ilusórias. Um brinquedo com uma manivela foi mostrado a um grande numero de crianças de escola. Foi sugerido que, girando-se a manivela, far-se-ia um animal de brinquedo se mover ligeiramente. Setenta e cinco por cento das crianças que fizeram o experimento pensaram que o animal de brinquedo se movia quando a manivela era girada – o que não era verdade!Analogamente, foi dito a um grupo de estudantes que vários aromas seriam borrifados numa sala com um ‘spray’. Mas cada vez, nada além de água pura foi realmente borrifado. No entanto, sessenta e cinco por cento sentiu vários odores, que, naturalmente, não existiam de fato.

SUSCETIBILIDADE AO HIPNOTISMO_ A suscetibilidade ao hipnotismo depende de três fatores importantes:

ð 1] a experiência passada;
ð 2]o hipnotizador;
ð 3]o método de indução hipnótica.

O paciente tem de submeter sua vontade. Ele precisa aceitar deliberadamente as sugestões do hipnotizador. Foi constatado que o excesso de ansiedade em se ajustar bloqueia freqüentemente o processo. Isso pode ser devido a imaginar a resposta que se seguirá, e essa ideação de fato interfere nas idéias que o hipnotizador tenta implantar na consciência do paciente.

As mudanças físicas que ocorrem durante o sono hipnótico são principalmente uma ligeira aceleração do pulso e um aumento da pressão sanguínea. Este último, porém, pode ser causado pela excitação,que causa uma considerável constrição dos vasos sanguíneos periféricos. A menos que as sugestões provoquem algum excepcional esforço físico e mental, os registros cardíacos não diferem dos registros do sono normal.

Tudo o que se realiza no sono hipnótico é uma substituição de um conjunto de estímulos por um outro. Usando sugestão, o hipnotizador substitui os estímulos visuais ou auditivos os estímulos que o paciente recebe normalmente de seus próprios sentidos objetivos, ou que resultam de seus próprios processos de raciocínio objetivo. Em lugar de o paciente reagir a sensações que tem, por exemplo, através dos olhos, ele responde às sugestões do hipnotizador, que podem estar relacionadas com ouvir ou sentir. Quando o paciente é receptivo à sugestão hipnótica, a vontade do hipnotizador suplanta a do paciente.

Houve época em que se acreditava que o sono hipnótico era uma espécie de anestesia. Agora sustenta-se em geral que, durante o sono hipnóticos, os nervos transmitem os mesmos impulsos que transmitem no estado de vigília. Mas o paciente suprimiu todas as percepções e todas as respostas a sensações, exceto a percepção suscitada pelas sugestões do hipnotizador.

Sonhos podem ser induzidos num estado hipnótico por uma leve estimulação sensória, do mesmo modo como são induzidos no sono normal. Ao voltar a si, o paciente pode muitas vezes se lembrar de um sonho que foi induzido pela estimulação feita durante o estado hipnótico.

Atos pós-hipnóticos consistem em sugestões ao paciente enquanto ele está em sono hipnótico, para serem realizados depois que ele volta a si. Pode-se dizer ao paciente ainda hipnotizado que a visão de certo objeto vai lhe provocar fortes náuseas. Quando o paciente volta à consciência normal, não se lembra da sugestão em si mesma. Mas, quando aquele objeto lhe é mostrado, o estímulo visual causa náuseas intensas.


PODE O HIPNOTISMO INDUZIR CONSCIÊNCIA CÓSMICA?_ Conforme dissemos, não se sabe completamente como ocorre o hipnotismo. Acredita-se que a hipótese é uma neurose artificialmente induzida, isto é, um colapso na sintetização da consciência. Normalmente, todos os aspectos da consciência de uma pessoa são sintetizados, relacionados entre si. Somos mais ou menos igualmente receptivos a estímulos visuais, auditivos, olfativos, e outros, que recebemos através dos sentidos objetivos. No estado hipnótico, só funcionam os aspectos da consciência que respondem aos sentidos físicos que estão sendo estimulados pelas sugestões do hipnotizador.

A Consciência Cósmica é uma reação ou resposta da consciência ao EU divino, àquele EU que está em harmonização com todo o Cósmico. É um estado em que a consciência transcende todas as impressões exceto as impressões mais sutis do Cósmico que vêm através dos sentidos superiores, tais como os centros psíquicos e o sistema nervoso simpático. A consecução deste estado requer muita prática.

O aspecto mais difícil da Consciência Cósmica é a eliminação da consciência do mundo exterior e da consciência do organismo físico [corpo]. O individuo precisa continuamente se determinar, sugerir fortemente a si mesmo a supressão das faculdades objetivas. Precisa resolutamente sintonizar sua consciência somente a impressões provindas das profundezas do seu próprio ser. Finalmente, a consciência se torna orientada de tal modo, a tal ponto introvertida, que responde por breves períodos aos impulsos interiores. Tais estados não podem ser sustentados por mais de alguns minutos, no máximo.

Poderia o hipnotismo ajudar a induzir a Consciência Cósmica, desde que o individuo desejasse ser hipnotizado? Dentro de certo conjunto de circunstâncias,provavelmente sim. Primeiro, seria necessário que a consciência do individuo, sua estrutura moral, estivesse em acordo com aquilo que estivesse sendo tentado. Já vimos que as experiências e a ideação do passado desempenham um papel importante na hipnose. Portanto, se o indivíduo não soubesse nada sobre a Consciência Cósmica[isto é, não tivesse nenhuma compreensão do que se quisesse dizer com essa expressão]; não tivesse nenhuma confiança ou crença nesses estados especiais; e não tivesse por sua experiência passada nenhuma tendência espiritual ou mística e de idealismo elevado, então nenhuma quantidade de sugestões hipnóticas poderia ajudá-lo.

Em outras palavras, se uma pessoa tivesse reverência pelo misticismo e sinceramente desejasse alcançar a Consciência Cósmica, pela beleza da experiência devido ao que isso significaria para ela, então não se colocaria contra ou faria oposição à sugestão do hipnotizador enquanto estivesse em estado hipnótico. Na verdade, obedeceria à sugestão. Psicologicamente, faria todo esforço para elevar sua consciência a um nível de harmonização com o Cósmico. Mas poderia falhar por certa deficiência em sua natureza interior. Por outro lado, porém, em igualdade de condições, o sono hipnótico a libertaria dos embaraços costumeiros que ela sentiria ao tentar objetivamente alcançar a Consciência Cósmica.

Há bastante duvida, na falta de real experimentação para provar o contrário, de que o paciente lembraria de qualquer uma de suas experiências extáticas. Quando afinal voltasse a si, talvez não retivesse a experiência da Consciência Cósmica que tivesse vivido. No caso desse paciente, um relato pós-hipnótico da experiência vivida durante o estado hipnótico seria um experimento interessante. Isso poderia ser feito sugerindo ao paciente em sono hipnótico que escrevesse os resultados de sua experiência posteriormente, no estado pós-hipnótico. A hora em que isso deveria ser feito teria de ser também sugerida ao paciente. Então ele seria acordado. Quando chegasse a hora determinada, o paciente, agora sob pós-hipnóse, entraria novamente em sono hipnótico. Durante esse breve intervalo, ele escreveria sobre suas experiências anteriores. Uma análise dessas experiências poderia determinar se ele teria vivido um verdadeiro estado de Consciência Cósmica.

Se a Consciência Cósmica pudesse ser alcançada dessa maneira, não seria muito benéfica, pois o individuo não seria capaz de induzir à vontade aquele estado, pelo controle do seu próprio ser físico. Ele não seria representativo de uma consecução pessoal. Além disso, é possível que, através de sugestão em sono hipnótico, o individuo simplesmente reagisse ou respondesse a idéias passadas, ao resultado de sua imaginação quanto ao que seria um estado de Consciência Cósmica.

Por exemplo, uma pessoa que nunca teve a experiência de se afogar vai simular um afogamento quando hipnotizada, respondendo à sugestão do hipnotizador no sentido de que ela está se afogando. Tal simulação é apenas aquilo que o paciente imaginou que fosse um afogamento. Conseqüentemente, a reação de um paciente a uma sugestão para alcançar a Consciência Cósmica, feita sob sono hipnótico, poderia analogamente ser um mero estado imaginativo.
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[Texto de R.M.Lewis]