sábado, 7 de novembro de 2009

INTUIÇÃO, IDEALISMO E ILUMINAÇÃO


Em sua existência mortal, o homem tem várias vidas encadeadas. Isto não deve ser interpretado como se referindo a reencarnação, ou renascimento. Ao contrário, deve ser isso compreendido no sentido de que cada um de nós pode experimentar, em nossa existência física, vários estados de consciência que constituem diferentes aspectos da vida. Cada um deles é vivido separadamente, na ocasião;todavia, há pessoas que jamais se apercebem de alguns desses estados de consciência. Toda a sua existência mortal pode ficar confinada a um único ponto de vista quanto à vida. Para elas, é como se observassem o mundo através de uma mesma janela – continuadamente.

As vidas que vivemos são determinadas pela motivação psíquica e mental. As preferências e conduta que representam a nossa vida social e privada são, principalmente, o resultado de decisões que tomamos e que, por sua vez, são decorrentes de nossos processos mentais e estados emocionais. Na verdade, o meio-ambiente exerce também tremenda influencia sobre nós, ou melhor, as circunstancias em que somos precipitados diariamente. Todavia, a maneira pela qual reagimos a esses estímulos, a maneira em que os interpretamos e tentamos a eles nos ajustar, é conseqüência de nossa vida psíquica e mental, dos estados de consciência através dos quais percebemos e concebemos as experiências reais.

Há três principais estados de consciência, cada um deles caracterizando uma fase da vida. Eles são, realmente, as forças motivadoras que determinam o curso de nossa vida. Esses estados de consciência são:
ð Intuição;
ð Idealismo;
ð Iluminação.

Os dois primeiros são quase que comuns à maioria das pessoas e,embora muitas vezes mencionados são raramente compreendidos. O terceiro a ‘iluminação’ é difícil de atingir e, mesmo quando alcançado é quase sempre interpretado com significado diferente. Portanto, muitos tem sido iluminados, porém não reconheceram à experiência como tal. A plenitude de vida, a totalidade da existência humana a que consciente ou inconscientemente aspiramos, somente poderá advir da coordenação desses três estados:Intuição, Idealismo e Iluminação. Um impulso isolado oriundo dos dois primeiros jamais levará ao terceiro estado.

Que é Intuição? Durante séculos, a filosofia e a metafísica tem dado definições várias e muitas vezes confusas dessa experiência. Em tempos relativamente modernos, a psicologia tem também apresentado a sua versão. De modo geral, as obras sobre psicologia descrevem o fenômeno da intuição sob o tópico de “INSTINTO”. As experiências de intuição são comumente compreendidas como “Conhecimento não-Inferido ou Orientação”. É uma espécie de concepção que lampeja na consciência sem nossa volição e muitas vezes, quando aparentemente sem qualquer relação com nossos pensamentos do momento.

Dizemos que a Intuição é independente do raciocínio porque suas impressões não surgem como conclusão decorrente e imediata de qualquer proposição que na ocasião tenhamos em mente. Há também uma característica distinta com respeito às impressões intuitivas. Quando nos apercebemos de uma dessas impressões, tem ela uma clareza evidente que infunde a convicção de que dispensa explicação. Na verdade, definiríamos como “conhecimento intuitivo” as impressões a cujo respeito não temos duvida. Em outras palavras, podemos, freqüentemente, duvidar da validade de nosso julgamento quando raciocinamos; todavia, quando temos uma experiência ‘intuitiva’, jamais dela duvidamos.

É por essa razão que a intuição tem sido muitas vezes aceita como conhecimento imanente, isto é, como sabedoria inata que transcende o conhecimento adquirido de maneira usual. Na realidade, o conhecimento intuitivo tem sido freqüentemente associado com uma conotação religiosa ou espiritual, como um atributo da alma. Immanuel Kant, em sua obra “Critique of Purê Reason”, afirmou que tempo e espaço são formas de intuição, e que intuição, por sua vez, é conhecimento ‘a priori’. Em outras palavras, ele considerava a intuição como sendo uma espécie de conhecimento que precede o conhecimento adquirido através de experiências. Esse conhecimento ‘a priori’, afirmava ele, é parte da natureza real do homem;todavia, para ser expressado, tornam-se necessários os fenômenos ou experiências de nosso sentidos. Não é porém necessário que essas experiências realmente existam.

A psicologia coloca a ‘intuição’ na categoria do ‘instinto’. É conhecimento adquirido historicamente, isto é, o organismo humano tem tido de se ajustar a inúmeras e diversificadas condições, em sua longa evolução. Essa adaptação transformou-se em registros fixos, permanentes, no gene, uma espécie de impressão rememorativa. Portanto, toda vez que surgem circunstancias similares relacionadas com essas impressões rememorativas, são elas liberadas instintivamente como idéias intuitivas e ações instintivas. A psicologia afirma, ainda, que a intuição só é segura com relação à nossa sobrevivência, proteção contra perigos e condições que ameacem a vida do próprio organismo.

Em oposição às explicações da psicologia há inúmeras ocasiões em que idéias se apresentaram à mente procedendo, aparentemente, do vácuo. Essas idéias tem sido inspiradoras e se transformaram em solução para problemas desconcertantes. Embora talvez tenha estado ligada a uma corrente de pensamento mantida na ocasião, a impressão intuitiva, na maioria dos casos, tinha relação com conhecimento prévio. A idéia intuitiva tem sempre afinidade com os nossos interesses, atividades mentais, desejos, e experiências quer do presente ou do passado. Permitimo-nos afirmar que raramente a idéia intuitiva e completamente estranha às nossas concepções, interesses ou talentos.

Por analogia, podemos considerar as idéias como sendo objetos polarizados, isto é, tendo polaridade separada que atrai ou repele. Em nosso processo mental usual e objetivo, podemos não ser capazes de atrair todas as idéias que se relacionam com o pensamento particular e dominante em nossa mente em determinada ocasião. Na verdade, em nosso processo de raciocínio as idéias sobre as quais conscientemente nos concentramos poderão, muitas vezes, chocar-se ou opor-se umas às outras, resultando em conclusão insatisfatória.

Subseqüentemente, minutos, horas ou dias mais tarde, das profundezas da corrente de consciência subitamente surgirá uma idéia composta em sua perspicuidade, uma perfeita harmonia de pensamento. Pareceria, então, haver um ‘julgamento subconsciente’ que passa a atuar após haver parado ou falhado a mente pensante. Este, aparentemente, procede de uma inteligência superior, capaz de apreciar todas as idéias acumuladas que estão depositadas na memória e que tem relação harmônica entre si, harmonização essa que, eventualmente vem a se transformar nas impressões intuitivas liberadas.

É infalível a impressão intuitiva em todas as ocasiões? Nem todos os que tem seguido os chamados ‘palpites’ tem sempre alcançado sucesso. Essas ocasiões, todavia, podem não sr reveladoras da falha da intuição. A falha poderia ser originada na maneira em que o individuo aplicasse as impressões intuitivas aos seus assuntos. A intuição poderia ter sido deturpada ao tentar ele adaptá-la a determinado plano ou propósito.

O SENSO DE PRUDENCIA
A intuição inspira maior confiança quando usada com senso de prudência ao invés de sugestão positiva que implica em uma atitude nova. Assim, por exemplo, quando somos intuitivamente alertados para ‘não prosseguir em algo ou para assumirmos atitude oposta à que estamos mantendo’, é recomendável seguirmos a intuição a despeito da forma em que ela possa contrariar a razão. Desprezar totalmente a intuição é não reconhecer uma faculdade desenvolvida, inerente ao homem desde a sua ascensão de um estado primitivo.

A segunda força motivadora que constitui importante fase da vida é o IDEALISMO. A perfeição e o Idealismo estão ligados. Naturalmente, todo ideal não é perfeito em todos os sentidos. Na verdade, os ideais acalentados por algumas pessoas podem ser contrários aos ideais almejados pela sociedade em geral. Por exemplo, os ideais de um comunista na sociedade capitalista, ou vice-versa. Um ideal representa um objetivo abstrato, um estado ou coisa que é considerada como transcendendo a tudo que seja de natureza correlata. Qualquer coisa só poderá se transformar em um ideal por comparação com alguma outra cujo contexto seja reconhecidamente inferior.

Nossos ideais, todavia, podem ser intrisicamente falsos. Podemos almejar algo que viole a lei natural e que não tenha possibilidade de jamais se manifestar na forma por nós concebida. Por conseguinte, uma vez mais, muito embora um ideal, em si mesmo, possa ser racional, poderá não estar dentro das possibilidades ou da potencialidade daquele que o visualiza.

Há dois elementos para se analisar o idealismo: Um é a ‘razão’ e o outro a ‘intuição’. Um ideal pode ser transcendente, pode ser algo a ser alcançado. Todavia, deverá ele estar ligado ao presente: Deverá haver um elo entre o que existe e aquilo que se deseja venha a existir. Necessário se torna um método, uma corrente de causalidade pela qual o resultado final, ou ideal, possa ser concretizado. Para evitar a simples imaginação improdutiva, um ideal deverá ser analisado pela razão. Todos os meios para a sua concretização deverão ser apreciados. Este método revelará, em muitos casos, que um ideal é falso ou que não está dentro do reino das probabilidades.

A intuição é um guia seguro na determinação da materialização de um ideal. Se não nos deixamos levar pelo emocionalismo, pelo entusiasmo exagerado, mas, ao contrário, ponderamos primeiramente sobre determinado objetivo, de modo geral nos aperceberemos de uma impressão intuitiva de valor com ele relacionada. Na maioria das vezes, esse julgamento superior da intuição forma um elo valioso com o idealismo.

ILUMINAÇÃO
A terceira força motivadora e a que propicia a mais sublime experiência da vida é a ILUMINAÇÃO. Os místicos foram os primeiros a usar este termo com relação à experiência mística. No sentido etimológico mais amplo, ILUMINAÇÃO diz respeito a um esclarecimento sublime da mente. Em outras palavras, a mente é iluminada com uma luz rara de conhecimento e compreensão. Do ponto de vista místico, a iluminação é a “ Libertação dos grilhões deste mundo”. Assim, a mente, a consciência, é liberada para perceber a “vida total”, uma vida de união com Deus ou Ao Absoluto. Expressado de maneira mais simples, ‘o homem conhece a si mesmo’, porém não apenas como individuo; descobre seu parentesco cósmico. Para usar as palavras de um místico, “...ele é absorvido pelo seu elemento divino, como a onda o é pelo mar”.

Dionísio, monge sírio do sexto século, afirmou que a iluminação pela qual o individuo percebe a totalidade de seu SER é uma dádiva da divindade. Ela restaura o poder unificador do homem, pelo qual ele compreende a ‘unidade’ de tudo de que faz parte.

Se a iluminação é um aspecto da experiência mística, que é, então, a uniformidade total da experiência mística? Onde se enquadra a iluminação? De modo geral, há três estágios reconhecidos da experiência mística. São eles:
ð Purificação;
ð Iluminação;
ð Perfeição.


O primeiro, a purificação, é a admissão de nossas fraquezas de caráter; é uma tentativa de auto-análise e refinamento interior, e um desejo de eliminar os obstáculos de nossa própria criação que consistem de hábitos e costumes, tanto mentais como físicos.

Dessa purificação, dizem-nos, surge gradualmente a iluminação. Manifestam-se estados de separação gradual de consciência objetiva. Pouco a pouco, libertamo-nos [ainda que momentaneamente] da escravidão de nossa consciência unicamente à exterioridade, ao mundo das coisas. Desenvolvemos a sensibilidade das impressões mais sutis que surgem dentro de nós e que formam o nosso mundo interior. Isto é algo raramente alcançado pela pessoa comum, e apenas parcialmente quando podemos nos afastar do aparelho de televisão e sentar em meditação ou mesmo em abstração durante uns poucos minutos. Se isso pudermos fazer cada dia, mesmo que durante quinze minutos apenas, conseguiremos dar os primeiros passos que levam à Iluminação.

É possível descrever os passos pelos quais essa Iluminação, esse grande aclaramento da consciência pode ser experimentado? O que se segue é uma citação breve dos estágios pelos quais a iluminação tem sido alcançada por aqueles que sinceramente a buscavam.

[1]O despertar do EU para a consciência de uma realidade divina ou absoluta. Isto representa a convicção pessoal de que há um poder supremo real que tudo penetra. Este despertar se converte em uma sensação de alegria, como acontece no caso da descoberta de um fenômeno maravilhoso e agradável.

[2] O EU percebe, pela primeira vez, a beleza cósmica, isto é, sente a harmonia da existência pura. Ao mesmo tempo, o individuo se compenetra de suas próprias imperfeições;procura, então, eliminá-las pela disciplina e isto constitui purificação.

[3]Quando é completada a purificação, manifesta-se a iluminação, que é alcançada por graus ou estágios.

[4]A prova final tem sido chamada de “NOITE ESCURA ou NOITE NEGRA DA ALMA”. Trata-se de um teste da determinação do individuo. É um desafio que a ele se apresenta para que promova mudanças drásticas em sua maneira de pensar, seus hábitos e modo de vida. Por exemplo, a pessoa não poderá ser sensual ao ponto de entregar-se inteiramente aos sentidos e apetites físicos e ainda esperar tornar-se receptiva à luz interior da iluminação.

[5]O quinto estado não se manifesta quando o Absoluto é apenas sentido como experiência, quando é considerado simplesmente como um aspecto da Iluminação e, sim, quando a pessoa sente a UNIDADE com toda a existência. Ele ocorre quando a pessoa compreende que existe e, não obstante, não existe. Isto significa que a pessoa sabe que é mortal, compreendendo, porém, a imortalidade da essência em seu interior.

Na vida prática a Iluminação segue-se à Intuição e ao Idealismo. A intuição auxilia-nos a formar uma série de estágios para serem alcançados. Cada estágio, por sua vez, representa um ideal;cada ideal é mais elevado, mais humanitário, mais amplo e mais agradável ao nosso EU psíquico mais exaltado. Um ideal pode começar com saúde, com o bem-estar pessoal. Depois, transforma-se em preocupação com o bem-estar alheio, serviço à sociedade, ampliando-a gradualmente, com maior compreensão. O idealismo prepara a consciência para a iluminação.

A iluminação não é mera abstração. Não é a separação eventual do EU, do mundo. É, antes, a SINTETIZAÇÃO de todas as nossas faculdades e poderes para que possamos obter o Maximo de nosso instante mortal aqui na Terra. Por exemplo, ela proporciona uma clareza de visão com respeito aos fenômenos, as experiências da vida. O EU se compenetra da maior significação de todas as ocorrências em seu próprio interior e ao seu redor. A imensidade da Iluminação se constitui em uma penetração do mundo natural em maior intensidade e em determinado sentido, enquanto que, ao mesmo tempo penetra o Cósmico em um outro sentido.

Esses dois sentidos, todavia, são como que linhas que se curvam para se encontrar. Formam, assim, um todo, um circulo da existência mais completa.
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[Texto de Imperator]

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A ARTE HERMÉTICA


[A arte do alquimista se realiza dentro do sistema de tempo e espaço, embora sua finalidade transcenda esse sistema. O trabalho do alquimista é uma confrontação com a realidade. Seu passado e seu futuro, seu Eu interior e seu EU exterior, sua potencialidade e sua atualidade, tem de se unir numa harmonia que se repita até que persista e permaneça num estado relativamente fixo]

Limitações de tempo e espaço são substituídas por uma consciência de eternidade e infinidade. A LUZ invisível da unidade conduz o buscador ao fim de sua busca: a UNIDADE.

Essa unidade revela sua presença por meio de uma linguagem especial. Para ser percebida pela consciência objetiva, a mensagem precisa ser colocada numa forma extraída de referencias já integradas no arquivo de conhecimento adquirido do buscador, consciente e inconscientemente. O jorrar de expressões simbólicas é a primeira evidencia apresentada pelo potencial inconsciente à consciência objetiva do alquimista [seu ‘ego’].

A mensagem de unificação não dá margem a analise nem divisão em partes, mas vem a nós através da mente que, pertencendo ao reino da multiplicidade, desenrola a mensagem e lineariza a expressão do conhecimento global. Portanto, toda tentativa de decodificar a mensagem implica traição, já que significa reduzir a informação a formas especificas. Mas o símbolo permite que a mensagem seja transmitida sob várias formas alteradas: daí sua freqüência em sonhos, meditações e, naturalmente, textos alquímicos e iconografia.

O leitor de tratados alquímicos chega a uma interpretação pessoal dos símbolos que estudou e pode enriquecer sua experiência comparando esses símbolos com aqueles que recebeu através de sonhos e da vida espiritual. Essa interpretação individual é essencial, porque preserva a liberdade do buscador como individuo, e a forma particular em que a mensagem aparece é uma parte integrante de sua própria natureza. O crescimento resultante será assim muito adequado as suas necessidades e seu desenvolvimento.

É importante compreender que a alquimia é uma arte e, como tal, requer talentos e dons pessoais da parte do Adepto praticante. Assim como dois excelentes pintores, observando o mesmo cenário, não produzirão duas pinturas iguais, assim dois Adeptos da Arte Alquímica realizarão a GRANDE OBRA cada qual à sua maneira, dado que são diferentes tipos de ‘matéria-prima’


A TABUA DE ESMERALDA
Um dos textos fundamentais a que os alquimistas freqüentemente se referem é a Tabua de Esmeralda, obra atribuída a Hermes Trismegisto. Trata-se de um dos grandes testamentos legados à humanidade por um individuo ou grupo de indivíduos que alcançaram uma sabedoria incomum. A sabedoria se expressa na perspicácia do autor desconhecido, descrevendo seu próprio processo de geração. A doutrina ali proclamada servirá durante séculos como um fio de Ariadne para todos os Filhos da Ciência, no labirinto que pode levar à realização alquímica.

O “opus”, como é sumariamente descrito e confirmado na Tábua, é um processo que se aplica à gênese do Universo como um todo, abrangendo tanto o aspecto espiritual quanto o material. O alquimista sabe muito bem que não há hiato entre matéria e mente, visto que ambas são apenas dois aspectos da mesma coisa.

As leis que regem sistemas galácticos e planetários são as mesmas que operam no corpo e na mente do homem. E como essas leis se aplicam também à evolução do reino mineral,então o trabalho físico desenvolvido no ‘cadinho’ correspondo ao trabalho espiritual que requer que o alquimista atue sobre si mesmo como objeto e ‘matéria-prima’.

Não obstante, o ‘estado espiritual prevalece sobre o ‘estado material’, justificando como isso a injunção bíblica:”buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” [Lucas, 12:31].

Tudo isso se ajusta ao axioma alquímico de Geber, que diz:”corpos não podem influenciar corpos;somente espíritos são capazes de agir”. O espírito pode transcender a ilusão temporal a que os corpos estão sujeitos. É nisto que a Pedra Filosofal pode catalizar transmutações materiais, os fenômenos naturais que ela acelera. Assim o alquimista domina a energia contida na matéria, bem como sua própria energia psíquicas, que ele sublima para alcançar Conhecimento.

Eis o texto da Tábua de Esmeralda:

Verdade é, sem falsidade, certo e muito verdadeiro. Aquilo que é acima é como aquilo que é abaixo, e aquilo que é abaixo é como aquilo que é acima, para realizar o milagre de uma só coisa.

E como todas as coisas passaram a ser pelas meditações de uma, todas as coisas surgiram dessa coisa única por adaptação.

O pai disso é o Sol, a mãe é a Lua.

O vento o carregou em seu ventre, e a Terra é a sua ama-de-leite.

Eis o pai do Telesma[perfeição] do mundo inteiro.

Seu poder é perfeito se é convertido em Terra.

Separarás a Terra do Fogo, o sutil do grosseiro, delicadamente, com grande diligência.

Isso de fato ascende da Terra para o Céu e novamente desce para a Terra, recebendo força das coisas superiores e coisas inferiores.

Assim possuirás a glória do mundo inteiro e toda obscuridade fugirá para longe de ti.

É a vigorosa fortitude de toda força, pois supera todas as coisas sutis e penetra todas as coisas sólidas.

Assim foi o mundo criado.[1]

Portanto, haverá maravilhosas adaptações, cuja maneira de realizar está aqui.

Por esta razão sou chamado de Hermes Trismegisto, porque tenho as três partes da sabedoria do mundo inteiro.

O que eu disse sobre a operação do Sol está completo.

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O texto afirma a aparente dualidade das coisas e a similaridade dos opostos. Essa similaridade existe para realizar o milagre de uma só coisa, isto é o milagre da Unidade. É a união de forças universais contrárias, análogas mas opostas em virtude de sua diferença de polaridade. Essa unidade é o axioma básico da alquimia que, muito antes de nossa Física contemporânea, afirmava a unidade de energia e matéria.

A própria missão de Hermes Trismegisto, de harmonizar os contrários, deu à alquimia sua denominação de “arte da música”. Na imensa sintonia executada no Teclado Cósmico, o homem situa-se como uma corda vibratória esticada entre o Céu e a Terra, entre o que é acima e o que é abaixo, e cuja tensão permitirá ao homem tornar-se um verdadeiro Mercúrio, um mensageiro de deuses em seu próprio planeta.

A evolução de uma geração múltipla partindo da unidade corresponde ao estágio alquímico de separação, em que temos um dividindo-se em dois, de polaridades opostas, mas harmonizando-se em virtude de serem capazes de gerar, por adaptação, todos os fenômenos do mundo de aparências. Por isto é que a Criação ocorre pela meditação do Um, ou seja, mediante profunda reflexão no seio da unidade.

Isso supõe um sujeito e um objeto e daí uma heterogeneidade de ‘matéria-prima’ aceita como uma ‘unidade de partida’.Por este motivo, em iconografia alquímica, a matéria-prima ou CAOS é muitas vezes representada como seres polimórficos. Esse ‘caos’ também figura no estado de desordem dos componentes do homem profano no começo de sua busca.

Assim como uma criança nasce da conjunção do pai e da mãe, a Pedra [unidade recém-percebida] nasce da união de ambas as naturezas. Nasce do Sol e da Lua. O Sol é o Filosofal, com sua propriedade multiplicadora gerando um novo Sol. O Sol é o principio ativo da vida terrestre, irradiando sua energia em calor, luz e magnetismo. O receptáculo dessa semente é a Lua, a prata Filosofal, um principio passivo que recebe a força vitalizadora do Sol.

Note-se que o esquema, luz direta[Sol] + a mesma luz polarizada por seu reflexo[Lua], aplica-se ao comportamento psíquico das pessoas, tanto individual quanto coletivamente.

O embrião da Pedra nascida do par Sol-Lua está no ar, no vento. Há então de fixar-se [2] nas águas do orvalho, antes de alcançar sua ama-de-leite terrestre. Esse movimento descendente do Fogo para o Ar, a Água e a Terra, leva a uma corporificação muito material da energia do espírito. A “Tábua de Esmeralda” qualifica essa ocorrência como o Pai do Telesma do mundo inteiro. As raízes árabes e gregas da palavra “Telesma” evocam também idéias de talismã, consecução, perfeição e iniciação. Tendo observado a corporificação do espírito na Terra, a Tábua acrescenta: o Pai[origem] de toda iniciação Pa perfeição está aqui, no mundo terrestre. Lembremo-nos da imagem de François Rabelais, do convento ideal, e de seu moto – “Fais ce que tu voudras” [Faze o que queiras]. Isto indica que, ao contrário de entregar-se à permissividade, o individuo deve submeter toda ação a uma vontade bem disciplinada.

Nesse ponto o “Rebis” terrestre é estabelecido. A Tábua pede agora ao filósofo que faça uma nova separação, ou seja, que aja sobre as forças universais de atração-repulsão que operam em todos os corpos. O homem não escapa dessa lei, visto que sua natureza dual [corpórea e espiritual] liga-o ao mundo material e visível através de seu envoltório físico e, ao mundo invisível de energias, através de sua sensibilidade, intuição e espiritualidade.

Para conseguir alcançar um estado superior de consciência, o buscador precisa submeter seu corpo a seu espírito, isto é, separar o fogo espiritual sutil do pesado corpo terrestre, de modo a colocá-lo em ressonância harmônica com o mundo superior.

Os alquimistas chamam essa operação de ‘mundificação’, separando a luz das tenebras [trevas]. As partes mais puras são separadas da impuras. Diz-se então que ‘Le Monde est séparé de l’immonde’[3]. Durante a operação de circulação, o volátil é separado muitas vezes do fixo, a fim de se elevar ao céu e descer à terra. A matéria sofre uma destilação num circuito fechado durante o qual o resíduo fixo, sucessivamente, é secado e umedecido novamente mediante volatização. Durante a volatização do fixo, o corpo se espiritualiza, ao passo que, durante a fixação do volátil, o espírito se corporifica.

VÔO DAS ÁGUIAS.
Nesse trabalho [também chamado ‘vôo das águias’] a matéria se harmoniza, num verdadeiro sentido musical, com coisas superiores e inferiores. No homem, o ciclo de circulação alternativa se aplica a períodos de vigília e de sono, racionalização de experiências intuitivas e oníricas [ de sonho], bem como ao processo deliberado pelo EU de liberar seu corpo sutil do corpo físico. Isso deve ser entendido mais como um estado alterado do que uma mudança espacial de lugar.

Durante as sucessivas ascensões e descensões, o Filho da Ciência se enriquece ao ascender à força do nível cósmico superior, que ele traz para baixo, para o nível terrestre de sua experiência encarnada.

O discípulo possui as ferramentas da maestria. Estabelece contato com o mundo das causas que regem o destino das coisas e dos seres. Sua consciência conheceu muitas fusões à fonte original de toda ciência. Toda obscuridade dele se afasta, as trevas são separadas e ele permanece na luz.

O fruto da Grande Obra é o agente da transformação universal, que atua sobre a energia contida na matéria. Após a fase de crescimento de poder da Pedra, conhecida como ‘multiplicação’ e produzida por repetição do processo de fermentação, o “Mercúrio Filosofal” adquire uma propriedade que lhe dá a capacidade de “tingir” metais inferiores. Quer dizer, sua superabundância de tintura pode ser passada a corpos imperfeitos, por uma penetração intima no próprio coração desses metais.

TRANSMUTAÇÃO PESSOAL
Tendo realizado a Grande Obra, o Adepto agora efetua sua própria transmutação. Daí em diante, sua vida mental e espiritual tem a mesma qualidade penetrante e de tintura de sua pedra física. Os antigos costumavam dizer que o filósofo que tinha sucesso recebia ‘o presente muito precioso de Deus’. Essa dádiva é o eterno presente, que dá ao seu possuidor a reputação de longevidade. Liberada das restrições objetivas de tempo e espaço, sua consciência pode ser projetada para coisas e seres preparados para recebê-la.

O discípulo obreiro tornou-se um mestre cuja consciência pode agora contribuir para a Grande Obra que ocorre em escala cósmica.

Os passos da Grande Obra correspondem aos da criação do Mundo, demonstrando uma analogia entre microcosmo e macrocosmo. Mas isso é apenas uma analogia, porque, segundo os sábios antigos, Magisterius não é criação e sim um processo gerador realizado pelo artista que é conduzido pela natureza e está apenas acelerando seu próprio trabalho de purificação.

Lembremo-nos de que,para os alquimistas, criar o mundo significa separar o puro [mundo]do impuro [imundo]. Nenhuma operação advém da unidade, e todas as coisas se originam de uma coisa única por adaptação.

Se admitimos que o Adepto, tendo recebido o eterno presente, torna-se senhor do tempo e do espaço, e que sua Arte de Música consiste num trabalho com o teclado harmônico de vibrações universais, temos então a ‘chave’ de toda a sua aventura. Freqüências vibratórias dependem de tempo. Um numero de vibrações num dado tempo é uma característica de uma substancia ou um fenômeno. Chegamos então à seguinte interpretação dos primeiros versos da Tábua de Esmeralda:”as ondas acima são como as ondas abaixo, para realizar o milagre de uma só coisa. Portanto, todas as ondas surgiram de uma onda única por adaptação de sua freqüência vibratória”.

Naturalmente, cada um de nós tem liberdade para traduzir ‘onda’ por palavras como:vibração, espírito, energia ou Logos.

O adepto realizou sua separação e depois sua conjunção, enquanto o “Casamento Alquímico” ocorria nele próprio. Em seu laboratório, o artista cauteloso limita o número de multiplicações, sob pena de perder todo o resultado de seu longo trabalho, que, espiritualizando-se desapareceria totalmente do nível objetivo. Analogamente, quando o Adepto completa sua própria transmutação, não busca sua fusão total na Unidade, porque sabe que ação efetiva só é possível no mundo da dualidade.

Em seu novo estado, o Adepto representa e tem permissão para falar ao mundo como o próprio Mercúrio do Sábio, a exemplo de Hermes Trismegisto, que possui as três partes de toda a filosofia do mundo. A Esmeralda Filosofal, ou orvalho da primavera, é também denominada ‘mercúrio triplo’, devido ao seu uso em três diferentes estágios principais da obra. Do mesmo modo, o Adepto recebe a tripla Coroa como símbolo de sua vitória em obter o remédio dos três reinos.

O que eu tinha a dizer sobre a operação do Sol está completo. O Sol, símbolo do ouro espiritual e da perfeição, emite suas radiações. O Adepto existe daí em diante como um Sol entre seus irmãos humanos, porque tornou-se também um ser radiante.

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Notas do Editor:
1] criado: Esta é uma tradução do latim. O texto árabe, mais antigo, diz:”assim o pequeno mundo criado segundo o protótipo do grande mundo”. Isto implica que o homem, o microcosmo, é a imagem perfeita do macrocosmo, quando finalmente realiza sua natureza original que foi “feita à imagem de Deus”. Embora a Tábua de Esmeralda seja atribuída ao antigo e legendário Hermes Trismegisto, as mais antigas versões conhecidas dessa expressão de dogma alquímico estão em árabe [8º Século]. Não obstante, a Tábua e seu conhecimento são de origem pré-islâmica.

2]Fixar: Nesta e em outras referencias alquímicas, significa ter uma forma ou um caráter final ou cristalizado, não-volátil. Significa também transformar um liquido num corpo sólido – isto é, “fixação”.

3]”O mundo é separado do não-mundo”. Há aqui um trocadilho em francês,correspondendo ao português: “o mundo é separado do imundo”. Quer dizer, o “puro” é separado do “impuro”.

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[Texto de: Cristian Balister]