11 de mai. de 2010

Esperanto a Língua do Homem


Nesta era moderna, o homem sente que a Terra se torna cada vez menor. Sua noção de ‘países estrangeiros distantes’ tem mudado para a de ‘vizinhos próximos’. Seus antepassados viajavam meses para chegar a lugares que ele agora alcança em poucas horas de vôo. A crescente explosão demográfica mundial tem exigido recursos materiais cada vez maiores, que se encontram dispersos pelo globo em poder de ‘potências estrangeiras’. Este fato demonstra claramente nossa condição de interdependência como países. A interdependência, por sua vez, torna a comunicação um fator absolutamente necessário entre os países que possuem e os que precisam de recursos. Entretanto, desde os dias da Torre de Babel [ou coisa que o valha], o homem desenvolveu sua comunicação apenas no seio de sua tribo ou de seu clã, uma vez que esse era o limite de seu mundo. Mais recentemente, porém, o homem foi tomando consciência de um mundo ‘exterior’ maior e de muitas línguas. Que pode ele fazer para comunicar-se?

Há duas soluções possíveis: o individuo aprender todas as línguas, OU ‘todos’ os indivíduos aprenderem uma língua comum. Os habitantes dos países de fala inglesa dizem que não existe problema: “Todo mundo fala inglês!” Mas é somente eles que se jactam disto. M verdade, conforme estatísticas, apenas ‘dez por cento’ da população mundial fala inglês. E muitos dentre estes estão empregados, no mundo inteiro, em funções criadas tão-somente para a comunicação com aqueles que só falam o inglês. São eles os intermediários que servem de ponte para o abismo que separa a minoria da maioria de ‘noventa por cento’.

A civilização criou outros problemas [o Terceiro Mundo, por exemplo]. Povos que durante muito tempo estiveram sob o domínio de culturas como a inglesa, a francesa, a espanhola, a portuguesa, etc, sofrem um problema psicológico como nações recém independentes, ao se confrontarem com seus antigos idiomas coloniais. Tais povos querem esquecer seu passado infeliz. Orgulham-se de seu idioma nativo, e insistem em seu uso. Sua herança [inclusive o idioma nativo] é coisa preciosa para eles e deve ser preservada. Calcula-se que existem alguns milhares de idiomas diferentes. Estatísticas fáceis de ser obter mostram que há cerca de trezentos idiomas falados por pelo menos um milhão de indivíduos. Entre estes idiomas estão o estoniano, o congolês e o macedônio, falados por pelo menos um milhão de pessoas. Os povos dessas culturas não querem e não devem abandonar seus idiomas. Assim mesmo, a crescente necessidade de comunicação continua sendo um grande problema. O que fazer?

UMA NOVA LÍNGUA
Cerca de cem anos atrás, um jovem polonês sofria com este tipo de problema, embora talvez por razões um tanto diferentes. Luiz L.Zemenhof, filho de um professor e censor, morando em Bialystok, região da Polônia ocupada pela Rússia, sofreu pessoalmente as tristes condições resultantes da confusão de línguas. Nessa cidade polonesa, era proibido falar o polonês. O ensino era ministrado em russo, e todos os procedimentos legais também eram efetuados em russo. A literatura polonesa, igualmente proibida, só podia ser conseguida clandestinamente. Nessa cidade havia pessoas de várias nações, como em muitas das históricas cidades européias. Os habitantes falavam russo, polonês, alemão, iídiche ou hebraico, conforme sua origem. Era inevitável que eventualmente ocorressem muitas lutas e amargos conflitos. Isto era um espetáculo deprimente para que um jovem frágil e sensível suportasse. De fato, isto afligiu a mente de Zamenhof, levando-o a buscar uma solução para esse problema tão angustiante. Ele concluiu que a língua e a religião eram a fonte dessa amargura. Convenceu-se de que era necessária uma segunda ‘língua para conversação’ que não interferisse com a língua nativa, a língua nacional usada em família ou secretamente.

Em 1887, após dez anos de intenso trabalho e aperfeiçoamento, e com pequeno auxilio financeiro, o jovem Zamenhof publicou seu livreto intitulado ‘Língua Internacional’. Usara o pseudônimo de ‘Dr. Esperanto’[que significa aquele que espera]a fim de proteger sua identidade e escapar de certas penalidades ou censura. O sucesso foi imediato, e a língua logo tornou-se conhecida simplesmente como “Esperanto”. Evidentemente o mundo já estava esperando essa resposta ao seus problemas de comunicação. O uso do ESPERANTO logo propagou-se por todo o mundo, motivando a realização de um congresso internacional, que ocorreu em Boulognesur-Met, na França, em 1905. Desde então, realizou-se anualmente um congresso internacional, com exceção de 1914, devido à eclosão da Primeira Guerra Mundial. O Grande Congresso de 1981, realizou-se no Brasil, na cidade de Brasília. O esperanto tem florescido em ciclos, com recessos temporários devidos às Grandes Guerras. Ditadores e Políticos de má vontade encabeçam a lista dos que têm procurado impedir a propagação do Esperanto, pelo menos até os dias atuais. Sendo de natureza não lucrativa, esta língua também tem sofrido por causa da pequena publicidade, como a maioria dos movimentos minoritários.

Nenhuma língua pode ser aprendida sem um sincero esforço. Não obstante, dentre todas as línguas, o Esperanto é a mais fácil de se aprender. A razão disto? Ele está estruturado cientificamente para evitar os obstáculos comuns que dificultam a aprendizagem da maioria das ‘segundas línguas’. O Esperanto é freqüentemente usado como introdução às línguas estrangeiras mais tradicionais. Quais os segredos da atração por uma língua tão fácil? Por que a sonoridade flui musical e naturalmente? Por que ele está sendo falado hoje em mais de noventa e três países? Que há nele que possibilita a pessoas de diferentes culturas falarem-no com a mesma facilidade?

O Esperanto é uma língua fonética: ‘uma letra – um som’. Escreve-se como se pronuncia e pronuncia-se como se escreve. O acento tônico cai ‘sempre’ na penúltima sílaba. As dezesseis regras básicas ‘não’ admitem exceções. ‘Não há’ verbos irregulares [o terror de todos os estudantes de línguas]. Não há sons difíceis de se pronunciar para pessoas de diferentes nacionalidades. O vocabulário é relativamente pequeno devido ao uso sistemático e abundante de prefixos e sufixos. Por exemplo: o bono – o bem; bona- bom ou boa; bone – bondosamente; boneco [pronuncia-se ‘bonetso’] – a bondade; plibona – melhor; plejbona [pronuncia-se pleibona] – o melhor de todos; malbona – ruim; bonulo – um indivíduo bom.

Um dos principais fatores da aceitação universal do Esperanto é o fato de ser ele ‘neutro’. É ‘apocaliptico’ visto não pertencer a qualquer nação ou cultura. O orgulho e o nacionalismo de todos os países, especialmente dos menos favorecidos, opõem resistência à adoção de uma língua de outra nacionalidade. Por isto, o Esperanto pode ser aprendido ‘igualmente’ por ‘todas’ as nações, grandes ou pequenas. No entanto, alguns eruditos sofisticados contestam, ‘mas é uma língua artificial!’Sim, exatamente como ‘todas’ as línguas. Todas foram criadas pelo homem algum dia no passado. O Esperanto, sendo cientificamente construído, tem a vantagem de evitar todas as incômodas excentricidades das línguas ‘naturais’ [e nacionalistas].

Em nosso mundo economicamente conturbado, os serviços de tradução e de intérpretes estão exaurindo os recursos financeiros de todas as organizações que servem ao relacionamento dos povos. As Nações Unidas, o Mercado Comum Europeu, a Organização da Unidade Africana, e grupos semelhantes necessitam empregar exércitos de tradutores e interpretes num exaustivo esforço para manter seus membros informados. Mas por melhor que seja, esse serviço inclui no máximo nove idiomas. Por conseguinte, cada representante deve conhecer no mínimo uma das línguas oficiais, a despeito de sua língua nativa. Quanto tempo ainda teremos de esperar para que se compreenda que, com o esperanto [que, diga-se de passagem, com freqüência aprende-se sozinho], um esforço conjunto através das Nações Unidas, por exemplo, possibilitaria a ‘todos os cidadãos do mundo’ se comunicarem com clareza em não mais que ‘uma’ geração! Visualize isto por um momento!

O Esperanto não é um brinquedo, tampouco um sonho impossível. Embora seja ainda relativamente uma criança [ com pouco mais de 100 anos de idade] entre as línguas do mundo, ele está solidamente estabelecido e seu uso em crescente expansão. Há atualmente 127 dicionários técnicos e vocabulários em cerca de cinqüenta ramos de ciência, filosofia, tecnologia, bem como manuais publicados na Língua Internacional Esperanto. A literatura também é vasta, contando com obras traduzidas e romances ‘originais’, contos, peças teatrais, poesias, bem como trabalhos científicos, filosóficos e didáticos. Só a Biblioteca da Associação Britânica de Esperanto conta com cerca de 30.000 volumes registrados. Há também numerosos periódicos publicados em Esperanto no mundo inteiro. Cerca de vinte e três estações de rádio transmitem regularmente programas em esperanto. A Associação Universal de Esperanto, com sede em Rotterdam, mantém relações de consulta com a Organização das Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos. Há milhares de clubes e associações de esperanto no mundo inteiro.

Para que o mundo desfrute da verdadeira fraternidade humana, a compreensão e o entendimento mútuos devem ser diretos. Embora a tradução de línguas nos tenha levado longe em nossa civilização, ela se compara à fotografia de um lugar, à gravação de uma boa musica, a um perfume, ou ao sabor artificial. Tudo isto é verdadeiramente artificial! Qualquer ser humano ‘pode’ comunicar-se diretamente com seu semelhante, se decididamente o quiser.

Agora teste sua capacidade lingüística pelo pequeno texto que se segue: “Inteligenta persono lernas la lingvon Esperanto rapide kaj facile. Simpla, fleksebla, belsona, gi estas la praktica solvo de la problemo de universala interkompreno. Esperanto meritas viam seriozan konsideron”. Tradução: “Uma pessoa inteligente aprende a língua Esperanto rápida e facilmente. Simples, flexível, sonora, ela é a solução prática do problema da compreensão mútua universal. O Esperanto merece sua séria consideração.
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Feliz é o homem que plantou em seu coração as sementes da benevolência; o fruto será a caridade e o amor. “A Ti Concedo”.

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[Texto de Cris R. Warnken].

10 de mai. de 2010

Experiência, Felicidade e Sabedoria


Ouvi alguém afirmar que um certo profissional era o mais experiente em sua profissão porque era o que estava há mais tempo atuando naquela atividade. Acho interessante a idéia de idade cronológica ou tempo de permanência em certa atividade serem considerados condições suficientes e obrigatórias de aquisição de uma qualidade chamada experiência.

Por esta analogia, tempo/experiência, seria forçoso afirmar-se que experiência é algo concreto e que uma pessoa, nas condições aqui consideradas, teria experiência mesmo que não o quisesse ou buscasse.

Refletindo sobre esta idéia,podemos considerar alguns aspectos que podem modificar tais afirmações. O primeiro aspecto é o de que uma pessoa só pode adquirir experiência no que vivencia. Um veterano piloto de avião não é necessariamente experiente para o comando de um navio e vice-versa. Alguém pode ser muito hábil e seguro em uma atividade e, ao mesmo tempo, completamente inseguro em outra.

Devemos considerar, também, as habilidade inatas, o talento, o nível de inteligência, a capacidade maior ou menor de percepção e elaboração de novas informações, de reflexão, a vontade, o interesse, a coragem, a dedicação, as características físicas, a saúde, etc. Há que se considerar, ainda, o meio onde a pessoa atuou, com quem aprendeu, em que escola, em que família, como foi alimentada, onde morou e outras condições que lhe foram oferecidas e que compuseram a sua visão de mundo.

Nas habilidades inatas e no talento sabemos que, mesmo pessoas submetidas às mesmas condições de vivência não se tornam robôs, como que fabricados m série. Nem todos se tornam virtuosos em uma arte, um esporte, uma profissão. Nem todos os médicos, professores, atletas, advogados, artífices, pilotos de corrida, obtêm os mesmos resultados, como exemplo. A realidade mostra isso. Alunos de uma mesma turma não tiram as mesmas notas. Os troféus e outras honrarias são dados aos vencedores e nem todos vencem as provas de que participam. Nem todos os que participam de uma guerra se tornam neuróticos. Nem todas as pessoas submetidas aos mesmos fatos e situações reagem da mesma forma. Como já foi dito, alguém pode ser muito criativo e produtivo em uma atividade e inapto para outra. Este quer muito e produz muito, aquele se contenta com bem menos.

Podemos então concluir que não existe algo concreto e único que se possa chamar de experiência, uma qualidade que se adquire com o tempo assim como a idade e as rugas. Que experiência é processo, que é relativa, assim como pessoas são diferentes, cada pessoa é uma ‘experiência’ diferente. Principalmente, o que diferencia uma experiência da outra é o resultado: ‘umas pessoas se tornam sábias e exemplares com a vida; outras se tornam amargas e derrotistas; Outras ainda nada apreendem. A realidade nos mostra isso,claramente. Umas se tornam grandes lideres, dedicam-se a causas de grande magnitude. Entre seus colegas de caminha há os que se contentam com uma vida modesta e sem grandes ambições. Há líderes e liderados, patrões e empregados, chefes e chefiados, tudo em diversos níveis, e nem poderia ser de outra forma. Tem que haver pessoas para todos os tipos de atividades. Há sabedoria nesta regra.

Pelo mesmo caminho vai a felicidade. Não consigo desvincular a idéia de felicidade da nostalgia do Paraíso. Nós tendemos a considerar felicidade como algo pronto, concreto e definitivo. De alguma forma, nós humanos sabemos que é possível e almejamos um estado de plenitude que é nossa ‘necessidade-mãe’, a maior das necessidades do homem, razão de ser de sua existência e evolução. Isto nos permite supor que todas as ações humanas, até mesmo a satisfação de suas necessidades de sobrevivência são, de uma forma, elaboradas no sentido de criar um estado de satisfação ideal, ainda que repetitivo e penoso, porque equivocado, que sirva de ensaio, de protótipo de um estado de satisfação definitivo, que parece ser a tal felicidade. Religião, religação, reintegração.

Pensando em felicidade, podemos compará-la com liberdade. Falar de liberdade é mais fácil. Podemos falar de liberdade de opinião, liberdade de ir e vir, liberdade física, de estilo de vida, de pensamento etc. Liberdade também nos oferece a noção de processo, de caminho, de conquista passo a passo: libertação, ação de libertar. Mais liberdade, menos liberdade. Apesar de ser uma noção subjetiva, conceitual, é mais fácil de ser caracterizada, idealizada, legislada, projetada, até por comparação, com outras épocas da história da humanidade, com outras culturas.

Felicidade, porém, é um conceito mais complexo. Uma pessoa pode sentir-se feliz intimamente, mesmo sem estar gozando de liberdade física ou ideológica, por exemplo. Para esta afirmação temos que buscar um sentido, fatos, explicação. Sra que alguém de elevado status espiritual e anímico, um iluminado, um destemido moral, um Cristo, um Ghandi sentir-se-ia menos feliz em si mesmo ainda que posto em um cárcere? Sentir-se-ia menos livre? Sabemos de pessoas que conservam sua noção de liberdade e satisfação intima mesmo nas piores privações. Madre Teresa de Calcutá, por exemplo. Eis a resposta.

Facilmente, por este caminho, podemos definir em que pode consistir a felicidade. É, acima de tudo, um estado de espírito e de alma. Mas, e o processo de construção da felicidade, assim como o processo de libertação? É possível? Claro que sim. A prática mística é um caminho. Os ensinamentos são um caminho. A experiência proveitosa e consciente ao longo da vida é um caminho. A experiência! Eis que dela volta! A crença no Bem é um caminho. A prática do Bem é um caminho. A fé verdadeira e inequívoca é um caminho. A virtude é um caminho. O amor.

Citando o Dalai Lama: “Uma grande questão sublinha a nossa experiência, quer a examinemos conscientemente ou não: qual é o propósito da vida? Desde o seu nascimento, todo ser humano almeja a felicidade e foge do sofrimento. Não existem condições sociais, níveis de educação ou ideologias que alterem esse fato. Do fundo de nosso ser, simplesmente desejamos ter contentamento. Portanto, é importante descobrir o que nos pode trazer o mais alto grau de felicidade.”

E a sabedoria? É tudo isso. É a noção de liberdade. É a construção da felicidade apesar e acima de tudo. É a construção acabada de tudo isto, no mais fundo do peito, no corpo na mente e na alma. Pensamento, palavra e ação. No ser. Na luz, na Vida e no Amor.


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Nota: As citações do Dalai Lama foram colhidas no livro de sua autoria “O Caminho da Tranqüilidade”, Editora Sextante, tradução de Maria Luiza Newlands Silveira e Márcia Claudia Alves, ano de 2000, páginas de 13 e 20.

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[Texto de Sérgio Elifas Wanderley]