24 de fev. de 2010

A Fantasia Mental da Realidade_


Será o homem a única realidade?

Os filósofos conhecidos como solipistas sustentam que não há outra realidade a não ser o próprio EU;em outras palavras, toda experiência é considerada uma fantasia, não havendo qualquer existência exterior que lhe corresponda. Muitos pensadores ilustres, porém, tem refutado esta TEORIA de modo lógico e racional. As noções verdadeiras vivenciadas pela mente têm sua origem nas impressões dos sentidos objetivos do homem. O homem pode distorcer as impressões de seus sentidos a um estado de fantasia. Não obstante, ‘alguma’ coisa existe por detrás da fantasia; não se trata pura e simplesmente de um produto da consciência humana.

No entanto, não podemos presumir que a mente do homem seja um espelho da realidade; que aquilo que percebemos seja uma imagem autêntica da realidade. Nem podemos estar certos de que a nossa consciência do que chamamos ‘realidade’ seja sequer uma sombra da mesma, conforme Platão a ela se refere em seu diálogo ‘A República’.

Há uma enorme complexidade entre a natureza dos estímulos de nossos sentidos objetivos e sua interpretação em sensações e, finalmente, em idéias. Conferimos a essas variações exteriores de energia, às quais reage nossa consciência, uma identidade específica, como cor, som, gosto, etc.

Se tais impressões são as mesmas e aparentemente absolutas para todo mundo, constituirão então realidade?

Sabemos que certos comprimentos de onda da luz visível do espectro solar sempre produzem determinadas cores para a visão normal do homem. O mesmo pode ser dito quanto a certas oitavas de som que produzem diversas vibrações para a audição normal.

Mas terão elas a característica de realidade independente da consciência do homem?

Surge a questão:

ð “Pareceriam diferentes estes fenômenos a um ser senciente que não o homem?
ð Alguns animais são cegos às diversas freqüências da luz visível que o homem interpreta como cor. Qual, pois, constitui a realidade?
ð Será a interpretação do homem das energias do ‘espectro eletromagnético’[como as ondas de rádio, ondas infra-vermelhas, ultravioletas, raio-x, e raios cósmicos]a realidade pura?
ð Deverá aquilo que se apresenta ao homem como uma ‘constante’, aquilo que é percebido por todas as pessoas, ser aceito como ‘realidade absoluta?’

O célebre filósofo e cientista ‘Albert Einstein disse:

“A crença num mundo exterior independente do sujeito que o percebe é a base da ciência natural. Entretanto, visto que a percepção sensorial só fornece informação desse mundo exterior ou da ‘realidade física’ indiretamente, só podemos inferir a última por meio especulativos. Segue-se que nossas noções da realidade física não podem jamais ser conclusivas. Devemos estar sempre prontos para mudar essas noções... de modo a fazer justiça aos fatos percebidos de modo mais logicamente perfeito.”

O HOMEM E O COSMOS_
Uma vez que não podemos racionalmente aceitar a TEORIA DO SOLIPISTA, de que o homem é a única realidade, e sim a de que ele é apenas uma minúscula parte do Cosmos, será o ser humano então o único fenômeno a ser admitido exatamente como ele é vivenciado?

Mais sucintamente, será o EU, o nosso ser, o único arquétipo do todo da realidade que nossa consciência pode perceber em sua verdadeira natureza?

O homem ‘existe’, e tudo o mais de que ele tem consciência também ‘existe’; mas existirão o homem e as coisas de que ele tem consciência exatamente como ele próprio as conhece?

Os homens tem em comum um padrão de avaliação pelo qual consideram a existência. Confiam nesse padrão devido à sua universalidade; isto é, todos os seres humanos ‘normais’ tem-no de igual forma. Esse padrão de avaliação consiste nas características dos sentidos objetivos e nas construções mentais que o homem faz dos mesmos. Esses instrumentos de medida inatos são as classificações de:

ð identidade;
ð quantidade;
ð qualidade;
ð continuidade;
ð tempo-espaço [sucessão]; e –
ð causalidade.

I] A ‘identidade’ é mais do que a percepção. Não se trata simplesmente dos estímulos dos sentidos objetivos específicos, como a visão, a audição, etc. Antes, identidade, é a ‘compreensão’ que decorre da experiência. Deve haver uma existência independente; em outras palavras, o que se percebe deve ser compreendido como uma espécie específica ou ‘classe’ de coisas. PÓ analogia, para que uma banana tenha identidade, não basta apenas que ela assuma para nós certa forma, certa cor, e exale um cheiro característico. Deve também ser distinta, isto é, algo em si mesma, exceto no que ela pode ser relacionada a muitas de sua própria espécie, ou àquilo que lhe parece semelhante; assim, ela é ‘identificada’ como uma classe de sensações semelhantes.

Conseqüentemente, quando somos capazes de atribuir identidade a nossas experiências sensoriais, elas assumem então uma ‘relativa’ realidade para nós. Trata-se daquilo a que atribuímos ‘significação’ e existência igual às nossas próprias, no que diz respeito à consciência.


II] O conceito de ‘quantidade’ surge da repetição da mudança espacial ou da repetição de mudança de forma, ou de ambas. Por exemplo, diversas bolinhas de gude do mesmo tamanho e da mesma cor, embora colocadas bem próximas, tem uma variação de espaço em sua posição com relação uma às outras. Esta alteração espacial implica a idéia de quantidade em contraste com a de um único objeto.

Por outro lado, objetos de diferentes cores e formas, embora agrupados, transmitem a impressão de uma repetição de mudança de forma e dos elementos da forma que fazem dos objetos coisas distintas. Obviamente, a ‘identidade’ não pode ser separada da ‘quantidade’. Deve existir aquilo que possa ser ‘percebido como algo’, para que lhe possamos atribuir quantidade. Conseqüentemente, a quantidade é outro fator que contribui para nossa crença comum na realidade da nossa experiência objetiva.

III] A idéia de ‘qualidade’
tem sua origem nas impressões de cada um de nossos sentidos objetivos. Em outras palavras, só podemos julgar a qualidade de algo pela visão, pelo paladar, aroma, som e toque. Quanto mais as impressões dos sentidos objetivos confirmem uma a outra, ou seja, contribuam para a noção de realidade, tanto mais aceitação terá a experiência. A qualidade, não obstante, é uma classificação cultivada. É algo que se avalia da satisfação proporcionada pela experiência daquilo que está sendo percebido. Por exemplo, o que é satisfatório ou prazeroso para nós, chamamos de ‘bom’. Aquilo que proporciona estas sensações é a excelência da natureza da coisa; em outras palavras, é a sua ‘qualidade’. Inversamente, aquilo que não nos é aceitável em níveis variáveis é de menor qualidade.

IV] Espaço e Tempo_ A ‘ continuidade’ ou ‘sucessão’ está relacionada com o conceito de ‘espaço e tempo’. A experiência mais comum de sucessão e tempo constitui-se dos três estados fundamentais de consciência. Em relação ao nosso estado de percepção imediata, como a visão, a ‘memória’ diz respeito ao passado. A experiência imediata por que passamos constitui o presente. Apesar de que a recordação de qualquer acontecimento esteja na categoria de experiência imediata, as impressões da memória não trazem consigo a intensidade das impressões sensoriais diretas. O que percebemos ‘agora’ normalmente causa uma impressão mais real na consciência do que uma imagem da memória.

A ‘imaginação’ sugere a noção de ‘futuro’. A mente ’normal’ pode distinguir a imagem mental criada volitivamente daquela que é ‘percebida diretamente’. Aquilo que imaginamos constitui também uma percepção do presente, porém,sabemos que não se trata da conseqüência de uma experiência sensorial imediata ou de memória. Sabemos que sua apreensão como uma atualidade pode só ocorrer num período posterior; assim, aquilo que imaginamos pode ser considerado parte de um possível futuro.

Vários fatores matemáticos, que dependem do contínuo espaço-tempo, implicam de igual modo o conceito de tempo. Por exemplo, o ponto de referência de um indivíduo no espaço modifica o conceito de tempo. Consideremos o clássico exemplo freqüentemente empregado para transmitir esta idéia. A luz viaja à velocidade de 300.000/km por segundo. De uma estrela “A”, ela leva dez anos para alcançar a Terra, e leva quatro anos para alcançar uma estrela “B”. Digamos agora que você se encontra na Terra olhando a estrela “A” através de um potente telescópio. Sua visão da mesma será no ‘presente’. Em nenhuma outra ocasião no passado ou no futuro você poderia vê-la. Para quaisquer seres na estrela “A” o evento estaria se desenrolando dez anos no passado. Para um observador na estrela “B”, o evento estaria quatro anos no passado. Assim a realidade do tempo e do espaço depende de como a ‘percebemos’, sendo ‘relativa’ à nossa posição no espaço.

V] A classificação de ‘causalidade’ normalmente se apresenta como realidade; simplesmente, parecem existir causas ‘absolutas’. Mas haverá realmente causas independentes, ou seja, causas que não dependam de qualquer fator precedente? As causas são uma concatenação de fatores que contribuem para o acontecimento que chamamos de ‘efeito’. Há uma transição de um evento [coisa] para outro, numa sucessão de causa e efeito. No entanto, nem sempre temos consciência do que antecedeu aquilo que pensamos ser a causa. Nenhum efeito está isolado, nem é inerte. Sua transição para algo diferente, porém, nem sempre é observável. Esse efeito, por sua vez, pode ser a causa de outra forma ou condição. Algo como uma causa absoluta teria de sr uma coisa imutável; não apenas imutável, mas, também uma singular criação primordial. Nenhum verdadeiro começo ou término ocorre na natureza; há somente aquela corrente de mudanças em que todas as coisas estão relacionadas. Não há qualquer realidade especifica quanto ao que percebemos serem essas mudanças em determinado momento; elas não são como nós a apreendemos.

Não estamos negando a existência do ser, da realidade, mas sim questionando nossa concepção objetiva da mesma. Citando Albert Einstein outra vez:

“Por trás dos incansáveis esforços do cientista esconde-se uma compulsão mais forte e mais misteriosa: a existência e a realidade que ele pretende compreender. Mas ele se esquiva ao uso destas palavras, pois logo se vê em dificuldades quando tem de explicar o que ele quer realmente dizer com “realidade” e “compreender” numa afirmação tão genérica como esta.”

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[Texto do Imperator]

23 de fev. de 2010

Alucinações: Abismos ou Picos de Consciência?


Conta-se que Sócrates era guiado por inspirações e pensamentos singulares que ocasionalmente tomavam forma de vozes audíveis. Supõem-se, também, que, com cerca de quarenta anos de idade, ele tinha estados semelhantes a transe, em que podia manter a mesma postura física por horas. “Ele permaneceu imóvel desde as primeiras horas de um dia até o nascer do Sol no outro dia, por toda uma noite extremamente fria”. Hoje em dia, semelhante comportamento seria considerado sinal de grave doença mental, e, mesmo em sua própria época, Sócrates foi considerado um desequilibrado. Apesar disto, os místicos de todas as épocas relataram experiências de inspiração, de visões e sons divinos, e freqüentemente esforçavam-se por se abrir a essas experiências em intensivos [e às vezes prolongados] períodos de concentração e meditação.

Compreendemos que, as alucinações são visões mentais que se tornaram fixas em intensidade e interesse. Quando essas visões mentais estão sob controle, podem resultar nos mais profundos e criativos pensamentos.

Mas serão as alucinações sintomas dos abismos de doenças mentais, ou serão a fronteira criativa da Consciência Cósmica?

BUSCA DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA_

Com o advento do LSD [dietilamida do ácido lisérgico], a evocação de estados alterados de consciência com alucinações [as chamadas experiências psicodélicas] tornou-se mania entre os jovens da civilização ocidental, e ameaçou a estrutura social em algumas áreas da cultura do Ocidente. Embora a mania do “ácido” tenha passado, a busca de experiências psicodélicas enraizou-se numa busca maior, em todo o mundo, da consciência expandida e da consciência cósmica.

Essa busca não está livre de riscos: O “atalho” proporcionado pelas drogas [marijuana, cocaína, LSD, para citar algumas] tem provocado muitas conseqüências psíquicas desastrosas, indo de mero vício até o extremo de ferimentos físicos, de assassinatos e suicídios. Reconhecendo a fonte cósmica como a origem da consciência humana, devemos notar que não é a substância que provoca o inferno mental ou físico. Antes, é a ignorância dos princípios de domínio de si próprio que dá origem a fruto tão amargo.

Na tradição mística, a consciência humana origina-se na Consciência Cósmica, e passa por um processo de individualização e amadurecimento. Nesse processo, a consciência humana tem o potencial e o direito inato de alcançar o objetivo e a plenitude que Deus lhe determinou. A nascente consciência humana, ou personalidade-alma, é uma consciência única e pessoal, que tem à sua frente ilimitados reinos de experiência e oportunidades de auto-realização. Através do instrumento da individualidade objetiva, ela explora, testa, e experimenta um universo de experiências físicas, emocionais e espirituais no processo de individuação e amadurecimento.

Na imaginação, uma experiência com a característica de impressões sensoriais [visão, audição, paladar, etc] pode ser evocada por condições tóxicas, tumores, e substancias químicas. O sujeito não pode distinguir essa experiência de uma outra evocada pelos processos sensórios naturais, ainda que a mesma seja muito bizarra. A percepção é experimentada como real. Além disto, as alucinações podem ser provocadas por severa tensão física ou emocional.

Pacientes de hospitais para doentes mentais comumente descrevem experiências alucinatórias com estas palavras:

ð “substâncias químicas estão sendo jorradas sobre mim”;
ð “ouço chamarem meu nome”;
ð “vozes estão me dizendo para fazer coisas”.


Em certo caso, um paciente declarou que vozes o estavam dirigindo para que ele parasse com seu comportamento criminoso. Ele admitiu que ignorava essas vozes e foi subseqüentemente encarcerado.

Alguns pacientes afirmaram que as alucinações lhes foram muito significativas no momento em que ocorriam. Mas, ao fazerem uma retrospectiva, não mais reconhecem ou apreciam esse significado. Alguns pacientes, com aparente deliberação, cultivam as conversações e relacionamentos com as vozes, ignorando e mesmo afrontando a responsabilidade com relação a sua vida pessoal no tocante à realidade ordinária. Alguns desses indivíduos abusam dos ensinamentos e práticas metafísicos para conseguir experiências artificiais.

COMPREENDENDO O EU_
Existe um delicado relacionamento entre a Individualidade Objetiva, ou EU, e a personalidade-alma, que, quando equilibrado, constitui felicidade. O autodomínio é a consecução e manutenção de um estado de equilíbrio no relacionamento ente o Eu e a personalidade-alma através do curso e estágios de individuação e maturidade. Sob a perspectiva do relacionamento EU-ALMA podemos chegar a uma melhor compreensão das alucinações.

Por conveniência, podemos considerar que o curso de individuação e amadurecimento consiste de quatro fases.

ð Do ponto de vista do EU, a primeira fase diz respeito à identidade do EU como objeto. A Individualidade Objetiva está relacionada com o domínio das sensações e motivações físicas.
ð Na segunda fase o EU desenvolve sua identidade como uma entidade social. Ocupa-se do refinamento de suas relações com os seres humanos e outras criaturas.
ð A terceira fase implica na determinação, por parte do EU, de sua identidade com o universo. O EU desenvolve a consciência das dimensões ampliadas da realidade pessoal no contexto tempo-espaço.
ð A quarta fase diz respeito à identidade do EU como fonte. A experiência de identificação e identidade com o Cósmico torna-se o fator central.

O conteúdo das alucinações reflete o relacionamento EU-ALMA e a fase da individuação. O solo fundamental da fase um e dois é a separatividade. A comunicação entre a Personalidade-Alma e o EU será experimentada como se proviesse de fora. Em primeiro lugar os signos e símbolos mais significativos do EU são objetos. A comunicação provinda da alma será em termos de signos “miraculosos” de objetos estranhamente transformados. OU, na segunda fase, a comunicação pode tomar a forma de eventos ou acontecimentos sociais especialmente significativos.

A qualidade da experiência será colorida pelas emoções, pensamentos, e atitudes características do relacionamento EU-ALMA na ocasião. No caso de considerável imaturidade, de ‘stress’, irresponsabilidade, ou medo e hostilidade, a experiência de comunicação com a Personalidade-Alma será grandemente distorcida e percebida como ameaçadora. No estado de harmonia e apropriada responsabilidade por si próprio, a comunicação pode ser experimentada como uma co-participação benigna e sustentadora.

Com muita freqüência, quando se ministram drogas para suplantar os mecanismos fisiológicos da consciência, seja por medo ou ignorância, a pessoa vem a experimentar a característica de separação mais intensamente e a conferir maior realidade à crença de que o poder reside nas drogas como objetos. Analogamente, pode-se abusar de práticas místicas para forçar um estado alterado de consciência, realçando a intensidade da separatividade e o temor da realidade objetiva.

As terceiras e quarta fases da individuação são mais apropriadas do que as duas primeiras à busca de uma consciência superior. A Individualidade Objetiva será estabelecida e bem embasada em sua experiência de relacionamentos objetivos e sociais. A direção eficiente das necessidades físicas e emocionais estará baseada na compreensão madura, produto da prática e experiência. O autodomínio na experiência das emoções e pensamentos será eficazmente atingido. A Individualidade Objetiva, como um veículo da experiência, estará preparada para apreciar e traduzir experiências universais cada vez mais sutis. O relacionamento entre o EU e a ALMA estará apto a sustentar a necessariamente refinada cooperação entre as consciências objetiva e subjetiva.

O solo fundamental das fases três e quatro é a UNIDADE. A comunicação entre a Personalidade-Alma e o EU será experimentada como se proviesse da dimensão do próprio indivíduo. A comunicação tem a qualidade de aprofundar a compreensão e expandir a riqueza de significado. Objetos físicos e eventos sociais tornam-se contidos num contexto de significado e valor. O senso de identidade pessoal, outrora obscurecido pelo medo e pela luta pela sobrevivência, torna-se iluminado por uma co-participação divina e pela antecipação de um futuro inimaginável.

Sócrates era um desequilibrado na mente dos ignorantes, e louco aos olhos dos temerosos. Entretanto, tornou-se grande ante os olhos da história por sua coragem de viver sua vida na verdade. De que outro modo poderíamos nós vir a conhecer a PAZ PROFUNDA?
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[Texto de Richard A. Rawson]