13 de fev. de 2010

A União


Sabemos que as palavras existem para representar as idéias que abrigamos em nossa mente. Muitas palavras, porém, têm a característica de se associar a mais de uma idéia, ora refletindo um conceito, ora outro, dependendo do sentido que lhe é emprestado por quem as profere ou escreve. Uma destas palavras, “amor”, é um caso clássico, à qual estão associadas diversas idéias. A palavra sozinha carece de um sentido, deixando-nos na dúvida, fazendo-se necessário situá-lo em algum contexto. Assim é que temos uma série de qualificativos, tais como “amor maternal”, “amor filial”, “amor conjugal”, “amor fraternal”, “amor platônico”, “amor desprendido”, “amor à natureza”, “amor ao trabalho” e assim por diante. Todas essas são expressões mais restritas, ou particularizadas, do Amor escrito com “A” maiúsculo, no sentido místico, o qual é a Lei das leis, o princípio básico subjacente ao próprio Cósmico. No seu pleno sentido, a palavra AMOR confunde-se com a idéia de Deus, como nos lembra o popularizado refrão “Deus é Amor”. Todos os “amores” desta vida são como que gotas de água imersas no oceano do Amor maior, ou seja, manifestam localmente as características do Todo. É minha intenção evidenciar neste ensaio que o Amor, em si mesmo uma força potencial toma forma, manifestando-se na existência, através da UNIÃO.

Se nos detivermos a observar e analisar o mundo que nos cerca, vamos perceber que em tudo que é manifesto faz parte da sua natureza intrínseca o sentido de ‘união’.

Começando pelo Microcosmo, o nível do Universo que fica nas fronteiras entre a pura energia e a matéria, temos a energias se condensando para formar as partículas elementares da matéria, as partículas subatômicas. Pensemos melhor o termo condensação. Tomando como ilustração as gotículas de água que se formam na parede externa de um recipiente gelado como resultado da aglutinação das moléculas de vapor d’água dispersas pela atmosfera circundante, percebemos que condensação é um termo que expressa a idéia de ‘união’ de partes antes dispersas em uma nova forma, mais densa.

Os átomos e as moléculas são o resultado da ‘união’ dessas partículas elementares, cujas diferentes combinações e proporções originam toda essa diversidade que presenciamos e vivemos. Por sua vez, átomos e moléculas se ‘unem’ para compor o Universo físico. E no reino da matéria são leis fundamentais a adesão e coesão, vistas em nossos estudos e responsáveis por fenômenos como as nuvens, a formação de gotas e o ato de colar ou cimentar, só para ilustrar. Pois bem, e o que mas são a adesão e coesão a não ser uma ‘união’? De forma que, toda vez que você observar o seu corpo ou qualquer coisa que o envolva, você estará diante de uma expressão do ‘Amor’, pelo simples fato desta matéria existir!

No Macrocosmo, aquele nível do Universo onde distinguimos planetas, estrelas e outros astros, temos a gravitação como a Lei básica subjacente à formação dos sistemas solares e das galáxias. De um outro ângulo, esta lei é tida como a força da gravidade, que impede um japonês de despencar para o espaço, faz os americanos despenderem enormes quantias de combustível para levar alguns quilos à estratosfera e fere aquele que atirou uma pedra acima de sua cabeça. O principio em questão é uma força de atração que um corpo celeste exerce ao seu redor, criando uma zona conhecida como campo gravitacional, o qual é mais ou menos abrangente em função da massa deste corpo. Mas esta força de atração não pode ser entendida como um ‘desejo’ de unir a si outro corpo que esteja no seu raio de ação? O Universo não seria tal qual o conhecemos se em cada parte sua não estivesse presente este sentimento de ‘união’. Quão errado estaria alguém que dissesse que entre o Sol e a Terra há um ‘caso de amor’?

Os organismos, por sua vez,não subsistem isolados. Em grupos pequenos ou grandes, por toda a sua vida ou apenas em parte, liderando ou sendo liderado, cada ser vivo precisa estar ‘unido’aos de sua espécie para poder efetivamente viver, reproduzir-se e aperfeiçoar-se. Lembremos das colônias de bactérias e de corais, dos bandos de aves, das manadas de ruminantes, dos enxames diversos de insetos, dos cardumes de peixes, de uma floresta de pinheiros, apenas para rememorar os casos mais característicos. Você consegue imaginar a vida de uma abelha sozinha? Ou de uma formiga sem as companheiras? Em todos estes casos e muitos outros que você deve estar recordando, temos a ‘união’ dos indivíduos em uma vida grupal como o ponto chave de sua sobrevivência. Podemos ver, nos bastidores deste fato biológico, o ‘Amor’ atuando e manifestando-se num outro nível.

Conseguimos maiores evidências analisando as relações de união entre os seres humanos, em sociedade. Iniciando pelo bebê e sua mãe, como se expressa o amor de um pelo outro?

Ambos querem ficar tão próximos quanto possível. O filho precisa, regra geral, da mãe junto a si para sobreviver. Então, a natureza o dota de característica que despertam, o amor do adulto e a ‘união’ se estabelece. Entre dois irmão pequenos, o amor os faz ficarem sempre juntos, seja brincando, seja brigando. Mas o exemplo que talvez nos deixe menos dúvida sobre a união ser a expressão do ‘Amor’, é um casal apaixonado, cujo desejo de estarem ‘unidos’é tão forte que superam muitos obstáculos para tanto, chegando mesmo a sentir um sentimento de ‘fusão’, como o momento do clímax de uma relação sexual plena. Quando há um forte sentimento de amor entre duas pessoas que não mantêm laços de sangue nem conjugais, é o caso de uma ‘verdadeira amizade’. Citando as palavras textuais de Maria A.Moura:

“A amizade é aquela virtude que une duas ou mais pessoas por laços de amor e confiança”.

O homem é um ser altamente sociável, tendo até sido afirmado pelo Pe. Teilhard de Chardin que “é mais fácil impedir a terra de girar do que o homem de se socializar”. E sociedade implica em associação, em relações de ‘união’, tais como as referidas acima. Por que o homem é o mais sociável dos animais? Uma das razões, penso, é porque ele tem a maior capacidade de amar.

A mais alta expressão da Vida na Terra, o Homem, é o resultado da manifestação de personalidade-alma já bem adiantadas em sua evolução através de um corpo físico que reúne a maior capacidade intelectual deste habitat, considerada, é claro, a média normal entre os seres humanos. A conjugação destes dois fatores permite o alto nível de autoconsciência conseguido na raça. Todavia, como o processo evolucionário inerente à vida não parou aí, a humanidade caminha, mais rapidamente do que se julga, para o advento da Consciência Cósmica, um estado da Alma Vivente que é o mais alto ideal dos místicos e que já se constitui em realidade para diversos destes, os chamados Mestres. Parece-me que a consciência, em qualquer de seus níveis, estando estreitamente ligada à faculdade da percepção, constitui-se numa ‘união’ entre o observador e o observado. Assim é que se diz que estamos onde a nossa consciência está. Se uma pessoa próxima a nós está fixando sua atenção consciente alhures, dizemos que ela está ‘ausente’, ‘longe dali’. Ao observamos uma bela paisagem, por exemplo, e dela ficarmos conscientes, nesse momento estamos trazendo-a ao nosso ser. De outro ponto de vista, podemos dizer que estamos nos projetando para a paisagem, como deixa mais claro o caso de um filme a que assistimos. Se não estão envolvidos os nossos sentidos físicos nessa união, então trata-se de uma projeção psíquica da consciência. Em qualquer dos casos, porém, vamos ter a ‘união’ do observador com o observado.[ Talvez este conceito ajude a compreender melhor o espaço como apenas uma construção da nossa mente objetiva]. Quando o observado é o Cósmico, temos o observador em estado de Consciência Cósmica, donde as referências à ‘união final’, ao ‘retorno à casa do Pai’, ao ‘círculo que se fecha’ ou ao símbolo da serpente que engole a causa, pois trata-se do fim do ciclo evolutivo da consciência, onde não subsiste a separação, apenas a ‘unidade’. Não é pura coincidência que o ‘Amor’ se manifeste crescentemente nas pessoas à medida que elas galgam os planos de consciência rumo à Consciência Cósmica, na relação direta da sua ‘união’ com cada vez mais partes do Todo.

Façamos agora um exercício de imaginação. Pensemos no Universo todo como um grande Coração. O coração pulsa em movimentos de sístole e diástole, ou contração e expansão. O Universo estaria agora numa diástole. Por que? Além de muitas evidências apontadas pela Ciência indicando um Universo em movimento de expansão, temos seu próprio nome. Inúmeras vezes você deve ter pronunciado a palavra ‘Universo’, mas alguma vez você reparou que ela diz “uno vertido”? A TEORIA cientifica do “Big Bang” que explica a origem do Universo por uma grande explosão, corresponde em parte à afirmação dos místicos de que o Ser Absoluto propagou-se pela PALAVRA. Podemos ainda dizer que NOUS separou as suas polaridades ou que a Mônada dualizou-se. Com um olho místico e outro cientifico procuremos enxergar a LUZ que brota nesta Criação. Na seqüência da diástole deste grande Coração, vem a VIDA com o seu constante movimento entre as polaridades de NOUS, a sustentar a consciência. E o AMOR? Sinto-o como a força da sístole, da contração, da reintegração. É a força que ‘une’ o que foi separado. Penso que o AMOR tende a se tornar cada vez mais forte em sua manifestação, provocando a crescente ‘união’ entre as partes e levando o Universo ao movimento de contração até a Unidade novamente.

Nessa linha de pensamento, podemos imaginar os ‘buracos negros’ do espaço sideral como zonas em que o Amor já “venceu”. Se “como em cima, é embaixo”, por que não pode o Cósmico respirar? A próxima expiração ou Criação, no entanto, não seria igual à presente, pois os ciclos evoluem segundo uma espiral.

Como consideração final, quero dizer que este ensaio não tem a pretensão de representar a verdade. Ele traduz, isto sim, as reflexões de um estudante rosacruz acerca dos mistérios que nos envolvem. A motivação principal de tê-lo escrito foi a idéia de que serviria como estímulo para as tuas próprias reflexões. Por sinal, as idéias aqui apresentadas só adquirem valor quando acalentadas pela tua mente.
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[Texto de Vadis A. Bellaver]

11 de fev. de 2010

O Mito da Alma


Este trabalho tem por objetivo informar sucintamente sobre a TEORIA DE PLATÃO, a respeito do MITO DA ALMA. As pessoas que habitualmente sentem saudade, nostalgia, sem motivo aparente, podem encontrar nessa TEORIA motivo para uma grande REFLEXÃO sobre os assuntos da alma humana, os quais transcendem o mero raciocínio objetivo.

O Mito Da Alma de Platão equivale, no misticismo cristão, Ao Mito Do Paraíso Perdido.

PLATÃO, aristocrata ateniense, orgulhoso de sua origem, impedido de realizar seu ideal político por circunstâncias da época, mergulhou na mais profunda Reflexão Filosófica, respondendo a muitas de nossas dúvidas, de nossas inquietudes.

Possuidor de grande valor criativo, foi consagrado como um dos mais hábeis artistas na prosa, legando à humanidade vários conceitos utópicos que são chamados MITOS.

Entre os belíssimos diálogos de Platão, convidamo-los a dar um passeio pelo Mundo das Idéias, o Mundo Supra-sensível, Invisível, de onde desceram as ALMAS.

MITO, na concepção da Filosofia, é a exposição de uma doutrina ou de uma idéia sob forma imaginativa, em que a fantasia sugere e simboliza a verdade que deve ser transmitida.

MITO é o produto de um processo inconsciente de um determinado grupo social, num determinado momento e lugar.

Pode ser equiparado a um sonho. Para Platão, o MITO é REAL [*]. Daí, começa o desenrolar de sua filosofia, conduzindo-a ao mais alto grau de sabedoria, com a pergunta:

O QUE É REALIDADE?
Antes de prepararmos a resposta dada por Platão, lembramos que muitos Filósofos Antigos dirigiram-se ao Egito em busca dos conhecimentos das Escolas de Mistérios, das quais teriam extraído a semente de sua Filosofia.

Na busca das “verdades”, encontramos descobertas que perduram até os nossos dias, verdades relativas às Leis da Natureza, relativas à Vida. São Verdades porque permanecem inabaláveis ao longo dos séculos.

[A Filosofia eleva a ALMA à pureza mais cristalina e é fonte da Verdade Única que transcende as palavras].


Para responder à pergunta “O que é a realidade?”, vamos entrar no MUNDO DAS IDÉIAS que Platão – o grande gênio da Grécia – legou à Humanidade: ensinamentos de profunda beleza e que vêm ao encontro das respostas de nossas inúmeras dúvidas.

[O Mundo Das Idéias É O Centro Do Pensamento Platônico.]


A REALIDADE está dividida em dois mundos distintos e contrapostos.

De um lado, o MUNDO SUPERIOR, invisível, eterno e imutável. De outro lado, o MUNDO FÍSICO, visível, sujeito à mudança.

Esses dois MUNDOS se contrapõem como abstrato e concreto, perfeito e imperfeito.

Há em nossa consciência a crença na existência de um mundo transcendente. Em CIMA – uma região indefinida, o estático, o imutável, a quietude, a ESSÊNCIA, os moldes. EMBAIXO – o mundo físico, o movimento, a troca, o dinamismo, a pluralidade, as imagens.

Assim, “contemplamos” dois mundos: O Mundo Visível e o Mundo Invisível.

As entidades desses mundos são opostas. As do Mundo Invisível são eternas, divinas, imutáveis, simples, uniformes, indissolúveis. São as verdadeiras causas das demais.

O Mundo Ideal é o Mundo do SER PURÍSSIMO, onde toda a REALIDADE é a própria “existência”.

As ESSÊNCIAS, que são a “natureza” das coisas, pertencem à ‘realidade do mundo invisível’.

Lembramos a explicação aristotélica de que a “essência” é a “potencia” com relação à “existência”. A existência, conseqüentemente, é o ato da potencia [é aquilo que se realiza].

Assim, como exemplo, podemos dizer que “o ovo está em potência à existência da galinha”.

A galinha [no ovo], ainda é o vir-a-ser [em potência]. É, portanto, a ‘essência’ que existe no mundo Inteligível, no Mundo das Idéias. Conhecendo essa realidade [que é a essência], a ALMA percebe verdadeiramente o Ser.

O Mundo Visível, pelo contrário, é mutável e pertence à mera opinião, motivada pelas nossas emoções.

Platão fundamenta a crença na existência de um mundo transcendente e formula vários argumentos para demonstrar a existência do Mundo Supra-sensível – o mundo que transcende a nossa visão física.

Concentrando o raciocínio no “conhecimento” que temos das coisas, procuramos uma explicação. Daí, o interesse em remontar à resposta que Platão oferece em seu ‘diálogo Fédon’, no qual revela a vivencia da ‘Alma’ no Mundo das Idéias, no Mundo Inteligível.

Abaixo do Mundo das Idéias, e dentro do Mundo Cósmico, existem as almas: A Alma do Universo e as almas humanas, as quais são a fonte e a origem do movimento que, conseqüentemente, é a origem do mundo sensível.

Entre o vasto campo de sabedoria transmitida por Platão, encontramos a relação do ‘conhecimento’ das coisas que adquirimos com as do Mundo Supra-sensível.

Platão explica através do MITO DA ALMA o conhecimento que temos das coisas visíveis, corpóreas.

[As essências são as próprias coisas]

Mas o que é o MITO na concepção Platônica?
Mito é a expressão fantástica que Platão, em sua profunda sabedoria, usou para clarear nossa mente e esclarecer o momento em que ocorre uma ‘Intuição’.

Levanta a hipótese de que as ‘almas’, antes de habitarem um corpo, viveram no Mundo das Idéias, onde conheceram todas as coisas na sua mais pura e perfeita essência [**].

Assim, a alma, ao cair do Mundo das Idéias [para se aprisionar em um corpo – invólucro pesado e grotesco], dada a sua sutileza, perde a consciência do conhecido que contemplou naquele mundo ideal.

[É a idéia das idéias, a causa, o fim e a razão última do Ser, da verdade, e a fonte do conhecimento de todas as coisas].

O Mundo Visível [físico] fica como se fosse um mundo dos sonhos, dos semelhantes, imagens obscuras da realidade, imitação das realidades verdadeiras do mundo superior.

Cabe à inteligência indagar: ‘A Idéia que temos das coisas antecede a percepção de um objeto? Ou, um objeto é que nos leva a ter Idéia daquilo que é?’

Do ponto de vista ontológico na Filosofia Platônica, a Idéia é anterior ao objeto conhecido. Conhecer é o despertar do conhecimento que a alma possui antes de vir ao mundo físico. É o conhecimento trazido do mundo Superior das Idéias.

A Alma, ao unir-se ao corpo, cai obscurecida, porém conserva toda a sua Essência [há somente a necessidade de recuperá-la por meio da recordação ou da intuição].

[Ignorância é o esquecimento. Sabedoria é recordação].

Aprender, na concepção Platônica, não é adquirir novos conhecimentos, mas sim recordar o já conhecido em uma existência anterior [no mundo das Idéias]. “Do mesmo modo que na flor nasce o perfume, na Alma Humana está latente o conhecimento”. O conhecimento oferecido pela luz da ‘ciência’ é adquirido através de instrumentos usados pelos órgãos dos sentidos, lançando mão de objetos fixos, estáveis, em busca de um resultado.

Platão apresenta a hipótese de que esses objetos corpóreos necessários à pesquisa são cópias ou imitações dos objetos existentes no mundo das Idéias, no mundo Invisível.

Explica Platão que a lembrança que temos das coisas é o reconhecimento daquilo que a alma já contemplou em uma vida anterior, com uma visão direta.

Essa passagem ao reconhecimento é o que se chama “reminiscência”. A reminiscência é o conhecimento das coisas que ficaram armazenadas na memória, provindas de tempos tão longínquos, que induzem o sentimento de saudade daquilo que foi contemplado no Paraíso Perdido...

Por exemplo: Uma folha branca de papel nunca é totalmente branca. Apresenta-se com uma tonalidade acinzentada ou amarelada. É quase branca. Também, essa folha de papel tem existência temporária. Assim, todas as coisas existentes nunca ‘são’. Falamos em papel quase branco. O que será o ‘branco’ absoluto? O ser quase branco das coisas exige a existência do que é verdadeiramente branco, que não está em coisa nenhuma, mas fora das coisas.

A este “ser verdadeiro” [real], distinto e fora das coisas visíveis, é que Platão chama Real. O ser verdadeiramente real está nas Idéias, mas as Idéias não são acessíveis ao nosso conhecimento direto; não estão no nosso mundo visível. As coisas são apenas um estímulo para que delas nos afastemos e nos elevemos até a Idéia. As coisas visíveis, diz Platão, “são sombras das Idéias”. O Homem, que para Platão é um ente caído, aparece caracterizado por ter vislumbrado as idéias, o verdadeiro ser das coisas.

O ser humano nasce, vai crescendo e tomando consciência das coisas que já foram conhecidas no mundo Inteligível [mundo das Idéias]. Nada estamos aprendendo, mas sim “recordando”.

Quando somos tomados de uma idéia súbita, como um lampejo, é hábito dizermos: “tive uma intuição”. A intuição é essa lembrança, é a tomada de consciência de algo esquecido...é uma ‘recordação’...provinda de outra vida. Se deixarmos que a nossa mente fique receptiva à beleza que o “Mito da Alma” nos oferece e iluminarmos as profundezas de nosso ser para vivenciar a “reminiscência”, tomando consciência de tantas incompreensões do mundo, será que restaria dúvida sobre essas verdades?

Será que Platão usou de uma “fantasia” com rara beleza mística e poética apenas para o nosso deleite, um delírio para o nosso lazer ou um fantástico elemento para envolver nossas emoções? Não podemos compreender esse “Mito” pela racionalização ou pelo raciocínio, mas somente poderemos vivenciá-lo pela ‘Intuição ou Iluminação’.

Cada um de nós encontrará um ponto focal – um encontro com os ditames de sua alma.

Continuando a nossa jornada de dúvidas, ainda resta perguntar: nossa alma já habitou um mundo antes de encarnar...será isso verdade? Devemos concordar com o que disse Platão por sentirmos essa verdade dentro de nossas emoções? Será a verdade captada apenas por grandes almas – almas sábias?

O indivíduo [homem] é um ser psíquico [quanto aos atributos espirituais de sua natureza], vivendo num mundo material, físico e emocional. Portanto, deve ajustar-se a essas condições – somos um pequeno Mundo dentro do complexo Mundo Cósmico. Por isso, precisamos dominar as adversidades da vida e delas extrair tudo aquilo que possa contribuir para o nosso desenvolvimento.

Não vamos ao exagero de rebaixar a natureza física do homem à categoria de invólucro pesado e grotesco, que aprisiona a alma, mas elevamos a matéria física ao nível que ela merece, lembrando que “o corpo é como a rocha que abriga o outro”. Assim como a ‘morada do ouro é a rocha’, a morada da alma é o corpo.

[O verdadeiro misticismo reconhece uma fonte Cósmica Unificada, para todos os fenômenos].
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Este Mito destina-se àqueles que gostam de refletir, pois conhecimento se adquire com ‘reflexão’. Lembramos que a ‘verdade’ é relativa em cada nível de consciência. Os fatos são verdadeiros quando encontram uma harmonia, uma integração com a consciência individual de cada um.

Reconhecendo que o “Mito da Alma” – cuja beleza nos transporta para o Mundo Ideal - não pode ser conhecido pela razão, deixemos nosso pensamento ser conduzido pela “Intuição”,oferecendo dessa forma condição para vivenciar a existência do Mundo das Idéias, do Mundo Superior, do Mundo Supra-sensível.

Platão, ao legar à humanidade o “Mito da Alam”, recebeu uma ‘intuição ou iluminação’. Em todos os seus diálogos, nota-se o desenvolvimento de uma revolução interior naqueles que pensam, reconduzindo-os ao ponto de partida.

Deixemos aqui, para contemplar o tema destinado à reflexão, a seguinte alegoria:

“As almas são forjadas em diferentes metais: alguns tem sua alma de ouro, outros de prata, e os terceiros de bronze...”

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[Texto de Ilma Manso Vieira Mansur]