6 de fev. de 2010

Os Teóricos da Utopia


Entre os mais antigos sonhos da sociedade, encontramos o que costumamos chamar Utopia. Teoricamente, uma utopia é qualquer lugar onde a cortesia humana reina soberana e o idealismo nobre supera todas as qualidades grosseiras da natureza do homem. Quando o homem, pela primeira vez, se tornou consciente do seu próprio comportamento e das relações entre seus semelhantes, descobriu que certas condutas ou atos de seus companheiros eram prejudiciais à própria coletividade. Podemos dizer que, em tal época, surgiram os rudimentos dos princípios éticos e morais.

Em seu caráter específico, a moral é, fundamentalmente, utilitária. Entretanto, o seu fundamento é duplo. Primeiro temos o impulso inerente para fazer o que é ‘certo’. Este ‘certo’, na sua interpretação primordial, não era o impulso para fazer o BEM ou evitar o MAL. De fato, tal conceito precedeu, mesmo, o dos vocábulos ‘bem’ e ‘mal’. Os homens desejam empenhar-se numa atividade que tenha aceitação coletiva, isto é, tudo que contribua para o bem-estar geral de si mesmos e dos outros. Psicologicamente, então, fazer o certo é não se opor ao curso de ação no qual os homens parecem vislumbrar supremacia de sua espécie. A chamada ‘consciência’, em seu estado primitivo, é o impulso para fazer o Bem.

O outro aspecto da moral se relaciona com o primeiro – isto é, o desejo de fazer o certo – mas, neste caso, o certo está formado pelos costumes da sociedade a que pertence e aos tabus e preceitos de costumes estabelecidos. Considerando que na maioria das sociedades as normas pelas quais são regidas provêm de uma fonte religiosa, tal como o clero, a elas [leis e regulamentos] se dá uma autoridade espiritual ou implicitamente divina.

Analisando-se a maioria dos códigos de ética, verificamos que os mesmos, em sua base, apresentam um aspecto prático, utilitário. Em outras palavras, mesmo se neles não houvessem preceitos de ordem religiosa, ainda assim os homens veriam a desvantagem prática para a sociedade de condutas tais como o homicídio, o roubo, o estelionato, o adultério e o abuso de incapazes.

As leis de Moisés e o código de Hamurabi, antigo Rei da Babilônia, incluíam preceitos morais, decretos divinos, para coibir condutas que a sociedade havia verificado ser prejudicial ao seu bem-estar material. Por exemplo, constituía pecado a ingestão de certos alimentos apenas porque, do ponto de vista higiênico, tal dieta não era sadia. O fato de se atribuir tais códigos a uma fonte divina, deu-lhes maior eficácia do que se fossem atribuídos meramente ao Homem; e, por conseguinte, maior obediência lhes foi assegurada.

Entretanto, os homens verificaram que tais códigos de conduta eram de difícil observância, sob as condições de vida existentes. Certos hábitos dão margem a tentações que provocam violações de preceitos morais e éticos. Conseqüentemente, se as emoções e paixões não são disciplinadas com propriedade, não poderemos evitar uma demonstração qualquer de cobiça, inveja e ódio. Força ou autoridade mal colocada – ou melhor, tirania – resulta em ódio fumegante no coração dos homens, a conspirar uns contra os outros. Desigualdades de oportunidade e direitos criam a inveja e a perfídia.

Assim, desde as primeiras civilizações viemos raciocinando no sentido de que as sementes da justiça devem ser plantadas num solo fértil, para que os homens vivam uma existência digna e nobre. Devemos escolher um ambiente e prescrever um meio de vida que possa promover uma transição completa nas relações humanas, ou seja, uma UTOPIA. Encontramos nos “Diálogos de Platão” uma das primeiras utopias, o “Timeus”. Ali se relata um conto segundo o qual um sacerdote egípcio falara a Sólon, o grande estadista ateniense, a respeito de um poderoso império que existira nove mil anos atrás, no Oceano Atlântico.

“Tal poderio advinha do Oceano Atlântico, pois, naqueles dias, este oceano era navegável; e havia uma ILHA situada defronte dos estreitos que vós denominais de Colunas de Hércules...Nesta ILHA, havia um grande e maravilhoso império que dominava não só a própria ILHA, assim como várias outras e determinadas regiões continentais...”.

Os árabes, também, possuíam lendas a respeito de um paraíso terrestre, uma UTOPIA, no Oceano Ocidental ou Atlântico. Tal paraíso corresponde à ATLÂNTIDA referida na obra de Platão. Também é interessante ler o relato de Plutarco sobre a vida ideal em Esparta, sob o regime de Licurgo. Isso tudo eram sonhos onde os homens concebiam uma vida isenta de frustrações, tentações e frivolidades da sua existência normal e com todas as recompensas e virtudes de um paraíso. Mais tarde, haveria de aparecer, ainda, a renomada “ UTOPIA de Sir Thomas More [1566] e também a Nova Atlântida, de Sir Francis Bacon.”

CONCEITOS MODERNOS_
Hoje em dia defrontamo-nos com histórias de novas utopias distantes, remotas no espaço e tão românticas como as reivindicadas, pelos antigos, para a Atlântida. Os entusiastas da nave espacial e simpatizantes dos Discos Voadores, em grande parte da sua literatura e nas palestras públicas proferidas por alguns dos seus líderes, sustentam a existência de utopias em planetas remotos. Tais artigos e conferencias aludem a comunicações com essas inteligências celestiais. Os contatos, segundo se diz, seriam realizados pela conversação direta com os viajantes espaciais que teriam aqui aterrisado, ou, por algum misterioso encontro mental, através do espaço, esses visitantes da Terra, vindos de planetas do nosso sistema solar ou de algum outro, têm a missão de descrever, pessoalmente, aos terrestres, a maneira pela qual vivem.

Somos induzidos a acreditar que essas civilizações dos outros mundos não estão, apenas do ponto de vista tecnológico, tremendamente adiantadas sobre as nossas realizações terrenas. Também são grandes em comparação com a nossa espécie de civilização, nos aperfeiçoamentos de ordem sociológica, moral e ética. Contudo, é interessante notar que as descrições dessa utopias espaciais estão expressas em termos de valores que são feitos para transcender condições em que os humanos pensam como sendo defeitos, nas próprias grandes civilizações extraterrestres. Em outras palavras, é estranho que se diga que os seres desses planetas tenham aperfeiçoado um método de vida transcendental, mas que não tenha relação com o nosso.

Tal semelhança está em que o povo da UTOPIA ESPACIAL daria a entender ter, deliberadamente, procurado corrigir, em algum lugar remoto, todas as falhas de pensamento e ação em sua maneira de viver, das quais ainda somos portadores. Esses homens espaciais possuem uma sociedade que não é revolucionariamente diferente da existente na Terra, mas, ao contrário, apenas de caráter corretivo. Neles, então, a utopia se encaixa numa concepção possuída pelos terrestres, a respeito daquilo que deva ser uma UTOPIA.

Não estamos preocupados com a verdade, falsidade ou mesmo a probabilidade de que tais histórias sobre a vida em outros planetas tenham sido reveladas pelos seus respectivos habitantes. O que é de interesse é que os humanos que descrevem as UTOPIAS desses planetas estão, aparentemente, muito influenciados pelos seus próprios fundamentos sociais, políticos, econômicos e religiosos.

Estão fazendo com que as respectivas concepções a respeito de um povo superior do espaço e de sua maneira de vida obedeçam a um ideal que nós, os terrenos, afagamos com carinho. Um ideal nascido da consciência dos elementos inferiores na estrutura da própria conjuntura social terrena e dos tempos por que passa a raça humana.

Quais são, na sociedade, os males de que os homens poderiam se livrar? Que tipo de conexão ou comportamento imaginam como uma UTOPIA capaz de impedir a reincidência dos males e transtornos por que agora passam? Busquemos uma resposta através dos olhos de alguns dos que têm emitido TEORIAS a respeito de um Estado ideal, a UTOPIA ou paraíso sobre a Terra. Desigualdade e diferença de classes sociais tem desempenhado um papel destacado na descrição da vida, na utopia. Alguns desses paraísos concebiam a segregação como sendo essencial para a felicidade a ser desfrutada numa utopia. Outros, porém, insistiam na dessegregação como necessária para a harmonia entre os homens.

Thomas More pensou numa comunidade de cerca de quatro milhões de pessoas. As relações familiares não deviam ser perturbadas. Não devia haver distinções quanto aos serviços a serem executados. Nem, tão pouco, classes privilegiadas de artesões, nem classe permanente de trabalhadores subalternos. Nessa sociedade ideal, todas as pessoas, a seu tempo, deviam participar das várias tarefas. O trabalho agrícola era considerado o mais árduo; mas dele todos deveriam participar mediante um sistema de rodízio. O povo elegia os superintendentes das suas tarefas. Aparentemente, a teoria do plano era que nenhuma pessoa poderia assumir uma atitude sobranceira com relação à sua tarefa e, assim, provocar a ira daqueles que estivessem fazendo algo menos complexo ou árduo. Por conseguinte, sustentava Thomas More que a hierarquia de classes era um fator que contribuía para a dissensão em qualquer sociedade.

Para evitar os parasitas sociais e o mal deles decorrente, advogava Thomas More a idéia de que, na sua utopia, todas as pessoas deveriam exercer as suas tarefas na presença dos outros. Conseqüentemente, “não poderia haver pessoa preguiçosa, já que seria observada pelos outros”. Segundo a teoria econômica de More, se todas as pessoas trabalhassem, não haveria privações nem, tão pouco, cobiça. Tudo depende, entretanto, de como se deve interpretar a palavra “privação”. Deve ser entendida como uma necessidade, ou um desejo inqualificável?

Há os apetites naturais que são saciados pelo fator quantitativo. Existem, porém, outros desejos que jamais são satisfeitos, isto é, jamais são integralmente atendidos como, por exemplo, a cupidez própria da natureza de alguns homens ao achar prazer na posse, na acumulação, sejam elas necessárias ou não, para a sua subsistência. Tais homens sempre hão de desejar exceder, em alguma coisa, os seus semelhantes, não importando a quantidade que cada pessoa possa adquirir. Homens de tal espécie jamais conheceriam a felicidade num Estado em que a cada um provê as suas necessidades de maneira equânime.

Platão era um aristocrata, oriundo de família rica e distinta. Em sua República Ideal pouca consideração dispensou aos princípios econômicos. Ele e sua família tinha consideráveis posses. Jamais souberam o que fosse privação. Outros contribuíam para a satisfação de suas necessidades, pelas quais pagavam. Seus esforços eram intelectuais. Os intelectuais seriam os filósofos, a classe mais alta m seu esquema utópico. Deviam ser firmes, inexoráveis, mas justos no exercício do comando sobre as outras divisões da sociedade, tais como os agricultores, artesões e soldados. Na realidade, no fundo mesmo, Platão reconhecia e aprovava o trabalho escravo, sistema este que vigorava na sociedade grega. Platão proclamou para a sociedade uma hierarquia definida de classes, a servir de meio para a consecução de um Estado pacifico e Feliz. Vemos, portanto, que Platão, tal como muitos outros no passado e também no presente, tinham pontos de vista restritos pelas respectivas épocas e ambientes.

Para os TEÓRICOS, assim como para muitas seitas religiosas de hoje, era óbvio que as crianças constituíam a base sobre a qual suas idéias deviam ser estruturadas. Platão sustentava que as crianças deviam ser educadas pelo Estado. Não se lhes devia dizer quais eram os seus pais, nem deveria haver distinção de berço. Todas as crianças deviam ter a mesma posição social. Não deveriam ser influenciadas pelas vibrações dos hábitos paternos, fossem eles bons ou maus. Sustentava-se que a uniformidade da instrução estatal haveria de formar homens de caráter forte tornando-os mais tratáveis e responsáveis dentro das respectivas classes sociais.

Thomas More não sugeria, na UTOPIA que expôs, o rompimento dos laços familiares. Quando uma família possuísse maior número de crianças do que pudesse sustentar, o excesso deveria ser adotado por aquelas que não tivessem filhos. Não haveria, pois, necessidade de se perturbar a tranqüilidade da UTOPIA. O sistema escolar paroquial da Igreja Romana e outras endossam a instrução da mentalidade infantil, a fim de perpetuar o dogma e a hierarquia religiosos. Pelo estabelecimento de certos conceitos e preceitos na mente de uma criança, em idade de formação, criavam raízes subconscientes que viriam a se constituir em hábito moral. Mediante tal definida impressão, constituem a ‘consciência’ privada, quando o individuo se torna adulto. Embora mais tarde possa estar sujeita, na sociedade, a pontos de vista antagônicos, a instrução infantil, certa ou errada, torna-se a influência dominante. Isto proporciona apoio ao sistema social ou religioso, seja ele, também, certo ou errado.

Francis Bacon, em sua Nova Atlântida, idealizava uma utopia em que a ciência seria a chave para a felicidade universal. Em sua obra, imaginava uma ilha onde os homens, livres das perturbações e preconceitos da sociedade, se orientavam na Senda do Conhecimento. Prosseguia dizendo que a maioria dos instrumentos que os homens haviam produzido eram descobertas acidentais e que muito mais poderia ser realizado se a humanidade metodicamente buscasse, exclusivamente, o CONHECIMENTO.

Francis Bacon, mediante a fala do Segundo Conselheiro, um dos personagens da sua obra, concebe um plano definido.

“Confiarei a Vossa Alteza quatro principais trabalhos e monumentos. Primeiro, organizar a mais perfeita e generalizada biblioteca que reunirá todo o conhecimento que o Homem até agora foi capaz de transferir para livros de real valor, sejam eles antigos ou modernos, impressos ou manuscritos... Em seguida, um maravilhoso jardim espaçoso, contendo todo e qualquer vegetal que o sol de diversos climas da terra faz surgir...neste jardim devendo haver compartimentos para acomodar todos os animais raros e enviveirar todos os pássaros raros, com dois lagos adjacentes, um de água doce, o outro, de água salgada, para nele habitarem os peixes mais variados. E então tereis, em pequena escala, um modelo privado da natureza universal...Terceiro, um enorme compartimento, bem apropriado, para conter tudo que mão do homem, por arte ou engenho esmerados, tornou raro, em forma, movimento ou matéria-prima...Quarto, uma residência silenciosa, tão provida de engenhos, instrumentos, fornos e recipientes quanto pode ser um alojamento próprio para uma pedra filosofal [laboratórios]”.

Plutarco, em sua biografia de Licurgo, descreve a qualidade utópica da antiga Esparta sob o governo daquele legislador. Licurgo eliminou a cobiça mediante a adoção de um estratagema. Determinou a requisição de todas as moedas de ouro e prata. Em troca, emitiu moeda feita de ferro, ‘cujo peso e quantidade’ eram de muito pouco valor.

“Qualquer acúmulo considerável de tal dinheiro importava em se ter que dispor de um grande espaço de armazenagem, sendo, outrossim, excessivamente difícil o seu transporte”. Fazendo isto, diz Plutarco: “ baniu-se, então, de Esparta, um grande número de vícios.” De modo particular, tornou-se difícil roubar tal moeda, de sorte que cessaram os crimes contra o patrimônio. Também o suborno foi eliminado em virtude de ser tal moeda de difícil ocultação. E considerando que o peso e o tamanho do dinheiro dificultaram o seu acúmulo, diz adiante que: “O rico não tinha vantagens sobre o pobre”. Outro vício que, de igual modo, se eliminou por força desse dinheiro feito de ferro, foi o da procura louca dos prazeres da carne.

Licurgo também determinou que todas as pessoas fizessem as suas refeições em comum, partilhando do mesmo pão e da mesma carne, de modo que os homens não engordassem demasiadamente, em seus lares, “como se fossem brutos gananciosos e se tornassem enfraquecidos pelo vício e excessos de qualquer natureza.” A atuação de Licurgo também se fez sentir na remoção do medo e da superstição relativos aos mortos. Exigiu-se que o povo sepultasse os seus mortos dentro da própria cidade “e mesmo ao redor dos seus templos”. Isso, para que se tornassem acostumados a tais espetáculos. Assim, não teriam medo de tocar um cadáver ou acreditar que o mesmo pudesse ser profanado, quando passassem sobre uma sepultura.

AUTO-ANÁLISE
Qual a vantagem de uma UTOPIA TEÓRICA?
Psicologicamente, constitui uma auto-análise e purificação. Aquele que concebe uma UTOPIA tem consciência daquilo que acredita serem práticas malévolas e insensatas. Não apenas deseja transcender os prazeres que na ocasião usufrui da vida, mas está vivamente consciente das coisas e circunstâncias que parecem lhe impedir de atingir um grau de felicidade ainda maior. A teoria racional utópica expõe um plano para evitar os elementos que parecem tornar indesejável a presente sociedade.

Os que procuram realizar uma sociedade ideal, no mundo atual, são tão realistas como idealistas. Aqueles, entretanto, que apenas imaginam uma UTOPIA, em alguma terra remota ou noutro planeta, são escapistas. É de pouso valor para os entusiastas do espaço conjeturar a respeito de uma utopia em Marte, Saturno, Vênus, ou algum outro planeta. É necessário, primeiro, que reconheçam as falhas de suas próprias naturezas e procurem retificá-las. Do contrário, contaminariam qualquer utopia neste ou noutro mundo que porventura pudessem visitar.

Jamais há de haver uma UTOPIA onde todos os homens e mulheres experimentem a felicidade de igual modo. Felicidade é prazer, e os prazeres são variados, tais como os do corpo, da mente e do espírito. São também relevantes para a inteligência, sistema nervoso, natureza emocional e experiências do ser humano. Pelo aperfeiçoamento total da individualidade e adiantamento da sociedade, podemos assegurar, a cada indivíduo, alguma espécie e grau de felicidade. Entretanto, tal felicidade somente é apreciada pela experimentação, até certo ponto, do seu estado oposto, ou seja, a irritação e a angústia. Se a felicidade for a satisfação de certos desejos, necessariamente, em tais desejos deve existir, primeiro, uma irritação, cuja remoção dá lugar à satisfação.
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[Texto de R.M.L]

5 de fev. de 2010

O Homem que Semeava Árvores


Para que o caráter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é necessário ter-se a sorte de poder observar a sua ação durante longos anos. Se essa ação é despida de todo o egoísmo, se a idéia que a orienta é de uma generosidade sem par, se é absolutamente certo que não a animava qualquer expectativa de recompensa e,ainda por cima, deixou no mundo marcas visíveis, então, sem risco de errar, pode afirmar-se que estamos perante um caráter inesquecível.
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Há cerca de quarenta anos, fiz uma longa caminhada na antiqüíssima região dos Alpes que entra pela Provença, a altitudes então absolutamente desconhecidas dos turistas.

Esta região é delimitada a Sudoeste e a Sul pelo curso médio do rio Durance, entre Sisteron e Mirabeau; a Norte pelo curso superior do rio Drôme, desde a nascente até Die; a Oeste pelas planuras de Comtat Venaissin e pelos contrafortes de Mon-Ventroux. Compreende de toda a parte Norte do departamento dos Alpes-Baixos, o Sul do Drôme e um pequeno enclave de Vaucluse.

Eram, na altura em que empreendi o meu longo passeio por esses desertos, terras nuas e monótonas, a cerca de 1.200-1.300 metros de altitude. Apenas alfazemas silvestres cresciam por lá.

Atravessei esta região na sua maior extensão,e, após três dias de marcha, achava-me numa desolação sem par. Acampei ao lado de um esqueleto de aldeia abandonada. Já não tinha água desde a véspera e precisava de a encontrar. Estas casas aglomeradas, embora em ruínas, como um velho ninho de vespas, fizeram-me pensar que devia ter por ali existido, em tempos, uma fonte ou um poço. Havia efetivamente uma fonte, mas seca. As cinco ou seis casas sem telhado, corroídas pelo vento e pela chuva, a pequena capela, de campanário desmoronado, alinhavam-se como as casas e as capelas nas aldeias vivas, mas toda a vida tinha desaparecido.

Era um belo da de junho cheio de Sol, mas, nestas terras sem abrigo e de altitude, o vento soprava com uma brutalidade insuportável. O seu ribombar na carcaça das casas fazia lembrar o ronco de uma fera perturbada durante o seu repasto.

Vi-me forçado a levantar o acampamento. Ao fim de cinco horas de marcha não tinha ainda encontrado água e nada indiciava que a viesse a encontrar. Por toda a parte a mesma secura, as mesmas ervas lenhosas.

Pareceu-me entrever, ao longe, de pé, uma pequena silhueta negra. Tomei-a pelo tronco solitário de uma árvore. Ao que desse e viesse, dirigi-me para lá. Era um pastor. Uma trintena de carneiros, deitados na terra ardente, repousavam perto dele.

Deu-me de beber de sua cabaça e, pouco depois, conduziu-me ao seu redil, numa ondulação do planalto. Tirava a sua água, excelente, de um poço natural, muito profundo, por cima do qual tinha instalado um sarilho rudimentar.

Era um homem de poucas falas, o que é feitio dos solitários, mas revelava-se seguro de si e confiante nessa segurança. Não deixava de ser insólito numa região desprovida de tudo.

Habitava não numa cabana, mas numa verdadeira casa de pedra, na qual se reconhecia muito bem como, com o seu trabalho pessoal, tinha reconstruído as ruínas que encontrara à chegada. O telhado era sólido, estanque. O vento fazia nas telhas um ruído que lembrava o do mar das praias.

Todo o interior estava em ordem, a louça lavada, o soalho varrido e a espingarda oleada;uma sopa fervia sobre o fogo. Notei então que estava também barbeado de fresco, que todos os botões se apresentavam solidamente cozidos e a roupa repassada com o cuidado minucioso que torna os remendos invisíveis. Partilhou comigo a sua sopa e quando, pouco depois, lhe oferecia minha bolsa de tabaco, disse-me que não fumava. O cão dele, silencioso como o dono, era afável sem subserviência.

Combinamos de imediato que eu passaria ali a noite, pois a aldeia mais próxima ficava ainda a mais de dia e meio de marcha. Além disso, eu conhecia bem o gênero de pequenos e raros povoados da região. Haveria quatro ou cinco aldeias, distantes umas das outras e dispersas pelas encostas, nas matas de carvalhos brancos, situadas no extremo das estradas transitáveis por carroças. São habitadas por lenhadores que fazem carvão de madeira. Trata-se de locais onde se vive mal. As famílias confinadas umas contra as outras, neste clima excessivamente rude, tanto no verão como no inverno, dão largas ao seu egoísmo. A ambição cega torna-se desmedida, na expectativa continuada de fugir da região.

Os homens vão levar o carvão à cidade nos seus camiões, depois regressam. As mais sólidas virtudes esboroam-se, sob a ação deste perpétuo ‘banho escocês’. As mulheres fervilham rancores. Há concorrência sem tréguas em tudo, tanto na venda do carvão como pelo banco na Igreja; há concorrência nas virtudes, que se combatem entre si; nos vícios, que se combatem também entre si, e há concorrência ainda na confusão geral de vícios e virtudes. Ainda por cima, o vento, que sopra sem descanso, irrita os nervos. Acontecem epidemias de suicídios e os casos de loucura, quase sempre assassina, são numerosos.

O pastor, que não fumava, foi buscar um pequeno saco e espelhou sobre a mesa um monte de landes. Pôs-se a examiná-las, uma após outra, com toda a atenção, separando as boas das más, enquanto eu fumava meu cachimbo. Propus-me ajudá-lo. Disse-me que era tarefa sua. Com efeito, vendo o cuidado que ele punha na sua escolha, não insisti. E a nossa conversa ficou-se por aí. Quando juntou do lado das boas um monte de landes bastante grande, contou-as em conjuntos de dez. Ao mesmo tempo, examinando-as de perto, eliminava os frutos mais pequenos ou que estavam ligeiramente estalados. Quando acabou de juntar, diante de si, cem landes perfeitas, parou e fomo-nos deitar.

A companhia deste homem transmitia paz. No dia seguinte, pedi-lhe que me autorizasse a descansar em sua casa por mais uma jornada, o que ele achou muito natural. Ou, mais exatamente, deu-me a impressão de que nada o poderia incomodar. Esta pausa não me era absolutamente necessária, mas eu estava intrigado e queria saber mais. Fez sair o rebanho e conduziu-o à pastagem. Antes de partir, molhou num balde de água o pequeno saco onde tinha posto as landes cuidadosamente escolhidas e contadas.

Reparei que, em jeito de cajado, levava um varão de ferro da grossura de um polegar e com cerca de metro e meio de comprimento. Fiz de conta que me passeava para descansar e fui seguindo um caminho paralelo ao dele. A pastagem dos seus animais era no fundo de um pequeno vale.

Deixando o rebanho à guarda do cão, subiu em direção ao sítio onde eu me encontrava. Receei que viesse censurar-me pela minha indiscrição, mas nada disso: era esse o seu caminho e convidou-me a acompanhá-lo, caso não tivesse nada de melhor para fazer. Dirigia-se a uma elevação, duzentos metros mais acima.

Chegando ao local almejado, pôs-se a espetar o varão de ferro na terra, fazendo assim um buraco em que depunha uma lande, e depois tapava o buraco. Ele ‘semeava’ carvalhos. Perguntei-lhe se o terreno lhe pertencia. Respondeu-me que não. Sabia de quem a terra era? Não sabia. Supunha que se tratasse de uma área comunal, ou então de propriedade abandonada pelos donos. Era questão que não o preocupava. Assim, semeou as suas cem landes, com um cuidado extremo.

Após a refeição do meio-dia, recomeçou a escolher as suas sementes. Fui, penso bastante insistente nas minhas perguntas, pois se deu ao trabalho de me responder. Há três anos que semeava árvores nesta solidão. Tinha entretanto semeado cem mil. Dessas cem mil, vinte mil tinham vingado. E destas vinte mil contava perder ainda metade,devido aos roedores ou por força de tudo quanto há de imprevisível nos desígnios da Providência. Restavam dez mil carvalhos que iriam crescer neste lugar onde dantes nada havia.

Foi então que quis saber a idade deste homem. Tinha visivelmente mais de cinqüenta anos. Cinqüenta e cinco, disse-me. Chamava-se “Elzéard Bouffier”. Tivera uma quinta na planície. Aí vivera em plenitude a sua vida. Tinha perdido o seu único filho, depois a mulher. Retirara-se para esta solidão, onde se dava o prazer de viver vagarosamente, com as suas ovelhas e o seu cão. Parecera-lhe que esta região morria por falta de árvores. Não tendo ocupações muito importantes, acrescentou, tinha decidido remediar tal estado de coisas.

Vivendo eu próprio, nessa época apesar de ser ainda jovem, uma vida solitária, eu sabia tocar com delicadeza as almas solitárias. No entanto cometi um deslize. A minha juventude, precisamente, levava-me a imaginar o futuro em função de mim mesmo e de uma certa busca da felicidade. Disse-lhe que, dentro de trinta anos, esses dez mil carvalhos, seriam magníficos. Ao que ele me replicou, muito simplesmente, que, s Deus lhe concedesse a vida, dentro de trinta anos, teria semeado tantas outras árvores que aqueles dez mil carvalhos seriam como que uma gota de água no mar.

Estudava já, de resto, a reprodução das faias e tinha perto de casa um viveiro delas; os exemplares que aí cresciam,protegidos dos seus carneiros por uma cerca que ele construíra, eram de grande beleza. Penava igualmente em bétulas, para os fundos, onde, dizia-me ele, uma certa umidade se esconderia, a alguns metros abaixo da superfície do solo.

Separamo-nos no dia seguinte.

Um ano depois começou a guerra de quatorze, na qual estive mobilizado durante cinco anos. Um soldado de infantaria não podia, em tal situação, refletir muito sobre árvores. E para falar com verdade, o fato não me tinha marcado; tinha-o considerado como algo de pueril, uma coleção de selos, e esquecido.

Saído da guerra, vi-me na posse de um prêmio de desmobilização minúsculo, mas com um grande desejo de respirar um pouco de ar puro. Assim, foi sem qualquer idéia preconcebida, salvo esse simples objetivo, que retomei o caminho dessas paragens desertas.

A região não tinha mudado. Contudo, passada a aldeia morta, lobriguei ao longe uma espécie de nevoeiro cinzento que cobria as elevações como um tapete. Desde a véspera, tinha recomeçado a pensar naquele pastor que semeava árvores. “Dez mil carvalhos”, dizia comigo mesmo, “ocupam realmente um espaço muito grande”.

Tinha visto morrer muita gente, durante cinco anos, para não imaginar facilmente a morte de Elzéard Bouffier, tanto mais que, quando se tem vinte anos, considera-se aqueles que tem cinqüenta como velhos a quem não resta senão morrer. Mas Elzéard Bouffier não tinha morrido. Tinha mesmo rejuvenescido e mudara de ocupação. Ficara apenas com quatro ovelhas e, em compensação cuidava de uma centena de colméias. Desfizera-se dos carneiros que punham em perigo as suas árvores. Porque, disse-me [e eu constava-o], sem dar qualquer atenção à guerra, continuara imperturbavelmente a semear árvores.

Os carvalhos de 1910 tinham então dez anos e estavam mais altos que qualquer um de nós. O espetáculo era impressionante. Eu sentia-me literalmente sem palavras e, como ele não falasse, passamos todo o da em silêncio a passear na sua floresta. Esta tinha, em três troços, onze quilômetros na sua maior extensão. Se se considerar que tudo era obra das mãos e da alma de um só homem, sem meios técnicos, compreende-se que os seres humanos poderiam ser tão eficazes como Deus, em domínios diferentes da destruição.

Ele tinha posto em prática a sua idéia e as faias, que chegavam à altura dos meus ombros e se espalhavam a perder de vista, eram bem testemunho disso. Os carvalhos eram fortes e tinham passado a idade de estarem à mercê dos roedores. Quanto ao desígnios da própria Providência, para destruir a obra assim criada, precisaria de lançar mão dos ciclones. Mostrou-me admiráveis bosquezinhos de bétulas, que, com os seus cinco anos, haviam sido semeadas em 1915, altura em que eu combatia em Verdun. Tinha-as semeado nos terrenos fundos, onde, com razão, ele suspeitava haver umidade quase à flor da terra. Tinham o porte tenro e decidido de adolescentes.

A criação tinha, aliás, o ar de se repercutir em cadeia. Ele não dava atenção a isso; prosseguia obstinadamente a sua tarefa muito simples. Ao descer de novo para a aldeia, vi correr água em ribeiros que a memória dos homens sempre recordara secos. Era a mais formidável reação natural em cadeia que me tinha sido dado observar. É que esses riachos, em tempos recuados, haviam transportado água. Algumas das tristes aldeias de que falei, no início desta narrativa, haviam sido construídas sobre as ruínas de antigas aldeias galo-romanas de que ainda subsistiam vestígios, postos a descoberto por arqueólogos. Entre tais vestígios contavam-se anzóis, encontrados em sítios onde, no século XX, era forçoso recorrer a cisternas para recolher alguma água.

O vento, por sua vez, dispersava determinadas sementes. Assim, como a água, ressurgiam também os salgueiros, os vimes,os prados, as hortas, as flores e uma certa razão de viver.

A transformação operava-se tão lentamente que entrara nos hábitos sem suscitar espanto. Os caçadores que subiam as tais solidões, em perseguição de lebres ou javalis, bem tinham constado o pulular de pequenas árvores mas atribuíam-nas aos caprichos naturais da terra. Por isso ninguém tocava na obra daquele homem. Se tivessem suspeitado dele, tê-lo-iam contrariado. Só que ele era absolutamente insuspeito. Quem poderia imaginar, nas aldeias e nas repartições, uma tal obstinação na generosidade mais magnífica?

A partir de 1920, não deixei nunca de passar mais de um ano sem visitar Elzéard Bouffier. Jamais o vi recuar ou duvidar. Mas Deus saberá, se é que Deus cresce em semelhantes paragens. Não cheguei nunca a inventariar os seus dissabores. Pode bem imaginar-se, no entanto, que para chegar a um tal sucesso, há de ter sido forçoso vencer a adversidade; que para assegurar a vitória de uma tal paixão, terá sido inevitável bater-se com o desespero. Semeara, durante um ano, mais de dez mil olmos. Morreram todos. Um ano depois, abandonou os olmos para retornar as faias, que vingaram ainda melhor que os carvalhos.

Pra ter uma idéia aproximada deste caráter excepcional, é necessário ter presente que se manifestava numa solidão total; tão completa que, perto do fim da vida, Elzéard Bouffier tinha perdido o hábito de falar. Ou talvez não visse necessidade disso!

Em 1933, recebeu a visita de um guarda florestal aparvalhado. Este funcionário intimou-o a não fazer fogo ao ar livre, para que não pusesse em perigo aquela floresta “natural”. Era a primeira vez, disse-lhe aquele homem ingênuo, que se via uma floresta crescer sozinha.

Por essa época, ele ia semear faias a doze quilômetros de sua casa. Para s poupar tal caminhada de ida e volta, pensava em construir uma cabana de pedra na própria área de suas “plantações. Fê-lo um ano mais tarde.

Em 1935, uma verdadeira delegação administrativa veio inspecionar a “floresta natural”. Compunham-na um alto funcionário das Águas e Florestas, um deputado e técnicos. Pronunciou-se muitas palavras inúteis. Decidiu-se fazer alguma coisa, mas, felizmente, nada se fez, a não ser a única coisa útil – pôr a floresta sob a proteção do Estado e proibir que se fizesse carvão no seu perímetro. É que era impossível não se ser subjugado pela beleza destas árvores jovens e cheias de saúde. E essa beleza não deixou de seduzir o próprio deputado.

Um dos responsáveis florestais que fizera parte da delegação era meu amigo. “Expliquei-lhe o mistério”. Na semana seguinte, fomos ambos à procura de Elzéard Bouffier. Encontramo-lo em pleno trabalho, a vinte quilômetros do sítio onde tivera lugar a inspeção.

Este responsável florestal não era uma amigo qualquer. Ele conhecia o valor das coisas e soube guardar silêncio. Ofereci alguns ovos que tinha levado de presente. Partilhamos os três uma merenda frugal e passamos algumas horas em contemplação silenciosa da paisagem.

O lado de onde viéramos estava coberto de árvores de seis a sete metros de altura. Eu lembrava-me bem do aspecto da região em 1913 – o deserto...O trabalho pacífico e regular, o ar vivo das alturas e, sobretudo, a serenidade da alma tinham dado a este ancião uma saúde quase solene. Era um atleta de Deus. E eu perguntava-me quantos hectares iria ele ainda cobrir de árvores?

Antes de partir, o meu amigo fez simplesmente uma breve sugestão a propósito de certas espécies arbóreas às quais o terreno, ali, parecia ser conveniente. Não insistiu. “Por uma boa razão”, disse-me ele depois, “é que este bom homem sabe mais do que”. Ao fim de uma hora de marcha, tendo nele amadurecido o pensamento, acrescentou: “Ele sabe muito mais do que todos nós. Descobriu um meio fabuloso de ser feliz”.

Foi graças a este responsável que não só a floresta mas a felicidade desse homem forram protegidas. Providenciou para que fossem nomeados três guardas florestais que assegurassem essa proteção e atemorizou-se de tal forma que eles permaneceram insensíveis a todas as tentativas de corrupção por parte dos lenhadores.

A obra só correu um risco sério durante a guerra de 1939. Os automóveis moviam-se então a gasogênio, e não havia madeira que chegasse. Começaram a fazer-se cortes nos carvalhos de 1910, mas a região ficava tão longe de todas as redes de estradas que a iniciativa se revelava péssima do ponto de vista financeiro, sendo por isso abandonada. O pastor nem se apercebeu do que se passara. Andava então a trinta quilômetros de distância, prosseguindo pacificamente a sua tarefa e ignorando a guerra de 1939 como já ignorara a de 1914.

Vi Elzéard Bouffier, pela última vez, era junho de 1945. Tinha ele então 87 anos. Retomara eu, pois, uma vez mais, a estrada do deserto, mas, agora, apesar do descalabro em que a guerra tinha deixado o país, havia um carro a fazer serviço entre o vale de Durance e a montanha. Atribuía a este meio de transporte relativamente rápido o fato de não reconhecer os lugares das minhas primeiras caminhadas. Parecia-me, também, que o itinerário me levava por sítios novos. Foi-me necessário ver o nome de uma aldeia para concluir que me encontrava, de fato, na mesma região que eu conhecera, outrora, desolada e em ruínas. O carro deixou-me em Vergons.

Em 1913, esta aldeola com dez ou doze casas tinha três habitantes. Eram selvagens, detestavam-se, viviam da caça com armadilhas, mais ou menos no estado físico e moral dos homens das cavernas. A vegetação devorava, então, as casas abandonadas. Não havia esperança, na sua contradição. Para eles não havia mais nada a esperar senão a morte, situação que, de modo algum, predispõe às virtudes.

Tudo mudara. Até o próprio ar. Em lugar das ventanias secas e brutais que me acolhiam outrora, soprava uma brisa doce e carregada de odores. Um rumor semelhante ao da água vinha das alturas:era o soprar do vento nas florestas. Por fim, coisa mais espantosa, ouvi o ruído da própria água a correr para uma represa. Reparei então que tinham construído uma fonte donde a água corria abundante e, fato que comoveu ainda mais, alguém plantara nas proximidades uma tília que deveria ter já quatro anos, vigorosa, símbolo incontestável da ressurreição.

Além disso, Vergons apresentava sinais de atividade para a qual a esperança é requisito indispensável. A esperança tinha, pois, voltado. As ruínas tinham sido removidas, os troços de muros instáveis haviam sido desmontados e cinco casas tinham sido restauradas. O lugarejo albergava agora vinte e oito habitantes entre os quais se contavam quatro jovens casais. As casas novas, caiadas de fresco, estavam rodeadas de hortas onde cresciam, misturados mas alinhados, os legumes e as flores, as couves e as roseiras, os alhos porros e as bocas de lobo, os aipos e as anêmonas. Era agora um local onde apetecia viver.

A partir daí fiz o meu caminho a pé. A guerra de que mal saíramos não possibilitara o desenvolvimento completo da vida, mas Lázaro levantara-se do túmulo. Sobre os flancos menos declivosos da montanha, podia ver pequenos campos de cevada e de centeio; e no fundo dos vales estreitos verdejavam alguns prados.

Bastaram os oito anos que nos separam dessa época para que toda a região resplandecesse de saúde e prosperidade. Sobre as ruínas que tinha visto em 1913, erguiam-se agora quintas bem cuidadas, caiadas, que denotavam uma vida feliz e confortável. As antigas nascentes, alimentadas pela água das chuvas e das neves, que as florestas armazenavam, tinham voltado a jorrar. E as águas tinham sido canalizadas. Ao lado de cada quinta, nos bosques de bordos, as bacias das fontes transbordavam sobre tapetes de fresca hortelã. As aldeias foram sendo reconstruídas pouco a pouco. Uma população vinda da planície, onde o preço da terra é elevado, fixou-se na região, trazendo-lhe juventude, movimento, espírito de aventura.

Encontram-se nos caminhos homens e mulheres bem alimentados, rapazes e raparigas que sabem rir e retomaram o gosto pelas festas campesinas. Contando com a antiga população, agora irreconhecível, porque vive com gosto, e com os novos residentes, mais de dez mil pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier.

Quando penso que um só homem, apenas com os seus recursos físicos e morais, foi capaz de fazer surgir do deserto esta terra Canã, descubro que, apesar de tudo,a condição humana é admirável. Mas ao constatar quanto terá sido necessário de constância na grandeza de alma e de perseverança na generosidade, para alcançar tal resultado, sou tomado de um imenso respeito por este velho camponês iletrado que soube levar a cabo esta obra digna de Deus.

Elzéard Bouffier morreu em paz, em 1947, no Hospital de Banon.
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[Texto de:Jean Giono. Artigo extraído da revista “Vida Maior”, maio de 1992, veículo de um movimento naturalista em Lisboa, Portugal]