13 de dez. de 2011

O que o Sábio pedia a Deus

Um homem recebeu, certa vez, a visita de alguns amigos.

- Gostaríamos muito que nos ensinasse aquilo que você aprendeu em todos estes anos – disse um deles.

- Estou velho, respondeu o homem.

- Velho e sábio – disse outro. 

– Afinal de contas, sempre te vimos rezando durante todo este tempo. O que conversa com Deus? Quais são as coisas importantes que devemos pedir?

O homem sorriu.

- No começo, eu tinha o fervor da juventude, que acredita no impossível! Então, eu me ajoelhava diante de Deus e pedia para que me desse forças para mudar a humanidade.

“Aos poucos, vi que era uma tarefa além das minhas forças. Então, comecei a pedir a Deus que me ajudasse a mudar o que estava à minha volta.”

- Neste caso, podemos garantir que parte de seu desejo foi atendido – disse um dos amigos. – Seu exemplo serviu para ajudar muita gente.

- Ajudei muita gente com meu exemplo; mesmo assim, sabia que não era a oração perfeita. Só agora, no final de minha vida, é que entendi o pedido que devia ter feito desde o inicio.

- E qual é este pedido?

- Que eu fosse capaz de mudar a mim mesmo.

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Contos do Alquimista_ Paulo Coelho.    

Como Temperar o Aço

Lynell Waterman conta a história do ferreiro que, depois de uma juventude cheia de excessos, decidiu entregar sua alma a Deus.
Durante muitos anos trabalhou com afinco, praticou a caridade, mas, apesar de toda a sua dedicação, nada parecia dar certo em sua vida.

Muito pelo contrário: seus problemas e dívidas acumulavam-se cada vez mais.

Uma bela tarde, um amigo que o visitava e que se compadecia de sua situação difícil, comentou:
- É realmente muito estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas, apesar de toda sua crença no mundo espiritual, nada tem melhorado.

O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida.

Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a falar -  e terminou encontrando a explicação que procurava. Eis o que disse o ferreiro:

- Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isso é feito?

“Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que ela fique vermelha. Em seguida, sem qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado, e aplico vários golpes, até que a peça adquira a forma desejada.

Logo, ela é mergulhada num balde de água fria e a oficina inteira se enche como barulho do vapor, enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura.

Tenho que repetir este processo até conseguir a espada perfeita -  uma vez apenas não é suficiente.”

O ferreiro deu uma longa pausa, acendeu um cigarro, e continuou:

- Ás vezes, o aço que chega às minhas mãos não consegue agüentar o tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras. E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada.

“Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro velho que você viu na entrada da minha ferraria.”

Mais uma pausa, e o ferreiro concluiu:

- Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceitado as marteladas que a vida me dá e, às vezes, sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que eu peço é: “Meu Deus, não desista até que eu consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser, mas jamais me coloque no monte de ferro velho das almas.”

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Contos do Alquimista_ Paulo Coelho.