20 de ago. de 2010

A Carta da Terra

PREÂMBULO
Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que, nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.

Terra, Nosso Lar
A humanidade é parte de um vasto universo
em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.

A Situação Global

Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e é causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

Desafios Para o Futuro
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano é primariamente ser mais, não, ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios, ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes.

Responsabilidade Universal
Para realizar estas aspirações devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local. Somos ao mesmo tempo cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual, a dimensão local e global estão ligadas. Cada um comparte responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem estar da família humana e do grande mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo presente da vida, e com humildade considerando o lugar que ocupa o ser humano na natureza.


Necessitamos com urgência de uma visão de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à emergente comunidade mundial. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes, visando um modo de vida sustentável como critério comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas de negócios, governos, e instituições transnacionais será guiada e avaliada.

PRINCÍPIOS

I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DE VIDA

1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
a. Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem valor, independentemente do uso humano.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.


2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
a. Aceitar que com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente e de proteger o direito das pessoas.
b. Afirmar que, o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder comporta responsabilidade na promoção do bem comum.


3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.
a. Assegurar que as comunidades em todos níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e dar a cada a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica propiciando a todos a consecução de uma subsistência significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.


4. Garantir a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações.
a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem, a longo termo, a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra.
Para poder cumprir estes quatro extensos compromissos, é necessário:

II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA
5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.
a. Adotar planos e regulações de desenvolvimento sustentável em todos os níveis que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. Estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas em perigo.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que causem dano às espécies nativas, ao meio ambiente, e prevenir a introdução desses organismos daninhos.
e. Manejar o uso de recursos renováveis como a água, solo, produtos florestais e a vida marinha com maneiras que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas.
f. Manejar a extração e uso de recursos não renováveis como minerais e combustíveis fósseis de forma que diminua a exaustão e não cause sério dano ambiental.


6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e quando o conhecimento for limitado, tomar o caminho da prudência.
a. Orientar ações para evitar a possibilidade de sérios ou irreversíveis danos ambientais mesmo quando a informação científica seja incompleta ou não conclusiva.
b. Impor o ônus da prova àqueles que afirmam que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados pelo dano ambiental.
c. Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas conseqüências humanas globais, cumulativas, de longo termo, indiretas e de longa distância.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
e. Evitar que atividades militares causem dano ao meio ambiente.


7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer cada vez mais aos recursos energéticos renováveis como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias ambientais saudáveis.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar aos consumidores identificar produtos que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal ao cuidado da saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e o suficiente material num mundo finito.


8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e uma ampla aplicação do conhecimento adquirido.
a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuem para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis ao domínio público.

III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA

9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social, econômico e ambiental.

a. Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos nacionais e internacionais requeridos.

b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma subsistência sustentável, e dar seguro social [médico] e segurança coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter-se a si mesmos.

c. Reconhecer ao ignorado, proteger o vulnerável, servir àqueles que sofrem, e permitir-lhes desenvolver suas capacidades e alcançar suas aspirações.


10. Garantir que as atividades econômicas e instituições em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.
a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro e entre nações.
b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e aliviar as dívidas internacionais onerosas.
c. Garantir que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas laborais progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas conseqüências de suas atividades.

11. Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, ao cuidado da saúde e às oportunidades econômicas.
a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiros plenos e paritários, tomadores de decisão, líderes e beneficiários.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a criação amorosa de todos os membros da família.

12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, dando especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.
a. Eliminar a discriminação em todas suas formas, como as baseadas na raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas a formas sustentáveis de vida.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os para cumprir seu papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis, de significado cultural e espiritual.

IV.DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ
13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, a participação inclusiva na tomada de decisões e no acesso à justiça.
a. Defender o direito a todas as pessoas de receber informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que poderiam afetá-las ou nos quais tivessem interesse.
b. Apoiar sociedades locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações na toma de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de assembléia pacífica, de associação e de oposição [ou discordância].
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos administrativos e judiciais independentes, incluindo mediação e retificação dos danos ambientais e da ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes e designar responsabilidades ambientais a nível governamental onde possam ser cumpridas mais efetivamente.

14. Integrar na educação formal e aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.
a. Oferecer a todos, especialmente a crianças e a jovens, oportunidades educativas que possibilite contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades assim como das ciências na educação sustentável.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massas no sentido de aumentar a conscientização dos desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma subsistência sustentável.

15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e diminuir seus sofrimentos.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento externo, prolongado o evitável.

16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.
a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para manejar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até chegar ao nível de uma postura não-provocativa da defesa e converter os recursos militares em propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em massa.
e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico mantenha a proteção ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.

O CAMINHO ADIANTE
Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa dos princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.

Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar e expandir o diálogo global gerado pela Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca iminente e conjunta por verdade e sabedoria.

A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Porém, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.

Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional legalmente unificador quanto ao ambiente e ao desenvolvimento.

Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.
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[Texto de Leonardo Boff_Civilização Planetária_Ed.Sextante]

14 de ago. de 2010

O Eu e o Cérebro

O Eu é um principio cósmico ativo do qual somos uma parte e um produto. Mas o materialista discorda, encarando o Eu como um simples produto da função cerebral. Será o Eu simplesmente um ‘ego’, um subpoduto do cérebro, ou será um processo incrivelmente rico, um autêntico tesouro que justifica a busca que os místicos tem feito desde tempos imemoriais?

Evidentemente, a identidade e a integridade do Eu individual, como é ele comumente vivenciado, tem uma base, física que parece estar centralizada em nosso cérebro. Podemos perder porções consideráveis de nosso cérebro sem que isso venha a interferir com a personalidade. Em 1980, o neurologista John Lorber publicou um artigo na prestigiosa revista ‘Science’ que demonstrava esse fato. O artigo apresentava figuras de vitimas de excesso de fluido no cérebro, com mais de noventa por cento do córtex cerebral ausente – condição conhecida como hidrocefalia. Mesmo tendo noventa por cento do córtex faltando, sua condição não era percebida até que, por razões que nada tinham a ver com o caso, batia-se chapas de raio-x da cabeça do paciente. Essas pessoas levavam uma vida normal, e tinham inteligência acima da média.

Por outro lado, dano à integridade mental parece dever-se largamente a dano ou desordem no cérebro. Paradoxalmente, uma lesão no cérebro pode produzir um grande dano aos mecanismos físicos que facilitam o autocontrole e a autoconsciência. Entretanto, se a mesma lesão ocorrer ocorrer lentamente durante um longo período de tempo pode não produzir qualquer dano. Na verdade, a dependência que a consciência do Eu tem do cérebro não é tão definida como se supõe à primeira vista.

Embora se conjeture que a ligação entre o Eu e o cérebro seja extremamente intima, devemos apontar uma série de importantes fato que depõem contra relacionamento tão intimo e tão mecânico. Muito trabalho tem sido realizado para descobrir as funções desempenhadas pelas várias áreas do cérebro humano. Uma das descobertas mostra que existem ÁREAS COMPROMETIDAS bem como ÁREAS DESCOMPROMETIDAS. Por exemplo, as áreas sensorial e motora estão comprometidas com essas funções desde o nascimento. Por outro lado, o centro da fala não parece estar plenamente comprometido. Até os cinco ou seis anos de idade o hemisfério cerebral direito coopera com o esquerdo no controle das funções da fala. Isso pode explicar a recuperação da fala quando o centro principal no hemisfério esquerdo é danificado. Se a criança é muito crescida quando o centro da fala é danificado, a perda da fala pode ser permanente. Em todos os tipos de processos de crescimento, a ocorrência das coisas no momento correto é um fator muito importante.

A qualidade de não-comprometimento de extensas áreas do córtex cerebral pode também ser percebida de outros modos. Consideráveis porções do córtex descomprometido podem ser removidas sem dano evidente a qualquer função mental. Acidentes e remoções cirúrgicas de partes do cérebro no tratamento de graves casos de epilepsia produziram mesmo alguns casos de melhoria da capacidade intelectual.


O CÉREBRO E O COMPUTADOR

Naturalmente, isso tudo não é suficiente para refutar a afirmação materialística de que a estrutura física do cérebro pode explicar tudo sobre a mente. Alguns cientistas proeminentes notaram, aliás, que o desenvolvimento de um novo centro da fala no hemisfério intacto lembrava-lhes a reprogramação de um computador. A analogia mecanística entre e o cérebro e o computador pode ser admitida no sentido de que evidencia o fato de que o computador nada faz sem um programador.

Algumas das funções cerebrais parecem estar numa ‘de um para um’ com a experiência. Mas parece haver muitos outros casos para os quais este tipo de relação não pode ser apoiada empiricamente. O neuro-psicólogo Karl Lashley passou anos tentando descobrir a sede da memória no cérebro, mas nunca encontrou sequer uma região geral que fosse responsável por um traço especifico de memória. Suas descobertas eram mais compatíveis com a idéia de que as imagens e as lembranças decorrem de campos ou padrões de energia gerados em toda a superfície do cérebro.

O neurologista William Penfield demonstrou que a recordação pode iniciar-se numa estimulação lobo-temporal. Contudo, a estimulação não é especifica tratando-se de recordações específicas. Tudo o que se pode afirmar é que ocorrerá alguma recordação. Uma estrutura que se encontra no interior do lobo-temporal, chamada de sistema límbico, é importante para essa recordação. Danos no sistema límbico resultam em prejuízo à capacidade de recordar, mas não se pode afirmar quais impressões da memória não serão recordadas. Um paciente com dano no sistema límbico pode ‘esquecer-se’ da morte de um amigo intimo mas não a de um bichinho de estimação favorito.

Podemos também considerar o fato de que existem sentenças ou frases que usamos uma única vez. Poder-se-ia teorizar uma relação ‘de um para um’ entre as palavras e certos processos cerebrais. Entretanto, a experiência de compreendermos uma sentença transcende a mera compreensão da seqüência das palavras. Temos experiência disto quanto temos de ler duas ou mais vezes uma sentença difícil para compreendê-la. Visto que essa experiência pode ser uma dentre muitas que são essencialmente únicas, não podemos arbitrariamente supor que um processo cerebral guarda uma relação ‘de um para um’ numa base de ‘um para um’. Só podemos falar numa relação ‘de um para um’ se alguma regra ou lei universal correlaciona os dois processos, o que geralmente acredita-se não existir. Naturalmente, poucos pensadores materialistas, mecanicistas ou deterministas duvidariam de que existe um processo cerebral, talvez único, ocorrendo ao mesmo tempo e interagindo com a experiência. Considerações semelhantes dizem respeito a todas as experiências criativas. Com efeito, poderíamos descrever a formação de qualquer nova sentença como criativa, o que faz com que possamos nos considerar criativos na maior parte do tempo.

Outro ponto enfatizado pelo neurocientista John Eccles, laureado com o Prêmio Nobel, é o de que não apenas existe o problema da identidade do Eu em sua relação com a identidade do cérebro, mas também o problema da unidade do Eu. Nossas experiências freqüentemente são complexas, e às vezes, mesmo nossa atenção é dividida. Assim mesmo, por nossa experiência de introspecção, todos nós sabemos que o Eu possui unidade, embora não pareça haver parte definida do cérebro que corresponda a esse Eu. Ao contrário, parece que todo o cérebro, se não todo o complexo das células do corpo, deve estar plenamente ativo para ser ligado à consciência. Este é um processo ou sentimento, intuitivo de inimaginável complexidade.

Ao invés do cérebro produzir Eu, o cérebro é produto do Eu, do Ser em seus ininterruptos esforços para existir. O cérebro é o instrumento incrivelmente refinado criado pelo Eu no processo de expressar sua própria natureza. O Eu é sempre ativo. No sentido místico/filosófico, esta constante atividade do Eu é a única atividade genuína que conhecemos.

O Eu psico-físico ativo é o programador do ‘computador cerebral’. O Eu é o músico,e o cérebro, seu instrumento. A mente, como disse Platão, é o piloto, e não como David Hume e William James propuseram: a soma total ou o fardo das percepções, ou a torrente das experiências do cérebro. Este ponto de vista tende a sugerir passividade. Esta visão talvez resulte da tentativa de observar passivamente ao invés de reexaminar nossas ações passadas. Acima de tudo, o Eu é um principio cósmico ativo do qual nós próprios somos uma parte.

Estas considerações nos mostram que o Eu não é simplesmente um ‘ego’ ou um objeto a ser observado passivamente. Antes, o Eu é um processo incrivelmente rico, o tesouro que os místicos têm procurado desde tempos imemoriais. Como um piloto, nosso Eu observa e age ao mesmo tempo. Age, sofre, recorda o passado, planeja o futuro. Nosso Eu anseia, e nosso Eu determina. Contém em imediata sucessão, ou contém tudo de uma só vez. Nosso Eu encerra uma vívida consciência de ser o centro da ação. Nosso Eu deve a consciência dessa individualidade às interações com outras pessoas, outras partes do Eu e o mundo meditativo dos símbolos, princípios e idéias arquetípicas – tudo isso interagindo intimamente com a tremenda ‘atividade’ que ocorre no cérebro do Eu.

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[Texto de George F. Buletza P.hD]

Referências: Buletza G., Wilson O., Schaa J., [1978]; Pesquisa: Mistérios Internos do Cérebro, o Sistema Límbico – Memória e Aprendizagem, ‘O Rosacruz’ – junho/81.

Peenfield W., [1975]: The Mysteri off the Mind, Princeton University Press, Princeton, New Jersey.