22 de jul. de 2010

Alquimia _Livro Primeiro


Que, de um antigo manuscrito, foi aqui trazido à luz.

O Onipotente Todo-Poderoso DEUS e SENHOR, Aquele Único que é Onisciente e Verdadeiramente Sábio, deu ao Homem compreensão superior à de qualquer de Suas criaturas, para que este possa conhecer as Suas obras e não deixá-las inexploradas. Ora, desde que esse Homem, a quem o Deus onisciente concedeu a inspiração e, assim, a descoberta desta alta e profunda Obra secreta e o grande segredo da antiga ‘Pedra d’Água dos Sábios’, ele deve provar-se na sua correção. Se há algo na Terra que seja coisa natural, esta é a Preparação e o ‘Magisterium da Pedra do Filósofo’, natural, e não da fabricação do Homem, mas totalmente obrada pela Natureza, pois nada acrescenta a ela o Artista. Só a Natureza dirige o crescimento, como no caso de cada cultivador do solo com suas frutas e plantas; só que ele deve ser de mente sutil e ter a graça de DEUS, para que a possa dirigir à medida que a obra se torna evidente na fervura e através dos tempos sucessivos: a saber, no principio é o ‘Subjectum’, que se recebe da Natureza diretamente nas mãos. Aí jaz oculta a Tintura Universal de todos os metais, animais e plantas. É um ‘Corpus’ cru e rudimentar, sem contornos de animal ou planta, mas é no início uma substancia áspera, terrosa, pesada, viscosa, dura e nebulosa, na qual a natureza parou de obrar; mas quando o Homem esclarecido abre tais matérias, investiga em ‘Digestão’ as densas e nebulosas sombras com as quais elas se cercam, eles as purifica, permitindo que o oculto emerja, e através de adicional ‘Sublimação’, sua Alma mais interior, que ali fica escondida, também se separa e é trazida a uma forma corporal. Então será descoberto o que a Natureza tinha oculto m tal substancia, que fora informe, e que poder ‘Magnalia’ o Supremo Criador deu a seu Creato e nele implantou. Pois Deus teve este Creato para todas as outras criaturas, já que no inicio da Criação este poder foi implantado, e Ele ainda o dá diariamente, pois do contrário não seria só impossível a uma pessoa levar tal trabalho natural até o fim desejado, como também seria impossível criar aqui qualquer coisa de útil. Mas o bom e dadivoso Deus não negaceia ao Homem os tesouros e bens que Ele implantou na Natureza, do contrário não teria concedido tais coisas às Suas criaturas; não, Ele criou tudo o que é bom para o Homem, o fez Senhor de toda a Sua criação. Portanto, é próprio do Homem compreender e engajar-se em tal Obra natural e filosófica, pois de outro modo uma criação tão dadivosa e maravilhosa teria sido em vão, contemplaríamos a Natureza como se fôssemos animais sem discernimento, que por aqui perambulam, e seguiríamos vâmente os conselhos de Deus, e não nos ajustaríamos às finalidades da Natureza. ‘Deus autem et Natura, nihil facitum frustra [Deus e a Natureza em vão]. Mas o Deus Todo-Poderoso tudo comanda. Ele ordena e provê para que a forragem seja posta diante do asno e do cavalo, mas que o ser humano racional seja servido de alimentos mais custosos, mais deliciosos. Portanto, aqueles que tentam investigar e que desejam esse ‘Arcanum’ e grande tesouro tão profundamente oculto, na maneira correta, não precisam depender da colheita do ignorante, que não possui conhecimento sob a Luz de nosso Sol.

Os Filósofos e Sábios, bem como os ‘Neotrici e Veteres’, já se envolveram em grandes discussões sobre essa arte secreta, e tentaram indicar, sob muitos nomes diferentes, alegorias e palavras sofismadas, maravilhosamente estranhas, o ‘Subjectum e sua Essentia’, e que espécie de Matéria, que espécie de ‘Corpus’, que espécie de ‘Subjectum’, e quão maravilhosa e secreta é uma Criatura, que tenha incorporado poderes tão fortes, estranhos e celestiais, e com os quais, depois de ‘Digestio’ e purificação, pode-se ajudar a seres humanos, animais, plantas e metais, e pode-se levar sua saúde e perfeição até o mais alto grau, podendo-se também praticar outras maravilhosas ações. Entretanto, todos os que foram e ainda são verdadeiros ‘Philosophi’ unanimemente afirmam que há apenas um único ‘Scopum’ e uma única ‘Materiam’, o ‘Fili Sapientat’, sendo muitos e variados os discursos e escritos sobre ele. Com relação à coisa essencial, entretanto, só há silencio, e tal silencio trancou firmemente suas bocas e sobre elas colocou um sólido ‘Sigili’, pois, caso se tornasse um conhecimento vulgarizado, como o dos padeiros e cervejeiros, o mundo em breve pereceria.

Muitos são os que buscaram esta única RES, que ‘solvit se ipsum, coagulat se ipsum, se ipsum impregnat, mortificat et vivicat’ [dissolve-se, coagula-se, impregna-se, mata-se e revive-se a si própria], mas a maioria de tais pesquisadores falharam, pois se perderam em meio à busca. Portanto, é algo que mais se aproxima do ouro; e é algo que tanto pode ser ganho pelo pobre como pelo rico, seja lá o que for. Mas aquele que, de sua própria boca, venha a falar ‘expressamente sobre este Subjectum’, o faz sob a ameaça da ‘Philosophi execrationem divinam’, e sobre si chama a maldição de Deus.

Quando os filósofos pronunciavam um ‘Execratio’, o Deus Todo-Poderoso respeitava o seu apelo e o outorgava, dando-lhes o que até então Ele havia guardado em Suas próprias mãos por muitos e muitos séculos. Ora, o referido ‘Subjectum’ é de tal natureza, que ele, nossa ‘Magnesia’, não apenas contém uma quantidade em pequenas proporções do Spiritus Vitalis universal, como também um pouco de energia celestial condensada e comprimida em si. Muitos dos que o encontraram ficaram de tal modo intoxicadas pelo seu fumo que se mantiveram em seus lugares e não mais puderam erguer-se. Somente um sábio, e um que conheça tais coisas poderá tomar de uma medida desse mesmo fluido e levá-la para si, desde o lugar onde a encontrou, seja este qual for, mesmo que das profundezas das montanhas. Pela singular e abundante graça de Deus, tanto ricos como pobres possuem a mais absoluta liberdade de tomar disso, para que vá de volta a casa com isso, e coloque isso atrás da chaminé ou em qualquer outro lugar que lhe aprouver onde lhe for conveniente, e poderá começar a trabalhar isso e fazer experimentos, pois poderá deixar isso de lado tão rapidamente que nem seus próprios servos o notarão. Pois esta obra natural não é tão desajeitada como a dos alquimistas comuns, como seus desastrados trastes, seus fogareiros de carvão, suas cubas fundidoras e seus cadinhos de refinação, e com todo o restante de suas tralhas. Não, esta é uma obra que se pode guardar, numa arca fechada, em qualquer aposento que se queira, tão sossegadamente que nem mesmo um gato a encontrará, e, caso necessário, ele poderá prosseguir com seu ofício, tomando cuidado apenas para que a fornalha tenha um testador triplo, e que ele a mantenha no calor certo, deixando que a Natureza siga o seu curso. Quando, finalmente, a Solutio for retirada do ‘Terrestriat’ e fortalecida por longa ‘Digestio’, ficará então livre de ‘Crudae Materiae’ e estará preparada e renascida de forma mais sutil. Subseqüentemente, claro está, este agudo e potente ‘Spiritus’ recebe em certas ocasiões uma quantidade bem medida, como sucede nos casos de bebida e nutrição, ‘per modum inibibitionis et nutriotionis’. E sua potencia assim fica condensada e dia a dia torna-se como se fora novos suportes para seus irmãos, e muito ativa. Em verdade pensas que podes trazer esta obra e levá-la a tal potencia em intensidade oculta imensurável, um ‘Spiritus Vitalis?’ ‘ As Crudae Materiae’ ou o ‘Subjectum’ originam-se das ‘Astris e Constellatio dos céus, descendo para seu reino terreno’, sendo então sacado o ‘spiritus universi secretur’ dos Filósofos, que é o Mercuriuns dos Sábios, e é o principio, o meio e o fim, nos quais, o ‘Aurum Psysicum’ está determinado e oculto, que o alquimista comum pensa poder extrair do ouro ordinário, mas em vão. EEnquanto isso, os Philosophi lidam muito, em seus escritos, sobre Sol e Luna que de todos os metais são os mais duráveis no /_\. Mas isto não deve ser tomado literalmente, pois o seu Sol e Luna, quando levados à sua intia ‘puritaet’, através de preparação verdadeira, natural, correta e filosófica, podem muito bem ser comparados com os corpos celestiais, tais como o sol e a lua, que com o seu brilho iluminam, dia e noite, o alto e o baixo ‘Firmamentum’. Portanto, estes dois nobres metais, como Sol e a Luna dos Filósofos, assemelham-se, por natureza, ao corpo humano, e para os que sabem como prepará-los corretamente e usá-los sabiamente, dão muita saúde, e exceto isso,e acima disso, nada mais deve ser preparado, além do ponto tríplice do Universalis, pois o Spiritus a ser encontrado nestas duas coisas produz consistência, força e virtude, entre outras coisas.

Ora, o Homem perdoado por Deus pode preparar e aprontar um objeto ou substancia do supramencionado vermelho oou branco , do Sol e Luna, o que é chamado de Lapidem Philosophorum, ou a antiqüíssima Pedra d’Água dos Sábios, feita da substância na qual Deus colocou potencia na criação ou gênese do mundo, ou dos materiais freqüentemente mencionados ou Subjectum, os quais Deus, por amor e por graça, implantou no altamente dotado homem divino. Porém, creio, por isso, que a substancia divina deixada para ele na primeira Criação do mundo, do Spiritu Vitali, da Inspiração, tem sobrevivido em todas as espécies de criaturas. Todos receberam o mesmo Spiritum no mencionado Massam, e firmemente oculto nas mais internas profundezas da terra, e foi indicado e permitido aos Sábios desenterrá-lo, extraí-lo, usá-lo realizar as mesmas Miracula com ele, através do santo conhecimento que nele ainda está implantado e com o qual é diariamente suprido.

Ambas as substâncias acima mencionadas, como o Sol e a Lua, ou vermelho e branco, ou, antes, a Preparação, é, e os Mercurii são, os ingredientes na Composição de nosso Lapidis Philosophorum. Ora, as Matéria são no inicio purificadas e purgadas através de bastantes e repetidas Sublimentiones, e então cuidadosamente pesadas e logo depois compostas; também tu não deves ignorar o que representa a potência e a ocasião de ambos os ingredientes mencionados, porém deves saber como dispor ambas as Pondera, secundum proportionem Physicam [de acordo com a analogia da Física], pois uma boa porção da Preparação e do Mercúrio é misturada com uma pequena porco de animae Sollis vel Sulphuris, e então unem-se ambos com delicada mão, parra que finalmente a Preparação e o trabalho mais difícil sejam completados. Mas terás que saber que deverás primeiramente tingir a Preparação com a vermelha Tinctur, todavia ela não se tornará vermelha ‘in continenti’, mas permanecerá branca, pois o Mercurius tem o privilégio de querer ser tingido primeiro, antes de todos os outros. Os ‘Philosophi’ dizem que o fazer em adição com a Anima Solis desta Tinctur do Mercurii, e de onde deve ser tirada. O Fermento do ouro é ouro, justamente como o Fermento da massa é massa. Ademais, é o Fermento do ouro proveniente de sua própria natureza, e então sua potencia é perfeita quando retransformada em terra. E então isso é primeiro o inicio dos Filósofos, a certa e verdadeira Prima Matéria Philosophorum metallorum [a primeira Matéria dos metais dos Filósofos]. Daí para diante os verdadeiros Mestres, experienciados na Arte, começam a estimular seus Ingniam e aproximar-se da Grande Obra. E então o ‘Artifex’ continua com tal obra, e através da benção de Deus, leva-a ao final, para o qual tende e onde é encarnada por Deus, nominalmente, para a abençoadíssima Pedra Filosofal. De modo que de nada senão per Spiritum universali Secretum a verdadera matéria prima Philosophorum é preparada e aprontada. Quem, então, compreender bem este Spiritum Secretum entende também, sem dúvida, os segredos e milagres da Natureza e tem a percepção da luz da Natureza. Pois ela é ‘motus harmonicus Sympaticus e magneticus’, da qual se origina a Harmonia e Concordantia, a magnética e simpática força ou efeito do mais superior e do mais inferior. Porém, nota que a natureza de ambos os ingredientes não é semelhante uma à outra no inicio, por causa de suas opostas qualidades. Pois uma é quente e seca, a outra é fria e úmida, e logicamente,elas devem ser unidas. Mas quando isso está prestes a ocorrer, então suas qualidades opostas devem vagarosamente ser mudadas e igualadas, de modo que nenhuma das suas naturezas opostas, por meio de seu intenso fogo, retire da outra sua potencia. Mas tu jamais poderás juntá-las, pois ambas as naturezas devem elevar-se simultaneamente no poder do fogo. Então a Discrasia será retirada do Corpori, e uma Aequalitas e boa Temperatur são estabelecidas, o que ocorre através da moderada e constante ebulição.

Pois quando ambas as naturezas Sulphur e Meercurius são encerradas em espaço muito apertado e são mantidas sob calor moderado, começam a extenuar suas características opostas e a unir, até finalmente terem todas as qualidades. Elas se tornam Conspiratio e se elevam ao mesmo tempo, e certamente no topo do vidro se encontra número um. Elas estão prontas a consorciar-se, e então o noivo coloca o anel de ouro em sua noiva, dizem os Philosophi. E assim que Mercurius com seu Sulphur, como a água e a terra entre si, estiverem devidamente ebulidos [ quanto mais tempo, melhor], expelem de si todas as suas superfluidades e as partes puras encontram-se e dispõem de seus ‘corlicibi’; de outro modo as partes impuras impedem a unificação e o Ingressus.

Pois o Mercurius, como o primeiro Corpus, é inteiramente imperfeito e pode ‘per anima’ nem ser misturado nem perpetuado, pois nenhum dos Corpus ingressa no outro nem será unido a ele, seja ‘in vere’ ou ‘in radice’. Mas devem essas coisas ser tratadas de modo que uma verdadeira Tinctur se formará, e deverá ser preparada dela um novo Corpus espiritual que provenha de ambos, pois após a purificação um adotada as virtudes do outro, e de vários provém o único, numero et virtute [em numero e força]. Porém, se o fogo for por demais intenso e não for controlado de acordo com as exigências da Natureza, ambos estes acima mencionados serão sufocados ou separados. Se a eles não for dispensado o modo certo de preparo, transformar-se-ão em nada, em trabalho estragado e um Monstrum. Mas quando se proceder prudentemente e com o calor devidamente controlado, então ambas as substâncias se elevarão na Sublimatio do topo ou cúpula do vidro. Então, quando tu colheres estas lindas flores, poderás já desfrutar delas em particularia.

Mas não poderás observar o motum occultum naturae; assim como não poderás ouvir ou ver a erva crescer, pois ninguém pode observar, nem notar, o aumento e desenvolvimento destes dois ingredientes, Mercurii e Sulphuris, por causa de seu sutil, oculto e vagaroso Progressus de hora em hora. Somente por meio de marcas colocadas d semana em semana isso poderá ser observado e uma conclusão tirada, pois o fogo interno é muito delicado e sutil. Porém, por mais vagaroso que o processo possa ser, não terminará até chegar ao final, quando seu intento poderá ser visto, como em todas as plantas, a não ser que tal sutil e competente ebulição seja detida pelo calor demasiado do sol e seja queimada, ou detida por frio de aparição instantânea; ‘ergo qui scit occultum motum naturae, scit perfectum decotionm’ [por isso, aquele que conhece o movimento oculto da Natureza, conhece também a perfeita ebulição ou preparação]. Este motum deve agora tomar seu rumo natural e autodeterminado,apesar de ninguém poder ouvi-lo nem vê-lo, como também ninguém pode compreender. O Centra et ignem invisibilem seminum invisibilum [ o Centro e o fogo invisível]. Por isso deverás deixar tal assunto somente à Natureza, e observá-la, e nenhuma vez tentar opor-se à Natureza, mas depositar nela toda a confiança,até que ela produza seu fruto.

Quando alguém trata a Natureza com calor gentil e agradável, ela faz e produz tudo de si mesma, o que, para o suprimento de um Creati ou para a introdução de uma nova forma, é o objeto de necessidade: pois o Verbo Divino Fiat ainda reside em todas as criaturas e em todas as plantas, e tem sua poderosa força nestes tempos, assim como teve no inicio.

Existem, entretanto, quatro principais Virtudes e Potentias, das quais a nobre Natureza faz uso em cada ebulição; através disso ela completa sua obra e a leva a um final.

A PRIMEIRA VIRTUS
É, e é chamada, ‘appellativa et attracctiva’, pois lhe é possível atrair para si, de longe ou de perto, alimento pelo qual se mostre desejosa de resultados e lugares agradáveis à sua natureza, e ela pode crescer aumentar. E aqui ela não tem um poder magnético, tal como o de um homem por uma mulher, o Mercurius pelo Suplhur, o seco pelo úmido, a Matéria pela forma. Por isso o axioma dos Filósofos é: natura naturam amat, ammplectitur prossequitur. Omnia namquam crescentia, dum radices agunt et vivant, succum ex Terra altrahunt, atque avide arripiunt ilud, quo vivere et augementari sentiunt – isto é, a natureza ama a natureza, a envolve e segue. Pois todas as plantas, quando lançam raízes e começam a viver, tiram a seiva da terra, e a sugam avidamente, pois sentem que deste modo elas podem viver e multiplicar-se. Pois onde há fome e sede, alimento e bebida serão recebidos com avidez esta Virtus e Potentia será desperta e provém do calor e da seca mediana.

A SEGUNDA VIRTUS E POTENTIA
É, e é chamada natura retentiva et coagulativa. Pois a Natureza em si não somente é útil a ela e serve por sua continuação e é vantajosa quando ela carece daquilo que é avidamente produzido de si mesma, mas tem também com ela o laço com o qual ela tira e traz e a segura a si mesma. Sim, a Natureza até se muda em si mesma, pois como tem ela escolhido, destas duas, as mais puras partes, ela separa o resto e as leva à boca e a faz crescer, e não está carecendo de qualquer outra ‘calcinação ou fixação:natura naturam continent’[A natureza retém a natureza], e tal habilidade provém de sua secura, pois o frio constringe as partes obtidas e formas e as reduz, por secura, na Terrae.

A TERCEIRA VIRTUS E POTENTIA
[naturae in rebus generandis et augmentandis]

Est Virtus digestiva, quae fir per putrefactionnem seu in putrefactione [é a força digestiva, que ocorre por meio da putrefação ou na putrefação], em calor e umidade moderados e temperados. Pois a Natureza dirige, muda e introduz um tipo e qualidade, a imperfeição é eliminada, o amargo é adoçado, o autero é abrandado, o áspero é feito liso, o imaturo e selvagem é domado,o que era anteriormente incapaz é agora habilitado e tornando eficiente, e leva à execução finalmente pretendida e perfeição da Obra, e representa os Ingredientia da Compositio.

A QUARTA POTENTIA NATURAE
Est virtus expulsiva mundificativa, segregativa [a força expelente, purificante, separadora] que separa e divide, que purifica e purga, que lava durante a Sublimação ou Decocção.

Ela parte do Sordibus da escuridão e trás consigo um Corpus ou substância pura, transparente, poderosa ou iluminada; ela reúne as Partes homogneis, e é gradualmente liberada do heterogeneis, repele a Vitia e tudo o que for estranho, inspeciona o rude, e dá a cada parte um lugar especial. Isto é causado por – e é proveniente de – agradável calor, constante em umidade apropriada, e isso é a Sublimação e fruta madura que agora cairá da casca. Por isso foi no inicio designado pela Natureza artesãos, a saber: o Patiens é liberado do Agente e será aperfeiçoado. Nam liberatio illa a partibus heterogeneis est vita et perfectio omnis Rei – isto é, para a liberação destas desiguais partes, é a vida a perfeição de todas as coisas. Para o Agens e Patiens que até agora estiveram em contenda um com o outro, de modo que cada um afetava e oferecia resistência de acordo com a resistência de seu oponente – isto é, o quanto for possível ela quebrará a resistência de seu oponente e não se devem unir durante o tempo de sua Decocção, porém a melhor parte deverá ganhar a vitória e expelir o impuro, e subjugá-lo.

Agora, quando todas as Naturalis potentia tiverem desempenhado seu Officium, então virá o novo nascimento e como a fruta madura se apresenta em todas as outras plantas, assim também agora sucederá em nosso Subjecto e obra natural que, quando aperfeiçoada, surpreendentemente em nada mais parece com seu primeiro inicio e não tem mais qualidade, e é nem frio nem seco, nem úmido nem quente, e ´nem masculus nem foemina. Pois o frio é por si mesmo transformado m calor, e o seco em úmido, e o pesado em leve, pois ela é uma nova ‘Quinta Essentia’, um ‘Corpus Spirituale’, e tornou-se um ‘Spiritus Corporales’, tal Corpus é claro e puro, transparente e cristalino: por si mesma, a natureza jamais poderia ter produzido tal corpo enquanto existir o mundo. O Artifex e o homem iluminado, entretanto, auxiliante Deo et natura [pela ajuda de Deus e da Natureza], produziu por meio do seu intelecto a arte, e ele o coloca lá por si mesmo. De modo que subseqüentemente ele encontra uma Miracula e que é chamada: ‘unguentum anima, aurum Philosophorum, flos auri’[o ungüento, a alma, o ouro do filósofo, a flor do ouro]. Theopharastus e outros o chamam de Glutem aquilae.

Agora, o que foi mostrado sobre as quatro ‘potentiis naturae’ foi efetuado por meio do fogo, que deve ser incombustível, agradável à Natureza, e de acordo com a Natureza deve continuar estável e deve também sr vantajoso à Obra: porém nesta Obra dois tipos de fogos são particularmente bem tratados, a saber: o fogo elementar externo que o Artifex produz e o qual aplica à Obra, e depois deste o fogo natural, inato, interno, das substancias. Embora encontre em todas as três coisas primárias ou genera um fogo natural, tal como nos Animalibus, Vegetabilus e Mineralibus, através dos quais ele iniciou e se moveu, mantendo a vida, foi fortificado e aumentado; e pode continuar seu inato poder de continuidade e de virtude radicada de acordo com o caráter de cada um.

Mas o fogo que se encontra em nosso Subjecto em si mesmo não é mínimo entre as criaturas e os minerais. Ele tem oculto dentro d si o mais maravilhoso, o mais potente fogo, confrontado com o qual o fogo externo é semelhante à água, pois nenhum fogo elementar comum pode consumir e destruir o puro ouro, que é a mais durável substancia entre todos os metais, por mais intenso que o fogo possa ser, mas apenas os essenciais /_\ e \¨/ dos filósofos o podem conseguir.

Se tivéssemos hoje este fogo com o qual Moisés queimou o bezerro de ouro e o triturou em pó e o espalhou sobre a água de que então fez os Filhos de Israel beber [Êxodo, cap.32] – que seja esta uma parte da obra alquímica de Moisés, o homem de Deus! Pois ele foi instruído na arte egípcia e nela habilitado. Ou o fogo que o profeta Jeremias escondeu sob o pé da montanha, da qual Moisés avistou a Terra Prometida e onde ele morreu, o fogo que foi recuperado senta anos mais tarde pelos Sábios, os descendentes dos antigos sacerdotes, após o retorno do Cativeiro Babilônico. Porém, no entretempo, o fogo da montanha foi mudado e se transformou em água [II Macabeus, cap. 1 e 2]. O que pensas tu? Não nos deveríamos aquecer nele e manter afastado de nós o frio do inverno?

Tal fogo dormita em nosso Subjecto calma e pacificamente, e não se move espontaneamente. Se agora este secreto e oculto fogo devesse auxiliar seu próprio Corpori, de modo que possa elevar-se e ter seu efeito, e manifestar seu poder e força, para que o Artista possa alcançar o final desejado e predestinado, este fogo deverá ser estimulado pelo fogo elementar externo, ser atiçado e ser trazido para seu curso. Este fogo pode estar em lâmpadas ou em qualquer outro lugar que desejares, ou engedrares, pois ele sozinho é suficientemente capaz de executar a atividade com facilidade, e tal fogo e calor externos devem ser cuidados e mantidos durante todo o tempo, até o final da Sublimação, para que o fogo essencial e interno seja mantido aceso, para que os dois fogos mencionados possam ajudar-se um ao outro e o fogo externo possa dignificar o fogo interno, até que em seu tempo apropriado l se torne tão forte e intenso que rapidamente reduzirá a cinzas, pulverizará, reverterá a si mesmo e igualará a si tudo aquilo que for nele colocado, mas que é, todavia, de sua própria espécie e natureza.

Todavia, é necessário a todo Artifex, à custa do final desejado, saber que entre estes dois fogos mencionados ele mantenha determinada proporção entre o mais externo e o mais interno, e que ele atice o fogo apropriadamente, pois se o deixar fraco, então a Obra será paralisada, e o fogo mais externo não é capaz de aumentar o interno, e desde que ele o atice moderadamente por várias vezes, produzirá um vagaroso efeito de processo muito longo, e quando tiver esperado com tal paciência e obtiver seus dados, então finalmente alcançará seu objetivo. Porém, se alguém fizer um fogo mais forte do que o adequado a este processo, e este for apressado, então o fogo interno padecerá e será inteiramente inepto, a Obra certamente será destruída, e o apressado jamais alcançará seu fim.

Se após a duradoura Decocção e Sublimação as nobres e puras partes do Subject forem gradualmente, e com a vantagem de um tempo calculado, separadas e liberadas da rústica substancia terrosa imprestável, o impulso m tal atividade deverá ser de acordo com a Natureza e deverá ser ajustado com moderação que seja agradável, complacente e vantajosa ao fogo interno, a fim de que o fogo interno essencial não seja destruído por calor demasiadamente intenso, ou mesmo extinguido e tornado imprestável. Não, antes ele será mantido em seu grau natural, será fortificado, enquanto as partes puras e sutis se ajuntam e se reúnem, sendo o imperfeito separado, de modo que as partes puras combinem e o melhor alcance o objetivo em vista. Portanto, tu deves aprender da Natureza sobre o grau deste fogo que a Natureza usa em suas operações até que ela faça amadurecer seus frutos, e disso conhecer a Razão e fazer os cálculos. Pois o fogo essencial interno é realmente aquele que leva o Mercurium Philosophorum à aequalitaet; mas o fogo externo estende-lhe uma mão, para que o fogo interno não seja impedido em sua operação, e, portanto, o externo deverá estar em concordância com o interno e deverá ajustar-se de acordo com o mesmo, e vice-versa. Então, em tal uso do fogo elementar universal, ele deverá ser levado ao calor natural interno, e o calor externo será ajustado a ele, para que este não exceda no CREATO a força do SPIRITUS úmido e quante, o qual é inteiramente ‘subtil’; de outra maneira, a natureza quente de tal ‘spiritus’ seria rapidamente dissolvida, e não poderia mais manter-se unida, e não teria mais potência. Segue daí que um fogo mais intenso do que for necessário para reviver e manter o fogo natural interno implantado em nossa Materiae poderia ser apenas para o impedimento e a deterioração. In natura et illius Creatis et generationibus sit tua Imaginatio, isto é, na natureza e no que foi criado ou trazido por ela deverás mediar. Por isso leva o Spiritum úmido para terra, faze-o secar, agglutinirs e figurs, com um suave fogo. Assim deveras tu também levar o Animam para o Corpus morto e restaurar o que tiveres levado embora, e tu restaurarás o que não tem alma e o que é morto para a vida, para que se eleve e se equipe novamente, porém o que assim o fez não suportará o calor, pois este não se tornará constante como no caso de ter sido recebido espontaneamente com boa vontade, com alegria e com desejo, ficando profundamente impressionado.

E isto é ‘sicci cum humido natuiralis unio et ligamen tum optimun’ [a unificação natural do seco com o úmido, e também a melhor ligação]. Sim, se alguém realmente deseja discutir este assunto: os Sábios mencionam três tipos de fogo, cada um dos quais está encarregado do ‘operis magni’, assim é que cada melhor forma em particular deve em sabedoria e boa prontidão tê-lo também em governo. Assim, ele não trabalhará como um cego, mas de maneira entendida e prudente, como é adequado a um Philosophus inteligente.

O primeiro fogo é o externo, feito pelo Artista ou vigia, o qual os Sábios chamam de ‘ignem frotem’, do qual ‘Reginem’ depende a segurança ou a ruína da Obra inteira, e isto de dois modos:’nemium sumiget cave’ [tome cuidado para que não fumegue demais], mas também é dito:‘combure igne fortissimo’[queime-o com o mais forte fogo].

O segundo fogo é o ninho no qual a Phoenix dos Filósofos tem sua morada, e lá choca ‘ad regenerationem’. Isto não é nada mais que o ‘Vas Philosophorum’. Os Homens Sábios o chamam de ‘ignem corticum’, pois está escrito que a ave ‘Phoenix’ ajuntou todos os gravetos de madeiros balsâmicos com os quais cremou-se a si mesma. Se não fosse assim, a Phoenix morreria de frio e não alcançaria a Perfeição. Sulphura Sulphuribus continentur [os enxofres são mantidos pelos enxofres]. Pois, o ninho deve proteger, assistir, nutrir e vigiar a descendência do pássaro até o final.

O terceiro, entretanto, é o verdadeiro fogo inato do nobre Sulphuris, ele mesmo a ser encontrado ‘in radice subjecti’, e é um ‘Ingrediente’, e ele acalma o ‘Mercurium’ e lhe dá forma; este é o verdadeiro Senhor, sim, o verdadeiro ‘Sigillum Hermetis’. Em relação a este fogo ‘Creberus’ escreve: ‘In profundo mercurii est Suplhur, quod tandem vincit frigiditatem et humiditatem in Mercúrio.Hoc nihil aliud est, quam parvus ignis occultus in mercúrio, quod in mineris nostris exitatur et longo temporis sucesse digerti frigiditatem et humiditatem in mercurio, isto é: Na essência do Mercurii está um enxofre que finalmente subjuga a frieza e a umidade no Mercúrio. Isto nada mais é do que um pequeno fogo oculto no Mercúrio, que é feito presente em nosso Mineris, e na integridade do tempo ele absorve a frieza e a umidade do Mercúrio ou as remove, e isto também é dito sobre o fogo.


FINIS.

21 de jul. de 2010

A Rosa _ Símbolo de Psicologia Espiritual?


Durante muitas décadas, pode-se dizer que de modo geral psicologia e espiritualidade foram vistas como antinômicas. Jung, porém, colocou em evidencia a importância da dimensão espiritual como fator de evolução do ser humano, que é um ser em ‘devenir’, com real capacidade de transformação. Mas reconheçamos que na França Jung foi pouco compreendido que a maior parte dos ensinamentos da psicologia nas universidades francesas permanece fortemente marcada pelo pensamento materialista, o que, aliás, vai inteiramente contra o fenômeno da retomada de interesse pela espiritualidade; fenômeno com que nos encontramos e que deveria cumprir seu papel de pôr a questão em evidência em muitos campos.

Falar de psicologia espiritual é ter em conta, de modo global, a dimensão espiritual do ser no quadro da abordagem psicológica. Portanto, não se trata apenas de se interessar pela primeira infância, a infância, a esfera psico-afetiva ou a esfera profissional de um indivíduo, mas também de se ter em conta a esfera espiritual ou o despertar espiritual, com as qualidades psíquicas relacionadas, como por exemplo, a intuição, e com toda a simbologia que expressa, através dos sonhos, do corpo físico [simbologia corporal], do corpo psíquico [psico-energético], certos eventos interiores e certas enfermidades significativas. É também ter em conta os elementos da sombra em nós, isto é, os elementos negativos de nosso EU, os elementos que representam um problema e que devem ser reconhecidos e canalizados, para serem depois transmutados - é o caso da agressividade ou da passividade que devem ser reconhecidos como tal conscientemente. Posto que devem ser transmutados ao longo dos anos em uma energia positiva disponível para outra coisa. E é também integrar os fenômenos que fogem ao ordinário e que levantam questionamentos, como as experiências PES, as visões místicas, a sincronicidade, a memória de vidas anteriores, etc. – tudo isto faz parte da alquimia interior.

Como disse o Dr. JACQUES Vigne, “o que diferencia a psicologia espiritual é a experimentação pessoal: as observações são feitas mergulhando-se na própria psique, coisa que os sábios vêm praticando há milhares de anos, graças à meditação e a outras técnicas de expansão da consciência. Para eles, cada ser humano é seu próprio laboratório para explorar seus próprios estados interiores. Isto não é uma questão de crença ou de fé, é uma questão de experiência...”

Para nós ocidentais, não se trata de rejeitar, digamos assim, a psicologia clássica, convencional, que desenvolveu bastante o aspecto analítico, mas de inscrevê-la numa perspectiva espiritual que desenvolva o aspecto mais intuitivo e metafórico. Em outras palavras, trata-se de conciliar em nós o analítico e o intuitivo.

Freud, em sua obra, trabalhou bastante na estruturação do Ego, insistindo no papel da primeira infância, da infância, etc. Jung, por outro lado, aprofundou suas pesquisas na evolução do Ego rumo ao Eu. Em alquimia mental e em psicologia espiritual, sabemos que é essencial que haja um Ego bem estruturado – de onde a importância da infância e da adolescência – e sabemos também que a partir desse Ego bem estruturado pode se dar uma evolução de boa qualidade rumo ao Eu.

Os místicos aspiram à realização desse Eu, e a psicologia espiritual se interessa muito particularmente por esse campo. O Eu é o que há de mais elevado em nós e representa na verdade a ‘Imago Dei’ que todo ser humano possui em seu intimo, o reino de Deus dentro de nós. Como constatou o psiquiatra Adler, do ponto de vista psicológico o Eu pode ser considerado como a experiência de Deus em nós, de certo modo o Deus do nosso coração. Ele constitui o que podemos chamar de a mais alta intensidade de vida.

E é através da ampliação progressiva do campo da consciência que nosso Ego pode tender ao Eu cósmico, sendo a experiência última a reintegração da alma no Uno. E é essa ampliação que os rosacruzes realizam, aprendendo a desenvolver em si mesmos a consciência cósmica.

Abordaremos neste artigo três pontos simbólicos concernentes à rosa, de um ponto de vista psico-espiritual.

I – A Rosa como Símbolo do Desejo Espiritual de Realização do Eu
A jornada interior pode ser simbolizada pelo desabrochar da rosa na cruz. A rosa é considerada como um dos símbolos desse processo de mudança, dessa transmutação alquímica, mas outros símbolos, como o diamante, a flor de lótus, a criança interior, a esfera dourada, a luz branca, são também exemplos de símbolos do Eu. Podemos encontrá-lo nos sonhos espirituais, nos grandes mitos da humanidade, em alguns contos infantis tradicionais, como também nos manuscritos alquímicos ou ainda, por exemplo, nas cartas do Tarô iniciático.

Alertamos, porém, que não é suficiente sonhar com símbolos maravilhosos para que se seja um Realizado: os símbolos do Eu, as situações arquetípicas, devem ser consideradas sobretudo como um encorajamento e uma expressão do desejo de ir mais longe; não é o fim do processo, mas na verdade um novo começo para uma nova volta da espiral.

Do mesmo modo, podemos dizer que uma experiência de despertar, como uma visão mística, não é O Despertar. É simplesmente uma experiência de despertar, um encorajamento para a senda ou uma arrancada na evolução. A rosa em seu desabrochar, com suas diferentes pétalas, pode então traduzir esse desejo, mostrando que novas tarefas devem ser empreendidas.

II – A Rosa Como Símbolo do “Saber Dar” e do “Saber Receber”
A rosa pode ser apreendida como um magnífico símbolo de harmonização entre o ‘saber dar’ e o ‘saber receber’. Um bom numero de escritores já insistiu nessa necessidade de equilibrar em nós o saber dar e o saber receber, e entre esses podemos citar Jung, Maslow, Stanilas Grof, Annick de Sounzenelle, entre outros. Esse equilíbrio resulta de um movimento harmonioso, de uma aliança entre esses dois componentes, movimento que constitui uma dinâmica entre o exterior e o interior de nós mesmos. Em nossa vida cotidiana, não façamos a partilha do ‘saber dar’ e do ‘saber receber’. Por exemplo, não há uma hora de ‘saber dar’ seguida de uma hora de ‘saber receber’.

Nossa psique é constituída de uma energia masculina e uma feminina. A energia masculina representa nossa capacidade de ação no mundo físico: pensar, falar, mover-se, etc. Para o homem, como para a mulher, é a energia masculina que permite o agir; é a emissividade, a função emissa, e o ‘saber dar’ participa deste processo de emissividade.

A energia feminina representa nossa porção mas intuitiva, essa porção interior que pode se abri à inteligência suprema do universo. Para o homem, como para a mulher, é a receptividade, a função receptiva, e o ‘saber receber’ participa deste processo de receptividade.

De um modo esquemático, podemos dizer que o processo criativo traduz-se assim: o aspecto feminino recebe a energia criadora universal e o aspecto masculino a exprime no mundo pela ação; isto é parte da nossa alquimia mental e espiritual.

Se tomarmos o símbolos da rosa, poderemos nos dar conta de que este símbolo possui um núcleo central de onde emanam as pétalas. Ania Teillard, psicóloga, observou que tudo se passa como se neste símbolo da rosa houvesse, ao mesmo tempo, uma reunião em torno do ponto central e uma irradiação estelar emanando do centro:

- Por um lado, as energias vindas do exterior, que passam pelas diferentes pétalas e que são reunidas no centro da rosa, representam de certo modo nosso ‘saber receber’ – do exterior para o interior, o fenômeno da interiorização.

- Por outro lado, as energias que partem do interior, do centro da rosa, e se difundem através das pétalas irradiando-se para o exterior, representam de certo modo nosso ‘saber dar’ – do interior para o exterior, o fenômeno da exteriorização.

Tudo isso representa simultaneamente a concentração interior e a união com o mundo exterior. A mesma coisa participa também do processo de evolução individual e coletivo. Temos necessidade de ambos: do ‘saber receber’ e do ‘saber dar’. Talvez seja útil recordar em que consistem esses dois conceitos.

1_O ‘Saber Receber’
Nem todo mundo sabe receber ou estar em receptividade. Sylvie Galland e Jacques Salomé, psicoterapeutas, dizem que “reagimos como doentes do receber e, numa relação de longa ou de curta duração, muitas são as situações em que temos receio de receber.”

Receber presentes, palavras agradáveis, elogios, sinais de amor – pode parecer incrível, mas há muitas pessoas que não suportam essas atenções. Os autores citados acima colocaram a seguinte questão: a visão que temos de nós mesmos é tão severa, tão exigente, que não podemos aceitar o reconhecimento daquilo que é?

Mas receber é também receber as evidências, as opiniões diferentes, as proposições novas e até perturbadoras. A maioria dos seres humanos funciona com uma atitude defensiva; muitos dizem não pegar para si aquilo que lhes parece desconhecido; poucos estão realmente abertos às diferenças, o que explica bem os problemas das nossas sociedades contemporâneas que se caracterizam às vezes pela intensidade de sua intolerância. A falta de tolerância é um medo ancestral, um fechamento, um bloqueio de energia do receber.

2_ O ‘Saber Dar’
Assim como podemos estar doentes do ‘saber receber’, do mesmo modo podemos estar doentes do ‘saber dar’. Assim como a rosa pode receber a luz e o calor do sol sem reservas, do mesmo modo esta rosa pode dar seu perfume, sua irradiação, desinteressadamente e sem ficar privada do quer que seja.

Há prazer no saber dar, mas esse prazer não é algo calculado nem um troca de bons procedimentos, e menos ainda uma estratégia. O saber dar não põe em relevo o sofrimento e o sacrifício, ele revela uma forma de amor. Na vida cotidiana, é freqüente se ouvir frases como: “ E dizer que sacrifiquei dez anos de minha vida a tal causa, a tal ideal, a tal pessoa...” Aí não está a dádiva, o amor, mas o dever, e na psicologia moderna conhecemos bem os limites do dever. O dever nada tem a ver com o amor. Ora, é importante ter em mente que tanto no ‘saber dar’ como no ‘saber receber’ o prazer desempenha seu papel. Prazer de dar como prazer de receber, e vice-versa...

E isso pode ser feito muito naturalmente, como no exemplo da rosa que recebe calor e luz, e dá seu perfume e irradiação. O equilíbrio no cotidiano acha-se talvez na proporção, nessa adaptação com flexibilidade do ‘saber dar’ e do ‘saber receber’ que se faz simultaneamente.

O que dissemos da rosa, podemos aplicar ao símbolo Cruz. A cruz é qualquer parte da nossa vida cotidiana, isto é, um conjunto de experiências a serem vividas, com o braço vertical simbolizando a espiritualidade, o horizontal simbolizando a materialidade, e o ponto de encontro onde floresce a rosa, o desabrochar do ser. Podemos agora retomar os conceitos do ‘saber receber’ e do ‘saber dar’, pois material e espiritualmente recebemos do exterior elementos, informações, energias que vêm circular ao longo dos braços da cruz para se concentrarem no núcleo essencial que é a rosa; e inversamente, da rosa emana todo tipo de irradiações que vão se difundir ao longo dos braços da cruz, ressoando em nossa vida espiritual e material.

Não nos esqueçamos também que o que é válido para o funcionamento do individuo é igualmente válido para o funcionamento de um conjunto de indivíduos, podendo esse conjunto ser um grupo, uma nação e, por que não, todo o planeta. Se nosso planeta não vai atualmente muito bem, talvez seja por ele ter perdido o senso da proporção.

3_ A Rosa como Símbolo da Abertura do Coração
O que vamos abordar agora está completamente ligado ao que foi dito anteriormente: trata-se do que chamamos a ‘abertura do coração’, elemento essencial num caminho iniciático.

Na rosa-cruz, a rosa esta no centro da cruz, isto é, no ponto do coração do Cristo. Ângelus Silesius, místico do século XVII, autor de uma obra intitulada ‘O Peregrino Querubínico’, fez da rosa a imagem da alma, como também do Cristo.

Mantenhamos, então, essa imagem da rosa, símbolo, entre outros, da abertura do coração ... e mais particularmente da explicação simbólica da imagem do iniciado carregando um botão de rosa, que não deseja outra coisa além do desabrochar, como se o iniciado, em sua jornada interior, tivesse feito assomar em si o essencial. Esse essencial passa em verdade pela via do coração e a regeneração do Ser interior. O coração pode ser considerado como símbolo central dessa via, pois indica, quanto é importante para o homem saber amar a todos os níveis de seu ser, sendo o Amor Cósmico o nível mais elevado. Saber amar abre muitas portas, e num dos livros secretos dos gnósticos do Egisto havia esta expressão significativa: Vós, os Filhos do Conhecimento do Coração.

O centro cardíaco é um dos 7 centros psíquicos maiores. Lembremo-nos que, conforme recomendam os ensinamentos, é preferível não se polarizar excessivamente nesse ou naquele centro psíquico, pois é mais natural que o despertar, ou mais precisamente o redespertar, desses centros se faça de modo harmonioso, na exata medida em que se realiza a evolução espiritual. Do mesmo modo, as qualidades psíquicas, correspondentes aos centros psíquicos, despertam progressivamente. Os 7 centros psíquicos têm todos sua importância e seu desenvolvimento deve ser harmonioso, a fim d que a circulação energética possa ser feita normalmente de baixo para cima e de cima para baixo.

O centro cardíaco ocupa, entretanto, um lugar interessante no plano dos 7 centros psíquicos. De cima para baixo ele é o 4º, de baixo para cima é também o 4º. Alguns falam dele como sendo o primeiro centro altruísta. Sua localização mediana, à meia-distância entre a parte de baixo e a de cima, confere-lhe um papel especial, pois a abertura do coração, como se costuma dizer, favorece o desenvolvimento dos outros 3 centros superiores e tem uma ação aquietadora e harmonizadora sobre os outros 3 centros inferiores – são esses 3 centros inferiores que estão talvez exacerbados em nossa sociedade de hiperconsumismo e de hiperaglomeração emocional e especular.

É possível que a abertura do coração desenvolva o desejo espiritual de se ter uma relação mais intima com a alma. É possível que ele permita ao homem compreender melhor a natureza do amor.

Podemos acrescentar também que quanto mais adentramos na luz cósmica, mais somos iluminados no interior de nosso ser, e mais desejamos ajudar os outros e compartilhar com eles essas bases de compreensão, de conhecimento e de revelação mística que integramos em nós. De fato, quanto mais essa comunhão cósmica se dá, mais podemos amar e ajudar naturalmente e sem esforço da vontade pessoal, pois ajudar com esforço da vontade pessoal denuncia algo do conceito de poder.

Auxiliamos os outros na qualidade de transmissores, como canal espiritual. A abertura do coração, isto é, essa rosa que aos poucos se abre simbolicamente em nós, nos ensina a bondade interior. Esse desenvolvimento, pelo fato de estar carregado de amor, vai muito além do mero desenvolvimento intelectual. Ele tende a uma evolução mais profunda do ser, que proporciona uma expansão do campo da consciência e às vezes uma hiperconsciência – uma hiperconsciência transitória mas, ainda assim, uma hiperconsciência – como também um desejo espiritual de comunhão interior, e é sta comunhão interior que permite que se tome consciência do sentimento de universalidade e de unidade.

Não é então de se admirar que, a despeito de todo seu conhecimento, alguns cientistas passem longe da sua verdade: eles trabalham tão somente com a cabeça.

Ora, reconhecemos essa simplicidade do coração, esse calor interior, na tradição mística ocidental. A rosa e a cruz, através de seus diversos sentidos simbólicos, nos propõem manter, tão intactas quanto possível, essas qualidades da via do coração, mesmo no decorrer de experiências difíceis e talvez até mais ainda durante elas. Os estudantes sabem muito bem que vivenciar isto é parte do campo da iniciação. As experiências a serem vivenciadas podem ser individuais ou coletivas, mas todas devem ser consideradas significativas, ou seja, plenas de sentido.

E o conjunto das experiências, por um lado cotidianas, com seu quinhão de alegrias e sofrimentos para cada um, e por outro lado místicas e espirituais, pode conduzir afinal à experiências fundamental da luz interior, e com isto a aceitação plena e inteira do Plano Divino.


Há um adágio que diz: Ao te engajares num caminho, pergunta-te se esse caminho tem um coração. Não se trata,claro, do coração físico e nem do coração afetivo e emocional, mas do coração enquanto centro de integração de certas faculdades espirituais, esse coração centro do ser.

No limiar da Era de Aquário, sentimos, na psicologia espiritual, que o homem deve se reconciliar com seu coração. A inteligência sem coração, a ciência sem consciência, nos levaram à situação planetária atual, com nossas sociedades a um só tempo muito analíticas e muito emocionais na superfície, mas muito frias na profundidade. A abertura do coração pode dar um sentido e uma outra visão às descobertas da inteligência na vida cotidiana, e o coração purificado, no sentido alquímico da expressão, torna-se capaz de ver ‘aquilo que’ é em sua essência.

E como disse o poeta, numa visão muito idealista: Que é um coração puro senão aquele olho capaz de contemplar todas as coisas sem projeção, sem transferência, com aquela qualidade da inocência que faz com que o mundo nele se reflita como sobre água límpida...

Paralelamente a esta visão poética, podemos recordar a explicação de Mircéia Eliade sobre o simbolismo, que ele considera como um dado imediato da consciência total, quer dizer, do homem que se descobre como tal, do homem que toma consciência de sua posição no universo; essas descobertas primordiais são tais que o próprio simbolismo determina simultaneamente a atividade do subconsciente e as mais nobres expressões da senda espiritual.

UM TRIÂNGULO
Vimos assim 3 pontos simbólicos concernentes à rosa numa abordagem psico-espiritual; portanto, um triângulo com:

1ª ponta:a rosa como símbolo do desejo espiritual de realização do Eu.
2ª ponta:a rosa como símbolo do saber dar e do saber receber.
3ª ponta:a rosa como símbolo de abertura do coração.

Três pontos simbólicos que favorecem o sentimento de unidade. Três em Um – sentimento de unidade que pode ser traduzido também pela rosa no centro da cruz.

- Sentimento de unidade no Eu, com a harmonização dos diferentes componentes do nosso ser.

- Sentimento de unidade com os que vivem o mesmo ideal místico, e quanto a isto conhecemos o papel desempenhado pela Egrégora.
- Sentimento de unidade com os que estão na busca spiritual, de uma maneira geral.

- Sentimento de unidade com o conjunto da humanidade, com a qual somos solidários no nível das alegrias e das tristezas.

- E um dia, sentimento de unidade com o infinito...

A unidade através do Amor e do Conhecimento auxilia no estabelecimento de novos valores.

É a tudo isso que nos convida o símbolo da rosa que irradia no sentido espiritual do termo, mas também no sentido psicológico, com as mudanças de valores e de comportamento que ela acarreta no mundo do pensamento; e, claro, no sentido cotidiano, com as aplicações práticas, concretas, pragmáticas, na vida de todo dia. Portanto, uma irradiação nos três planos – espiritual, psicológico e cotidiano.

CONCLUSÃO
Pode-se dizer que a senda espiritual e também a psicologia profunda a que nos referimos, isto é, a que leva em consideração a dimensão espiritual, introduzem o conceito de jornada interior. Cada um tem em si uma parcela da imensidão cósmica, da infinitude, e da busca da harmonia possível com o Cósmico. A jornada interior consiste nos encontros consigo mesmo, no casamento alquímico interior, na unificação, efetuando um circulo completo que, como Ulisses, nos conduz ao nosso ponto de partida, mas com uma consciência muito maior e com as múltiplas experiências que terão balizado nossas vidas sucessivas como etapas necessárias.

A senda iniciática é uma imensa jornada de Amor, tal como a empreenderam todos os alquimistas, e somos todos, com diz a Ordem, alquimistas espirituais. É um imenso poema de Amor pela vida, nessa busca pelo Absoluto, uma jornada através dos planos de consciência, das estrelas também - por que não? – através do cotidiano que se torna nosso verdadeiro laboratório, para descobrir passo a passo a realidade crística do Amor e da Luz. Algo semelhante ao que disse Jacob Boehme quando afirmou que somos de natureza terrestre no âmago dessa natureza terrestre havemos de descobrir nossa existência celeste.

Sócrates e depois Platão, cada qual em sua época, ansiaram por estimular os homens a fim de revelar neles os traços de conhecimentos acumulados ao longo da jornada da alma, de modo que esses conhecimentos pudessem servir como fonte interior da verdade. A tradição iniciática, como fizeram Sócrates, Platão e muitos outros,apóia-se no fato de que as fontes de sabedoria, de amor e de conhecimento se ocultam nas profundezas do ser, e que são elas que se desenvolvem da maneira mais significativa, desde que lhes seja permitido expressarem-se totalmente. No mundo da psicologia contemporânea, numerosos são os que, aos poucos, admitem essa realidade, e cujas tentativas de modelos psicológicos e psicoterapêuticos de visão espiritual buscam responder às nossas necessidades modernas.

Edouard Schuré, m 1889, autor do Livro ‘Os Grandes Iniciados’, escreveu o seguinte capítulo sobre Pitágoras: “Será esta, segundo nós, a tarefa de fazer com que se venha a render às faculdades trancendentes da alma humana sua dignidade e sua função social, reorganizando-as com o auxilio da ciência e sobre bases universais, abertas a todas as verdades. Então, a ciência regenerada, de olhos abertos, alcançará essas esferas onde a filosofia especulativa vagueia de olhos vendados e tateando. Sim, a ciência se tornará clarividente e redentora, na medida em que nela crescerão a consciência e o amor à humanidade.”

A ciência com consciência e não mais a ciência sem consciência.

Então, a rosa, cuja importância história não requer maiores provas, permanece um autentico símbolo da maior consciência de ser e do ensinamento espiritual.

E o que melhor se pode desejar para a humanidade do século XXI do que esperar vê-la ampliar seu campo de consciência e sua capacidade de amor?

Uma ultima imagem simbólica para encerrar: nos manuscritos alquímicos dos séculos passados, a rosa foi muitas vezes denominada Flor dos Sábios, e nos seus casamentos místicos a rosa vermelha era atribuída ao Rei e a rosa branca à Rainha. Retenhamos em nossos pensamentos esta imagem da rosa como Flor dos Sábios e como símbolo de abertura da consciência.

A consciência é uma questão de qualidade e não de quantidade técnica conhecida, e a Flor dos Sábios se reconhece, claro, por sua qualidade....
_
[Texto de Jean-Pierre Clainchard]