8 de fev. de 2010

ASTROMITOLOGIA_A Ciência do Tempo, do Espaço e do Cosmo


Na linha do tempo das disciplinas cientificas, a astromitologia é um campo relativamente novo, mas em rápido crescimento. Esse campo de estudo dedica-se à exploração e análise dos principais mitos históricos como representações de ocorrências astronômicas, e à tentativa de explicar de que modo esses mitos foram adotados por povos antigos como revelações sobre o tempo, o espaço e o cosmo.

A astromitologia concentra sua atenção no vasto lapso de tempo desde o alvorecer da vida senciente até meados do século XVII d.C. Desde então a astronomia tem refletido nossa maneira de pensar, tal como é, baseado nas idéias de Newton e seus sucessores do Iluminismo. Na visão moderna, o cosmo é uma coleção impessoal de “coisas” a serem descritas e classificadas de acordo com sua massa, densidade, peso, cor e radiação de energia. Essas “coisas” são vistas ocupando um dado espaço numa estrutura de tempo relativo.Caracterizamos a nós próprios como amanuenses cósmicos, registrando [o melhor possível dentro dos limites de nossa percepção] as complexas operações de um sistema intricado e em constante fluxo. Tornamo-nos “espectadores” ao invés de participantes.

Tal não acontecia com o homem antigo, que se reconhecia como participante vital num universo orgânico.

Naqueles tempos antigos, o conhecimento cientifico era a esfera reservada ao sacerdócio, disponível apenas para os iniciados. A informação era quase sempre encoberta pelo manto mitológico e sua verdadeira mensagem ou significado era compreendida por uns poucos. Infelizmente, muitos historiadores científicos modernos freqüentemente repudiam esses mitos e verdades ocultas, considerando-os como singularidades de mentes menos sofisticadas. Isto provavelmente se deve à maneira como os cientistas e historiadores de hoje são educados para pensar de modo reto, linear e seqüencial. Isto bastaria se a história fosse uma seqüência clara e ordenada de eventos impressos como pegadas nas areias do tempo. Mas não é isto que acontece.

Tentando construir uma história da astronomia, esperamos apresentar o passado tão fielmente quanto possível. Baseamos nossa apresentação, tanto quanto possível, naquilo que acreditamos seres fatos, e apoiamos esses fatos em evidências bem definidas, tangíveis. Objetos como um tablete de argila com inscrições cuneiformes, da Babilônia, detalhando posições planetárias; uma carta estelar diagonal, pintada na parede de uma tumba no Egito; ou uma ‘clepsidra’ [relógio de água] ateniense, são muito mais fáceis de se identificar, classificar e posicionar num contexto histórico do que mitos como aqueles de um ‘dilúvio universal’; Horus trespassando com uma lança a esposa de seu irmão; ou Cronos mutilando Uranos – ainda que estes mitos sejam dessas mesmas três civilizações.

E, no entanto, os mitos têm os mesmos válidos direitos de serem incorporados à história da astronomia quanto os três itens materiais mencionados. Os três mitos contêm “idéias” astronômicas, enquanto os três itens são “formas” que expressam uma ideação anterior. Os historiadores modernos preferem basear suas apresentações primeiro nas “formas” ou artefatos, e mais tarde, quase que como uma reflexão tardia, explorar as idéias que estão por trás delas. E quando se torna necessário levar em consideração “meras idéias” – idéias em estado puro – muitos historiadores as rejeitam, caso elas não possuam correlação com uma “forma”. Sem objetos físicos que lhes dêem substância verificável, os mitos são com freqüência transladados da “ciência” para a “literatura”.

Nossos métodos modernos de comunicação e nossa maneira de pensar – linear e seqüencial – nos impedem de estabelecer uma conexão adequada com o mítico. Além disso, nossa abordagem “não-insensata” da ciência, com seu dedicado direcionamento para a abertura de novas vistas e sua onipresente orientação para o “agora”, simplesmente obliterou nossa capacidade de perceber prontamente, em primeiro lugar, a base sobre a qual se funda o “agora”. Raramente a mentalidade cientifica sonda com suficiente profundidade a forma mítica, de modo a discernir o subsistente conteúdo científico, oculto sob o manto dos mitos antigos. Como se pode ver, os historiadores em geral, e os astrônomos em particular, infelizmente têm sofrido de um caso avançado de miopia cultural.

A humanidade é filha do cosmo, na medida em que sua evolução segue o curso das leis naturais manifestas. Somos reflexos das leis operativas do cosmo, e estamos física e psicologicamente impressos pela natureza e as pressões naturais, às quais temos respondido com sucesso a fim de sobrevivermos neste mundo às vezes hostil. O homem primitivo aprendeu por observação e teve de se tornar um cientista natural pela mais prática das razões: ele tinha de aprender rápido e ‘lembrar-se’ do que aprendeu, ou morreria por ignorância.

De todos os fenômenos naturais, o céu estrelado com sua repetitiva regularidade era o mais conveniente para estudo. Enquanto outros eventos naturais alteravam-se ou passavam por ciclos de nascimento, vida, decadência e morte, o céu fornecia informação recorrente e intemporal, que impressionavam o homem, tanto física quanto psicologicamente. O céu fornecia o proeminente padrão que a humanidade escolheu para imitar e também elegeu como padrão básico para suas instituições sociais - e esta escolha não foi meramente a externalização de um processo interno. Ela foi a escolha ponderada d cientistas naturais, em sua lida com as pressões da sobrevivência.

O nascer e o pôr das estrelas, do Sol, da Lua e dos planetas, ao seguirem um padrão diário e anual ao longo do céu, fornecia eventos repetitivos, dos quais se derivava uma compreensão das leis naturais. O céu era o laboratório onde experiências recorrentes podiam ser realizadas. Qualquer estrela podia ser observada em relação a qualquer estrela, numa dada noite, e na noite seguinte a relação podia ser reavaliada. Após certo período de tempo, o conhecimento empírico delineava quais estrelas eram aparentemente imóveis ou “fixas” e quais eram “andarilhas” – planetas, que mudavam suas posições contra o plano de fundo ou das estrelas ficas.

O fenômeno celeste imprimiu-se no homem. O período claro do dia era um tempo para caçar e armazenar alimento; a escuridão da noite, um tempo para se esconder dos predadores noturnos. As variações climáticas das quatro estações, por sua vez, incitava o homem à plantação de grãos, à criação de animais, à estocagem da colheita e à busca de proteção contra o inverno. As atividades espelhavam o curso observável da natureza.

As luzes divinas da esfera celeste pareciam compelir ambos, natureza e homem. Com o tempo, essas forças percebidas vieram a ser reverenciadas como deuses, e as ações desses deuses tornaram-se a base para os mitos e as teologias.

O corpo de tradição [fábulas, lendas, composições, folclore], a que comumente chamamos “mito” é um grande armazém de informações. Além disso, contém alguns dos mais profundos e abstratos conceitos e idéias sobre o macrocosmo.

Mitologia é história porque recorda eventos, entretanto não é história na acepção ordinária da palavra, pois as personagens e situações que ali figuram podem nunca ter existido. Mitologia é ciência porque investiga e exprime a natureza e sua origem, embora em sua personificação e deificação da natureza a mitologia não seja ciência, tal como esta é normalmente definida.

A astromitologia procura estabelecer uma ponte entre o homem e o cosmo. Esta ponte é o processo simbólico de que o mito é a principal expressão. E a expressão mitológica é usada pelo todo da humanidade para exprimir o simbolismo que reside em nossa herança psicológica coletiva – uma herança adquirida através de séculos de exploração e contemplação ativas, realizadas pelo cientista natural que habita dentro de todos nós.
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[Texto de: Charles C. Warren]

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MITO E FATO na CIVILIZAÇÃO CLÁSSICA
As linguagens cientificas das antigas civilizações eram suas mitologias, e todos os “fatos” eram dispostos em formas antropomórficas. Assim:

MITO: O deus romano vulcano surpreende sua esposa infiel. Vênus, num encontro com Marte, e os prende em uma rede.
FATO: Vulcano [ com muitos dos atributos de sua contraparte grega, Cronos, deus do tempo], representando o Tempo, prende uma conjunção dos planetas Vênus e Marte em uma rede, referindo-se ao aglomerado estelar chamado Hiades, localizado na constelação de Touro.

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MITO: Faetonte, filho deus-Sol, pega às escondidas a carruagem solar de seu pai para se divertir, mas perde o controle dos fogosos corcéis e se aproxima demasiadamente da Terra, ameaçando queimar todo mundo. No momento crucial, Zeus [rei dos deuses] derruba Faetonte, salvando o mundo, permitindo que a carruagem solar retorne à sua rota normal e segura através do céu.
FATO: A queda de Faetonte marca o fim da helênica Era de Ouro dos deuses, a grande era mundial quando a Via Láctea [ligando Gêmeos e Sagitário] coincidia com as posições do Sol equinocial [no Hemisfério Norte]: equinócio vernal em Gêmeos, equinócio outonal em sagitário, período em torno de 6000-6400 a.C.

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MITO:Zeus, desgostoso com o banquete canibalístico que foi lhe servido por Licaon, vira a mesa em sua fúria.
FATO: Zeus, virando a mesa, pôs fim à Era Cósmica seguinte – a Era de Prata – quando Touro e Escorpião tomaram o lugar de Gêmeos e Sagitário, na regência dos equinócios. A mesa é uma metáfora para o Mundo, segundo a compreensão dos antigos; um mundo que incluía não apenas nossa Terra, mas os domínios do espaço, abrangendo as constelações zodiacais e também os planetas que pareciam se mover contra esse fundo estelar. O tampo da mesa – a mítica Terra “achatada”, equivalente ao mundo expandido – é o reino dos seres viventes, incluindo os deuses [Sol, Lua e os cinco planetas visíveis] e a humanidade. As pernas da mesa representam os quatro pontos cardeais da Terra – norte, leste, sul e oeste – e as quatro posições do Sol que delimitam as fronteiras desse mundo metafórico, que são os equinócios de primavera e outono, e os solstícios de verão e inverno.






6 de fev. de 2010

Os Teóricos da Utopia


Entre os mais antigos sonhos da sociedade, encontramos o que costumamos chamar Utopia. Teoricamente, uma utopia é qualquer lugar onde a cortesia humana reina soberana e o idealismo nobre supera todas as qualidades grosseiras da natureza do homem. Quando o homem, pela primeira vez, se tornou consciente do seu próprio comportamento e das relações entre seus semelhantes, descobriu que certas condutas ou atos de seus companheiros eram prejudiciais à própria coletividade. Podemos dizer que, em tal época, surgiram os rudimentos dos princípios éticos e morais.

Em seu caráter específico, a moral é, fundamentalmente, utilitária. Entretanto, o seu fundamento é duplo. Primeiro temos o impulso inerente para fazer o que é ‘certo’. Este ‘certo’, na sua interpretação primordial, não era o impulso para fazer o BEM ou evitar o MAL. De fato, tal conceito precedeu, mesmo, o dos vocábulos ‘bem’ e ‘mal’. Os homens desejam empenhar-se numa atividade que tenha aceitação coletiva, isto é, tudo que contribua para o bem-estar geral de si mesmos e dos outros. Psicologicamente, então, fazer o certo é não se opor ao curso de ação no qual os homens parecem vislumbrar supremacia de sua espécie. A chamada ‘consciência’, em seu estado primitivo, é o impulso para fazer o Bem.

O outro aspecto da moral se relaciona com o primeiro – isto é, o desejo de fazer o certo – mas, neste caso, o certo está formado pelos costumes da sociedade a que pertence e aos tabus e preceitos de costumes estabelecidos. Considerando que na maioria das sociedades as normas pelas quais são regidas provêm de uma fonte religiosa, tal como o clero, a elas [leis e regulamentos] se dá uma autoridade espiritual ou implicitamente divina.

Analisando-se a maioria dos códigos de ética, verificamos que os mesmos, em sua base, apresentam um aspecto prático, utilitário. Em outras palavras, mesmo se neles não houvessem preceitos de ordem religiosa, ainda assim os homens veriam a desvantagem prática para a sociedade de condutas tais como o homicídio, o roubo, o estelionato, o adultério e o abuso de incapazes.

As leis de Moisés e o código de Hamurabi, antigo Rei da Babilônia, incluíam preceitos morais, decretos divinos, para coibir condutas que a sociedade havia verificado ser prejudicial ao seu bem-estar material. Por exemplo, constituía pecado a ingestão de certos alimentos apenas porque, do ponto de vista higiênico, tal dieta não era sadia. O fato de se atribuir tais códigos a uma fonte divina, deu-lhes maior eficácia do que se fossem atribuídos meramente ao Homem; e, por conseguinte, maior obediência lhes foi assegurada.

Entretanto, os homens verificaram que tais códigos de conduta eram de difícil observância, sob as condições de vida existentes. Certos hábitos dão margem a tentações que provocam violações de preceitos morais e éticos. Conseqüentemente, se as emoções e paixões não são disciplinadas com propriedade, não poderemos evitar uma demonstração qualquer de cobiça, inveja e ódio. Força ou autoridade mal colocada – ou melhor, tirania – resulta em ódio fumegante no coração dos homens, a conspirar uns contra os outros. Desigualdades de oportunidade e direitos criam a inveja e a perfídia.

Assim, desde as primeiras civilizações viemos raciocinando no sentido de que as sementes da justiça devem ser plantadas num solo fértil, para que os homens vivam uma existência digna e nobre. Devemos escolher um ambiente e prescrever um meio de vida que possa promover uma transição completa nas relações humanas, ou seja, uma UTOPIA. Encontramos nos “Diálogos de Platão” uma das primeiras utopias, o “Timeus”. Ali se relata um conto segundo o qual um sacerdote egípcio falara a Sólon, o grande estadista ateniense, a respeito de um poderoso império que existira nove mil anos atrás, no Oceano Atlântico.

“Tal poderio advinha do Oceano Atlântico, pois, naqueles dias, este oceano era navegável; e havia uma ILHA situada defronte dos estreitos que vós denominais de Colunas de Hércules...Nesta ILHA, havia um grande e maravilhoso império que dominava não só a própria ILHA, assim como várias outras e determinadas regiões continentais...”.

Os árabes, também, possuíam lendas a respeito de um paraíso terrestre, uma UTOPIA, no Oceano Ocidental ou Atlântico. Tal paraíso corresponde à ATLÂNTIDA referida na obra de Platão. Também é interessante ler o relato de Plutarco sobre a vida ideal em Esparta, sob o regime de Licurgo. Isso tudo eram sonhos onde os homens concebiam uma vida isenta de frustrações, tentações e frivolidades da sua existência normal e com todas as recompensas e virtudes de um paraíso. Mais tarde, haveria de aparecer, ainda, a renomada “ UTOPIA de Sir Thomas More [1566] e também a Nova Atlântida, de Sir Francis Bacon.”

CONCEITOS MODERNOS_
Hoje em dia defrontamo-nos com histórias de novas utopias distantes, remotas no espaço e tão românticas como as reivindicadas, pelos antigos, para a Atlântida. Os entusiastas da nave espacial e simpatizantes dos Discos Voadores, em grande parte da sua literatura e nas palestras públicas proferidas por alguns dos seus líderes, sustentam a existência de utopias em planetas remotos. Tais artigos e conferencias aludem a comunicações com essas inteligências celestiais. Os contatos, segundo se diz, seriam realizados pela conversação direta com os viajantes espaciais que teriam aqui aterrisado, ou, por algum misterioso encontro mental, através do espaço, esses visitantes da Terra, vindos de planetas do nosso sistema solar ou de algum outro, têm a missão de descrever, pessoalmente, aos terrestres, a maneira pela qual vivem.

Somos induzidos a acreditar que essas civilizações dos outros mundos não estão, apenas do ponto de vista tecnológico, tremendamente adiantadas sobre as nossas realizações terrenas. Também são grandes em comparação com a nossa espécie de civilização, nos aperfeiçoamentos de ordem sociológica, moral e ética. Contudo, é interessante notar que as descrições dessa utopias espaciais estão expressas em termos de valores que são feitos para transcender condições em que os humanos pensam como sendo defeitos, nas próprias grandes civilizações extraterrestres. Em outras palavras, é estranho que se diga que os seres desses planetas tenham aperfeiçoado um método de vida transcendental, mas que não tenha relação com o nosso.

Tal semelhança está em que o povo da UTOPIA ESPACIAL daria a entender ter, deliberadamente, procurado corrigir, em algum lugar remoto, todas as falhas de pensamento e ação em sua maneira de viver, das quais ainda somos portadores. Esses homens espaciais possuem uma sociedade que não é revolucionariamente diferente da existente na Terra, mas, ao contrário, apenas de caráter corretivo. Neles, então, a utopia se encaixa numa concepção possuída pelos terrestres, a respeito daquilo que deva ser uma UTOPIA.

Não estamos preocupados com a verdade, falsidade ou mesmo a probabilidade de que tais histórias sobre a vida em outros planetas tenham sido reveladas pelos seus respectivos habitantes. O que é de interesse é que os humanos que descrevem as UTOPIAS desses planetas estão, aparentemente, muito influenciados pelos seus próprios fundamentos sociais, políticos, econômicos e religiosos.

Estão fazendo com que as respectivas concepções a respeito de um povo superior do espaço e de sua maneira de vida obedeçam a um ideal que nós, os terrenos, afagamos com carinho. Um ideal nascido da consciência dos elementos inferiores na estrutura da própria conjuntura social terrena e dos tempos por que passa a raça humana.

Quais são, na sociedade, os males de que os homens poderiam se livrar? Que tipo de conexão ou comportamento imaginam como uma UTOPIA capaz de impedir a reincidência dos males e transtornos por que agora passam? Busquemos uma resposta através dos olhos de alguns dos que têm emitido TEORIAS a respeito de um Estado ideal, a UTOPIA ou paraíso sobre a Terra. Desigualdade e diferença de classes sociais tem desempenhado um papel destacado na descrição da vida, na utopia. Alguns desses paraísos concebiam a segregação como sendo essencial para a felicidade a ser desfrutada numa utopia. Outros, porém, insistiam na dessegregação como necessária para a harmonia entre os homens.

Thomas More pensou numa comunidade de cerca de quatro milhões de pessoas. As relações familiares não deviam ser perturbadas. Não devia haver distinções quanto aos serviços a serem executados. Nem, tão pouco, classes privilegiadas de artesões, nem classe permanente de trabalhadores subalternos. Nessa sociedade ideal, todas as pessoas, a seu tempo, deviam participar das várias tarefas. O trabalho agrícola era considerado o mais árduo; mas dele todos deveriam participar mediante um sistema de rodízio. O povo elegia os superintendentes das suas tarefas. Aparentemente, a teoria do plano era que nenhuma pessoa poderia assumir uma atitude sobranceira com relação à sua tarefa e, assim, provocar a ira daqueles que estivessem fazendo algo menos complexo ou árduo. Por conseguinte, sustentava Thomas More que a hierarquia de classes era um fator que contribuía para a dissensão em qualquer sociedade.

Para evitar os parasitas sociais e o mal deles decorrente, advogava Thomas More a idéia de que, na sua utopia, todas as pessoas deveriam exercer as suas tarefas na presença dos outros. Conseqüentemente, “não poderia haver pessoa preguiçosa, já que seria observada pelos outros”. Segundo a teoria econômica de More, se todas as pessoas trabalhassem, não haveria privações nem, tão pouco, cobiça. Tudo depende, entretanto, de como se deve interpretar a palavra “privação”. Deve ser entendida como uma necessidade, ou um desejo inqualificável?

Há os apetites naturais que são saciados pelo fator quantitativo. Existem, porém, outros desejos que jamais são satisfeitos, isto é, jamais são integralmente atendidos como, por exemplo, a cupidez própria da natureza de alguns homens ao achar prazer na posse, na acumulação, sejam elas necessárias ou não, para a sua subsistência. Tais homens sempre hão de desejar exceder, em alguma coisa, os seus semelhantes, não importando a quantidade que cada pessoa possa adquirir. Homens de tal espécie jamais conheceriam a felicidade num Estado em que a cada um provê as suas necessidades de maneira equânime.

Platão era um aristocrata, oriundo de família rica e distinta. Em sua República Ideal pouca consideração dispensou aos princípios econômicos. Ele e sua família tinha consideráveis posses. Jamais souberam o que fosse privação. Outros contribuíam para a satisfação de suas necessidades, pelas quais pagavam. Seus esforços eram intelectuais. Os intelectuais seriam os filósofos, a classe mais alta m seu esquema utópico. Deviam ser firmes, inexoráveis, mas justos no exercício do comando sobre as outras divisões da sociedade, tais como os agricultores, artesões e soldados. Na realidade, no fundo mesmo, Platão reconhecia e aprovava o trabalho escravo, sistema este que vigorava na sociedade grega. Platão proclamou para a sociedade uma hierarquia definida de classes, a servir de meio para a consecução de um Estado pacifico e Feliz. Vemos, portanto, que Platão, tal como muitos outros no passado e também no presente, tinham pontos de vista restritos pelas respectivas épocas e ambientes.

Para os TEÓRICOS, assim como para muitas seitas religiosas de hoje, era óbvio que as crianças constituíam a base sobre a qual suas idéias deviam ser estruturadas. Platão sustentava que as crianças deviam ser educadas pelo Estado. Não se lhes devia dizer quais eram os seus pais, nem deveria haver distinção de berço. Todas as crianças deviam ter a mesma posição social. Não deveriam ser influenciadas pelas vibrações dos hábitos paternos, fossem eles bons ou maus. Sustentava-se que a uniformidade da instrução estatal haveria de formar homens de caráter forte tornando-os mais tratáveis e responsáveis dentro das respectivas classes sociais.

Thomas More não sugeria, na UTOPIA que expôs, o rompimento dos laços familiares. Quando uma família possuísse maior número de crianças do que pudesse sustentar, o excesso deveria ser adotado por aquelas que não tivessem filhos. Não haveria, pois, necessidade de se perturbar a tranqüilidade da UTOPIA. O sistema escolar paroquial da Igreja Romana e outras endossam a instrução da mentalidade infantil, a fim de perpetuar o dogma e a hierarquia religiosos. Pelo estabelecimento de certos conceitos e preceitos na mente de uma criança, em idade de formação, criavam raízes subconscientes que viriam a se constituir em hábito moral. Mediante tal definida impressão, constituem a ‘consciência’ privada, quando o individuo se torna adulto. Embora mais tarde possa estar sujeita, na sociedade, a pontos de vista antagônicos, a instrução infantil, certa ou errada, torna-se a influência dominante. Isto proporciona apoio ao sistema social ou religioso, seja ele, também, certo ou errado.

Francis Bacon, em sua Nova Atlântida, idealizava uma utopia em que a ciência seria a chave para a felicidade universal. Em sua obra, imaginava uma ilha onde os homens, livres das perturbações e preconceitos da sociedade, se orientavam na Senda do Conhecimento. Prosseguia dizendo que a maioria dos instrumentos que os homens haviam produzido eram descobertas acidentais e que muito mais poderia ser realizado se a humanidade metodicamente buscasse, exclusivamente, o CONHECIMENTO.

Francis Bacon, mediante a fala do Segundo Conselheiro, um dos personagens da sua obra, concebe um plano definido.

“Confiarei a Vossa Alteza quatro principais trabalhos e monumentos. Primeiro, organizar a mais perfeita e generalizada biblioteca que reunirá todo o conhecimento que o Homem até agora foi capaz de transferir para livros de real valor, sejam eles antigos ou modernos, impressos ou manuscritos... Em seguida, um maravilhoso jardim espaçoso, contendo todo e qualquer vegetal que o sol de diversos climas da terra faz surgir...neste jardim devendo haver compartimentos para acomodar todos os animais raros e enviveirar todos os pássaros raros, com dois lagos adjacentes, um de água doce, o outro, de água salgada, para nele habitarem os peixes mais variados. E então tereis, em pequena escala, um modelo privado da natureza universal...Terceiro, um enorme compartimento, bem apropriado, para conter tudo que mão do homem, por arte ou engenho esmerados, tornou raro, em forma, movimento ou matéria-prima...Quarto, uma residência silenciosa, tão provida de engenhos, instrumentos, fornos e recipientes quanto pode ser um alojamento próprio para uma pedra filosofal [laboratórios]”.

Plutarco, em sua biografia de Licurgo, descreve a qualidade utópica da antiga Esparta sob o governo daquele legislador. Licurgo eliminou a cobiça mediante a adoção de um estratagema. Determinou a requisição de todas as moedas de ouro e prata. Em troca, emitiu moeda feita de ferro, ‘cujo peso e quantidade’ eram de muito pouco valor.

“Qualquer acúmulo considerável de tal dinheiro importava em se ter que dispor de um grande espaço de armazenagem, sendo, outrossim, excessivamente difícil o seu transporte”. Fazendo isto, diz Plutarco: “ baniu-se, então, de Esparta, um grande número de vícios.” De modo particular, tornou-se difícil roubar tal moeda, de sorte que cessaram os crimes contra o patrimônio. Também o suborno foi eliminado em virtude de ser tal moeda de difícil ocultação. E considerando que o peso e o tamanho do dinheiro dificultaram o seu acúmulo, diz adiante que: “O rico não tinha vantagens sobre o pobre”. Outro vício que, de igual modo, se eliminou por força desse dinheiro feito de ferro, foi o da procura louca dos prazeres da carne.

Licurgo também determinou que todas as pessoas fizessem as suas refeições em comum, partilhando do mesmo pão e da mesma carne, de modo que os homens não engordassem demasiadamente, em seus lares, “como se fossem brutos gananciosos e se tornassem enfraquecidos pelo vício e excessos de qualquer natureza.” A atuação de Licurgo também se fez sentir na remoção do medo e da superstição relativos aos mortos. Exigiu-se que o povo sepultasse os seus mortos dentro da própria cidade “e mesmo ao redor dos seus templos”. Isso, para que se tornassem acostumados a tais espetáculos. Assim, não teriam medo de tocar um cadáver ou acreditar que o mesmo pudesse ser profanado, quando passassem sobre uma sepultura.

AUTO-ANÁLISE
Qual a vantagem de uma UTOPIA TEÓRICA?
Psicologicamente, constitui uma auto-análise e purificação. Aquele que concebe uma UTOPIA tem consciência daquilo que acredita serem práticas malévolas e insensatas. Não apenas deseja transcender os prazeres que na ocasião usufrui da vida, mas está vivamente consciente das coisas e circunstâncias que parecem lhe impedir de atingir um grau de felicidade ainda maior. A teoria racional utópica expõe um plano para evitar os elementos que parecem tornar indesejável a presente sociedade.

Os que procuram realizar uma sociedade ideal, no mundo atual, são tão realistas como idealistas. Aqueles, entretanto, que apenas imaginam uma UTOPIA, em alguma terra remota ou noutro planeta, são escapistas. É de pouso valor para os entusiastas do espaço conjeturar a respeito de uma utopia em Marte, Saturno, Vênus, ou algum outro planeta. É necessário, primeiro, que reconheçam as falhas de suas próprias naturezas e procurem retificá-las. Do contrário, contaminariam qualquer utopia neste ou noutro mundo que porventura pudessem visitar.

Jamais há de haver uma UTOPIA onde todos os homens e mulheres experimentem a felicidade de igual modo. Felicidade é prazer, e os prazeres são variados, tais como os do corpo, da mente e do espírito. São também relevantes para a inteligência, sistema nervoso, natureza emocional e experiências do ser humano. Pelo aperfeiçoamento total da individualidade e adiantamento da sociedade, podemos assegurar, a cada indivíduo, alguma espécie e grau de felicidade. Entretanto, tal felicidade somente é apreciada pela experimentação, até certo ponto, do seu estado oposto, ou seja, a irritação e a angústia. Se a felicidade for a satisfação de certos desejos, necessariamente, em tais desejos deve existir, primeiro, uma irritação, cuja remoção dá lugar à satisfação.
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[Texto de R.M.L]