27 de jan. de 2010

O QUE HÁ DE VERDADE SOBRE A TEORIA DA TERRA OCA


A idéia de que a Terra possui um buraco em seu interior, onde hospedaria uma civilização subterrânea, não é nova. Em várias religiões a crença no inferno é uma expressão disso. O primeiro homem a tentar provar essa teoria foi o norte-americano John Cleves Symmes, que acreditava que nosso planeta fosse constituído por uma série de esferas concêntricas, com buracos de 6.400 km de extensão, nos pólos Norte e Sul. Sem se importar em parecer ridículo perante a comunidade cientifica. Symmes escreveu, deu palestras e fez um vigoroso ‘lobby’ com o objetivo de arrecadar dinheiro para uma expedição ao interior dos pólos, onde acreditava que conheceria criaturas intraterrestres e daria início a um intercâmbio e até comércio com elas. Desde então, ele é lembrado em todo o mundo como pioneiro da teoria, tendo, inclusive, servido de inspiração para o livro de ficção cientifica ‘A Narrativa de Artur Gordon Pym’ do escritor Edgar Allan Poe [Editora L&PM,1997].

Symmes, como precursor da tese de que seres estariam habitando o interior da Terra, encorajou gerações de pensadores a imaginar uma nova geologia terrestre e a sonhar com uma fabulosa raça que, secretamente, estaria dividindo o planeta com os seres da superfície. O primeiro a ser infectado por suas idéias foi seu filho Americus, que manteve contato com outros discípulos dessa teoria e, em 1878, publicou uma antologia das palestras de seu pai. Anos antes, em 1871, o médium M.L.Sherman já havia publicado ‘The Hollow Clobe’ [O Globo Oco, ainda sem tradução no Brasil], baseado em suas supostas comunicações com os mortos. Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, também escreveu sobre o tema Terra Oca em dois trabalhos clássicos:Ísis sem Véu [Editora Pensamento, 1995] e A Doutrina Secreta [Idem, 1979]. Frederick Culmer publicou ‘The Inner World [O Mundo Interno, ainda sem tradução no Brasil] e, exatamente 20 anos depois surgiu o Livro ‘The Phanton of the Poles [ O Fantasma dos Pólos, idem], de Willian Red.

Ainda sobre à suposta existência dos intraterrestres podemos encontrar, desde 1931,o trabalho de um proeminente membro da Ordem Rosacruz, Spencer Lewis, a obra ‘Lemúria o Continente Perdido do Pacífico’ [Biblioteca Rosacruz, 1945]. Nela, o autor discorre sobre os sobreviventes de uma raça submersa no antigo continente de Lemúria, que estariam morando no interior do Monte Shasta, no norte da Califórnia. A hipótese já havia sido aventada no século 19 pelo biólogo Ernest Hackel, segundo o qual Lemúria era o lar hipotético do ‘Homo Sapiens’ orignal. Contudo, não existe evidência geológica ou biológica de que tal lugar tenha realmente existido. Lewis também acredita nos mistérios que envolvem aquela região. “ Há muitos anos, era bastante comum ouvir histórias no norte da Califórnia sobre estranhas pessoas que pareciam surgir de florestas da região, e que corriam de volta para se esconder se vissem alguém, Ocasionalmente, um desses seres ia até as pequenas cidades para trocar pó de ouro por aparelhos modernos”. Ele ainda levou seus seguidores em expedições à montanha a fim de encontrar a colônia secreta lemúrica, o que garantiu não ser difícil, pois seus habitantes teria características especiais, como cerca de 2m de altura. Teriam também grandes testas e uma espécie de terceiro olho, com a finalidade de perceber uma outra realidade, supostamente mais próxima de Deus.

MONTE SHASTA:
Todas essas lendas persistiram ao longo dos tempos, alimentadas por vários estudiosos do desconhecido e pesquisadores do fenômeno UFO. Numa publicação de 1993, um militar norte-americano aposentado e supostamente conhecedor de vários segredos ufológicos declarou que o Monte Shasta teria uma área muito ‘carregada’ energeticamente, o que impediria que forças negras penetrassem em qualquer lugar próximo a ele. Segundo o militar, que se identifica apenas por Comandante X, grupos de lemurianos, seres espaciais e elementais da natureza trabalhariam em conjunto no local, meditando diariamente no subsolo, zelando pelo planeta e por seu lar sagrado, salvos de ataques psíquicos e mentais. Já o ufólogo da Califórnia Bill Hamilton relatou ter conhecido uma jovem loira muito bonita, de olhos amendoados e pequenos dentes, que teria passado por uma experiência surpreendente. Após identificar-se como Bonnie, a moça afirmou ter nascido em 1951 numa cidade chamada Telos, construída dentro de uma caverna artificial, à cerca de 1,5 km do Monte Shasta. A jovem teria dito a Hamilton que, juntamente com sua amiga e um colega telosiano, viajara através de tubulações e visitara outras cidades subterrâneas, habitadas por sobreviventes de Lemúria e Atlântida. Um dos tubos levaria até uma cidade localizada no Brasil, no Estado de Mato Grosso. O pesquisador declarou que os lemurianos são membros de uma espécie de federação cósmica que os liga às inteligências extraterrestres.

Já no final do século 19, uma religião baseada nas doutrinas da Terra Oca surgiu sob o comando do norte-americano Cyrus Teed. Ele afirmava ter sido contatado por ninguém menos que a Mãe do Universo, um ser mítico que lhe teria dado a importante missão de salvar o mundo. Fundou uma comunidade utópica, localizada em Fort Myers, na Flórida, e dedicou-se ao que batizou de ‘koreshanidade’, segundo a qual:”o universo seria uma célula, um globo oco. O corpo físico disso é a Terra, e o Sol, o centro”. Para Teed, nós vivemos dentro da célula, assim como o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas. Noutras palavras, o universo estaria dentro e fora. Menos radical que ele: Marshal B. Gardner escreveu, em 1913, o livro o Journey to Earrth’s Interior [Jornada ao Centro da Terra, ainda sem tradução no Brasil], retomando o modelo exposto por John Cleves Symmes. Para Gardner haveria uma espécie de sol no interior do planeta, com 183 m de diâmetro. Ele proporcionaria ao mundo subterrâneo um clima prazeroso, permitindo aos seus habitantes viver no esplendor tropical. Neste período, o conceito da Terra Oca, considerado fisicamente impossível para os cientistas, tinha convencido por completo alguns ocultistas.

Outra grande figura do ocultismo a defender a teoria foi Guy Warren Ballard, que, sob o pseudônimo Dodfré Ray King, em 1930 escreveu ‘Unveiled Mysteries [Mistérios Revelados, idem], um livro sobre sua extraordinária experiência. O autor conta que, quando estava no Monte Shasta, um estranho indivíduo lhe ofereceu uma bebida cremosa. Após bebê-la, Ballard pôde perceber que o homem se tratava de Saint Germain, um mestre imortal que teria vivido no Tbete. Ballard disse que se encontrou com o santo muitas vezes e, em sua companhia, fez várias viagens fora do corpo pela Terra, explorando um magnífico mundo cientifico de maravilhas espirituais. Ele teria, ainda, conhecido extraterrestres que viviam abaixo da superfície. Sobre as montanhas de Grand Teton, no Estado norte-americano de Wyoming, Ballard afirma te assistido a uma conferência com outros 12 mestres venusianos, contando histórias similares em seu livro seguinte, ‘The Magic Presence’ [A Presença Mágica, idem].

SERES BENEVOLENTES:
Juntamente com sua esposa Edna e o filho Donald, ele viajou pelos Estados Unidos e concedeu palestras para muitas platéias, que mais tarde juntaram-se ao seu grupo de ocultismo. Até o famoso autor Richard Sharpe Shaver aparecer, quase todos que defendiam a existência de seres abaixo da superfície terrestre acreditavam que eles eram benevolentes, avançados e que queriam ser conhecidos pelos humanos. Shaver, entretanto, tinha outra história para contar. Ele ganhou notoriedade após a Segunda Guerra Mundial como autor de uma série de livros e artigos sobre ficção científica. Especializou-se em abordar supostas avançadas culturas pré-históricas que teriam construído cidades em cavernas da crosta terrestre. Shaver depois defendia a tese de que algumas de tais raças teriam abandonado a Terra para viver noutros planetas. Pode-se dizer que ele defendia uma versão mais tecnológica do inferno! Sua história começou em setembro de 1943, em Chicago, quando Ray Palmer, o editor da revista ‘Amazing Stories [Histórias Fantásticas], recebeu a carta de um misterioso leitor que afirmava conhecer o alfabeto lemuriano. Tratava-se justamente de Richard Shaver, que após ter seu relato publicado na edição de janeiro de 1944 daquela publicação, começou a se corresponder regularmente com seu editor.

Ele contou a Palmer sobre seus encontros com criaturas demoníacas, conhecidas como ‘deros’, que ele dizia serem robôs que viviam nas profundezas. Só que não seriam exatamente robôs, no sentido literal da palavra. Segundo Shaver, robô era simplesmente uma designação dada às raças produzidas através da engenharia genética, que os titãs – habitantes gigantes de Lemúria - haviam criado. Alguns deles,com mais de 90m de altura, teriam vivido na superfície terrestre há 12 mil anos, quando foram forçados a deixar o planeta. Imaginação fértil? Sem dúvida, como se descobriria depois. Mas as histórias de Shaver tiveram grande impacto sobre os defensores da teoria da Terra Oca. Ele dizia ainda que a maioria dos ‘deros’teriam ido para o interior das cavernas para evitar a radiação mortal emanada pelo Sol. Entretanto, determinados resíduos genéticos dos titãs teriam permanecido na superfície do planeta, acostumando-se a ela e tornando-se a raça humana existente hoje. Os ‘deros’eram então considerados seres degenerados que teriam tido acesso à tecnologia dos titãs, utilizada para atingir o máximo de prazer sexual durante longas orgias. Eles também usavam suas máquinas em sessões de rapto e tortura de seres terrestres, ou ainda na captura de ‘teros’, seres subterrâneos benévolos.

RECORDANDO LEMÚRIA:
Entre 1945 e 1948, a ‘Amazing Stories’ e sua companheira ‘Fantastic Adventures [Aventuras Fantásticas]publicaram excitantes e aterradores contos sobre os supostos mundos subterrâneos. Muitos desses artigos apareciam assinados por Shaver, mas era Palmer quem os escrevia. O primiro, ‘Recordando Lemúria’, saiu na edição de março d 1945, trazendo em sua introdução vívidas memórias de Shaver de quando era chamado Mutan Mion e teria vivido há milhares de anos em Sub Atlan, uma das grandes cidades de Lemúria. Como conseqüência, centenas de cartas chegaram à redação da revista, enviadas por leitores que também afirmavam ter se encontrado com os ‘deros’. Isso fez com que Chester S. Geier, um dos consultores mais regulares da ‘Amazing Stories’, lançasse o Clube Shaver do Mistério para lidar com as cartas recebidas e investigar a existência dos ‘deros’ e ‘teros’. Palmer e Shaver tinham causado um movimento e tanto na década de 40.E tal movimento não cessou até hoje.

Mas nem todos os leitores ficaram satisfeitos com o material divulgado na revista, a maioria do qual visivelmente fantasioso. Convencidos de que algumas histórias que estavam sendo publicadas não passavam de meras fraudes, voltaram-se contra o movimento, fazendo com que, em 1948 a ‘Amazing Stories’ cancelasse a série de artigos de Shaver. Antes disso, outro leitor da revista que afirmou ter se encontrado com um ‘deros’ e conhecido os mundos subterrâneos foi Maurice Doreal. Assim como Ballard, Doreal disse que esteve com mestres ascensionados habitantes do Monte Shasta, mas garantiu que os seres não eram de Lemúria, e sim de Atlântida. Segundo ele, os atlantes e os lemurianos viveriam em grandes cavernas no centro da Terra, de onde saíam regularmente ou eram visitados por seres de outros sistemas planetários. Seu grupo de ocultismo, a Fraternidade do Templo Branco, segundo ele, teria sede na Constelação das Plêiades e estaria envolvido numa complexa guerra interestelar e diplomática, detalhada por Doreal em seus manuscritos.

Há ainda relatos da existência de uma suposta metrópole extraterrestre chamada Arco-Íris, que estaria abandonada sob o gelo, segundo declarou W.C Hefferlin. Embora seus habitantes tivessem saído do lugar há muito tempo, deixaram lá sua avançada tecnologia. No entanto, o relato de Hefferlin não impressionou as pessoas e ele acabou saindo de cena por um ano, reaparecendo depois com o apoio do prestigiado grupo de ocultismo Bordeland Sciences Research Association [BSRA]. Em várias publicações da BSRA, Hefferlin e sua esposa Gladys relataram que os habitantes de Arco-Íris eram uma raça que povoou o planeta Marte, fugindo de lá para escapar de um tal Povo Cobra. Quando a atmosfera do planeta tornou-se irrespirável, eles mudaram-se para a Terra e se fixaram na Antártica, que naquela época era um paraíso tropical. Os marcianos teriam fundado sete grandes cidades, sendo Arco-Íris a maior de todas. Infelizmente, o tal povo Cobra teria descoberto onde eles se encontram e os atacou, o que fez com que a Terra saísse de seu eixo, tornando a Antártica um lugar gelado.

A existência de Arco-Íris foi novamente aventada em 1951, numa publicação de Robert Ernest chamada ‘The Subterraneam World of Agharta [O Mundo Subterrâneo de Agharta, ainda sem tradução no Brasil], e novamente em 1960, no Rainbow City and the nner Earth People [A Cidade Arco-Íris e o Povo do Centro da Terra, idem], de Michael Barton. Este último autor também reviveu o mistério de Shaver, relatando que venusianos e mestres sublimes estariam aliados numa guerra contra os ‘deros’. Barton ainda afirmou ter recebido comunicações psíquicas do então falecido Marshall Gardner, que teria endossado seu livro entusiasticamente. Um próximo passo dessa saga, desde os anos 40, a teoria da Terra Oca passou gradativamente a incorporar elementos do nazismo, visivelmente influenciada por autores de origem alemã.

SIMPATIA PELO NAZISMO:
Alguns seguidores mais ferrenhos e autores que defendem a tese de que o planeta abriga uma civilização interna mostram não somente uma fascinação pelo tema, como também uma simpatia assumida pelo nazismo. A exemplo disso temos o canadense Ernest Zundel, que, junto a vários grupos neonazistas, afirmava que o holocausto nunca aconteceu. No livro UFOs, Nazi Secret Weapons? [UFOs, Armas Secretas Nazistas, ainda sem tradução no Brasil] ele afirmou que, quando a Segunda Guerra Mundial acabou, Adolf Hitler e seu último batalhão de soldados embarcaram num submarino e foram para a Patagônia Argentina. Lá eles teriam estabelecido uma base, dentro do Pólo Sul, para manobras e pouso de avançados discos voadores. Mas, segundo Zundel, quando as forças aliadas e os norte-americanos souberam o que estava acontecendo, despacharam para a região o almirante Richard E. Byrd e uma expedição científica – na verdade, uma espécie de exército – para atacar a base nazista. No entanto, Byrd e seus homens não foram páreos para as armas dos alemães.

Para Zundel, ainda, os nazistas eram representantes na Terra de civilizações subterrâneas, o que seria o real motivo de crerem em sua superioridade racial. Em 1978, com a publicação de ‘Secret Nazi Polar Expeditios’ [Expedições Polares Secretas Nazistas, idem], ele pediu financiamento para sua própria expedição ao Pólo Sul, em que planejava alugar um avião com uma enorme suástica pintada na fuselagem. Delirantemente, ele dizia que o símbolo não somente serviria para mostrar sua ideologia, como também permitiria que os habitantes do centro do planeta reconhecessem que era um amigo. Quase ao mesmo tempo, uma expedição ao outro pólo, o Norte, estava sendo planejada por Tawani Shoush, um piloto aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e presidente da Sociedade Internacional para a Terra Completa. Ele queria pilotar um dirigível sobre o pólo, aonde, juntamente com seus companheiros, iria se encontrar com os moradores nórdicos do centro do planeta, possivelmente permanecendo lá para sempre.
“O mundo subterrâneo é melhor que o nosso”, disse ao colunista do jornal ‘Chicago Tribune’, Bob Greene, em 1978. Embora tenha negado ser simpatizante da ideologia nazista, seu símbolo também era uma suástica. Mas nem as expedições de Zundel ou Shoush decolaram. Outro trabalho que teve influência nos destinos da teoria da Terra Oca tinha natureza anti-semita e pró-nazista, ‘Kingdoms Within Earth’ [Reinos Dentro da Terra, idem], de Norma Cox, defendia que uma conspiração sionista internacional estaria escondendo a verdade sobre o tema. Para a racista Cox, tal política seria parte de um plano que usaria o Pólo Sul para escravizar a raça humana. Neste e em outros livros, ela alertou que nos Estados Unidos os cristãos brancos seriam alvos de extinção e que, brevemente, o próprio Jesus Cristo iria iniciar uma batalha contra os demoníacos moradores do centro do planeta e seus aliados na superfície...

Já nos anos 80, um inusitado movimento chamado ‘Lado Negro’ cresceu dentro da comunidade ufológica internacional. Propagando relatos de misteriosas mutilações de gado e teorias conspiracionistas, os membros do ‘Lado Negro’ afirmavam que um governo mundial secreto teria se associado a determinadas raças de seres extraterrestres para formar uma aliança maligna e gerar o mal entre os humanos. Parte dos integrantes desse movimento, inspirados em autores como Milton Willian Cooper, alegava que em cavernas sob o Deserto do Novo México, especialmente em Dulce, cientistas do governo e Ets trabalhariam juntos para criar andróides sem alma. Estes serviriam como escravos quando uma suposta Nova Ordem Mundial submetesse o mundo aos seus desígnios. Ativistas do ‘Lado Negro’ também garantiam existir enormes túneis entrecortando o planeta e ligando laboratórios, bases militares secretas e outras instalações, tudo controlado pela liga governo-aliens. Afirmava-se que existiriam cerca de 50 bases apenas nos Estados Unidos, onde experiências com ETs eram realizadas.

ANTÁRTIDA TROPICAL:
Segundo o misterioso Comandante X, que também influenciou esse movimento, muitas bases estariam interligadas por avançados sistemas de trens subterrâneos, alguns nas mãos de seres do espaço amigáveis e outros capturados por ‘grays’[Cinzas], ‘deros’ e outras entidades contrárias à raça humana. Como se vê, a teoria de que existe um mundo dentro do nosso planeta é levada a sério por muitas pessoas, ocultistas ou não, e tem fortíssimo apelo emocional. Muitos a defendem com unhas e dentes. Entretanto, a ciência tem afirmado continuamente que tal hipótese seria impossível, que a Terra simplesmente não poderia ter a cavidade central que se imagina. Portanto, o assunto estaria encerrado. Assim como essa mesma ciência, um dia, também ridicularizou a tese que defendia a existência de um peixe pré-histórico, conhecido como celacanto, e as afirmações de que a Antártida nunca poderia ter sido um lugar tropical. Resta-nos ter paciência para saber qual é a verdade nesse emaranhado de fatos e fantasias.

ADEPTOS DA TEORIA DA TERRA OCA crêem que o planeta seja entrecortado por túneis, que ligariam os mais diversos pontos do globo, entre eles Machu Pichu, nos Andes peruanos, certas partes da Amazônia e as pirâmides do Egito. A luz que emanaria do interior da Terra seria responsável pelas auroras boreais.
_
[Texto de Thiago Luiz Tichetti]

26 de jan. de 2010

QUE É O VERDADEIRO CONHECIMENTO?


A busca do conhecimento sempre foi uma busca esquiva, principalmente porque não estamos certos do que é exatamente o conhecimento ou quais os benefícios que ele nos traz. Geralmente supõe-se que o conhecimento produz uma transformação em nossa vida. Mas não é definido o modo pelo qual essa transformação ocorre. Pode-se perguntar: o conhecimento faz por nós algo que acarreta uma transformação, ou somos nós que usamos o conhecimento para concretizar algum fim almejado?

Afirma-seque vários canais levam ao conhecimento ou constituem seus componentes básicos. O “mistério” do conhecimento, se nos é lícito chamá-lo assim, vem intrigando a mente humana há séculos. Filósofos da antiga Grécia, como Sócrates, Platão e Aristóteles, inclusive os sofistas e as escolas jônicas, buscavam uma definição concisa e abrangente do conhecimento. Hoje ‘conhecimento’ continua sendo um termo que comumente se usa mas que comumente não se compreende.

Além disso, certas palavras aumentam a confusão sobre a natureza do conhecimento. Tais palavras indicam um tipo de conhecimento cuja origem é supostamente sobrenatural – indicando que ele transcende os processos mentais normais, que se trata de um substituto do conhecimento ou que nada mais é que uma concatenação de pensamentos, ou seja, uma cadeia de idéias correlacionadas.

Em particular, palavras como fé, crença e razão fornecem elementos para o conhecimento. Elas são tão familiares que temos a certeza de que compreendemos essas palavras e sua relação e diferenças. Mas compreendemos realmente?

PERSCRUTANDO A FÉ
Comecemos com uma análise da fé. Não recorreremos à convencional definição do dicionário. Antes, vamos compreendê-la a partir de uma análise mais pessoal do uso comum do termo.

Não podemos, por exemplo, afirmar que são permutáveis os significados de fé e experiência. De ordinário, ao termos a experiência de algo isso se dá por meio de nossas faculdades sensoriais, como a visão, audição, tato, paladar e olfato. Além disso, a experiência é direta e imediata. Por exemplo, quando percebemos uma rosa, seu aroma, cor e forma são percebidos diretamente como sensações que identificamos como o objeto que reconhecemos ser uma rosa. Em outras palavras, entre nós e a rosa não há nenhum intermediário além das impressões por ela irradiadas. Não estamos aceitando a existência da rosa com base em boatos ou em qualquer outra fonte que não o próprio objeto.

Por conseguinte, a fé não é uma experiência direta e imediata; entretanto, em geral é considerada equivalente à experiência direta e, portanto, com o mesmo valor de conhecimento. Isso levanta a questão: qual é a verdadeira qualidade do conhecimento?
Em essência, o conhecimento sempre é o mesmo. Ele pode apresentar-se de diferentes modos; contudo, a despeito das idéias de que seja composto, sempre terá a mesma essência, isto é, a qualidade em que o conhecimento consiste.

Essa qualidade do verdadeiro conhecimento é a realidade, a qual deve ser acessível à percepção objetiva humana, ou seja, deve ser vista, sentida, ouvida, etc. Deve ser aquilo que nós ou outros possam perceber como realidade. Mas será que isso desqualifica de verdadeiro conhecimento aquilo que aprendemos por estudo? Talvez jamais venhamos a ter a experiência pessoal de uma realidade lida num livro didático ou de História; não obstante, o conteúdo desses livros são denominados de conhecimento. Esse conhecimento, porém, não passa d um substituto socialmente aceito de nosso próprio conhecimento intimo, adquirido.

Passamos a reconhecer como autorizada certas fontes de informação. Nesse sentido, autoridade implica que a fonte, o autor ou informante, teve a experiência real do que nos conta ou tem motivos para crer que sua afirmação é uma realidade demonstrável. Há uma visível diferença entre fé e esse substituto socialmente aceito para o conhecimento. A fé aceita como fonte autorizada aquilo que não pode ser comprovado por todos, inversamente, ao lermos um livro didático ou de História, podemos presumir que o autor é uma autoridade e que pode ou vai comprovar o que expôs.

O que normalmente se chama de ‘fé cega’ ocorre quando a fonte de conhecimento não é contestada, ainda que pareça contrária aos fatos ou à experiência pessoal. Isso se evidencia mais comumente em se tratando de religião. A fonte de ‘fé cega’ pode ser considerada sobrenatural e infalível. Pode-se, então, crer que é um sacrilégio questionar a essência dessa fé. Obviamente, seu conteúdo não é conhecimento do ponto de vista realístico, objetivo. A pessoa que recorre ‘à fé cega’ está volitivamente se privando de ser receptiva ao verdadeiro conhecimento. O conhecimento qual contradiga a fé que essa pessoa nutre, ainda que comprovado pelos fatos, com freqüência é por ela considerado indício de um propósito maligno de difamar sua fé.

CRENÇA – GERAL E PESSOAL:
Que dizer sobre a crença do ponto de vista de uma convicção pessoal? Há duas espécies genéricas de crença. A primeira pode ser considerada geral – um conceito ou idéia de ampla circulação considerado irrefutável. Em termos psicológicos, implica verdade, dado o número de pessoas que têm crença análoga. Entretanto, há na história inúmeros casos em que se acreditava numa explicação de algum fenômeno natural e em que a explicação era errada. O indivíduo precisava ter coragem para refutar uma noção amplamente aceita, mesmo quando podia provar explícita e objetivamente que a noção estava errada.

O outro tipo de crença é a ‘convicção pessoal’. Esta não é influenciada pelas opiniões alheias. Podemos ter chegado a essa crença por meio de nossos próprios processos mentais, não necessariamente por raciocínio intencional. Por exemplo, pode chegar à atenção da pessoa algum evento - algum acontecimento ou fenômeno – para o qual ela não tem nenhuma explicação definida. Pensando sobre isso, associando idéias sem usar qualquer método formal de raciocínio, a pessoa obtêm uma convicção pessoal sobre a causa do fenômeno ou ocorrência.

O que com toda a probabilidade aconteceu foi que o indivíduo extraiu da memória várias idéias correlatas, que forneceram, em termos de crença, uma convicção pessoal ‘plausível’. Constituirão conhecimento essas crenças, ainda que não tenham sido nem provadas nem refutadas? Um tipo de convicção pessoal é o tipo por ‘conhecimento intuitivo’. Tais impressões intuitivas, que lampejam na consciência sem elaborações, têm uma indubitável veracidade. O esclarecimento pessoal da iluminação produzido por essas impressões lhes confere a essência de verdadeiro conhecimento.

Entretanto, geralmente o indivíduo não consegue reduzir essas impressões intuitivas à concretude factual. Pode ser incapaz de provar sua crença a outrem. Além disso, os outros podem ser incapazes de refutá-la. Essa forma de conhecimento subjetivo não contém a objetividade da realidade e, portanto, em grande parte só traz benefício imediato à pessoa que teve o esclarecimento intuitivo. O recipiente, pois, tem a obrigação moral de dar concretude a seu conhecimento intuitivo, isto é, deve tentar lhe conferir a realidade passível de ser percebida pelos outros e de tornar-se conhecimento geral. O processo por meio do qual se consegue isso é a razão.

A VELHA QUESTÃO DA RAZÃO:
E que é a razão? Uma vez mais, defrontamo-nos com um tema que vem ocupando a mente dos filósofos há séculos, sendo, porém, essencial para nossa investigação da natureza do conhecimento.

Iniciemos nossa análise afirmando que os pensamentos são idéias, e que as idéias são elaboradas por nossas faculdades de ‘percepção e concepção’. A percepção é a consciência que temos das sensações captadas por nossas faculdades sensoriais. A concepção consiste na recordação de impressões registradas na memória, sendo também o reagrupamento dessas impressões numa nova ordem e imagem mental. Exemplo disso é a faculdade da imaginação.

A razão é a integração e associação mais precisa e intencional de nossas idéias. Nesse processo a mente busca uma relação definida entre idéias particulares, para chegar a uma conclusão satisfatória. A conclusão depende totalmente do ordenamento das idéias que a consistem.

Há dois métodos gerais de raciocínio: dedutivo e indutivo. O dedutivo é o processo de raciocínio que parte da idéia ou dos princípios gerais em direção às particularidades. Por conseguinte, o processo dedutivo parte de uma idéia geral que, para a mente, não é auto-explicativa, ou seja, não é em si mesma conclusiva. A razão, portanto, pelo uso de uma análise progressiva, procura um meio de examinar a idéia em consideração como um todo compreensivo, e não como um pensamento indefinido.

Exemplificando, podemos levantar a questão:a vida inteligente é um fenômeno cósmico universal ou está limitada à Terra apenas? Para responder a essa pergunta, poderíamos recorrer ao processo de raciocínio dedutivo, isto é, poderíamos buscar os elementos que se relacionam e que provam ou refutam o conceito.

O processo de raciocínio indutivo consiste em tomar uma idéia que se percebe ser completa em si mesma, e depois, por observação e análise, determinar de que modo por ela ser correlacionada a ‘particularidades’ para formar uma idéia geral. Sucintamente, o método indutivo parte do particular para o geral.

O raciocínio, porém, só é aceitável como ‘verdadeiro conhecimento’ se suas conclusões oportunamente puderem ser evidenciadas ‘objetivamente’. Se a conclusão não puder ser percebida objetivamente, trata-se apenas de crença, de um substituto do conhecimento. Trata-se de uma identidade temporária que a mente conferiu à experiência. Não obstante, a razão é um tipo de conhecimento mais confiável, dada a cogitação que requer.

Pelo que foi exposto, talvez pareça que, para adquirirmos conhecimento, consideramos mais confiável o recurso a nossas faculdades sensoriais, como a visão, o tato, a audição, etc. Contudo, todos em geral sabemos que nossos sentidos podem nos enganar. Por exemplo, quando olhamos os trilhos de uma estrada de ferro, estes parecem convergir a certa distância; entretanto, se chegarmos a esse local, perceberemos que a convergência não passa de uma ilusão de óptica. Do mesmo modo, o paladar e o olfato também podem nos enganar.

Será que podemos afirmar, portanto, que, quando a maioria das pessoas percebem do mesmo modo um objeto, trata-se de uma realidade? Não: a qualidade ‘numênica’ do objeto, isto é, a coisa em si pode ser bem diferente do que os seres humanos percebem. Aristóteles afirmou que os fenômenos numênicos opõem-se aos fenômenos dos sentidos. Tais fenômenos constituem ‘realidade’ e, portanto, verdadeiro conhecimento.

Cada um dos três temas que analisamos – i.e., fé, crença e razão – faz contribuição fundamental para o que se aceita como verdadeiro conhecimento. Contudo, nenhum deles, em si mesmo, é conhecimento absoluto.

A contribuição da fé está em sua pressuposição de autoridade. A contribuição da crença consiste na substituição de plausibilidade em ausência do fato. E a contribuição da razão para o conhecimento consiste num processo que visa ao ordenamento sistemático de idéias, de modo a fazê-las parecer realidade para a mente, que, por conseguinte, pode aceitá-las como verdadeiro conhecimento. [Texto de R.M.L]