20 de out. de 2009

MUSICA DE WAGNER: O CÁLICE SAGRADO


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Depois de quase quarenta anos de trabalho prodigioso, e, algumas vezes, de oposição tempestuosa, o mundo musical reconheceu RICHARD WILHELM WAGNER como o maior criador na história da arte musical! Mas é o mundo místico que discerne, na sua ópera final, PARSIFAL, a revelação do CÁLICE SAGRADO.

Para compreender PARSIFAL, devemos tratar, inicialmente, das óperas da Tetralogia. A maior parte dos Historiadores diz que Wagner obteve o enredo das óperas da Tetralogia, da epopéia alemã, o NIBELUNGENLIED.

Mas, a visão penetrante de Corrine Heline, no seu livro A MUSICA ESOTERICA DE RICHARD WAGNER, mostra que as óperas da TETRALOGIA representam a ÁGUA, o AR, a TERRA e o FOGO. Das RHEINGOLD [O OURO DO RENO]representa o elemento Água; DIE WALKÜRE [ AS VALQUIRIAS], o elemento Ar; SIGFRIED, o elemento Terra; e DIE, GÖTTERDAMMERUNG [O CREPUSCULO DOS DEUSES], o elemento Fogo. Por conseguinte, tem-se certeza que Wagner teve acesso a ensinamentos místicos.

As óperas da TETRALOGIA formam, supostamente “um vasto caleidoscópio do passado, do presente e do futuro desenvolvimento da raça humana. GÖTTERDAMMERUNG mostra as trevas da materialidade e o caminho da Iniciação pelo amor, que, novamente, conduzirá a Humanidade à Luz do Espírito”.

Se considerarmos as óperas de Wagner como graus de desenvolvimento espiritual, elas apresentar-se-ão nesta ordem:

 TANNHAUSER;
 LOHENGRIN;
 TRISTÃO E ISOLDA;
 PARSIFAL.

À medida que as óperas se sucediam, cada uma apresentava uma maior promessa relativamente à apresentação épica final - a grande, a incomparável PARSIFAL, da qual foi dito: -

“ Do tempo da musica de PARSIFAL, o Homem pode construir uma ponte áurea de som, pela qual poderá comungar as hostes dos anjos e arcanjos”. [ Musica Esotérica de Richard Wagner, por Corine Heline]

Consta, no mundo musical, que LOHENGRIN e PARSIFAL foram calcadas nas lendas medievais do CÁLICE SAGRADO. Diz-se que Wagner obteve textos para as suas óperas, do poeta épico alemão e Minnesinger, WOLFRAM VON ESCHENBACH [1170-1220].

O primeiro autor conhecido que apresentou a lenda do Rei Arthur, de modo literário, foi CHRESTIEN DE TROYES de França [1164-]. A primeira referencia ao Rei Arthur, é de 600 A.D.

Essas lendas, originaram-se das tradicionais histórias de heróis Irlandeses e Gauleses. Antes do ano 1000, elas apareceram entre os Bretões, que disseminaram os contos pela Europa Ocidental, parcialmente, por meio dos Minnesinger. Os trovadores do Sul da França, que correspondem aos Minnesingers da Alemanha, floresceram nos décimo-segundo e décimos-terceiro séculos. Os maiores foram: WALTER VON DER VOGELWEIDE e WOLFRAM VON ESCHENBACH. Posteriormente os Meistersingers sucederam aos Minnesingers.

Se considerarmos um artigo publicado, em Abril de 1958, no “Rosicruciuan Digest” intitulado o “ Misticismo Voltado para a América”, por Donald Atkins, temos toda a razão para acreditar na existência do REI ARTUR. Declara-se que ele foi um descendente direto de JOSE DE ARIMATÉIA, o tio-avô de JESUS. [José foi um dos homens mais ricos do seu tempo. Possuia, entre outras coisas, a sua própria frota de navios e interesses nas minas de estanho da Britannia. Tomou sob seus cuidados, Maria, a Mãe de Jesus, após a crucificação].

Diz-se que o Rei Artur pode ser situado na oitava geração, aproximadamente, 495 a 537 A.D. O mundo místico, entretanto, tem razões para acreditar que o conhecimento do CALICE [ O SAGRADO GRAAL] data de séculos antes de CRISTO.

Por determinação do Imperador NAPOLEÃO III, a ópera de Wagner, TANNHAUSER, foi apresentada, no teatro de Ópera, em Paris, em Março de 1861. Foi vaiada e recebeu assobios da parte dos membros do Jóquei Clube, que se ressentiam com a produção de uma ópera que não continha o habitual bailado no meio do segundo ato. Wagner recusou-se a inserir um bailado e, conseqüentemente, quebrar a continuidade da ópera.

Nessa ocasião, Wagner estava em sérias dificuldades financeiras, dependendo da caridade de alguns amigos,principalmente, LISZT. A partir de 1850, a sua lista de trabalhos literários estava crescendo, rápida e poderosamente, nela se incluindo todos os poemas para as suas óperas posteriores, exceto PARSIFAL.

Em 1864, Ludwig II, da Bavária, ofereceu a Wagner o lugar de diretor real, em Munich, e amplo apoio aos seus projetos dramáticos. O teatro da Ópera de Beirute, construído, exclusivamente, para a produção de suas óperas, foi completado em 1876, e a TETROLOGIA, que Wagner chamou de”DER RING DES NIBELUNGEN” foi apresentada nesse ano.

PARSIFAL, a ultima ópera de Wagner, foi apresentada em 26 de Julho de 1882. A impressão que produziu, foi profunda;e, dessa época em diante, os festivais de Beirute, realizados a intervalos regulares, tornaram-se a meta de incontáveis peregrinações musicais.

Depois da morte de Wagner, em 1883, a sua segunda esposa, Cosina, que era filha de Franz Liszt, continuou com os espetáculos em Beirute.

No teatro de Beirute, a orquestra ficava escondida da audiência, por uma antepara que se inclinava em direção ao palco. E o que era ainda mais surpreendente, ninguém tinha permissão de aplaudir. Wagner, queria que o seu publico passasse pelas mesmas experiências da alma,que os atores estavam apresentando.

Entretanto, os seus temas nobres eram uma afronta a uma sociedade sensual e de prazeres. Que eles façam barulho e fumem, que proíbam que as suas obras sejam apresentadas e as vaiem. Wagner não cederá!

Ele viveu anos difíceis e enfrentou o fato doloroso de não ser reconhecido o seu grande talento. Eles o chamaram de teimoso, mal-humorado, egoísta, exaltado em suas exigências, um monstro e um tolo. Mas, ele não cederia. Ele tinha razão e sabia! E, no fim, triunfou.

As honras a ele tributadas, foram muito além das recebidas por qualquer outro compositor. O tempo provou que seus trabalhos revolucionaram o rumo da ópera e reverberaram em todo o âmbito da arte musical. Obtivemos, assim, o ‘TRABALHO DE ARTE” do futuro, que certa vez foi tão atacado, mas que, finalmente, tornou-se VITORIOSO. Ao criador desse trabalho, podemos aplicar, apropriadamente as palavras de Shakespeare: “ Ele cavalgou o exíguo mundo, como um Colosso”.

DESPERTAR DIVINO
Revisemos os dramas das duas óperas mais reveladoras, LOHENGRIN e PARSIFAL.

A princesa Elsa, heroína de LOHENGRIN, tipificava a personalidade-alma que parece já estar suficientemente desenvolvida para o casamento com o Divino [a Grande Luz] que é representada por LOHENGRIN, o cavaleiro do CÁLICE SAGRADO.

O sonho de Elsa com um cavaleiro numa armadura resplandecente, indica que ela está pronta para passar para um grau mais elevado da sua evolução. Lohengrin aparece num bote puxado por um cisne. Depois que os planos para o casamento foram feitos, Lohengrin pede a Elsa para ter fé - não perguntar o seu nome ou de onde vem. Elsa concorda;tudo parece bem, e são feitos os preparativos para o casamento. Mas, a duvida vence a fé. Elsa faz as perguntas fatais e, desse modo, perde seu lugar na Grande Luz.

Enquanto ainda soam os acordes da marcha nupcial, Lohengrin anuncia, tristemente, à assembléia, que o casamento não terá lugar. Ele canta, então, a declaração que é conhecida como uma das mais dramáticas em todas as óperas – a narrativa: “ NAS TERRAS DISTANTES “. Menciona Monsalvat e os cavaleiros que, ali, guardam o Cálcie Sagrado. Anuncia que seu pai é PARSIFAL e reina sobre todas as coisas; e que, ele mesmo, é Lohengrin. Lohengrin desaparece, então, num bote, puxado, agora, por uma pomba branca.

Tem sido dito que a ópera de ‘PARSIFAL’ está mais próxima da “MUSICA DAS ESFERAS” do que qualquer outra composição feita por mão mortal. Wagner sentiu que ela estava acima da sua época, e solicitou que só fosse apresentada, em Beirute, cinqüenta anos depois da sua morte. Ele a chamava: “Um Festival de Composição Sagrada”. A despeito da oposição completa da Sra. Wagner, a ópera PARSIFAL foi apresentada no Metropolitan Opera House, em Nova York, em 1903. Os direitos autorais expiaram em 1913, e seguiram-se apresentações em Berlim, Paris, Roma, Bolonha, Madrid e Barcelona.

A historia de ‘PARSIFAL’ conduz à genuinidade do “CENTRO DIVINO”. Unicamente por intermédio de Wagner, foi essa revelação mística tratada de modo tão reverente e dramático e teve significado tão maravilhoso. Os acontecimentos que são adiante narrados, são os que ocorrem antes da abertura desta ópera e auxiliam para lhe dar maior compreensão.

O SANTO GRAAL foi o Cálice no qual Cristo bebeu, na última Ceia, com seus discípulos. Esse cálice sagrado, juntamente com a lança sagrada, estavam em perigo de cair nas mãos de infiéis.

Mensageiros santificados levaram o cálice e a lança sagrada a um cavaleiro puro, chamado TITUREL, que construiu, então, um esplêndido santuário, chamado Monsalvat [Monte da Salvação] numa paragem inacessível dos Pirineus, e reuniu uma companhia de cavaleiros de honra imaculada.Esses cavaleiros devotavam-se à guarda do Graal. Uma vez por ano, uma pomba sagrada descia, dos céus, para renovar o poder sagrado do Graal e de seus guardiões.

Titurel, O Chefe dos Cavaleiros, sentindo-se velho, nomeia a seu filho, AMFORTAS, como sucessor.

O Cavaleiro Klingsor, que vive perto do Castelo de Monsalvat, deseja fazer penitencia por seus pecados, pois, a velhice dele se aproxima. Tenta unir-se à Ordem do Graal, mas, é rejeitado. Em revide, consulta um espírito do Mal e projeta a queda desses cavaleiros. Invoca o auxilio de um conjunto de sereias chamadas JOVENS-FLORES, cada uma das quais é meio mulher, meio flor, e vive num jardim mágico.

Verificando que muitos dos cavaleiros perderam a graça em virtude dos encantos das jovens-flores, AMFORTAS resolve verificar o caso, ele mesmo. Leva consigo a lança sagrada, confiante em que ela será poderosa contra a mágica das sereias. Mas, infelizmente, não só ele fica dominado por Kundry, como Klingson toma da lança e lhe faz uma ferida, que não sara.

Amfotas retorna profundamente infeliz para o Castelo de Monsalvat, sofrendo eterno remorso e agonia perpétua, por sua ferida. Entretanto, como sacerdote supremo, è forçado a celebrar os Ritos Sagrados, embora se sinta indigno.

Em vão, procura ele, por todas as partes, um remédio para o seu ferimento e o perdão para o seu pecado. Finalmente, numa visão, ouve uma voz proclamar que, apenas “um tolo sem maldade” [isto é, que desconheça o pecado e possa resistir a tentação] poderá trazer-lhe alivio e que mensageiros Celestiais guiarão tal pessoa a Monsalvat. Segue-se então, a ação da ópera PARSIFAL.

Quando PARSIFAL fere um cisne, ignorando que este se achava sob a proteção do rei, é arrastado por dois cavaleiros à presença de Gurnemanz [um veterano cavaleiro do Graal] que o repreende.
Este acontecimento tem lugar nas proximidades do Castelo de Monsalvat.

Os cavaleiros verificam que PARSIFAL pouco pode dizer de si mesmo. Encontrou um cavaleiro, chamado Sir Lancelot, na floresta, próximo ao seu Lar. Contra os desejos de sua mãe, ele o seguiu até o castelo. Recordava-se de que sua mãe chamava-se HERZELIED [Coração Triste].

Kundry, que vem nesse momento, à cena com um novo remédio para o ferimento de AMFORTAS, oferece mais informações. O pai do jovem era GAMURET. Depois da sua morte em combate, a mãe afastou seu filho, Parsifal, da maladade dos homens, por temer que ele sofresse a mesma sorte. Ela já está morte e PARSIFAL anda errante.

KUNDRY [KUNDRALINA] é um SER estranho que parece ter duas naturezas. Surge, alternadamente, como serva devota do Graal e, sob influencia mágica de Klinhgsor, como mulher terrivelmente bela, que conduz à ruína todos os cavaleiros que caem sob o seu poder. Essa praga, é punição por um crime cometido numa existência prévia, quando, como HERODES, zombou de CRISTO, na cruz. Quem quer que encontre KUNDRY dormindo, pode colocá-la sob seu serviço; sob o domínio de Klingsor, ela é bela; no castelo dos cavaleiros, é como uma fera horrível. Alguns cavaleiros protestam contra a sua presença, mas, GURNEMANZ, defende-a. Ocorre a GURNEMANZ que PARSIFAL talvez seja o “ tolo sem maldade”, enviado para curar a ferida de MAFORTAS. Quando ele conduz Parsifal ao grande salão em que o Graal deve ser desvendado no rito anual, Parsifal é tocado pela beleza e mistério do local, e diz:”Eu mal posso me mover;e, no entanto, estranhamente, sinto-me como se corresse”.

Gurnemanz responde:”Meu filho, viste que aqui o espaço e o tempo estão unidos, e tudo é DEUS”.

Parsifal testemunha o desvendar do Santo Graal. A sua glória flamejante envolve o local e, embora os cavaleiros e donzelas se ajoelhem, em êxtase, Parsifal olha como se a cena não o tocasse. Mais tarde, quando Gurnemanz interroga-o, ele está tão maravilhado que não pode falar. Irritado, Gunermanz expulsa-o do salão e bate a porta.

No mundo exterior, Parsifal resiste às jovens-flores e à presentemente sedutora e bela, Kundry. Enraivecido, Klingsor atira a lança sagrada sobre Parsifal, mas, ao invés de feri-lo como aconteceu com Amfortas, passa sobre sua cabeça e Parsifal fica na sua posse. Parsifal, então, bane a mágica negra de Klingsor e de seu castelo, para sempre. O poder de Klingsor é vencido e o seu palácio se arruína. Embora Kundry tenha rogado uma praga a Parsifal para que tenha uma vida errante, ele vagabundeia, não tanto pelo poder da praga, como pelo fato de que ainda tem muito para aprender.

Anos mais tarde, numa bela manhã de primavera, numa SEXTA-FEIRA SANTA, Parsifal volta. Durante a sua ausência, Amfortas tem se recusado a descobrir o Graal, do qual os cavaleiros recebem o sustento e força, visto que, cada vez que ele o faz, a sua ferida se abre e renova-se a sua agonia.

Corrine Heline diz o seguinte, referentemente ao ferimento de Amfortas: “ A ferida incurável que tem no lado, é o sofrimento da Humanidade, causado pela sua queda na vida dos sentidos – que trouxe consigo necessidade, doença, discórdia, morte e todas as grandes tristezas que sobrecarregam os habitantes da Terra”.

“Essa ferida só pode ser curada pela redenção, pela purificação da natureza sensória inferior e pela transmutação dos seus poderes em faculdades da alma” [A musica esotérica de RICHARD WAGNER”,* por Corrine Heline].

Amfortas, em agonia continua e em desespero, almeja a morte. Ele, porém, deverá viver uma vez que tem a seu cargo o Santo Graal. Em virtude da mote de seu pai, deverá desvendar agora, o Cálice. Como a agonia é maior do que aquilo que pode suportar, suplica aos cavaleiros que o matem.

Nesse ínterim, Gurnemanz revelou a Parsifal o triste estado dos cavaleiros, no castelo. Kundry lá está, na qualidade de empregada do Castelo do Graal. Lava os pés de Parsifal, na fonte de água sagrada e seca-os com seus cabelos [reminescencia de Madalena].Ele a batiza.

O Graal é desvendado. Kundry morre quando se ajoelha ante o altar. Isto representa a completa e final dedicação da personalidade aao serviço da alma.

Parsifal, que penetra no grande salãocom Gunermanz e Kundry, não é percebido;Amfortas está prestes a desvendar o Cálice Sagrado; Parsifal toca o seu ferimento com a lança sagrada, e o cura.
Um pomba branca desce e paira sobre a cabeça de Parsifal.

Parsifal agita suavemente o Santo Graal ante os cavaleiros prosternados. Gurnemanz e Amfortas, os sábios e rei depostos, ajoelham-se ante a Parsifal, que é o Rei-Sábio da Ordem de Melchizedek, o Senhor das Idades. Parsifal é coroado rei, e permanece no castelo como líder dos cavaleiros.

Temos assim:
1_ A vinda de Parsifal;
2_ A tentação de Parsifal;
3_ A Coroação de Parsifal.

Essa disposição é idêntica aos três passos dos antigos mistérios. Foi Pitágoras, o grande filósofo místico do sexto século A.C., quem apresentou a musica e os números como forças e poderes divinos. Estudantes, na escola – templo de Pitágoras, progrediam através de três graus sucessivos; PREPARAÇÃO, PURIFICAÇÃO e PERFEIÇÃO - de modo a alcançar a revelação final do centro divino do homem, em si mesmos.

Por conseguinte, do ponto de vista místico, a ópera PARSIFAL, de Wagner, projeta, na época atual, a essência as sabedoria de Pitágoras. Pela LUZ dessa sabedoria, compreendemos o plano de Wagner para descobrir o Cálice Sagrado, apresentá-lo à visão humana.

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Texto de Edna May Crowley.




Wagner - Parsifal Act I Prelude_1

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Wagner - Parsifal Act I Prelude_2

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Parsifal Fantasia Richard Wagner
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19 de out. de 2009

CORPO, MENTE, ALMA [Conceitos que mudam]


Que é UNIDADE?Estamos acostumados a pensar em unidade como uma coisa única, um estado ou uma condição. No entanto, a idéia de unidade provém de multiplicidade. Quando duas ou mais coisas se fundem numa coisa única, referimo-nos a esta como “unidade”. A introspecção do homem, sua pesquisa de seu próprio interior, remonta a milhares de anos. Raramente, porém, ele encararia a si mesmo como uma entidade singular.

Havia funções do ser do homem que eram marcantemente diferentes umas das outras. Conseqüentemente, o homem durante muito tempo pensou em si mesmo como uma unidade de três substancias ou qualidades. Além disso, a relação entre elas, nele próprio, é um mistério sobre o qual ele continua refletindo. Em geral, essas três diferentes qualidades do ser do homem são denominadas:
ð corpo;
ð mente e;
ð alma

Nessa trindade assim concebida, o homem tem valorizado menos o seu corpo. Tem até sentido certo desprezo por ele. Em suas religiões e filosofias, tem muitas vezes submetido o corpo a mortificações e sacrifícios. OU seja, tem por vezes negado as necessidades do corpo e o tem mesmo torturado.

A antiga escola órfica de filosofia pensava que a carne era má e corrupta. Seus adeptos acreditavam que o corpo aprisionava o elemento divino, isto é, a alma. Ensinavam que a alma estava constantemente buscando a sua liberdade. E essa liberdade era entendida como o vôo da alma de volta a sua origem divina. As escolas socráticas e platônica foram muito influenciadas por essa idéia sobre o corpo.

Filon Judaeus, do primeiro século antes de Cristo, foi um filósofo judeu nascido em Alexandria. Naquela época, as crenças religiosas estavam muito influenciadas pela cultura grega. Para Fílon, Deus transcendia tudo e era eterno. Mas dizia-se que a matéria era “coeterna” com Deus. Havia assim um dualismo: Deus, de um lado, com a matéria opondo-se a Ele, do outro lado. Fílon disse que de Deus descendiam logoi, isto é, forças. Os dois principais “ logoi” eram “bondade e potencia” ou divino poder. E Fílon os chamou de ‘mensageiros’ ou intermediários de Deus.

Fílon ensinava também que havia logoi inferiores. Estes, dizia ele, eram capturados e tornavam-se matéria. A alma [os logoi] era aprisionada nessa matéria. O corpo era matéria; logo, era tido como potencialmente mau. O homem tornou-se pecaminoso, mau, segundo Fílon, pelo mau uso de seu poder da vontade;em outras palavras, ele cedeu a seus sentidos e às tentações do corpo. Somente por meio de meditação e contemplação de suas qualidades divinas, conforme se declarava, poderia o homem elevar-se acima da matéria e do corpo. Essas idéias de Fílon deixaram claras impressões nas teologias judaica e cristã. O Novo Testamento as reflete.

Quais foram as principais causas desses conceitos adversos sobre o corpo humano? Quais são as razões psicológicas por trás deles? Mesmo em culturas primitivas, o homem considerou o corpo como uma coisa evanescente, ou seja, que está constantemente mudando. Como no caso da vida vegetal, observa-se que ele declinava e perdia sua qualidades. O corpo podia ser facilmente ferido ou destruído, inclusive pelo próprio homem. Portanto, não sugeria permanência, imutabilidade ou natureza eterna. Comparado com corpos celestes como o Sol, a Lua e as estrelas, o corpo parecia ser uma criação inferior.

Além disso, para o homem primitivo, os males e as dores do corpo pareciam enfatizar sua falta de pureza. Mesmo os apetites e paixões eram tidos como exemplos de fraqueza do corpo. Eram comparáveis às funções físicas dos animais, que o homem considerava inferiores a ele.

Mas havia ainda a segunda qualidade da natureza trina do homem. Era a parte “pensante”, os processos mentais. Agrupamos esses processos sob o temo geral “mente“, mas havia uma enorme distinção entre essas funções da mente e as do corpo. Havia uma característica intangível na parte pensante do homem. Ela não podia ser vista ou destacada. Para o homem, o aspecto mais impressionante dessa parte pensante era o de que ela era “interior”. Era algo dinâmico que movia o corpo como o homem quisesse. E esse algo interior, falava com ele. Podia mandar e pleitear, mas não era visível.

A IDÉIA DO EU
Por outro lado, o corpo atuava sobre esse algo, sobre essa parte pensante e isso levava o homem a sentir medo, surpresa, felicidade, pesar. Qual era então a parte verdadeira? Qual era a verdadeira entidade ou o verdadeiro homem? Aqui nasceu a idéia do EU encerrado numa casca. Ele era geralmente tido como inerte, passivo. O corpo era movido somente pelo mundo exterior, ou por esse algo interior. O EU, a parte capaz de consciência, era tido como o positivo, real.

Vemos aqui o começo do dualismo, da dicotomia, da divisão do homem em duas partes. Essa idéia da divisão da natureza do homem ainda persiste em muitas religiões e filosofias éticas. Notava-se que essa parte pensante do homem só existia no corpo vivo. Ela deixava o corpo na morte e, assim, era concebida como um atributo daquilo que dava vida ao corpo. Observava-se que a vida entrava e saía do corpo com a respiração. Respiração era ar, e o ar parecia infinito e eterno;portanto, às respiração logo foi atribuída como uma qualidade divina, pelo homem antigo. Por exemplo, em Gênesis 2:7, encontramos:” e formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida;e o homem foi feito em alma vivente”.

Mas se admitimos que a força vital é divina, então ela deve fazer muito mais do que apenas dirigir as funções orgânicas do corpo. O homem achava que ela deveria ter alguma finalidade superior a cumprir no corpo. Qualquer que fosse a forma que o homem concebesse para a Divindade, ela era considerada dotada de uma inteligência superior. Com o desenvolvimento da autoconsciência, o homem adquiriu uma crescente autodisciplina. Começou a sentir fortes reações emocionais a certos aspectos do seu comportamento. Alguns atos do homem fazia com que ele sentisse prazeres; mas esses prazeres não estavam relacionados com as sensações de seus apetites. Havia alguns que eram muito mais sutis e proporcionavam uma espécie de satisfação interior profunda. A essas sensações o homem deu o nome de “bem”;ao seu oposto de “mal”.

Foi fácil para o homem acreditar que era a Divina Essência ou substancia, em seu interior, que lhe indicava o bem. Ela era tida como INTELIGÊNCIA da Divindade no homem. Pensava-se também que essa Inteligência era uma parte superior da natureza do homem. A essa terceira qualidade do ser, o homem deu o nome de ‘ALMA’.

A RAZÃO
O homem logo se apercebeu das ilusões e dos equívocos dos sentidos. Os sentidos relacionavam-se com o corpo finito; portanto, não eram considerados uma fonte confiável para se chegar à verdade e ao conhecimento. A parte pensante do homem, sua razão, parecia proporcionar-lhe iluminação. Em outras palavras, dava-lhe respostas pessoais para muitas de suas experiências. Devido a esse poder atribuído à razão, ela era associada ao aspecto divino do homem. Dizia-se que a razão era um atributo da alma. Plotino, filósofo neoplatônico,disse que a razão é:”alma contemplativa”.

Como deveriam esses três aspectos da natureza do homem ser integrados? Qual deveria ser o poder controlador da natureza humana? Platão relacionou esses três aspectos com as classes da sociedade proposta em sua “Republica Ideal”. Segundo ele, a razão no homem deveria ser como a classe dirigente dos filósofos; a vontade, como a classe guerreira, e deveria fazer valer os ditames da razão; e o corpo deveria ser como os trabalhadores para prover o sustento da razão e da vontade.

A metafísica e o misticismo modernos, reconciliados com a ciência, repudiaram a velha idéia da Trindade e, com essa rejeição, muitas superstições, duvidas, e muitos temores, foram dissipados. Sua primeira proposição e doutrina é a de que “todos os fenômenos, a despeito de suas manifestações, estão inter-relacionados”. Não é reconhecida uma verdadeira dualidade, como de “material, de um lado, e imaterial, de outro”. Esse moderno conceito místico e metafísico também não interpreta que um estado da natureza humana é bom e outro é mau. Sustenta que essas noções são apenas relativas aos valores da mente finita do homem.

A noção de dualidade pressupõe que um estado, uma coisa ou condição,criou a outra. Por que deveria isto ser feito? Que parte de quaisquer duas partes é a superior? Ou por que uma permitiria que a outra fosse inferior ou oposta a ela? Estas questões perseguiram a teoria dualista da realidade durante séculos. Em conseqüência, a metafísica moderna propõe um estado “monístico”.

O ESTADO MONISTICO
O estado monístico, esse “UM”, é o COSMO. Ele é eternamente ativo. O ser, o Cosmo, é ativo porque é a realização do que ele é. O ser é inerentemente positivo, dinâmico. A idéia que o homem tem de não-ser, de um estado negativo, é apenas inferida de ser. É a suposição da ausência daquilo que existe. Inversamente, porém, um nada absoluto não sugere um algo.

A segunda proposição metafísica, é a de que o Cosmo não tem forma. Nenhuma coisa ou expressão, em si mesma, é o Cosmo. Como disse Spinoza, filósofo holandês, o SER É INFINITO EM SEUS ATRIBUTOS. O Cosmo, portanto, em sua eterna atividade, está sempre mudando suas manifestações. Ele é um espectro de energias pulsantes. O espectro eletromagnético e aquilo que chamamos de matéria e vida, tudo isso faz parte dele. O Cosmo é infinito em sua variedade de expressões, mas a percepção que o homem tem das mesmas, sua capacidade de tomar consciência delas, é limitada. Naquilo que o homem chama de TEMPO, algumas dessas manifestações do Cosmo podem lhe parecer constantes; em outras palavras, podem parecer ter uma forma eterna. Mas, novamente, o tempo e a mudança são relativos à consciência e à experiência do homem.

A terceira doutrina principal é a de que, em essência, o Cosmo é o mesmo. Nenhuma de suas expressões tem qualidade superior a de nenhuma outra. Pensar num aspecto do Cosmo como divino e em outros como não divinos é raciocínio humano falaz – é julgar manifestações cósmicas relativamente a seus efeitos mortais.

A ATIVIDADE DO SER
A metafísica moderna tem uma explicação para a atividade do Ser, do Cosmo. Ela propõe que ele oscila entre dois estados, ou pólos, de sua própria natureza. Um pólo é expansão;o outro, contração. Mas essa expansão não deve ser entendida no sentido comum da palavra. Não é um acréscimo, ou seja, crescimento. Não é adição de algo a si mesmo. Como o Cosmo, ou Ser, é TUDO, não há nada que possa ser acrescentado a ele.

Podemos usar a analogia de uma bola de borracha elástica. Se a apertarmos, ela parece diminuir. Na verdade, apenas concentramos sua substancia. Quando aliviamos a pressão, ela se expande novamente:no entanto, não acrescentou nada a sua substancia para se expandir. Conseqüentemente, há polaridades opostas geradas no Ser por essa expansão e contração. Podemos pensar no estado de contração como relativo à “polaridade positiva”, A chamada expansão, por sua densidade menor, tem polaridade ‘negativa’.

É essa pulsação que produz todas as energias e os fenômenos do Cosmo. As energias que assim se produzem guardam então relação umas com as outras, como pólos positivos e negativos. Atraem e repelem, como a ciência demonstra.

Já se tem dito que a natureza abomina o vácuo;ou seja, o SER está continuamente se esforçando para existir. E isso é a própria necessidade do Cosmo. Aquilo que se apercebe da sua necessidade de ser é consciência. Por conseguinte, a metafísica e o misticismo modernos perpetuam um conceito tradicional. Trata-se de que o Cosmo é “AUTOCONSCIENTE”.

A consciência do Ser funciona de vários modos em todas as expressões do Cosmo. Há consciência mesmo na matéria inanimada. Ela está presente na estrutura nuclear da matéria e se manifesta nas polaridades positiva e negativa a que a matéria se conforma. E também no núcleo positivo da célula viva e em sua camada externa negativa.

A consciência de “UMA” energia cósmica pode dominar e ter uma outra. Por exemplo, a energia que impregna a matéria e a torna VIVA, tem grande potência. É relativamente mais positiva do que a matéria, que, por contraste, é negativa. Este aspecto superior de consciência e força, então, domina e controla a matéria. Compele a estrutura da matéria viva a se conformar a ela. É por isso que nas moléculas de DNA e RNA da célula viva o desenvolvimento se faz somente numa direção. A célula viva não retrograda em seu padrão. Só grandes interferências podem produzir uma mutação, um desvio.

Há portanto uma combinação de consciência em cada forma viva, por mais elementar que seja. Essa combinação de consciência é transmitida por um processo evolutivo. Torna-se uma crescente “consciência de grupo”, que inclui todos os estágios anteriores da consciência. Como seres humanos, temos a consciência que é a força energética básica, a centelha da vida. Mas temos também, em nosso interior, a consciência de todas as formas de vida de que o homem ascendeu.

Assim como a célula viva tem a consciência impulsora pela qual ela se esforça para existir, o mesmo acontece com o homem. O complexo organismo do homem – cérebro e sistemas nervosos – dota-o de autoconsciência. ELE SABE QUE EXISTE. Torna-se uma entidade em si mesma. Mas as variações de consciência que se manifestam através do organismo complexo do homem produzem diferentes jogos de sensações. Há fenômenos como a intuição, a razão, as emoções e as sensações mais profundas ou impressões morais.

O homem separou e classificou as diferentes sensações e os diversos sentimentos que vivencia. Como já dissemos, ele se imaginou uma tríade. Por analogia, suponhamos que temos várias cordas de metal esticadas, de diversos comprimentos, como num instrumento musical [uma harpa, por exemplo]. Se fazemos uma forte corrente de ar passar por essas cordas, elas vão emitir diferentes sons. No entanto, é o mesmo volume de ar que produz os diferentes sons. O ar apenas faz as cordas de tensões diferentes vibrarem de modos diferentes.

Analogamente, nosso organismo faz com que as variações da consciência universal em nós produzam diferente sensações. O corpo, a mente e a consciência superior do EU que chamamos de ALMA, são apenas efeitos dessa consciência ÚNICA de grupo em nós. A distinção não está na essência e sim nas funções produzidas. É como o fato de que todas as diferentes notas musicais são não obstante som. Somente quando o ser humano compreender esse conceito deixará de exaltar uma função do seu ser com prejuízo das demais.

O Corpo provém da mesma fonte cósmica divina de que provém aquilo que o homem opta por chamar de Alma. Mas o corpo é limitado no serviço que pode prestar ao ser humano global. Concluindo, como disse o poeta Alexander Pope, “o estudo adequado à humanidade é o ser humano”.

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Texto de Ralph M. Lewis.