quinta-feira, 5 de maio de 2011

Schopenhauer_O Mundo Como Mal

Mas o mundo é vontade, tem que ser um mundo de sofrimento, porque vontade quer dizer necessidade e o que é alcançado é sempre menos que o desejado. Para cada desejo satisfeito permanecem dez insatisfeitos. O desejo é infinito; a realização é limitada; - equivale a ‘esmolas dadas a um mendigo que lhe conservam a vida hoje para que sua miséria subsista amanhã...Enquanto nossa consciência estiver cheia da nossa vontade, enquanto nos abandonarmos a malta dos desejos com seu séqüito de esperanças e terrores, enquanto estivermos sujeitos a querer, não teremos felicidade ou paz”. A satisfação nunca satisfaz; nada tão desastroso para um ideal como a realização. “A paixão satisfeita leva com mais freqüência à infelicidade do que a à felicidade. Porque suas exigências tanto se chocam com o bem-estar das criaturas que o destroem”. Cada individuo traz dentro de si uma contradição arrasadora; o desejo realizado desenvolve outro desejo – e assim indefinidamente. “Isto no fundo decorre de ter a vontade de viver de si mesma, porque nada existe fora dela”.

*Em cada individuo a capacidade da dor está determinada de uma vez para sempre; uma medida que não pode ficar vazia, nem ser muito cheia...Se uma grande aflição é de nós afastada, outra, imediatamente a substitui, cujo material já lá estava mas não podia subir a consciência por não haver espaço...Agora que se abriu espaço, veio ocupá-lo.

A vida é mal porque a dor é o estimulo básico da realidade e o prazer, mera cessação da dor. Aristóteles estava certo; o sábio não procura o prazer, mas a libertação dos cuidados e da dor.

*Toda satisfação, ou o que comumente tem nome de felicidade, é na essência negativa...Não temos consciência das bênçãos e vantagens de que no momento gozamos, nem lhes damos valor, como se fossem matéria de curso, porque elas apenas nos satisfazem negativamente evitando a dor. Só depois de perdê-las é que apreendemos o valor que tinham; porque a necessidade, a privação, a mágoa são coisas positivas que se comunicam a nós diretamente...Que levou os Cínicos a repudiar o prazer em todas as suas formas, se não o fato de que a dor está sempre ligada em grau maior ou menor ao prazer?...A mesma verdade se contem no provérbio francês: ‘le mieux est l’ennemi du bien’.

A vida é má porque “quando a necessidade e o sofrimento dão tréguas, o tédio se mostra tão próximo que nos força a procurar diversões” – isto é, mais sofrimento. Ainda que a Utopia socialista fosse alcançada, inúmeros males subsistiriam, porque alguns deles -  como na luta – são indispensáveis a vida; e se todos os males fossem supressos e também a luta, o tédio far-se-ia doloroso. Assim, “a vida oscila como um pendulo entre a dor e o tédio...Depois que o homem transformou todas as penas e tormentos na concepção do inferno nada ficou para o céu senão o tédio”. Quanto maiores os nossos sucessos na vida, maior o nosso tédio. “Assim como a necessidade é o flagelo do povo, o ennui é o flagelo da classe alta. Na classe média o ennui é representado pelos domingos; e a necessidade, pelos outros dias da semana”.

A vida é má porque quanto mais aperfeiçoado o organismo, mais forte o sofrimento. O desenvolvimento da cultura não traz solução.

*Porque a medida que o fenômeno da vontade se faz mais completo o sofrimento se torna mais e mais aparente. Na planta não há sensibilidade e por isso não há dor. Um grau rudimentar de sofrimento aparece nos animais inferiores – infusorios e radiados; no próprio inseto a capacidade de dor é ainda bastante limitada. Começa a aparecer em grau maior com o sistema nervoso dos vertebrados e vai se desenvolvendo em paralelo com a inteligência. Assim, quando a consciência ascende, a capacidade de dor também cresce, e atinge o máximo no homem. E, no homem, mais o individuo conhece ou mais inteligente é, mais sofre – e o dotado de gênio mais que todos.

Aquele que cresce em conhecimento cresce em dor. A própria memória e previsão acrescenta a miséria humana; porque a maior parte dos nossos sofrimentos são antecipados ou retrospectivos; a dor em si é breve. O pensamento da morte nos faz sofrer mais que a própria morte.

Finalmente e acima de tudo, a vida é mal porque a vida é guerra. Em toda a natureza vemos a guerra, a competição, o conflito, e uma alternativa suicida de vitória ou derrota. Cada espécie ‘luta pela matéria, pelo espaço e pelo tempo das outras’.

*A jovem hidra que na hidra ‘mater’ cresce como botão e depois se separa, enquanto está unida ao tronco luta pela presa que se lhe oferece, de modo a roubá-la da irmã que tem ao lado. A formiga-buldogue, da Austrália, ainda nos apresenta ilustração mais frisante; cortada em dois, trava-se entre os pedaços a luta – luta de cabeça e cauda. A cabeça apanha a cauda nos ferrões e a cauda defende-se com o aguilhão; a batalha dura meia hora, até que morram os dois pedaços ou sejam carregados pelas outras formigas. O fato se repete em cada experiência feita...Yunghahn conta ter visto em Java uma planura extensíssima literalmente coberta de esqueletos de tartarugas; vindas do mar para por seus ovos, eram atacadas pelos cães, que as reviravam e as devoravam vivas. Para isso existem as tartarugas...Os tigres por sua vez freqüentemente atacavam os cães...A vontade de viver preá por toda parte e sob diferentes formas é o seu próprio alimento. Vem por fim a raça humana, que pelo fato de dominar todas as espécies considera a natureza propriedade sua. Mas ainda na raça humana se revela o conflito da vontade consigo própria – e temos o ‘homo homini lupus’.

O quadro da vida é de dolorosa contemplação; salva-nos o fato de não o podermos ver inteligentemente.
*Se pudéssemos fazer clara a alguém a visão dos terríveis sofrimentos e misérias a que a vida está exposta, esse alguém seria empolgado pelo horror; e se levássemos um otimista impenitente a percorrer os hospitais, os hospícios, as salas de operação, os cárceres, as câmaras de tortura, as senzalas de escravos, os campos de batalha, os lugares onde se executam os condenados, e se lhe abríssemos ante os olhos todas as escuras espeluncas onde a miséria se esconde da curiosidade vadia e, finalmente, o fizéssemos ver os calabouços dos Ugolinos, ele compreenderia afinal a natureza deste “melhor dos mundos possíveis”. Donde tirou Dante material para o seu inferno senão do mundo real? E fez um verdadeiro inferno com tais elementos...Cada poema épico ou dramático representa uma luta, um esforço, um arranque para a felicidade; nunca uma felicidade completa e duradoura. Os heróis são conduzidos para o objetivo através de mil perigos e dificuldades; e logo que o atingem o pano desce. Isso porque não lhes resta nada mais a fazer e porque a consecução do   fim os desapontou e não lhes melhorou a sorte.

Somos infelizes casados e, não casados, também infelizes. Somos infelizes quando sós e infelizes em sociedade: somos quais porcos amontoados em busca do calor, insatisfeitos com o incomodo da aglomeração e infelizes quando separados. “A vida de cada individuo, se a observamos no conjunto, é quase sempre uma tragédia; mas vista em detalhe tem o caráter de comédia”.
Pense nisto:

*Entrar para uma fabrica em menino e até a velhice permanecer diariamente dez, doze, quatorze horas escutando a mesma operação mecânica equivale a adquirir por preço muito alto a satisfação de respirar. No entanto isso constitui o fado de milhões – e o fado de muitos outros milhões é análogo...E ainda sob a crosta firme do planeta atuam forças poderosas que, se um acidente as puser em liberdade, devem necessariamente destruí-la com todos os seres vivos, como já aconteceu três vezes. O terremoto de Lisboa, o de Haiti e a destruição de Pompéia servem apenas de pequeninas amostras do que é possível suceder.

Em face de tudo isto “o otimismo é uma ironia amarga as desgraças do homem”; e “não podemos dar a Teodiceia de Leibnitz – metódico e largo desdobrar do otimismo – nenhum outro mérito senão o de ter originado o Candide de Voltaire, em que a safada e aleijada justificação de Leibnitz, de que o mal as vezes traz o bem, recebeu uma confirmação por ele não esperada”. Em resumo, “a natureza da vida apresenta-se-nos como calculada para despertar a convicção de que nada merece nosso esforço; de que todas as coisas boas são vaidade, o mundo em todos os seus fins uma bancarrota e a vida em negocio que não paga as despesas”.

Para ser feliz é necessário que a criatura seja ignorante como a juventude. A mocidade considera o querer e a luta como alegrias; nada sabe ainda da insaciabilidade do desejo e da inutilidade da satisfação; desconhece o inevitável da derrota.

*A alegria e a vivacidade da juventude são em parte devidas ao fato de que quando estamos a subir o morro da vida a morte não é visível; só nos aparece do outro lado, no fundo. No termo da vida, cada dia a mais que vivemos nos dá a mesma sensação do criminoso em marcha para o patíbulo...Só sabe como a vida é curta quem a viveu toda...Até os trinta e seis anos podemos ser comparados, no que diz respeito ao modo de usarmos nossa energia vital, aos indivíduos que vivem dos juros do seu dinheiro; o que despendemos hoje temo-lo de novo no dia seguinte. Mas dos trina e seis para cima a posição de um capitalista que entra a gastar seu capital. O medo...desta calamidade faz o amor da posse crescer com a idade...A mocidade é o tempo mais feliz da vida, dizem; creio porém, existi mais verdade no que diz Platão no começo da ‘Republica’ – que o premio deve antes ser dado a velhice porque só então está o homem liberto das paixões animais que até ali o inquietaram...Não esquecer, porém, que quando essas paixões se extinguem o cerne da vida já se foi e só resta a casca; ou, de um outro ponto de vista, a vida se torna uma comédia cujos ‘autores de carne e osso são substituídos por autômatos que lhes vestem os trajes’.

E ao cabo temos a morte. Logo que as experiências começam a coordenar-se em sabedoria, o espírito e o corpo entram a decair. “Tudo oscila por uns momentos e precipita-se para a morte”. E se a morte demora é para brincar conosco a maneira do gato com o rato. “Como o nosso andar é um permanente esforço para não cair, assim a vida do nosso corpo é um continuo esforço para não morrer”. “No magnificente guarda-roupa dos déspotas orientais há sempre um fraco de veneno”. A filosofia do Oriente estabelece a onipresença da morte e dá aos seus filósofos aquele aspecto calmo e aquelas atitudes lentas que decorrem da certeza da brevidade da vida. O medo da morte é o começo da filosofia e a causa final da religião. A média dos homens não pode reconciliar-se com a morte; daí as inumeráveis filosofias e teologias; a crença na imortalidade provêm do medo da morte.

Assim como a teologia é um refugio contra a morte, a loucura é um refugio contra a dor. “A loucura vem como meio de evitar que a memória sofra”; é uma ruptura de salvação na continuidade da consciência; podemos sobreviver a certas experiências ou terrores unicamente esquecendo-os.

*É de muito má vontade que todos nós pensamos de coisas que poderosamente prejudicam nossos interesses, ferem nosso orgulho ou interferem nos nosso desejos; com muita dificuldade nos determinados a submeter essas coisas a um cuidadoso e sério exame do intelecto...Nesta resistência da vontade ao estudo pelo intelecto do que a contraria  está o ponto em que a loucura entra...Se a resistência da vontade contra a apreensão de algum conhecimento chega a ponto de impedir que a operação se faça completa, certos elementos ou circunstancias são suprimidos, porque a vontade não os suporta; e nesse caso, em virtude das necessárias ligações, abre-se espaço para o prazer -  e a loucura aparece. Porque o intelecto abandonou sua natureza para agradar a vontade; o homem passa a imaginar o que não existe. Mas a loucura que assim surge torna-se fonte de insuportáveis sofrimentos; foi o ultimo recurso da natureza acossada -  isto é, da vontade.

O refugio derradeiro é o suicídio e, por estranho que o pareça, aqui a imaginação conquista o instinto. Supõe-se que Diógenes pos termo a vida recusando-se a respirar. Que vitória sobre a vontade de viver! Mas este triunfo é meramente individual; a vontade continua na espécie. A vida ri-se do suicídio e sorri da morte; porque para cada morte deliberada surgem milhares de nascimentos não deliberados. “O suicídio, a destruição de uma existência individual, é ato inútil porque a coisa-em-si – a espécie, a vida, ou a vontade em geral -  permanece não afetada, como permanece o arco-íris por mais rápidas que caiam as gotas que lhe dão origem. Miséria e luta continuarão depois da morte do individuo, e assim será enquanto a vontade dominar o homem.      

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Schopenhauer_O Mundo Como Vontade

1]A Vontade de Viver
Quase sem exceção, os filósofos tem colocado a essência do espírito no pensamento e na consciência; o homem fez-se o animal que conhece, o animal rationale. “Este velho erro universal, este enorme próton pseudos [primeira mentira, erro inicial], tem antes de mais nada de ser posto de banda” [*II,409. Schopenhauer esquece (ou foi daí que partiu?) a enfática declaração de Spinoza: ‘O desejo é a verdadeira essência do homem’. – Ética, Fichte também deu relevo a vontade].”Consciência é a mera superfície do nosso espírito, do qual, como da terra, só conhecemos a crosta”. Sob o intelecto consciente está a Vontade consciente ou inconsciente, um persistente ímpeto vital, uma atividade espontânea, uma força de imperioso desejo. O intelecto pode as vezes parecer liderar a vontade, mas somente como um guia lidera o viajante; a vontade “é um alentado cego que leva aos ombros um aleijado que enxerga”. Nós não queremos uma coisa por que tenhamos razões para isso; descobrimos razões para isso porque queremos a coisa; chegamos até a elaborar teologias e filosofias para vestir nossos desejos [*Fonte de Freud]. Daí chamar Schopenhauer ao homem “animal metafísico”: os outros animais desejam sem metafísica. “Nada mais desesperante, quando estamos seguindo com um homem por meio de razões e explicações, e nos esforçando por convencê-lo, do que descobrir afinal que ele não quer compreender e que temos de nos avir com a sua vontade”. Veja-se como é duradoura a lembrança das nossas vitórias e rápido o esquecimento das nossas derrotas; a memória está a serviço da vontade [*Ensaios; ‘Conselhos e Máximas’].”Fazendo contas,cometemos erros a nosso favor com mais freqüência do que contra e isto sem a menos intenção desonesta”. “Por outro lado, a compreensão do mais estúpido dos homens se torna aguda quando o objeto em questão diz de perto com seus desejos; em geral o intelecto se desenvolve com o perigo, como na raposa, ou por necessidade, como no criminoso. Mas sempre aparece subordinado e como instrumento do desejo; quando tenta deslocar a vontade, a confusão sobrevêm. Pessoa nenhuma está mais sujeita a erro do que a que age unicamente pela reflexão”.

Considere-se a luto do homem pelo alimento, pela mulher ou pela prole; pode ser isto obra da reflexão? Nunca: a causa está na semi-consciente vontade de viver e de viver bem. “Os homens só aparentemente são puxados; na realidade são empurrados; julgam-se atraídos pelo que enxergam na frente quando na verdade são propelidos pelo que sentem – por instintos de cuja operação as mais das vezes eles não tem nenhuma consciência. O intelecto é meramente o ministro dos negócios exteriores; “a natureza o criou para o serviço da vontade individual. Por isso só conhece das coisas enquanto elas fornecem motivos para a vontade; e não cura de aprofundá-las, ou compreendê-las na verdadeira essência” [*Fonte de Bérgson].”A vontade é o único elemento permanente e imutável do espírito...é a vontade que, ‘através da continuidade de propósito’, dá unidade a consciência e liga todas as idéias e vontades, acompanhando-os como uma eterna harmonia”.
O caráter reside na vontade, não no intelecto; o caráter também é uma continuidade de propósito e atitude; e isto é vontade. O povo está certo quando prefere ‘coração’ a ‘cabeça’; o povo sabe [porque não raciocinou a respeito] que uma “boa vontade” é algo mais profundo e de mais confiança que uma cabeça clara; e quando o povo diz de um homem que é “fino”, que “sabe” ou é “hábil” implica nessas palavras a sua desconfiança.”Qualidades brilhantes de espírito movem a admiração,mas nunca a afeição; e ‘todas as religiões prometem recompensas para a boa vontade ou o ‘bom coração’, sem se lembrarem de fazer o mesmo para as excelências do intelecto”.

O próprio corpo é um produto da vontade. O sangue, impelido por essa vontade que vagamente chamamos de vida, constrói seus próprios caminhos com abrir estradas no corpo do embrião; e essas entradas aprofundam-se e fecham-se e tornam-se artérias e veias. A vontade de conhecer constrói o cérebro do mesmo modo que a vontade de agarrar constrói as mãos e a vontade de comer constrói o sistema digestivo [*II,486. É esta a idéia de Lamarcj sobre o crescimento e a evolução; desejos e funções compelindo estruturas e produzindo órgãos].Na realidade estes pares – estas formas de vontade e estas formas de carne – são apenas dois lados de um processo ou de uma realidade. A relação torna-se mais clara na emoção, onde o sentimento e as mudanças corporais internas formam uma unidade complexa.

  • O ato de vontade e o movimento do corpo não são duas coisas diferentes e objetivamente conhecidas que o laço da causalidade une; não se relacionam como a causa e efeito; são uma e a mesma fluindo por sendas diversas...A ação do corpo não passa de um ato e vontade objetivado. Isto é verdade em todos os movimentos do corpo; o corpo inteiro nada mais é do que vontade objetivada. As partes do corpo, conseqüentemente, correspondem aos principais desejos por meio dos quais a vontade se manifesta; são a expressão visível desses desejos. Dentes, garganta e intestinos objetivam a fome; os órgãos reprodutores objetivam o desejo sexual...O sistema nervoso constitui as antenas da vontade, espalhadas dentro e fora...Como o corpo humano em geral corresponde a vontade humana em geral, assim a estrutura corporal do individuo corresponde a vontade individualmente modificada – o caráter da pessoa.

O intelecto cansa, a vontade nunca; o intelecto necessita de sono, a vontade trabalha mesmo durante o sono. A fadiga, como a dor, tem sua sede no cérebro; os músculos não ligados ao cérebro jamais se fatigam [como o coração] [*II,424. Mas não haverá algo como a saciedade ou exaustão do desejo? Na fadiga profunda ou na doença a própria vontade de viver desvanece].No sono o cérebro se alimenta; a vontade não requer alimentos. Daí ser grande a necessidade do sono nos trabalhadores cerebrais. [Este fato “não nos deve induzir a dormir demais, porque então o cérebro perde em intensidade e o mais sono resulta apenas em perda de tempo”]. No sono a vida do homem mergulha-se na zona vegetativa, e então “a vontade de acordo com a sua natureza essencial, ou original, não perturbada externamente por nenhuma diminuição de sua força através da atividade do cérebro e do esforço de conhecer que é a mais pesada de todas as funções orgânicas...por isso o poder total da vontade no sono dirige-se para a conservação e melhoramento do organismo. Todas as crises favoráveis a cura dão-se durante o ‘sono’, Burdach estava certo quando afirmou ser o sono o estado natural. O embrião  dorme quase continuamente, e a criança nova muito mais do que vigília. A vida é “uma luta contra o sono: no começo ganhamos terreno; no fim esse terreno é reconquistado. O sono é um pedaço de morte que vem renovar a parte da vida que o dia exauriu”. É o nosso eterno inimigo; ainda quando estamos despertos nos empolga parcialmente. E, afinal de contas, que se pode esperar de cabeças, por melhores que sejam que todas as noites se tornam o cenário dos mais absurdos sonhos e ao acordar tem que retomar a meditação no ponto em que o sono a interrompeu na véspera?

A vontade, pois, é a essência do homem. E não o será da vida em todas as suas formas inclusive a ‘inanimada’ matéria? Não será a Vontade a longamente procurada e já desesperada “coisa em si” – a realidade intima, a essência ultima das coisas?

Experimentemos interpretar o mundo externo em termos de vontade. Onde outros disseram que a vontade é uma forma de força, digamos que a força é uma forma de vontade. Para a pergunta de Hume – Que é causalidade? – responderemos: Vontade. Como a vontade é a causa universal em nós mesmos, assim o é nas coisas; e a não ser que entendamos causa como vontade, a causalidade permanecerá apenas uma formula mágica e mística, na realidade sem sentido. Sem este segredo somo arrastados para meras qualidades como “força”, ou “gravidade”, ou “afinidade”; não sabemos o que são essas forças, mas pelo menos um pouco mais claramente sabemos o que é vontade; seja-nos permitido dizer então que repulsão, atração, combinação, decomposição, cristalização, magnetismo, eletricidade e gravidade são Vontade. Goethe expressou esta idéia no titulo de um dos seus romances, quando a irresistível atração de dois amorosos chamou de die Wahlverwandschaften – afinidade eletivas. A força que impele os amantes e a que arrasta no espaço o planeta, é a mesma.

O mesmo na vida das plantas. Quanto mais descemos na escala das formas de vida, tanto menos vemos o papel do intelecto – mas não o da vontade.

Aquilo que em nós prossegue seus fins por meio do conhecimento, mas nas formas inferiores da vida luta cegamente e sempre de modo invariável, cai em ambos os casos sob a mesma designação – Vontade...A inconsciência é a condição natural de todas as coisas e por isso a base da qual, em todas as espécies de seres, a consciência ressurge para sua mais alta florescência; por conseguinte ainda aí a inconsciência contínua a predominar.   De acordo com isto, a maior parte das existências não tem consciência e age de acordo com as leis da sua natureza, isto é, de sua vontade. As plantas possuem uma analogia de consciência muito fraca; as mais baixas espécies de animais, apenas um luar de consciência. Mas ainda depois de ascender através de toda a série animal até ao homem e sua razão, a inconsciência das plantas, da qual tudo partiu, permanece como fundamento e pode ser percebida na necessidade do sono.

Aristóteles tinha razão: há uma força interna que molda todas as formas, nas plantas e nos planetas, nos seres inferiores e no homem: “O instinto dos animais nos dá a melhor ilustração do que subsiste de teleologia na natureza. Porque é uma ação similar a que é guiada pela concepção de um fim, e é inteiramente sem fim”. A maravilhosa habilidade mecânica dos animais mostra-nos como a vontade precede o intelecto. Um elefante que viajara por toda a Europa e atravessara centenas de pontes, recusou-se a atravessar uma ponte fraca, embora visse que muitos cavalos e homens por ela haviam passado. Um cãozinho novo tem medo de pular de cima de uma mesa; prevê o efeito da queda [porque nele ainda não há nenhuma experiência da queda], não por meio do raciocínio, mas do instinto. Orangotangos aquecem-se em todos os fogos que encontram, mas não alimentam as fogueiras; obviamente tal ação é instintiva e exprime, em vez do intelecto, a vontade.

A vontade, sem duvida, é uma vontade de viver e de viver no ‘maximum’. Como a vida é cara a todos os seres! “Por milhares de anos o galvanismo dormiu no cobre e no zinco, e o cobre e o zinco viveram calmamente ao lado da prata, mas esta se consome em chama logo que os três elementos são reunidos sob certas condições. Ainda no mundo orgânico vemos uma semente seca preservar a adormecida força da vida por três mil anos; e logo que condições favoráveis acorrem, desenvolver-se em planta”. Sapos vivos encontrados nos calcareos levam a conclusão de que ainda a vida animal pode ser suspensa por milhares de anos. A vontade é a vontade de viver; e seu eternos inimigo, a morte. Mas não poderá essa vontade derrotar a morte?

-
2]A Vontade de Reproduzir
Pode, pela estratégia e pelo martírio da reprodução. Cada organismo normal sacrifica-se na maturidade a tarefa da reprodução, desde o aranho que a fêmea fecundada devora ou a vespa que se devota a acumular mel para a prole, até o homem que se mata no esforço de alimentar, vestir e educar os filhos. A reprodução é o propósito ultimo de cada organismo e seu instinto mais enérgico; porque só por meio desse instinto consegue vencer a morte. E para assegurar essa conquista a vontade de reprodução coloca-se inteiramente fora do controle do intelecto; até os filósofos ocasionalmente tem filhos.

*A vontade mostra-se aqui independente do conhecimento e age as cegas, como na natureza inconsciente...Com efeito, os órgãos reprodutores são os focos da vontade e formam o pólo oposto do cérebro, que é a sede do conhecimento...Constituem o principio sustentador da vida, assegurando-lhe a continuidade – e por isso os gregos adoravam o phallus e os hindus, o lingam. Hesíodo e Parmênides disseram com muito acerto ser Eros o principio criador do qual todas as coisas decorrem. A união dos sexos...é realmente o invisível ponto central de toda ação ou conduta, e transparece de tudo, apesar dos véus sobre ele atirados. É a causa da guerra e o fim da paz; a base do que é sério e a mira do que é gracejo; a inexaurível fonte do engenho, a chave de todas as alusões e de todas as insinuações misteriosas [*Fonte da teoria de Fredu sobre o ‘engenhó e a inconsciência’]; vemo-la, a cada momento, como a verdadeira senhora do mundo e na plenitude da sua força sentar-se em seu trono ancestral, de onde olha para baixo com desdém  e sorri dos esforços feitos para manieta-la, escondê-la ou reduzi-la a um papel secundário. [*I, 246, 525; III, 314. Schopenhauer, como todos que sofreram do sexo, exagera seu papel].

A “metafísica do amor” gira em torno desta subordinação do pai a mãe, dos pais ao filho, do individuo a espécie. A lei da atração sexual faz que na escolha do companheiro predomine, embora inconscientemente, a adaptabilidade para procriar.

*Cada qual procura o companheiro que neutralize seus defeitos para que esses defeitos não se transmitam por herança...um homem fisicamente fraco procurará mulher forte...Um vê no outro, como belezas, as perfeições que lhe faltam, e vê até as imperfeições opostas as suas ... As qualidades físicas de dois indivíduos de sexo oposto podem ser tais que, para o propósito de restaurar no quanto possível o tipo da espécie, um se faça o exato complemento do outro – por isso é desejado com exclusivismo.

...A profunda consciência com que consideramos e ponderamos cada parte do corpo...o escrúpulo com que atentamos numa mulher que começa a nos agradar... o individuo aqui age, sem saber, por instigação de algo mais alto...A atração pelo sexo oposto diminui com o afastamento do período mais próprio para a concepção ... mocidade sem beleza ainda atrai; beleza sem mocidade, não...Em todos os casos de amor a coisa visada é a produção de um individuo de uma definida natureza – daí o fato que o essencial no amor não  é reciprocidade de amor, mas sim a posse.

Não obstante, as uniões  mais infelizes são os casamentos por amor – precisamente porque seu objetivo é a perpetuação da espécie e não o prazer dos indivíduos. “Quem se casa por amor viverá em lágrimas”, diz um provérbio espanhol. Metade da literatura sobre o casamento está falseada porque considera amor como companheiragem [mating] e o amor não passa de um arranjo para a preservação da raça. A natureza não mais se preocupa com a felicidade dos pais depois que a reprodução está realizada. Casamentos de conveniência, arranjados pela família, são em regra mais felizes que os de amor. Não obstante, a mulher que contra a vontade dos pais se casa por amor merece admiração; porque “preferiu o que era de mais importância e agiu com o espírito da natureza [mais exatamente, da espécie], enquanto os pais a aconselhavam no espírito do egoísmo individual”. O amor é a melhor eugenia. 

Desde que o amor é uma decepção usada pela natureza, o casamento é atrito do amor – e desilusionante. Unicamente os filósofos poderiam ser felizes no casamento – mas os filósofos não se casam.

*Porque a paixão dependia de uma ilusão que representava o que só tinha valor para a espécie como também sendo valioso para o individuo, a decepção ocorre logo que o fim visado pela espécie é atingido. O individuo descobre que foi vitima da espécie. Se Petrarca houvesse satisfeito sua paixão, não nos teria deixado seus sonetos.

A subordinação do individuo a espécie como instrumento da sua continuidade reaparece na aparente dependência da vitalidade individual as condições da célula reprodutiva.

*O impulso sexual deve ser visto como a vida interior da arvore na qual a vida do individuo cresce [a espécie]; assim a folha nutrida por uma planta ajuda a nutrição dessa planta; ai esta porque aquele impulso é tão forte e procede como ímpeto das profundas da natureza. Castrar um individuo significa cortá-lo da árvore da espécie e pô-lo a fenecer; ocorre logo a degradação de suas forças mentais e físicas. Que o serviço da espécie, isto é, a fecundação, é seguida de momentânea exaustão e enfraquecimento de todas as forças, e em alguns insetos pela morte [Celsus disse que ‘seminis emissio est partis animae jactura’]; que no caso do homem a extinção do poder gerador indica proximidade da morte; que o abuso desse poder encurta a vida, enquanto a temperança no seu uso aumenta todas as forças, especialmente a muscular [e isso era levado em conta no treino dos atletas gregos]; que a mesma restrição prolonga a vida do inseto de uma primavera a outra; tudo isto acentua o fato de que a vida do individuo decorre ou é tomada da vida da espécie...A procriação é seu ponto mais alto; depois de atingi-lo, a vida do individuo rápida ou lentamente deperece, enquanto uma nova vida entra em cena para perpetuar a espécie e repetir os mesmos fenômenos...Assim, a alternação de morte e reprodução constitui o pulsar da espécie...A morte é para a espécie o que o sono é para o individuo...eis a grande doutrina da imortalidade...Porque o mundo inteiro, com todos os seus fenômenos, é a objetividade da vontade indivisível, e a Idéia que se relaciona a todas as outras idéias, como a harmonia se relaciona a uma voz singular...Em Eckermann – ‘Conversações com Goethe’ – encontramos isto:’Nosso espírito é um ser de natureza indestrutível; sua atividade continua pela eternidade. Como o sol, que aos nossos olhos parece pôr-se a tarde, mas que brilha sempre de um modo ininterrupto’. Goethe tomou de mim o simile – não eu dele.

Unicamente no espaço e no tempo sentimo-nos como seres separados; espaço e tempo constituem os ‘princípios de individuação’ que separam a vida em organismos distintos, aparecendo em diferentes lugares e períodos; espaço e tempo não são o Véu de Maia – a ilusão que se esconde a unidade das coisas. Na realidade só existe a espécie, só a vida, só vontade. “Para compreender com clareza que o individuo é apenas o fenômeno e não a ‘coisa-em-si’, ver na ‘constante mudança da matéria a permanência fixa da forma’: isto constitui a essência da filosofia. ‘O motor da história deve ser: ‘Eadem, set aliter’ [As mesmas coisas sob diferentes maneiras]. Mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas.           

*Aquele para o qual os homens e todas as coisas aparecem como meros fantasmas ou ilusões, não tem capacidade para a filosofia...A verdadeira filosofia da história está em perceber que em toda a infindável agitação e variegada complexidade dos acontecimentos é sempre a mesma coisa imutável que permanece diante de nós, prosseguindo os mesmos fins. O historiador filosofo tem que reconhecer o caráter idêntico de todos os acontecimentos...e a despeito de toda a variedade das circunstancias, ver sempre e em toda parte a mesma humanidade...Ler Herodotto é, do ponto de vista filosófico, ter estudado bastante historia...Por toda a parte e sempre. O símbolo da natureza é o circulo – esquema ou tipo da eterna recorrência. [*III,227,267; Wallace,97.Cf. Nietzsche: ‘eterna recorrência’].

Há o pendor para crer que toda a historia constitui uma imperfeita preparação para a era magnífica da qual somos o sal e o vértice; mas esta noção do progresso não passa de vaidade e loucura. “Os homens sensatos em todos os tempos tem sempre dito as mesmas coisas, e os néscios, a imensa maioria, também tem agido do mesmo modo e feito o oposto; e assim continuará a ser. Como diz Voltaire, deixaremos o mundo tão tolo e perverso como o encontramos” [*Introdução da Sabedoria da Vida].

A luz de tudo isto captamos um trágico senso da inexorável realidade do determinismo. “Diz Spinoza [Epistola 62], que se a pedra em trajetória no ar tivesse consciência, havia de julgar-se a diretora do seu movimento. E a pedra teria razão. O impulso é para a pedra o que o motivo é para mim; o que na pedra aparece como coesão, gravitação, rigidez é em sua natureza o mesmo que na minha admito como vontade”. Mas nem na pedra, nem no filosofo a vontade é ‘livre’. Vontade como um todo é livre, porque não há outra vontade que a limite; mas cada parte da Vontade Universal – cada espécie, cada organismo, cada órgão – é irrevogavelmente determinada pelo todo.

*Uma criatura crê-se ‘a priori’ perfeitamente livre nas suas ações individuais e julga que a cada momento pode iniciar nova forma de vida, o que equivaleria a tornar-se outra pessoa. Mas ‘a posteriori’, através da experiência, acaba verificando que não é livre, e sim sujeita a necessidade; que a despeito de todas as resoluções e reflexões sua conduta não muda, e que desde o começo até o fim tem de trazer consigo o caráter que condena e de acordo com ele representar seu papel.