segunda-feira, 18 de abril de 2011

Voltaire_O Ensaio Sobre a Moral

Qual a causa do novo exílio? Foi ter publicado em Berlim “sua obra mais ambiciosa, mais volumosa, mais característica e arrojada” [*Morley,146]. O titulo não entrava em pouco na culpa: Ensaios sobre os costumes e o espírito das Nações e sobre os principais fatos históricos desde Carlos Magno até Luiz XIII. Ele começara-a em Cirey para Mme. Du Chatelet; estimulou-o a escrevê-la a desaprovação, por parte da Marquesa, domado por que se costuma escrever a historia.

É “um velho almanaque”, dissera ela. “Que importa a mim, francesa e que vivo em minha propriedade, saber que Egil sucedeu a Aquin, na Suécia, e que Othman era filho de Toghrul?” Li com prazer a historia dos gregos e romanos, que oferecia, para mim, alguns quadros atraentes. Mas nunca consegui terminar a leitura de alguma historia longa de nossas nações modernas. Mal posso ver ali mais que confusão; uma congerie de pequenos acontecimentos sem nexo ou seqüências e de mil batalhas que nada significam. Renunciei a um estudo que fatiga o espírito sem o esclarecer”.

Voltaire concordou; fez seu Ingênuo dizer: “A historia nada mais é do que um relato de crimes e infortúnios”; e iria escrever a Horace Walpole [15 de julho de 1768]: “Em verdade, a historia dos yorkistas e lancasterianos é bem semelhante a narrativa de proezas de salteadores de estrada”. Mas ele manifestara a Mme.du Chatelet sua esperança de que deveria haver meios de aplicar-se a filosofia à historia, tentando traçar, sob o fluxo dos sucessos políticos, a  historia do espírito humano. [*Robertson,23. Morley,215. Tallentyre, Voltaire nas Suas Cartas, Nova-York, 1919, pág.222].

“Somente os filósofos deveriam escrevê-la”, disse ele.[*Pellissier, 213]. “Em todas as nações a historia é desfigurada pela fabula, até que a filosofia venha esclarecer o homem; e quando ela chega, afinal, em meio a esta escuridão, encontra o espírito humano tão cego por séculos de erros que mal pode libertá-lo; encontra montanhas de cerimônias, fatos e monumentos para provarem mentiras” [*Ensaio sobre os Costumes, Introdução]. “A historia”, prossegue, “não é, afinal de contas outra coisa senão uma série de peças que pregamos aos mortos” [*Em Morley, 220]; transformamos o passado para afeiçoá-lo de acordo com os nossos desejos de futuro e, em ultima análise, “a historia prova que tudo pode ser provado com a história”.

Voltaire afanou-se como um mineiro para encontrar nesse “Mississipi de falsidades” [*Descrição histórica de Matthew Arnold] as palhetas da verdade sobre a verdadeira historia humana. Em anos sucessivos dedicou-se a estudos preparatórios: uma Historia da Rússia, uma Historia de Carlos XII, O Século de Luiz XIV, o Século de Luiz XIII; e por meio destes trabalhos desenvolveu em si aquela intransigente honestidade intelectual que escraviza um homem e o transforma em gênio. “O jesuíta Pére Daniel, que publicou uma Historia da França, espalhou a sua frente, na Biblioteca real de Paris, 1.200 volumes de documentos e manuscritos; passou uma hora, mais ou menos, a examiná-los; depois, voltando-se para Pére Tournemine, o antigo professor de Voltaire, fez retirar tudo aquilo declarando que era “imprestável papel velho que ele dispensava para escrever a historia“[*Brandes, François de Voltaire]. Não se deu o mesmo com Voltaire; lia tudo em que punha as mãos, se tivesse relações com o seu assunto; leu centenas de volumes de memórias; escreveu centenas de cartas aos sobreviventes de acontecimentos celebres; e mesmo depois de publicar suas obras continuava a estudar e a melhorar cada edição.

Mas este acumulo de materiais era simplesmente preparatório; o essencial era um novo método de seleção e concatenação. Meros fatos não seriam de proveito – mesmo que fossem, como raro sucede, fatos verdadeiros. “Pormenores que a nada conduzem são impedimento para a historia, como a bagagem para um exercito; precisamos ver as coisas em ampla perspectiva e isto porque o espírito humano é tão pequeno, que sossobra sob o volume das minúcias” [*Em Morley,275]. Os analistas devem coligir os “fatos” e ordená-los em uma espécie de dicionário histórico, onde os possamos achar quando precisarmos, assim como se acham as palavras.

O que Voltaire procurava era um principio unificador que pudesse servir de fio principal a toda a historia da civilização e convenceu-se de que esse fio era a historia da cultura. Deliberou que em sua historia não cogitaria de reis e sim de movimentos, forças e massas; não de nações, mas de espécie humana; não de guerras, mas da evolução do espírito. “As batalhas e as revoluções são partes mínimas do plano; esquadrões vitoriosos ou vencidos, cidades tomadas e retomadas, são comuns em toda a historia...Suprimi as artes e o progresso do espírito”, que em qualquer época “nada achareis de suficientemente notável para atrair a atenção dos posteros” [*Voltaire em Suas Cartas,40-41].”Quero escrever uma historia não de guerras, mas da sociedade; verificar como viviam os homens no seio de suas famílias e quais as artes que ordinariamente cultivavam...Meu intuito é a historia do espírito humano, não um mero minudenciar de fatos insignificantes; nem me interessa igualmente a historia dos grandes senhores...;mas desejo conhecer quais os fatos que, da barbárie, conduziram os homens à civilização” [*Em Buckle:Historia da Civilização, I, 580]. Este alijar os reis da historia constituía parte da avolumante onda democrática que por fim os alijou do governo; o Ensaio sobre os Costumes iniciou a derrubada dos Bourbons.

E desta forma criou Voltaire a primeira filosofia da historia – a primeira tentativa sistemática para rastrear as correntes da casualidade natural do evolver do espírito europeu; era de esperar que a tal experiência sucedesse o abandono das explicações sobre-naturais; a historia não poderia seguir seu próprio curso enquanto a teologia não o desobstruísse. Como diz Buckle, esse livro de Voltaire lançou as bases da ciência histórica moderna; Gibbon, Niebuhr, Buckle e Grote foram seus devedores e continuadores agradecidos; para todos Voltaire era o caput Nilii – e ainda não foi sobrepujado no terreno que foi o primeiro a explorar.

Mas por que seu melhor livro lhe acarretou o exílio? Para dizer a verdade, porque ofendia a todos. Enraiveceu principalmente o clero, adotando a opinião, mais tarde desenvolvida por Gibbon, de que a vitória rápida do cristianismo sobre o paganismo desintegrara intimamente Roma e a preparara para tornar-se fácil presa dos bárbaros invasores e imigrantes. Enraivou-os ainda por dar espaço menor que o costumado à Judéia e a cristandade, e por falar sobre a China, a Índia e a Pérsia com a imparcialidade de um marciano; com esta nova perspectiva desvendara-se um mundo vasto e diverso; todos os dogmas se esvaneciam, com coisas relativas o infinito Oriente assumia as proporções que a geografia lhe dá; e a Europa subitamente teve a noção de ser ela própria a experiência peninsular de um continente, de uma cultura maior que a sua. Como poderia um europeu perdoar-lhe tão impatriótica revelação?

E o rei decretou que aquele francês, que se atrevia a ver-se primeiro como homem e só depois como francês, jamais poderia por pé, novamente, no território da França.

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