quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O LABIRINTO DO MUNDO_ A Obra mística do Educador Comenius.


Na literatura mística, a obra do educador checo, “João Amós Comenius” [1592-1670], intitulada o “O Labirinto do Mundo”,ocupa lugar de destaque, assim pela beleza da forma como pelo alcance da mensagem válida ainda nos dias atuais.

Escrito logo após a eclosão da Guerra dos Trinta Anos, o livro teve grande sucesso, alcançando várias edições e servindo de alento espiritual para inúmeras pessoas, além de constituir deliciosa sátira da organização social da época.

Comenius era pastor dos Irmãos Morávios, seita religiosa de inspiração hussista, e havia acabado de assumir a administração das escolas de sua igreja espalhadas pela Boêmia, quando a célebre ‘Defenestração de Praga’ veio a dar início à guerra.

Na esperança de dias melhores, o jovem pedagogo refugiou-se nos bosques da Moravia e, instalado em rústico casebre, pôs-se a escrever uma série de opúsculos religiosos dos quais o principal é esse ensaio datado de 1623.

No prefácio, o autor esclarece que a obra não é produto da imaginação ou da fantasia, embora escrita em linguagem alegórica, e sim o relato de suas próprias experiências no trato com as pessoas e com as instituições.

Como hábil psicólogo, Comenius soube, desde os tempos de estudante na escola secundária de Prerov e, depois, em Herbon e Heidelberg, analisar os trabalhos, as mentiras, a ignorância do mundo e concluir como Salomão que debaixo do Sol tudo não passa de vaidade e a vida terrena é uma constante insatisfação.

Para concretizar o seu pensamento sobre a trajetória do homem na face da Terra, ele tomou da tradição hermética duas imagens de profundo simbolismo: o labirinto e a viagem.

A idéia do labirinto remonta ao palácio cretense que o rei Minos mandara construir para encerrar o Minotauro: um entrecruzamente de caminhos que representa o conjunto de provas pelas quais deve passar aquele que pretende chegar ao centro, a fim de captar algo sagrado ou precioso. Por sua vez, a viagem simboliza a busca da verdade e exprime o desejo de mudança interior que leva à descoberta de novos horizontes. Viajar pelo labirinto sem se deixar prender nos desvios das veredas é atingir a unidade perdida, transformando-se em novo ser.

No livro de Comenius, o mundo é apresentado como um labirinto – uma grande cidade cheia de ruas, por onde os homens circulam no afã diário de tirar proveito das coisas terrenas.

Enquanto erram pelo mundo muitas pessoas buscam a felicidade nas riquezas, outras em prazeres, outras na glória e na boa forma e outras no convívio social.

Comenius mostra a ineficácia dessa postura e sugere uma experiência com o divino mediante o recolhimento interior.

À semelhança de Dante na Divina Comédia, o protagonista da narração, o peregrino, põe-se a empreender um viagem. Não, todavia, uma viagem para o além e sim pelo mundo, a fim de encontrar um modo de viver que lhe dê bem poucas aflições e o máximo de sossego e paz de espírito.

Ao viajor, apresentam-se dois guias que, de ordinário, acompanham aqueles que andam pelo mundo: a curiosidade, que descobre tudo o que é oculto, e a opinião, que ensina a compreender as coisas segundo o costume vigente. Cada cicerone coloca uns óculos no peregrino e este sai pelo mundo, um verdadeiro labirinto repleto de ruas, praças, casas e outros edifícios por onde se agitam as pessoas como formigas nos afazeres diários.

O peregrino observa quão diferentes são os homens em suas inclinações pessoais. Uns preferem caminhar,outros correr; outros preferem ficar parados em pé, outros sentados, outros deitados. Alguns apreciam ficar sós, enquanto outros estão sempre reunidos em grupos maiores ou menores...

Percebe, também, a máscara que todos levam ao rosto.

Ao prestar atenção aos seres humanos, descobre-lhes os vícios e defeitos comuns:

“Observando, pois, com atenção, percebi que todos não só na cara, como também no corpo, estavam muito desfigurados. Geralmente eram leprosos, sarnosos ou pesteados, e além disso um tinha focinho de porco, outro os dentes de cão, outros os cornos de boi, outro as orelhas de asno, outro os ombros de basilisco, outro a cauda de raposa, outro as unhas de lobo. Alguns tinham o pescoço de pavão e o levantavam bem alto; outros tinham o penacho de polpa que a todo momento eriçavam; outros tinham os cascos de cavalos,etc.; a maioria, porém, se assemelhava aos maçados.”

Vê que a esses pobres seres faltava compreensão mútua, o que os fazia viver em rixas e discórdias e os levava a ocupações inúteis, a escândalos e a maus exemplos.

No labirinto, a inconstância, o orgulho, a soberba, a vaidade, as enfermidades e a morte.

Condói-se ao ver “como a criatura, destinada à imortalidade, perece tão miseravelmente, tão súbito, de mortes tão variadas. Principalmente quando observei ser regra quase geral que, quando alguém se prepara a passar a vida mais cômoda e longa, reúne os amigos, cuida o mais possível de seus negócios, constrói casas, junta dinheiro e provisões, de repente vem voando a ele a seta da morte e acaba tudo, e quem estava preparando para si uma morada neste mundo, é retirado para fora, e todas as suas obras foram feitas debalde”.

A viagem desdobra-se por todas as ruas dessa cidade curiosa, onde se instalam os exercentes das várias profissões: os industriais, os carroceiros, os eruditos, os médicos, os filósofos, os juristas, os retóricos, os matemáticos, os religiosos e os governantes. À medida que o peregrino os visita, vai se decepcionando com as ocupações, alegrias, aflições, tolices e hipocrisias dos seres humanos.

O que mais lhe causa espécie, entretanto, é que, apesar da inconstância e da mutabilidade da existência humana, os habitantes do labirinto orgulham-se de seus feitos e se desvanecem com seus misteres, embevecidos com sua própria imagem até serem consumidos pela morte.

O viajante tem vontade de fugir do mundo, pois até a sabedoria, personificada na rainha do labirinto, é enganosa. Suas mãos são cheias de lepra e todo o seu corpo é disforme. As conselheiras dessa rainha, as virtudes, não passam de aparências: a vigilância é suspeição, a prudência é astúcia, a afabilidade é lisonja, a valentia é desaforo, o amor é libertinagem, o zelo é raiva, a diligência é escravidão, a inteligência é mera suposição, a devoção não passa de hipocrisia...

Persuade-se de que o saber humano é insuficiente para corrigir a natureza corrompida do homem e trazer a almejada felicidade. No fim, todas as empresas, ainda aquelas honradas em toda a parte, terminam com a morte:

“Ó pobres homens, miseráveis, infelizes. Esta é a vossa última glória, esta a conclusão de tantas obras suntuosas, este é o alvo do vosso saber e da vossa arte, de que tanto vos orgulhais; este é o descanso e a calma anelados e atingidos depois de inumeráveis trabalhos e sofrimentos; esta é a imortalidade que sempre vos prometeis. Oxalá nunca houvera nascido. Oxalá nunca tivera passado pela porta da vida, se depois de todas as vaidades do mundo não me aguardam senão estas trevas e estes horrores...”

No momento em que estava já a despertar em meio a cenário tão negro, o peregrino ouve uma voz que lhe diz: “volta para trás. Regressa para lá donde saíste, volta ao aposento de teu coração. Entra e fecha a porta”.

O viajante obedece e volta-se para o seu interior, onde faz excursão muito mais proveitosa, que o leva a Cristo:

“Ó Senhor meu Deus. Já compreendo que Tu mesmo és tudo; quem possui, não se importa de perder tudo que ao mundo pertence, não se importa por que em Ti tem mais do que sabe querer. Já compreendi que errei vagando pelo mundo e buscando descanso nas coisas criadas. Mas desde já não desejo senão o teu amor. A Ti me entrego agora inteiramente. Fortalece-me, para que eu não torne a cair de TI às coisas criadas, porque assim cometeria novamente aquela estultícia de que o mundo é cheio. Guarda-me a Tua graça, na qual tenho plena confiança.”

Tal experiência transfigura-se e o faz encontrar a verdadeira felicidade. Outros óculos são dados ao peregrino e ele pode assim discernir melhor as vaidades do mundo e distinguir os cristão autênticos que formam uma cidade bem distinta do labirinto: “ com imenso prazer que vi que tudo ali era diferente do mundo. Pois no mundo eu encontrava por todas as partes trevas e cegueiras e, aqui, clara luz; no mundo engano, aqui a verdade; no mundo muitas desordens, aqui uma ordem excelente; no mundo desassossego, aqui tranqüilidade; no mundo cuidados e aflições, aqui contentamento e alegria; no mundo faltas, aqui abundância; no mundo escravidão e opressão, aqui liberdade; no mundo tudo difícil e custoso, aqui tudo fácil; no mundo inúmeros acidentes; aqui só segurança”.

A iluminação vem do alto e o paraíso é o coração humilde, pronto para receber a luz a fim de experimentar o prazer supremos da união com Deus, como se vê no epílogo do livro:

“Tu, ó Senhor, és a plenitude das plenitudes; o nosso coração é intranqüilizável, enquanto não descansa em Ti. Não te ocultes ao meu coração, ó Beleza perfeitíssima. Guia-me, guarda-me, conduze-me para que eu não caia e não erre o caminho que leva a Ti. Faze que eu Te ame com amor eterno, e que não ame outra coisa além de Ti, senão por causa de Ti e em Ti, ó Amor infinito. E o que mais falarei? Aqui estou, sou Teu, eternamente Teu. Renuncio ao céu e à Terra para ter-te a Ti. Leva-me a ti quando quiseres, ó Senhor, meu Deus; eis que estou pronto; chama-me quando e onde e como quiseres. Irei onde me mandares e farei o que ordenares. O Teu Bom espírito me governe e guie por entre as cidades do mundo como em terra plana e limpa e a Tua misericórdia me acompanhe em toda a minha peregrinação e através desta escuridão do mundo me leve até a Luz Eterna.”

É “O Labirinto do Mundo” a grande obra mística de Comenius. Mas é, também, o ponto de partida de sua pedagogia, igualmente mística. Na educação comeniana, a união com Deus é alvo para ser atingido, porque do contrário, o que se aprende, segundo Comenius, não passa de vã jornada, um exercício de mera vaidade. [Texto de Sergio Carlos Covello]

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