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O Gosto e a Língua

Um mestre zen descansava com seu discípulo. A certa altura, tirou um melão do seu alforje, dividiu-o em dois, e ambos começaram a comê-lo. No meio da refeição, o discípulo comentou: - Meu sábio mestre, sei que tudo que o senhor faz tem um sentido. Dividir este melão comigo talvez seja um sinal de que tem algo a me ensinar. O mestre continuou a comer em silêncio. - Pelo seu silêncio, entendo a pergunta oculta – insistiu o discípulo. - E deve ser a seguinte: o gosto eu estou experimentando ao comer esta deliciosa fruta está em que lugar, no melão ou na minha língua? O mestre não disse nada. O discípulo, entusiasmado, prosseguiu: - E como tudo na vida tem um sentido, eu penso que estou perto da resposta a esta pergunta: o gosto é um ato de amor e interdependência ente os dois, porque sem o melão não haveria um objeto de prazer, e sem a língua... - Basta! – disse o mestre. - Os mais tolos são aqueles que se julgam os mais inteligentes, e buscam uma interpretação para tudo! O melão ...

Lord Menuhin e os Opostos

Davos, Suíça, Janeiro 1999. Depois de um dia extenuante no World Economic Fórum, recebo um recado no hotel. Lord Menuhin – que também está em Davos para uma série de conferências – deseja conversar comigo. Minha primeira reação é de incredulidade: “Lord Menuhin? O mais importante músico erudito deste século? Talvez ele tenha me confundido com outra pessoa.” Retorno a ligação e o próprio Menuhin atende ao telefone. Sou convidado a ir a seu concerto; no final, ele estende um livro meu, que lhe tinha sido dado por sua secretária [para minha surpresa, não é o Alquimista] , e que tinha provocado sua curiosidade por meu trabalho. Nos três dias que se seguem – até o final do Fórum – tenho o raro privilégio de conversar, almoçar, conviver com ele. Discutimos um grande projeto para o final de 1999, com o objetivo de pisar no próximo milênio com esperança, mas também com plena consciência dos erros do passado. Menos de um mês depois vem o concerto em Berlim, o fulminante ataque do coração, e ...

Doses de Sincronicidade

Sábado à noite. Vou comprar as revistas da semana, leio uma matéria que me chama especial atenção, e penso: “devia escrever um e-mail para a Anabela Paiva [jornalista que escrevera o artigo]~, cumprimentando-a”. Vou ao computador, procuro seu e-mail, não encontro, e esqueço o assunto. Uma hora mais tarde, tentando criar espaço na estante para novos livros, reparo uma folha de papel – ali estavam os telefones e o e-mail de Anabela. Na tarde deste mesmo sábado, penso se devia usar este texto para dividir com o meu leitor alguns trechos do Livro das Coincidências [Amir Borges Mattos, Ed. Dinâmica], coletânea de fatos que desenrolam de maneira sincronizada. Claro que o ocorrido com o e-mail de Anabela dissipou qualquer dúvida, e aqui vão algumas histórias do livro em questão: ð        O compositor alemão Richard Wagner nasceu em 1813 [a soma destes algarismos totaliza 13]. Compôs 13 óperas, sendo que a primeira delas estreou em um dia 13 -   e uma das m...

Em Buda e na Virgem Maria

O monge vietinamita Thich Nhat Hanh é um dos mais respeitados mestres do budismo no Ocidente. Numa viagem ao Sri Lanka, encontrou seis crianças descalças. “Não eram crianças de favela, e sim do campo; olhando-as, vi que formavam parte da natureza ao redor.” Ele estava sozinho na praia e todos correram em sua direção. Como Thich Nhat Hanh não falava o idioma, limitou-se a abraçá-las e foi retribuído. Em dado momento, porém, lembrou-se de uma antiga prece budista: “Refugio-me no Buda”. Começou a cantá-la e quatro das crianças fizeram o mesmo, batendo palmas e reconhecendo um texto que, talvez, seus pais lhes tivessem ensinado. Thich Nhat Hanh, então, fez sinas às duas crianças que permaneciam caladas. Elas sorriram, juntaram as palmas das mãos, e disseram em páli: “Refugio-me na Virgem Maria”. O som da prece era o mesmo. Naquela praia, naquela tarde, Thich Nhat Hanh diz que encontrou uma harmonia e serenidade que raramente experimentara.          - C...

O que Importa de Verdade

Jean passeava com seu avô por uma praça de Paris. Em determinada altura, viu um sapateiro sendo destratado por um cliente, cujo calçado apresentava um defeito. O sapateiro escutou calmamente a reclamação, pediu desculpas e prometeu refazer o erro. Pararam para tomar café num bistrô. Na mesa ao lado, o garçom pediu a um homem que movesse um pouco a cadeira para abrir espaço. O homem irrompeu numa torrente de reclamações e negou-se. - Nunca esqueça o que viu – disse o avô para Jean. – O sapateiro aceitou uma reclamação, enquanto este homem ao nosso lado não quis mover-se. Os homens úteis, que fazem algo útil, não se incomodam de serem tratados como inúteis. Mas os inúteis sempre se julgam importantes e escondem toda a sua incompetência atrás da autoridade. - Contos do Alquimista_ Paulo Coelho

Dê o Melhor que Você Tem

Há algum tempo, minha mulher ajudou um turista suíço em Ipanema, que se dizia vitima de pivetes. Num sotaque carregado, falando péssimo português, afirmou estar sem passaporte, dinheiro, lugar para dormir. Minha mulher pagou-lhe um almoço, deu-lhe a quantia necessária para que pudesse passar uma noite no hotel enquanto contatava sua embaixada, e foi embora. Dias depois, um jornal carioca noticiava que o tal “turista suíço” era, na verdade, mais um criativo malandro carioca, fingindo sotaque inexistente, abusando da boa-fé das pessoas que amam o Rio e querem compensar a imagem negativa que – justa ou injustamente   - tornou-se o nosso cartão-postal. Ao ler a noticia, minha mulher fez apenas um comentário: “não é isso que irá me impedir de ajudar ninguém.” Seu comentário me fez lembrar a historia do sábio que, certa tarde, chegou à cidade de Akbar. As pessoas não deram muita importância à sua presença, e seus ensinamentos não conseguiram interessar a ninguém. Depois de algum tempo...

Provérbios do Saber Judaico

Alguns provérbios da sabedoria judaica, organizados por Arnaldo Niskier: ð        Dentes: se não podes morder, é melhor não mostrar os dentes. ð        Aprender: aprendi muito com os meus mestres, mais com os meus companheiros, e mais ainda com os meus alunos. ð        Águia: uma águia não caça moscas. ð        Benção: as bênçãos são bênçãos para que abençoa, e as maldições são maldições para quem amaldiçoa. ð        Conteúdo: não olhes a jarra, mas o que ela contém. Há jarras novas que contêm vinho velho e delicioso, e há jarras velhas que nem sequer contêm vinho novo. ð        Elogia: quando você vive bastante, é acusado de coisas que nunca fez, e elogiado por virtudes que nunca teve. ð        Geração: bem aventurada a geração em que o grande aprende com o pequeno. ð ...