quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Visão da Realidade Retifica Todas as Facticidades


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Quem quer ver a Divindade,
Não a verá,
Porque ela é invisível.
Quem quer ouvir a Divindade,
Não a ouvirá,
Porque ela é inaudível.
Quem quer tanger a Divindade,
Não a tangerá,
Porque ela não tem forma.
Nenhum caminho parcial
Conduz à meta total.
Só na visão do Todo se encontra a Divindade
E então a superfície parece tenebrosa escuridão,
Enquanto a profundeza parece luminosa superfície.
Nunca a Divindade é inteligível,
Ela permeia o Universo sem fim
E gira pelo Todo como se fosse o Nada.
A Divindade é uma forma sem forma.
A Divindade é o Ser sem Existir,
É o mais Insondável de todos os insondáveis.
Quem encara a Divindade não lhe vê a face.
Quem segue o Infinito, o verá sempre fugitivo.
Só quem sintoniza com o Infinito,
Esse o conhece realmente,
Como os antigos o conheciam,
Eles, que sabiam que todos os visíveis
Nascem do Invisível.

Explicação: Aqui Leo-Tse frisa, mais uma vez, a verdade fundamental: que a Divindade, o Infinito, o Absoluto, o Uno, não é objeto para a empiria sensorial nem para a análise intelectual; quem quer conhecer o Tao não o deve querer conquistar nem invadir, mas deve ser por ele conquistado e invadido. A ego-vacuidade atrai a cosmo-plenitude – mas nenhuma vacuidade pode criar a plenitude. O silêncio auscultativo da alma escuta o silêncio eloqüente do Espírito. Toda a arte de conhecer Tao está em saber preparar-se para a sua visita, sua revelação, sua invasão.

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Lao-Tse_Tao Te King

Atitude Reta, Suposição para Atos Corretos

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Favor e desfavor geram angústia.
Honras geram dissabores para o ego.
Por que é que favor e desfavor geram dissabores?
Porque, quem espera favor paira na incerteza,
Sem saber se o receberá.
Quem recebe favor, também paira na incerteza:
Não sabe se o conservará.
Por isto causam dissabor
Tanto o favor como o desfavor.
Por que é que as honras geram dissabor?
Todo dissabor nasce do fato
De alguém ser um ego.
E não é possível contentar o ego.
Se eu pudesse libertar-me do ego,
Não haveria mais dissabores.
Por isto:
Quem se mantém liberto de favores e desfavores,
Liberta-se da idolatria do ego.
Só pode possuir o Reino
Quem está disposto a servir desinteressado.
A esse se pode confiar o reino.

Explicação: Estas palavras de Lao-Tse são tão evidentes como a voz da sapiência em si mesma. Toda e qualquer esperança, ou receio, de receber favor ou desfavor, gera inquietação, porque nasce da fonte impura da egoidade a egocracia. Quem nada espera e nada receia, mas tudo aceita serenamente, esse é sábio e feliz, vive na cosmocracia. Todos os nossos males nascem da nossa ego-consciência, e todos os nossos bens brotam da nossa Cosmo-consciência. Permitir que as águas vivas da Fonte Infinita fluam livremente pelos nossos canais finitos – isto é suprema sabedoria e perfeita felicidade.

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Lao-Tse_Tao Te King

A Medida para cada Coisa

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O excesso de luz cega a vista.
O excesso de som ensurdece o ouvido.
Condimentos em demasia estragam o gosto.
O ímpeto das paixões perturba o coração.
A cobiça do impossível destrói a ética.
Por isto, o sábio em sua alma
Determina a medida para cada coisa.
Todas as coisas visíveis lhe são apenas
Setas que apontam para o Invisível.

Explicação: O verdadeiro sábio tem a intuição de que todas as coisas empírico-mentais não são fins em si mesmas, mas apenas meios para alcançar um fim superior.

O profano só conhece os meios e ignora o fim.

O místico só conhece o fim e despreza os meios.

O homem cósmico alcança os fins através dos meios.

É este o homem integral -  que vive universicamente.

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Lao-Tse_Tao Te King

A Atuação do Invisível no Visível

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Trinta raios convergentes no centro
Tem uma roda,
Mas somente os vácuos entre os raios
É que facultam seu movimento.*
O oleiro faz um vaso, manipulando a argila,
Mas é o oco do vaso que lhe dá utilidade.
Paredes são massas com portas e janelas,
Mas somente o vácuo entre as massas
Lhes dá utilidade –
Assim são as coisas físicas,
Que parecem ser o principal,
Mas o seu valor está no metafísico.

  • Lao-Tse se refere, provavelmente, à roda de um moinho de vento, que não funcionaria, se não houvesse interstícios entre as palhetas, por onde passa o vento.

Explicação: O invisível age pelo visível. A metafísica do Uno se revela na física do Verso. A aparente passividade da alma se manifesta pela atividade do corpo. A causa eterna subjaz a todos os efeitos temporários. A essência se revela em todas as existências. Quando o Todo, que é, age pelo Nada, que não é – então Algo começa a existir. Os fatos não crEam valores, mas o valor produz os fatos.

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Lao-Tse_Tao Te King

Rumo à Profundeza da Vida

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O poder do espírito
E a harmonia das forças
Preservam da dispersão a vida.
Assim procedendo, se torna o homem
Semelhante à criança,
Clarificando sempre sua visão
E purificando sempre sua vida.
Segue as suas veredas
Sem jamais aberrar.
Quem conduz seu povo com amor
Permite que ele mesmo se harmonize,
Amparando-o em tempos de fortuna
E nas horas de infortúnio.
Quem possui verdadeira sapiência
Não necessita de erudição,
Sabe crEar valores,
E não os guarda para si,
Sabe agir sem se apegar
À sua atividade,
Sabe conduzir sem impelir –
E nisto reside a finalidade da vida.

Explicação: Saber tratar de coisas externas sem perder a concentração interna, ser místico por dentro e ser ativo por fora; possuir toda a sabedoria intuitiva, sem se derramar pela ciência analítica; poder ser intensamente produtivo sem nada reter para si; poder agir sem ser perder na atividade; poder guiar os outros sem os constranger -  quem isto pode fazer é um sábio.

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Lao-Tse_Tao Te King

Fazer o Necessário e não o Supérfluo

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Só se pode encher um vaso até a borda –
Nem uma gota a mais.
Não se pode aguçar uma faca,
E logo testar a sua agudeza.
Não se pode acumular ouro e pedras preciosas,
Sem ter lugar seguro para guardá-lo.
Quem é rico e estimado,
Mas não conhece a sua limitação,
Atrai a sua própria desgraça.
Quem faz grandes coisas,
E delas não se envaidece,
Esse realiza o céu em si mesmo.

Explicação: O homem sábio deve ser equilibrado em tudo, como o próprio Universo, cujo Uno nunca destoa do Verso. Quando o homem- Ego pretende fazer mais do que o homem-Eu permite, o desequilíbrio é infalível – e o desequilíbrio é a infelicidade do homem. O homem deve em tudo ser universificado, agindo de dentro para fora.
  
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Lao-Tse_Tao Te King

A Sabedoria da Não-Violência

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A Vida verdadeira é como a água:
Em silencio se adapta, ao nível inferior,
Que os homens desprezam.
Não se opõe a nada,
Serve a tudo.
Não exige nada,
Porque sua origem é da Fonte Imortal.
O homem realizado não tem desejos de dentro,
Nem tem exigências de fora.
Ele é prestativo em se dar
E sincero em falar,
Suave no conduzir,
Poderoso no agir.
Age com serenidade.
Por isto é incontaminável.

Explicação: Haverá coisa mais frágil do que a água? Ela, que em pedra dura tanto dá até que fura? Onde não há água não há Vida, a Vida nasce e vive na água, até as células do nosso corpo. A água é o símbolo da fraqueza poderosa, assim como a Vida é a onipotência da impotência.

Tao é eternamente silencioso, por isto realiza todas as coisas poderosas. É um silencio dinâmico, como é o homem sábio, silenciosamente realizador.

Age pelo não-agir.

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Lao-Tse_Tao Te King

Desinteresse, Caminho da Prosperidade

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Eternos são o céu e a terra,
Porque não são auto-existentes,
Porque radicam em algo
Além deles mesmos.
Esta é a razão da sua eternidade.
Assim é o sábio,
Quando não é ego-vivente,
Quando não se interessa por si mesmo.
É por isso que se realiza.
Não cuida do seu ego,
E por isto o seu Eu prospera.
É esta a reta ordem cósmica:
Somente o desinteressado se auto-realiza.

Explicação: Assim como no Universo sideral o Verso da existência não nasce do Verso, mas do Uno da essência, assim também no Universo hominal o ego não se pode perpetuar ou imortalizar pelo próprio ego, mas somente pelo Eu. Quem procura perpetuar-se pelo ego se destrói, mas quem integra o ego no Eu, esse imortaliza o Eu, e, sendo o Eu o Todo, imortaliza também a parte, que é o ego.

Esta verdade da filosofia de Lao-Tse está claramente expressa no Evangelho do Cristo: “Quem quiser salvar a sua vida [ego] perdê-la-á, mas quem perder a sua vida [ego] por amor a mim [Eu] este a salvará.”

Matematicamente, poderíamos ilustrar esta verdade do modo seguinte:  Quem quiser salvar o 10, mas sacrificar o 100, perderá o 100 e o 10; mas quem não se interessa por salvar o 10, salvando somente o 100, salvará tanto o 100 como o 10.

O Tao do Universo é de uma lógica absoluta de pura matemática. Por isto escreveu Einstein: “O principio crEador reside na matemática”.   

Esta filosofia – seja de Lao-Tse, seja do Cisto, seja de Einstein – é genuína Filosofia Univérsica.

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Lao-Tse_Tao Te King

Todos os Vivos nascem e Morrem – mas a Vida é Imortal

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Imperecível é o espírito da profundeza,
Como o seio profundo da maternidade.
Céus e terra radicam no seio da mãe.
São a origem de todos os vivos,
Que espontaneamente brotam da Vida.

Explicação: Lao-Tse, na sua vidência cósmica, enxerga o Universo com um abismo de ilimitadas potencialidades, de cuja essência Infinita brotam sem cessar as existências finitas. Todos os seres vivos, individuais surgem sempre de novo da Vida Universal, quando nascem; e regressam a esse mar imenso de Vida, quando deixam de ser indivíduos vivos – assim como as ondas do oceano nascem do seio das águas imensas e recaem a esse mesmo seio. O vivo nasce quando emerge da Vida, e morre quando mergulha novamente nessa Vida. A Vida é sem principio nem fim, mas os vivos tem principio e fim.

A célebre questão sobre “a origem da Vida”, tão discutida pelos cientistas, é uma questão absurda porque a Vida não tem origem, nem terá fim; somente os vivos tem principio e tem fim. Começar a existir como vivo é nascer, deixar de existir como vivo é morrer – mas o nascer e o morrer nada tem que ver com a Vida. A inexatidão da terminologia é causa de estéreis controvérsias.

A vida é.
Os vivos existem e des-existem.

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Lao-Tse_Tao Te King

Vemos Tao como Nós Somos, e não como Ele É


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O Universo não tem preferências,
Todas as coisas lhe são iguais.
Assim, o sábio não conhece preferências,
Como os homens as conhecem.
O Universo é como o fole de uma forja,
Que, embora vazio, fornece força,
E tanto mais alimenta a chama quanto mais o acionamos.
Quanto mais falamos no Universo,
Menos o compreendemos.
O melhor silencio é escutá-lo em silêncio.

Explicação: O Infinito do Uno não tem atributo algum; mas o Verso do nosso Finito lhe atribui os nossos próprios atributos. Quanto mais o homem se universifica, tanto mais se impersonaliza. O ar que enche um fole não é visível, assim como invisível é a Realidade do sábio. O nosso muito falar nos afasta de Deus, o nosso dinâmico calar atrai Deus até nós. Só quem se integra em Deus sabe o que é Deus.

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Lao-Tse_Tao Te King
           

Transcendência Incognoscível

Tao é a Fonte do profundo silêncio.
Que o uso jamais desgasta.
É como uma vacuidade,
Origem de todas as plenitudes do mundo.
Desafia as inteligências aguçadas.
Desfaz as coisas emaranhadas,
Funde em uma só todas as cores,
Unifica todas as diversidades.
Tao é a Fonte do profundo silêncio.
Atua pelo não-agir.
Ninguém lhe conhece a origem,
Mas é o gerador de todos os deuses.


Explicação: Qualquer finito em demanda do Infinito está sempre a uma distância infinita. Nenhum cognoscente finito poderá compreender o incognoscível do Infinito.

Tao, a Realidade, o Todo, o Transcendente, se nos apresenta como se fosse o Nada, porque aos olhos de nosso Algo humano, o Todo da Divindade, parece ser absoluta vacuidade.

Nenhuma inteligência analítica pode abranger a Realidade Infinita. Tudo que a inteligência explica, implica ou complica, é desfeito, num instante, pela visão intuitiva da Realidade.

O prisma multicor das coisas finitas, que os sentidos percebem e a inteligência analisa, é projeção da Luz Incolor do Infinito.

Todas as coisas várias que o homem percebe e concebe na zona do Verso, são o Uno da Realidade de Tao, que foi vertido [verso] nesses efeitos.

Tao, a Divindade não tem filiação – porque é a única paternidade. Ele é o Uno da Causa única, que  se manifesta no Verso dos efeitos múltiplos.

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Lao-Tse_Tao Te King

Agir pela Não-Interferência

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Não exaltes os homens iminentes.
Para que não surja rivalidade entre o povo.
Não exibas os tesouros raros,
Para que o povo não os ambicione.
Não despertes as cobiças,
Para que as almas não sejam profanadas.
O governo do sábio não desperta paixões,
Mas procura manter o povo na sobriedade,
E dar-lhe as coisas necessárias.
Não lhe oferece erudição,
Mas dá-lhe cultura de coração.
O sábio governa pelo não-agir.
E tudo permanece em ordem.

Explicação: É importante manter a distancia entre o governo e o povo. A democracia meramente horizontal é auto-destruidora. Deve haver, na democracia, um principio de  hierarquia, de desnível, de ectropia; do contrário, o nivelamento entre governante e governados degenera em entropia paralisante – como um lago que não move uma turbina, porque lhe falta o desnível ectrópico da cachoeira. Sendo que o governo meramente democrático é o regime de ego para ego, sem nenhuma referência ao Eu, toda a democracia, sendo liberdade sem autoridade, acaba fatalmente num caos centrifugo, por falta de um principio de coesão centrípeta. Verso sem Uno dá caos – somente Verso regido pelo Uno dá harmonia.

Este capitulo visualiza o futuro da democracia em forma de cosmocracia, que é igualdade horizontal com desigualdade vertical. O governo não pode ser simplesmente um cidadão democrático, mas deve revestir-se também de algo hierárquico ou cósmico.

A “Politeia” [República] de Platão, advoga, basicamente, esse mesmo principio de entropia ectrópica, de nível compensado pelo desnível, de horizontalidade sublimada pela verticalidade.*


[*Sobre esse assunto, leia o interessado o livro “Educação do Homem Integral” de Huberto Rohden – Alvorada – São Paulo]     
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Lao-Tse_Tao Te King

Síntese das Antíteses

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Só temos consciência do belo,
Quando conhecemos o feio.
Só temos consciência do bom,
Quando conhecemos o mau.
Porquanto, o Ser e o Existir,
Se engedram mutuamente.
O fácil e o difícil se completam.
O grande e o pequeno são complementares.
O alto e o baixo formam um todo.
O som e o silencio formam a harmonia.
O passado e o futuro geram o tempo.
Eis porque o sábio age
Pelo não-agir.
E ensina sem falar.
Aceita tudo que lhe acontece.
Produz tudo e não fica com nada.
O sábio tudo realiza – e nada considera seu.
Tudo faz -  e não se apega à sua obra.
Não se prende aos frutos da sua atividade.
Termina a sua obra,
E está sempre no principio.
E por isto a sua obra prospera.

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Explicação: Neste capitulo proclama Lao-Tse  a grande lei da bipolaridade do Universo e de todas as coisas. Nada é somente o Uno, e nada é somente o Verso -  tudo é Universo, unidade na diversidade, equilíbrio dinâmico, harmonia cósmica.

Não há círculos unicêntricos no Universo, há tão somente elipses bicêntricas, quer no mundo dos átomos, quer no mundo dos astros.

E, como o ánthropos é um microcosmo, feito à imagem e semelhança do grande kósmos, deve também o homem obedecer à mesma lei da bipolaridade, que rege o macrocosmo.

Quem só enxerga o belo no belo, e o bom no bom, é unicêntrico, monótono, acósmico, ou anticósmico,  porque unipolarizado. Para ser bipolarizado, univérsico, como o cosmos, deve o homem ver o belo e o feio, o bom e o mau, como duas antíteses complementares, que se integram na grande síntese, sem se diluírem nela. Se o belo e o feio, o bom e o mau fossem duas antíteses contrárias, em vez de complementares, nunca poderiam integrar-se num síntese  harmoniosa, feita da unidade na diversidade.

Esta bipolaridade univérsica rege o mundo infinitamente pequeno dos átomos, onde os elétrons negativos giram elipticamente em torno do seu próton positivo; rege o mundo infinitamente grande dos astros onde os planetas traças a sua órbita elíptica em torno do seu sol; rege op mundo misterioso da eletricidade e da eletrônica, onde luz, calor, movimento, som e cores são produzidas por dois pólos, o ânodo [positivo] e o cátodo [negativo]; rege o mundo de todos os seres vivos superiores, que só existem graças aos pólos masculino-dativo e o feminino-receptivo.

O Ser Infinito, que se revela nos Existires Finitos; o Creador-Uno, que se manifesta nas Creaturas-Verso, Brahman, revelado e velado por Maya – são expressão da bipolaridade do Universo.

Quando então o homem possui a reta experiência cósmica do seu Ser, pratica ele a reta vivencia ética no seu agir; age dinamicamente, sem ruído nem afobação; age extensamente em virtude da sua profunda intensidade. Ensina silenciosamente pelo que ele é internamente, e não pelo que diz ou faz externamente no plano do seu agir. Trabalha intensamente, como diz Krishna, mas renuncia a cada passo aos frutos do seu trabalho;  depois de ter feito tudo o que fazer devia, o sábio diz, segundo as palavras de Cristo: agora sou servo inútil; cumpri a minha obrigação, nenhuma recompensa mereço por isto.

O sábio desaparece sempre por detrás das suas  obras; ele é tão anônimo como Tao, cuja ausência invisível realiza todas as presenças visíveis. É ativo na passividade.

O sábio está invisivelmemte presente em suas obras, e visivelmente ausente de todas elas, porque ele age pelo seu Ser, muito mais que pelo seu Fazer ou Dizer. Age sem Agir. É cosmo-agido, e não ego-agente.

Neste capitulo celebra Lao-tse celebra a apoteose do homem univérsico, cuja invisível Fonte “Eu” faz fluir as águas vivas através dos canais visíveis do seu “ego”, assim como, no cosmo sideral, o Uno Infinito se revela em todos os Versos Finitos.

Toda a sabedoria está em que o Verso [ego] se deixe sempre guiar pelo Uno [Eu]; que este vá sempre na vanguarda, e aquele na retaguarda.

Profano = Verso sem Uno.
Místico = Uno sem Verso.
Cósmico = Uno e Verso _ Universo.
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Lao-Tse_Tao Te King

O Uno e o Verso do Universo

O Insondável (Tao) que se pode sondar
Não é o verdadeiro Insondável
O Inconcebível que se pode conceber,
Não indica o Inconcebível.
No Inominável está a origem do Universo.
O que é Nominável constitui a mãe de todos os seres.
O Ser indigita a Fonte Incognoscível.
O Existir nos leva pelos canais cognoscíveis.
Ser e Existir são a Realidade total.
A diferença entre Ser e Existir,
É apenas de nomes.
Misterioso é o fundo
Da sua Unidade.
Eis em que consiste a sabedoria suprema.
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Explicação: Tao é a Realidade Insondável, o Brahman Absoluto, a Divindade Transcendente, que, como tal, não é acessível ao nosso conhecimento finito. Tao, o Ser Ontológico, ultrapassa todo o nosso conhecer lógico. Só conhecemos a Divindade Transcendente na forma do Deus imanente. O nosso conhecer finito finitiza o Ser Infinito.

Tao é em si mesmo anônimo, inominável. Quando o nominamos, reduzimos a um plano finito o Infinito, relativizamos o Absoluto, parcializamos o Todo, colorimos o Incolor, personalizamos o Impersonal. O que se pode dizer e pensar não é a Realidade Absoluto, que é indizível e impensável. Através dos óculos da nossa finitude humana enxergamos a Infinitude Divina, visualizando-a assim como nós somos, mas não assim como ela é.

O Ser e o Existir, a Essência e a Existência, o Uno e o Verso, constituem o Universo, a Unidade do Real na Diversidade dos Realizados, que é a Realidade Total.

A plenitude do Todo nos afeta como sendo a Vacuidade do Nada. Quem olha diretamente para a pleni-luz solar não enxerga nada – por excesso de Luz. A Essência do Ser é para o nosso conhecer como se fosse o Nada.

Para nós, somente o Algo Existencial é objeto de conhecimento – o Todo Essencial é totalmente incognoscível, como se fosse o puro Nada. Toda a sabedoria consiste em evacuarmos essa Vacuidade, em nulificarmos essa Nulidade, não para enxergarmos o Todo da Essência, mas para sermos invadidos pelo Todo.

Em linguagem de matemática diríamos: o “1” representa o Todo da Essência Infinita; o “0” simboliza o Nada da Não-Essencia; mas, se colocarmos o Nada da não-Essencia do lado direito do Todo da Essência, resulta o Algo da Existência: 10, 100, 1000, etc.

O Infinito gera do seio do Nada o Finito, ou o Algo.

O Algo Existencial é filho do Todo Essencial gerado no seio do Nada.

Brahman, o Pai Infinito, gera os mundos, através do seio de Maya, mãe de Todos os Finitos:1000000.

Os novos algarismos, que costumamos chamar arábicos, tiveram origem na Índia; o “1” simboliza o masculino; o “o” representa o feminino, e da união desses dois nascem todas as Existencialidades.

Intuir esta Verdade é Sabedoria suprema, diz Lao-Tse.

Sabedoria ou Sapiência, não é inteligência. Saber é saborear experiencialmente, intuitivamente, não é pensar analiticamente.

A ciência é o produto da inteligência – a sapiência é dádiva da razão.

A ciência vem do pequeno ego – a sapiência brota da Fonte do Grande Cosmos, que no homem se revela como o Eu e flui pelos canais humanos, se esses estiverem devidamente desegoficados e firmemente ligados à Fonte Cósmica.

A cosmo-plenitude plenifica a ego-vacuidade.
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Lao-Tse_Tao Te King

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Gosto e a Língua

Um mestre zen descansava com seu discípulo. A certa altura, tirou um melão do seu alforje, dividiu-o em dois, e ambos começaram a comê-lo.

No meio da refeição, o discípulo comentou:

- Meu sábio mestre, sei que tudo que o senhor faz tem um sentido. Dividir este melão comigo talvez seja um sinal de que tem algo a me ensinar.

O mestre continuou a comer em silêncio.

- Pelo seu silêncio, entendo a pergunta oculta – insistiu o discípulo.
- E deve ser a seguinte: o gosto eu estou experimentando ao comer esta deliciosa fruta está em que lugar, no melão ou na minha língua?

O mestre não disse nada. O discípulo, entusiasmado, prosseguiu:

- E como tudo na vida tem um sentido, eu penso que estou perto da resposta a esta pergunta: o gosto é um ato de amor e interdependência ente os dois, porque sem o melão não haveria um objeto de prazer, e sem a língua...

- Basta! – disse o mestre.
- Os mais tolos são aqueles que se julgam os mais inteligentes, e buscam uma interpretação para tudo! O melão é gostoso, isto é suficiente, e deixe-me comê-lo em paz!

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Contos do Alquimista_ Paulo Coelho

Lord Menuhin e os Opostos

Davos, Suíça, Janeiro 1999. Depois de um dia extenuante no World Economic Fórum, recebo um recado no hotel. Lord Menuhin – que também está em Davos para uma série de conferências – deseja conversar comigo. Minha primeira reação é de incredulidade: “Lord Menuhin? O mais importante músico erudito deste século? Talvez ele tenha me confundido com outra pessoa.”

Retorno a ligação e o próprio Menuhin atende ao telefone. Sou convidado a ir a seu concerto; no final, ele estende um livro meu, que lhe tinha sido dado por sua secretária [para minha surpresa, não é o Alquimista], e que tinha provocado sua curiosidade por meu trabalho.

Nos três dias que se seguem – até o final do Fórum – tenho o raro privilégio de conversar, almoçar, conviver com ele. Discutimos um grande projeto para o final de 1999, com o objetivo de pisar no próximo milênio com esperança, mas também com plena consciência dos erros do passado.

Menos de um mês depois vem o concerto em Berlim, o fulminante ataque do coração, e a morte deste jovem de 83 anos, cujo violino Einstein teve o privilégio de ouvir. O primeiro judeu a tocar na Alemanha pós-guerra, porque entendeu que a única saída para o mundo era tentar superar as feridas com alegria e entusiasmo. Lord Menuhin será lembrado não apenas como um dos maiores músicos da humanidade, mas também como alguém profundamente comprometido  com o ser-humano, a justiça social, a dignidade que tanto falta às pessoas que hoje tentam controlar nosso destino.

Num desses almoços em Davos, Lord Menuhin colocou-me frente a frente com um brilhante cientista francês e uma [nem tão brilhante] terapeuta americana. O cientista era convictamente ateu, o que provocou uma discussão apaixonada sobre a existência de Deus -  a qual Menuhin, um homem religioso, assistia com um sorriso. No final, quando os ânimos serenaram, Lord Menuhinn comentou da necessidade de sempre lutar contra as injustiças, mas sempre mantendo o respeito pelas opiniões opostas. E todos nós ouvimos uma deliciosa historia judaica:

  • Quando estava em seu leito de morte, Jacob chamou a mulher Sarah:

- Querida Sarah, quero fazer meu testamento. Vou deixar para meu primogênito Abraão metade da minha herança. Afinal de contas, ele é um homem de fé.

- Não faça isso, Jacob! Abraão não precisa de tanto dinheiro. Já tem seu emprego, sua firma, já tem até mesmo fé em nossa religião. Deixe para Isaac, que está vivendo muitos conflitos pessoais sobre a existência de Deus, e ainda não se ajeitou na vida.

- Está bem, deixarei para Isaac. E Abraão ficará com minhas ações.

- Já disse, meu adorado Jacob, que Abraão não precisa de nada! Eu fico com as ações, e poderei prover qualquer um de nossos filhos se algum dia necessitarem.

- Você tem razão, Sarah. Vamos então às nossas propriedades em Israel. Acho que devo deixar para Deborah.

- Deborah? Você enlouqueceu. Jacob. Ela já tem propriedades em Israel. Você quer que se transforme em uma mulher de negócios e termine arruinado seu casamento? Acho que nossa filha Michele precisa muito mais de ajuda!

Jacob, reunindo suas ultimas energias, levantou-se indignado:

- Minha querida Sarah, você tem sido uma excelente esposa, uma excelente mãe, e sei que quer o melhor para cada um de seus filhos. Mas por favor, respeite meus pontos de vista! Afinal de contas, quem é que está morrendo?  É você ou sou eu?
  
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Contos do Alquimista_ Paulo Coelho