sexta-feira, 17 de junho de 2011

Nietzsche_ e Wagner

Cedo, em 1872, Nietzsche publicou o seu primeiro e único livro completo – O Nascimento da Tragédia.

Nunca havia um filosofo falado tanto com tanto lirismo. Dizia dos dois deuses que a arte grega adorara: a principio, Dionisus [Baco], o deus do vinho e da orgia, da vida ascendente, da ação eufórica, da emoção extática e da inspiração, do instinto e da aventura, o deus do canto e da musica, da dança e do drama; depois vinha Apolo, o deus da paz, do lazer, do repouso, da emoção estética e do contemplativismo intelectual, da ordem lógica e da calma filosófica, o deus da pintura, da escultura e da poesia épica. A mais nobre arte grega era uma fusão dos dois ideais – a inquieta força masculina de Dionisus e a calma beleza feminina de Apolo. No drama Dionisus inspirava o côro e Apolo o dialogo; o côro evoluía  diretamente da procissão dos devotos de Dionisus, vestidos de satiros; o dialogi era um comentário, um apêndice a experiência emocional.

O mais profundo traço do drama grego consistia na vitória de Dionisus sobre o pessimismo por meio da arte. Os gregos não eram o povo alegre e otimista que vemos nas modernas rapsódias a seu respeito; conheciam de perto os espinhos da vida e sua trágica brevidade. Quando Midas pergunta a Sileno qual o melhor fado para um homem, a resposta é: ”Miserável raça de um dia, filhos do acidente e da aflição, por que me forçais a dizer o que bom fora não fosse dito? O melhor dos fados é inacessível -  não nascer, não ser. Depois, o melhor fado é morrer cedo”. Evidentemente esses homens tinham pouco que aprender com Schopenhauer ou com os hindus. Mas os gregos escondiam as sombras de sua desilusão com fulgor da arte; de seus próprios sofrimentos faziam a matéria do drama e achavam que é “unicamente como fenômeno estético”, ou como objeto de contemplação ou reconstrução artística, “que a existência do mundo se justifica”. “O sublime é a estilização artística do horrível” [*N.T.,50,183]. Pessimismo vale por sintoma de decadência; otimismo, por sinal de superficialidade; “otimismo trágico”, é estado da alma do homem forte que procura extensão de experiência ainda  a custa da desgraça, e se deleita de saber que a luta é a lei da vida. A tragédia em si é prova de que os gregos não eram pessimistas. “Os dias em que este estado da alma originou o drama esquiliano e a filosofia pré-socrática foram “os tremendos dias da Grécia” [*Correspondência Wagner-Nietzsche].

Sócrates – “tipo do homem teórico”, era um signo do afrouxamento da fibra do caráter grego; a velha rudeza maratoniana, rudeza de corpo e alma, foi sendo mais e mais sacrificada a uma dúbia cultura que envolvia progressiva degeneração da força física e mental.

A filosofia critica substituiu a filosofia poética dos pré-socráticos; a ciência substitui a arte; o intelecto substitui o instinto; a dialética substitui os jogos. Sob a influencia de Sócrates o Platão atleta torna-se um esteta; o Platão dramaturgo torna-se um lógico, um inimigo da paixão, um exilador dos poetas, um “cristão pré-cristão”, um epistemologista. No templo de Apolo, em Delfos, estavam escritas aquelas palavras de desapaixonada sabedoria – gnothe seauton e medem agan [*”Conhece-te a ti próprio” e “Nada em excesso”], que deram a Sócrates e Platão a ilusão de que a inteligência é a única virtude, e a Aristóteles a enervante doutrina da áurea mediocridade. Em sua mocidade um povo produz mitologia e poesia; na decadência, filosofia e lógica. Em sua mocidade a Grécia produziu Homero e Esquilo; em sua decadência deu-nos Euripedes – o lógico transfeito em dramaturgo, o racionalista destruidor de mitos e símbolos, o sentimentalista destruidor do otimismo da era máscula, o amigo de Sócrates substituidor do coro dionisíaco por uma via-lactea de dialéticos e oradores.

Não admira que o oráculo de Delfos classificasse Sócrates como o mais sábio dos gregos e Euripedes como o logo abaixo; e não admira que o instinto infalível de Aristófanes englobasse Sócrates e Euripedes no mesmo ódio, vendo neles os sintomas de uma degeneração de cultura. “É verdade que ambos voltaram atrás; a ultima peça de Euripedes – As Bacantes – representava a sua rendição a Dionisus e o prelúdio do seu suicídio; Sócrates na prisão utilizou-se da musica de Dionisus para aliviar a consciência. “Será ininteligível – devia ele perguntar-se a si mesmo – o que não me é inteligível? Haverá uma zona de sabedoria da qual o lógico esteja banido? Será a arte um correlativo necessário a suplementar da ciência? Mas era tarde; o trabalho do lógico e do racionalista não podia ser desfeito; o drama grego e o caráter grego decaiam. A coisa surpreendente acontecera: “Quando o poeta e o filosofo voltaram atrás, suas tendências já estavam vitoriosas”. Com eles fecha-se a idade dos heróis – o ciclo da arte de Dionisus.

Mas quem sabe se a idade de Dionisus não vai voltar? Não destruiu Kant de uma vez para sempre a razão teórica e o homem teórico? E não nos ensinou Schopenhauer, de novo, a profundidade do instinto e a tragédia do pensamento? E não é Wagner um novo Esquilo, restaurador de mitos e símbolos, unificador da musica e do drama no êxtase dionisíaco? “Da raiz dionisíaca do espírito germânico uma força se ergue sem nada de comum com as primitivas condições da cultura socrática...nominalmente: musica alemã...em sua vasta órbita de Bach e Beethoven e de Beethoven a Wagner”. O espírito germânico por muito tempo refletiu passivamente a arte apolínea da Ítala e da França; que agora o povo alemão compreenda que seus próprios instintos são mais sadios que essas culturas decadentes; que faça uma Reforma na musica como a fez na religião -  derramando de novo na arte e na vida o selvatico vigor de Lutero. Quem sabe se das dores da guerra não brotará para o poço alemão uma nova pleidade de heróis e se do espírito da musica não renascerá a tragédia?

Em 1872 Nietzsche voltou a Basle, ainda fraco de corpo, mas com o espírito a arder de ambição e repugnado com a idéia de consumir-se a prelecionar numa catedra. “Tenho diante de mim trabalho para cinqüenta anos e estou a  marcar passo sob a canga” [*Em Halevy]. Já andava ele um tanto desiludido com a guerra: “O império está destruindo o espírito alemão”, escreveu. A vitória de 1871, derramara um áspero orgulho na alma germânica, e nada podia ser mais nocivo ao seu crescimento mental. Um impulso ímpio em Nietzsche tornava-o inquieto diante de todos os ídolos, e ele determinou atacar o orgulho alemão assaltando o mais respeitado de todos os ídolos – Davi Strauss. ”Entro na sociedade com um duelo; Stendall me dá este conselho”.

No Schopenhauer como Educador” voltava as bateria contra as universidades chauvinistas. “A experiência nos ensina que nada impede tanto o surto de grandes filósofos como o habito de chocar os pensamentos nas universidades oficiais...Nenhum estado ousaria patronizar homens como Platão e Schopenhauer...O estado os teme”. Depois renova o seu ataque no “Futuro das Nossas Instituições Educacionais”; e no “Uso e Abuso da História” ridiculariza a submersão do intelecto germânico nas minúcias da erudição antiquaria. Nestes ensaios já duas de suas futuras idéias encontravam expressão; que a moralidade, assim como a teologia, deve ser reconstruída com base na teoria da evolução, e que a função da vida é produzir “não o melhoramento da maioria, que, tomada individualmente, mostra os tipos de menor valor”, mas “a criação do gênio, o desenvolvimento e a elevação das personalidades superiores”.

O mais ardente destes ensaios é o intitulado “Richard Wagner em Bayreuth”. Nietzsche saudava-o como um Siegfried “que jamais conhecera o medo”, e como o fundador da única arte real, porque era a primeira a fundir todas em uma grandiosa síntese estética; e chamou a atenção do país para a alta significação do próximo festival de Wagner – “Bayreuth significa para nós o sacramento da manhã  no dia da batalha”. Era a voz de um jovem adorador, a voz de um espírito quase femininamente apurado que encontrava em Wagner algo da máscula decisão e coragem que entrariam mais tarde no seu conceito do Super-Homem. Mas o orador era também filosofo e percebeu em Wagner um certo egotismo ditatorial, ofensivo para uma alma aristocrática. Nietzsche não podia conformar-se com o ataque de Wagner à França em 1871 [Paris não havia sido leniente para como Tannhauser!], como também se chocava com o seu ciúme de Brahms.  O tema central deste ensaio, ainda não laudatório, não beneficiava o ídolo: “O mundo vem sendo muito orientalizado e os homens querem agora ser helenizados”. Mas Nietzsche já sabia que Wagner era meio sangue semita.

Depois, em 1876, entrou em cena Bayreuth, com as suas operas wagnerianas por noites e noites sucessivas – sem cortes – e com bandos de wagnerianas, e imperadores e príncipes e magnatas e ricos ociosos tomando o lugar dos devotos pobres. Súbito, lucilou no espírito de Nietzsche o quanto de Geyer havia em Wagner [*Nietzsche admitia Ludwig Geyer, um ator judeu, como o pai de Wagner], o quanto do Anel de Nibelungs corria por conta dos efeitos teatrais e o quanto dos melos ausente na musica havia passado para o drama. ‘Eu havia tido visões de um drama inundado de sinfonia, uma forma emergente do Lied. Mas o internacionalismo da opera arrastou Wagner para outra direção”. Nietzsche não podia segui-lo nessa direção; ele detestava o dramatico e o lirico. “Eu ficaria louco se permanecesse lá”, escreveu. “Espero com terror cada uma dessas longas noites de musica...Não as suporto mais”.

E fugiu sem uma palavra para Wagner e no meio do seu maior triunfo, quando todo o mundo se perdia em extase; fugiu “cansado e refarto de tudo que é feminismo e rapsódia indisciplinada naquele romantismo, naquela mentira idealística, naquele edulcoramento da consciência humana”. E depois, na afastada Sorrento, a quem encontraria? Ao próprio Wagner, descansando do seu triunfo e cheio da nova opera que estava compondo, Parsifal. Iria ser uma exaltação do cristianismo, da piedade, do amor etéreo, de um mundo redimido por um “puro louco” – o “o louco de Cristo”. Nietzsche afastou-se sem dizer uma palavra e nunca mais falou com Wagner. “É-me impossível reconhecer grandeza em quem não tenha candura e sinceridade para  consigo próprio. Do momento em que faço uma descoberta destas, as realizações do homem já nada valem absolutamente para mim”. Ele preferia Siegfried, o rebelde, a Parsifal, o santo, e não perdoava a Ricardo Wagner o ver no cristianismo um valor moral e uma beleza que sobre-excediam os seus defeitos teológicos. No caso Wagner atira-se contra o ídolo com furor.

*Wagner lisonjeia todos os instintos budisticos e niilisticos, e disfarça-os em musica; lisonjeia todas as espécies de cristianismo e todas as formas religiosas de decadência...Richard Wagner... um romântico desesperado e decrépito,desmaiou subitamente ao pé da Cruz. Não haverá nenhum alemão com os olhos para ver, com piedade na consciência para lamentar esse horrível espetáculo? Sou eu, então, o único a quem ele faz sofrer?... E no entanto eu era um dos mais corruptos wagnerianos...Bem, sou o filho deste século, assim como Wagner, - isto é, um decadente; mas tenho a consciência disso e defendo-me.

Nietzsche era mais “apolíneo” do que o supunham; um amante do sutil, e delicado, e refinado – não do selvatico vigor dionisíaco, nem da ternura do vinho, do canto e do amor. “Vosso irmão, com aquele ar de delicada finura, é um companheiro bem desagradável”, disse Wagner a Frau Forster-Nietzsche...”às vezes fica totalmente embaraçado com as minhas brincadeiras – e eu então as redobro” [*Ellis:Affirmations]. Havia muito de Platão em Nietzsche, no seu receio de que a arte dessorasse o homem da dureza; sendo por índole terno, supunha que o mundo inteiro fosse como ele – perigosamente perto de praticar o cristianismo.

Não tinha havido guerras bastantes para saciar este suave professor. E, no entanto, nas horas calmas, sabia que Wagner estava tão certo quanto ele, sabia que a suavidade de Parsifal era tão necessária como a força de Siegfried, e que de algum modo cósmico estas cruéis oposições se fundiam em saudável unidade criativa.

Nietzsche deleitava-se em pensar nessa “amizade estelar”, que ainda o atava, silenciosamente, ao homem que fora a mais valiosa e fecunda experiência da sua vida. E quando, nos momentos lúcidos da sua loucura final, viu um retrato do já falecido Wagner, murmurou com suavidade:”Amei-o muito”.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Nietzsche_A Mocidade

Não obstante, seu pai fora ministro; uma longa linhagem de clérigos estendia-se-lhe atrás, de ambos os lados, e ele próprio permaneceu pregador até o fim. Nietzsche atacou o cristianismo porque em si próprio havia muito do espírito moral dessa fé; sua filosofia era uma tentativa para contrabalançar e corrigir por  meio de violenta contradição uma irresistível tendência para a suavidade, a bondade e a paz; não foi um insulto final da boa gente de Genova o chamar-lhe Il Santo? Sua mãe era uma senhora puritana das mais piedosas, do mesmo tipo da mãe de Kant; e, com um só e desastroso deslize, Nietzsche permaneceu piedoso, puritano e casto qual uma estátua até o fim; daí o seu ataque a piedade e ao puritanismo. Como ardia por ser um pecador, esse irredutível santo!

Nietzsche  nasceu em Rocken, Prússia, a 15 de outubro de 1844, dia do aniversário de Frederico Guilherme IV, rei da Prússia. Seu pai, que havia tutorado diversos membros da família real, rejubilou-se da patriótica coincidência e deu-lhe o nome do rei. “Houve uma vantagem na escolha desse dia para meu nascimento; meu aniversário durante muito tempo coincidiu com uma data de festas publicas” [*Ecce Homo].  

A prematura morte de seu pai deixou-o vitima da santa mulher que dirigia a casa e que o mimou com todos os mimos da sensibilidade feminina. Ele desdorava os meninos das vizinhanças que assaltavam ninhos, faziam razias nos pomares, brincavam de guerra e mentiam. Seus companheiros de escola lhe chamavam o “ministrinho” e um deles o pintou como um “Jesus no Templo”. O deleite de Nietzsche, então, era isolar-se e ler a Bíblia, ou lê-la para outros -  e com tanto sentimento que seus olhos marejavam de lagrimas. Mas nele havia oculto um nervoso estoiscismo; certa vez em que seus colegas duvidaram da historia de Mucio Scevola, Nietzsche acendeu um punhado de fósforos sobre a palma da mão e deixou que ardessem até o fim. Este fato constitui um incidente típico; toda sua vida foi um procurar meios físicos e mentais para endurecer-se na masculinidade idealizada. “O que eu não sou, isso é para mim Deus e virtude”.

Aos dezoito anos perdeu a fé no deus dos seus pais, e passou o remanescente da vida procurando uma nova divindade; julgou tê-la encontrado no Super-Homem. Declarou mais tarde que a mudança se opera facilmente; mas Nietzsche, que tinha o habito de enganar-se a si próprio, não merece fé como biografo. Tornou-se cínico, como os que jogam tudo numa parada e perdem; a religião havia sido o tutano da sua vida e com ela agora ausente sentia-se oco e sem significação. Atravessou um período de agitação sensual com seus colegas de Bonn e Leipzig, e conseguiu vencer a repugnância pelas machices de fumar e beber. Logo, porém, desgostou-se do vinho, da mulher e do fumo; reagiu com grande desprezo contra a biergemüthlickeit do seu país e do seu tempo; gente que bebe cerveja e fuma cachimbos é incapaz de percepção clara e de pensamentos sutis.

Foi por essa época, 1865, que descobriu no Mundo como Vontade e Idéia de Schopenhauer “um espelho no qual vi o mundo, a vida e minha própria natureza descritos com apavorante grandeza” [*Menckjen: The Philosophy of Friedrich Nietzsche]. Levou o livro para seu quarto e devorou-o febrilmente. “Parecia-me que Schopenhauer estava a dirigir-se a mim pessoalmente. Senti seu entusiasmo e como que o via. Cada linha gritava alto por negação, resignação, renuncia” [*Assim Falava Zarathustra, pág.129. Esta obra será referida daqui por diante como “Z”; e as seguintes pelas suas iniciais: O Nascimento da Tragédia, Pensamentos fora de Estação Humano, demasiado Humano. A Aurora do Dia, Gaia Ciência, Além do Bem e do Mal, Genealogia da Moral, o Caso de Wagner, O Crepúsculo dos Ídolos, Anticristo, Ecce Homo, A Vontade de Poder. Talvez a melhor de todas como preparo para o resto seja Além do Bem e do Mal. Zarathustra é obscuro: A Vontade de Poder contem mais substancias do que todos os outros. A biografia mais completa é a de Frau Forters-Nietzsche; a de Halevy, mais breve, é também boa. Nietzsche the Thinker, de Salter, também é recomendável].  O sombrio da filosofia de Shcopenhauer impressionou para sempre o seu pensamento: e não somente quando se fez um devotado seguidor do “Schopenhauer como Educador” [titulo de um dos seus ensaios], mas ainda quando veio a denunciar o pessimismo como forma de decadência, permaneceu um homem infeliz, cujo sistema parecia cuidadosamente feito para a dor, e cuja exaltação da tragédia como a alegria da vida não passava de outra auto-decepção. Unicamente Spinoza ou Goethe poderiam salvá-lo de Schopenhauer; mas embora Nietzsche pregasse aequanimitas e amor fati, nunca os praticou; a serenidade do sábio e a calma do espírito equilibrado jamais o visitaram.

Na idade de vinte e três anos foi chamado para o serviço militar. Devia ter sido isento com base na má vista e em ser filho único de mãe viúva, mas o exercito o exigiu; até os filósofos eram bem vindos como carne de canhão, nos grandes dias de  Sadowa e Sedan. Entretanto, uma queda de cavalo de tal modo lhe ofendeu o peito que o sargento instrutor foi obrigado a desistir da presa. Nietzsche nunca mais se restabeleceu completamente. Sua experiência militar foi tão curta que deixou o exercito com quase tantas ilusões sobre soldados como quando entrou; a dura vida espartana do comandar e obedecer, a rijeza da disciplina entraram a falar a sua imaginação, agora que se via livre da necessidade de realizar o ideal; tornou-se o adorador do soldado porque a sua saúde não lhe permitiu fazer-se um.

Da vida militar passou ao pólo oposto – a vida acadêmica do filosofo; em vez de virar um guerreiro, virou um Ph.D. Aos vinte e cinco foi nomeado para a cadeira de filologia clássica da Universidade de Basle, de cujo palanque podia a seguro administrar as sangrentas ironias de Bismarck. Nietzsche lamentou-se de ter de entrar nessa vida não-heroica: por um lado via-se impelido para uma profissão pratica e ativa, como a medicina; por outro, atraído para a musica. Tornou-se pianista e escreveu sonatas; “sem musica”, diz ele, “a vida seria um erro” [*Cartas e Brandes].

Não longe de Basle, em Tribschen, o gigante da musica, Richard Wagner, residia com a mulher de um outro. Nietzsche foi convidado a passar lá o Natal de 1869. Era ele um entusiasta da musica do futuro e Wagner não desadorava reunir recrutas que lhe rendessem o interesse dos estudantes das universidades. Sob o fascínio do grande compositor começou Nietzsche a escrever o seu primeiro livro, o qual abria com o drama grego e terminava com  O Anel dos Nibelungs, pregando Wagner ao mundo como o moderno Esquilo. Foi para os Alpes afim de escrever em paz, longe do tumulto do mundo, e lá recebeu, em 1870, a noticia do rompimento da guerra entre a Alemanha e a França.

Nietzsche hesitou; o espírito da Grécia, e todas as musas do drama, da filosofia e da musica haviam aposto as mãos sobre ele. Mas não pode resistir ao apelo da pátria; isso era também poesia. “Aqui temos o estado, escreve ele, esse estado de vergonhosa origem, para a maior parte dos  homens um poço de sofrimento que jamais seca, uma chama que os consome em suas freqüentes crises. E todavia quando o estado nos chama, a nossa alma esquece-se de si própria; e ao seu apelo sangrento a multidão é impelida a coragem e alça-se ao heroísmo” [* Halevy: Life of Fred Nietzsche]. Em Frankfurt viu uma tropa de cavalaria atravessando a cidade em magnífico estilo – e ocorreu-lhe a percepção do que iria constituir toda a sua filosofia. “Senti pela primeira vez que a mais forte e mais alta vontade de viver não encontra expressão em uma miserável luta pela vida, mas na Vontade de Guerra, na Vontade de Poder, na Vontade de Dominar” [*Forster-Nietzsche, O jovem Nietzsche]. A má vista o impropriava para a vida guerreira e teve de contentar-se com fomentá-la; e embora visse bastante horrores, nunca realmente conheceu a infinita brutalidade dos campos de batalha que sua alma tímida iria mais tarde idealizar com toda a intensidade imaginada da inexperiência. Ainda para enfermeiro era ele muito delicado; a vista de sangue fazia-o doente; Nietzsche adoeceu e voltou em ruínas para casa. E desde então passou a ter os nervos de um Shelley e o estomago de um Carlyle; a alma de uma donzela dentro da armadura de um guerreiro.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Friedrich Nietzsche_A Linhagem

Nietzsche nasceu filho de Darwin e irmão de Bismarck. Pouco importa que haja motejado os evolucionistas ingleses e os nacionalistas alemães; era habito seu denunciar os que mais o influenciavam -  meio inconsciente de liquidar dividas.

A filosofia ética de Spencer não constituía o corolário mais natural da teoria da evolução. Se a vida é luta na qual os mais aptos sobrevivem, então a força é a virtude suprema e a fraqueza é o defeito único.Bom é o que sobrevive, e o que vence; mau, o que falha. Unicamente a covardia vitoriana dos darwinistas ingleses e a respeitabilidade burguesa dos positivistas franceses e dos socialistas alemães podiam iludir o inevitável desta conclusão. Aqueles homens eram bastante bravos para rejeitar o cristianismo e a teologia cristã, mas não ousavam ser lógicos e rejeitar também as idéias morais, a adoração da fraqueza, da suavidade, do altruísmo que havia brotado dessa teologia. Cessavam de ser anglicanos, católicos ou luteranos, mas não cessavam de ser cristãos. Assim argüia Nietzsche.

*O secreto estimulo dos livre-pensadores franceses, de Voltaire a Augusto Comte, não era permanecer atrás do ideal cristão, mas excedê-lo, se possível. Comte, com o seu ‘viver para outrem’, super-cristianiza o cristianismo. Na Alemanha foi Schopenhauer e na Inglaterra, John Stuart Mill, os que deram maior fama a teoria das afeições simpáticas, da piedade e da utilidade para com os outros, como o principio da ação...Todos os sistemas de socialismo se colocam desassisadamente...sobre a base comum destas doutrinas. [*Citado de Faguet:Lendo Nietzsche].

Inconscientemente Darwin completara a obra dos enciclopedistas: haviam eles removido a base teológica da moral moderna, mas deixando a moralidade intacta e inviolada, suspensa misteriosamente no ar; um haustos de biologia era tudo quanto se tornava necessário para varrer esse remanescente da impostura. Homens que podiam pensar, cedo perceberam o que os mais profundos cérebros de todas as épocas haviam percebido: que nesta batalha a que chamamos vida o que necessitamos não é bondade, mas força; não é humildade, mas orgulho; não é altruísmo, mas resoluta inteligência; que a igualdade e a democracia se chocam contra a seleção natural e a sobrevivência dos mais aptos; que não as massas, mas os gênios são o objetivo da evolução; que não “justiça”, mas poder é o arbitro de todas as diferenças e de todos os destinos. Assim parecia a Nietzsche.

Ora, sendo isto verdadeiro nada mais significante e magnífico do que um homem como Bismarck. Era um homem que conhecia as realidades da vida e que dizia brutalmente que “não há altruísmo entre nações”, e que as questões modernas tem de  ser decididas, não por votos ou com retórica, mas a ferro e sangue. Que vendaval foi ele para uma Europa apodrecida com ilusões de democracia e “idéias”! Em poucos meses Bismarck arrastou a Austria decadente a aceitar sua chefia; em poucos meses humilhou a França ainda bêbada de Napoleão; e nesse breve período não forçou os pequenos “estados” alemães e os pequenos potentados a se fundirem em um poderoso império, verdadeiro símbolo da nova moralidade da força? O recrescente poder militar e industrial da nova Alemanha pedia uma voz; a guerra como arbitro necessitava de uma filosofia que a justificasse. Impossível isso no cristianismo; no darwinismo, sim. Com um pouco de audácia a coisa seria feita.

Nietzsche teve essa audácia e foi essa voz.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Spencer_Critica e Conclusão

O leitor inteligente terá percebido no decurso desta breve analise [*A analise é sem duvida incompleta. A estreiteza do espaço não permite a analise da Educação, dos Ensaios e de largas seções da Sociologia. A lição da Educação tem sido bem apreendida; mas nós reclamamos hoje algum corretivo à vitoriosa asserção de Spencer quanto ao primado da ciência sobre as artes e as letras. Dos ensaios os melhores são os sobre o estilo, o riso e a musica. O Herbert Spencer, de Hugh Helliot, constitui uma admirável exposição] certas dificuldades na argumentação, e apenas necessitará de breves indicações desses pontos fracos. A critica negativa é sempre desagradável, principalmente  tratando-se de uma grande obra; mas faz parte da nossa tarefa mencionar o que o Tempo corroeu na obra de Spencer.

1_ Primeiros Princípios
O primeiro obstáculo é sem duvida o incognoscível. Cordialmente admitimos as prováveis limitações do conhecimento humano; não poderemos talvez devassar o grande oceano da existência, no qual somos vaga passageira. Mas não podemos dogmatizar sobre o assunto deste que em rigorosa lógica a asserção de alguma coisa é  incognoscível já implica necessariamente algum conhecimento da coisa. Através dos seus dez volumes, Spencer mostra na realidade “um prodigioso conhecimento do incognoscível” [*Bowne: Kant e Spencer]. Com disse Hegel: limitar a razão com o raciocínio é querer nadar sem entrar na água. E toda esta lógica sobre a “inconcebilidade”, quanto nos parece remota agora, a proporção que os dias escolares se afastam! Uma maquina não guiada não é muito mais concebível que a Causa Primaria, particularmente se por esta ultima expressão significarmos a soma total de todas as causas e forças do universo. Spencer, que vivia em um mundo de maquinas, tomou o mecanismo como assente; do mesmo modo que Darwin em um mundo de feroz competição individual, viu unicamente a luta pela existência.

E que diremos da tremenda definição da evolução? Explicará alguma coisa? “Dizer, primeiro era o simples e dele evolveu o complexo”, e assim por diante, não é explicar a natureza [*Richte: Darwin e Hegel, pág.60]. Spencer remenda, diz Bérgson, não explica [*Criação Evolutiva, pág.64]; esquece, como mais tarde percebeu, o elemento vital do mundo. Os críticos ficaram evidentemente irritados com a definição; seu inglês alatinado é especificamente chocante em um homem que denunciou o estudo do latim e definiu o bom estilo como o que requer o menor esforço para a compreensão. Algo lhe deve ser concedido, entretanto; não há duvida que se decidiu a sacrificar a clareza imediata a necessidade de concentrar em poucas palavras a lei de toda a existência. Mas apaixonou-se pela sua definição; rola-a na língua como um bombom saboroso e joga com ela interminavelmente. O ponto fraco da definição jaz na suposta “instabilidade do homogêneo”. É um todo composto de partes simples mais instável, mais sujeito a mudanças do que o todo composto de partes dissimilares. O heterogêneo, como mais complexo, pode presumivelmente ser mais instável que o homogeneamente simples. Na etnologia e na política é admitido que a heterogeneidade traz instabilidade e que a fusão de imigrantes num tipo nacional fortalece a sociedade. Gabriel Tarde pensa que a civilização resulta de um aumento de similaridade entre os membros de um grupo através de longos períodos de mutua imitação; aqui o movimento da evolução é concebido como progresso para a homogeneidade. A arquitetura gótica é certamente mais complexa do que a dos gregos, mas não é necessariamente um mais alto estágio de evolução artística. Spencer foi precipitado em admitir que o que era mais velho no tempo era mais simples na estrutura; avaliou em pouco a complexidade do protoplasma e a inteligência do homem primitivo [*Boas: The MInd of Primitive Man]. Finalmente, a definição deixa de incluir o que está hoje inalienavelmente associado com a idéia de evolução – a seleção natural. Talvez que [por imperfeita que possa ser esta noção] o conceito da historia como luta pela existência e sobrevivência dos mais aptos – dos organismos mais aptos, das mais aptas idéias, línguas e filosofias – fosse mais esclarecedor do que a formula de coerência e incoerência, de homo e heterogeneidade, de dissipação e integração.

“Sou um mau observador da humanidade concreta”, disse Spencer, “em vista de muito dado a contemplação do abstrato” [*Autobiografhy]. Está aqui uma perigosa honestidade. O método de Spencer era sem duvida muito dedutivo e aprioristico, diferindo muito do ideal de Bacon ou do processo atual do pensamento cientifico. Tinha, declara seu secretário, “uma inexaurível faculdade de desenvolver argumentos ‘a priori’ e ‘a posteriori’, indutivos e dedutivos, em suporte de todas as proposições imagináveis [*Royce]; e os argumentos ‘a priori’ gozavam de preferência. Spencer começou como um cientista, pela observação; continuou, como um cientista, a fazer hipótese; desse ponto em diante, já não como um cientista, passou a uma seletiva acumulação de dados favoráveis as teses em causa. Os fatos desfavoráveis eram postos de parte. Isto contrasta com o procedimento de Darwin, que, quando defrontado por um fato desfavorável a sua teoria, se apressava em anotá-lo, sabendo que corria o risco de escapar da sua memória muito mais depressa do que um favorável.

2_Biologia e Psicologia
Em uma nota ao seu ensaio sobre o progresso Spencer candidamente confessa que suas idéias sobre a evolução eram baseadas na teoria de Lamarck sobre a transmissibilidade dos caracteres adquiridos e não constituíam uma antecipação de Darwin, cuja idéia central era a seleção natural. Spencer é antes o filosofo do lamarckeanismo que do darwinismo. Ele já estava com quase quarenta anos quando a Origem das Espécies apareceu; e aos quarenta anos o cérebro de um homem já se mostra cristalizado.

Ao lado das dificuldades menores [como reconciliar o principio de que a reprodução decresce a medida que o desenvolvimento avança, como fato do índice de procriação na civilização da Europa ser maior que o dos povos selvagens], o grande defeito da sua teoria biológica reside na excessiva confiança em Lamarck e na sua incapacidade de encontrar uma concepção dinâmica da vida. Quando confessa que a vida “não pode ser concebida em termos fisicoquimicos”, a “admissão torna-se fatal para a sua definição de vida e para a coerência da Filosofia Sintética” [*J.A.Thomson: Herbert Spencer]. O segredo da vida podia ter sido melhormente procurado no poder do espírito para ajustar relações internas e externas do que no quase passivo ajustamento do organismo ao meio envolvente. De acordo com as premissas de Spencer, a adaptação perfeita significaria morte.

Os volumes sobre psicologia mais formulam do que informam. O que já sabíamos é redito em uma terminologia extremamente complexa, que obscurece em vez de esclarecer. O leitor fatiga-se com formulas, definições e questionáveis reduções de fatos psicológicos e estruturas neurais. É verdade que Spencer procura cobrir este abismo do  seu sistema de pensamento argüindo que o espírito é o acompanhamento subjetivo do processo nervoso evoluído de qualquer maneira, mecanicamente, a partir da nebula inicial; mas por que motivo seria este acompanhamento subjetivo adicionado ao sistema neural, não o diz – e aí reside o ponto capital de toda a psicologia.

3_Sociologia e Ética
Magnífica como é sua Sociologia, aquelas 2.000 paginas, entretanto, oferecem muitos pontos vulneráveis. Circula-lhe através da pressuposição de que evolução e progresso são sinônimos e portanto a evolução pode dar ao inseto e a bactéria a vitória final na incansável luta que sustentam com o homem. Não é perfeitamente evidente que o estado industrial seja mais pacifico e mais moral que o feudalismo “militante” que o precede. Atenas viu suas mais destruidoras guerras depois que os senhores feudais cederam o poder a burguesia comercial; e os países da moderna Europa parecem fazer a guerra com perfeita indiferença quanto ao serem industriais ou não. O imperialismo industrial pode ser tão militarista como as dinastias. O mais militarista estado moderno era um dos principais paises industriais do mundo. Ademais, o rápido desenvolvimento industrial da Alemanha parece ter sido ajudado, antes que embaraçado, pelo controle do estado sobre certas fases do transporte e do comercio. O socialismo é obviamente um desenvolvimento do individualismo e não do militarismo. Spencer escreveu em um tempo em que o relativo isolamento da Inglaterra a fez pacifica [na Europa] e quando a sua supremacia no comércio e na industrial a fazia uma firme devota do livre cambio; Spencer ter-se-ia decepcionado se ainda vivesse e visse com que rapidez essa teoria comercial desaparece com a perda da supremacia comercial e industrial, e como o pacifismo desapareceu logo que a invasão da Bélgica pelos alemães ameaçou o isolamento inglês. Spencer exagerou as virtudes do regime industrial; permaneceu quase cego ante a brutal exploração que florescia na Inglaterra antes que o estado interferisse para mitigá-la; tudo quanto ele via “nos meados do século e especialmente na Inglaterra” era “um grau de liberdade individual como nunca se observara antes” [*The Study of Sociology]. Não admira pois que Nietzsche, desgostado do industrialismo, reagisse, a seu turno e exagerasse as virtudes da vida militar [*The Joyful Wisdom].

A analogia do organismo social teria lançado Spencer no estado socialista se sua lógica fosse mais forte que os seus sentimentos; porque o socialismo do estado representa em mais alto grau que o laissez-faire a integração do heterogêneo. Por força de sua própria formula Spencer era compelido a aclamar a Alemanha como o mais altamente evoluído estado moderno. Ele procurou tornear este ponto argüindo que a heterogeneidade envolve a liberdade das partes e que tal liberdade implica um mínimo do governo; mas isto já é uma nota muito diferente da que temos na “heterogeneidade coerente”. No corpo humano a integração e evolução deixam pouca liberdade as partes. Spencer replica que na sociedade a consciência só existe nas partes, enquanto no corpo a  consciência existe no todo. Mas a consciência social – consciência dos interesses e processos do grupo – está tão centralizada na sociedade, como a consciência pessoal o está nos indivíduos; muito poucos de nós possuem qualquer “senso de estado”. Spencer ajudou-nos a nos salvar de um estado socialista regimental a custa do sacrifício da sua lógica.

E tudo por exagerações individualisticas. Devemos lembrar-nos que Spencer fora colhido entre duas épocas; que seu pensamento se havia formado na era do laissez-faire e sob a influencia de Adam Smith, e seus últimos anos transcorreram em um período em que a Inglaterra estava lutando para corrigir, pelo controle social, os abusos do regime industrial. Spencer jamais cessou de repetir os seus argumentos contra a interferência do estado;objetou contra a educação financiada pelo estado e contra a proteção pelo estado dos ingênuos lesados pela finança fraudulenta; e certa vez argüiu que até a direção da guerra devia ser privada e não da competência do estado; também desejou, como acentua Wells, “erguer a penúria publica à dignidade de política nacional”. Spencer levava ele mesmo os seus manuscritos ao impressor, tendo confiança por demais escassa no governo para confiá-los ao correio. Era um homem de intensa individualidade, irritavelmente insistente em ser deixado só; cada novo ato legislativo lhe parecia uma invasão da sua liberdade pessoal; Não podia compreender os argumentos de Benjamim Kidd, ao afirmar que, desde que a seleção natural operava mais e mais sobre os grupos, sobre as classes e sobre a competição internacional, e cada vez menos sobre os indivíduos, uma aplicação mais ampla dos princípios familiais [os mais fracos são ajudados pelos mais fortes] torna-se indispensável para a manutenção da unidade e força do grupo. Por que motivo haveria o estado de proteger seus cidadãos contra a força física insocial e recusar-lhes proteção contra a força econômica antissocial, é ponto que Spencer não tratou. Ele ironizava como infantil a analogia entre o governo e o cidadão como entre o pai e o filho; mas a analogia real é a de irmão ajudando irmão. Sua política foi mais darwiniana do que a sua biologia.

Mas basta de critica. Voltemos novamente ao homem e vejamos de um outro ponto de vista a grandeza de sua obra.

_Conclusão
Os Primeiros Princípios fizeram-no quase imediatamente o mais famoso filosofo de seu tempo. Foi livro traduzido em todas as línguas, inclusive em russo -  e na Rússia teve de enfrentar a perseguição do governo. Spencer foi aceito como o expoente filosófico do espírito da época; e não somente se fez sentir a sua influencia em todo o pensamento da Europa, como ainda afetou o movimento realístico da literatura e da arte. Em 1869 ficou Spencer espantado de ver os Primeiros Princípios adotados como livro de texto na universidade de Oxford. Mais maravilhoso ainda: seus livros começaram, depois de 1870, a dar lucro, e lucros que o puseram em perfeita segurança financeira. Vários admiradores lhe enviaram donativos em dinheiro, que Spencer sempre devolveu. Quando o tzar Alexandre II visitou Londres e exprimiu a Lord Derby o desejo de encontrar-se com os grandes sábios da Inglaterra, Derby incluiu Spencer entre os convidados, ao lado de Tyndall e Huxley. Mas Spencer declinou. Dava-se apenas com alguns íntimos. “Nenhum homem é igual ao seu livro”, escreveu. “O melhor da sua atividade mental vai para o livro, separado da massa dos produtos inferiores com os quais se acham misturados na tarefa diária”. Quando insistiam em vê-lo, punha algodão nos ouvidos e ficava placidamente a ‘ouvir’ o visitante.

Estranho notar -  sua fama decaiu quase tão rapidamente como nasceu. Spencer sobreviveu a sua reputação, e teve no fim da vida a tristeza de verificar que pouca força tinham suas tiradas contra a maré dos legisladores ‘paternalistas’. Havia-se tornado impopular em todas as classes. Os especialistas científicos, cujas searas ele invadira, ignoravam suas contribuições e exageravam seus erros; e os bispos de todos os credos se uniram para condená-lo a uma eternidade de penas. Os laboristas, a principio exultantes com as suas declarações contra a guerra, voltaram-lhe as costas quando Spencer disse o que pensava do socialismo e das ‘trade unios’; e os conservadores, que lhe apreciavam as vistas sobre o socialismo, evitavam-no por causa do seu agnosticismo. “Sou mais Tory que qualquer Tory e mais Radical que qualquer Radical”, disse ele com tristeza. Spencer era morbidamente sincero e ofendia a todos os grupos, falando candidamente sobre todos os assuntos; e depois de simpatizar com os operários como vitimas dos patrões, acrescentou que eles fariam a mesma coisa se as posições fossem invertidas; e depois de simpatizar com as mulheres como vitimas do homem, não pode fugir de acrescer que os homens seriam vitimas das mulheres se estas viessem a dominar. Spencer envelheceu sozinho.

Com a idade, tornou-se mais suave na oposição e mais moderado de opiniões. Sempre se ria do rei ornamental dos ingleses, mas na velhice exprimiu a idéia de que privar os ingleses de seu rei equivalia a privar as crianças dos seus brinquedos. Assim, em religião sentiu o absurdo de perturbar a fé tradicional, quando ela exerce uma influencia benéfica. Spencer começou a compreender que as fés religiosas e políticas são construídas com base em necessidades e impulsos fora do alcance dos ataques intelectuais; e consolou-se de ver o mundo prosseguir em seu curso, apesar dos livros ponderosos que lhe atravessou na órbita. Olhando para trás, viu que fora tolice preferir a fama literária aos prazeres simples da vida. Quando morreu, em 1903, estava com a impressão de que todo o seu trabalho tinha sido inútil.

Mas nós sabemos que não. A decadência da sua fama em vida foi parte da reação inglesa-hegeliana contra o positivismo; a revivescencia do liberalismo o erguerá de novo ao seu lugar de  máximo filosofo inglês do século. Spencer deu a filosofia um novo contato com as coisas e embutiu-a de um realismo que tornou fraca, pálida e tímida a filosofia alemã. Spencer resumiu sua época como ninguém o havia feito desde Dante; e realizou tão superiormente a coordenação de tão vasta área de conhecimentos humanos, que a critica se sente muda diante de tamanha obra. Estamos nós agora de pé nas cumiadas que suas lutas e seus labores nos proporcionaram; parece-nos estarmos acima de Spencer, porque Spencer nos ergue sobre seus ombros. Algum dia, quando o veneno da sua oposição estiver eliminado, havemos de lhe fazer justiça.
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M.L.