quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Corpo_Mente_Alma

Que é unidade?
Estamos acostumados a pensar em unidade como sendo uma simples coisa, estado ou condição. Contudo, a idéia de unidade tem origem na multiplicidade. Quando duas ou mais coisas parecem fundir-se em simplicidade, chamamo-las de unidade. A introspecção do homem, sua investigação de si mesmo, remonta há milhares de anos. Mas raramente o homem podia encarar-se como uma entidade simples.

Havia funções do ser do homem que diferiam notavelmente entre si. Por conseguinte, o homem há muito se imagina com sendo uma unidade de três substancias ou qualidades. Ademais, o relacionamento delas nele é um mistério sobre o qual ele ainda pondera. Em geral, estas três qualidades diferentes do ser do homem são chamados de corpo, mente e alma.

Desta trindade concebida, o homem tem a menor estima pelo seu corpo. Na verdade, ele muitas vezes o tem desprezado. Em suas religiões e filosofia, ele com freqüência submete o corpo ao sacrifício de si mesmo e à auto-mortificação. Em outras palavras, ele tem as vezes negado ao corpo suas necessidades e até mesmo o tem torturado.

A antiga escola filosófica órfica considerava a carne má e corrupta. Essa escola acreditava que o corpo aprisionava o elemento divino, isto é, a alma. Ela ensinava que a alma estava constantemente em busca da liberdade e se considerava que esta liberdade era o vôo da alma de volta a sua origem divina. As escolas socrática e platônica foram muito influenciadas por essa idéia  sobre o corpo.

Filo Judeu, do primeiro século a.C., foi um filósofo judeu, nascido em Alexandria. Na época, as crenças religiosas eram muito influenciadas pela cultura helênica, isto é, grega. Para Filo, Deus transcendia a tudo; Ele era eterno. Mas coeterno com Deus, existindo com Ele, dizia-se haver a matéria. Assim, havia um dualismo – Deus por um lado com a matéria se Lhe opondo do outro. Filo dizia que de Deus desceram os logoi, isto é, forças. Os dois logoi principais eram a bondade e a potencia, ou poder divino. A estes, Filo deu o nome de mensageiros ou intermediários de Deus.

Filo também ensinou que havia logoi menores. Estes menores, dizia ele, foram enredados e se transformaram em matéria. A alma – o logoi – foi aprisionada nessa matéria; portanto, consideravam-na potencialmente má. O homem tornou-se pecaminoso, mau, disso Filo, pelo mau uso de sua força de vontade; em outras palavras, cedeu às tentações de seus sentidos e corporais. Somente pela meditação e contemplação de suas qualidades divinas, declarava ele, é que o homem poderia erguer-se acima da matéria e do corpo. Estas idéias de Filo deixaram impressões fortes nas teologias judaica e cristã. O Novo Testamento reflete estas idéias.

Quais eram as causas principais daqueles conceitos adversos do corpo humano?  Quais são as razões filosóficas por trás deles? Mesmo nas culturas primitivas, o homem considerava que o corpo era evanescente, isto é, estava mudando constantemente. Como a vida vegetal, observava-se que ele declinava e perdia suas qualidades. O corpo podia ser facilmente ferido, destruído até mesmo pelo próprio homem. O corpo, portanto, não sugere nenhuma permanência, imutabilidade ou natureza eterna. Em comparação com os corpos celestes como o Sol, Lua e estrelas, o corpo parecia ser uma criação inferior.

Também para o homem primitivo, os males e dores do corpo pareciam salientar sua falta de pureza. Mesmo os apetites e paixões eram considerados como exemplos das fraquezas do corpo. Eles eram comparáveis às funções corporais dos animais, que o homem julgava lhe serem inferiores.

Mas também havia a segunda qualidade da natureza trina do homem. Era a parte pensante, os processos mentais.  Agrupamos estes sob o titulo de mente, mas existia uma vasta  distinção entre essas funções da mente e as do corpo. Havia uma característica impalpável sobre a parte pensante do homem. Ela não podia ser vista ou desmembrada. O mais impressionante, para o homem, sobre esta parte pensante, era que ela residia dentro dele. Era um algo dinâmico que movia o corpo como o homem preferisse. Este algo interior falava com ele; podia ordenar e implorar, mas era invisível.

Além disso, o corpo agia sobre este algo, sobre esta parte pensante, e esta reação fazia o homem experimentar medo, surpresa, felicidade, tristeza. Qual, então, era o real? Qual a verdadeira identidade ou ser do homem? Aqui nasceu a idéia de que o eu estava encerrado num invólucro. Em geral se considerava que este era inerte, passivo. O corpo era movido somente pelo mundo exterior ou por este algo interior. Considerava-se que o eu, a parte consciente e compreensiva, era o positivo, o ser real.

Vemos aqui o começo do dualismo, da dicotomia, da divisão do homem em duas partes. Esta idéia da divisão da natureza do homem ainda persiste nas religiões e filosofias éticas. Observou-se que esta parte pensante do homem só existia no corpo vivo. Ela partia com a morte, de modo que se lhe concebia como um atributo do que quer que dava vida ao corpo. Observou-se que a vida entrava e saía do corpo com o alento. O alento era o ar; O ar parecia infinito e eterno; portanto, o alento logo recebeu uma quantidade divina dada pelo homem antigo. Por exemplo, no Gênesis 2:7, encontramos: “O Senhor Deus formou, pois, o homem de barro da terra, e soprou-lhe no rosto o fôlego da vida e o homem tornou-se uma alma viva”.

Mas se supusermos que a força vital é divina, ela tem de fazer mais do que simplesmente dirigir as funções orgânicas do corpo. O homem achava que tinha de ter algum propósito superior a ser cumprido no corpo. Independente de como o homem concebe ser a forma Divina, considerava-se que ele possuía uma inteligência superior. Com o desenvolvimento dessa consciência de si mesmo, o homem adquiriu uma autodisciplina cada vez maior. Ele começou a experimentar fortes reações emocionais a certas fases de seu comportamento. Alguns dos atos do homem faziam-no experimentar prazeres; entretanto, nem todos esses prazeres estavam relacionados com as sensações de seus apetites. Havia alguns que eram muito mais sutis. Estas sensações o homem chamou de bem; seu oposto era o mal.

Era fácil para o homem acreditar que era a Essência ou Substancia Divina dentro dele que o mandava ser bom. Considerava-se ser ela a Inteligência do Divino do Homem. Julgava-se igualmente que esta Inteligência era uma parte superior da natureza do homem. Esta terceira qualidade de seu ser o homem chamou de alma.

O homem logo ficou sabendo das ilusões e  enganos dos sentidos. Estes estavam relacionados com o corpo finito e, portanto, não eram considerados uma fonte fidedigna para se chegar à verdade e ao conhecimento. A parte pensante do homem, a razão, parecia dar-lhe iluminação. Em outras palavras, ela dava ao homem respostas pessoais a muitas de suas experiências. Devido a essa eficácia atribuída à razão, ela era associada ao elemento divino do homem. Dizia-se que a razão era um atributo da alma. Plotino, o filósofo neoplatônico, dizia que a razão é “a alma contemplativa”.

De que maneira estes elementos trinos da natureza do homem seriam integrados? Qual deles seria o poder controlador da natureza humana? Platão relacionou esses três elementos com as classes de sociedade propostas para sua republica ideal. Ele disse que a razão no homem devia ser como a classe governante de filósofos; a vontade devia ser como a classe de guerreiros e devia pôr em vigor os ditames da razão; e o corpo devia ser os trabalhadores que provêem o sustento da razão e da vontade.

A metafísica e o misticismo modernos reconciliados com a ciência repudiaram a velha idéia da Trindade e, com a rejeição, muitas superstições, dúvidas e temores foram dissipados. Sua primeira proposição e doutrina são que todos os fenômenos, independente de sua manifestação, estão correlacionados. Eles não reconhecem uma dualidade real tal como material por um lado e imaterial do outro. Este moderno conceito místico e metafísico também não expõe que um estado ou condição da natureza humana é basicamente bom e que outro é mau. Ele afirma que tais conceitos são apenas relativos aos valores da mente humana finita.

A noção de dualidade pressupõe que um estado, coisa, ou condição, criou o outro. Por que deveria ser feito assim? Que parte da qualquer dos dois é a superior? OU por que uma permitiria que a outra fosse inferior ou lhe fosse contrária? Estas são as perguntas que há séculos vêm atribulando a teoria dualista da realidade. Por conseguinte, a metafísica moderna expõe, em vez disso, um estado monístico.

Este estado monístico, este “Um”, é o cosmo. Ele é eternamente ativo. O ser, o cosmo, é ativo porque é o cumprimento do que ele é. O ser é inerentemente positivo, dinâmico. A  idéia de não-ser do homem, um estado negativo, é apenas inferida do ser. É a suposição da ausência do que é. Inversamente, contudo um nada absoluto não sugere um algo.

Diz-se que a Natureza tem aversão ao vácuo; em outras palavras, ela se esforça continuamente por ser. Este esforço por ser é a própria necessidade do cosmo. Aquilo que está cônscio da necessidade do seu ser é consciência. Portanto, a metafísica e o misticismo modernos perpetuam um conceito tradicional. O de que o cosmo é cônscio de si mesmo.

A consciência d ser funciona de várias maneiras por toda expressão do cosmo. Encontramos consciência até na matéria inanimada. Ela está na estrutura nuclear da matéria e se manifesta como a polaridade positiva e negativa inerente a que a matéria obedece. Encontramo-la no núcleo positivo da célula viva e no seu invólucro externo negativo.

A consciência de “Uma” energia cósmica pode dominar e deter outra. Por exemplo, a  energia que impregna a matéria e a torna viva tem grande potência. Ela é relativamente mais positiva do que a matéria que, por contraste, é negativa. Este aspecto superior da consciência e da força então detém e controla a matéria. Ela obriga a estrutura da matéria viva a conformar com ela. Eis por que, nas moléculas DNA e RNA da célula viva, o desenvolvimento é somente unidirecional. A célula viva não retrogada no seu padrão. Somente grandes interferências podem produzir uma mutação, um desvio.

Há, portanto, uma combinação de consciência em cada forma viva, por mais elementar que ela possa ser. Esta combinação de consciência é transmitida por um processo evolutivo. Ela se torna uma consciência de grupo cada vez maior e esta consciência de grupo inclui todos os estágios anteriores de consciência. Como humanos, temos a consciência de que é a força de  energia básica, a centelha de vida. Mas também temos dentro de nós a consciência de toda forma de vida da qual o homem ascendeu.

Assim como a célula viva tem aquela consciência impulsora pela qual ela se esforça por ser, o mesmo acontece com o homem. O complexo organismo do homem – cérebro e sistema nervoso -  lhe dá consciência de si mesmo. Ele sabe que é. Ele se torna uma entidade em si. Mas as variações de consciência que se manifestam através do complexo organismo do homem produzem diferentes conjuntos de sensações. Existem fenômenos como intuição, razão, as emoções e as sensações ou impressões morais mais profundas.
O homem passou a separar e classificar estas variadas sensações e sentimentos que experimenta. Como dissemos, ele se imaginava ser uma tríade. Por analogia, suponhamos que temos várias cordas de metal esticadas, de diferentes tamanhos, como num instrumento musical, uma harpa, por exemplo. Se dirigirmos uma forte corrente de ar através delas, elas emitirão sons diferentes. Mas foi o mesmo volume de ar que produziu os sons diferentes. O ar fez apenas que as cordas, com tensão diferente, vibrassem de maneira diferente.

Da mesma forma, nosso organismo faz com que as variações da consciência universal em nós produzam sensações diferentes. O corpo, a mente e a consciência mais alta do eu, que se  chama alma, são apenas efeitos desta uma consciência de grupo dentro de nós. As distinções não estão na sua essência, mas nas funções produzidas. É como todas as diferentes notas musicais que, não obstante, são som. Somente à medida que o homem passa a compreender este  conceito é que deixará de exaltar uma função de seu ser à custa das outras.

O corpo tem a mesma fonte cósmica divina que aquilo a que o homem prefere chamar de alma. Mas o corpo está limitado a servir ao homem todo. Em conclusão, como disse o poeta Alexander Pope: “O estudo adequado da humanidade é o homem”.
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R.M.L. F.R.C.         
           

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