quarta-feira, 20 de julho de 2011

Jonh Dewey_Ciencia e Política

O que Dewey vê e reverencia como a mais bela das coisas é o crescimento; e tanto que é esta noção relativa, mas especifica, que faz o seu critério ético; refuga assim o absoluto “Bem”.

  • Não perfeição como a meta final, mas o continuo processo de aperfeiçoar, refinar, constitui o alvo da vida...O homem mau é o homem que, pouco importando o bom que tenha sido, começou a deteriorar-se, a tornar-se menos bom. O homem bom é o homem que, pouco importando o moralmente indigno que foi, começa a tornar-se melhor. Esta concepção faz-nos severos no julgar-nos a nós mesmos e humanos no julgar os outros.

E ser bom não significa meramente ser obediente e inofensivo; a bondade sem capacidade é aleijada; e toda a virtude do mundo não nos salvará, se não tivermos inteligência. A ignorância não é uma benção – é inconsciência e escravidão; só a inteligência nos pode fazer colaborar em nossos destinos. Liberdade de vontade não é violação de seqüências causais – é a luminação da conduta pelo conhecimento. “Um médico ou engenheiro é livre em seus pensamentos e ações no grau em que sabe o que está fazendo. Talvez encontremos aqui a chave da liberdade”. Nossa confiança deve ir para o pensamento e não para o instinto; como poderia o instinto ajustar-nos ao meio-ambiente, cada vez mais artificial, que a industria constrói em redor de nós e a rede de  intricados problemas que nos enleia?

  • A ciência física, como a temos hoje, distancia de longe a ciência psíquica. Já dominamos suficientemente o mecanismo físico; mas não adquirimos um conhecimento das condições através das quais valores possíveis se tornem realidades na vida e por isso ainda estamos à mercê do hábito, da sorte e portanto da força...Com o tremendo crescimento do nosso controle da natureza, da nossa habilidade em utilizar a natureza para satisfação de nossas necessidades, a realização atual de fins e o gozo de valores parecem-nos inseguros e precários. A espaços, como que uma contradição nos colhe; mais multiplicamos meios e menos certo é o uso que seremos capazes de fazer deles. Não admira que um Carlyle ou um Ruskin condenem toda a civilização industrial e que Tolstoi clame pela volta ao deserto. Mas o único meio de encarar a situação no conjunto, e com firmeza, é ter em mente que o problema inteiro é de desenvolvimento da ciência e sua aplicação à vida...A moral e a filosofia voltam ao seu primeiro amor: o amor da sabedoria como a fonte do  bem. Mas voltam ao principio de Sócrates equipadas com uma multidão de métodos especiais de testes e exames, com uma enorme massa de conhecimentos organizados e com o controle dos arranjos por meio dos quais a industria, a  lei e a educação podem concentrar-se sobre o problema da participação intensa de todos os homens e mulheres em todos os valores realizados.
Ao contrário da maioria dos filósofos, Dewey aceita a democracia, embora lhe conheça os defeitos. O Alvo da ordem política é auxiliar o individuo a desenvolver-se completamente; e só é alcançado quando cada qual participa, na medida da sua capacidade, na determinação da política e dos destinos do seu grupo. Classes fixas são do tempo das espécies fixas; a fluidez das espécies. A aristocracia e a monarquia são mais eficientes do que a democracia, e também mais perigosas. Dewey desconfia do estado e deseja uma ordem pluralística; na qual o Maximo do trabalho social seja executado por associações voluntárias. Vê na multiplicidade das organizações, partidos, corporações, uniões, etc., uma reconciliação do individualismo com a ação comum. A  medida que estas ...

  • *se desenvolvem em importância, o estado tende a tornar-se mais e mais um regulador e ajustador das relações desses órgãos; definindo os seus limites e a sua atividade e prevenindo ou sanando conflitos...Ademais, as associações voluntárias...não coincidem com os limites políticos. Associações de matemáticos, químicos, astrônomos, negociantes, trabalhadores, igrejas, etc., são transnacionais porque os seus interesses são mundiais. Em sendas como essas o internacionalismo já não é aspiração mas fato, não é ideal sentimental mas força. Todavia esses interesses são embaraçados pelas doutrinas tradicionais das soberanias nacionais, doutrinas ou dogmas que representam a mais forte barreira à formação efetiva de uma mentalidade internacional, única adaptável ao movimento do trabalho, do comercio, da ciência, da arte e da religião de hoje.

Mas a reconstrução política começará quando aplicarmos aos nossos problemas sociais o método experimental e tomarmos as atitudes que deram tamanhos resultados nas ciências naturais. Estamos ainda no estagio metafísico da filosofia política; arremessados com abstrações à cabeça dos adversários e depois de terminada a pugna vemos que nada foi ganho. Não podemos curar os nosso males sociais com ideais por atacado, generalizações como individualismo e ordem, democracia ou monarquia ou aristocracia ou o que seja. Devemos enfrentar cada problema com uma hipótese específica, e não com uma teoria universal: teorias são tentáculos e a vida só pode confiar na experiência.

  • A atitude experimental...substitui a análise detalhada por asserções em grosso, inquéritos específicos por convicções sentimentais, pequenos fatos por opiniões cuja força está em proporção exata com a sua incerteza. É dentro das ciências sociais, da moral, da educação e da política, que o pensamento ainda voga com mais amplas antíteses, oposições teóricas de ordem e liberdade, individualismo e socialismo, cultura e utilidade, espontaneidade e disciplina, atualidade e tradição. O campo das ciências físicas já foi em tempo ocupado com semelhantes vistas “totais”, cujo apelo emocional estava em razão inversa da clareza. Mas com o avanço do método experimental a questão cessou de ser qual das duas teorias em choque tinha direito à arena. Tudo se reduzia a esclarecer um assunto confuso atacando-o em partes. Não conheço nenhum caso em que o resultado final fosse algo equivalente a vitória completa de uma teoria sobre outra.

É neste campo, nesta aplicação do conhecimento humano aos nossos antagonismos sociais, que o trabalho das filosofias deve fazer-se. A filosofia agarra-se, qual tímida solteirona velha, a  problemas e idéias fora da moda; “a direta preocupação com  as dificuldades contemporâneas é deixada à literatura e a política”. A filosofia está hoje afastada das ciências, que uma a uma a largaram sozinha para irem ‘viver’ no mundo produtivo e, qual mãe abandonada pelas filhas, lá ficou ela em seu canto, enfraquecida e com todos os armários vazios.

A filosofia afastou-se timidamente das suas funções reais – o homem e a vida do homem no mundo – para abrigar-se em uma casa velha chamada epistemologia, a qual vive sob a ameaça das leis da higiene urbana que condenam os pardieiros em ruínas. Esses velhos problemas já perderam para nós a significação: “nós não os solvemos, pulamos por cima”  e eles evaporaram-se ao calor do atrito social e das mudanças da vida. A filosofia, como tudo mais, deve secularizar-se: deve ficar na terra e ganhar o seu pão iluminando a vida.

  
  • O que os homens de espírito sério, não dados a filosofia profissional, devem conhecer é que modificações e abandono de heranças intelectuais se fazem necessárias aos novos movimentos industriais, políticos e científicos...A tarefa da futura filosofia é esclarecer as idéias dos homens quanto aos problemas morais e sociais do momento. Sua mira será tornar-se, no humanamente possível, um órgão para enfrentar esses problemas e solver os seus conflitos...Uma universal e larga teoria do ajustamento dos fatores em conflito será FILOSOFIA.

Uma filosofia assim concebida poderá por fim produzir filósofos dignos de ser Reis.

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