terça-feira, 19 de julho de 2011

George Santayana_Razão na Religião

Sainte-Beuve disse de seus patrícios que continuariam a ser católicos mesmo depois de abandonassem o cristianismo. È como pensam Renan, Anatole e o nosso Santayana. Subsiste neste filosofo um amor ao catolicismo equiparável ao do amante enganado pela amante. “Creio nela embora saiba que me mente”. Santayana chora pela sua fé perdida, esse “esplendido erro que se conforma melhor com os impulsos da alma” do que a própria vida. E descreve-se em Oxford, empolgado por um velho ritual:

Exile that I am
Exile not only from the wind-swept moor,
Where Guadarana lifts purple crest,
But from the spirit’s realm,celestial, sure,
Goal of all hope, and vision of the best.

[Exilado que sou – exilado não só dos baldios surrados pelo vento onde Guadarana ergue a sua crista púrpura, mas do reino do espírito celestial, meta de todas as esperanças e visão do melhor].

Foi em virtude deste amor secreto, desta fé incrédula, que Santayana concluiu a sua obra prima com a Razão na Religião, impregnando suas paginas céticas de uma ternura triste e achando na beleza do catolicismo o motivo para continuar a amá-lo. Sorri, é verdade, da “tradicional ortodoxia ou da crença de que o universo existe por causa do homem ou do espírito humano”; mas desdenha “a cultura comum a moços de espírito e velhos satiristas roídos de vermes que se vangloriam de apontar a incapacidade da religião -  coisa que até os cegos vêem – mas deixam sem analise os hábitos do pensamento dos quais essas crenças emergem, bem como as suas significações originais e as suas verdadeiras funções”. Aqui, afinal de contas, subsiste um notável fenômeno: -  que os homens por toda parte tenham tido religiões; e pois como compreender o homem, se não compreendermos a religião?  “Tais estudos fariam o cético defrontar-se com o mistério e o patético da existência mortal. Fa-lo-iam compreender por que a religião é tão profundamente ativa e em certo sentido profundamente justa”.

Santayana pensa, com Lucrecio, que os deuses foram criados pelo medo.

*A fé no sobrenatural é um desesperado recurso do homem nos momentos de transes; está longe de ser essa fonte de vitalidade normal que subseqüentemente, quando o mal do momento passa, e os bons ventos voltam a favorecê-lo, o homem gradualmente recobra...Se tudo vai bem nós o atribuímos a nós mesmos.
As primeira coisas que o homem aprende a distinguir e a repetir são coisas com vontade própria, coisas que lhe resistem; e assim o primeiro sentimento com que ele defronta a realidade é uma certa animosidade, que se torna crueldade para com o fraco e medo diante do poderoso... É patético observar como são baixos os motivos que a religião, mesmo as mais altas, atribuem à deidade, e de que dura e amarga existência elas tem nascido. Receber a melhor parte, ser louvado, ser obedecido cegamente – tais são os pontos de honra dos deuses, que para mantê-los abrem-se em favores e castigos dos mais tremendos.

Ao medo acrescente a imaginação: o homem, incorrigivelmente animista, interpreta todas as coisas de um modo antropomórfico; personaliza e pragmatiza a natureza, enchendo-a de uma nuvem dos deuses: “o arco-íris é conhecido como traço deixado no céu pela passagem de alguma deusa invisível”. Não que o povo creia literalmente nesses esplendidos mitos; mas a poesia deles ajuda-o a suportar o prosaico da vida. Essa tendência mito-poética acha-se hoje enfraquecida graças a violenta reação da ciência contra a imaginação; mas nos povos primitivos, sobretudo no Oriente próximo, subsiste intacta. O Velho Testamento abunda de poesia e metáfora; os judeus que o compuseram não tomavam essas figuras no sentido literal; mas quando os povos europeus, mais literais e menos imaginativos, receberam tais poemas como ciência, a teologia ocidental começou a nascer. O cristianismo foi a principio uma combinação da teologia grega com a moralidade judaica; combinação instável, na qual um dos elementos teria inevitavelmente de desaparecer; no catolicismo o elemento grego, ou pagão, triunfou; no protestantismo triunfou a severa moral hebraica. Um produziu a Renascença; outro, a Reforma.

Os germânicos – os “bárbaros do norte” como lhe chama Santayana  - jamais aceitaram realmente o catolicismo romano. ‘Uma ética não-cristã que exaltava o valor e a honra, um fundo não-cristão” de lendas e sentimentos sempre subsistiram na gente medieval. As catedrais góticas eram barbaricas, não romanas. O temperamento guerreiro dos teutões ergueu-se acima do pacifismo do oriental e transformou o cristianismo da fraternidade e do amor em uma severa inculcação de virtudes fortes – e a religião da pobreza passou a religião do poder e da prosperidade. “Foi essa jovem religião, barbarica, profunda, poética, que as raças teutonicas transfundiram no cristianismo.

Nada seria tão belo como o cristianismo, pensa Santayana, se não fosse tomado literalmente; mas os germânicos insistiram em tomá-lo literalmente. A dissolução da ortodoxia cristã na Alemanha seria daí por diante inevitável. Porque tomado literalmente nada tão absurdo como alguns dos seus velhos dogmas – a danação dos inocentes, por exemplo, ou a existência do mal em um mundo criado pela benevolência onipotente. O principio da interpretação individual conduzia naturalmente a um rebrotar intenso de seitas no povo, e ao panteísmo nas elites – o panteísmo nada mais sendo que o “naturalismo expresso com poesia”. Lessing e Goethe, Carlyle e Emerson foram marcos dessa mutação. Em resumo, o sistema moral de Jesus havia destruído aquele militarista Jeová, que por um curioso acidente da historia fora transmitido para o cristianismo juntamente com o pacifismo dos profetas e de Cristo.
Por constituição e hereditariedade, Santayana é incapaz de simpatia para com o protestantismo; prefere a cor e o incenso da sua fé da infância. Malsina os protestantes por abandonarem a belas lendas do medievalismo e, acima de tudo, por desprezarem a Virgem Maria, que, como Heine, considera a “mais bela flor da poesia”. Como já um critico de muito aticismo o notou, Santayana não crê na existência de Deus, mas crê que Maria é a mãe de Deus. Seu quarto enfeita-se de quadros da Virgem e de santos [*Margaret Mursterber, no The American Mercury]. Pela mesma razão que prefere a arte à industria, há em nosso filosofo mais amor pela beleza do catolicismo do que pela verdade de qualquer outra fé.

*Existem dois estágios na critica dos mitos...No primeiro ela os trata colericamente como superstições; no segundo os trata amavelmente como poesia...Religião é a experiência humana interpretada pela imaginação...A idéia de que a religião encerra a representação da verdade e da vida, em vez de ser apenas uma simbólica, é absurda. Quem quer que a sustente nunca penetrou com filosofia no assunto...Assuntos de religião nunca devem ser objeto de controvérsia...Procuremos antes honrar a piedade e compreender a poesia corporificada nessas fábulas. 
   
O homem de cultura, então, deixará em paz os mitos que dessa forma confortam e inspiram a vida do povo, e talvez lhe venha a invejar um pouco a felicidade; mas não terá fé em nenhuma vida do além. “O fato de ter nascido é para o homem um mau augúrio quanto à imortalidade”. A única imortalidade que interessa Santayana é a que Spinoza descreve.

“Quem vive no ideal”, diz ele, “e deixa-o expresso em sociedade ou em arte, goza de dupla imortalidade. O eterno absorve-o durante a vida e depois de morto sua influencia arrasta outros a mesma absorção, fazendo-os por meio desta ideal identidade como o melhor que há nele, reencarnações de tudo quanto podia racionalmente esperar que se salvasse da destruição. Esse homem pode dizer sem subterfúgio, ou desejo de iludir a si próprio, que não morrerá inteiramente; tornando-se o espectador e o confessor de sua própria morte e da universal mutação, ter-se-á identificado com o que é espiritual em todos os espíritos; e concebendo-se desse modo pode verdadeiramente sentir-se e saber-se eterno”. [* The Sense of Beauty].

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