domingo, 19 de junho de 2011

Nietzsche_Moralidade Heróica

Para Nietzsche Zarathustra se torna um evangelho do qual seus últimos livros não passam de comentários. Se a Europa não apreciasse sua poesia talvez compreendesse sua prosas. Depois do canto do profeta, a lógica do filosofo. Um filosofo não pode descer da lógica, que quando não for um selo de prova é um instrumento de claridade.

Nieztsche estava mais só porque Zarathustra parecera estranho até para seus próprios amigos. Eruditos como Overbeck e Burkhardt, que tinham sido seus colegas em Basle e admirado o  Nascimento da Tragédia, lamentaram a perda de um brilhante filosofo, mas não puderam celebrar o nascimento de um poeta. Sua irmã [que já havia justificado suas vistas de que para um filosofo uma irmã é uma admirável substituta da esposa] deixou-o subitamente para casar-se com um daqueles anti-semitas que Nietzsche desprezava e partiu para o Paraguai com o fim de formar uma colônia comunista. Para beneficio da saúde do irmão ela insistiu em levá-lo, mas Nietzsche, que dava mais apreço a vida do espírito que a do corpo, ficou no campo de batalha; a Europa lhe era necessária “como um museu de cultura” [*Em Figgis:The Will to Freedom]. Viveu a partir daí de deu em deu; experimentou a Suiça, Genova, Nice e Turim. Gostava de escrever no meio dos pombos que revoavam em redor dos leões de S. Marcos – “esta Piazza San Marco é o meu melhor gabinete”. Mas tinha de seguir o conselho de Hamlet, quanto ao sol, que lhe fazia mal aos olhos e trancou-se em um sótão frio, trabalhando de janelas fechadas. Em vista do mau estado dos olhos não escreveu mais livros e sim aforismos.

Reuniu depois parte destes fragmentos sob os títulos Além do Bem e do Mal [1886] e Genealogia da Moral [1887]; e esperou com estes volumes destruir a velha moralidade e preparar o caminho para a moralidade do super-homem. Por um momento voltou a ser filólogo e procurou fundamentar sua nova ética com etimologias. Notou que a língua alemã continha duas palavras para mau: schlecht e böse. Schelecht era aplicado pelas classes altas para indicar as  baixas e significava ordinário, vulgar, comum. Böse era aplicado pelas classes  baixas para as altas e significava estranho, irregular,incalculável, perigoso, cruel; Napoleão era bose. A mais da gente comum teme o individuo excepcional como a uma força desintegrante; há um provérbio chinês que diz: “um grande homem é um infortúnio publico”. Gut, igualmente, tem duas significações, como oposto de schlecht e böse: usado pela aristocracia significa forte, poderoso, guerreiro, divino [gut de Gott]; e usado pelo povo significa familiar, pacifico, inofensivo, bondoso.

Temos aqui dois valores da conduta humana, dois pontos de  vista e dois critérios: uma Herren-moral e uma Heerden-moral – moral dos senhores e moral do rebanho. A primeira era aceita como padrão pela antiguidade clássica, sobretudo entre os romanos; ainda para o romano da plebe virtude era  virtus – virilidade, coragem, audácia, iniciativa, esforço. Mas da Ásia, especialmente dos judeus dos tempos da sujeição política, veio o outro padrão; sujeição gera humildade, fraqueza gera altruísmo – que é um apelo de socorro. Nesta moralidade de rebanho o amor do perigo e do poder cede o passo ao amor da segurança e paz; a força é substituída pela astúcia; a iniciativa, pela imitação; o orgulho da honra, pelo chicote da consciência; a honra é pagã, romana, feudal, aristocrática; a consciência é judaica, cristã, burguesa, democrática [*Taine: A Revolução Francesa]. Foi a eloquencia dos profetas, de Amos a Jesus, que transformou as vistas de uma classe escravizada em uma moral quase universal; o “mundo” e a “carne” viraram sinônimos de mal, e a pobreza passou a ser prova de virtude.


Esta valorização foi feita por Jesus, para quem todos os homens tinham igual valor e direitos iguais; de sua doutrina emergiram a democracia, o utilitarismo, o socialismo; o progresso passou a ser definido em termos dessas filosofias plebéias, em termos de progressiva igualificação e vulgarização, em termos de  decadência ou vida descendente. O estagio final nesta decadência é a exaltação da piedade e o auto-sacrifício, o sentimental conforto aos criminosos, “a inabilidade para uma sociedade de excretar”. A simpatia é legitima, se ativa; mas a piedade é uma paralisante luxuria mental, um desperdício de sentimento para com o forçosamente residual, o incompetente, o defeituoso, o  vicioso, o irremediavelmente criminoso. Há uma certa indelicadeza na piedade: “visitar doentes” é um orgasmo da superioridade produzido pela contemplação da miséria vizinha.

Atrás desta “moralidade” está uma secreta vontade de poder. O amor é um desejo de posse; galanteio é combate, e ligação é domínio: Don José mata Carmen para evitar que ela se torne propriedade de outro. “As criaturas não se imaginam egoístas no amor pelo fato de procurarem o bem do objeto amado em vez do próprio bem. Mas fazem isso para possuir o objeto amado...L’amour este de tous lês sentiments lê plus égoïste, et, par conséquent, lorsqu’il est blessé, lê moins généreux” [ *Benjamim Constant: O amor é de todos os sentimentos o mais egoísta, em conseqüência, o menos generoso, quando ofendido. Mas Nietzsche fala mais amavelmente do amor. “Donde se ergue a súbita paixão de um homem por uma mulher...Não da sensualidade, unicamente. Quando um homem encontra fraqueza, necessidade de ajuda e altos espíritos, tudo reunidos na mesma criatura, ele sofre uma espécie de inundação da alma, e sente-se tocado e ofendido a um tempo. Começa neste ponto o grande amor. [Humano, muito Humano]. E cita o frances Dans lê veritable amour c’est l’ame qui enveloppe lê corps]. Ainda no amor da verdade surge o desejo da posse – de possuí-la antes dos outros, virgem.

Contra esta paixão do poder, a razão e a moralidade nada valem; não passam de armas em sua mão, joguetes do seu jogo. “Sistemas filosóficos são miragens rebrilhantes”; o que vemos não é a longamente procurada verdade, mas o reflexo dos nossos próprios desejos. “Os filósofos todos posam como se suas opiniões houvessem sido descobertas por meio de uma dialética divinamente indiferente, fria, pura...ao passo que, de fato, uma proposição preconceituosa, uma idéia ou “sugestão” que reflete o seu desejo, é por eles defendida com argumentos como que emanados, não deles, mas da coisa.

São estes desejos subconscientes, estas pulsações da vontade de poder, que determinam os pensamentos. “A maior parte da nossa atividade intelectual vem-nos inconscientemente e sem que o percebamos...o pensamento consciente...é o mais fraco”. Pelo fato de ser operado direta da vontade de poder não perturbada pela consciência, “o instinto é mais inteligente que todas as qualidades de inteligência até aqui descobertas”. Na realidade, o papel da consciência tem sido por demais exaltado; “a consciência pode ser considerada como secundária, quase como indiferente e supérflua, e provavelmente destinada a ser substituída pelo perfeito automatismo”.

Nos homens fortes há muito pouca preocupação de ocultar o desejo com os disfarces da razão; o argumento deles é “Eu quero!” No vigor da alma senhoril o desejo constitui a sua própria justificação; e a consciência, a piedade ou o remorso não encontram ingresso. Mas enquanto prevalecer o ponto de vista democrático, cristão-judaico, os próprios fortes envergonhar-se-ão da sua força e da sua saúde, e procurarão “razões”. As virtudes e os valores aristocráticos estão morrendo. “A Europa se vê ameaçada de um novo Budismo”. O próprio Schopenhauer e o próprio Wagner tornaram-se budistas. “Toda a moralidade da Europa está baseada em valores só de valia para o rebanho”. Aos fortes não é mais permitido o uso da força; tem que se aproximar o mais possível do fraco. “A bondade consiste em nada fazer daquilo para o qual não estamos bastante fortes”. Não provou Kant – “esse grande chinês de Koenigsber” – que o homem não deve ser nunca usado como meio? Conseqüentemente, os instintos do forte – caçar, lutar, conquistar e governar – introverteram-se, passam a auto-laceração por falta de vasadouro; criam o ascetismo e a “má-consciência”, “todos os instintos que não encontram expansão introvertem-se – é o que quero significar com a crescente “internacionalização” do homem: temos aqui a primeira forma do que vem a ser chamado – a alma”.

A formula de decadência é que as virtudes próprias do rebanho infetam os lideres e os rebaixam a massa comum. “Sistemas de moral devem ser compelidos, antes de mais nada, a se curvarem ante as gradações de classe; sua evidencia deve permear a consciência das classes até que elas compreendam a imortalidade de dizer que “o que é bom para uma é próprio para outra”. Diferentes funções requerem diferentes qualidades; e as “más” virtudes dos fortes são tão necessárias a sociedade como as “boas” virtudes dos fracos. Severidade, violência, perigo, guerra, são valores tão valiosos como bondade e paz; os grandes indivíduos só aparecem em tempo de perigos e violências, ou de inexorável necessidade. A  melhor coisa no homem é força de vontade, poder e permanência de paixão; sem paixão vira leite, incapaz de feitos. Ganância, inveja, mesmo ódio são elementos indispensáveis no processo da luta, da seleção, da sobrevivência. O mal está para op bem como as variações para a hereditariedade, como a inovação e a experiência para os costumes; não há desenvolvimento sem uma quase criminosa violação de precedentes e da “ordem”. Se o mal não fosse bem, o mal desapareceria. Devemos ter cuidado em não ser muito bons; “o homem precisa tornar-se melhor e mais mau”.

Nietzsche consola-se de encontrar tanto mal e tanta crueldade no mundo; sente um prazer sadistico refletindo na extensão em que a “crueldade constitui a grande alegria e o deleite do homem antigo”; e crê que o nosso prazer do drama trágico, ou de qualquer coisa sublime, é um refinamento da crueldade. “O homem é o mais cruel dos animais”, diz Zarathustra. Quando assiste a tragédias, a touradas e crucificações, sente-se em arroubo de felicidade suprema. E quando inventou o inferno...ah! o inferno foi o céu na terra; permitiu-lhe suportar o sofrimento do dia contemplando a punição eterna dos seus opressores no outro mundo.

A ética ultima é biológica; devemos julgar as coisas de acordo com o seu valor para a vida; impõe-se uma “transmutação de todos os valores”. A prova real de um homem ou grupo, ou de uma espécie é energia, capacidade, poder. Devemos reconciliar-nos parcialmente com o século dezenove – tão destrutivo de todas as altas virtudes – por causa da exaltação do físico. A alma é uma função do organismo. Uma gota de sangue a mais ou a menos no cérebro faz um homem sofrer como Prometeu no Cáucaso, picado pelo abutre. A variação de alimento faz variar a mente; o arroz criou o budismo; a cerveja criou a metafisica alemã. Uma filosofia, portanto, que expresse a vida ascendente é verdadeira, e é falsa a que se faz expressão da vida descendente. O decadente diz: “A vida nada vale”; devia antes dizer: “Eu nada valho”. Por que valerá a vida a  pena de ser vivida, se todos os seus valores heróicos são votados a decadência, e a democracia, isto é, a falta de fé nos grandes homens, arruína cada vez mais os povos?  

*O gregário europeu de hoje assume ares de ser o único homem permitido; glorifica suas qualidades de espírito publico, bondade, deferência, industria, modéstia, indulgência, simpatia – em virtude das quais é ele amável e útil para o rebanho – como sendo as virtudes peculiarmente humanas. Nos casos, porém, em que o líder ou o amadrinhador não pode ser dispensado, tentativas sobre tentativas são hoje feitas para substituir chefes por grupos de homens gregários; todas as constituições representativas, por exemplo, tem esta origem. A despeito de tudo, que benção, que alivio de um peso que se vai tornando insuportável, é o aparecimento de um chefe absoluto que comande esses europeus gregários! O aparecimento de Napoleão foi a ultima prova disto; a historia da influencia de Napoleão é quase a história da mais alta felicidade que o século inteiro atingiu em seus mais valiosos indivíduos e períodos.

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