sexta-feira, 24 de junho de 2011

Nietzsche_Consideração Final

“Quero o que aspira a criação de algo além de si mesmo e depois perece”, disse Zarathustra.

Indubitavelmente a intensidade do pensamento de Nietzsche consumiu-o prematuramente. A guerra contra o seu tempo desequilibrou-lhe o espírito; “é sempre uma coisa horrível combater o sistema moral de uma época; há reações vingadoras por dentro e por fora”. No fim da vida o trabalho de Nietzsche cresce em amargor; atacava pessoas e idéias – Wagner e Cristo. “Crescer em sabedoria”, escreveu, “pode ser exatamente medido pelo decrescer do amargor”. Mas não conseguia convencer sua pena. Até o riso tornou-se-lhe neurótico á medida que o espírito se quebrava; nada revela melhor o veneno que o corroia do que esta reflexão: “Talvez eu saiba por que é op homem o único animal que ri: tão excruciantemente sofre que foi compelido a inventar o riso”. Doença e cegueira progressiva eram os aspectos fisiológicos da sua queda. Começaram a sobrevir ilusões paranóicas de grandeza e perseguição: na dedicatória de um dos seu livros enviado a Taine declara que é a mais maravilhosa obra ainda escrita; e encheu seu ultimo livro, Ecce Homo, com os mais extremados louvores a si próprio.

Talvez um pouco mais de simpatia dos seus contemporâneos houvesse diminuído o seu egoísmo compensatório, e dado a Nietzsche melhor sanidade e melhores perspectivas. Taine enviou-lhe uma generosa palavra de louvor quando os mais o ignoravam ou o ultrajavam; Brandes cientificou-o de que havia aberto um curso de preleções sobre o “radicalismo aristocrático de Nietzsche” na universidade de Copanhegue; Strindberg escreveu-lhe dizendo que estava pondo as suas idéias em teatro e, talvez melhor que tudo, um admirador anônimo enviou-lhe um cheque de 400 dólares. Mas quando sobrevieram estes raios de luz já estava ele quase cego de corpo e alma, e com todas as esperanças abandonadas. “Meu tempo ainda não chegou; só o dia de depois de amanhã me pertence”.

O ultimo golpe lhe veio em Turim, janeiro de 1889, sob forma de um ataque apopletico. Nietzsche caiu de costas  no seu quarto; escreveu cartas loucas; a Cosima Wagner, quatro palavras – ‘Ariana, eu te amo”. A Brades, uma longa, assinada “O Crucificado”; e para Burchardt e Overbeck, missivas tão fantásticas que este ultimo correu em seu socorro. Encontrou-o batendo no piano com os ombros e gritando o seu êxtase dionisíaco.

Levaram-no para um hospício, de onde sua mãe o tomou consigo. Que quadro! A piedosa dama que havia sofrido pacientemente o choque da apostasia do filho, apostasia de tudo quanto lhe era caro e que nem por isso o amava menos, recebe-o nos braços, qual o Pietá. Vindo sua mãe aa falecer em 1897, Nietzche foi levado pela irmã para Weimar, onde Kramer lhe fez o busto, mostrando aquela poderosa cabeça reduzida a nada. Ele, entretanto, não era de todo infeliz na sua loucura; a paz e calma que jamais tivera nos anos da sanidade visitavam-no agora; a Natureza apiedara-se dele, enlouquecendo-o. Certa vez viu a irmã a  chorar e não lhe pode entender as lagrimas: “Por que chora, Lisbeth? Não se sente feliz, então?” perguntou. Outra vez em que ouviu falar de livros seu rosto iluminou-se: “Ah! Eu também escrevi alguns bons livros” – e o momento lúcido passou.

Morreu em 1900.Raramente um homem pagou maior preço pelo gênio.
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M.L.         

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