terça-feira, 21 de junho de 2011

Nietzsche_Aristocracia

A democracia significa enxurro; significa permissão dada a cada parte do organismo de fazer o que quer; significa lapso de coerência e interdependência, entronização da liberdade e do caos. Significa adoração da mediocridade e ódio à superioridade. Impossibilidade de grandes homens – como poderia um grande homem submeter-se as indignidades e indecências de uma eleição?  Que chances teria ela nela? “O que é odiado pelo povo, como o lobo pelos cães, é o espírito livre, o inimigo dos grilhões, o não-adorador”, o homem que não é “membro de um partido”. Como pode o super-homem erguer-se em tal ambiente? E como pode uma nação tornar-se grande, quando seus maiores homens permanecem açaimados, desencorajados, desconhecidos? Tal sociedade perde o caráter; a imitação é horizontal em vez de vertical – não o homem superior, mas o homem da maioria pode tornar-se o ideal e modelo; todo mundo fica parecido com todo mundo; ainda os sexos se similarizam – os homens se tornam mulheres e as mulheres, homens.

O feminismo aparece então como o corolário natural da democracia e do cristianismo. ‘Aqui há pouco de homem; por isso as mulheres procuram varonizar-se. Porque somente o que há de homem em uma mulher salva a mulher na mulher”. Ibsen, “essa típica velha solteirona”, criou a “mulher emancipada”. “A mulher foi feita de uma costela do homem?  - que espantosa é a pobreza das minhas costelas! Diz o homem”. A mulher perdeu força e prestigio com a sua “emancipação”; onde encontrará agora a posição que tinha no tempo dos Bourbons? A igualdade entre o homem e a mulher é impossível porque a guerra entre eles é eterna; não há lugar para paz sem vitória; a paz só vem quando um domina o outro e é reconhecido senhor. É perigoso experimentar a igualdade com uma mulher; ela não se contentará com isso; quererá a subordinação do homem. Acima de tudo, a perfeição e felicidade da mulher jaz na maternidade. “Tudo na mulher é enigma e tudo na mulher tem uma resposta: criar filhos”. “O homem é para a mulher um  meio; o fim é sempre o filho”. Mas que é a mulher para o homem?...Um brinquedo perigoso”. “O homem será educado para a guerra e a mulher para a recreação do guerreiro; tudo mais é loucura”. Todavia “a mulher perfeita é um mais alto tipo de humanidade que o homem perfeito, e também muito mais raro...Nunca somos demasiado brandos para com a mulher”.

Parte da tensão do casamento jaz em que é a realização da mulher e a restrição ou esvaziamento do homem. Quando um homem corteja uma mulher, promete dar-lhe o mundo inteiro, e quando se casa, assim o faz; há que esquecer o mundo logo que os filhos sobrevêm; o altruísmo do amor torna-se o egoísmo da família. Honestidade e inovação são luxos do celibato. “Sempre que se trata de alto pensamento filosófico o homem casado se faz suspeito...Parece-me absurdo que um homem que visualiza a existência como um todo possa sobrecarregar-se com os cuidados da família, com a luta pelo pão, segurança e posição social da mulher e filhos”.Muito filosofo morreu no momento em que os filhos vieram.”O vento soprou através do buraco da fechadura dizendo: Vem!  Minha porta abriu-se por si mesma dizendo: Vai! Mas eu fiquei, algemado pelo amor aos meus filhos”.

Com o feminismo vem socialismo e anarquismo; formas residuais da democracia; se a igualdade política é justa, por que  não a igualdade econômica? Por que motivo haver chefes?  Por que motivo haver chefes? Socialistas haverá que admirem o livro de Zarathustra, mas essa admiração não é desejada. ‘Há alguns que pregam a minha doutrina da vida e ao mesmo tempo são pregadores da igualdade. Eu não quero ser confundido com esses pregadores de igualdade. Porque dentro de mim a justiça diz “Os homens não são iguais”. “Nós nada desejamos possuir em comum”. A natureza nega a igualdade; quer diferenciação de indivíduos e classes e espécies. O socialismo é anti-biologico; o processo da evolução envolve a utilização das espécies e raças e indivíduos inferiores pelos superiores; a vida subsiste de outra vida; os grandes peixes comem os pequenos e nisso se resume a historia. Socialismo é inveja: “eles querem qualquer coisa que nós temos” [*Quando escreveu estas aristocráticas passagens Nietzsche estava vivendo em uma água-furtada, com mil dólares por ano, a maior parte dos quais era gasta na publicação dos seus livros]. É todavia um movimento fácil de dirigir; tudo quanto é necessário fazer consiste em abrir ocasionalmente a velha porta que separa os senhores dos escravos e deixar que os lideres do descontentamento penetrem no paraíso. Nada a temer dos lideres, mas sim dos mais abaixo, dos que julgam que pela revolução podem fugir a uma subordinação que é o natural resultado da sua incompetência ou preguiça. Entretanto, o escravo é nobre quando se revolta.

Em qualquer caso o escravo é mais nobre que os seus modernos senhores – a burguesia. Vale por sinal de inferioridade da cultura do século dezenove que o homem de dinheiro possa ser objeto de tanta adoração e inveja. Mas esses homens de negócios são também escravos, bonecos da rotina, vitimas da pressa; não tem tempo para novas idéias; pensar lhes é tabu, e as alegrias do intelecto estão fora do seu alcance. Daí sua inquietação e  perpetua procura da “felicidade”, suas grandes casas que nunca se tornam lares, seu luxo vulgar e sem gosto, suas galerias de  “originais” com o preço em baixo das telas, seus divertimentos sensuais, que embotam em vez de refrescar ou estimular o espírito. “Olhem-me para estes supérfluos! Adquirem riquezas e tornam-se mais pobres”; aceitam todas as restrições da aristocracia sem o compensador acesso ao reino do espírito. De nada vale tais homens possuírem riqueza, porque não lhes pode dar dignidade por meio de um uso nobilitante, patrocinando letras e artes. “Somente o homem de intelecto devia ter propriedades”; todos os outros pensam na propriedade como um fim em si e perseguem-na cada vez mais inquietos – olhai para a “atual das nações que querem acima de tudo produzir o mais possível e ser ricas o mais possível”. Por fim os homens se tornam aves de presa; “vivem em emboscadas: tomam coisas dos outros esperando-os na tocaia. Isto é por eles chamado boa vizinhança...Procuram tirar os mínimos proveitos de toda sorte de lixo”. Hoje a moralidade mercantil nada mais é realmente senão refinamento da moralidade dos piratas -  comprar pelo mínimo e vender pelo Maximo”. E esses homens clamam por laissez-faire – por serem deixados sós, eles, os homens que mais necessitam supervisão e controle. Talvez algum grau de socialismo, perigoso como isto é, possa ser justificado aqui: “tomaremos todos os ramos de transporte e comercio que favorecem o acumulo de grandes fortunas – e especialmente o mercado de dinheiro -  das mãos de particulares ou de associações de particulares, e olharemos para os que possuem muito, bem como para os que nada possuem, como tipos perigosos para a comunidade”.

Acima do burguês e abaixo do aristocrata permanece o soldado. Um general que se utiliza de soldados no campo de batalha, onde eles podem gozar da alegria de morrer anestesiados pela glória, é muito mais nobre do que o patrão que utiliza homens nas suas maquinas de ganhar dinheiro; observe-se com que alivio o operário troca a fabrica pelos campos de chacina. Napoleão não era um carniceiro e sim um benfeitor; dava aos homens morte com honras militares, em vez de morte pelo atrito econômico; o povo afluía para os seus estandartes mortais,, porque preferia os riscos da batalha a intolerável monotonia de mais outro milhão de abotoaduras. “A Napoleão será reconhecida a glória de ter feito por certo tempo um mundo no qual o homem, guerreiro, valia mais que o negociante e o filistino”. A guerra é um admirável remédio para os povos que começam a enfraquecer-se e a acomodar-se desprezivelmente; excita os instintos que  a paz adormenta. Guerra e serviço militar são os antídotos naturais da efeminização democrática. ‘Quando os instintos de uma sociedade fogem da guerra e da conquista, a sociedade está decadente e madura para a democracia e para o governo dos negociantes”. Todavia as causas da guerra moderna serão tudo, menos nobres; as guerras religiosas e dinasticas eram mais belas que as comerciais. “Dentro de cinqüenta anos era babel de governos [as democracias da Europa] irão chocar-se em uma guerra gigantesca para a conquista dos mercados do mundo” [*Esta predição foi escrita em 1887]. Mas talvez desta loucura sobrevenha a unificação da Europa – um fim para o qual ainda uma guerra de comercio não seria preço muito alto. Porque unicamente de uma Europa unificada pode emergir a alta aristocracia que redimirá a Europa.

O problema da política é evitar que o homem de negócios governe. Porque esse homem tem a vista curta e a ganância de um  político, mas não a amplitude de horizontes do aristocrata nato, treinado no estadismo. Os homens mais altos governam por um direito divino – isto é, pelo direito da sua natura superioridade. O homem simples tem seu lugar, mas não é no trono. No seu lugar o homem simples é feliz e suas virtudes são tão necessárias a sociedade como as do líder; “seria indigno de um espírito profundo considerar a mediocridade em si como uma abjeção”.  A industriosidade, a economia, a regularidade, a moderação, a convicção forte – com estas virtudes o homem mediano se torna perfeito – mas perfeito apenas como instrumento. “Uma alta civilização é uma pirâmide; só pode levantar-se sobre uma base larga; exige uma forte e solidamente consolidada mediocridade”. Sempre e em toda parte uns serão lideres e outros, seguidores; a maioria será compelida a trabalhar sob a direção intelectual dos homens superiores e com isso se sentirá feliz.

*Onde quer que encontremos coisas vivas, aí ouvimos falar de obediência. Todas as coisas vivas são coisas que obedecem. E também ouvimos isto: é comandado aquele que não pode obedecer a si próprio. Esta é a lei das coisas vivas. E ainda ouvimos isto: comandar é mais difícil do que obedecer. O comandante suporta a carga de todos que obedecem, a essa carga facilmente o esmaga – um esforço e um risco estão implicados em todo comendo e sempre que coisas vivas comandam elas se estão arriscando. 

A sociedade ideal, portanto, será dividida em três classes: produtores[agricultores, proletários e homens de negócios], oficiais [soldados e funcionários] e dirigentes. Estes últimos governarão mas não em cargos; o trabalho real de governo é subalterno. Os dirigentes serão antes filósofos-estadistas do que funcionários. Seu poder se apoiará no controle do credito e das armas; e eles viverão mais como soldados do que como financeiros. Serão os guardiões concebidos por Platão; Platão estava certo; os filósofos são os  homens superiores. Serão homens refinados e  também de coragem e força; eruditos e generais a um tempo. Unidos por cortesia e espírito de corpo: “Esses homens se conservarão rigorosamente dentro dos limites por moralidade, veneração, costume, gratidão e sobretudo por fiscalização recíproca, por ciúmes inter pares; e por outro lado, em sua atitude de uns para com outros, serão inventivos em consideração, domínio de si, delicadeza, orgulho e amizade”.

Será esta aristocracia uma casta, e o seu poder hereditário? Em grande parte, sim, com ocasionais rupturas para entrada de  sangue novo. Mas não será contaminada e enfraquecida por misturas matrimoniais com ricos vulgares, segundo o habito da aristocracia inglesa; foi esse gênero de corrupção que arruinou o maior corpo governante que o mundo ainda viu -  o senado romano. Não há “acidente de nascimento”; cada nascimento é o veredicto da natureza sobre um casamento; e o homem perfeito só vem depois de gerações de seleção e preparação; “os ancestrais de um homem pagaram o preço do que ele é”.

Ofende isto aos nossos tímpanos democráticos? Mas “as raças que não podem suportar esta filosofia estão condenadas; e as que a olham como a maior das bênçãos estão destinadas a senhorear o mundo”. Unicamente uma tal aristocracia pode ter a visão e a coragem para fazer da Europa uma nação, acabando com o bovino nacionalismo, o miudo Vaterlanderrei. Sejamos “bons europeus”, como Napoleão, Goethe, Beethoven, Schopenhauer, Stendhall e Heine. Por muito tempo havemos sido pedaços do que se pode reunir em todo. Como há de uma grande cultura desenvolver-se neste ambiente de preconceitos patrióticos e estreito provincianismo? O tempo da política miúda passou; há compulsão hoje para a política larga. Quando aparecerão a nova raça e os novos chefes? Quando nascerá a Europa?   

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