quarta-feira, 11 de maio de 2011

Herbert Spencer_Comte e Darwin

A Filosofia kantiana que se dava como base de toda a metafísica futura, era maliciosamente um impulso ao modo tradicional de especulação; ao invés, entretanto, resultou em um golpe terrível em todas as metafísicas em geral. Porque a metafísica havia significado, através da história do pensamento, uma tentativa para descobrir a natureza intima da realidade, e os homens ficaram sabendo pela palavra do mais respeitável mestre que a realidade não poderia nunca ser apreendida pela experiência; que era um ‘noumenon’, concebível, mas não cognoscível; e que ainda a inteligência humana mais sutil nunca passaria além dos fenômenos e, pois, jamais levantaria o véu de Maia. As extravagâncias metafísicas de Fichte, Hegel e Schelling com suas varias interpretações do velho enigma, seus Egos e Idéias e Vontade haviam-se reduzido umas as outras a zero; e quando o século entrou a amadurecer já estava geralmente aceito que o véu não seria levantado. Após uma geração intoxicada do Absoluto,o pensamento europeu reagiu e se pôs contra a metafísica, de qualquer espécie que fosse.

Os franceses se haviam especializado no ceticismo; natural, pois, que da França brotasse o fundador do movimento ‘positivista’. Augusto Comte – ou Isidoro Augusto Marie François Xavier Comte – nasceu em Montplellier em 1798. Teve como ídolo na mocidade a Benjamim Franklin, ao qual chamava o moderno Sócrates. “Aos vinte e cinco anos Franklin deliberava tornar-se um puro sábio [wise] e realizou a tarefa. Embora eu ainda não tenha vinte anos, vou realizar a mesma coisa”, disse Comte, e começou bem, fazendo-se secretário do grande utopista Saint-Simon. Saint-Simon lhe transmitiu o entusiasmo reformador de Turgot e Condorcet e a idéia de que os fenômenos sociais, assim como os físicos, podem ser reduzidos a leis, e ainda que a ciência e toda a filosofia deve ter por alvo o melhoramento moral e político da espécie humana. Da mesma forma, porém, que muitos reformadores do mundo. Comte encontrou dificuldade em dirigir sua casa; em 1827, depois de dois anos de infelicidade no casamento, foi vitima de uma depressão mental e tentou afogar-se no Sena. Ao seu salvador, portanto, deve o mundo os cinco volumes da Filosofia Positiva, aparecidos de 1830 a 1842, e os quatro da Política Positiva vindos a luz entre 51 3 54;

Foi uma empresa que no escopo e na paciência, só teve similar na “Filosofia Sintética” de Spencer. Comte classificou as ciências de acordo com a decrescente simplicidade e generalidade do respectivo objeto: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia, cada qual repousando nos resultados das antecedentes; a sociologia, por isso, forma o ápice da pirâmide, de modo que todas as ciências existem para fornecer material para as conclusões da sociologia ou ciência da sociedade. Em seu sentido de conhecimento exato, a ciência subia de uma matéria a outra na ordem estabelecida, sendo natural que os complexos fenômenos da vida social fossem os últimos a se submeterem a disciplina cientifica. Em cada campo do pensamento o historiador das idéias pode observar a lei dos Três Estados: a principio a matéria é concebida teologicamente, com todos os problemas explicados pelo querer de alguma divindade -  como quando as estrelas eram deuses ou carros dos deuses; depois vem o estado metafísico, em que tudo é explicado por meio de abstração metafísica – como quando as estrelas são imaginadas moverem-se em círculos porque o circulo é a mais perfeita figura geométrica; finalmente surge o estagio positivo, em que a ciência se baseia em observação, hipótese e experimentação, sendo os fenômenos explicados de acordo com a regularidade de suas causas e efeitos naturais. A “Vontade de Deus” cede lugar a entidades como a “idéia” de Platão ou a “Idéia Absoluta” de Hegel, e estas por seu turno cedem o lugar as leis da ciência. A Metafísica é um estagio de desenvolvimento já paralisado: o tempo chegou, diz Comte, de abandonar essas puerilidades. Filosofia não é algo diferente de ciência, e sim a coordenação de todas as ciências, com vista no melhoramento da vida humana.

Há um certo dogmatismo intelectual neste sistema que talvez decorresse das desilusões e do isolamento do filosofo. Quando em 1845 Mme. Clotilde de Vaux [cujo marido estava encarcerado] empolgou o coração de Augusto Comte, a nova afeição passou a colorir e aquecer-lhe os pensamentos, determinado a reação que o levou a colocar o sentimento acima da inteligência como força reformadora, e a concluir que o mundo só poderia ser redimido por uma nova religião que fortificasse o fraco altruísmo da natureza humana por meio da exaltação da Humanidade como objeto de adoração. Gastou Comte seus últimos anos a arquitetar esta Religião da Humanidade, estabelecendo o sacerdócio, os sacramentos, as orações e a disciplina; e propôs um novo calendário, no qual o nome das deidades pagãs e dos santos medievais fossem substituídos pelos heróis do progresso humano. Comte oferecia ao mundo o mesmo rito católico, mas descristianizado.

O movimento positivista harmonizou-se com a corrente mental inglesa, que defluia da vida da industria e do comércio e olhava com reverencia para os fatos. A tradição baconiana voltava o pensamento inglês na direção das coisas, o espírito na direção da matéria; o materialismo de Hobbes, o sensacionalismo de Locke, o ceticismo de Hume, o utilitarismo de Bentham eram variações sobre o tema da vida ativa e pratica. Só Berkeley, um irlandês, discordava nesta harmonia domestica. Hegel sorria do habito inglês de honrar o equipamento físico e químico com nome de “instrumentos filosóficos”; mas essa expressão ocorre naturalmente aos que concordam com Spencer e Comte no definir a filosofia como a generalização dos resultados de  todas as ciências. Assim foi que o movimento positivista encontrou mais aderentes na Inglaterra do que no seu país de origem; aderentes não tão fervorosos como Littré, mas dotados daquela tenacidade inglesa que conservou John Stuart Mill e Frederick Harrison fieis por toda a vida a filosofia de Comte, embora, advertidos pela prudência britânica, arredados da parte religiosa do sistema.

Entrementes a Revolução Industrial, nascida de um pouco de ciência, entrava a estimular todas as ciências. Newton e Herschel haviam devassado a lei das estrelas; Boyle e Davy, aberto os tesouros da química; Rumford e Joule, demonstrado a transformabilidade e equivalência da força e a conservação da energia. As ciências haviam chegado a tal estagio de complexidade que foi com alivio que o mundo tonto recebeu a proposta de uma síntese. Mas acima de todas as influencias intelectuais que na juventude de Herbert Spencer agitaram a Inglaterra estava o crescimento da biologia e a doutrina da evolução. A ciência fora exemplarmente internacional no desenvolvimento desta doutrina. Kant falara da possibilidade dos macacos virarem homens; Goethe escrevera da “metamorfose das plantas”; Erasmus, Darwin e Lamarck propuseram a teoria da evolução das espécies, das formas simples as complexas, por meio da hereditariedade dos efeitos do uso e do não uso; e em 1830 St. Hilaire escandalizara a Europa e deleitara Goethe com o seu quase triunfo sobre Cuvier no famoso debate sobre a evolução, o qual lembrava um outro caso do Ernani – como revolta contra a idéia clássica da imutabilidade das coisas.

A evolução estava no ar. Spencer  exprimiu a idéia antes de Darwin em um ensaio sobre – “The Development Hypothesis” [1858], e nos seus Princípios de Psicologia [1855]. Em 1858 Darwin e Wallace leram as suas famosas comunicações na Linnaean Society; em 1859 o velho mundo veio abaixo, como os bispos o supuseram, com a publicação da Origem das Espécies. Não era mais uma vaga noção da evolução, as mais altas espécies evolvendo das mais baixas, e sim uma minuciosa e ricamente documentada teoria do processo da evolução “por meio da seleção natural, ou preservação das espécies mais favorecidas na luta pela existência”. Numa década o mundo inteiro estava a falar em evolução. O que elevou Spencer as cumeadas desta onda de pensamento foi a clarividência de espírito que lhe sugeriu a explicação da idéia a todos os campos de estudo e um preparo cientifico que lhe permitiu trazer quase todos os conhecimentos humanos para suporte da teoria. Como a matemática havia dominado a filosofia no século dezessete, dando ao mundo Descartes, Hobbes, Spinoza, Leinitz e Pascal; e como a psicologia impregnara a filosofia de Berkeley, Hume, Condillac e Kant, e mais tarde a de Schelling e Schopenhauer e Spencer e Nietzsche e Bérgson, a biologia se tornou o fundamento do pensamento filosófico. As idéias de uma época são produtos parciais de homens separados, mais ou menos obscuros; mas ficam ligados ao nome do que melhor as coordena e esclarece; assim o Novo Mundo tomou o nome de Américo Vespucio por ter ele desenhado o seu mapa. Herbert Spencer foi o Vespucio da época de Darwin – e também alguma coisa do seu Colombo.  

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