segunda-feira, 18 de abril de 2011

Voltaire_Potsdam e Frederico

Os que não podiam ir vê-lo, escreviam-lhe. Em 1736 começou sua correspondência com Frederico, então príncipe e ainda não o Grande. A primeira carta de Frederico semelhava-se a de um menino a um rei; sua prodigalidade em lisonjas dá-nos mostra da fama que já tinha Voltaire – embora não houvesse ainda escrito  nenhuma de suas obras primas. Proclamavam-no “o maior homem da França e um mortal que faz honra a linhagem humana...Considero uma das maiores honras em minha vida ser contemporâneo de um homem de tão eminentes predicados como os seus... Não é dado a todos fazer o espírito rir”; e “que prazeres podem sobrepujar os do espírito?” [*Em Sainte-Beuve, I, 212-215].

Frederico era um livre-pensador que encarava os dogmas como um rei encara seus súditos; e Voltaire tinha grandes esperanças de que, subindo ao trono, esse monarca poria em voga o racionalismo, representando ele, tralvez, o papel de Platão do Dioniso prussiano. Quando Frederico protestou contra as lisonjas com que Voltaire respondia as dele, Voltaire respondeu: “Tão singular é um príncipe escrever contra lisonja como um papa contra a infalibilidade”.

Frederico mandou-lhe um exemplar do Anti-Machiavel, no qual o príncipe discorria com eloqüência sobre a iniqüidade na guerra e o régio dever de manter a paz; Voltaire verteu lagrimas de jubilo ao ler o real pacifista. Poucos meses depois, já coroado rei, Frederico invadiu a Silesia e alagou a Europa em sangue.

Em 1745, quando Voltaire se candidatou a Academia Francesa, o poeta e sua matemática regressaram a Paris. Para conseguir aquela honra perfeitamente supérflua ele declarou-se bom católico, homenageou alguns poderosos jesuítas, mentiu inexaurivelmente – procedeu, em suma, como a maioria dentre nós em casos tais. Foi mal sucedido; mas um ano depois teve bom êxito e proferiu um discurso de recepção que é uma das paginas clássicas da literatura francesa.

Durante algum tempo demorou-se em Paris, adejando de salão em salão e escrevendo peças após peças. Desde o  Édipo dos 18 anos, até Irene, dos 83, produziu longa série de dramas, dos quais alguns tiveram mau êxito e a maioria foi bem acolhida. Em 1730 Bruto foi um malogro e em 1732 Erifilo também; seus amigos instaram para que ele abandonasse o drama; entretanto, no mesmo ano fez representar Zaira, que se tornou o seu Maximo triunfo. Seguiram-se Mahomet em 1741, Merope, em 1743, Semiramis em 1748 e Tancredo em 1760.

Entrementes, tragédias e comedias invadiam-lhe a vida. Após quinze anos já seu amor por Mme du Chatelet arrefecera um tanto; haviam mesmo cessado de questionar. Em 1748 a Marquesa apaixonou-se por Saint-Lambert. Voltaire enfureceu-se; mas quando saint-Lambert lhe pediu perdão, desfez-se em benção. Chegara ao apogeu da vida e começava a divisar a morte ao longe; não podia levar a mal que a juventude tivesse a sua vez. “As mulheres são assim”, disse filosoficamente [olvidando que também assim são os homens]: “Desalojei Richelieu, e Saint-Lambert faz-me saltar fora! É a ordem das coisas; uma unha empurra outra e – assim gira o mundo”. [*Em sainte-Beuve, I, 211]. A terceira unha dedicou ele uma bela estância:

*È pra ti, Saint-Lambert,
Que desabrocha a flor.
Para mim, os espinhos;
Para ti, a rosa.

Depois, em 1749, sobreveio a morte de Mme., du Chatelet – de parto. Nota bem característica desse tempo é a circunstancia de se encontrarem o marido, Voltaire e Saint-Lambert junto a seu leito de morte, sem uma palavra de recriminação, tornados amigos por aquela perda comum.

Voltaire procurou esquecê-la no trabalho; durante algum tempo ocupou-se a escrever O Século de Luiz XIV; mas o que o reanimou foi o oportuno e renovado convite de Frederico para ir à sua corte em Potsdam. Um irresistível convite acompanhado de 3.000 francos para as despesas de viagem. Voltaire partiu para Berlim em 1750.

Lisonjeou-se muito o que lhe haverem destinado esplendidos aposentos no palácio de Frederico e ser tratado como igual pelo mais poderoso monarca do tempo. A principio suas cartas eram cheias de satisfação. Escreveu em 24 de julho a d’Argental, descreveu Potsdam: “150.000 soldados...ópera, comedia, filosofia, poesia, grandiosidade e encantos, granadeiros e musas, cornetas e violinos, as ceias de Platão, vida social e liberdade, quem acreditaria em tal? No entanto, é a verdade pura”.Alguns anos antes escrevera: “Mon Dieu!...que delicioso seria viver-se em companhia de três ou quatro homens de letras, de talento e sem rivalidades” [que imaginação], “querermo-nos uns aos outros, vivermos serenamente cultivando a arte, trocando idéias sobre as mesmas, ilustrando-nos mutuamente! – comigo imagino que hei de algum dia viver nesse pequeno Paraíso” [*Em Sainte-Beuve, I, 193]. E lá se achava ele!

Voltaire fugia dos jantares oficiais; não tolerava ver-se rodeado de generais superciliosos; reservava-se para as ceias intimas, muito tarde, para as quais Frederico convidava pequeno numero de amigos mais chegados, cultores das letras – pois o maior soberano de seu tempo aspirava com veemência a ser poeta e filosofo. Nessas ceias, a conversação era sempre em francês; Voltaire tentou aprender o alemão, mas renunciou, depois de quase sufocar-se com a pronuncia; seu desejo era que os alemães tivessem mais espírito e menos consoantes [*Brandes, Correntes Principais, I,3]. Alguém que ouviu essas conversações afirmou serem melhores e mais interessantes que o livro mais bem escrito do mundo. Discorriam sobre tudo e diziam o que pensavam. O espírito de Frederico era quase tão acerado como o de Voltaire; e só Voltaire se atrevia a responder-lhe com a finura capaz de matar sem ofender. Frederico “arranha com uma das mãos, mas acaricia com a outra...Nada me aborrece... Encontrei um porto após cinqüenta anos de tormentas. Encontrei a proteção de um rei, a conversação de um filosofo e os encantos de um homem atraente reunidos em uma pessoa que por espaço de dezesseis anos me consolou no infortúnio e me escudou contra os inimigos. Se alguém pode confiar em alguma coisa, é no caráter do rei da Prússia” [*Tallentyre, 226, 230]. Todavia...

Em novembro do mesmo ano Voltaire achou que poderia melhorar suas finanças empregando dinheiro em títulos da Saxônia, a despeito de Frederico proibir tais transações. As apólices subiram e Voltaire teve lucro; mas Hirsch, seu agente, tentou uma chantagem, ameaçando divulgar a especulação. Voltaire “filou-o pela garganta e estatelou no chão”. Sabedor de tudo, Frederico entrou-se de cólera. “Precisarei dele no Maximo um ano mais”, disse a La Mettrie: “espreme-se a laranja e joga-se fora o bagaço”. La Mettrie, ansioso talvez de dispersas seus rivais, teve o cuidado de transmitir aquelas palavras a Voltaire. Recomeçaram as ceias, “mas”, escreveu Voltaire, “o bagaço da laranja é o meu pesadelo...O homem caiu do alto de uma torre e que, enquanto caía, achou o ar macio e disse “Se isto durar está muito bom” -  nem de longe se via em estado igual ao meu”.

Quase desejou uma ruptura, pois acometerá-o a nostalgia que só um francês pode sentir. O rompimento sobreveio em 1752. Maupertuis, o grande matemático que Frederico importara da França juntamente com tantos outros, numa tentativa de elevar o espírito germânico pondo-o em contato direto com a França racionalista, discutiu com Koening, um matemático inferior, certa interpretação de Newton. Frederico tomou o partido de Maupertuis; e Voltaire mais afoito que precavido, o de Koening. A Mme. Deni escreveu: “Infelizmente, sou também um escritor e estou no campo contrário ao do rei. Não tenho cetro, mas tenho a pena”. Quase ao mesmo tempo Frederico escrevia a sua irmã: “Meus homens de letra estão com o diabo no corpo; nada se pode fazer com eles. Só tem inteligência para o trato social...Para os animais deve ser um consolo ver que muitas pessoas dotadas de espírito não são melhores que eles” [*Em Sainte-Beuve, I, 218]. 

Foi então que Voltaire escreveu contra Maupertuis sua celebre “Diatribe do dr. Akakia”. E leu-a para Fredeciroc, o qual riu a noite toda, embora pedindo a Voltaire que não a publicasse. Voltaire fez que anuía; mas o trabalha já estava no prelo e o autor não podia resolver-se a matar o filho de sua própria pena. Quando a publicação apareceu, Frederico ficou flamante de cólera e Voltaire fugiu da deflagração.

Em Frankfurt, apesar de estar fora do território sujeito a jurisdição de Frederico, foi alcançado e preso pelos agentes do rei, que lhe disseram não poder prosseguir na viagem enquanto não restituísse o Palladio, poema de Frederico, impróprio para ser lido na sociedade polida, chegando a ponto de ultrapassar, no gênero a própria Puccelle de Voltaire. Mas o calamitoso manuscrito achava-se em mala que se extraviara; e durante semanas, até ela aparecer, Voltaire foi conservado quase preso. Um livreiro a quem ele devia alguma coisa, achou propicio o momento para exigir a liquidação de sua conta; furioso, Voltaire deu-lhe um murro no ouvido; Collini, o secretario de Voltaire, procurou consolar o homem, salientando: “Senhor, quem vos deu o murro no ouvido é um dos maiores homens do mundo!” [*Morley, 146].

Solto, afinal, já ia atravessar a fronteira quando lhe comunicaram que fora exilado da França. Nessa difícil conjuntura mal soube sua velha alma atribulada que rumo tomar. Por espaço de algum tempo pensou em ir para a Pennsylvania – imagine-se com isto seu desespero! Passou o mês de março de 1754 procurando “um tumulo aprazível” nas cercanias de Genebra, a salvo dos autocratas de Paris e de Berlim; comprou uma velha propriedade denominada Lês Délices; pôs-se a cultivar seu jardim e recobrar a saúde; e quando já parecia descambar para a senilidade, entrou em período de suas mais nobres criações.

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