sábado, 26 de março de 2011

Spinoza_Tratado Sobre a Religião e o Estado

Estudemos seus quatro livros na ordem em que os escreveu.
O Tractatus Theologico-Politicus é talvez o menos interessante para nós porque o movimento de alta critica que, com risco da vida, Spinoza iniciou, se desenvolveu ao ponto que suas mais arrojadas proposições não passam hoje de lugares comuns. Não é negocio para um autor provar proposições de maneira exaustiva; suas conclusões tornam-se moeda corrente para todos os espíritos educados e suas obras deixam de apresentar-se com aquele mistério que nos atrai. Foi o que se deu com Voltaire e com o tratado de Spinoza sobre a religião e o estado.

O principio fundamental do livro é que a linguagem da Bíblia é deliberadamente metafórica, ou alegórica; não somente porque compartilha da tendência dos orientais para o colorido ornamento literário e o exagerado descritivo, como porque os profetas e apóstolos, com o fim de impressionar as imaginações, eram forçados a cortejar o gosto popular. “As Escrituras foram primariamente elaboradas para um certo povo e secundariamente para toda a espécie humana; em conseqüência tinham de ser adaptadas no Maximo possível a compreensão das massas” [*Tractatus]. “As Escrituras não explicam as coisas pelas suas causas secundárias; apenas as descrevem na ordem e no estilo mais próprios para impelir os homens, sobretudo os ineducados, a devoção...Seu objeto não é convencer a razão, mas empolgar a imaginativa [*Cap.6]. Daí a abundancia de milagres e as constantes aparições de Deus. “As massas querem que o poder e a providencia de Deus sejam mais demonstráveis com o desdobramento de fatos extraordinários, que contrariam a concepção corrente dos fenômenos naturais...Supõem, na realidade, que Deus se conserva inativo enquanto a natureza age da maneira normal; e vice-versa, que o poder da natureza e as causas naturais ficam de lado quando Deus entra a agir; imaginam pois os dois poderes distintos entre si” [*Tractatus]. [Aqui entra a idéia básica da filosofia de Spinoza – que Deus e a natureza são um]. Os homens são propensos a crer que em beneficio deles Deus rompe a ordem natural das coisas; assim os judeus deram uma interpretação miraculosa da dilatação do dia com o fim de impressionar aos outros [ou talvez a si próprios] e provar que eram eles os favoritos de Deus; incidentes como este abundam na historia primitiva de todos os povos. Exatidão literal e sóbria não impressiona; se Moisés houvesse dito que fora o vento do leste [como deduzimos de uma passagem posterior] que abriu o caminho do Mar Vermelho, não teria impressionada a imaginação das massas as quais se dirigia. Os apóstolos recorreram aos milagres pela mesma razão que recorriam as parábolas – necessidade de adaptação ao espírito das massas. A maior influencia de tais homens, comparada com a dos filósofos e cientistas, reside no vivido e metafórico das formas de expor os fatos, que os fundadores da religião se vêem compelidos a adotar.

Interpretada de acordo com esses princípios, diz Spinoza, a Bíblia nada contem que contrarie a razão [*Introdução]. Mas interpretada literalmente mostra-se inçada de erros, contradições, obvias impossibilidades -  como as do Pentateuco escrito por Moisés. Já a interpretação filosófica revela através das névoas da alegoria e da poesia o pensamento profundo de grandes pensadores e chefes, e torna compreensível a persistência da Bíblia e sua enorme influencia sobre os homens. As duas interpretações cabem: o povo sempre exigirá uma religião imaginosa, aureolada de sobrenatural; se uma destas formas de fé for destruída, ele criará outra. Mas o filosofo sabe que Deus e Natureza são a mesma coisa, agindo necessariamente e de acordo com leis invariáveis. É a essa majestática Lei que Spinoza obedece e reverencia.[*Cap.5]. Ele sabe que nas Escrituras “Deus é descrito como um legislador ou príncipe, dotado de piedades, senso de justiça, etc., meramente por concessão a ignorância e ao fraco entendimento do povo; que na realidade Deus age...pela necessidade de sua natureza, e seus decretos...são verdades eternas [*Cap.4].

Spinoza não faz separação entre o Velho e Novo Testamento, vendo que a religião dos judeus e a dos cristãos se tornam única, sempre que, postas de lado as desinteligências filhas de ódio, a interpretação filosófica mostra a mesma essência e origem em fatos rivais. “Sempre me admirei que pessoas atreitas a exaltarem-se como fieis praticantes da religião cristã – quer dizer, praticantes do amor, da alegria, da paz, da temperança e da caridade pra com todos os homens – disputassem com tão rancorosa animosidade, e diariamente denunciassem tanto ódio, em vez das virtudes que professam” .[*Cap.6]. Os judeus sobreviveram sobretudo por motivo do ódio que os cristãos lhes votavam; a perseguição lhes deus a unidade e a solidariedade necessárias a uma continua existência racial; sem as perseguições ter-se-iam misturado com os outros povos da Europa, perdendo-se na massa que os envolvia.  Mas não há razão para que o judeu e o cristão filósofos, depois de afastada toda a insensatez, não cheguem a acordo em matéria de credo, de modo a viverem em paz e em cooperação.

O primeiro passo para isto, pensa Spinoza, seria uma compreensão idêntica de Jesus. Arredados os dogmas eivados de improbabilidade os judeus reconheceriam Jesus como o maior e o mais nobre dos profetas. Spinoza não aceita a divindade de Jesus, porém o coloca como o primeiro dos homens. “A eterna sabedoria de Deus... mostra-se em todas as coisas e em Jesus Cristo mais que em tudo” [*Epistola, 21].Cristo foi mandado não só para ensinar aos judeus mas a toda a espécie humana”: por isso “acomodou-se a compreensão do povo...e com tanta freqüência falava por parábolas” [*Cap.4]. Spinoza considera que a ética de Jesus é quase sinônima de sabedoria; reverenciando-o, o homem alça-se ao amor intelectual de Deus”. Tão nobre figura, libertada dos impedimentos dos dogmas que só conduzem a disputas e divergências, arrastará para si todos os homens; e talvez em seu nome um mundo torturado de guerras suicidas e ódios encontre afinal a unidade da fé e a possibilidade do irmamento.

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